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Detox Literário.

Os Blues de Praga – Conto (Rubem Cabral)

blues.pragaDisse Chico Buarque em seu romance homônimo que Budapeste era amarela.

Já Praga, sua quase irmã, minha querida, puta louca, bêbada Praga; penso que ela seja azul.

Não do tipo fácil de perceber – índigo-turista –, deste que se entrega a qualquer olhar displicente e invasivo de estrangeiro, evidente em fachadas, janelas ou num céu matizado de anil profundo.

Não! Não falo de bandeiras desfraldadas e despudoradas, de desfiles, ferindo os olhos do público com seu atrevimento e vigor.

Mas sim dum azul-asfixia, azul-hematoma-de-heroína, pálido e desesperançado, cheio de tristeza infinita, de olhares duros, de melancolia nostálgica de remotos dias melhores, de frios domingos de lojas todas fechadas, de redemoinhos de folhas secas, guimbas e jornais girando nas ruas calçadas por pedras gastas, de gatos perdidos miando e trepando nos becos, de pombos arrulhando, conspirando pelo nosso fim.

Praga, do “tudo permitido por um preço”, ilha de não-hipocrisia num mundo cada vez mais pasteurizado pelo politicamente correto! Ah, como te amo, como te odeio…

Nunca soube bem o porquê, porém, de forma irracional, eu sempre arranjava para que em minhas viagens de negócios houvesse ao menos uma escala de algumas horas por lá, às vezes só o suficiente para uma volta pelo metrô, ou uma caneca de cerveja densa, amaríssima, nalgum bar vazio, barato e decadentemente luxuoso, que parecia ter recebido czares e reis até anteontem.

Já quando eu tinha mais tempo, reservava ao menos um pernoite, para fustigar, diluir minha alegria ilusória em suas ruas milenares e, ao fim duma madrugada de excessos, quando finalmente sentisse minha alma soluçando e meu corpo em pedaços, encontraria meu pouso seguro no Hotel Na Rohu.

Dona Stephanka Klusáček, a octogenária proprietária, já me conhecia de muitos anos, diria “Dobrý den” e me entregaria a chave de algum quartinho com vista para os fundos, para alguma parede mal iluminada por uma claraboia decorada com vitrais. Ela sabia de meus gostos, que eu voltava sempre encharcado de Praga, corrompido até o tutano, e que um quarto que descortinasse demais da cidade seria uma overdose quase mortal para mim.

E, foi numa ocasião destas, depois de talvez uns três anos de ausência, numa noite de neve pesada, sem estrelas e escura como o meu coração, que procurei mais uma vez o seio quente e maternal do Na Rohu.

Deixara as malas no guarda-volumes do aeroporto. Fartei-me de gamo e salsichas parando no caminho nalguma birosca escondida numa cave que os turistas felizmente não haviam descoberto. Depois de seis ou mais canecas de meio litro de Pilsner Urquell e algumas doses de destilado de ameixa, pensei em conhecer algum novo clube de perversões, castigar meu corpo com chicotes e saltos agulha, me perder de vez naqueles olhos impiedosos das dominatrix. Contudo, o frio extremo, a neve que desabava do céu como que querendo nos soterrar a todos, fez-me mudar de ideia.

Trôpego, perdi-me de inicio, mas depois felizmente encontrei o velho hotel. Subi ao meu quarto de sempre, o 101; fácil de alcançar pelas escadas. O teto tinha alguma pintura desbotada de anjos e flores, os lençóis cheiravam a lavanda fresca e a calefação estalava metalicamente pelo esforço ingrato de tentar expulsar o inverno de quase vinte negativos dali.

Foi então que vi; um homem com armadura, espada e montado a cavalo. “Um cavalo não subiria escadas tão estreitas, tampouco caberia no elevador de porta pantográfica que mal a mal levava duas pessoas”, refleti ebriamente.

Pensei que fosse um delírio alcóolico ou um fantasma. De qualquer forma,  estava bêbado por demais para sentir medo. Aproximei-me e notei com surpresa a solidez, o calor e o cheiro do garanhão, um percheron gigante – um cavalo de guerra, pensei. Gritei ao cavaleiro:

— O que você pensa que está fazendo aqui? Dê o fora do meu quarto! Get out! Jetzt raus! Ven!

Como que me ignorando, ele respondeu:

— Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem – muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos – pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbados, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina…

— Fora, entendeu? Como fala minha língua? – Ora, desde quando o português era falado habitualmente na República Tcheca?

— Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou a minha mãe sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização.

O cavaleiro puxou as rédeas e o cavalo empinou, corri para o canto do quarto e vi quando a porta do closet se abriu e eles saíram em disparada por entre cabides vazios, desaparecendo a seguir.

Trêmulo e assustado, pensei em ir ao banheiro e vomitar, mas o chamado da cama quente e macia foi mais forte. Pro inferno com o que vi – refleti, deitando sem sequer tirar os sapatos molhados. Pela manhã tudo ficaria mais claro.

Tive uma noite agitada. Joguei os cobertores ao chão, suei e senti frio… Sonhei com o famoso golem criado por um rabino vingativo. Depois, no sonho, notei que eu era o golem e que não permitiria que ninguém apagasse a palavra de poder escrita em minha testa. Nem se para isso tivesse que destruir todos que eu deveria proteger do jugo impiedoso dos goyim.

Não sei por quantas horas dormi; os dias curtos imersos em lodo, típicos desta época do ano, tampouco ajudavam. Quando despertei, tudo continuava escuro. Chequei meu relógio de pulso e o maldito estava parado. Olhei pela janela e apenas vi no pátio interno um rato espiando a altura da neve através do cano que descia da calha e, muito sensatamente, retornar logo a seguir para a segurança de sua morada.

“Somente os ratos e as baratas herdarão a Terra, a nós só restará o precipício, do qual cegamente saltaremos para o vazio”, matutei amargo, de forma pouco original.

Felizmente acordara sentindo-me até bem, sem sombra de ressaca ou enjoo. Nem mesmo fome eu percebi. Penteei os cabelos com as mãos, limpei os olhos arenosos com as pontas dos dedos e alisei minhas roupas, sem muito cuidado, preparando-me para descer, tomar café e voltar logo ao aeroporto. Girei a maçaneta da porta, mas ela estava trancada.

“Que diabos?!”, gritei. Quem trancou o meu quarto? Já ia começar a estapear a porta quando escutei uma risadinha infantil. Virei-me e uma criança – vestida de duende, numa espécie de fantasia de folhas brilhantes e cipós – saltava animadamente e dava cambalhotas, ágil como um sagui.

— Como ele ri gostoso, ao ver o efeito, sobre um cavalo gordo, do meu jeito de relinchar qual égua calorosa. Às vezes ponho tudo em polvorosa, quando me escondo, qual maçã cozida, no jarro de uma velha delambida: tropeço-lhe nos beiços, sem que o veja, e no regaço entorno-lhe a cerveja. A sábia tia, às vezes, numa história de enredo triste e perenal memória, pensa me ter, qual um banquinho, à mão; então me afasto e, bum! vai ela ao chão, e enxertando na história um disparate reclama em altas vozes o alfaiate, sem parar de tossir. Em gargalhadas as comadres rebentam, de malvadas, saltam de gozo e juram, da janela, não terem visto uma hora como aquela.

Desta vez eu não estava bêbado, mas bem acordado e lúcido. O que era isso? Quem era o pequeno falando daquele jeito, em rimas, com um vocabulário meio arcaico e perfeitamente compreensível para mim? Estavam me pregando alguma peça? Ou agora havia fantasmas no Na Rohu? Aparecendo assim, sem cerimônia alguma?

Novamente, sem que eu tivesse a oportunidade de falar com a criança, ela deu uma risadinha e desapareceu como o cavaleiro da noite anterior, logo depois de outra pirueta.

Passei as horas a seguir esmurrando a porta, sem que alguém viesse dar-me qualquer atenção. Tentei sem sucesso usar meu celular e o telefone do quarto. Mesmo a janela que dava para o pátio interno, não cedia aos meus esforços.

Repentinamente escutei passos e um homem de barba e ricamente vestido de negro entrou. Uma mulher, pálida e linda, de lábios muito vermelhos e igualmente trajada de luto, surgiu logo em seguida.

— Está tudo tão calmo. Duncan nem desconfia de nada. Sei que é monstruoso o que faremos, mas se não me livrar dele, jamais serei rei.

— Que há de novo? – Perguntou a mulher.

Comecei a gesticular e a tentar chamar a atenção dos dois fantasmas. O homem me ignorava completamente, mas a mulher, a linda moça, parecia me notar, julgando pelo movimento assustadiço de seus olhos. No entanto, apesar de tudo, continuaram seu estranho diálogo.

— Pouco falta para que acabe a ceia – continuou a beldade.

— Ele perguntou por mim?

— Sim. Não desconfia de nada.

— Não vamos prosseguir nesta trama. Ele é um pobre velho.

— Nem pareces um soldado, pareces mais um covarde.

— E se falharmos? – Guinchou o homem, feito um cachorro ferido.

Não pude deixar de notar que a mulher tinha personalidade muito mais forte do que o sujeito que dizia que seria rei.

— Falharmos? Não falharemos. Quando ele for dormir, darei bebida aos seus camareiros e ele ficará indefeso. Diremos que foram eles, os camareiros, que o mataram.

— Se usarmos os punhais dos camareiros e os mancharmos de sangue, quem não acreditaria que os matadores terão sido eles?

— Quem ousará pensar de outra maneira?

Neste instante a mulher gritou. O homem pareceu desconcertado e indagou:

— Mas você ficou louca? O que, o que foi que houve? É o último…

— Hã, desculpa, mas estou esgotada, Marek. Preciso descansar, respirar um pouco de ar fresco, continuamos daqui a meia hora, que tal?

Como nas vezes anteriores, os espectros desapareceram sem deixar pistas. No entanto, menos de quinze minutos depois, a mulher retornou, com algo enrolado sob o braço.

— Psiu! Você ainda está aí? Alô!

Desconfiado e receoso, respondi:

— Aqui, estou aqui. Mas o que está acontecendo? O que é você e onde aprendeu a falar o português tão bem?

A mulher deu um gritinho e levou a mão ao peito. Respirou fundo e respondeu:

— Eu estou falando em tcheco. Só sei tcheco e um pouquinho de alemão. Há uma foto sua no jornal de anteontem. Eu me lembrei de já ter visto seu rosto em algum lugar e fui buscar o jornal no camarim.

Ela esticou a mão e vi o rosto de um homem parecido comigo na primeira página do periódico, glacialmente branco, ornado de neve, feito uma noiva ou santa. A boca entreaberta, os olhos vítreos… Não era nada digno. Tentei ler, mas tudo estava escrito naquele idioma cheio de acentos nas letras erradas.

— Leia pra mim, por favor.

— “O conhecido empresário e enólogo brasileiro Jorge Machado de Alencar foi encontrado morto, aparentemente por hipotermia, na noite de ontem, junto da Ponte Charles. A Embaixada do Brasil em Praga…”.

— Não, não, ora, deixe de palhaçada! Primeiro toda esta encenação sem pé nem cabeça aqui, tentando me enlouquecer com truques de espelhos, depois… Ah, não é possível, mas é mesmo uma droga de pegadinha! Isto é um tipo de Candid Camera de muito mau gosto! Filmam a reação dos turistas idiotas e depois riem às nossas custas, não é isso? Pois saibam que vou processá-los, que isso não vai ficar barato! Em pensar que o Hotel Na Rohu costumava ser uma ilha de…

Teatro Na Rohu, você quer dizer. O velho hotel fechou e foi tombado. Virou teatro faz… uns dois anos, depois das reformas. Estamos todos ensaiando para a Semana Shakespeare. Uma peça diferente todo dia. Aqui é o Palco Um.

— Então, então…

— Lamento, mas você morreu de verdade. Minha avó era Romani e me ensinou a não ter medo dos espíritos, já que eu tenho o dom de vê-los desde criança. Ela me contou que os recém-falecidos às vezes ficam assim, confusos. Nossa, apesar disso não consegui evitar o grito quando notei o senhor durante o ensaio… – E riu um sorriso perolado, fazendo grande contraste com os lábios cor de rubi. — O senhor precisa de alguma coisa? Velas, orações, um padre? Quer enviar uma mensagem a alguém?

Como se um véu fosse descortinado, como se eu tivesse visto somente o que eu quisesse ver até então, notei o belo palco encerado, os holofotes, as luzes da ribalta, as cortinas pesadas, as cadeiras de couro vermelho perfiladas. Não havia cama, armário ou cabides. Seriam todas ilusões que criei, talvez para o conforto de minha mente? Ou ecos do falecido hotel? Meu irmão-gêmeo fantasma, colega no infortúnio da morte?

— Q-que peça você estava ensaiando? – Perguntei, me sentindo ridículo, ou por não saber o que dizer, simplesmente, ou por ser tão ignorante quanto às obras do bardo. Como eu não notara? Por que, afinal, eu iria querer velas ou orações?

— A mais maldita de todas: Macbeth! Eu faço a maquiavélica Lady Macbeth, é claro – Ela sorriu, adoravelmente.

Sem muito me incomodar com minha nova condição de desencarnado, perguntei:

— Você se importaria se eu assistisse aos ensaios e às peças depois?

Uma luz de surpresa em seu rosto logrou o impossível; torná-la ainda mais bonita.

— Ah, mas seria uma honra para todos nós. Nunca tive ninguém como você como público, alguém do seu povo – piscou. — A propósito, meu nome é Anežka.

— Anesca? – Indaguei, arrancando uma risada dela, por conta de minha pronúncia tosca.

***

Alguns dias depois, num canto do teatro lotado, indignei-me com Edmundo, o bastardo de Rei Lear, gargalhei e bati palmas com Sonhos de uma noite de verão, em especial pelas diabruras do puck Robin Goodfellow. Na noite de estreia de Macbeth, chorei ao ver a bela Anežka caminhando sonâmbula. Depois, perdida no banquete do rei então alucinado pelas novas profecias das três bruxas e, finalmente, morta, iluminada pelas luzes fantasmagóricas e cerúleas, exibindo sua tez tão pálida, brilhando num azul-autópsia, seus lábios como que pintados de um marinho quase negro, o sangue nos punhais, cintilando em tons de índigo-petróleo. A cena ficou marcada em minha mente, feito uma linda ilustração chinesa feita a nanquim. Seria certamente com o tempo diluída pelas Águas de Lethe, manchando e escorrendo-me da memória: lágrimas carregando o rímel dos olhos muito maquiados de uma velha prostituta.

Resolvi, para minha paz ou a da moça que tão simpaticamente me revelou a verdade, não ter mais contato com os vivos.

Não seria o pior dos destinos, refleti, passar a eternidade imerso naquela cidade-madrugada, nevoenta e sem fim. Lamentando-me ebriamente por meu amaríssimo destino, feito a cerveja local. Praga me causava prazer, me excitava, me fazia sempre querer buscá-la e retornar por mais. Talvez, finalmente compreendi, por sua beleza dura de glaciar inalcançável e indiferente. Por ser tão bela, ela tudo ofuscava, e me fazia, por isso, sofrer, ao realizar, por imenso contraste à sua perfeição, minha própria feiura e torpeza.

Praga é azul, I feel blue, e o resto já não mais me importa.

…………………………………………………………………………..

Este conto foi escrito por Rubem Cabral. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

2 comentários em “Os Blues de Praga – Conto (Rubem Cabral)

  1. Jessica Borges
    6 de setembro de 2013

    Incrível! muito bom! Parabéns ^^

  2. Wilson
    27 de agosto de 2013

    Ótimo texto!

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Informação

Publicado às 26 de agosto de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .