EntreContos

Detox Literário.

A Ordem dos Primos – Conto (Felipe Holloway)

primos3Por temer o requinte da tortura, se o recapturassem, pensou em voltar para o cárcere. Mas a velha esperança sussurrou-lhe na alma o divino talvez, que nos conforta sempre, nos mais dolorosos transes.

Viliers de L’isle-Adam
A Tortura da Esperança

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Quanto mais escrevo, tanto mais me convenço de que “inspiração” é desses artigos preciosos, como caviar ou sabão em barra, cujo processo de obtenção às vezes é melhor desconhecer. Tomem-se por modelo os recentes comentários (odiosos e — será necessário dizê-lo? — absolutamente infundados) associando-me ao já duradouro sumiço do escritor que assinava com o pseudônimo Marc-Antoine Calas. Eu poderia, neste espaço, interpretar o trivial papel de advogado de mim mesmo, falando sobre os lamentáveis rompantes de exibicionismo que, de tempos em tempos, acometem certos autores do gênero “terror/suspense” — vide Agatha Christie, que, em 1926, forjou um desaparecimento criminoso por dias a fio. Poderia também lembrar a entrevista que o referido ficcionista concedeu a um jornal de sua cidade, há não mais que 8 anos, na qual evidenciava a mórbida ambição de, fazendo jus ao pseudônimo¹, suicidar-se “espetacularmente” tão logo completasse 43 anos (e haveria, pois, modo mais “espetacular” de pôr termo a si mesmo que sumir com o próprio corpo, deixando admiradores paranóicos e pseudo-jornalistas delirando ante a possibilidade de ser tudo armação daquele que fora, e continua sendo, seu maior detrator?). Eu poderia, ainda, analisar a incurável tendência humana para enxergar causalidade onde só existe casualidade — ora, será meu repentino êxito editorial ocorrer concomitantemente ao também súbito declínio de um colega de profissão fato que mereça investigação das autoridades, certamente sobrecarregadas de processos infinitamente mais relevantes?

Apreciaria deveras poder dizer que minha opção por uma saída menos óbvia (e, imodestamente, muito mais elegante, à Sérgio Porto no caso Ibrahim Sued²) foi intencional, mas estaria sendo insincero. Destarte, é-me gratificante constatar que o opróbrio destas acusações tenha resultado em fertilizante criativo, do qual colhi um argumento descaradamente analógico, ainda verde, cujas linhas gerais apresento a seguir.

Max Kapra e Fred Morelli eram escritores que, devido à similaridade de estilos, sempre cultivaram certa rivalidade. Ambos taciturnos, reclusos e escrevendo sob pseudônimo. Partindo de premissas aparentemente diversas, seus romances e contos acabavam coincidindo tanto na temática (predominantemente o terror psicológico) como na inventividade formal, traduzida por regras que as obras impunham a si mesmas. (O pronome relativo “que”, por exemplo, foi intencionalmente suprimido do livro “QUEM SEQÜE5TROU?”, de Kapra, inteiramente redigido em caixa alta, mas é o único presente em “que importa?”, de Morelli, cujas letras são todas minúsculas.) Contudo, enquanto em Kapra o experimentalismo atuava a favor da narrativa, pois de outro modo seria quase impossível transpor certos obstáculos, em Morelli ele parecia apenas desviar a atenção da falta de originalidade no que tangia à história. Eis a maior razão por que Max desfrutava de mais prestígio junto ao público e à crítica que seu rival.

Um dia, o mais bem-sucedido dos dois autores desaparece. Pára de publicar, atualizar sua página pessoal, espezinhar o rival ou conceder entrevistas. Como o contato com a editora restringia-se a e-mails e depósito do capital referente a direitos autorais, ela também não dispõe de informações sobre seu paradeiro. (Há até rumores de que morreu.) Transcorrido certo tempo, Morelli, o ficcionista sobrevivente, começa a publicar obras que são sucesso imediato de crítica e público. Um grupo de fãs extremistas do escritor desaparecido desconfia. “O cara não pode ter ‘pegado o jeito’ assim, do nada.”, argúem. Numa sala de bate-papo online, eles aventam a hipótese de Morelli, inconformado com o sucesso de Kapra, tê-lo raptado. Acham que seu ídolo pode estar sendo mantido em cativeiro enquanto é obrigado a redigir romances e contos posteriormente assinados por Fred. Impõem-se, então, a empresa de garimpar pistas escondidas nos livros mais recentes do suposto seqüestrador. Imaginam que Max, conhecendo a inépcia analítica do raptor, possa ter-lhe furado a censura, muito sutilmente, confiando a eles a decifração de seu quase invisível pedido de socorro.

Que tarda, mas surge. No dia 29 de março do terceiro ano após o desaparecimento de Kapra, uma fã assinando Mrs. Ahab divulga, numa comunidade restrita aos teóricos da conspiração sobre o caso, a seguinte descoberta:

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veis se unidos a suas respectivas metades, que quase nunca estão na página seguinte. Daí se sucede que as estimativas sobre as vendas d’O Diário… (cerca de 300 mil exemplares comerciados) tenham sido duplicadas, pois os leitores geralmente compram uma obra para guardar e outra para destacar as páginas e, seguindo uma disposição fornecida pela psicóloga do protagonista, ao analisar seu blog, montar o quebra-cabeça final: uma frase de 159 caracteres — quase a metade exata do número de laudas do romance — genialmente catártica, depois da qual cada leitor se odiará por ter detestado tanto o matador de aluguel.

Bem, chega de spoilers, isto foi só para situar os colegas que ainda não tiveram tempo de ler o livro — que, é claro, vale muito a pena, como todas as obras do mestre. O mais importante, para nós, é o que descobri na página 273: para provar aos seguidores do blog outra de suas peculiaridades (a memória eidética), Dorileo lista as datas de nascimento e morte de 10 pessoas que despachou ainda no início da carreira criminosa:

Márcia dos Santos Gonçalves
05/04/63 – 17/02/88

André Pinheiro Albuquerque
14/12/59 – 20/03/95

E assim por diante. Mas algo no antepenúltimo assassinado da lista me chamou a atenção.

Pedro Dornelles Morvant
18/11/36 – 09/07/99

Ora, se eu bem me lembrava, Dorileo havia escrito, alguns capítulos antes, que datava de 1999 sua primeira grande crise de consciência, e que, no inverno daquele ano, não aceitara uma só ‘encomenda’ de serviço. Poderia ser um furo que houvesse passado despercebido pelos revisores, claro, mas meu faro apontou o contrário.

Digitei o sobrenome do morto (que, como os demais relacionados, só podia ser falso, pois Dorileo nunca divulgaria a real identidade de suas vítimas na internet) no Google. Encontrei Nicole Morvant, uma francesa radicada nos Estados Unidos que foi, durante anos, a ghost-writer do vigésimo quinto presidente americano, responsável por redigir um dos discursos de posse mais lembrados nas faculdades de História daquele país. Alguém que escrevia obras pelas quais outra pessoa levava o crédito? Não podia ser casual.

Começando daí, passei a analisar os pormenores da lista. Perdi três noites de sonhos (por causa das olheiras, minha chefe até perguntou se as verdurarias do meu bairro não vendiam pepino, aquela vaca) comparando nomes, associando algarismos, tentando remendar as quebradiças linhas do caos. A solução, contudo, acabou sendo bem menos complexa do que a supunha minha vã obsessão — bastava relacionar, em grupos de dois, os números às páginas do livro. Desse modo, ‘05/11/63 – 17/02/88’ convertia-se em pág. 05-11, pág. 63-17, pág. 02-88. Como sobredito, cada folha do romance traz a metade de uma letra nas entrelinhas. Efetuando os pares previstos nas datas (10 datas equivalem a 60 grupos de dois algarismos), obtive uma frase de 30 caracteres — os espaços, a cedilha e o hífen são cortesias minhas:

VIREI GHOST-WRITER FORÇADO DE ORTIZ

A última pesquisa, companheiros, foi meramente confirmativa: Guilherme Fioresi Ortiz é o nome de batismo de nosso amigo Fred Morelli.”

A esta mensagem seguem-se quase 200, a maioria congratulando Ahab por sua perspicácia. Há quem pondere seja a frase final um artifício irônico inserido pelo próprio Fred em resposta às insinuações sobre seu envolvimento no sumiço do rival. Tal raciocínio não prospera, pois, além de supor que a acusação já tenha chegado aos ouvidos do escritor (um absurdo), ignora duas premissas: tanto a auto-ironia quanto o atrofiado talento de Morelli o impedem de ter arquitetado semelhante sutileza.

Os conspiradores também debatem sobre se deveriam levar o fato ao conhecimento das autoridades. A antecipação dos seguintes entraves demovem-nos da empreitada: para a inepta polícia, aquela “prova” quase certamente careceria de intensidade, e eles não dispõem de tempo — e, precisam admitir, sagacidade — para coletar outras evidências nos livros; se desconfiar que suspeitam dele, Morelli pode facilmente admitir a autoria das mensagens subliminares e, o que é pior, se vingar torturando Kapra pela ousadia; por fim, os trâmites burocráticos para uma investigação oficial levariam semanas, e Max já esperara o bastante pelo resgate.

Ahab assume, com muito merecimento, as rédeas da operação — até pede demissão do emprego para tanto. Ela realiza uma enquete para saber em quais estados moram os colegas, além de solicitar-lhes extrema atenção quanto aos próximos compromissos de Morelli. Como nenhuma das fotos do autor que circulam na rede é confiável, faz-se necessário um evento midiático que o obrigue a mostrar o rosto. As opções mais evidentes — noites de autógrafos, palestras, festivais literários etc. — conflitam com a reclusão patológica do ficcionista, que agora parece bastante justificada: ele precisa vigiar sua pata dos ovos dourados.

Um aliado descobre que Fred arrematou o primeiro lugar num concurso literário de âmbito nacional, categoria romance, cuja entrega dos prêmios se dará dali a três semanas. O edital do concurso previa que, para ter direito à quantia de 50 mil reais, os vencedores deveriam deslocar-se pessoalmente a Ituiutaba, interior de Minas Gerais, onde a festa seria realizada. Após analisar as possibilidades geográficas, Ahab mobiliza sete membros ativos da comunidade: três irão à premiação e quatro viajarão a Gilliard, a bucólica cidade onde Fred reside — e cuja localização era das pouquíssimas informações fornecidas, sobre o escritor, pela orelha dos livros.

Inobstante alguns contratempos (um dos garotos designados para a missão em Ituiutaba era menor de idade, por exemplo, e não pôde embarcar desacompanhado), o alicerce do plano concretiza-se de modo satisfatório. Augustus e Lindsay, os codinomes dos infiltrados restantes (que homenageiam personagens célebres de Kapra), conseguem convites para a festa prestando serviços voluntários à prefeitura. Durante a grande noite, reprimindo a fúria enquanto fotografam o odioso Morelli com uma mão no ombro do prefeito e outra segurando o enorme cheque simbólico, eles mantêm Ahab e o resto da comunidade atualizados sobre o andamento da operação. Fingindo-se grandes admiradores do autor, travam com ele animada conversa, na qual descobrem sua pretensão de regressar a Gilliard já no dia seguinte, por ter, segundo o próprio, “aversão a cidades com mais de 20 mil habitantes”. (“Tive vontade de dizer: ‘a menos que esses trouxas lhe devam 50 mil paus, né, filho-da-puta?’” escreve Augustus na comunidade, para delírio dos colegas.) As fotos são imediatamente enviadas aos quatro agentes em Gilliard, que, instruídos sobre os prováveis horários do vôo, rumam ainda de madrugada para o único aeroporto da região.

Quando Morelli desembarca — com semblante bem menos animado que nos registros fotográficos de sua noite de glória —, Igor, Áurea, Fractal e Lorde Aurélio só têm de seguir discretamente seu táxi até em casa, um sóbrio palacete de dois andares, sem vizinhos num raio de pelo menos 2 km. É ali, em meio ao conjunto cerrado de árvores margeando o acostamento, que eles montarão guarda, esperando a oportunidade menos perniciosa para invadir a residência e pôr fim à crueldade de Morelli — que, pelo jeito, não havia mentido ao contar numa entrevista que morava sozinho. Excetuando-se o cativo, obviamente.

De seu posto improvisado, o quarteto faz observações sugestivas. Morelli sempre pede as compras por telefone, nunca deixando a casa por mais tempo que parcos minutos. Certa feita, uma das sacolas do entregador do supermercado se rasga e eles flagram seu conteúdo: carne vermelha.

— Ué, mas o Fred não é vegetariano?

É. Max não.

Quando os espiões já cogitam subjugar o seqüestrador a seu modo, Ahab informa que ele participará de um chat sobre escrita criativa na sede da editora, no próximo sábado.

— Por que na sede da editora?

— Parece que a conexão com a internet não é muito boa aí onde ele mora, o cara terá de dirigir até o centro. Mas o chat só vai durar uma hora, vocês precisam ser rápidos.

A ação é posta em prática logo que o Impala customizado do escritor deixa a garagem, às 21hs17. Embora não haja os folclóricos vizinhos bisbilhoteiros, os quatro resolvem entrar pelos fundos, cuja porta é arrombada com o auxílio de um maçarico. Haviam combinado que alguém ficaria de vigilante do lado de fora, mas nenhum dos fãs quer estar ausente do momento exato em que seu ídolo reaverá a liberdade. Além do que, Ahab e os outros membros da comunidade que participarão do chat mantê-los-iam informados sobre os passos de Morelli, por telefone.

A residência padece do típico mal das casas grandes administradas por um só homem. Poeira assentando-se em camadas, louças e roupas por lavar, disposição assimétrica dos móveis etc. Sem tempo de reparar em detalhes decorativos ou arquitetônicos, os agentes se dividem para procurar nos cômodos mais óbvios: quartos, sótão e porão.

Ao descobrirem que este último abriga a biblioteca particular de Morelli, concentram-lhe os esforços de busca, desprezando os demais aposentos. É um acervo assombrosamente imponente. Por alto, dir-se-ia que 50 mil volumes o compõem. As estantes de aço, fortemente fixadas ao chão, são dispostas em feitio labiríntico. Mas é um labirinto relativamente fácil de percorrer, o que leva o quarteto a pensar que sua urdidura tem caráter meramente simbólico.

No coração do labirinto literário, dando para um segundo subsolo, há um tampão de ferro semelhante aos que encerram os poços de visita no centro das ruas urbanas. Sem demora, eles derretem-lhe o cadeado, descem por uma estreita escada igualmente férrea e constatam que, sob a biblioteca, há outra biblioteca.

Esta, porém, difere no formato (tradicional, estantes perfiladas como peças de dominó) e no número de obras, que não deve ultrapassar 10 mil. A parca iluminação azulada denuncia sua até então única ocupante: uma mulher sentada sobre uma mesa retangular, um notebook aberto no colo, o indicador congelado no ato de consulta a um dicionário em frangalhos.

— Vocês… Deci… Decifraram meu pedido…

Continua.

¹N. do E.: “Em 9 de março de 1762, o comerciante Jean Calas foi condenado em Toulouse a ter os membros partidos, ser estrangulado e queimado na fogueira. O réu fora acusado de matar o filho mais velho, Marc-Antoine Calas, encontrado enforcado na casa da família. Na verdade, a morte havia sido causada por suicídio – Calas escondera o fato para evitar o tratamento infame reservado na época aos cadáveres de quem se matava. De nada adiantou, depois, explicar isso à Justiça. Parte da notoriedade do caso deve-se ao empenho do filósofo Voltaire em exigir das autoridades a reabilitação póstuma de Jean Calas e o afastamento dos juízes que o haviam condenado.”

Adaptado de Aventuras na História, fevereiro de 2008. 

² Conta-se que o cronista Sérgio Porto (mais conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta) teria, certa feita, sugerido que o colunista social Ibrahim Sued era, entre outros atributos, ignorante e analfabeto. Irritado, Sued exigiu retratação, caso contrário processaria o colega. Porto usou boa parte de sua crônica seguinte para explicar que fora tudo um grande mal-entendido. Mas, no parágrafo de encerramento, fez valer a fama de irônico genial: 

“Em momento algum, Ibrahim, escrevi que você é um analfabeto. Quem leu isso para você, mentiu.” 

Os minutos seguintes são eivados de assombro, explicações, júbilo, ojeriza e mais explicações. Há cinco anos, Ariadne Oliveira Sampaio, a escritora por trás do pseudônimo Max Kapra, recebera de seu maior desafeto uma “Solicitação extra-oficial de feitura de pazes”. Alegando estar velho demais para aquele tipo de desavença, o autor admitia, num ímpeto de humildade sem precedentes, sua suposta inferioridade intelectual, declarando-se grande fã (“quiçá o maior!”) da obra de Ariadne, que ele soubera ser mulher graças a um editor em comum. Inicialmente cética, a escritora fora derrotada pelo cansaço: a insistência de Morelli acabou convencendo-a da pureza de suas intenções. Viraram amigos, conquanto houvessem concordado em manter, para a mídia, a desgastada máscara de rivalidade. Sempre que Kapra lançava nova obra, Morelli (ou simplesmente “Mô”, como Ariadne ainda insiste em chamá-lo) elaborava duas resenhas: uma, tendenciosa, ferina, insincera, era publicada em sua página pessoal e reproduzida em cadernos culturais de incontáveis periódicos país afora; outra, manuscrita, elogiosa, absolutamente de acordo com as verdadeiras impressões do autor, era remetida pessoalmente a Ariadne. Que até esforçava-se em retribuir a gentileza, escrevendo críticas divergentes sobre os textos do amigo, mas a imparcialidade profissional exigida em relações desse porte fazia com que tanto os pareceres destrutivos quanto os edificantes ficassem aquém de seus próprios objetivos: aqueles, nem tão devastadores; estes, nem tão encomiásticos.

Sobrevivendo praticamente à base de correspondências, a amizade dos literatos atingira o ápice no 43º aniversário de Ariadne, quando ela havia recebido de Morelli um exemplar raríssimo do enigmático livro Hypnerotomachia Poliphili. Estava sozinha em casa, deliciando-se com depoimentos de fãs do país inteiro congratulando-a pela data. A campainha foi acionada por um mensageiro apressado, que deixou o pacote retangular no batente da porta com um cartão assinado por “seu literalmente admirador secreto”. Ariadne só se lembra de ter ficado extasiada com o presente (ela deixara escapar em cartas para Fred que estava trabalhando num romance sobre ocultismo onírico), e que começara a folhear suas páginas impregnadas de fascinantes litogravuras ali mesmo. Então, do nada, sentira-se mal e “apagara”. Ao despertar, achava-se na biblioteca subterrânea.

Já explicando à seqüestrada os detalhes finais de seu plano facínora, Morelli contara que, lembrando-se de que Ariadne o havia informado sobre sua mania de folhear livros (mesmo os de valor inestimável, como o Hypnerotomachia) umedecendo a ponta do indicador com a língua, borrifara um poderoso sedativo nos cantos inferiores da obra, antes de enviá-la à aniversariante. Esta informação deixa os quatro fãs especialmente admirados. O truísmo implícito é verbalizado por Fractal:

— E você nunca leu O Nome da Rosa?!

Ariadne, envergonhada:

— Li. Depois que vim para cá.

A escritora mal começa a elucidar como deveriam ter procedido para decodificar os pedidos de socorro contidos em livros anteriores a “O Diário do Carrasco” (que abriga, segundo ela, o menos explícito deles) quando o celular de Lorde Aurélio toca. É Mrs. Ahab.

— Ahab, você não vai acreditar…

— Ainda estão na casa?

— Sim, o cativeiro…

— Dêem o fora daí, o Fred abandonou o chat faz meia hora!

— O quê?! Mas não tem nem 40 minutos que o chat começou!

— É, mas um bando de trolls imbecis começou a hostilizá-lo e ele foi embora! Estou tentando te avisar há quinze minutos, seu celular só dava fora de área.

— Deve ser o sinal… Estamos embaixo da terra.

— Encontraram o Max?

— Sim, o cativeiro fica num…

— Ótimo. Vocês não vão conseguir chamar a polícia daí, peguem o Max e caiam fora. Ligo daqui a vinte minuto

— Certo. Mas, Ahab…

— O quê?

— Max Kapra é uma mulher.

— O quê?!

A ligação é encerrada. Lorde comunica o imprevisto aos demais, que prontamente se dispõem a carregar Ariadne escada acima.

— Ei, que diabos estão fazendo? — diz ela, desvencilhando-se.

— Ué, você não… precisa de ajuda? Não está debilitada, essas coisas?

— Claro que não. Psicologicamente, vá lá, mas não a ponto de não poder caminhar sozinha. Acham que o Mô me mantém aqui a pão e água?

Agora que ela mencionou, os outros reparam que seu aspecto realmente não condiz com a magreza estereotípica das vítimas de seqüestro duradouro.

— Cinco refeições diárias, amigos — comenta a escritora, emocionada, à medida que galgam os degraus semi-oxidados. — Isto sem falar nos cosméticos, jornais, filmes, séries e lançamentos de livros que eu exijo dele para ter o mínimo de inspiração para escrever. T2mbém faço questão de ler cada crítica publicada sobre meus textos. Me recuso a começar uma obra antes de saber como a anterior foi recebida no meio acadêmico.

— “Exijo, faço, recuso…” — repete Igor, ternamente. — Não use mais os verbos no presente, Ariadne. O cárcere acabou: vamos tirar você daqui.

— Oh!

Não é possível saber se a exclamação foi motivada pelas palavras do fã ou pelo fato de as luzes terem se apagado. O blecaute — cuja causa é decerto um raio, pois a intempérie já se anunciava quando invadiram a casa — multiplica a complexidade do labirinto: no escuro, ignoram qual direção tomar para deixar a biblioteca ou retornar ao centro. A ínfima claridade dos celulares é de pouca valia.

Ato contínuo, o som de um tiro encurva instintivamente as colunas do quinteto.

— Alguém se feriu?! — pergunta Áurea, angustiada, antes que o eco se dissipe. Em face da negativa, a conversa rebaixa seu tom ao nível do mero sussurro.

— Merda, o desgraçado já está aqui!

— Como a gente não escutou o carro chegar?!

— As paredes da biblioteca são isoladas. Acho que…

Ouvem-se passos apressados subindo a escadaria que dá acesso ao porão. A porta é fechada com força. Cliques metálicos denunciam o trancamento. Mesmo oriunda de fora do cômodo, a voz roufenha de Morelli sobrepõe-se ao eco longínquo de um trovão.

“Não sei quem está aí contigo, Ariadne, mas é bom que eles saibam que a única pessoa que me interessa viva é você. Melhor ficarem quietinhos até a energia voltar. Se tentarem sair do porão agora, eu meto bala em todo mundo, entenderam?”

— Agora ferrou tudo!

— Ai meu Deus, ai meu Deus!

— Calma, gente, vocês ouviram, ele não vai entrar aqui enquanto a luz não chegar: no escuro a biblioteca é caótica até pro Mô. Ele também está com medo, não sabe quantos somos. Agora me dêem a arma.

— Arma?! — a réplica admirada é unissonante.

— É, pô, a arma. Vocês… não trouxeram uma arma?!

— A gente… hmm… precisava ter mais de 21 pra comprar…

— Mas quem falou em comp… Ah, esqueçam, me lembrem de aumentar a faixa etária dos meus romances. Olha só, o Mô sempre esconde um revólver no fundo falso de um livro do labirinto. Em geral fica em…

— Por que ele faz isso?

— Não interessa! Continua, Ariadne.

— Todo ano ele troca o revólver de lugar, e a cada ano a relação entre a arma e a obra escolhida homenageia uma figura de linguagem. Por exemplo, no meu primeiro ano aqui a figura era o pleonasmo: a pistola ficou dentro do A Arte da Guerra.

— E cabe uma arma n’A Arte da Guerra?!

— Puta merda, era uma edição com apêndice, sei lá!

— Tudo bem, tudo bem. Em qual ano estamos?

— Da ironia. Mas o senso de ironia do Mô não é muito refinado…

— Dá pra notar: prender alguém chamada Ariadne no centro de um labirinto…

— Exatamente. Por isso passem longe de Foucault, livros de direito e biografias de suicidas.

— Certo. Temos dois celulares. Áurea e eu vamos atrás da Bíblia; Igor: você, Fractal e Ariadne procuram pelo estatuto do desarmamento e pelo Corão. Se encontrarem o tampão do bunker, entrem.

A busca às penumbras³ é pontuada pelos comentários sarcásticos de Morelli (“ ‘De Como a Primeira Tentativa de Fuga de Max Kapra Foi Genialmente Frustrada Por Seu Algoz, Fred Morelli’. Daria um belo conto de Boccaccio, hein, Ariadne. Você ainda irá escrever sobre isso.”) e pelo receio de que a energia volte antes da arma ser encontrada. O desespero é tamanho que, a certa altura, os cinco desistem das referências eruditas e passam a derrubar prateleiras inteiras de livros grossos o bastante para ocultar o objeto. Esta cena lembra a Ariadne, absurdamente, a loucura dos personagens do conto de Borges em busca das míticas Vindicações. A lanterna improvisada de Áurea e Lorde Aurélio tem seu brilho intensificado pela súbita chamada de Mrs. Ahab. Em poucas palavras (que ele precisa repetir inúmeras vezes, dada a péssima qualidade da ligação), Lorde apresenta-lhe a situação.

— E não conseguiram mesmo chamar a polícia?

— Não, a voz diz que o número não existe. Essa merda de cidade é tão calma que nem delegacia deve ter!

— Entendi. Em que… está?

— O quê?

— Em qual seção da biblioteca você está?

— Ah, Literatura Alemã. Tem uns livros raros, também…

— Vá até… grafias.

— Grafias?

— Biografias. Vá até biografias.

Lorde indica que Áurea o acompanhe.

— Achou?

— Sim. Letra B. Fica bem no alto . Nossa, é muita coisa!

— Tem… vros grossos?

— É só o que tem. Peraí, a Áurea está subindo na estante. Ela precisa do celular pra enxergar.

— Ok, não precisa colocar no viva-voz. Diz pra ela procurar a biografia de Mahatma Gandhi.

Os segundos transcorrem. A voz emocionada de Áurea revela que a perspicácia da amiga não enferrujou.

— Ahab, eu te amo! Como você…

— Palpite, palpite. Está carregada?

— Calmaí… Está, está sim.

— Beleza. Agora, rápido, encontrem os outros e digam-lhes que tenho um… ano.

— Que você tem um ano?!

— Um plano! Que tenho um plano!

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³ N. do A.: um meio-termo entre “ás claras” e “às escuras”.

O intervalo entre o retorno da energia elétrica e a invasão do porão não chega a três segundos. Esquecido do posicionamento atípico da parede interna, Morelli calcula mal a força do chute na hora do arrombamento: a porta choca-se contra o obstáculo e, na volta, desequilibra-o momentaneamente. Recuperado, ele mal tem tempo de registrar a situação.

— Joga a arma no chão!

A confusão mental do escritor é palpável. Paradas no patamar intermediário da escadaria, ele vê quatro pessoas encapuzadas, três das quais carregando sacos cheios de objetos retangulares (presumivelmente livros), e aquela que aparenta ser a líder apontando uma arma para a cabeça de uma apavorada Ariadne, cuja boca está amordaçada.

— O que…

— Joga a arma no chão, porra! Vai querer que eu exploda a cabeça dessa vadia?!

E Morelli, então, compreende.

— Vocês são la… ladrões de livros raros! — gagueja, um alívio absurdo transbordando de cada sílaba.

— Ah, vá, descobriu a pólvora, professor. Eu já falei pra jogar a porra da arma no chão!

— Pronto, pronto — cede o autor, voltando à realidade (que podia não ser tão atroz quanto ele imaginara, mas era sem dúvida grave.) — Não atira nela, cara, por favor… Olha, levem os incunábulos que quiserem, mas…

— Incu quê?!

— Nada, nada… só não atira nela, tudo bem?

— Isso vai depender de tu não ter chamado os homi. B.O., deixa os livro aí e apanha a arma dele. Revista os bolso, isso. Pega o celular, vê se não tem nenhuma ligação pra polícia.

— Não, não liguei, juro por Deus! Toma aqui, pode ver.

Ariadne soluça alto.

— C-calma, amor, eles só querem os livros…

— Amor?! — vocifera o líder da quadrilha. — Ah, então é assim que tu trata a tua esposa, prendendo ela embaixo da terra? Seu desperdício de esperma do caralho…

O bandido faz menção de avançar no escritor, mas é estranhamente contido pelos comparsas.

— O celular tá limpo — diz B.O.

