EntreContos

Detox Literário.

Nós Que Aqui Estamos (Rubem Cabral)

rigor.mortisWanderléa suspirou desanimada quando o ônibus estancou no ponto, ela desceu e, ainda com um dos pés no degrau do veículo, pôde mais uma vez rever a silhueta decadente do Edifício Buñuel, seu lugar de trabalho.

Era manhã duma segunda-feira, primeiro de Novembro de 1982, e garoava frio,já antecipando o clima adequado ao feriado de choro e palmas de santa rita que viria a seguir. A três quadras dali, no pequeno Cemitério São João Nepomuceno, em breve seria “dia de visitas” aos seus internos, uma vez mais.

Num esforço para se aquecer, enquanto caminhava a contadora balzaquiana apertou sua bolsa de napa contra os seios, percebendo desgostosa o espetar do garfo e o volume da marmita ainda morna, embrulhados num pano atoalhado. Deveria ganhar melhor, merecia, refletiu. Se ao menos não fosse tão medrosa, se não tivesse o financiamento do BNH pra pagar, a mãe viúva pra sustentar…

Embora ao menos assim garantisse comer comida higiênica e benfeita, repensou, otimista. E economizasse para um dia viajar, quem sabe, para algum lugar ensolarado e distante, léguas distante de demonstrativos contábeis.

Mais animada, compassadamente bateu os saltos na calçada irregular, enfeitada por um mosaico de pedras portuguesas. Toc-toc-toc. O ruído de alguma forma a distraía, talvez trouxesse à tona lembranças de algum querido musical de sua infância.

Uma lufada de ar frio fez com que ela retomasse sua atenção ao mundo real. Ajeitou a franja do cabelo maltratado e descolorido e, hesitante, elevou os olhos outra vez para o prédio de janelas negras, estreitas feito olhos rapinantes, de fachada de granito uniforme. Cinza sobre cinza sobre cinza; um monólito, uma gélida lápide de seis andares, um cemitério onde ela enterrava suas esperanças e espalhava ao vento o pó dos últimos dias de sua juventude.

Colegas de outras empresas esticariam o fim de semana e só retornariam na quarta, mas isso seria impensável para os funcionários da Oliveira de Carvalho & Associados – Escritório de Contabilidade. Sempre havia trabalho demais por fazer, horas extras embaladas por cigarros e litros de café requentado. Fichários bolorentos, balanços, razonetes a datilografar em várias vias carbonadas; a lista era infindável. Em especial naqueles primeiros dias do mês, quando se realizavam os fechamentos do período anterior.

Resignada, a mulher puxou a maçaneta da porta art déco, esfregou os pés no capacho fino feito uma panqueca de pelos e entrou.

Involuntariamente prendeu a respiração ao passar pelas portas do restaurante popular “O Esquimó”, localizado no térreo do prédio, entre uma lojinha de fotocópias e uma ótica. O reduto favorito dos contínuos e outros esfaimados da cidade tinha uma única sala com um imenso balcão de fórmica de padrão madrepérola em formato de “U”, com bancos redondos acolchoados, fixos e com apoio para os pés, distribuídos ao redor. O menu era repetido ad nauseum: frango frito, iscas de fígado, bife à rolê, sempre generosamente servidos, em conchas, a partir de panelas enormes de alumínio fosco, empilhando porções grotescas nos pratos fundos, invariavelmente combinadas com o arroz e purê pegajosos que já eram marcas registradas da casa.

Meio impaciente, ela apertou com força o botão do elevador e viu o ponteiro descer com vagar até o “T”. O ascensorista puxou a porta pantográfica e ela entrou.

— Bom dia, Dona Wanderléa! Direto pro terceiro andar ou vai passar antes no almoxarife?

— Bom dia, Seu Severino. Direto pro terceiro, por favor.

— Mais que dia triste de se trabalhar, né? Me contaram que no Le Palace todo mundo teve folga hoje! No Edifício Camões também.

— Fazer o quê, né? Manda quem pode, obedece quem tem juízo… Obrigada! Bom dia pro senhor…

Ao descer no andar, os saltos de seus sapatos não ressonaram outra vez alegres naquele piso almofadado que rescendia a mofo. Retirou o cartão da placa de metal fixada à parede, enfiou-o na fenda do relógio de ponto e puxou a alavanca. Olhou as unhas maltratadas por uns instantes. Parou na sala de café, abriu a porta da estufa – em verdade um improviso sob forma de caixa de compensado de madeira com lâmpadas muito fortes dentro – e encaixou seu tijolinho dentre todos os outros, suspirou e seguiu para sua baia.

Da janela defronte à sua mesa, através dum vão dentre as cortinas drapeadas, se podia ver a baía assoreada e manchada de óleo, que psicodelicamente refletia cores de arco-íris nas areias da praia. As cruzes brancas e estátuas de anjos chorosos do quase vizinho também poderiam ser notadas, mas, felizmente, descobrira há tempos como ajeitar as cortinas e evitá-los por completo.

O dia correu então, previsível e pachorrentamente, embalado pelo matraquear sonolento do grande ventilador de coluna. Contudo, por volta das três da tarde, uma hora depois de Wanderléa ter engolido apressada a marmita cheia de risoto de frango meio ressecado, o Sr. Oliveira de Carvalho, o próprio, surgiu com expressão de quem houvesse visto uma assombração.

— Léa, a Dataproc, o pessoal do CPD deles acabou de me ligar! Um tambor magnético crashou, seja lá o que isso signifique. O fato é que não conseguiram e nem vão conseguir processar a contabilidade das Lojas Michelle ou dos Supermercados Kromprebem hoje.

A contadora quase achou graça dos olhos esbugalhados por detrás dos óculos miúdos e redondos, encaixados à força na cabeçorra igualmente redonda do (novamente) redondo dono da empresa. O velho suava com abundância e gotas rolavam céleres do tobogã de cabelos ralos e emplastrados de creme de pentear.

— Meu Deus! E agora? Tem como mandar os cartões perfurados pra outro bureau?

— Tá de brincadeira? Hoje?! Impossível! Tá todo mundo enforcando por causa da porra do Dia de Finados amanhã! É por isso que a merda, o caralho deste país não vai pra frente!

Wanderléa corou. Odiava quando o patrão usava palavras de baixo calão. Mas o que se poderia esperar dum sujeitinho sem prenome, que combinava duas árvores num nome só? Maldito monte de banha de bigode!

— Minha nossa! Vamos atrasar uns dois ou três dias para fechar a contabilidade deles então. Que jeito?

— Atrasar não, minha filha! Isso jamais! – ele pôs o dedo em riste. — Em vinte e sete anos nunca atrasamos nada – estapeou a mesa, causando um efeito dramático. — Tá lá no contrato com os clientes; tem multa e tudo mais. Você, o Enildo, a Dona Matilde e o Mário Jorge. Quero todo mundo trabalhando até fechar estes dois caroços, na unha. Depois eu pago táxi, mando comprar sanduíche. Vocês só saem daqui depois disso tudo fechado!

— Mas Seu Oliveira…

— Nem um pio, Ternurinha! – usou o apelido que ele sabia que ela detestava. — No meu tempo era assim, a gente usava calculadora mecânica, fazia tudo na mão e nem por isso o serviço desandava. Vamos! Quanto mais cedo começarmos, mais cedo terminaremos.

☠☠☠

As horas então se arrastaram, calculadoras cuspiram números impressos em rolos e mais rolos de fita de papel. Máquinas de escrever giraram suas esferas furiosamente sobre pilhas de folhas de sulfite. Finalmente, o trabalho de todos era revisado por Wanderléa; duas, três vezes, antes de separar os volumes para a encadernação.

Já passava das onze e vinte e o velho pão-duro só providenciara sanduíches de mortadela e queijo e algumas garrafas de refrigerante de algum bar infecto da vizinhança. Mário Jorge, um sujeito que seria até bonito não fosse pelos dentes acavalados e manchados de nicotina, não se conteve e veio protestar.

— É errado, droga, é mau-agouro danado trabalhar no Dia de Finados. Todo mundo sabe disso… Lá em casa minha mãe não deixava a gente nem cantar ou brincar, em respeito às almas. Daqui a pouco já vai ser feriado e, olha só, não tem dinheiro de hora-extra que possa valer à pena pecar desse jeito!

— Hum, as Lojas Michelle já estão ok, mas ainda tem mais de cinquenta mil Cruzeiros de diferença no Komprebem. Vamos ter que passar um pente fino outra vez e já dispensei Dona Matilde e o Enildo porque moram muito longe – respondeu Wanderléa.

— Ah, não. Desculpa te deixar na mão, Léa. Mas não fico mais não. Amanhã tenho que ir pro interior, visitar o túmulo da minha mãe e… Não vai dar. Por favor, me arruma aí o voucher do táxi. No dia três eu compenso, cubro você, você vem mais tarde ou sai mais cedo, a gente combina. Uma diferença boba destas você mata num piscar de olhos ou lança numa conta provisória, pra acertar depois.

Sem outra opção, sob o olhar severo do velho Oliveira que tudo observava de longe, de dentro do seu “aquário”, assinou um voucher e entregou ao colega. Ele tinha razão; não era algum problema difícil de verdade.

Por volta de uma e quinze, com os olhos lacrimejando, finalmente fechou e revisou a contabilidade da rede de supermercados. Não fora tão fácil, mas até sentiu certo orgulho profissional: não precisou fazer uso de conta alguma de ajustes! Fez um sinal com a mão para o Sr. Oliveira, que contente discou para alguma empresa de táxi.

Depois de alguns minutos, o velho veio até sua mesa, com o terno sobre os ombros como se fosse uma estola.

— Estranho! Tudo bem que é tarde e véspera de feriado, mas liguei pra três empresas e não consegui falar com ninguém. Vamos, junta as suas tralhas que a gente tenta arrumar um táxi pra ti lá embaixo ou, na pior das hipóteses, eu te dou uma carona no meu carro. Afinal, você merece!

Desceram em silêncio no elevador. Ao chegarem à portaria, sobre o capacho interno depararam com duas coroas de flores colocadas sobre cavaletes. “Saudades eternas – Oliveira de Carvalho Matias – 13/02/1920 – †02/11/1982 “, “Nunca esqueceremos de ti – Wanderléa Martins Bomfim – 26/06/1949 – †02/11/1982″, escritas em dourado sobre fitas de fundo roxo.

— Mas que diabo?! Ah, se eu pego o pilantra que fez isso! Melhor: deixa eu ver qual foi a funerária que entregou essa porra – disse Oliveira, tentando em vão encontrar um nome ou número de telefone dentre os lírios e palmas.

— Quem conseguiu meu nome completo e minha data de nascimento? É uma brincadeira, sim, e de muito mau gosto! No entanto, já está tão tarde… Na quarta-feira o senhor cuida disso, dessa palhaçada. Tô cansada demais.

— Você tem razão – ele bufou, resignado, sacando o chaveiro do bolso e girando a chave na fechadura.

Escancarou a pesada porta do prédio, deu um passo e travou. Wanderléa pensou que o velho estava sendo cavalheiro e lhe oferecendo a vez, mas também não conseguiu avançar além da linha imaginária definida pelo portal.

— Vá, Ternurinha. O que você tá esperando? – ele tentou fingir normalidade.

— Mas eu não consigo… Parece que estou amarrada!

— Bobagem! A gente, sei lá, ficou muito tempo sentado e isso dá câimbras e fraqueza nos músculos, só pode ser isso. Se afasta, minha filha, vou tomar impulso e…

O velho se distanciou uns cinco metros, correu e saltou no ar, quase ágil. Wanderléa escutou um ruído grave, como quando se bate contra um rochedo sólido ou parede muito espessa, e viu, incrédula, Oliveira cair de traseiro no capacho sujo. Seu rosto ficara vermelho pelo impacto, ele rachara uma das lentes dos óculos e um pouco de sangue começou a correr de suas narinas.

— Ai! Merda, merda! Ai, cacete! Devo ter quebrado o nariz.

Muito prática e certamente sem dar a atenção devida ao patrão machucado, Wanderléa destacou uma das coroas do cavalete – uma boia de isopor crivada de flores – e a lançou, feito um frisbee, para além da porta aberta. O objeto resvalou em algo invisível, projetou uma nuvem de pétalas no ar e ricocheteou sobre o piso marmorizado, junto do balcão onde o porteiro recebia as correspondências. O olho arguto da contadora notou que nem mesmo as flores que voaram tocaram a calçada do lado de fora.

— Venha, Seu Oliveira. Me dá sua mão – ela disse, muito trêmula. — Vamos subir e botar um pouco de gelo neste seu nariz. A gente tenta ligar outra vez, pra polícia, pros bombeiros, pro exército. Não sei o que está acontecendo, nunca vi algo assim em minha vida.

☠☠☠

De volta ao escritório, logo ficou claro para ambos que não era possível completar uma ligação sequer. O telefone tinha sinal, chamava qualquer número, mas ninguém parecia dar atenção a seus toques solitários.

Oliveira abriu uma das janelas do escritório e lançou um cinzeiro, apenas para vê-lo partido em mil pedaços e retornar, sob forma de chuva de cacos coloridos. No entanto, ao decidir fechar a janela depois de seu experimento malfadado, o velho notou algum movimento na rua.

— Léa, olha lá. Vem uma procissão, não sei, um monte de gente com luzinhas, velas, desde a Avenida Beira Mar! A esta hora, e aqui na cidade, mas quem diria? Será tradição?

Era verdade; havia então a chance de enfim conseguirem socorro. Rapidamente tomaram o elevador, correram até a porta que continuava escancarada e saltaram e acenaram para a multidão que se definia no breu do lado de fora.

Um cântico podia ser ouvido, ainda baixinho. A contadora reconheceu a oração: “Ó almas santas e benditas do purgatório! Ó almas que passastes pelos sofrimentos e angústias da morte! Ó almas dos afogados, queimados, torturados e fuzilados na guerra! Ó almas dos meus parentes e amigos falecidos! Ó almas dos assassinados, encarcerados e injustiçados! Ó almas dos escravos e dos pagãos bem intencionados!

Ó almas esquecidas e abandonadas! Ó almas santas e benditas do purgatório que estais sofrendo e penando para alcançardes a purificação completa…”

Oliveira sacou os óculos danificados do bolso da camisa, fez foco, sentiu os joelhos fracos e caiu, percebendo um formigar no braço e um peso dolorido sobre o lado esquerdo do peito.

Apavorada, Wanderléa lamentou ter tão bons olhos, e pior, um bom nariz também.

A procissão avançava como uma entidade única, orgânica. Rostos que eram só de osso, ou cobertos por pele escura e quebradiça feito asa de mariposa, libertavam flocos, ao sabor do vento. Centenas de órbitas vazias, de bocas sempre sorridentes, porém ocas de línguas. Braços frágeis, costelas cobertas – ou não – de carne putrefata, seios estirados, pernas secas e sem recheio, oferecendo um equilíbrio precário. Todos, no entanto, vestidos com mantos brancos de linho ou tecido similar, com velas, com flores, e cantando!

A contadora perdeu toda a compostura, todo verniz social. Aquilo era simplesmente demais.

— Ai, ai, levanta, Oliveira. Vamos, seu imprestável, levanta logo este rabo gordo daí!

— Caralho, tô passando mal, me ajuda, me ajuda! – ele ganiu, esticando os braços feito uma criança que pedisse colo.

A contadora encontrou forças para ajudar o velho a se erguer. Praticamente arrastou aquele peso-morto até a entrada d’O Esquimó, quando os dois desabaram ao chão. Olhou desesperada para os lados, o elevador seria uma opção, mas não conseguiria levar Oliveira consigo. Não havia também como arrombar a porta ensebada do restaurante, muito bem lacrada por uma corrente grossa e três cadeados.

Lentamente os mortos entraram no prédio, sem dificuldades. Deitavam velas e flores no chão. Ajoelhavam-se, piedosamente, e pareciam rezar.

