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“Eu Sou o Último Judeu” – Resenha (Gustavo Araujo)

EU_SOU_O_LTIMO_JUDEU__TREBLINKA_1267965227PHá muito perdi a conta do quanto li a respeito do Holocausto, um dos capítulos mais infames da história da humanidade. Para ser franco, já me considerava até anestesiado pelos relatos das barbáries cometidas pelos alemães na II Guerra.

Essa sensação de rotina, entretanto, desapareceu quando li “Eu Sou o Último Judeu”, de Chil Rajchman.

Claro, as descrições de assassinatos e torturas, da vida miserável e das milhares de mortes anônimas estão lá, mas o que verdadeiramente causa impacto na narrativa de Rajchman é a crueza da escrita, o modo direto, quase impessoal, utilizado para traduzir os onze meses passados em Treblinka.

A apenas 100km de Varsóvia, afundado até a medula em um cenário de charco e areia, Treblinka tornou-se conhecido como o campo de extermínio mais eficiente na máquina assassina nazista. Durante seus dezesseis meses de funcionamento, o campo ceifou a vida de nada menos que 900.000 mil pessoas – homens, mulheres e crianças – de modo industrial, numa média de 56 mil pessoas por mês, ou quase duas mil pessoas por dia.

Não havia trabalho forçado, como em Auschwitz ou Birkenau. Em Treblinka, os judeus eram vertidos dos trens abarrotados e imediatamente divididos em filas. Despojados de seus pertences e do que lhes restava de dignidade, marchavam, nus, sob gritos e vergastadas, diretamente para as câmaras de gás, onde o fim da vida lhes esperava.

Alguns eram sacados ao acaso dos corredores da morte para os trabalhos decorrentes da matança. Chil Rajchman foi um deles. Iniciou como tonsurador, cortando os cabelos das mulheres que seguiam para a morte iminente, testemunhando em silêncio seu choro e desespero ante a hora derradeira. Foi incumbido de revirar pilhas e pilhas de roupas, em busca de joias e dinheiro para os nazistas, tendo, em certa ocasião, se deparado com o vestido de sua irmã. Arrancou dentes de cadáveres, transportou corpos para valas comuns e foi obrigado a reabri-las para queimar o que restava das pessoas, numa tentativa dos alemães em acabar com qualquer evidência dos crimes.

Por razões que derivam puramente do acaso, Chil Rajchman foi um dos 57 sobreviventes de Treblinka. Isso mesmo: apenas 57 pessoas sobreviveram ao campo. Rajchman fugiu do campo em agosto de 1943, em decorrência de uma rebelião, escondendo-se em Varsóvia, onde escreveu o relato de sua experiência antes mesmo que a guerra terminasse.

Com o fim do conflito, Chil Rajchman imigrou para o Uruguai, onde se casou e teve três filhos. Viveu até 2004, testemunhando em diversos processos contra criminosos nazistas. O texto sobre seus dias em Treblinka, no entanto, seria publicado somente em 2009.

A concepção do relato durante a guerra talvez seja a razão maior da crueza e da simplicidade estarrecedora que o permeiam. Não há espaço para divagações pessoais ou interpretações filosóficas. Não existe o “eu”. Desfez-se o homem. Demoliu-se o ser humano. Talvez sejam as 160 páginas mais pungentes da literatura dedicada ao Holocausto judeu.

Um livro imperdível.

5 comentários em ““Eu Sou o Último Judeu” – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. José Leonardo
    21 de junho de 2016

    Todo livro sobre o Holocausto nos dá socos no estômago quando nos deparamos com a insana naturalidade dos acontecimentos, da humilhações, dos métodos de extermínio. Dado o grande holofote que Auschwitz tem sobre si como um palco sintético-emblemático dos horrores do nazismo, muita gente acaba esquecendo dos tantos outros campos, incluso o de Treblinka. Ótima resenha. Um livro muito bom, por sinal.

    • Gustavo Castro Araujo
      21 de junho de 2016

      É verdade, José. Auschwitz é o campo mais falado, mais famoso, talvez por causa de “A Lista de Schindler” ou do livro do Primo Levi (É Isto um Homem?). Mas, como bem apontado por você, Treblinka se destaca pela barbárie e pela industrialização da morte. O livro do Chil é ótimo porque nos passa muito dessa atmosfera, mas ouso dizer que o relato do Vassili Grossman (O Inferno de Treblinka) é ainda mais aterrorizante, não só pela riqueza de detalhes, mas também porque Grossman era um escritor como poucos. Recentemente, o filme “Filho de Saul” conseguiu captar os aspectos mais terríveis do dia a dia nesses campos de extermínio. Para quem tem interesse na matéria, é obrigatório.
      Agradeço a você pelo comentário e pela leitura da resenha. Um abraço!

  2. angst447
    20 de junho de 2016

    Apesar do tema ser bastante pesado, o livro parece bem interessante como forma de estudo do comportamento humano. Muitos ainda se negam a aceitar que o Holocausto aconteceu de fato. Parece mesmo incrível que algo tão desumano possa ter ocorrido há menos de século. Ótima resenha.

    • Gustavo Castro Araujo
      21 de junho de 2016

      Claudinha, que grata surpresa! Já não esperava um comentário nessa resenha que escrevi há tanto tempo. Acho que foi um dos primeiros textos publicados aqui no EC. De fato, o tema é extremamente pesado, mas obrigatório. Agradeço a sua leitura e suas impressões!

    • Samuel Yacoov
      22 de outubro de 2019

      Não só para o estudo do comportamento humano, como também faz-nos refletir concernente ao descaso que as democracias modernas (os aliados e os demais países europeus) fizeram a respeito dessas barbaridades. Desde 1942, a BBC já anunciava que os judeus estavam sendo exterminados. E mesmo assim, foram coniventes. Como disse Nanette Koling num depoimento. Ela que sobreviveu ao extermínio dos judeus holandeses.

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Informação

Publicado às 27 de março de 2012 por em Resenhas e marcado , , .