— É, mas nada impede que ele ou essa puta chamem a polícia assim que a gente vazar.

— Não vamos lig…

— CALA A BOCA! Certo, melhor a gente prender cada um num banheiro. Renan, me ajuda aqui… Pronto, agora levanta, desgraçado.

Guiado por Morelli, o grupo segue abrindo caminho entre os móveis até o banheiro do térreo, no qual ordena que o escritor entre.

— O que vão fazer com ela? — ele indaga, visivelmente apreensivo.

— Matar, se tu não fizer o que eu mando. Vai lá pro fundo… Isso, assim mesmo, agora tu vai ficar bem quiet…

A frase é interrompida pelo segundo tiro da noite. Morelli emite um berro animalesco e tomba agarrado à perna. A assimilação do ocorrido estupefaz aos demais: Igor, ao puxar a maçaneta da porta com a mesma mão com que segurava a pistola, pressionara o gatilho acidentalmente, atingindo o autor na altura da coxa direita.

— O que você fez?! — desespera-se Ariadne, livrando-se da mordaça fajuta.

— Eu nem encostei no gatilho! Foi um acidente… Eu num queria…

A escritora corre em direção ao banheiro. Aurélio antecipa-se e tranca a porta, enfiando a chave no bolso.

— Abre essa porcaria! Ele tá ferido!

— Ah, é? E você esqueceu que ele te seqüestrou?

— Mas se a gente não ajudar…

— Ele não vai morrer, acredite. Eu estava mais perto, o tiro nem pegou em cheio. O cara tá gritando porque é escandaloso mesmo.

ordem02

Ariadne é levada para fora da residência sob protestos. O barulho da chuva (que ainda é forte) logo eclipsa os uivos doridos de Morelli. Eles tiram as meias da cabeça e avançam à orla do bosque atrás da casa. Não terão vencido 1 km quando a consciência da autora torna a barrar-lhes o caminho.

— Gente, eu vou voltar… — seu tom é quase de desculpas.

— Olha aqui, senhora Kapra — começa Áurea, perdendo a paciência: — você não faz idéia do quão difícil foi para cada um de nós estar aqui hoje, fugindo de casa sem dar satisfação pra pai, mãe nem namorado, vendo nossas fotos aparecendo em botijões de gás e perdendo quase um quilo por dia. Sem falar que, fora a Ahab (que até perdeu o emprego, coitada), a gente não tem a sua inteligência, mas nem por isso deixou de ficar acordado noites inteiras procurando a merda dos seus pedidos de socorro na droga daqueles livros. Então, seria educado de sua parte enfiar essa dózinha do Morelli no cu e mostrar um pouco de gratidão!

— Eu sei, Áurea, não é que eu não reconheç…

— A questão é bem simples — tenta Fractal, segurando a mulher pelos ombros: — você está com a gente ou não? Mas, antes de responder, pense no seguinte: se disser “estou com Mô” agora, você não estará apenas cuspindo em cima de todo o esforço que a Áurea acabou de falar, mas criando uma horrorosa falsa etimologia para “Síndrome de Estocolmo”: daqui a 50 anos, quando algum estudante acessar a internet pra saber o que a expressão significa, vai ler que ela evoluiu a partir da sua frase, e que, originalmente, se dizia “Síndrome de Estou com Mô”.

— Mas do que que você tá falando?!

Fractal solta a escritora, desistindo.

— Foi o meu argumento mais racional.

O impasse persiste num incômodo silêncio, novamente desfeito pela autora.

— Se pelo menos eu tivesse certeza de que ele vai ficar bem…

Os fãs se entreolham. Aurélio, então, saca seu telefone celular, afasta-se mais para dentro da floresta — onde a chuva quase não chega — e digita três números. Os outros o observam iniciar um diálogo com alguém do serviço de emergência médica. Fala do homem ferido a bala no banheiro de uma casa em…

— Qual o endereço da casa? — pergunta a Ariadne. Ela não tem idéia, mas diz para o rapaz informar que trata-se de “Seu Guilherme, o escritor.” Ele obedece; em seguida faz sinal positivo com o polegar, exige máxima urgência ao interlocutor, agradece e desliga. Por fim, remove o chip do aparelho e o atira longe, sobre as árvores.

— Vai que o cara morre e eles resolvem rastrear a ligação? — explica em resposta ao olhar indagador dos amigos. E, para Ariadne: — A ambulância estará lá em 5 minutos. Agora a gente precisa sair da estrada. Satisfeita?

— Tinha dado número inexistente quando tentaram chamar a polícia do porão — ela comenta, sem esconder o ceticismo.

— Ei, emergência médica é outra coisa, tá? — intervém Áurea. — Pode haver lugares sem delegacia, mas não sem hospital. Ao contrário dos crimes, doenças não carecem de histórico.

Ariadne ainda não parece convencida.

— Como vou saber que não simulou a ligação? — diz a Aurélio.

— Porque aquele celular custou 700 reais!

— Ah, bom, sendo assim…

A fuga é retomada. Têm o cuidado de não se afastar muito para o interior do bosque, sob risco de se perderem. Não escutam qualquer ruído de sirene, e Igor argumenta que o hospital deve ficar para o outro lado. Dividem entre si a água e as últimas barras de cereais. A chuva vai morrendo até quase parar. Por fim encontram um ponto de ônibus, vazio àquela hora. Não precisam esperar muito pelo coletivo que os levará ao centro da cidade. Entre os passageiros estão um casal de adolescentes e um senhor barbudo que dorme, a cabeça encostada no vidro. O céu vai gradativamente se tingindo de roxo.

Sentados nos cinco últimos bancos, eles aguardam a ligação de Ahab como quem espera uma medalha vinda das mãos do mais brilhante general. Ariadne agradece-lhes intermitentemente por tudo. Promete que todos os livros que publicar dali em diante serão dedicados aos “mais corajosos fãs que um autor pode querer”.

— Isso e uns 75% dos direitos autorais, e estaremos quites — brinca Fractal. Riem.

A música do celular de Áurea desperta o velho barbudo. É Ahab. Por gestos, Ariadne recusa-se a falar com ela (“Diga-lhe que agradecimentos a quem salva nossas vidas devem ser feitos pessoalmente, e que hoje mesmo nos veremos.”). Enquanto Áurea comenta e amplifica cada detalhe da fuga ao telefone (“A idéia de encher a pistola de fita adesiva foi genial, Ahab: o cara nem notou que a arma era dele!”), a escritora muda de banco, sentando-se ao lado da janela. Vê as últimas estrelas empalidecendo no horizonte logo acima de um vasto milharal e sente vontade de chorar. Igor acomoda-se a seu lado.

— Tudo bem?

— Sim, sim. Só estou pensando há quanto tempo não via o sol nascer. Isso desde muito antes do seqüestro.

— Não deve ficar pensando nisso agora…

— Eu sei… Você não tinha deixado isso lá?

É que o rapaz acaba de tirar da mochila um dos sacos cheios de livros da biblioteca de Morelli.

— Fiquei com alguns. Devem valer alguma coisa, né?

— Pode ser… Vamos ver o que tem aí.

— Nem eu sei, tava tão escuro. Toma, segura aí: uma edição de 1600 do Malleus Maleficarum… Libri Sibillini… Aurora Consurgens… Opera Omnia Paracelsi… Putz, o que “Pergunte ao Pó” está fazendo aqui? E, olha!, as páginas estão cortadas em formato de arma!

— Ah, sim, foi aqui que ela ficou escondida no ano do eufemismo… — e Ariadne acaricia a obra de John Fante de modo quase maternal. Ao perceber que Igor a observa, volta-se para o interior do saco.

— Que mais você pegou… Ei, o que é isso? Eu não acredito!

Ela retira da pilha algo semelhante a uma agenda, em cuja primeira página está rabiscado, quase ilegível: “A Ordem dos Primos”.

— Ah, que droga! Mas também, sem luz, como eu ia enxergar os livros valiosos?

— Isso é um rascunho de romance do Mô.

— É?! Então vamos tacar fogo!

— Não, espera. Ele me falou desse livro. Disse que estava trabalhando nele, que seria sua primeira tentativa de criar algo por conta própria desde que me raptara. Disse que, se fizesse sucesso, ele até poderia pensar em me soltar…

— “Até poderia pensar”. Mas é um filho-da-puta, esse cara. E você com pena por causa daquele tiro.

Ariadne nada diz. Examina o manuscrito com interesse arqueológico. Igor, só para ter o que dizer:

— Eu sei que vai parecer um disparate, mas a história presta?

— Na verdade eu não li. Ele me levou uma sinopse junto com o café-da-manhã, há uns seis meses. É um thriller que desenvolve e entrelaça os três significados aparentes de seu título. Sabe, a ordem enigmática dos números primos, uma seita incestuosa formada por primos que se casam entre si e… e…

— E…?

— Eu não lembro o terceiro significado… Mas era tão óbvio…

— Bem, só pelo que você disse, já deu pra perceber que é um lixo.

— Foi o que eu falei pra ele naquele dia. Depois perguntei o que tinha de experimental numa historinha tão senso-comum.

— E ele…?

— Disse que havia números primos à guisa de letras espalhados por todo o romance.

Com um último solavanco, o ônibus pára no terminal rodoviário. Ariadne, Áurea, Fractal e Lorde Aurélio descem, outras pessoas entram. Tamanho fluxo de seres humanos deixa a escritora estonteada. Os quatro ajudam-na a recobrar o equilíbrio, guiando-a através do terminal lotado, como a um cego. Agora são mais que apenas fãs e ídolo.

São amigos.

Al1an Gianetti

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Este Conto foi escrito por Felipe Holloway. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

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Informação

Publicado às 31 de agosto de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .