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Literatura que desafia.

Rosália e o Crisântemo – Conto (Gustavo Araujo)

little-girl-playing-with-doll-thumb10914774Era hora de Rosália dormir. Mamãe a colocou na cama, puxou o cobertor e deu-lhe um beijo na testa. Rosália estava com febre. Tudo bem, quando acordar certamente estará melhor. Bem agasalhada, pijama branco com desenhos de crisântemos, o seu favorito, e mesmo assim, de maria-chiquinhas, Rosália retribuiu o beijo.

“Agora, durma bem”, disse Mamãe, com aquela voz serena.

Rosália gostava muito de Mamãe. Bem, aos cinco anos de idade, que menina não acha que a sua mãe é a melhor do mundo? Outro beijo e um cheiro na orelha. Rosália riu. Logo, Mamãe apagou a luz e encostou a porta.

Algum tempo se passou. Rosália ardia e suava. Dormir era difícil. Até que ouviu alguém chamar.

“Psiu! Ei!”

Não era Mamãe. Nem tampouco Papai. Era alguém com voz de criança, dentro de seu quarto.

Rosália esfregou os olhos, tentando enxergar no escuro. A luz da lua que atravessava a janela ajudava um pouco, mas era difícil acreditar. Era sua boneca (a quem ela secretamente tinha dado o nome de Delfina), que a chamava. Com seus cabelos amarelos e encaracolados, grandes olhos verdes, braços finos e compridos, Delfina insistia.

“Desça da cama, Rosália. Vamos!”

“Mas eu…”

“Nada de mas. Quero que venha comigo.”

“Ir com você? Aonde?”

O que Mamãe diria se a visse conversando com Delfina?

Um tanto relutante, Rosália fez o que a boneca pedia. Delfina, com seus braços de pano, ia abrindo a porta do armário. E olha que era uma porta bem pesada.

Lá dentro, não estavam as roupas e os brinquedos de Rosália, como era de se esperar. Havia, no lugar de tudo isso, uma luz, a luz mais brilhante que ela já tinha visto em toda a sua vida. Tudo bem que eram só cinco anos de idade, mas mesmo assim, a luz era muito, muito intensa. Era possível até que Mamãe entrasse no quarto, perguntando que brilho todo era aquele.

“Quando eu contar até três”, ia dizendo Delfina, os olhos verdes faiscando, “a gente mergulha na luz”.

“Mas eu vou bater a cabeça no armário”.

“Não vai, não, Rosália. Confie em mim”.

E assim fizeram. “Um, dois e… três.” Mergulharam.

Rosália jamais soube quanto tempo passou. Quando deu por si, estava de volta em seu quarto, no chão. Sentou-se e coçou a vista. Já era de manhã.

Estava um pouco confusa. Algo diferente. Aquele realmente se parecia com o seu quarto, mas muitas coisas tinham sido mudadas. Onde estavam as bonecas enfileiradas nas prateleiras? E os quadros de bichinhos? Aliás, onde estava Delfina, que sumira, assim, de repente, depois que entraram na luz?

Rosália se levantou e foi ao quarto de Mamãe. Nenhum sinal dela. Correu até a cozinha e, aliviada, viu que ela estava sentada, tomando café.

Achou estranho. Mamãe parecia muito mais velha. Seria possível ter envelhecido tanto assim numa só noite? Papai também estava diferente. Tinha perdido todo o cabelo. Estava carequinha da silva.

E o pior, nenhum deles parecia notar a presença dela.

Rosália chamou “Mamãe! Papai!”, mas não houve resposta.

Eles conversavam apenas entre si, rindo, falando de alguém, comentando sobre a novela. Vez que outra, Mamãe fazia uma expressão distante e o sorriso desaparecia.

“Por que não falam comigo?” pensava Rosália.

De repente, dois meninos entraram correndo na cozinha. Tampouco eles notaram sua presença. Mamãe voltou a sorrir.

“Quem são vocês?” gritou Rosália, para ser mais uma vez ignorada.

“Respondam, por favor!”

“Esta é uma visão do por vir”, disse Delfina, aparecendo assim, do nada.

“Visão do por vir? Como assim?”, perguntou a menina, sem entender direito. “ É um sonho?”

“Sim, um sonho”, respondeu a boneca, abrindo os olhos expressivos. “Um sonho para fazer com que você se sinta melhor”.

Rosália continuou a observar a cena. Percebeu que os meninos seriam seus irmãos. Que legal seria. Irmãos… Ficou contente. Sorriu e sentiu-se em paz. Sem perceber, fechou os olhos e dormiu.

***

Papai e Mamãe acordaram cedo. Fazia sete anos agora. Deixaram os meninos na casa da Vovó e foram visitar Rosália. Iam em silêncio, como de costume.

O dia estava muito bonito. O céu, azul, sem uma nuvem sequer.

Ficaram parados diante do local em que Rosália dormia para sempre.

Mamãe nunca resistia e se punha a chorar. Papai a abraçava, sem dizer palavra, algo de fato inútil nesse tipo de situação.

Antes que pudessem ir embora, notaram que uma menina loura, de cabelos cacheados, se aproximara para deixar uma flor em homenagem a Rosália. Abaixou-se e fez repousar o crisântemo delicadamente.

Em seguida, sorriu para eles, com seus grandes olhos verdes e faiscantes. E se foi.

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3 comentários em “Rosália e o Crisântemo – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Denise Cristine
    4 de dezembro de 2013

    Como pode ser tão triste e tão bonito?

  2. Jefferson Reis
    20 de novembro de 2013

    Interessante. Isso me fez lembrar um quadrinho que li ontem, sobre um garoto com câncer que vence a morte no video game.

    • Gustavo Araujo
      20 de novembro de 2013

      Obrigado pela leitura e pelo comentário, Jefferson. Escrevi esse conto há alguns anos e mesmo tendo sido um dos primeiros, é também um dos que mais gosto.

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Informação

Publicado às 30 de maio de 2013 por em Contos Off-Desafio e marcado .