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Entre Sóis de Remanso – Conto (Vitor Stuani)

dois.soisEm períodos esporádicos da história, há ocasiões onde o caos latente do universo sobrepuja a estática da ordem, manifestando-se como um desdobramento de acontecimentos inesperados e, invariavelmente, dúbios. Estas situações surgem da mesma forma como partem, sem se darem ao luxo de justificativas ou de um posicionamento diante da ordem natural das coisas. Sem um motivo, sem um gatilho, sem um fim.

Pegam-nos desprevenidos em nossas rotinas apáticas apenas para abandonar-nos com um gosto vazio de que a existência é muito mais profunda do que encaramos. Foi assim quando uma estranha espiral azulada pintou o céu norueguês em 2009, ostentando-se em voltas preguiçosas no firmamento e deixando todo um mundo sem respostas. Também foi assim quando Platão codificou, ou não, Atlântida em seu Timeu e Crítias, incluindo em seu testamento uma herança de dúvidas para a posterioridade. E, chegando ao ponto, foi nesta mesma aparente falta de coerência que ocorreu o caso dos trinta e cinco de Capão Perdido.

A pequena comunidade gaúcha de Capão Perdido levava uma vida pacata na vertente formada pelos rios Uruguai e Quarai. Embora a posição estratégica entre Argentina e Uruguai pudesse fornecer algum regalo econômico, parecia que a evolução havia tomado um atalho e contornado a cidadezinha. Com pouco mais de vinte mil habitantes, Capão Perdido jamais estaria preparada para elencar-se entre as cidades que alterariam o rumo da humanidade, mas independente das impossibilidades, assim o fez.

O desencadear de acontecimentos iniciou-se por conta de duas ocorrências isoladas que, não fossem logo casadas, poderiam ser tomadas apenas como notícias bizarras para figurar alguma nota sensacionalista. A primeira delas deu-se em um bar.

O sol já havia baixado quando um homem bem alinhado em seu paletó bege entrou no Boteco do Alemão. O proprietário, um velho macilento de sobrenome Sperb, estranhou quando o outro se sentou no balcão, tirou o chapéu panamá e alisou os cabelos parafinados, mas não ofereceu obstáculo algum quando lhe foi pedida uma dose caprichada de rabo de galo. Também não reclamou quando o segundo pedido veio. Tampouco se importou com o sétimo. Em pouco tempo, o estranho já se encontrava em um nível de embriaguez que mais parecia uma prece barulhenta a Baco. Pagou bebida para os outros clientes, xingou a mãe de todos, trocou alguns murros e voltou a pagar mais uma rodada. Já tarde da madrugada, também perdeu alguns trocados na mesa de sinuca, e a noite só se estendeu porque os parceiros de copo, devidamente entorpecidos, não notaram que as notas que trocaram de mãos eram um punhado de cruzeiros. O sol ameaçava azulejar céu quando o velho Sperb se preparou para cobrar o estranho distinto antes de enxotá-lo junto com os demais, mas, de súbito, o homem do terno bege, agora já desalinhado, desabou no chão. Quando a ambulância chegou, o desconhecido estava morto. Sperb deu um depoimento emburrado à polícia enquanto remoia o prejuízo de toda aquela farra, apenas omitindo o fato de ter revirado os bolsos do estranho antes de ligar para a emergência. Apenas no fim da tarde, quando foi até a delegacia sustentando a esperança de encontrar algum parente do morto de quem pudesse cobrar a dívida, foi que soube o nome do homem: Henrique de Castro Teixeira, um advogado da capital sumido desde 1970. Chorou feito a criança que há muito não era quando percebeu que aquele débito morreria consigo.

A segunda ocorrência teve um maior impacto no âmbito nacional. Deu-se por conta de uma cova coletiva encontrada na Chácara do Remanso, a poucos minutos de Capão Perdido. Os legistas e historiadores identificaram os corpos de trinta e cinco pessoas e concluíram que aquela era mais uma ferida deixada pelos anos da Ditadura Militar. O processo de identificação dos corpos foi penoso e lento, visto que os quarenta anos de putrefação haviam poupado poucas evidências. Inobstante, requisitaram históricos odontológicos e médicos e cruzaram informações com bancos de dados de desaparecidos, de modo que pouco a pouco puderam nomear algumas das vitimas. Foi então que certo dia a polícia recebeu uma ligação angustiada do sitio de estudos. O motivo, o sumiço de uma das ossadas. Em outros tempos, ela seria chamada de Henrique de Castro Teixeira, um jurista de Porto Alegre com inclinações comunistas.