— O que está acontecendo? – indagou o patrão, com a voz fraca.

— É algum tipo de ritual, sei lá. Pa-parecem pessoas visitando um cemitério. Os mortos prestando homenagem aos vivos? Ou nos castigando por não respeitar o seu dia? Talvez nos dando o exemplo?

Ante o incessante fluxo dos visitantes do além-túmulo, cada vez mais próximos, Wanderléa não quis conversar mais, sequer pensar mais. Movida apenas por instinto tentou soltar a mão de Oliveira, que sabidamente agarrava seu braço como um náufrago a o último pedaço de madeira. Levantou-se, sem dizer palavra, e chutou o velho nas costelas; uma, duas vezes, até que ele finalmente expirou e a soltou. Correu para o elevador, puxou a porta pantográfica, arreganhou um quase sorriso e subiu.

Bloqueou todas as portas do escritório por dentro, mas não escutou movimento algum lá fora. Foi até a janela e ficou por horas lá, até que antes dos primeiros raios do Sol viu a comitiva dos mortos finalmente deixando o prédio.

Dentre tantos defuntos macérrimos, não foi difícil identificar o ex-patrão, seguindo então com seus novos familiares, que, generosamente, lhe cederam um manto alvo.

A derradeira democracia, a igualdade de raças, classes e credos…

Mesmo tendo a certeza que estava sozinha no prédio, a contadora não teve coragem de sair. Encolheu-se num canto, segurando os joelhos, quase catatônica.

Na quarta-feira, quando os primeiros empregados do condomínio chegaram e encontram o corpo do Senhor Oliveira, com hematomas no rosto e os olhos muito esbugalhados, não tiveram dúvidas e chamaram a polícia. Mais estranho fora o número de velas acesas e de flores espalhadas pelo chão.

O exame do cadáver revelou equimoses na altura das costelas e nariz quebrado. Causa mortis: enfarte do miocárdio.

Ao tentarem entrevistar a funcionária do escritório, só escutaram loucuras sobre uma procissão de defuntos, sobre um edifício de onde os vivos não podiam sair, feito os próprios mortos, que também não podiam deixar sozinhos sua última morada.

Com o reforço do testemunho dos demais empregados e a análise de especialistas, a contadora fora declarada insana e a provável culpada pela morte de Oliveira. Por tudo isso, Wanderléa foi internada num Manicômio Judiciário.

☠☠☠

— Você, novato; já conheceu nossa paciente mais famosa?

— A tal que matou o patrão e que surta em todo Dia de Finados? Já ouvi falar…

— Isso. Olha só – o enfermeiro abriu a portinhola da cela solitária. — A coitada já tá se batendo, fingindo que o quarto tá bloqueado por coisas invisíveis por todos os lados.

— Hã, olha, eu, eu não acho isso legal. Não tem graça nenhuma, na verdade. Por que não dopam a pobre nestas datas?

— Porra, mas ela tomou o suficiente pra derrubar dois homens! Um pouco mais e ela poderia morrer ou entrar em coma…

— Vamos embora então. Deixa a dona em paz. Ah, hoje tenho que sair um pouco mais cedo; prometi pegar um cinema com minha noiva…

— Tudo bem. Tá tranquilo.

— Sabe, mal comecei e este lugar já me dá nos nervos. Mais parece um cemitério, um lugar de gente esquecida, que não morreu ainda, mas que já morreu pros outros, saca?

— Cara, com o tempo você se acostuma. Taí; boa definição a sua, gostei: um cemitério dos vivos. E daqui, pra onde todos eles vão depois? Só pra outro cemitério, ha-ha. De repente, nem vão estranhar… A propósito, que filme vocês vão ver?

— Um filme velho, filme de arte, deve ser chato pra cacete; um tal de “O Anjo Exterminador”.

— Nunca ouvi falar…

— Pois é. Vou ganhar créditos com a patroa.

………………………………………………………………………….

Este conto foi escrito por Rubem Cabral para o Desafio Literário de Setembro de 2013.

19 comentários em “Nós Que Aqui Estamos (Rubem Cabral)

  1. vitorts
    29 de setembro de 2013

    Ótimo conto. Uma lição de estruturação de personagens e descrições de ambientes. Dava para sentir o ar decadente e burocrático do tal escritório. O final está sim meio corrido, mas em nada apagou a qualidade do texto. Parabéns pelo conto!

  2. Diogo Bernadelli
    28 de setembro de 2013

    Rubão, até o penúltimo terço do conto o lia pensando que fosse seu! O final foi quem acusou meu erro — de fato, muito corrido, feito às pressas pra que tudo se encaixasse aos caracteres ainda disponíveis. Mas nesta altura eu posso dizer que já havia sido fisgado por sua estruturação responsável, de modo que não me causou nenhum tormento moral varrer pra longe os equívocos de um fechamento tão… epiléptico.

    Só preciso descobrir qual posição este conto ocupará no meu pódio.

  3. Fernando Abreu
    28 de setembro de 2013

    Gosto dessas coisas que mostram a relação meio pastelona entre funcionários de uma empresa. O desenvolvimento é bacana, mas achei que a inserção dos mortos devia ser mais fluida. Mas é bom esse conto.

  4. Maria Inês Menezes
    26 de setembro de 2013

    Muito bom! Divertido e dramático ao mesmo tempo

  5. Rubem Cabral
    24 de setembro de 2013

    Um texto muito divertido e envolvente. As descrições inspiradas tornaram o conto muito visual e foi muito boa a caracterização dos personagens. (Simpatizei de cara com a pobre Wanderléa).
    Gostei do ambiente de trabalho mortificante; pareceu-me que há vários “cemitérios” na história.
    O final realmente está corrido e destoa do restante (e deveria ser repensado; ajeitando o final o conto ganharia muito).
    Qto aos palavrões, achei o uso correto. O Oliveira tinha boca-suja, era algo da personalidade dele.

  6. Sandra
    24 de setembro de 2013

    A narrativa envolveu, prendeu. A descrição do cotidiano foi adequada ao texto e os poucos palavrões não tiraram a qualidade da escrita. São parte daquele cotidiano triste, enfadonho, oleoso, pobre… Só o finalzinho deu uma caída.
    Texto bem agradável.

  7. Bia Machado
    24 de setembro de 2013

    Achei muito divertido, ri com algumas passagens. Não achei que houve muita explicação, acho que foram necessárias para dar um clima ao momento em que elas aparecem, de como aquilo tudo era enfadonho para a Ternurinha, hahahaha… achei o final complicado, e a questão dela ser a responsável pela morte do cara, mas isso, creio eu, me pareceu desta forma por causa da narrativa que acabou ficando corrida nessa parte do texto… Mas eu gostei bastante, parabéns!

  8. Gustavo Araujo
    23 de setembro de 2013

    No geral, achei uma ótima leitura. É um texto que entretém, que traz consigo uma alta dose de suspense. O momento em que os protagonistas estão aguardando a procissão chegar, a visão da coroa de flores, tudo isso revela a habilidade do autor em prender a atenção de quem lê, sem fazer disso algo difícil ou artificial.

    Porém, devo dizer que o final me decepcionou um pouco. Não consegui visualizar o motivo de Wanderléa ser considerada “provável culpada” da morte de Oliveira. Não havia elementos para isso – talvez o autor devesse ter criado uma situação que levasse, pelo menos em tese a essa constatação.

    Também o diálogo entre os funcionários do manicômio me pareceu um pouco artificial. Aliás, pode ser loucura minha, mas fiquei com uma sensação de dèja vu quando li esse trecho.

    De qualquer maneira, é um conto acima da média por aqui. Como falei, no geral, para mim, foi uma ótima leitura.

    Aliás, pensando agora, este texto casaria perfeitamente com o conto de RS Justine, “Lápides São Frias”, que trata do despertar de zumbis sedentos de sangue humano, e que se deslocam para a cidade a fim de saciar seu apetite.

  9. piscies
    23 de setembro de 2013

    Gostei bastante do conto. Não achei a leitura chata. É bem escrito, a leitura flui e não me deixou entediado. A história é de arrepiar.

    Só achei algumas partes corridas. A cena final, por exemplo, é só um diálogo entre dois personagens que nem sei quem são. Apesar de saber que isso era intencional, cenas que são apenas diálogos tendem a não passar a imagem correta por falta de descrição, ainda mais entre dois personagens que não fazemos ideia de quem seja.

    Também concordo com os outros comentários: referências explícitas a filmes ou livros não são legais. Melhor fazer uma referência sutil e quem pegar, pegou.

    Excelente conto!

  10. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    23 de setembro de 2013

    Não me incomodei com o excesso de descrição. É um bom conto, é bem escrito. Mas para mim, o final ficou a desejar…

  11. Emerson Braga
    23 de setembro de 2013

    Não sei qual o galho com palavrões. Eles também são uma expressão da língua e têm seu lugar dentro da literatura. Gostei bastante de sue conto! Um dos melhores de todos aqui apresentados.

  12. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    22 de setembro de 2013

    O conto é muito bom até lá pelos seus dois terços. Aí desanda. Ao contrário do que outros comentaram, não achei excessivas as descrições do ambiente profissional, pois serviram para dar o clima da história e construir os personagens.

    O defeito do conto, e motivo pelo qual eu acho que ele não mereceria ganhar o concurso é que ele se estende além do necessário, assumindo um tom didático estilo “Senhor Explicadinho”, que vai até a citação do filme do Buñuel (já teria sido suficiente o nome do edifício).

    Sim, eu acho que a história deveria terminar com a polícia chegando ao edifício e entrevistando Wanderléa. Não, eu não acho que seria certo inculparem-na pela morte, se ela se deveu a um enfarte. Essa parte me pareceu forçada, e a internação da personagem não me agradou, não tanto por ser irreal (pelo contrário, a perda da sanidade me parece natural), mas por estender a história além do necessário, quebrando a unidade de tempo/espaço.

    • piscies
      23 de setembro de 2013

      Eu entendo que a internação da mulher foi bem válida: todos os funcionários da empresa confirmaram que Wanderléia ficou até mais tarde com Oliveira, e o cara aparece morto no dia seguinte com hematomas no corpo e velas acesas. Quem poderia ter feito isso senão ela, a única funcionária obrigada a trabalhar até tarde?

      E depois, quando a interrogaram, ouviram as loucuras sobre procissão de mortos. Acho que a internação bastante sentido.

  13. feliper.
    22 de setembro de 2013

    Gostei do começo, a descrição mortificante do ambiente e da rotina de trabalho foi mais eficaz do que a inserção dos mortos. No mais, achei rasa a citação da obra do Buñuel, tirando o nome do edifício, que caiu legal.

  14. Martha Angelo
    22 de setembro de 2013

    Que narrativa envolvente! Realista e divertida! Excelente!

  15. Claudia Roberta Angst
    21 de setembro de 2013

    Gostei do final descontraído depois de tanta tensão. Bem escrito e com boas ideias desenvolvidas. Forte candidato.

  16. Marcelo Porto
    19 de setembro de 2013

    Grande candidato a vencedor do concurso. Muito bem escrito (precisa de uma pequena revisão) as descrições são perfeitas e definem muito bem os personagens. O detalhismo utilizado me pareceu bem orgânico, ajudando a nos envolver no ambiente do escritório.

    Gostei também do final do conto, me deixou na dúvida se a mulher era louca e assassina ou se realmente viveu tudo aquilo.

    Já tenho os meus três primeiros, o problema será definir quem ganha.

  17. Reury Bacurau
    19 de setembro de 2013

    Muito bom o conto! Bem escrito e original; o lance das coroas de flores foi assustador!

  18. selma
    19 de setembro de 2013

    a historia tem potencial, mas achei chato ler; cansativo; muitos detalhes sobre a profissão, coisa de quem trabalha nisso, não é? palavrões não p recisam enfeitar, eles enfeiam na minha opinião. acho a ideia boa, mas precisa ser melhor trabalhada.

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Publicado às 18 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .