EntreContos

Detox Literário.

Escuridão (Alexandre Santangelo)

Começou como um ponto branco no céu do tamanho de Vênus.  Aos poucos a forma se definiu e era como se uma grande onda invadisse as alturas, à espera da queda em que sucumbiria o nosso mundo.

Houve caos e violência. Governos caíram e pessoas se atiravam das janelas como em um prelúdio de nossos destinos. No entanto, a onda teimava em chegar, e com isso uma calma resignante inspirou a todos. Ou quase todos. Percebendo que os saques e o terror eram sem sentido, surgiu um consenso silencioso de que deveríamos esperar por aquilo juntos. Saímos do pânico para a contemplação.

Sempre fui um covarde, mas queria ficar no ponto mais alto possível, tomado de um desejo infantil em ser o primeiro a experimentar uma nova sensação.  No dia em que fora previsto o impacto, fui ao topo da construção mais alta que conhecia e esperei.

Lá estava ela. Magnífica e cruel. Seu movimento entediante nos inebriava diante da sua potência e frieza. Ela iria cruzar nossos caminhos, inevitavelmente.

E cruzou…

Não sei quanto tempo fiquei desacordado.  Apenas sabia que não estava no topo do arranha-céu.  Em principio, só percebia imagens borradas, e depois enlouqueci.  Nada fazia sentido. Primeiro foi um réptil alado que passou riscando o céu da cidade. Seu grito ensurdecedor me fez fechar os olhos e clamar por misericórdia. Mas obtive silêncio como resposta. Abri os olhos novamente e já não estava mais lá, estava em um lugar deserto.  Vi um homem.  Acenei, ele não respondeu.  Súbito, começou a gritar num idioma estranho e a brandir uma espada. Foi quando vi a multidão a minha volta repetindo o gesto, sem notar minha presença. Para o meu choque, um deles passou através de mim como um fantasma.

O que era aquilo?

Queria sair de lá. Fechei os olhos novamente e me encurvei.  Fiquei muito tempo assim, pois isso os calava.  Até que alguém me tocou, falando em meu idioma.

— Por que está assim?

Abri os olhos. Era um menino:

— Não viu os horrores a nossa volta? Monstros? Exércitos?  Estamos mortos, isso sim. E agora padecemos neste inferno — disse eu, desesperado.

— Não estamos não! — Retrucou o garoto.  — Se pensar bem direitinho você pode ir aonde quiser.

— Como é? — Perguntei, mas um frio aterrorizante me fez encolher e me cegou novamente. Foi quando percebi que eu ainda estava na onda.

Não estava morto, mas não sabia se viveria. Entendi o que disse o garoto.  De alguma forma, passado, presente e futuro estavam juntos naquela onda.  Sem se misturar.  Se me concentrasse, poderia ‘assistir’ qualquer coisa.

Contemplei maravilhas impossíveis.  Concentrando-me, vi meus pais que já não viviam.  Vi como se conheceram, como decidiram viver juntos, e dolorosamente presenciei sua morte uma vez mais. No trânsito. Morte sem sentido. E nada pude fazer. Chorei incapaz e frustrado. Foi aí que ele voltou:

— Por que está chorando?

Expliquei tudo. Como se fosse o adulto naquele momento, ele me olhou com compaixão:

— Você não sabe que, se concentrar direitinho, pode falar com eles?

O frio novamente me consumiu. Quando notei, estava de pé ao lado dos meus pais, que de algum modo me olhavam assustados.  Não queria contar nada para não confundi-los. Diria algo que pudesse mudar o destino deles:

— Nunca mais passem pela rua…

Algo me sugou de volta. Caído olhei para o alto e vi um homem velho, aparentemente preocupado:

— Sei o que você quer — ele disse. — Não posso permitir.

— Quem é você?  Por acaso… seria eu?

— Não posso explicar muito, não sei se poderia lhe dizer.  Provavelmente de todas as alternativas de futuro, eu fui a única capaz de chegar aqui neste momento, o que é alarmante. Mas em nenhuma delas seus pais fariam parte. Você não deve tentar evitar o destino deles.  Só poderia te adiantar que, quando a onda foi embora, nosso mundo mudou tanto que seria incapaz de você entende-lo. Pense apenas nisso: o passado, bom ou ruim, é o que te tornou uma parte essencial, em conexão com o todo. Tudo tem sentido e está em harmonia. Não quebre a conexão. Se você voltar, não se sabe o que acontecerá.  Só o fato de voltar para lá poderia ser catastrófico.

— Por que não? — Gritei irritado. — O meu passado me tornou um covarde! Me fez fraco!  A ausência dos meus pais tornou-me assim.  Tenho a possibilidade de consertar isso e fazer ao menos uma única coisa boa em minha vida medíocre.

— Você não entendeu. — Ele argumentou já transpirando de preocupação. — O seu futuro faz parte da história de todos nós.  Não percebe o que está acontecendo aqui?  Não é você que está tentando evitar um acidente, é o seu futuro tentando evitar uma catástrofe. Pra você e talvez para muitos. Esse momento não é apenas seu. Você…

 

Virei-lhe as costas e ignorei seus protestos.  Fechei os olhos e sua voz começou a sumir.   Concentrei-me no passado e quando abri os olhos, só havia escuridão.

28 comentários em “Escuridão (Alexandre Santangelo)

  1. Felipe Holloway
    29 de outubro de 2013

    Os primeiros parágrafos realmente equivalem ao que neles vai descrito: uma onda gigante (cujo aspecto agregador dos três tempos impressiona, como se oriundo daqueles sonhos/pesadelos beem metafisicamente perturbadores e vívidos), que, no entanto, o restante do conto de encarrega de converter numa marolinha inofensiva antes que chegue à praia. =/

    Retrabalhe seu desenvolvimento. Uma ideia dessas não merece morrer assim.

  2. selma
    29 de outubro de 2013

    achei muito bom. parabens!

  3. José Geraldo Gouvêa
    29 de outubro de 2013

    Que péssimo você prometer tanto e entregar tão pouco! Seu texto carece de nexo lógico, os personagens agem sem motivação. Tudo é inexplicado, obscuro, mas não porque você queira esconder, simplesmente porque você omite.

    Broxante.

  4. Martha Angelo
    28 de outubro de 2013

    O começo foi bem interessante, também me lembrei imediatamente de Melancholia do Trier, mas depois o desenvolvimento corrido deixou a desejar .

  5. Jefferson Lemos
    28 de outubro de 2013

    Eu achei a ideia legal, e a tensão durante os acontecimentos narrados era visível. Porém, achei que faltou mais, se o texto estivesse mais estruturado e mais desenvolvido, poderia ser um baita de um conto. Achei interessante, mas creio que autor seja capaz de muito mais.
    De qualquer forma, meus parabéns!

  6. Thata Pereira
    28 de outubro de 2013

    Gostei muito do conto e, justamente por ter gostado, gostaria que tivesse sido melhor desenvolvido.

  7. Bia Machado
    28 de outubro de 2013

    O texto é interessante, mas acho que precisava de mais desenvolvimento na parte final, que ficou muito, muito corrida. E como é um conto não muito extenso, havia espaço para desenvolver um pouco mais a personagem principal, ela não chegou a me convencer totalmente. Penso que você deve ter em mente esses pontos ao reestruturá-lo. Parabéns pela ideia!

  8. Andrey Coutinho
    28 de outubro de 2013

    Esse é dos bons! Escrita bem direta, mas que consegue passar a história muito bem. A teimosia final tornou o protagonista bastante interessante… deixou na minha leitura uma sensação de “quero saber mais sobre o destino dele”. Também gosto muito do uso do insólito “fantástico” (que não se compromete nem com as explicações científicas do “estranho”, tampouco com as explicações mágicas do “maravilhoso”). Muito bacana.

  9. Juliano Gadêlha
    28 de outubro de 2013

    Um bom texto, mas que podia ter sido mais desenvolvido. A leitura me agradou, talvez por isso gostaria de ver um pouco mais. Mas a ideia é boa, uma interessante reflexão sobre o tempo e todos os questionamentos que ele nos traz, e até achei que o final arrematou bem. Interessante, uma boa leitura. Parabéns!

  10. Régis Messaco.
    27 de outubro de 2013

    Desculpe: correção do meu comentário acima: “INFELIZMENTE”-

  11. Régis Messaco.
    27 de outubro de 2013

    Tudo nos conformes, mas infelismente não curto este estilo. Mas não posso deixar de dizer que a ideia é boa, a maneira que nos conduz e a bem bolada onda do tempo está perfeita. Simplesmente o final foi que me deixou com cara de quem estava adorando o almoço, veio o garçon e levou o prato embora sem que eu tivesse terminado. Fiquei com cara de bundão, sem saber o que fazer neste final. Foi abrupto o fim. Mas nada a reclamar. Está perfeito para quem gosta de coisas assim. Abraços.

  12. Frank
    27 de outubro de 2013

    Gostei muito da forma que o tempo foi tratado (as ondas me lembraram o filme o som do trovão que iam mudando tudo – claro que aqui o contexto era outro). Só achei que poderia ser melhor desenvolvido.

  13. Sérgio Ferrari
    27 de outubro de 2013

    Nossa, po, caramba… isso foi um rascunho de caderno. Por favor… Tenho mais contos para ler agora. com licença :p

  14. Marco Nazar
    26 de outubro de 2013

    Comecei a ler e de repente terminou, sem surpresas. Voltei a ler para ver se não tinha deixado escapar algo, mas era só aquilo mesmo. Não me convenceu. Talvez por não ser um estilo que aprecio ou não tenha desenvolvido sensibilidade para apreciá-lo. Vamos ao próximo…

  15. Sandra
    25 de outubro de 2013

    Gostei, principalmente, dessa onda de tempo – presente, passado e futuro sem uma linha, acontecendo ao mesmo tempo… Como numa projeção de cinema, cujo filme já está todo lá (passado/presente/futuro) e você avança ou volta…
    Viagem curta, prazerosa. Apreciado!

  16. bellatrizfernandes
    25 de outubro de 2013

    Não achei nada demais. Confuso, estranho, desculpe, mas não gostei. Há outro conto com uma temática parecida e de qualidade muito superior.

  17. Marcelo Porto
    24 de outubro de 2013

    O conto não me convenceu.

    No inicio lembrei dos malucos de Independence Day que vão para os topos dos prédios e são os primeiros a serem mortos pelos ET´s. Depois entramos na onda e a coisa começou a ficar melhor, mesmo achando os diálogos um tanto artificiais me deixei conquistar.

    Ai veio o final e me decepcionou.

  18. fernandoabreude88
    23 de outubro de 2013

    Caramba, os contos desse mês estão com um nível bacana. Dos que li até agora, esse me chamou a atenção pela utilização da onda como um elemento que une passado, presente e futuro. Hummm. Mas ao final do texto eu fiquei com uma cara estranha, de quem não gostou. Sei lá. Acho que essa relação entre o menino e o seu passado não foi legal, ficou estranho.

  19. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    23 de outubro de 2013

    Gosto de contos assim que agilizam a leitura. O final me agrada também pela ausência de explicações desnecessárias e chatas. O leitor dá o tom e o sentido à escuridão encontrada pelo personagem-narrador. Aprovado!

  20. charlesdias
    23 de outubro de 2013

    Está aí um conto muito bom sobre viagem no tempo. Interessante, divertido, intrigante … e o principal, não se perdeu numa verborragia sem sentido.

  21. Ricardo
    22 de outubro de 2013

    Muito bom! Gosto de textos assim. Simples, denso, conciso, antagônico e, portanto, eterno.
    Daqueles contos que a gente jamais esquece, tamanha força visual da história. Tamanho este que, exatamente por nos deixar imaginar (= criar), ultrapassa o físico.
    E até a Física.
    🙂

    Parabéns!

  22. rubemcabral
    21 de outubro de 2013

    Um bom conto: bem escrito e com uma abordagem curiosa ao tema. O final, misterioso, não me agradou: esperava mais história.

  23. Marcellus
    20 de outubro de 2013

    Ótimo conto, bem escrito mas, infelizmente, muito curto. O autor poderia ter explorado mais os desdobramentos da onda, as dificuldades psicológicas da personagem. Mas de forma alguma isso desmerece a qualidade do texto. Parabéns!

  24. Elton Menezes
    20 de outubro de 2013

    Sobre a história… Um relato desesperado, forte, uma narrativa em primeira pessoa que nos envolve nas necessidades sentimentais do personagem. Apesar disso, achei o texto muito curto. Talvez, se maior, desse para explorar ainda mais suas dúvidas e seus anseios. O final, embora bom, careceu de algo ainda mais impactante. Mas nada disso diminui a qualidade do texto.
    Sobre a técnica… Maravilhosamente bem construído, envolvente, misterioso, com ortografia perfeita.
    Sobre o título… Não gostei. Não apenas por revelar o final do texto, mas porque não diz nada sobre nada do que vai acontecendo. Queria algo tão introspectivo quanto a narrativa.

  25. Gustavo Araujo
    18 de outubro de 2013

    Gostei bastante. O início me fez lembrar do filme “Melancolia”, do Lars von Trier – essa iminência quanto à catástrofe. Também achei a ideia da “onda” muito bacana; essa sacada de podermos assistir a todos os momentos que nos são importantes – ao mesmo tempo – foi bem bolada. Só achei o texto curto demais. O autor poderia ter explorado mais a ideia, o confronto com esses momentos-chave. Mas, talvez, isso seja só implicância minha. É que quando o texto é bom, dá-nos uma vontade de que fosse maior, que nos prendesse por mais tempo. Em suma, está excelente. O final, aliás, arremata com maestria a ideia exposta. Parabéns.

  26. Gina Eugênia Girão
    18 de outubro de 2013

    Acho que cada um de nós tenta sozinho o que só pode conseguir coletivamente. Isso é, definitivamente, contraditório: o universo particular, uno, marca indelével de cada um, exige atenção total; a coletividade, idem.

  27. Ricardo Gondim
    18 de outubro de 2013

    Achei a solução para a questão do tempo muito atraente. Ela é inexplicável, tem uma origem cósmica presumivelmente natural e é Universal, assim como os destinos individuais. Felicito o autor por essa coerência. Ficou compacto e orgânico. Gostei muito.

  28. TONINHO LIMA
    18 de outubro de 2013

    Fui até o fim, sôfrego, de um único impulso, magnetizado pela leitura. Parabéns!

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Publicado às 18 de outubro de 2013 por em Viagem no Tempo e marcado .
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