Jornalistas de todos os cantos infestaram a cidade tão logo a inquietante constatação foi noticiada pela primeira vez: em Capão Perdido, um homem havia morrido duas vezes. Desprovida da estrutura para atender a inesperada demanda, a cidadezinha logo teve todos os quartos de suas poucas hospedagens ocupados. Ainda incapaz de satisfazer o contingente, restou aos retardatários o aluguel improvisado de camas nas casas dos moradores. Embora as instalações fossem menos confortáveis, a sorte favoreceu um destes últimos profissionais, entregando-lhe uma notícia em primeira mão na noite seguinte, a despeito de todo o dito popular que condena os atrasados.

Já era madrugada cerrada quando o repórter carioca acordou ao ouvir a porta sendo forçada. De madeira fraca e fechadura mal enquadrada, acabou abrindo-se em um rangido estridentemente longo. De um pulo, o jornalista pôs-se de pé na cama e viu sob o umbral uma senhora baixa e corpulenta segurando um livro contra o corpo. Com certa afobação, ela deu uma olhadela pelo quarto e foi embora. Atônito, o carioca ouviu o barulho de gritos e de portas violadas antes de escapar do seu torpor. Recuperado, meteu-se em um jeans velho, calçou os chinelos e partiu atrás da mulher. Encontrou-a no minúsculo curral aos fundos da casa sentada em uma banqueta e lendo contos de fadas para um punhado de porquinhos. Silenciosamente, pegou o celular e filmou a senhora narrando animadamente as desventuras de uma princesinha para um público nem um pouco interessado. O celular já ameaçava ficar sem bateria quando os primeiros raios de sol tocaram seu visor, mas foi a mulher roliça quem se esgotou primeiro. Caiu pesadamente sobre o livro, amassando suas páginas contra a lama. Enquanto entrevistava os donos da casa de quem havia alugado o quarto, soube que a senhora havia tentado ler ao lado da cama do filho do casal, mas tão logo a criança viu a figura anônima, correu para o quarto dos pais e dali para fora da casa. Enquanto escrevia, o jornalista não deixou de sentir certo pesar pela mulher. A pena passou quando soube que outra ossada havia desaparecido do Remanso.

Em pouco tempo, o vídeo vinculado à notícia do site carioca ganhou destaque na internet, dando à pequena Capão Perdido notoriedade internacional. Hordas de profissionais e especuladores encheram a cidade, coletando depoimentos, amostras de solo e fermentando teorias. Nos dias que se seguiram, apenas uma certeza pôde ser extraída: a cada noite e uma única vez, um dos mortos encontrados no Remanso voltava à vida, com carne e roupa restituídos aos ossos. O encanto, porém, seguia-se até o raiar do sol e, tão logo o dia surgisse, a vida dos reanimados se esvaia. Contudo, o que mais intrigava eram as atividades em que os mortos gastavam suas poucas horas de atividade. Nada de corrigir erros do passado. Nada de procurar os parentes saudosos. Nada de trazer epifanias do pós-túmulo. Apenas seguiam como se nada houvesse ocorrido, dedicando sua última noite às pequenezas do dia-a-dia. Certa vez, um médico judeu passou três horas fazendo bonecos de argila e escrevendo Emet em suas testas, feito diziam receber os golens nas lendas judaicas. Gargalhando, resolveu escrever também na sua, tendo a teatralidade de riscar o primeiro E antes de sua segunda morte. Sem nenhuma lógica ou padrão, cada manhã trazia uma novidade destoante.

Em um ensaio publicado no Journal of Astrofysik, o pesquisador sueco Dr. Karl Jönsson defendeu que o caso do Remanso era uma prova vívida do contra-fluxo da expansão espacial e, assim como o tempo dava sinais de estar retrocedendo com o regresso dos mortos, o espaço logo acompanharia a contração no já conhecido Big Crush, onde o universo voltaria a ser o ponto de energia máxima que precedeu o Big Bang. Em contrapartida, a Society of Paranormal Research publicou em seu site que as reanimações gaúchas nada mais seriam do que uma “experiência de quase-vida”, uma ocorrência análoga à experiência de quase-morte, onde pessoas que por pouco não morreram dizem se vir fora dos corpos ou caminhando por terras do além. No caso de uma experiência de quase-vida, os penados teriam uma estranha chance de vagarem novamente pelo mundo em um instante onde por pouco não reencarnaram. Contudo, a opinião que mais estava em voga era a de que estava ali um sinal do fim dos tempos. Normalmente, a massa tende a aceitar melhor a simplicidade das coisas.

Sabendo do mistério que rondava as terras da Chácara do Remanso, a gigante americana George & Black Associated fez uma oferta milionária pelos poucos hectares que rodeavam a cova coletiva. Sem pestanejar, o antigo dono assinou o contrato e mudou-se para Roma. Tão logo chegaram aos pampas com seus paletós e escavadeiras, os empresários limparam e aplainaram o campo, lotearam a chácara e ergueram um suntuoso portão em sua entrada. Sobre as grades, lia-se Sacred Cemetery of the Second Chance. Passaram então a vender túmulos e promessas aos grandes figurões americanos, sob o slogan clichê de que há sempre uma segunda chance. Por um valor que por pouco não foi maior do que o seu investimento inicial pelo pedaço de terra, a empresa vendeu seu primeiro túmulo para a família de um decadente cantor californiano dos anos 80. Com sua fama reaquecida pelo mais novo óbito, fãs e mídia aguardavam ansiosos pelo retorno do ídolo após o seu enterro em terras brasileiras. Na cerimônia, dispensaram o granito para facilitar a volta do astro, mas não pouparam esforços em agregar toda pompa que pudesse ter um túmulo em terra batida. Seis dias seguiram sem que o morto mostrasse qualquer disposição para violar seu túmulo. Neste intervalo, apenas as vítimas da ditadura levantavam-se para seguir suas rotinas desimportantes. No sétimo dia, porém, quando os jornais já se cansavam da vigília ao túmulo intacto, um velho índio paraguaio saiu do ossário dos reanimados e, com uma pá, cavou até estalar o metal na madeira do caixão.

Apavorado, pois havia acertado com a família um valor considerável pela venda da cobertura da ressurreição do morto, o empresário do astro tentou impedir o indígena. Este, por sua vez, lançou-lhe um olhar colérico, dizendo: “Un hombre no merece estar abajo de tierras que no sean suyas”. Enquanto o americano recuava apreensivo, o paraguaio abriu o caixão e jogou o corpo inchado e rachado do artista sobre os ombros. Sem dar justificativas, saiu do cemitério sem olhar para trás. No dia seguinte souberam que o homem roubou um cavalo na chácara vizinha, e não tiveram mais notícias tão cedo. Uma semana após, o corpo do índio foi encontrado nas proximidades de Assunção. Já o americano, foi visto apenas três dias depois, mal cheiroso sobre o lombo de um cavalo que vagueava para o norte pelos Andes. Angustiada, a família fretou um avião para enterrar o falecido em um obscuro cemitério de Los Angeles.

Ruminando o fracasso e tendo sua última empreitada ridicularizada mundialmente sob a alcunha de Pet Sematary of No Chance, a George & Black Associated viu-se obrigada a fechar os portões do cemitério. Maliciosamente, conseguiu revender a chácara para seu antigo dono por dez por cento a mais que seu preço de compra. O gaúcho voltou de Roma animado como quem ressuscita a galinha dos ovos de ouro, apenas para ver-se falido dias após ter assinado o contrato.

Com mais de meio mês de atividade, as pessoas de Capão Perdido passaram a encarar a volta dos finados com certa naturalidade, como acontece com tudo que nos cai na rotina. Já não mais evitavam tanto os mortos, e vez ou outra até davam a longas conversas com um deles. Constataram logo que o tema da morte, ou da vida após ela, eram certo tabu entre os penados. Quando indagados sobre o assunto, apenas davam de ombro e diziam que era mais ou menos como nascer, só que ao contrário. Extrair mais do que isso se mostrou um esforço infrutífero. Também a pergunta sobre o motivo de gastarem suas poucas horas no mundo em meio a pequenezas nunca levava a uma resposta conclusiva. Na seqüência, vinham sempre olhos arregalados e frases incrédulas do tipo: “Mas apenas fazemos o que há de melhor!”.

Com a familiaridade da situação e a malandragem brasileira, o falido proprietário do Remanso logo criou uma casa de apostas clandestina. Pelos bastidores, altas somas eram depositadas no defunto que acordaria na noite em questão. Outra forma de aposta mais subjetiva, porém mais rentável, era a de adivinhar o que o falecido faria. Graças à aleatoriedade, poucas vezes alguém acertava, mas quando conseguia, tinha direito a metade da caixa de apostas. Os jogos seguiram animados e Capão Perdido transbordava com intelectuais e curiosos debatendo em uma infinidade de idiomas, até que se aproximou o trigésimo quarto dia de reanimações. Nesta altura, após um ativista político morto ter partido para uma madrugada de jogos xadrez e discussões de literatura russa na praça central, apenas um cadáver restou no ossário. Afortunado com tempo suficiente para uma identificação precisa, era de conhecimento geral que aquele era o corpo de um jovem escritor morto após publicar uma crítica ao regime em um jornal local. Por motivos óbvios, as apostas de quem seria o defunto a se erguer foram canceladas naquela tarde. Contudo, as que se focavam naquilo que seria feito pelo escritor se tornaram um sucesso imediato. Havendo a recorrência de apostas que diziam que ele “iria escrever”, o dono da casa decidiu adotar uma especificação mais detalhada. Assim, “escrever um conto” ficou muito longe do pódio dos três mais, elencando por “escrever um poema”, “escrever uma música” e “escrever uma receita de bolo”, respectivamente. Todos, porém, acreditavam piamente que os textos teriam em si a síntese do sentido da vida. Estranhamente, até mesmo no caso receita.

O sol deixava uma sobra de dia no céu quando a porta do ossário se abriu. Ali, um homem esquálido e de aparência, ironicamente, cadavérica saiu em passos falsos com caderno e caneta nas mãos. De longe, a população aguardava ansiosa e prendia a respiração a cada gesto inesperado do defunto. O escritor andou calmamente pela noite olhando as estrelas e, por vezes, falando com elas. Arrancou flores, cheirou-as, amou-as, jogou-as no chão e disse que o amor não valia de nada. Apontava para objetos inanimados e personificava-os como bem entendia, sendo assim comum entrar em bravos debates com o Sir. Banqueta de Praça e ter defendido a honra da Lady Ipê Rosa. Narrava o que fazia na terceira pessoa e, quando achava que estava se afastando do leitor, mudava de voz e se tornava narrador personagem. A cidade seguia-o pelas ruas, respeitando a distância para não desviar o rumo de suas divagações. Já era madrugada corrida quando, cansado, foi até a praça e sentou-se sob uma aroeira. Ficou alguns minutos com olhar vago para em seguida abrir o caderno e descer a caneta sobre ele. Alternadamente, olhava para o horizonte absorto e corria os olhos para o caderno, rabiscados ora aqui, ora ali. O mundo mal respirava enquanto todos os canais de tv transmitiam a imagem da figura semi-messiânica. As horas correram enquanto a manhã se aproximava, e a caneta mantinha sua labuta interminável. A coroa do sol já despontava no horizonte quando o escritor descansou a mão sobre o caderno. Com um movimento suave, apoiou-se no tronco da árvore e fechou os olhos.

A tensão da multidão era palpável. Sem muita coragem, mas pressionado pelo peso de sua autoridade, o prefeito de Capão Perdido foi em direção do corpo inerte. Com reverência exagerada, tirou a mão que pendia sobre o caderno e empunhou-o como se carregasse uma santa escritura manuscrita pela própria divindade. A realidade então lhe veio como um soco no estômago, enquanto ele desesperadamente folheava as páginas a procura de algo que desse sentido a sua vida. As emissoras de tv soltaram suas câmeras como um bando de cães raivosos pouco antes de o prefeito deixar o caderno cair sobre o gramado. As televisões de todo o planeta mostravam as imagens rabiscadas nas páginas: um punhado de bonecos de palitos; rabiscos aleatórios; motivos florais; alguns versos sem métrica, sem rima e sem motivo; nomes de mulheres e corações apaixonados, mais do que seria saudável a qualquer homem; e toda a sorte de cacarecos que se fazem nos cadernos nos momentos de distração. Pouco a pouco, a multidão minguou e a praça amanheceu sozinha. A humanidade desiludiu-se da vida como se aquele fosse o fim de toda a mágica do mundo. Mas não todos. Para alguns poucos, aquele foi o gatilho que soltou a justificativa para todo o evento, todas as atividades corriqueiras que as outras trinta e quatro pessoas tanto valorizaram. Alguns não viram, muitos não entenderam, mas os que compreenderam aquela única linha deixada pelo escritor em meio a um caos de rascunhos nunca mais viveram da mesma forma. Em letra de forma e correndo a página de lado a lado, ele dizia: “Está aqui toda a beleza da vida!”

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Este conto foi escrito por Vitor Toledo Stuani. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

3 comentários em “Entre Sóis de Remanso – Conto (Vitor Stuani)

  1. Denise Cristine
    5 de dezembro de 2013

    Sensacional!
    Sua é escrita é muito boa.

  2. Luis
    30 de agosto de 2013

    Muito bom. Parabéns

  3. Rubem
    29 de agosto de 2013

    Muito bom! Lembra um pouco, pelo tema e ambientação, Incidente em Antares, do Érico Veríssimo.

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Informação

Publicado às 29 de agosto de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .