EntreContos

Detox Literário.

ER 3 – Sem Pecados (Claudia Roberta Angst)

Capítulo 1

 

Sofro de bondade. Nasci assim. Minha mãe, dona Helena, fervorosa devota de Santa Clara, fez de mim um Francisco sem riscos. Batizou-me antes mesmo de eu nascer, com a água dos desejos mais íntimos. Predestinado, abençoado, gosto de pensar que recebi graças já no ventre materno. Até hoje não conheci viva alma que negasse tal fato. Sigo, portanto, essa sina sem reclamar. Ou quase.

A infância é um território que revisito com cautela. Muito por cuidado de não macular as memórias tão bem guardadas. Há também a possibilidade de estar recriando situações que só existiram na minha cabeça. Como abomino mentiras, prefiro não me referir ao montante de vida que precede o hoje. Por isso, mantenho qualquer relato no tempo presente, mais próximo da minha realidade atual e, se algum engano cometer, não será por soberba ou vaidade.

Cresci entre as imagens dos santos, e apelo a eles, vez ou outra, quando alguma precisão surge. Foram os meus primeiros amigos de infância. Confio neles de olhos fechados e mãos estendidas. Sempre recebi o que me propõem como graça. Nosso relacionamento continua baseado em total confiança, pelo menos da minha parte. Espero que também acreditem em mim.

Fui sendo criado aos bocados, aqui e ali, como dava para ser. Pobre se arranja como dá. Pois é, eu me saí até bem, acho que foi essa coisa de santo aqui, anjo ali. Nunca quis despertar desgostos por minha causa. E tinha Mamãe, como poderia desapontar aquela santa? Santa? Não, não me entenda mal, é uma boa pessoa, mas santa não é, não.

Tenho três irmãos que me seguem em ordem decrescente: Tadeu, Pedro e Catarina. Falam e fazem bobagens o tempo todo.  É lamentável o comportamento que apresentam, indigno da casa materna. Como sou o mais velho, julgo ser minha obrigação orientá-los no caminho do bem, mas até agora não obtive qualquer resultado favorável. Por ora, resolvi entregar a questão nas mãos de Deus, e assim dispenso meus próprios sermões. Finjo que nada vejo dos desacertos cometidos por aquelas três almas perdidas. Não é abandono. É misericórdia. Sou bom, já disse.

São poucos os que reconhecem o meu valor. Sobretudo meus irmãos, esses desdenham da minha bondade, das asas que não enxergam. Inventam histórias sobre meus passeios na praça. Implicam com hábitos que nada lhes dizem respeito. Já inventaram uma montoeira de calúnias, só mesmo para me desabonar. São terríveis aqueles três.  Tento não me abalar com suas travessuras, mas me é custoso demais enfrentar tanta injustiça. Sinto-me deveras agredido, maculado na minha essência.

Pedro deu pra dizer que tenho um caso com uma vizinha, a viúva do coveiro da cidade. Não é a primeira intriga que tece a meu respeito. Quando se cansa de um enredo, modifica as injúrias com novos detalhes sórdidos. Catarina e Tadeu o auxiliam na orquestração do Mal, espalhando pelas ruas que ora fumo maconha sob a árvore centenária no centro da praça principal; ora tenho ímpetos pedófilos e persigo moleques nas vielas da vizinhança. Como podem ser tão sórdidos? Meu próprio sangue!

Se odeio meus irmãos? Claro que não! Já disse: sou bom. Tenho esperanças de que um dia, eles encontrarão seu manto de boas intenções. De santos, os nomes já têm. Falta-lhes, talvez, essa coisa que chamam de coração.

Mesmo com os entraves com meus irmãos, a casa sempre foi meu casulo e abrigo. Sinto-me acolhido e experimento uma espécie de solidão que muito me agrada. Os outros que habitam a moradia são percebidos quase como vultos, seres que se parecem comigo, mas são mais como intrusos, exceto minha Mãe, claro. Há outras presenças, mais sutis, tênues sombras, percepções intuitivas.  Quem são eles? Anjos, talvez, arcanjos, seres divinos, sem dúvida. Todos me rodeiam de um modo estranho, com uma mistura de curiosidade e espanto. O que veem em mim? Será mesmo que me enxergam?

Meu pai? Nunca vi. Será que tive um? Dizem que todo mundo tem um. Ou dois como o primo Leo. Dois pais, imagina, nunca entendi esse acerto. Eu ficaria confuso, desorientado na hora de preencher documentos e formulários. No fundo, admito, acho errado. Mãe diz que não é da minha conta, eles é que sabem de si e não devo julgar o que não entendo. E não entendo mesmo, viu.

Pai, José Antônio de Moraes Brandão. É o nome que consta na minha certidão de nascimento, mas… pode haver outra versão da história familiar. Não gosto de pensar nesse assunto porque me dá dor de cabeça e me sinto perdido em um grande labirinto de perguntas sem respostas. A saída está logo ali, eu sei, mas tenho evitado chegar perto…Pode ser muito doloroso.

Vivo adiando essa conversa com a Mãe. Sim, estou empurrando para uma data indefinida o questionamento que tanto me angustia. Por quê? Talvez por medo. Admito que nutri a vida inteira a esperança de ter desmentido o abandono paterno. Sigo a percepção do que julgo ter vivido mesmo sem ter a experiência validada. Iludo-me com a possibilidade de ser apresentado a uma realidade ignorada por anos.

Tenho sonhos recorrentes, sempre com o mesmo enredo. Confronto a Mãe com uma só pergunta: cadê meu pai? Antevejo a tragédia nas palavras ainda não ditas. Penso em recuar, deixar meu passado enterrado, pulverizado em cinzas. Mas ele está comigo. O passado é como a sombra que não se descostura dos pés.

Posso ter me enganado na construção da figura paterna. Afinal, só tive acesso a silêncios. Talvez meu pai tenha morrido aos poucos e sua imagem foi se apagando, sem deixar rastro. Adoraria ser capaz de imaginá-lo ao lado de Deus Pai. Mas minha mente criou muitos enredos, alguns tenebrosos, pois até a ideia de ser filho de um monstro é melhor do que essa eterna ausência, a espera por aquele que nunca virá. Assim, ele, meu pai, pode permanecer intacto, envolvido em uma aura de mistério, o herói desaparecido sem qualquer explicação.

Dizem ser um alívio conhecer a verdade, assim está na bíblia: A verdade vos libertará. Receio que, ao invés de me libertar, a verdade possa me matar. Se meu pai fosse bom, ou mesmo alguém apenas fazendo figuração pela casa, já me bastaria como recordação. Melhor ainda seria se ele fosse um ente querido já falecido, pois então eu não precisaria de lembrança alguma, e seria eterna sua presença em mim.

Padre Olavo diz que sou um filho de Deus e devo rezar para a salvação da alma de meu pai. Qual deles? O monstro ou Deus?

E se Deus não existir? Serei então órfão duas vezes.

Mas que tolice! Claro que Deus existe, ou nem eu mesmo existiria. Às vezes, tenho esses pensamentos loucos, percebe? Fico contradizendo minha crença, minha natureza, talvez procurando vestígios de pecados inexistentes

Não tenho pai, não neste mundo. Deus é o meu pastor, meu guia e proteção. Mas daí a tratar o Altíssimo como “papai” acho um pouco ousado demais. Blasfêmia, sabe?

 

Capítulo 2

 

Quando Vó Dolores, Deus a tenha, partiu para o paraíso – pelo menos esse era o destino pretendido por ela –, eu ainda me conservava puro. Ela incentivava a virtude que vislumbrava em mim. Dizia que as chamas do inferno jamais me tocariam se eu me mantivesse virgem até a última gota de sangue. Nem mesmo um beijo haveria de experimentar. Nem dado, recebido ou roubado. Meus lábios deveriam permanecer intocados, meu corpo jamais violado. Achei tão bonita essa imagem que não me pareceu sacrifício algum atender ao pedido de minha querida avó.

Virgem e puro, sou sim. E acho que permanecerei assim até o dia da minha morte. Depois, seguirei os desígnios do Nosso Senhor.

Tudo tem a sua razão de ser. Minha pureza foi protegida pelo andar da vida. Não sei se foi mesmo uma escolha que fiz, ou se me deixei levar pela falta de aptidão por relacionamentos carnais. Minha essência é mais de missa do que de abraços e beijos.

Não alimento paixões desde os cinco anos de idade. Naquele tempo, eu achava que era um menino como todos os outros, nem anjo, nem demônio. Um moleque. Um guri.  Um desavisado dos desvios do mundo. Foi quando sofri minha primeira desilusão. Descobri que a Tia Celina, professora da pré-escola, não podia se casar comigo. Havia outro. A aliança denunciava um sujeito-marido como meu rival.

— Quando você crescer, Chiquinho, também vai ter alguém assim, de amor contínuo, abençoado por Deus.

Ela falou lá outras palavras, mas registrei o que quis dizer desse jeito. Achei bonito ela me desejar a realização de um amor sacramentado. Mesmo assim, estava perdida para mim. Não era mais minha santa, minha adorada redentora de todo mal, fosse na escola ou fora dela.

Humanidade. Foi isso que impediu a realização daquele primeiro amor, tão singelo quanto o lírio no altar de Nossa Senhora. Percebi que existiam outros a disputar o amor da doce Celina: meus colegas de classe. Diante de tão terrível descoberta de estar amando uma leviana, que a todos se entregava em dedicação, fechei meu coração ao mesmo tempo em que desenhava o meu primeiro a.

De lá pra cá, aceitei viver meu quinhão de mazelas neste mundo de provação. Nunca menti sobre sentimentos, pois sabia que seria uma empreitada inútil e cansativa. Só arrumaria dor de cabeça e canseira quando tivesse de desviar dos cascudos que viriam em seguida. Estes, garanto, nunca mereci.

Minha vida amorosa é, portanto, um grande vazio. Refiro-me ao sentimento que se conhece como amor romântico, essa coisa que se dá entre um homem e uma mulher, ou de dois iguais (ainda acho estranho, mas Jesus orientou a não atirar julgamento algum). Não sei o que é esse amor de novela, essa bobagem de sentir o coração palpitar, o frio na barriga. Tudo uma grande trucagem de cinema, apelo para alavancar as vendas de flores, bombons, joias.

Às vezes, na praça, observo os casais de namorados. Apaixonados. Mas o que é a paixão a não ser uma patologia, uma doença? Não entendo porque se exalta tanto esse estado de espírito. A Sexta-feira da Paixão não deu em boa coisa, mas aquelas dores parecem ser celebradas todos os anos. Eu troco de dores, mas paixões nunca me dominam, eu não viro outro, eu só sei ser Francisco.

Tanto faz se é praga de vizinha ou maldição de família, sou um ser solitário. Não tenho planos de ter filhos, minha vida é seca em todas as raízes e ramificações. Nasci para brotar em momentos específicos, florescer de acordo com a vontade divina.

— Chico, tu é mesmo muito estranho. Nunca te vi com uma mulher, nem mesmo uma namoradinha…

O espanto de Catarina era mais curiosidade de fofoqueira em formação do que interesse pela minha vida amorosa. Queria de mim algum material para maledicência. Tadeu e Pedro não só riem da suposta ingenuidade de nossa irmã, como também testam minha paciência além do suportável.

— Quem disse, Catarina? Esse aí não me engana, não. — Tadeu dá-se ares de sabichão.

— Você acha que ele…?

— É só perguntar para a carola dele… a viuvinha do cemitério. — Pedro se antecipa e fornece o escárnio à conversa tendenciosa.

Nessas horas tenho vontade de socar meu irmão, Pedro é muito desaforado. Tenho ganas de triturar seus dentes no asfalto, mas isso seria contradizer minha natureza. Sou da paz, sou de Deus. Então, deixo escapar a infâmia como se fosse uma nuvem carregada, um obstáculo passageiro a esconder por minutos a luz solar.

— Vocês não têm o que fazer, não? Vão estudar, trabalhar, a Mãe deve estar precisando de ajuda lá na cozinha.

Frustrados em seu diabólico intento, eles dão de ombro e me ignoram totalmente. Nunca hão de me atingir com baixezas e maledicências. Faço o sinal da cruz, olho para cima, satisfeito. Triunfo no meu íntimo, sinto-me forte e digno da benevolência divina. Sou puro.

 

Capítulo 3

 

O mundo parece não aceitar, mas não conheço outra verdade: sou bom, realmente bom. Não perfeito, pois isso seria soberba e dela não me visto. Não sou melhor do que ninguém e nem invejo qualidade alheia. Mas sei que sou bom, sigo o caminho do Bem, sempre orientado pelos mandamentos da Santa Igreja. Afinal, não devemos todos seguir o modelo de Nosso Jesus Cristinho?

— Está indo por um bom caminho esse rapaz.

Sorrio quando lembro das palavras do professor Tobias, que lecionou matemática nos meus primeiros anos de escola. Soaram para mim tal qual uma profecia feliz.

Minha mãe, sempre que me elogiam, reage com os olhos aguados de orgulho. Não a recrimino, quem no seu lugar, não se sentiria vaidosa pela criação de um filho assim como eu? É uma missão e tanto, cumprida com louvor.

Nunca mais encontrei o professor Tobias, talvez já esteja no reino dos céus. Difícil calcular a idade que ele teria hoje, já que para uma criança qualquer adulto é velho. Mesmo assim, procuro honrar daquele que profetizou minha saga nas veredas do Bem.

É uma esperança que tenho: me aproximar a cada dia um pouquinho mais da santidade. Acredito que essa seja mesmo uma abençoada ambição. Considero os muitos obstáculos que enfrentarei, mas nada há de me deter. Levará tempo, eu sei, e tenho consciência que já não sou um menino. Apesar disso, me concedo essa pretensão, me tornar digno de ser um verdadeiro filho de Deus.

Sim, eu sei que disse aquilo antes. Aquela bobagem de às vezes duvidar da existência de Nosso Senhor, o Altíssimo. É a tentação do demônio. Dela, nem mesmo eu, um Francisco sem cisco, estou livre. Tenho meu percurso pelo deserto, onde preciso abdicar de qualquer dúvida e fortalecer meu espírito.

Sempre considerei repulsiva a facilidade de algumas pessoas em se deixarem abater. Isso me faz pensar em gado conformado com o seu destino, ruminando a vida em mágoas acumuladas. Gente ressentida! Nunca fui de cavar nostalgias. Por isso, não tenho pressa alguma. Se houvesse precisão, uma urgência maior do que a própria vida, eu continuaria a agir com calma. Confio no tempo a mim concedido. A eternidade é espaço vasto, infinito.

Não presto, não para viver como todos os outros. Acham que me engano, que deveria experimentar outros caminhos, mas eu sei que não poderia viver para isso que chamam de liberdade. Talvez tenha vocação que só receba incompreensão, mas não há como me desviar do meu destino. Do pecado já fui logo me despedindo assim que me batizaram. Não há linhas suficientes na palma da mão para acolher heresias. Eu não sou esse tipo de pessoa, muito menos seria capaz de fazer pactos com os aliados do Mal. Não empresto minha alma.

Não vendo, não troco, não imponho minha fé. Já nasci assim, proibido de desfazer do que já levava o nome do Altíssimo. Não são só palavras. Não é somente emoção. É o avesso do que muitos vivem sem se questionar. É o começo do que eterno, o caminho não percorrido. É o que nem sei nomear.

Deus existe. E Deus não sou eu. Ou serei parte do Pai?

Não, Francisco, você está embaralhando de novo as ideias. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Francisco é o resto, digo, sou eu. Ser jovem atrapalha nessa hora de definir quem sou, pois transito em território de constante transformação.

Nada é por acaso, tudo obra do Altíssimo. Nasci no dia 6 de agosto, data em que se celebra a transfiguração de Jesus, a glória divina revelada.  No Monte Tabor, o rosto de Nosso Senhor brilhou como o sol e suas vestes ficaram brancas como a luz. Deve ter sido um espetáculo belíssimo, impossível de ser descrito de forma a respeitar a grandiosidade da ocasião.

Seria muita pretensão buscar também pela minha transfiguração? Isso só quem pode responder é o meu Pai. Sonho com a intercessão divina a me elevar, me permitindo ouvir o canto dos anjos. E por que não? Essa será a minha verdadeira exaltação. Imagino os obstáculos que enfrentarei. O caminho é longo e não haverá de ser fácil, mas a ele dedicarei toda a minha vida.

Por enquanto sou apenas um Francisco e não me peçam mais do que isso.

 

Capítulo 4

 

Sirvo-me frugalmente da vida e da mesa. Sempre com parcimônia, alimento-me enquanto escuto pacientemente a ladainha de minha velha mãe. O sino dobra ao meio-dia e a igreja matriz parece se aproximar dos meus pensamentos. Ali na cozinha revestida com azulejos datados de uma feiura familiar, sorrio para aquela mulher, imaginando como ela seria com dentes.

— Coma em silêncio, se assim te agrada.

Muito me agrada, o calar enquanto manejo talheres e corto a carne que não é a minha. Por alguns minutos, talvez cinco, não mais do que dez, dona Helena silencia até os pensamentos. Olha-me esperançosa, talvez esperando elogios pela refeição preparada com desvelo e prontidão.  Concedo-lhe um pouco de gabação, não muita, porque a vaidade, todos sabem, é o pecado favorito daquele lá, o dito cujo que não se deve nem pronunciar o nome. E qual denominação eu escolheria se tem tantas?

— A comida tá boa como sempre. Muito obrigado, Mãe.

O meu agradecimento é bem recebido, mas ela dissimula qualquer traço de vaidade.

— Fico feliz em servir minha família com amor e a benção de Nossa Senhora. Santa Clara também me valha nessa missão sem fim.

Ela não há de parar com o desfiadeiro de agradecimentos, que a mim parece mais uma lamentação por uma vida que não era a pretendida por ela. Só desconfio porque marido não há, nem foto, nem paradeiro de um sujeito que com ela tivesse deitado e providenciado a seu mando quatro filhos e mais um tanto de sofrimento.

Talvez por isso, eu perca a aura angelical na presença de minha mãe. São esses pensamentos, esse indagar da minha origem, da filiação mal construída, do nome de um desconhecido nas linhas da certidão de nascimento. Acho impuro, mas não quero pensar sobre isso. Preferia acreditar que nasci de uma virgem tal como Maria, mas não posso. Como poderia me comparar a Nosso Senhor Jesus Cristo?

A ideia de ter nascido de uma relação carnal me enoja. Padre Olavo diz que está tudo bem, que é da natureza humana, um filho sempre será bem-vindo, pois será mais um ser criado pelo Altíssimo.

Tenho essas coisas que me passam pela mente, assim de modo repentino. Não que eu queira o mal de alguém, mas às vezes as pessoas me aborrecem. Acho que dá para entender isso. Todo mundo tem seus limites. Se eu fosse perfeito não estaria neste mundo, não é mesmo?

 

Capítulo 5

 

A falta de vaidade herdei ainda no berço. Poucos espelhos existem em minha casa, apenas os necessários para garantir asseio e compostura. Nariz mirando horizonte, limpeza e ordem. Não mais, não menos.

Mamãe nunca se importou muito com a aparência, e quando precisa verificar se está tudo no lugar pergunta para mim ou pros meus manos. Nem mesmo parece se dar conta dos dentes que foi perdendo ao longo dos anos, parto após parto, ranger sem encontrar atrito na boca. Não fala em beleza, mas vez ou outra elogia o porte e o sorriso de minha irmã. Catarina sim, ostenta a soberba se achando rainha por ter o que chamam de presença.

— Ninguém pode negar, minha filha, que você é bonita por demais.

— A Catarina já é um nojo de tão convencida, e a senhora fica aí incentivando essa garota.

Pedro parece reconhecer o perigo da soberba, da vaidade que pode levar nossa irmã ao caos. O inferno deve estar cheio dessas belezas carnais sem um bocadinho de formosura de alma.

Catarina não ouve as recriminações, muito menos se assusta com qualquer aviso quanto a sua condenação. Olha-se no espelho e sorri. Fica ainda mais bonita assim, não nego. Os agentes do Mal têm mesmo suas artimanhas.

Imagino que essa garota seja parecida com o pai, talvez aquele mesmo homem que responda pela minha aparência jeitosa. Não faço feio. É o que dizem, eu nem me atrevo a buscar no espelho respostas que me afastem da humildade. O asseio e um pente nos cabelos já me fazem apresentável aos olhos de Deus.

— Todos os meus filhos são lindos, inteligentes e fortes. — Mãe afirma com satisfação.

Não posso contrariar as palavras de minha mãe. Nós quatro somos, de fato, bem feitos de corpo e cara. Pedro e Tadeu têm o mesmo olhar molhado de dona Helena, herança hispânica. Os olhos escuros sempre brilhantes parecem sorrir a cada piscar. Os cabelos são como os meus, ondulados e de um castanho acobreado, metal tilintando ao sol. Já nossa irmã ostenta uma vasta cabeleira, lisa e escura como ônix, caindo pelos ombros e costas, chegando à cintura.

Tantos os meus olhos quanto os de Catarina assemelham-se a um azul de catálogo de cores. Dizem que herdamos essa e outras características do nosso pai e que devemos agradecer por carregar dele a sua única qualidade: a beleza.

Talvez Catarina tenha se esmerado mais em cultivar os traços herdados, investindo em roupas que a deixam ainda mais exibida. Convencida da impressão positiva que causa, revela-se uma flor a ser colhida sem cuidado. Temo por ela, mas nada posso fazer se não valoriza o tesouro que tem entre as pernas. Não sei bem do que se trata, mas foi assim mesmo que Mãe falou: tesouro entre as pernas. Acho desnecessário dizer o quanto essas palavras me constrangem, não sei lidar com esse tipo de vulgaridade.

A beleza também me atrai, claro. Desde os tempos do catecismo, meu olhar se desmancha pelos corredores da igreja. Gosto de ficar olhando as imagens de santos e anjos. Cada lado do templo sagrado tem seis esculturas, todas ladeadas de flores. Procuro sempre que possível recolher as pétalas caídas e trocar os vasos. Isso quando não me perco no tempo a observar tamanha boniteza. No altar, a imagem de Nossa Senhora, iluminada pela graça e esplendor dos céus, acompanhada por todos os lados graciosas santinhas. Mesmo desprovidas de qualquer vaidade, aquelas são as feições mais lindas que já vi na vida.

— É pecado admirar a beleza, Padre?

— A beleza foi dada por Deus, não há de ofender aos céus dar graças por ela.

— Mas e a vaidade?

— Ah, o pior dos infladores do ego, o mal que leva a tantos outros pecados.

— Minha tia comentou comigo que viu um filme em que o próprio, sabe aquele, o do Mal, dizia que a vaidade era o seu pecado favorito.

— E deve ser mesmo, já foi responsável pela derrocada de muitos humanos. Só santos e anjos não são contaminados por presunção dessa natureza, meu filho. Já superaram essas mesquinharias.

— A beleza seria um dom?

— E por que não? Tudo o que Deus faz é perfeito. Até mesmo nós, Francisco. Há em cada um a fagulha da perfeição divina.

— Mas ser vaidoso…

— Deve-se temer a vaidade, o Mal espreita à beira de qualquer espelho.

— Não gosto de espelhos.

— Mesmo que se afaste deles, não há como negar, você é um rapaz muito bem apessoado.

Algo congela em mim naquele momento, um mal-estar me invade como alarde. Não gosto do jeito que Padre Olavo me olha. Os olhos se estreitando, a boca quase salivando. Peco, pois imagino que de certa forma ele cobiça o que vê em mim, seja a juventude, seja a suposta beleza que muitos me atribuem.

Faço o sinal da cruz e me despeço do padre. Mal olho para minhas santinhas, todas enfileiradas na nau da igreja. Sinto meus olhos se encherem de muitas águas, sigo de cabeça baixa e punhos cerrados. Ouço ao longe um sussurro.

— Vá com Deus, meu filho.

 

Capítulo 6

 

Sou trabalhador, um profissional muito responsável. Servidor público, recebo à guisa de minha dedicação um bom salário. O suficiente para contribuir com as despesas da casa e ajudar os pobres. Calculo bem a parte que lhes cabe. Sou Francisco, mas não sou santo. Ainda não.

Não guardo muito dinheiro, só um tanto para qualquer emergência. É sensato se precaver contra os tempos de pouca fartura. Tenho pouca despesa, na casa materna se come e se vive bem. Meus irmãos também ajudam com o que conseguem separar das farras e gastos com veleidades. O dinheiro é deles, que usem com bom senso, é o que aconselho.

— Dinheiro não aceita desaforo.

— Mas a avareza é pecado capital, o apego danado às moedas.

Tadeu tem razão, ser sovina não é atitude de um cristão. Não foi isso que quis recomendar, mas sim o comedimento com os gastos. Se me pedirem conselhos, darei. Não pecarei por não oferecer o que tenho de sobra: bondade.

Meu sustento vem do trabalho, aquele que dignifica o homem. Por isso, valorizo o dia a dia no batente. Talvez não seja o emprego dos meus sonhos, mas neste mundo de provações quem é capaz de viver de quimeras?

O trabalho corre bem, do jeito que dá pra levar, como se poderia esperar de um emprego oficial e arranjado. Enquanto caminho pelo corredor, percebo que os colegas estão mais agitados do que o normal. Ora, se houvesse algo normal por lá, o dilema estaria instalado. Não perderia o meu tempo tentando descobrir qual fosse a novidade, tenho mais o que fazer. O intervalo do almoço às sextas-feiras é sagrado. E sepultado.

O cemitério surge como um ambiente bastante arborizado e tranquilo em meio à labuta diária. Traz um frescor aos dias mais quentes, além de uma oportunidade de me cercar de paz e arte. Reunindo mais de quarenta esculturas, segundo a contagem feita e refeita, a necrópole apresenta trabalhos dos poucos artistas da cidade.

Acostumado ao local, gosto de explorar novos ângulos dos monumentos fúnebres. Vez ou outra, penso em fotografar o que me parece mais fascinante: a morte em toda a sua beleza. A maioria dos meus conhecidos desconhece esse meu lado algo místico, talvez sinistro. É o meu prazer mais egoísta, um mergulho em um mundo particular do qual não consigo abrir mão.

Meus irmãos descobriram essas minhas incursões à beira dos túmulos. Claro que virei alvo de chacota entre eles, mas Mãe os proibiu de zombarem de meus hábitos. Tadeu é o mais feroz em suas observações.

— Sei bem o que esse aí procura entre os mortos.

— Deixe de implicar com seu irmão, menino. Mal não faz a ninguém, é só um hábito… peculiar.

Quando o calor começa a incomodar, sem demonstrar qualquer possibilidade de brandura, tento me esquivar entre as sombras de um arbusto. Talvez chova mais tarde, mas é pouco provável receber algum frescor no momento. Eu aceitaria ser aspergido com água benta, sem reclamar. Calor dos infernos! Lembro-me, novamente, do meu sonho e estremeço. Bobagem! Se Vó Dolores não tivesse contado tantas lendas urbanas a fim de inibir minha curiosidade juvenil, eu ficaria mais à vontade entre os mortos.

— Não brinca com essas coisas, menino! O demônio é mais esperto que tu.

Sacudo a cabeça, tentando desembaraçar as ideias com o movimento. Mas todas aquelas histórias estão gravadas em meu inconsciente e, de vez em quando, são rebobinadas como uma fita muito gasta, mas ainda carregada de cenas assustadoras. Lembro do diálogo tecido no sonho, a voz da Vó falecida há anos, a pergunta feita por mim.

— Por quem os sinos dobram?

— Por você, que prometeu mais do que todos os outros.

O que aquilo quer dizer? A voz familiar soa um tanto ameaçadora, feito um eco, rompendo meus tímpanos com dezenas de conselhos a serem evitados.

Penso no pai, não no Eterno, o Altíssimo, mas naquele fruto de imaginações empilhadas em anos de abandono. Visualizo as rugas que devem ter se aprofundado em um rosto similar ao meu, marcas aradas em uma pele cada vez mais sem vida.

Percebendo o pouco movimento ao redor, me esgueiro pelas ruas do labirinto de túmulos. Procuro por uma sombra e me deito sobre a campa mais espaçosa que encontro. O mármore, escurecido pelos muitos dias sob os efeitos do tempo e das chuvas, parece receber o meu corpo sem resistência. Sabe acomodar os ossos sem que eles se amontoem em desconforto. Doem-me as juntas, talvez seja dengue, talvez o acumular do cansaço. Seja como for, estico os músculos no espaço generoso produzindo uma prazerosa sensação de entrega ao nada.

Tenho mais alguns minutos, antes que a obrigação me bata continência. Fecho os olhos e pouco retenho na retina, além dos olhos de meu suposto pai. Os pés pesam primeiro, como agarrados por cipós imaginários, heras cobrem pernas e braços. O corpo todo cede, envolvido pela areia movediça que brota ao meio-dia.

Abro os olhos, primeiro em lenta disposição, temendo não ser mais deste mundo. Meus olhos fitam o céu agitado, prestes a abrigar uma tempestade. Depois, encontram a placa, a lápide que reluz em bronze polido, as letras em relevo ainda mais lustradas José Antônio Salv… As letras caem embaralhadas, e antes que eu possa terminar de ler Salvador, a dor avoluma-se em meu peito, uma angústia sem fim.

Com o susto e a pancada da hora imprevista, o coração cede ao ritmo que se avizinha. O som cresce enquanto o sangue percorre o vazio. Fecho os olhos, sem guardar lembrança alguma. Mais uma vez, escuto a voz. Um último aviso antes da tempestade. O que me aguarda, meu Deus?

Sinos dobram ao longe.

 

Capítulo 7

 

Avisto, a alguma distância, dona Olívia. Os cabelos frouxamente amarrados em um coque que deixa escapar alguns cachos. É quase loira, assim sob o sol, parece mesmo ter um halo dourado sobre a cabeça. Já na sombra, tudo nela parece acinzentado, desbotado como se tivesse enfrentado muitas lavagens.

Nunca reparei nos olhos, mas me parecem de longe, comuns. Nem belos, nem feios. Nem sei de que cor são, se azuis, verdes ou castanhos. Oh, ela levanta agora o rosto. Sim, ao sol se traduzem como verdes ou algo semelhante.

Olhando mais de perto, dona Olívia parece mais velha do que deve ser, mas não lhe falta certa graciosidade. O luto é que pesa no seu andar, tudo perde o brilho de qualquer juventude que possa ainda resistir.

É bonita, admito. Nestes poucos segundos que a vejo se aproximar, posso julgá-la agradável ao olhar. Não como as minhas santinhas, mas há nela algo que chama a atenção, uma beleza disfarçada, talvez mesmo uma armadilha. O Mal tem seus truques. Deus me livre e guarde.

Apesar de vizinhos, nunca nos falamos, poucas vezes nos cumprimentamos, mas de longe, com um leve aceno de cabeça como agora. Ela passa por mim e sorri discretamente, como se custasse desenhar no rosto uma alegria tão falsa quanto pequena. Há um constrangimento quase palpável entre nós.

Somos dois estranhos que nada sabem um do outro. Meu irmão foi que inventou aquela intimidade vergonhosa, uma aproximação maior do que seria permitido. Provavelmente para ocultar o que realmente sabe ser a verdade. Ele sim, Pedro, deve ter trocado com a viuvinha fotos e silêncios constrangedores.

Acredito que dona Olívia seja uma mulher muito gentil, pois está sempre sorrindo, apesar de ainda não haver despido os panos do luto. Uma jovem senhora que me passaria despercebida se não fosse o que aconteceu.

Não posso garantir que as coisas se sucederam como consigo relatar. Tento reproduzir o que me foi dito e reconstruído em minha mente. Se falho com a verdade, que Deus me perdoe, pois não pretendo jurar em vão, nem mesmo por um irmão. Pedro, meu sangue e castigo, é um complexo enigma nessas coisas de amar. Jovem, quase um adolescente, tem mais imaginação do que poder de ação. Duvido que se encaixe entre as possíveis fantasias de uma viúva, por isso a descoberta da improvável relação me espantou tanto.

A vida é cheia de surpresas, algumas mais difíceis de assimilar. Demorei um bocado para compreender a narrativa que me foi imposta. Não fui fuxiqueiro, longe de mim, mas acabei por ouvir mais do que devia das conversas entre Pedro e Tadeu.

Muitos meses depois do passamento do senhor Osias, coveiro municipal e marido exemplar, dona Olívia encantou-se por um quase menino, o inquieto Pedro. Marcaram um encontro na pracinha, foi o que ouvi o jovem enamorado confidenciar a Tadeu. Ali, em frente à velha igreja. Talvez tencionassem se misturar com os outros casais, sem se fazer notar. Acreditavam que os santos e anjos cobririam os olhos e ouvidos de todos. Se fosse afeto de verdade não haveria de ser pecado. Nunca fui capaz de pôr valor em sentimentos.

A tal da paixão estava a reinar naqueles corações e a fama de namorador sobrou para mim. Dona Olívia deve ter quase o dobro da idade do meu irmão, mas quem está a fazer contas? Recorro a Jesus e ele me inspira a nada julgar.

O dia esperado chegou. Era domingo, dia de festa. Ela deve ter espiado o céu pela janela e sorriu. Pôs o cravo vermelho nos cabelos, toda faceira. Não combinava com o vestido, de estampa desconexa, mas quem entende essas modas? Provavelmente ela se sentiu mais feliz do que nunca, com o seu mundo a dançar. Encontraria seu novo amor, na próxima hora, sem mais tardar.

Não sei o que de fato aconteceu, só posso deduzir pelos resultados. Meu irmão com sua roupa mais ajeitada voltou para casa horas depois, semblante carregado. E se pôs na janela a esperar. Não sei quem ou o que fez ele desesperar.

— Mas o que Pedro faz plantado nessa janela?

Mãe olhou firme para Catarina, e Tadeu fez sinal para a irmã se calar. Todos entendiam que ali se finalizava algo. Não era momento para graça.

— Deixe seu irmão em paz. Cada um sabe das suas tempestades…

Eu me retirei também. Fui buscar no travesseiro alívio para os pensamentos desencontrados. Agradeci aos céus por não ter sido contaminado por sentimentalismo algum. Logo concluí que o amor não devia ser coisa boa mesmo. Fazer meu irmão de pateta, logo o Pedro, tão malandro. Mas a razão me alertava, aquilo não era amor. Paixão é que tem essas cores desesperadas. Doença do coração que pode matar de um golpe só.

Imagino as várias possibilidades daquele encontro, que creio nunca ter se concretizado. Em outra casa, bem próxima das nossas paredes, a viúva acabava de se aprontar. O sorriso, antes tão fácil e leve, deu lugar às lágrimas. De repente se sentiu invadida por um mau presságio. No espelho, conferiu a vida. Não estava certo aquilo, não mesmo. Não era mulher para Pedro. Nem para mais ninguém. Olhou a pá encostada na porta. Enxugou as lágrimas e arrancou o cravo dos cabelos. Vestiu luto novamente.

 

Capítulo 8

 

Tia Cotinha, outro dia mesmo, me chamou de anjo. Assim, no meio de uma conversa qualquer, disse: meu anjo. O elogio, dito entre um sorriso e uma garfada no bolo de aipim, caiu-me mais do que lisonjeiro. Algo estranho aconteceu. Tive a nítida sensação de que alguma coisa crescia nas minhas costas. Apêndices clandestinos, dois calombos dificultavam meu apoio no encosto da cadeira.

— Sente-se bem, meu anjo?

Não soube o que responder. Estava encantado com o chamamento, a delicadeza de um carinho direcionado ao surgimento de minha natureza alada. Tive o bom senso de me conter. Afinal, seria pouco prudente revelar meu desconforto com o brotar da potência angelical. Apesar do meu estado de graça, preferi disfarçar a surpresa e deixar a prosa tomar outro rumo.

— É só aqui uma dorzinha, miúda, sem importância. Mas diga lá, titia, o que a trouxe para esses lados?

E ela se pôs a falar sobre mil assuntos que se perdiam em meio a comentários sem nexo. Desconfiei que a senhorinha começasse a perder a conexão entre a realidade e sua fantasiosa imaginação. Não sei ao certo sua idade, mas é mais idosa do que minha mãe, portanto, pelos meus cálculos, já passou há muito dos anos verdejantes. Gosto da sua aparência, um tanto displicente, um tanto caótica. Tem uma vasta cabeleira, metade tingida de um loiro desbotado, outra metade tomada pela alvura da inegável velhice.

Tia Cotinha tem lá suas esquisitices, mas me chamou de anjo e isso me basta para tomá-la como quase santa. Não vejo maldade em sua fala, nem no seu olhar úmido de uma alegria difícil de definir. Viúva há décadas, dedica-se aos netos e aos afilhados, tantos esses que nunca dá conta de supri-los de pequenas benesses. Faria mais se pudesse, sempre se põe a esclarecer. Seus recursos são parcos, mas a fé nunca a desamparou. É bem filha de Vó Dolores, que Deus a tenha em sua santa paz.

 

Capítulo 9

 

Minhas idas à praça dão-se por uma única razão: falta-me preguiça. Nada a ver com a viúva Olívia ou outra moça qualquer. Preciso apenas me movimentar, dar vazão à energia que a juventude me concede.

Não alimento o ócio, oficina daquele ser das trevas, que me nego a dizer um dos seus múltiplos nomes. Se não estou trabalhando ou auxiliando minha mãe na lida doméstica, encontro sempre um bom motivo para esticar os músculos. O corpo foi feito para isso, estar sempre em movimento, a favor da construção da escada. Que escada? Aquela que me levará aos céus, quando minha hora chegar.

Nunca fui indolente, nem mesmo descansado. Relaxado me parece xingamento dos piores que há. Jamais me apontaram tal falha de caráter. Mais do que isso, a preguiça é pecado, falta de vontade de agir, desinteresse em concluir trabalho espiritual ou físico. Minha cama conhece-me bem pouco. Dedico-lhe as horas necessárias de sono e só. Isso me basta para a manutenção do corpo, das funções vitais que precisam permanecer em equilíbrio.

Na praça, posso dar voltas, esticar as pernas, fazer exercícios nas barras e aparelhos ali dispostos pela prefeitura. Um incentivo para que os habitantes larguem o sedentarismo e cuidem melhor da saúde. Foi mais ou menos esse o slogan usado pelos políticos para enaltecer a contribuição que no fim é mais um pequeno amontoado de ferro e madeira. Poucos idosos se valem do local para alcançarem algum resgate de mobilidade. Crianças costumam utilizar a aparelhagem como palco de suas brincadeiras. Pelo menos, fazem bom uso do material que já apresenta sinais de desgaste e pontos de ferrugem.

O pipoqueiro, como sempre, está ali presente, no seu ponto, na metragem estipulada por alguém com poder de carimbo e alvará. Não falta um só dia, sempre a espalhar o aroma do milho estourado em manteiga. A criançada adora, eu me contenho, pois como disse não me entrego à gula.

Do lado oposto, está um outro vendedor, com seu boné branco e riso fácil. Não sei como se chama, é recém-chegado à cidade. Traz seu carrinho compacto, freezer cheio de sorvete, picolés de vários sabores. Não sei se são gostosos. Nunca provei um que fosse. Comedido permaneço, magro me conservo.

Cumprimento os dois homens com um aceno de cabeça. Não sou muito de falas, nem pretendo estabelecer amizades que não enalteçam meu estado de purificação. A humildade já conheço, a edificação do trabalho também.

— Vai uma pipoquinha hoje, meu jovem?

— Não, obrigado. Talvez outro dia.

O diálogo se repete com o sorveteiro, apenas o produto é trocado. Dia sim, dia não, insistem com o oferecimento. Acho até graça, pois nós três sabemos que é pouco provável que eu gaste meus reais com guloseimas.

Não sou mais criança, o alimento que busco é o espiritual.

 

Capítulo 10

 

Admito que a descoberta da suposta relação entre dona Olívia e meu irmão Pedro acendeu em mim uma curiosidade quase repulsiva. Não me orgulho desse meu deslize, mas padre Olavo disse que está tudo bem.

— Apenas poupe sua mãe desse desgosto.

Com certeza, a viúva já devia ter confessado seus pecados, ou ao menos a intenção de os cometer com meu desajuizado irmão. O segredo de confissão a manteria imune a fofocas de carolas e gente sem misericórdia. Quanto a mim, quem sou eu para julgar alguém? Ainda mais nessas coisas de namoro, das quais, reafirmo: tenho total desconhecimento.

Metade da história nasceu pronta, obtida da conversa ouvida entre meus irmãos. A outra metade foi minha imaginação que delineou a partir da reação de Pedro. Não me atrevi a perguntar sobre detalhes. Mantive a discrição, afinal ele nem desconfia que ouvi suas palavras sussurradas. Tenho bom ouvido, nada posso fazer a respeito.

O problema é que desde que soube do relacionamento do pós-adolescente com a viuvinha, não consigo desviar os pensamentos intrusivos. Talvez seja apenas curiosidade quase infantil. O que faziam? Do que falavam? Que mensagens trocaram? O que a viuvinha tinha visto no meu irmão?

Sei que expus na sombra do confessionário mais do que deveria, mas me senti protegido pelo sacramento religioso. Padre Olavo não se espantou com o que ouviu, nem expressou censura alguma aos envolvidos na trama amorosa. Sabe-se lá quantas fofocas não trazem aos seus ouvidos todos os dias.

Já pensei em mudar de paróquia devido àquele jeito do padre ficar me olhando. Seria mais fácil frequentar missa em outra igreja, mas todos iriam estranhar e aí a corrente de fofocas já se espalharia pelo bairro, talvez até pela cidade. Decidi aceitar a provação como penitência, se não pelos meus pecados, pelos do meu irmão. Devo ser misericordioso, tolerante com as falhas alheias e seguir os mandamentos sagrados.

Não confio no homem Olavo, mas no padre sim. E o padre impedirá que o homem avance por terrenos proibidos. O sagrado sacerdócio o deterá e me livrará de qualquer laço descabido. Vou rezar muito por isso, que a graça do esquecimento me alcance, que me faça invisível aos olhos do Mal.

Mas não quero mais falar sobre isso. Há tanto o que contar antes que possam me entender, portanto, não percamos tempo com os pecados alheios. Cada um que carregue com a sua cruz.

Não sei se é caso de fixação de ideias, se é uma fase de tormentas, se é o outro-lá-com-tantos-nomes a me rondar, mas é fato que não consigo me desprender da curiosidade. Ardo querendo saber que fim levou a história daqueles dois. Por que dona Olívia parece evitar minha casa? Por que sempre passa com os olhos baixos? Será que ela como eu também preferia ser invisível? Todos nós enfrentamos nossos próprios infernos.

— Meu Jesus, meu bom Jesus, que por mim morrestes na cruz, perdoai os meus pecados, já não quero mais pecar.

Escuto Padre Olavo suspirar, quase bufar de enfado.

— Você de novo, meu filho?

 

Capítulo 11

 

Sou um homem de hábitos frugais. Mantenho uma rotina específica ao me preparar para dormir. Pode-se dizer que faz parte do que chamam de higiene do sono. Acho engraçada essa expressão, dá a ideia de um ritual de autocuidado, como se eu fosse me limpar para dormir. Bom, pensando bem, faz sentido. Faço uma boa faxina nos meus pensamentos, buscando alcançar um sono de anjo. E, geralmente, é assim que acontece.

Tenho um quarto só para mim. Não é propriamente um quarto, assemelha-se mais a uma pequena cela. Não sou de luxos, preciso de pouco, o mínimo já me basta: uma cama estreita, um banquinho tosco que me serve de mesinha de cabeceira e um armário de duas portas para guardar meus poucos pertences.

Meu quarto fica no último andar da casa, uma espécie de sótão improvisado, antes lotado de quinquilharias dos antigos proprietários. Pedi a minha mãe permissão para limpar o espaço a fim de torná-lo meu aposento. Ela não se opôs, nem meus irmãos reclamaram, apesar de acharem tolice ocupar um canto inóspito, sem comodidade alguma. Mas a escolha foi acertada, meu refúgio fica no mais alto nível da casa. É o mais próximo do céu que eu poderia alcançar no momento do descanso noturno.

Pode parecer estranho, eu sei, mas tenho a impressão de que parto para outra dimensão enquanto meu corpo repousa. Não, não é uma fantasia. É uma certeza, tal qual os apêndices que me cutucam a pele das costas. Eles estão lá, lembrando-me do destino que me aguarda.

Depois de me ajoelhar perante o Altíssimo, aos pés da cama, faço minhas orações acrescentando pedidos e agradecimentos conforme o dia. Não sei quanto tempo levo nessa função, mas ela me traz paz. Meus joelhos reclamam um pouco, mas faz parte da penitência.

Terminada a romaria, faço um breve alongamento, preparando meu corpo para o descanso. Gosto da sensação de encerramento que a curta sequência de movimento causa. Pronto, deito-me sobre o alvo lençol. Sempre prefiro o branco, a pureza do algodão acolhe-me de forma providencial.

Para encerrar, já de olhos fechados, relembro minha missão. Tornar-me um santo com asas. Ou um anjo pleno de santidade. Não importa, o que preciso mesmo é me afastar de qualquer pecado que possa macular minha jornada. E esse não é um propósito fácil.

Sete são os pecados capitais. Vícios ou falhas de caráter, que originam outros tantos pecados, tendem a me testar. Sem conhecer a etimologia do termo “capital”, eu imaginava quando menino que esse era o pecado que vinha da capital para o litoral. Primeiro o Mal surge no centro, na capital, depois se alastra para os limites, as bordas, a costa litorânea. É incrível o que a imaginação infantil cria, tantas imagens para desenhar algo tão transcendental.

Sete, não seis, não oito. Sete inimigos a evitar. Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Gula, Inveja e Preguiça. Os mais difíceis de enfrentar são a ira e a inveja. Confesso que cobiço a elevação dos santos no altar e me irrito com as fraquezas dos mais próximos, sobretudo dos meus irmãos. Não chega a ser ira, mas o diabo se disfarça de pequenez para tomar o todo.

O desfecho do ritual culmina em uma espécie de lista mental. Rememoro o dia e conto quantas vezes tive de lidar com impulsos proibidos. Alivio a consciência a notar que atravessei mais uma jornada sem me deixar ludibriar pelas tentações.  Enfrentei sete saltos no vazio, contando somente com minha fé. O abismo fechou-se sem se alimentar com o eco dos meus pecados.

Sete são os dias da semana, as notas musicais, as cores do arco-íris. O número sete está em tudo, a totalidade, a perfeição, o sagrado, as chagas de Jesus Cristo. Sim, divago, é a hora de atravessar a linha tênue que me separa do mundo dos sonhos.

Sem o peso de improváveis pecados, sorrio no escuro. Meu anjo da guarda mais uma vez triunfa sobre o maligno. Adormeço.

 

Capítulo 12

 

Meu sono foi perturbado por um terrível pesadelo, diabrura do inimigo. Começou como sonho inocente, o rosto de dona Olívia sob um véu rendado. Não era o manto da viuvez, mas o de noiva, com flores de laranjeira e toda a pompa que mostram em filmes e novelas. Linda, com os olhos mais radiantes do que esmeraldas. A beleza era tamanha que poderia facilmente ser comparada com a das santas do altar de Padre Olavo. Um esplendor!

O encantamento manifestou-se de forma divina, para depois tudo mudar de repente. O cenário de enlevo transformou-se radicalmente. Surgiram ventos de todas as direções, arrancando o véu e pedaços do vestido. Através dos rasgos, as cores carnais se misturaram como tornados subindo até atingirem o verde daquele olhar já dissimulado. A pele se estendendo nua, dos pés ao desconhecido impróprio. As curvas exibidas sem pudor algum, o convite ao abismo, tentação de mil demônios. Nunca vi coisa assim, nunca hei de ver, com a graça de Nosso Senhor.

Acordei sobressaltado, sem ar. Corri para a janela, puxando fôlego ao olhar o céu estrelado. Rezei, rezei, sem entender o porquê do coração acelerado, uma dor que vinha de lugar desconhecido. Imaginei estar doente, talvez enlouquecendo. Aos poucos, consegui me acalmar e voltei ao leito. Custei, mas adormeci novamente.

A imagem de dona Olívia, plena em sua nudez, não se desfez em minha mente. Ao despertar, abri os olhos e ainda pude vê-la, quase ao alcance de minhas mãos. Sorrindo, tão bela, tão nua.

Levantei atordoado, mas agora sigo minha rotina matinal. Escovo os dentes e sinto o gosto de sangue, não o meu, o do cordeiro sacrificado. O espelho devolve outro olhar, os cabelos quase loiros, miragem em um deserto que me recuso a atravessar.

Saindo de casa, pontual como sempre, quase esbarro em dona Olívia. Meu primeiro encontro do dia é justo com ela, de quem ainda carrego viva lembrança. Dou-me conta de que é real, que se me atrevesse poderia tocá-la. Posso imaginar as formas sob o vestido de tecido leve, mas de corte recatado. Não há como esconder sua exuberância. Engasgo, tusso, tento me aprumar.

Ela, decerto, está com muita pressa, atrasada para qualquer coisa que não pode esperar um minuto a mais. Suas faces revelam-se coradas como se os passos curtos lhe tirassem o fôlego, cachos caindo sobre a testa, outros escapando do emaranhado da nuca.

— Bom dia, Francisco.

Titubeio por um instante, aquela voz me parece quase desconhecida. Nunca nos cumprimentamos, além do aceno de cabeça. Tento repensar rotas de fuga.

— Bom dia, Olívia, dona Olívia….

Minha voz sai mais trêmula do que a de um adolescente em fase de transição. Creio que ela nem presta atenção ao que eu digo, ou mesmo se respondo algo, pois já ganha distância, sem olhar para trás.

Então eu o vejo. Vindo da mesma direção, como se puxado pelo caminhar apressado de dona Olívia. O corpo forte, alto, bem distribuído na pungência da juventude. A pele suada, brilhando, como se fosse um animal em fuga, o olhar cego de quem nada pretende enxergar além do que lhe escapa.

— Pedro!

Passa por mim sem parar, ouço sua respiração ofegante, sinto o cheiro do seu suor se derramando pelo vão da camiseta, encharcando as costas largas. O calor de mais uma manhã, meu irmão perdido, tão perdido o coitado.

Meu sonho talvez tenha sido um aviso. Dona Olívia, a viúva até então imaculada, transformada em feiticeira, desnuda de toda inocência. No entanto, ela não se revela ameaça, pois parece fugir, impulsionada por uma urgência de escape imediato. Ela foge, estou bem certo disso. E a tentação, assim como todas as bestas do maligno, nunca se esquiva. Será Pedro o real predador?

A quem, afinal, devo salvar, meu Senhor?

Olho para o meu velho relógio de pulso. É tarde, se me detenho mais um pouco nesses pensamentos, sem encontrar qualquer solução, atrasado chego ao serviço.

Predador e presa terão de esperar.

 

Capítulo 13

 

Há dias, Pedro age como se ignorasse por completo o ocorrido à porta de casa, naquela manhã igual a todas as outras. Penso em conversar com ele e saber se precisa de ajuda. A cara de poucos amigos à mesa do almoço detém minhas intenções solidárias. Ali, naqueles olhos estão predador e presa, unidos em conflitos que não me cabe apartar. Trato de alimentar o corpo e silenciar curiosidade. Deus me livre o despudor da fofoca.

Mãe não demonstra estranheza no trato com Pedro, os dois sorriem e trocam habituais gentilezas. Catarina também não parece notar nada de diferente no comportamento do nosso irmão. Isso não me surpreende, já que a menina está sempre às voltas com futilidades.

Tadeu, que sempre foi uma espécie de confidente de Pedro, mantém-se com humor inalterado. Se sabe de alguma coisa, está disfarçando muito bem. Existe algo estranho acontecendo, disso não tenho a menor dúvida.

Nem a Padre Olavo conto sobre o episódio inusitado que testemunhei. Parte por discrição, parte por ter a sensação de que o acontecimento nada mais foi do que a continuação do meu pesadelo. E eu não quero dar vazão a comentários sobre sensações que me são tão estranhas. Talvez o mais assustador seja a possibilidade de meu confessor não se escandalizar, mas sim gostar da narrativa. Definitivamente, preciso me afastar por hora da treliça do confessionário.

É difícil ruminar pensamentos tão conflitantes. As imagens surgem em um regurgitar mental, renovando aflições que não negociam com o bom senso. Até mesmo meu corpo parece se incomodar com o que é apenas imaginação, sensações estranhas atiçam nervos e outros labirintos que prefiro não identificar.

A tentação é enorme, mas não me toco. Hei de vencer mais essa provação, pois não há limites para minha boa vontade e fé. Não serei condenado por ceder a desmandos hormonais. Sou jovem, saudável, mas não aprovo a primitividade dos instintos naturais.  Não sou bicho, fera selvagem submissa à necessidade de satisfação carnal. Sou bom sim, quase santo, e assim sigo na luta contra o maligno.

Dona Olívia continua a surgir nos arredores de casa, logo cedo pela manhã, os passos cada vez mais lentos, uma distração no olhar. Passa por mim, sem me ver. Não repete o cumprimento, nem mesmo o familiar aceno de cabeça. Ignora minha presença, sinto que me torno invisível aos seus olhos. Talvez seja melhor assim, é preciso desfazer trilhas perigosas. Nunca se sabe que armadilhas o maligno nos reserva. Vai que o demônio queira provar que não sou tão bom quanto penso…

Mas sou. Não sou?

 

Capítulo 14

 

— Rapaz, quanto tempo!

Um homem de meia idade se dirige a mim, esfregando a mão gorducha no bigode farto. Sei lá de quem se trata, mas vem em minha direção, quase tropeçando de tão entusiasmado ao me ver. Sinto-me incomodado, invadido, olho para trás, só a parede se avizinha.

Vários colegas voltam suas cabeças para mim. Quase fim de expediente e aquele homem, espaçoso, sem medidas de acanhamento, avança e pousa a mão pesada em meu ombro. Chacoalha-me com vigor, temo que meus brotos angelicais se salientem pelo movimento.

— Em que posso ajudá-lo, senhor…?

— Osmar Peixoto, vulgo Peixotinho.

Levanto-me da cadeira e estendo a mão para cumprimentá-lo. Afinal, dona Helena me deu a educação básica e necessária para tais ocasiões repentinas.

— Você é o mais velho de Heleninha, não?

Aquela intimidade de diminutivos me perturba. Nunca ouvi ninguém chamar assim Mãe, nem mesmo vó Dolores. Não se encaixa com a sua figura, minha mãe não cabe em tratamentos diminutos.

— Sim, sou o Francisco.

O homem sorri ostentando dentes grandes, que duvido serem naturais. Por um momento me fazem lembrar da embocadura de um cavalo, quase posso sentir o triturar das palavras no atrito daquelas fileiras de marfim falsificado.

— É a cara do pai, não há como negar.

Sinto uma espécie de tontura, um fraquejar de joelhos. Pai? De quem ele fala?

— O Zé não podia ter providenciado cópia mais fiel. Um grande amigo meu aquele cara…dos tempos lá pra trás.

Um sorriso se apressa em meu rosto. Não sei lidar com aquela enxurrada de informações. Cópia de José Antônio, o Zé, meu pai, o amigo de Peixoto, perdão, Peixotinho. O meu silêncio cria expectativas ao redor. Todos escutam aquela conversa com indiscreto interesse.

Sentindo o meu desconforto, Peixotinho me conduz até a porta, afastando-me dos olhares curiosos. Cochicha em tardia discrição.

— Me desculpe, rapaz, percebo agora que o assunto é periclitante…

Livro meu cotovelo daquela mão empapada em intimidades. Seguimos juntos pelo corredor que dá para a saída. Ele se detém antes de pisar no primeiro degrau. Olha-me como se o constrangimento fosse todo dele. Uma farsa.

— Mande lembranças a sua mãe, uma mulher como poucas. Ela está bem? E seus irmãos? A menina deve estar uma mocinha agora, não é mesmo? Já era uma bonequinha, desabrochou em boniteza, decerto, não haveria de ser diferente. Estão todos bem?

Só sacudo a cabeça em lenta concordância. São tantas perguntas feitas em um jorro só que não sou capaz de separá-las em ordem de chegada. Percebo que Peixotinho não espera mesmo que eu responda, apenas atropela a própria fala para se fazer desculpar.

— Fique com Deus, rapaz. Realmente a sua semelhança com o Zé me deixou comovido. Perdoe minha falta de jeito.

— Não se preocupe. Está tudo bem.

Minto. Nada está bem há muito tempo. Uma mentira branca, sem importância, daquelas que o Padre Olavo diz nem exigirem penitência. Um erro, um acerto, uma dúvida. Tanto faz, cada palavra dita por esse senhor parece ser mais um passo desviado em direção ao meu pai. Não o Altíssimo, só o sujeito alto que se parece comigo, ou eu com ele. De quem tenho o sobrenome e a aparência, descubro hoje.

Peixotinho desce o resto dos degraus e se vira para um último aceno. Daria uma boa cena de novela. Pisco os olhos e sinto lágrimas escorrerem. Que bobagem! Não é um encontro que valha a pena recordar.

Tento controlar uma súbita emotividade. Censuro-me pela fraqueza, e uma voz se expande na minha mente. Não é o seu pai, Francisco. Nunca é.

 

Capítulo 15

 

O encontro com aquele sujeito ainda ecoa em meus pensamentos. Experimento uma mistura de sensações, entre a curiosidade e a angústia. E se meu pai estiver morto? Se não lhe deram um enterro digno, com missa e orações pela sua alma?

Acostumei-me a imaginá-lo assim: morto e enterrado. Um passado sem explicação, sem exigência de remorso ou expiação. Em nome do pai, do filho, do espírito santo. Amém. Que sandice! Nem somos pai e filho, muito menos compartilhamos espírito santo.

Não sou santo, disso já sei. Pelo menos, ainda não. E a cada dia, a santidade me parece ser mais provação do que graça. Por que não posso ser só como todos os outros, humano e cheio de defeitos? Não seria mais fácil? Claro que sim.

Ah, sei que é o maligno novamente me atentando. Vade reto, satanás.

A morte é assunto pouco abordado por pessoas da minha idade. Costuma ser tema de debates em fases mais entradas na longevidade e decadência do corpo. Estranhamente, tenho em mim essa necessidade de aproximação com a finitude. Como se só assim, eu pudesse sonhar com a minha santidade alcançada.

Tenho pressa, meu Senhor, perdoe-me a falta de paciência. Insisto que não me faça esperar no caos. Preciso de paz para reorganizar os pensamentos, silêncio e isolamento. Só conheço um lugar disponível para esse fim.

Volto ao cemitério, lembro do velho coveiro, que de fato, não devia ser tão velho assim. São meus olhos jovens que atribuem anos a mais a quem já construiu uma vida. Dona Olívia não tem filhos, pelo menos nunca vi uma criança puxando sua saia. Não sei por quanto tempo esteve casada, só a reconheço viúva.

Há outro coveiro a cuidar dos enterros, dos túmulos, das pás de terra. Também me parece velho. Também me parece ter uma vida a ser enterrada. Terá ele a sua Olívia?

Não me atrevo a deitar sobre lápide alguma. Aprendi minha lição, sei que com os do lado de lá não se brinca. Apenas caminho entre os jazigos, observando os agraciados com flores frescas, quais mortos mereceram velas. Gosto de calcular a idade dos falecidos, faço contas, subtraindo a data da estrela da cruz. Os símbolos são importantes, marcam a passagem de cada um nessa seara de tentações.

Não quero pensar em meu pai. Se fosse possível, apagaria a imagem do tal Peixoto da lembrança. Falho, pois nem o sonho com dona Olívia, eu consigo afugentar da memória. Sonho não, pesadelo. A angústia me toma o peito. Quero voltar à paz, à identificação com o voo dos anjos. Por que me põe em prova, Senhor?

Os sinos tocam. Hora de voltar para casa, não para o serviço. Hoje é feriado na cidade, as pessoas estão felizes com o descanso oferecido no meio da semana. Eu prefiro me ocupar, não me deixar levar pelo ócio. Por isso, vim até aqui, conversar com os mortos, depois será a vez dos santos.

Para ser santo preciso morrer? Não tinha me dado conta disso até agora.

— Procurando algum túmulo, moço?

Ah, o coveiro, o vivo, o que ainda enterra.

— Não, eu me enganei. Não é aqui que foi enterrado o meu…

Não termino a frase, evito dar explicações sobre o que nem mesmo eu entendo. Se fosse dona Olívia a perguntar, eu teria respondido. Porque há entre nós um entendimento de quem viu ser enterrado o seu passado.

— Sou novo por aqui, mas posso te ajudar se precisar.

Eu agradeço e caminho apressado para o portão. Não deveria estar aqui mesmo. Que ideia! O que está acontecendo com você, Francisco?

Chego à rua a tempo de ver dona Olívia e Pedro passarem sob um carvalho de copa frondosa. Sim, são eles, rentes ao murro do cemitério. Meu irmão mais à frente, a viúva logo a seguir, como sombra. Não está usando luto, o cabelo aloirado solto, um cravo vermelho numa das mãos. Ele se vira, estende a mão, ela olha em volta, procurando testemunhas. Pega a mão de Pedro e a leva aos lábios, roça a boca como em um beijo. Ele a puxa para si, e a envolve em um abraço, alisa os cabelos com carinho. Os dois de olhos fechados, o resto do mundo interditado por eles.

Inveja. Sim, sinto o gosto da cobiça em minha boca. Há naquela cena um convite para uma vida que nunca experimentarei. Não nasci para isso. Minha missão é outra, a santidade.

Sou bom? Talvez não o bastante.

Ai, sinto a dor de não ser corajoso o suficiente para viver o que Pedro arrisca sem pensar. Renunciar aos céus, à santidade, à eternidade de uma alma livre de pecados.

Não quero que me vejam. Não saberia o que dizer a eles, nem mesmo teria como condená-los. Ser invisível não é tão mal assim, penso agora. Vejo e não me veem, talvez porque não consigam enxergar nada além de um ao outro. Há naquela entrega um brilho que admiro nas santinhas, nos anjos, no altar sagrado.

Não posso desgrudar a lava que me cobre o peito. Invejo, Deus me perdoe por isso.

Dou as costas aos enamorados e sigo sem sentir direito as pernas. Meus punhos cerrados, a ira tomando-me as veias. Quero destruir as imagens que se acumulam em minha mente. Exterminar as sensações que produzem as faíscas do desejo.

Só preciso me acalmar. Alinhar os pensamentos e voltar à preciosa rotina. Vou superar, foi apenas mais um pequeno desvio, a minha vontade posta à prova. Não direi nada a Padre Olavo, ele não entenderia.

Direi toda a verdade, tudo o que me envergonha no momento, Àquele que me conhece desde sempre. Confessarei diretamente a Ele, ao Altíssimo que me fez assim, mais um Francisco. Sem risco?

Deus me perdoe, Deus me perdoe, Deus me perdoe. Vou repetindo em ladainha decomposta, esperando que nenhuma desgraça maior me aborde.

 

Capítulo 16

 

Catarina está doente. Espero que não seja nada contagioso. A menina já acorda vomitando e, pelo grau de seu abatimento, suponho que siga assim durante o dia todo. Reclama, chorosa, que nada para em seu estômago. Não sei se ela pegou uma dessas viroses por aí, mas provavelmente é o diagnóstico que o médico do postinho fará: quadro viral.

Mãe olha estranho para minha irmã, como se tentasse adivinhar o que passa em seu corpo. Terão as mães esse poder? Não diz nada, mas o olhar parece gritar. Já a vi com o terço nas mãos, rezando pelos cantos, uma ladainha aos sussurros. Deve estar apelando para Santa Clara, a detentora de sua devoção. Sinto vontade de me juntar a ela, mas Mãe se esquiva cada vez que me aproximo, encolhendo o corpo em aflições, como se tivesse vergonha de mim.

Não sei o que dizer para Mãe. As palavras me fogem e se escondem nas entrelinhas das promessas que não tenho como cumprir. Pensei em copiar imagens e ideias alheias, mas não posso contar com toscos argumentos. Nesta hora, preciso ser cuidadoso, evitando o pecado da soberba. Então, sigo como chuva, alternando sal e açúcar, lágrimas e sorrisos. Sei que julgo mal o zelo maternal, mas me sinto desprezado com a falta de companhia. Mãe continua sendo Mãe, permanece firme, desfiando histórias e dias em busca de soluções.

A única coisa boa dos achaques de Catarina é que tia Cotinha está aqui desde sábado. Talvez ela me chame de anjo novamente e isso me fará sorrir. Ainda não tivemos oportunidade de conversar, só nós dois. Nossos horários parecem não se conectar. Ela estará também me evitando? Saio para o trabalho e, quando volto, as duas, Tia e Mãe continuam fechadas no quarto, sempre desfiando rosários e confidências.

Pouco encontro Catarina nos últimos dias, ela parece se esconder de mim. Nunca a vejo, nem cedo pela manhã, nem à noite quando retorno do trabalho. Ou está enfurnada em seu quarto ou fica na rua até tarde. Suspeito que esteja com algum namoradinho. Ela sempre foi assim, avoada, mas agora está doente. Por que não fica quietinha em casa e cuida da saúde? Menina sem juízo!

O clima em casa mudou. Há um silêncio pesado, uma solidão que se amplia entre nós. Tadeu e Pedro, antes tão falantes e espaçosos, permanecem ensimesmados pelos cantos, sem fazer gracinhas ou dizer sandices para me perturbar. Agradeço aos céus por isso. Seja lá o que for que os esteja contendo, abençoa-me com paz. Mas até mesmo esse sossego parece estranho para mim. Preferia que eles dividissem comigo as suas suspeitas sobre o mal-estar de Catarina. Tenho certeza de que eles sabem mais do que eu.

Não posso deixar de reparar no olhar de Mãe, pairando baixo, mais úmido do que nunca. Algo a está atormentando, mas ela nada diz. Nem ela, nem Tia Cotinha, essa então mal fala comigo. Não sou mais o seu anjo? As duas irmãs parecem ter se tornado ainda mais próximas, unidas, tecendo preocupações sobre Catarina, decerto, pois cochicham o seu nome o tempo todo.

Claro que não desejo nenhum mal à minha irmã, muito menos que sucumba a uma enfermidade ainda sem nome. Só não entendo o porquê de todas as atenções estarem voltadas para ela. A menina estará tão mal assim?

Não sei o que está acontecendo, mas não deve ser coisa boa. Isso que não.

 

Capítulo 17

 

Não tenho mais grandes planos para o futuro, só dúbias aspirações. Ser santo já me parece ambição demasiada por demais, talvez eu precise repensar essa questão. Não sei o que mudou nos últimos tempos, mas algo se abalou dentro de mim. Como se uma pequena rachadura produzisse ramificações, fendas que me distanciam da santidade.

Sou bom, e isso deveria me bastar.

Minha vocação talvez seja só viver em paz. Sem questionamentos ou nós. Às vezes, penso que a vida também merece laços e abraços. E se for isso que Deus guardou para mim? Não sei, não será tarde demais?

Sei lá para onde vou nesta existência sem beira. Só sei que a estrada é longa, e a saudade, muita. Saudade do quê? De mim mesmo, daquele que eu poderia ter sido e não fui. Daquele que jamais serei. Ou do santo que tanto pretendi me tornar.

Ainda posso ser bom… E sou.

Pensamentos escorrem entre goles de café esfriando na língua. Sei que pareço um velho falando, alargando-me em reflexões e arrependimentos que não cabem ainda em meu lastro de vida. Sou jovem, um rapaz ainda descobrindo os pormenores da existência, mas mesmo assim, sinto estar desperdiçando tempo.

Deveria voltar a me concentrar a alcançar a santidade, mas do que me valeria afinal? Nem que fosse por uma única vez, gostaria de tentar algo diferente. A inveja do que vi em Pedro e dona Olívia junta-se à ira de não ter o que os outros experimentam. Pecados pairam sobre mim. Ainda não sucumbi a eles, pois sou bom e me desvio da iniquidade. Mas, por um derradeiro instante, arriscaria conhecer aquela emoção que vi brilhar nos olhos de meu irmão. Só por um momento, pediria licença ao Altíssimo para descobrir o segredo de tornar dona Olívia tão feliz.

Os santos não precisam ter experiências únicas antes de serem beatificados? Deus não me concederia um minuto de exposição às manifestações do amor? Não falo do sagrado elo que une uma mãe a seus filhos, nem ao que sinto por meu Pai, o Altíssimo. Refiro-me ao arrebatamento por emoções que transcendem à mesmice do dia a dia. Uma paixão sem protocolos, sem necessidade de carimbos ou alvarás.

Li inúmeras histórias de santos, e cá entre nós, eles não foram perfeitos o tempo todo. A morte tornou alguns mártires, outros não. O título de santo veio depois, nunca antes. Eu ainda vivo o antes, por que então não posso pecar?

Perco horas imaginando que meu destino me apontará outra trajetória. Caminho aberto, decisão só minha. Seguiria por ali? Ou deixaria meus passos perdidos em uma teimosa indecisão? Penso em me sentar sobre alguma lápide e esperar.

Talvez alguém possa decidir por mim. Impaciente, ela sacudiria a poeira e o medo que me cobrem. Talvez ela me tornasse finalmente visível. Ela quem, meu Deus?

Dona Olívia me faz sentir o que não deveria. Seria minha chance de decair? Não, ela não. Sinto que seus olhos nunca se desviariam de Pedro para pousarem em mim. Seria eu capaz de disputar a atenção de uma mulher com meu próprio irmão? Os riscos seriam enormes, embora mais interessantes do que as rugas da sensatez.

Já me disseram que sou mais bonito do que Pedro e Tadeu. Lembro que me senti corar, e me concentrei em não ceder à vaidade. Certamente, Padre Olavo já manifestou a mesma opinião. Credo, como a beleza pode ser um fardo!

Mãe costuma dizer que tenho olhos azuis para invocar os céus, com a promessa de me aproximar do Altíssimo. Já me confidenciou uma vez que sonhou em me ver consagrado padre.  Eu, um sacerdote como Padre Olavo? Não me vejo nesse lugar, talvez no altar, mas não na função de ministrante, distribuindo hóstias e louvores. Meu compartilhar não se resume às vestes bordadas. Para alguns, o paraíso. Para outros, o próprio inferno.

A bondade deve ser aceita como característica e não precisa ser testada. Consideraria ter asas meio tortas e auréola fosca, desde que ainda pudesse voar. Não me causaria estranhamento ser anjo ao invés de santo.

Sei que muitos me consideram um sujeito estranho, errado, me olham como se o meu caminhar fosse torto e a minha fala, incompreensível. Com esses, que ainda me enxergam como um Francisco qualquer, talvez eu devesse ser mais amável, pois parecem ter descoberto a própria imperfeição e sabem lidar bem com isso.

Claro que tenho meus momentos de dúvida, oscilo entre a abnegação total e o desejo que me faz tremer. Só preciso ter força e não desistir, contornando os obstáculos que são as verdadeiras provações. Sigo tateando verdades que os céus ainda me escondem. Um dia, eu sei, vencerei o medo de chegar ao meu destino. Depois de confundir muitos nomes com desejos vãos, descobrirei, enfim, o mistério de Deus.

Penso novamente em dona Olívia, em como é capaz de ocultar o medo que deve sentir sob um sorriso que há muito já aprendeu a dissimular. Seus olhos mudam de cor, camuflando os sentimentos que, decerto, lhe invadem mente e coração.

E Pedro? Ele me parece tão afoito, ansioso para realizar desejos censuráveis. Esperar é a virtude dos sábios, e ele é jovem demais para isso. Eu também tenho que aguardar, exercer uma tranquilidade que já não desfruto.

Esperar é o castigo dos impacientes. Esperar é a alternativa dos sem destino. Esperar é um verbo ingrato que sussurra obscenidades ao pé do ouvido da impulsividade. Esperar é ficar inerte quando se quer rasgar véus com dentes e fúria. Esperar é balançar as pernas na beira do abismo.

 

Capítulo 18

 

O mistério de Catarina logo se desfaz. Uma conversa entre Mãe e tia Cotinha, sussurrada e cheia de pausas, chega aos meus ouvidos. Não percebem a minha presença, mas não as culpo, pois tenho essa coisa de não me fazer perceptível.

— E agora, o que vai ser da nossa menina?

— Talvez seja preciso afastar Catarina daqui por um tempo. Você sabe, só até a criança nascer e tudo se ajeitar.

— Posso levar a pequena para a minha casa, já te disse isso. Não me custa nada, e assim evitamos que a fofoca se espalhe.

A ideia toda começa a se formar em minha mente, em cores difusas, sem clareza. Uma criança vai nascer, isso foi dito. Uma criança! Acabo pensando alto ou produzindo algum ruído, pois finalmente as duas percebem que estou por perto. Há um constrangimento inicial, mas que logo se dissipa.

— Ah, Francisco, você está aí…

Sem tomar fôlego, solto a pergunta que me arranha a garganta.

— Catarina vai ter um bebê?

Mãe olha para mim e seus olhos respondem positivamente a minha indagação. Não estão tão úmidos agora. Na verdade, parecem sorrir como se me revelassem um milagre.

A perplexidade me impede de absorver o fato por inteiro. Perdoai-me, Senhor, não consigo deixar de imaginar Catarina caminhando para o abismo. Dezesseis anos e grávida! A menina é bonita sim, mas tão petulante e vaidosa, que se esqueceu de cuidar de sua pureza, imaginando uma vida generosa, só a lhe oferecer flores, laços e doces.

Trato de conter a enxurrada de julgamentos que me invadem, mas meus esforços são inúteis. Por mais que procure acolher as palavras bondosas da minha tia, que se desdobra em esclarecer a situação, falho ao tentar ser um cristão misericordioso.

Uma vida é uma dádiva concedida por Deus, não há dúvida quanto a isso. O problema para mim é o ato pecaminoso que fez gerar essa existência. Um ser concebido sob o peso do sacrilégio não herdará o pecado dos pais?

Muitos são os envolvidos, de uma forma ou de outra, mas nem todos merecem sofrer as consequências, por isso as circunstâncias não me parecem nada justas. Cada um de nós será atingido pela imprudência de Catarina, mesmo aqueles que não contribuíram para a bagunça. Chamo a gravidez de bagunça porque é como vejo as coisas, um ato inconsequente que poderá alterar a vida da família inteira.

Tudo parece estar fora do prumo, sem ordem alguma. Seria tão mais sensato se os rituais de passagem tivessem sido respeitados: namoro, noivado, casamento. Mas Catarina e o tal namorado, não sei o nome dele, decidiram que tradições não são importantes.

O que dirá Padre Olavo? O que dirão os vizinhos e todos os outros ao nosso redor?

Obrigo-me a dizer “não” a cada possibilidade nefasta. Não ter um pai deveria ter me preparado para esse momento. A falta paterna abriu em mim vãos maiores do que supus. Não sou capaz de relevar falhas de alguém com quem compartilho o mesmo sangue?

Talvez essa criança tenha a felicidade de ter um lar, pai e mãe presentes, mesmo que de uma maneira torta. Um casamento apressado ainda pode salvar a reputação de minha irmã. Tudo se ajeita, dirá alguém. Só não há solução para a morte, dirá outro alguém.

— O nascimento de uma criança não pode ser considerado um fechar de portas, mas sim um recomeço, a chance de uma nova e feliz vida.

Tia Cotinha fala bonito quando está emocionada. As lágrimas nem escorrem, ficam aguando as bolsas abaixo dos olhos. Uma nova vida, mas que vida será essa, afinal?

— Você vai ser tio, meu anjo.

Tia Cotinha alisa minha alma com a palavra que tanto esperei ouvir, mas agora a denominação me soa banal, sem o esplendor da descoberta das asas. Meus olhos também se enchem de água, má água, mágoa. Sentimentos turbulentos desembocam em um mar que não cabe em mim.

Sinto o som das palavras “anjo” e “tio” repercutindo como um eco estridente em meus ouvidos. Fico confuso, sem saber o que esperam de mim. Que papel terei que desempenhar para essa criança afinal?

— Tio Chico.

Mãe parece brincar, mas há no seu olhar um tom sincero ao me atribuir o novo título.

Não gosto do que ouço. Nada disso parece combinar com as minhas ambições de santo. Questiono até mesmo as mais profundas certezas, temo que todas as batalhas tenham sido em vão. Estou exagerando, claro que sim, agora não consigo pensar direito. Talvez amanhã, mas não hoje.

O maligno me provoca, grita comigo, chamando a atenção para coisas que eu não quero ver, para vazios que permanecem sem respostas. Perco o rumo, sem saber lidar com as dúvidas que se multiplicam. O que será de mim? Anjo? Santo? Tio?

Agora me dou conta de que a notícia da gravidez não é nem boa nem ruim. É a vida.

 

Capítulo 19

 

Fim do dia, o entardecer tinge o céu com tons alaranjados. Abro a porta de casa, mais cansado do que de costume. Estou sem apetite. Tudo o que quero agora é ir direto para o quarto e descansar. Não sei precisar o porquê de tanta exaustão, talvez o tumulto dos acontecimentos nos últimos dias tenha exigido muito do meu corpo.

A gravidez de Catarina revelou-se o olho do furacão, sugando todas as atenções da família. Os únicos que não se envolvem na questão somos eu e Tadeu. Eu, por inabilidade em lidar com a situação inesperada; Tadeu, pelo temperamento contrário a qualquer fato que possa lhe provocar reflexões profundas. Sempre foi assim, custa-me admitir, mas para meu irmão tudo vira piada. Quem sabe aja assim por instinto, defendendo-se tal uma criança diante da imensidade do oceano.

Ouço um burburinho vindo da sala, vozes misturadas confundem meus sentidos. Mãe parece ter companhia, e não apenas de tia Cotinha. Isso me desagrada bastante, só quero me ausentar dali.

— Olha só quem chegou!

A voz alcança os meus ouvidos antes que a imagem possa se encaixar em minha mente. Há uma distorção de significados, devo estar delirando de cansaço, só pode ser. Pisco os olhos, certo de que minha visão voltará ao normal, sem me pregar peças. Mas não, lá está ele, bem na minha frente. Peixotinho, o próprio, com toda a sua indiscreta presença.

— Vocês já se conhecem, né, meu filho?

Antes que eu possa responder, o sujeito se antecipa e, com um sorriso sem medidas, esclarece:

— Sim, Heleninha, tive a honra de encontrar esse rapagão, que é a cópia de você sabe quem. Impressionante a semelhança.

Mãe se agita, fecha os olhos, e quase posso tocar o suspiro que sai de seus lábios.

— Osmar…

Meu pai não se chama Osmar. Demoro a me dar conta que Osmar é Peixotinho. O nome dito assim sem abreviações ou diminutivos me soa obsceno. Heleninha e Osmar? A breve troca de olhares confirma minhas suspeitas, há entre eles uma intimidade que os anos não foram capazes de camuflar.

Tia Cotinha percebe o meu espanto e se remexe no sofá, me olha como se esperasse alguma reação, um impulso violento, um bufar de indignação que seja. Está apreensiva, é o que registro ao fixar o olhar em sua direção. Fico triste porque percebo que ela não enxerga minhas asas. Não me chama de anjo, sua boca está trancada.

Quero dizer algo, talvez até gritar, mas não tenho disposição para lidar com as circunstâncias impostas. Sinto as palavras se debaterem na garganta, e mesmo sem alcançarem minha língua, elas trazem o amargor da repulsa mesclado à saliva.

Catarina vem do quarto, está pronta para sair, toda emperiquitada. Mãe a olha sem demonstrar qualquer censura. Parece enxergar na filha algo que perdeu há muito tempo: a beleza, ou ainda, a juventude sem responsabilidade.

— Mainha, Carlos está vindo me pegar.

— Até que enfim, minha filha. Já era tempo de conhecermos esse moço.

— Só peço que não me envergonhem, hein, gente, por favor…

Peixotinho posiciona-se ao meu lado, puxa o cinto com as mãos gordas e solta um som que se assemelha a um arroto. Sujeito porco! O que faz aqui afinal? Sou o homem da casa há anos, não permitirei tal desrespeito.

A campainha toca estridente, Catarina vai aos pulinhos abrir a porta. Ouve-se o estalo de um beijo, risadinhas da adolescente e passos firmes sobre o assoalho gasto.

Então, todos os olhos se voltam para o casal. Ela, radiante; ele a abraçando e sorrindo. Catarina, grávida de Carlos… Aquele Carlos? Tento fazer as contas da diferença de idade entre eles, mas a ameaça de desmaio de Mãe interrompe meus cálculos.

Peixotinho corre para acudir minha mãe e a leva para o sofá. Foi mais rápido do que eu ou mesmo de Tadeu que estava mais próximo dela.

— Já estou bem, pode deixar… — diz Mãe livrando-se das mãos daquele sujeito grudento.

Catarina e Carlos se aproximam, ainda sem se soltarem. Os dois me lembram bichos atracados, a cena é de uma bestialidade sem tamanho. Tento puxar o ar, afinal, aquela garota ainda é a minha irmãzinha.

— Deu uma queda de pressão, foi, dona Helena?

O sujeito é desaforado mesmo, causa todo o desconforto e ainda se faz de desentendido. Minha irmã está pálida, será que vai desmaiar também? Só me faltava essa, agora.

— Mas, peraí, esse aí não é o Carlão da padaria? — Tadeu solta a pergunta em meio ao tumulto.

Todos ali conhecem o pai do bebê. É o dono da maior padaria da cidade. Sujeito de posses herdadas, divorciado duas vezes, com fama duvidosa.

— Estou aqui para tranquilizar todos vocês. Vou assumir minha responsabilidade, por mim, casava com a Catinha, mas na impossibilidade…

Mais um apelido acrescentado ao roll de horrores. Santa Catarina se importaria?

— Impossível, não é mesmo, rapaz? — a voz de Mãe soa ríspida.

— As coisas não são como a gente quer, dona Helena.

Antes que Mãe possa argumentar contra a afirmação conformista, a porta se abre novamente. Agora, Pedro chega trazendo sacolas de compras e um sorriso bobo no rosto. Só de olhar para ele, já sei. Olívia está em seus olhos, no seu corpo inteiro. Ou será que sou eu que a vejo ali? Não consigo mais dissociar um do outro, não há como apagar o que presenciei.

— O que está acontecendo?

Tadeu o puxa para um canto e o coloca a par dos acontecimentos. Os dois dividem o peso das sacolas e as levam para a cozinha. A voz de Pedro, alterada pelo susto, se faz ouvir, mas logo se dissipa.

Também quero sumir dessa confusão. Estão todos desconcertados, aos pedaços. Tia Cotinha não me sorri, não alisa minhas asas. Torno-me invisível mais uma vez, o que me favorece afinal.

Sem ninguém perceber, subo as escadas, em busca de refúgio no andar mais alto, meu quarto. Preciso mais do que nunca me aproximar do Altíssimo.

Por que tanta provação, Pai?

Capítulo 20

 

Os vestígios do dia foram muitos. Pratos lascados, copos manchados de batom, talheres jogados na pia como armas inúteis após o combate. A toalha branca rendada, um dos poucos apegos de Mãe, continua ali, cobrindo a mesa já desfeita. Persiste um cheiro indefinível, talvez do medo entrelaçado à incerteza de futuro.

De quem afinal é a culpa? Sei que os planos do maligno incluem o incentivo aos desmandos e pecados. Não é possível que a fúria de Deus tenha atingido a minha família sem uma causa justa. Estamos atravessando um deserto, momentâneo ou não, e devemos enfrentar as muitas tentações que virão. Não antevejo oásis, a não ser que se cumpra severa penitência.

Como Catarina ousou ultrapassar todos os limites do bom senso? Grávida, estudante medíocre, grávida, malcriada, grávida, envolvida com um homem bem mais velho, grávida, leviana, grávida! Menina sem juízo! Muitos dirão que ela é vítima da própria ingenuidade. Se minha irmã é inocente, o que sou então? Um santo! Não, ainda não, preciso sempre me lembrar disso. Ai de mim que navego entre tantos delitos e vícios.

Sou também um pecador, pois se neste mundo permaneço, não posso me gabar de estar livre de imperfeições. Por menores que sejam as minhas falhas, elas existem e precisam ser expurgadas. Sou bom, mas a santidade ainda não alcancei.

O tema pecado está sempre a me rondar, de um jeito ou de outro. Não há como escapar. Quando vó Dolores me incentivou a seguir o celibato, fiquei maravilhado com a perspectiva da santidade. Foi-me oferecido um céu estrelado de promessas. E eu acreditei que tudo me seria dado entre graças e dons, menino ingênuo que era.

O caminho da virtude me parece mais custoso do que nunca. O pecado alheio, seja de Catarina, que ostenta uma vaidade misturada à burrice; seja de Pedro, envolvido de forma vil com dona Olívia; seja de Mãe, que esconde um passado sombrio… Tudo é degeneração, e nesse meio, purgatório em vida, é onde me encontro.

Quando criança eu tinha medo do demônio e de todas as criaturas ditas malignas. Muitos eram aqueles que riam de mim, afinal para eles tudo não passava de crendices, enredo de história de terror. Menos vó Dolores, ela entendia meus receios. Hoje, tenho pavor mesmo é de me tornar como essa gente que diz sandices, faz atrocidades e se considera boa. Nada pior do que a maldade ignorante e cega.

Sempre ao despertar, procuro focar meus pensamentos naquilo que possa realizar a fim de agradar Nosso Senhor. Tenho aprimorado os hábitos de higiene, mantendo-me o mais puro possível. Os anjos são testemunhas do quanto me esforço para me livrar de qualquer ideia corrompida que me atravesse a mente. Nem sempre sou bem sucedido.

Ainda sonho com dona Olívia, com uma frequência que me aterroriza. Nem posso chamar de sonho o que tanto me perturba, embora as suas aparições sejam tão belas, um chamamento ao apreciar da perfeição pretendida pelo Altíssimo. Deus me perdoe, sei que isso não é verdade. Não é a pureza de minhas santinhas que vejo na viúva. Condeno-me ao inferno por isso? Céus, como gostaria de me livrar desses pesadelos, mesmo que me custasse não ter mais sonho algum nesta vida!

São muitas provações que enfrento nas últimas semanas. Por mais que tente, não consigo assimilar o propósito do Criador ao me impor tantos desafios. Sigo infeliz uma trajetória da qual desconheço o ponto de destino.

A notícia da gravidez de Catarina transbordou de tal maneira que não houve um momento de paz desde então. Mãe anda apreensiva, já não exibe o olhar molhado, tão característico de seus antepassados. Noto uma aridez escavando túneis onde antes havia nuvens e sonhos.

Pedro e Tadeu continuam a ter conversas entre sussurros. Desconfio que falam mal de Catarina ou trocam confidências espúrias. Dona Olívia deve ser tema de prosas obscuras, mas de fato, há um ponto que desconheço. O que Tadeu traz a esses diálogos tramados no oculto? Pouco sei de suas opiniões, sua postura de aparente indiferença talvez seja apenas uma camuflagem. Temo por esse irmão. Temo por todos. Inclusive por mim mesmo.

Dúvidas se multiplicam, poucas certezas me trazem alívio. Deus é meu Pai, embora pai eu não tenha. Sempre pensei lidar bem com a ausência daquele com quem divido características físicas e, quem sabe, peculiaridades de personalidade. É um vazio que me atravessa nas horas mais imprevistas.

Cheguei mesmo a flertar com a loucura, ao imaginar, de uma forma totalmente descabida e monstruosa, que Osmar Peixoto, o tal Peixotinho, fosse meu pai. Logo ele, em quem nem consigo projetar admiração, como conseguiria lhe atribuir a figura paterna? É absurdo, eu sei, mas a carência me faz ter fome de todos os tipos. Apetites gigantes que acompanham o olhar de Mãe, seus mistérios e omissões. Cobiço uma alegria proibida, avanço sobre todos os sorrisos com o apetite de um esfomeado. Cato pelos cantos migalhas desprezadas, e assim vou acumulando expectativas nas noites maculadas por sonhos eróticos e delírios.

Sou um retirante, sem direito a águas que aliviem meus anseios.

Por pior que seja o descaminho traçado por Catarina, a questão me serve de desvio de conflitos maiores. Sempre é mais fácil olhar para o caos exterior do que enfrentar o abismo dentro de nós. Ela é minha irmãzinha, portanto, é legítima minha preocupação. Qual será o seu destino? A alegria descabida, que exibe diariamente entre os enjoos e o crescer da barriga, me intriga. Como pode estar feliz em meio ao pandemônio?

Não tenho bom pressentimento quanto ao futuro de minha família. Pode ser só o temor cristão que rege meu raciocínio. Não sei, mas mesmo que providências práticas tenham sido tomadas, mesmo que Carlos e Catarina disponham de recursos materiais para criar a criança que virá, não acredito que o fim da história seja tão feliz como todos imaginam.

Apesar de Mãe ser a mais sábia e experiente entre nós, desconfio de que ainda se iluda ao ignorar o abismo logo adiante. Com o tempo, tudo se tornará evidente demais até mesmo para Catarina. Ainda que todos procurem ser racionais, discutindo prioridades com cautela, o tempo urge e o inimigo se aproxima. Embora eu procure comungar da boa vontade de Mãe, pressinto dias difíceis, embebidos no amargor do arrependimento, resultando em um salgar de almas.

 

Capítulo 21

 

A vida segue entre sobressaltos e decepções, não há como alterar os desalinhos que tanto afetam a minha rotina. Tento me manter equilibrado, buscando paz e harmonia interior. Muitas vezes falho. Não me sinto confortável na minha própria casa, uma vez que fui posto de escanteio. Mãe me olha como se dissesse: agora não, meu filho, fica quietinho. E eu fico. Quando foi que criei algum problema?

Padre Olavo já foi informado, é claro, sobre a situação embaraçosa de Catarina. Em confissão, percebi que aquele era assunto antigo para ele. Aliás, deve ter sido uma das primeiras pessoas a saber de tudo.

— Sempre devemos buscar nas orações o conforto para nossas aflições. E o mais importante de todos os nossos deveres como cristãos é acatar a vontade de Deus.

— Mas é tão vergonhoso ter uma irmã vivendo assim em pecado…Catarina está perdida!

— Não fale assim, rapaz. Não nos cabe julgar, lembre-se disso. Acolha sua irmã no amor de Cristo, nutra os laços familiares e tudo se resolverá, você vai ver.

Não respondo, pois não concordo com as palavras ditas como consolo. Nada vai se resolver, isso está claro para mim. Padre Olavo reitera sua fala com conselhos repetidos, quiçá centenas de vezes, a tantos outros paroquianos.

— E depois, o que não tem remédio, remediado está. Fique em paz, meu filho.

A treliça do confessionário me impede de ver o seu olhar, mas a voz me chega, mergulhada em uma doçura que me causa repugnância. Está claro que ele quer me tranquilizar. Se estivéssemos fora do confessionário, certamente ele estaria segurando minha mão e me olhando daquele jeito impróprio. Sinto uma onda de náusea chegar, mas, para meu alívio, o sacerdote encerra o ato de confissão.

— Deus, Pai de misericórdia, que pela morte e ressurreição de seu Filho reconciliou o mundo consigo, te conceda o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Reze duas ave-marias e dois pais-nossos. Vá em paz, meu filho.

— Amém.

Por que ainda me confesso com Padre Olavo? Já me fiz essa pergunta milhares de vezes e nunca chego a um consenso. A ideia de ter que explicar para outro padre sobre a gravidez de Catarina me intimida, esse é um ponto. Não sei se com isso a exporia mais ao julgamento ou evidenciaria minha dificuldade em trabalhar a misericórdia em mim. Quem estaria mais exposto? A pecadora ou o quase santo?

Ainda mantenho o assunto envolvendo dona Olívia e Pedro longe do confessionário. Há coisas que nem às paredes confesso, como diria aquele fado que Mãe gosta de ouvir de vez em quando. Só Deus, meu Pai, detém todo o conhecimento do que se passa em mim. Afinal, Ele sabia antes de todos, sempre soube. E por que permitiu tamanha avalanche de desmandos? Ah, as incertezas ainda me assolam, a cada dia ganham mais espaço, devo admitir.

Busco nas escrituras sagradas, orientação que me afaste do cálice envenenado pelas dúvidas. Releio páginas e páginas, abro-me à inspiração divina. Divido com santos e anjos minhas tribulações. São Francisco, me mostre a verdade, repito vezes sem fim.

Sei que, aos poucos, serei capaz de resgatar a esperança, e assim manterei firmes os alicerces de minha fé. Se Deus está me enviando essa sucessão de provações é porque me testa, deseja provas da minha vocação à santidade. Eu, seu servo e filho, obedeço aos mandos e desmandos que me preparam para a eternidade abençoada.

Tenho de ser forte e enfrentar todas as dúvidas e conflitos que ainda hão de surgir. São muitos os questionamentos quanto ao propósito da minha vida. O que meu Pai quer de mim? E se Ele não for como eu penso? Se eu não corresponder a nenhum de seus planos?

Duvido, mas não de tudo.

Continuo bom. Sou mesmo assim, sempre fui. Um sujeito bom.

Capítulo 22

 

Ando mergulhado em uma melancolia sem precedentes. Mesmo no trabalho, me pego refletindo nos desajustes da minha vida. A família que eu sabia imperfeita, mas ainda assim porto seguro, se mostrou fonte de inúmeros dissabores.

Sei que Jesus me pediria para não atirar a primeira pedra, nem mesmo lançar um único olhar de julgamento sobre Catarina. Padre Olavo já me alertou quanto a isso. Não posso me furtar dessa verdade. Conheço bem os ensinamentos de Cristo, neles busco orientação e graça. Contudo, sou humano e falho, e essa humanidade que distorce meu bom caminho. Sou imperfeito, admito, ainda me falta estopo para sustentar asas maiores. Decerto, a santidade terá de me aguardar por mais tempo.

Tenho refletido sobre a existência do Mal. Sei que tento ignorar seus efeitos em mim, como se eu fosse imune a qualquer abalo dessa ordem. Sempre enxerguei o Mal como algo que está lá fora, nos outros. Antes essa fosse uma certeza inabalável, mas não é.

Já não me iludo com a minha invulnerabilidade às artimanhas do maligno, pois provei a tentação de mil demônios. Tento, talvez em vão, me isolar, restringindo meus relacionamentos ao mínimo possível. Sei que o contato com os outros pode liberar tanto o Bem quanto o Mal. Fico entre o que me colore a alma e um abismo sem fim.

A solidão tem sido meu escudo. Só, eu me cubro de fé e busco pela santidade. Os obstáculos são muitos e, antes de tudo, preciso assegurar a minha salvação. Sei que as trevas continuarão a lançar sobre mim suas sombras. Deus me conceda força e coragem. Livrai-me de todo o Mal. Amém.     

O caos me assusta, mas ao mesmo tempo me fascina. Onde há medo, há também desejo. Sonho em ser santo, em alcançar a graça eterna. O que me impede de realizar objetivo tão nobre? Tudo pode travar minha trajetória quando baixo as armas, quebro jejuns e deixo a vigília de lado. O sono é território fora do meu controle, tenho pesadelos que sequer consigo trazer em confissão.

Ser bom não deveria bastar para me livrar da legião do maligno?

Enquanto não mereço o céu de todas as cores, contento-me em conversar com meus santos e santinhas. Deles me agrado, com eles divido tanto as alegrias quanto os lamentos que a vida me proporciona. Já entreguei a eles minhas preocupações, e espero por um milagre ou dois.

Olho para a imagem de Santa Catarina e me pergunto por que Mãe resolveu batizar minha irmã em sua homenagem? Se sempre foi devota de Santa Clara, não entendo por que não deu à única filha o nome da santinha de sua veneração. Se sou Francisco, então Catarina deveria ser Clara. Haveria uma lógica nisso, mas tudo bem, já entendi que minha família não se encaixa em um padrão lógico.

Tenho tantas perguntas que não me atrevo a formular. Disparo aqui, diante de anjos e santos, a enxurrada de dúvidas que não tenho coragem de levar à minha mãe. Afinal a história dela é também parte da minha, ou vice-versa, que seja, eu me sinto no direito de saber mais a respeito do seu passado. Como conheceu meu pai? Quem era ele afinal? Ele ainda é alguém? Por que Peixotinho estava lá em casa se intrometendo em assunto familiar? Que relação ele tem conosco? Por que parecem tão íntimos?

Não há oração que acalme a ventania que invade meu raciocínio. A perturbação me parece injusta, já que sempre me foi tão fácil meditar em paz, alcançando graças no silêncio da alma. Será que tudo não pode simplesmente voltar a ser como antes?

Eu rezo, rezo, rezo muito. Ajoelho-me diante de altares, jejuo, comungo, me abstenho de tantas vontades. E mesmo assim, cá estou, prostrado como o mais imundo pecador.

 

Capítulo 23

 

Dona Olívia passa correndo por mim, mal me cumprimenta com o nosso habitual aceno. Suas pernas marcham em ritmo apressado, mas noto que carrega um sorriso desproporcional no rosto. Usa batom, tem pressa e boniteza. Exibe algo a mais, um rubor inadequado para essa hora da manhã.

Sento-me no degrau da escadinha da entrada. Apalpo minha camisa à procura do maço de cigarros. Então me dou conta de que não fumo, nunca fumei. Não adquiri vício algum ao longo dos anos, mesmo sendo jovem o bastante para ser poupado de críticas, afinal, a inexperiência encobre certos delitos. Em momentos de ansiedade, repito o gesto e, de forma bizarra, procuro por um alívio imediato. De onde vem essa sensação de recaída?

Meu olhar se perde no rastro da viuvinha, insisto em enxergá-la, mas sua figura se desfaz com a distância percorrida. Ela se foi.

Espero, nem sei porque espero. Junto as mãos, entrelaço os dedos e faço uma oração. Que Deus me livre de todo Mal que ainda possa me tentar. Que eu seja forte e puro para vencer o maligno.

Ela está de volta. Vem ao longe, reconheço as passadas largas e ritmadas. O cabelo solto, levantado pelo vento, uma mancha dourada no fundo do cenário. Não vem só.

Levanto-me sobressaltado com a novidade. Uma outra figura se desenha ao lado de dona Olívia. Mais baixa e com menos curvas, mas o mesmo cabelo, cachos por todos os lados, o quase loiro reluzindo ao sol.

As duas vão se aproximando devagar, rindo como duas meninas, brincando uma com a outra. Graças e cores se espalham a sua volta. Serão anjos?

De perto, a ilusão de ótica logo se desfaz. Não são duas iguais, nem têm o mesmo encanto. Só dona Olívia é capaz de irradiar tamanha luz. A outra não.

— Bom dia, Francisco. Quero te apresentar Letícia, minha sobrinha.

Nada respondo, só estendo a mão mecanicamente. A moça não se intimida e assume o cumprimento com mais força do que o esperado. Acho exagerado e embaraçoso o gesto, denota um comportamento pouco feminino.

— Ela vai passar uns tempos por aqui. Seria bom conhecer as pessoas certas…

Suponho que eu seja uma das tais pessoas certas. Isso me alegra por um instante, pois a aprovação de dona Olívia é importante para mim. Tudo que vem dela me importa, devo admitir.

Mal reparo na menina, meus olhos ainda pertencem à viúva. Gosto do modo como seu sorriso permanece preso entre as covinhas. Parece muito feliz, pena que eu não seja a razão do seu contentamento matutino. O que estou dizendo? Atenta-te, Francisco, o maligno está a te espreitar.

A outra chama minha atenção cutucando meu braço. Dona Olívia olha para a sobrinha com censura, mas ela não parece se incomodar. Segue em frente com a ousadia. Age com uma intimidade inapropriada, e se permite saciar curiosidades a qualquer custo.

— Sabe o que quer dizer o meu nome?

— Ai, Letícia, lá vem você com isso.

— Deixa, tia. Talvez ele saiba…

Não gosto quando me desafiam dessa maneira. Mesmo que não precise provar nada a essa garota, não me contenho. O orgulho, mais uma vez, vence. Como sou falho, meu Deus!

— Letícia significa alegria. Neemias 8:10, a alegria do Senhor é a nossa força.

Ela abre um sorriso enorme, tem todos os dentes, confiro. Não sei em que momento a dentição alheia se tornou uma questão para mim. Gosto do sorriso, ao menos isso ela tem de bom.

— Viu só, tia, ele sabe… ele sabe mesmo.

A voz alcança um tom mais agudo, e Letícia dá pulinhos batendo palmas. É uma reação tão infantil que chega a me escandalizar. Que espécie de alegria indecente a domina? Um arrepio me sobe pelas costas. Mau presságio.

Só então examino mais atentamente a moça. Deve ser um pouco mais nova do que eu, dois ou três anos, talvez mais, é difícil dizer. A pele, coberta de sardas, cintila sob o sol. Os olhos de um verde cinzento são perturbadores, parecem anunciar tempestades. É ligeiramente vesga.

— Já ganhou um ponto comigo, hein…

— Agora, vamos para casa, Letícia, que o seu Januário já deve estar chegando lá com a sua bagagem.

Ela põe as duas mãos na cintura e olha para mim como se me desafiasse. Tanta petulância em uma mocinha nem caí bem.

— Tchauzinho, Chico, depois falo direito contigo.

As duas se afastam e então noto que as pernas de Letícia exibem manchas e arranhões. Parecem pernas de um moleque, daqueles bem levados. Não sei, mas além dos cabelos, ela não tem nada a ver com a tia. Uma pena!

 

Capítulo 24

 

Só se fala da chegada repentina da menina Letícia na cidade. Essa gente não tem mesmo o que fazer. Que importância há no fato de dona Olívia ter recebido a visita de uma sobrinha? Ao menos a novidade servirá para dissipar um pouco o assunto da gravidez de Catarina, assim espero.

— Dizem que é bem jovem, praticamente da sua idade. Você dois podem se tornar amigos, Francisco.

Mãe está sempre preocupada com minhas companhias, ou melhor, com a ausência delas. Tadeu, descansa o garfo no prato, parecendo se interessar de repente pelo assunto trazido à mesa. Não sei o que dirá, mas com certeza, será só mais uma piadinha para me atormentar como sempre.

— Esse aí e a sobrinha da viuvinha? Só se ela for uma doida de pedra.

Ignoro a provocação de meu irmão, ele não sabe o que faz. Se soubesse, faria ainda pior.

Parece que Mãe e dona Olívia estão de acordo quanto as benesses de uma suposta amizade entre mim e aquela espevitada. Foi assim que tia Cotinha chamou aquela garota: espevitada. E não é que combina com ela?

— Bem faz o Francisco de se manter longe dessa aí. Farejo encrenca à distância, minha irmã.

— Mas não custa dar uma chance à moça. Se é sobrinha de dona Olívia, será sempre bem-vinda aqui.

Tia Cotinha revira os olhos, enquanto eu me esquivo da conversa. Não sou mais um menino que precisa de orientações quanto ao bom comportamento. Retiro-me da mesa, pedindo licença e sem responder a qualquer recomendação de Mãe ou provocação de Tadeu.

Considero muito improvável a possibilidade de me tornar amigo de Letícia. Apesar da proximidade das casas e das idades, não possuímos interesses em comum. As poucas vezes que a vi, percebi um olhar zombeteiro, um desprezo camuflado por risadinhas. Essa menina me é tão desnecessária na vida quanto os horóscopos de jornal. No entanto, há nela algo que me perturba, um desvio de rota que me faz pensar em tomar a direção oposta.

É tudo tão diferente quando estou próximo à viuvinha. Mesmo que eu associe sua imagem a sonhos perturbadores e seus encontros lascivos com Pedro, ela sempre me faz sorrir. É incontrolável, ela me traz paz e sorrisos. A outra não.

Letícia não é uma alegria para mim.

Em nova confissão, conto a Padre Olavo da má impressão que me causou a moça. Passo os minutos seguintes a descrevendo e criticando. Sou alertado sobre o perigo da soberba e do julgamento dos nossos semelhantes.

— Ela é também nossa irmã, uma filha de Deus como você, Francisco.

Depois de cumprir uma leve penitência, permaneço no banco da igreja, refletindo sobre minha atitude em relação àquela menina. Se quero me tornar santo, tenho de aprender a ser caridoso com as almas mais precisadas. Procuro enxergar em Letícia qualidades que a tornem minimamente agradável ao convívio.

Ela não é uma criatura apaixonante, está longe de ser adorável. O olhar vesgo e as feridas nas pernas chegam a me comover, é verdade, mas também demovem qualquer má intenção. Letícia é tão desprovida de encantos que me permito relaxar, afinal perto dela estou livre de qualquer ameaça. Não é como a tia, graças a Deus.

É bem falante a menina, casca grossa em pele e palavras. Se ela me crivar novamente um olhar sem apelo, devo sorrir em consentimento de amizade. Este é o meu plano, oferecer misericórdia sem julgar ou condenar. Espero alcançar êxito, pois minha intenção é nobre.

Letícia deixou claro que não tem vocação para santa. Nem disposição angelical, muito menos olhos que inspirem pureza. Mesmo sem desfrutarmos de interesses em comum, ainda assim posso ser bom para ela. E é isso o que sou afinal: bom.

 

Capítulo 25

 

A pedido de dona Olívia, faço pequenas caminhadas com Letícia pelas redondezas. A cidade é pequena e não há mesmo muito a mostrar. A menina mostra-se bastante curiosa, pergunta sobre tudo e insiste que eu a apresente a todos que encontramos pela frente. Muitas vezes se adianta e cumprimenta desconhecidos sem a menor cerimônia.

— Oi, como vai? Me chamo Letícia, sabe o que quer dizer o meu nome?

Sua abordagem é sempre a mesma, as palavras pouco variam. Acrescento a informação de que é sobrinha de dona Olívia, quando ela assim me permite.

Quando enfim ela se cansa, sentamos em um banco da praça. Ela olha em volta e suspira como se esperasse por algo mais animado. Temos ali o sorveteiro numa ponta e, na outra, o pipoqueiro. E isso é tudo.

Letícia cheira a flor amarela que arrancou do canteiro central. Não adiantou falar sobre proibições e inadequação do comportamento. Ela faz o que quer e não vê mal nisso.

Para distraí-la, ou talvez a mim mesmo, falo um pouco sobre a comunidade local, relato os acontecimentos banais no nosso bairro. Meu discurso é claro e objetivo, as palavras escolhidas com a precisão de um mecanismo de relógio. Discorro brevemente sobre família, trabalho, religião e da história da cidade.

De tudo falo de forma resumida, deixando os detalhes ao largo, pois não pretendo dar chance a invasões à privacidade.

Fui ingênuo, logo me dou conta. Cidade pequena, tudo se sabe, a fofoca impera. E sendo sem travas na fala, Letícia não se contém, extravasa na indiscrição.

— E a sua irmã, hein? Como uma menina linda como ela foi se meter com um velho daqueles? Ele deve ter uns quarentinha, no mínimo. Credo! Dá até nojo.

— Prefiro não falar sobre isso.

— Mesmo porque não há muito o que fazer a respeito, né? Embuchou do cara, agora tá nessa…nessa situação horrível. O tal padeiro deveria ser preso, isso sim.

— Já disse que não quero…

Letícia corta minha resposta, atropela meu raciocínio com palavras e mais palavras, parece nem tomar fôlego enquanto fala.

— Pedófilo, isso que ele é. Um canalha, imagina se meter com uma menina, pouco mais que uma criança. Lá de onde venho, tá cheio desses imprestáveis. Não entendo como vocês aceitam tudo isso… Não vai fazer nada não, seu Chico?

Meus olhos enchem-se de ira e de lágrimas. Sinto raiva, mais de mim mesmo do que dela. Letícia provoca um turbilhão de sentimentos, parece traduzir o que eu não me permito dizer. Admito que penso da mesma maneira: sim, Carlão é um canalha, um pedófilo nojento, que destruiu qualquer possibilidade de futuro da minha irmãzinha.

A espevitada, então, parece perceber o quanto estou perturbado com o jorro de suas críticas. Sacode os ombros e joga o cabelo para trás, tomando finalmente ar para então quase se desculpar.

— Eita, passei da conta. Como dizia minha mãezinha, falo mais do que o homem da cobra.

Balanço a cabeça assentindo. Reconheço o abalo provocado pelas palavras de Letícia. Ela parece adivinhar quais pontos deve enfatizar, aqueles que me são mais dolorosos. Passa como um furacão, levantando cada grão de areia do castelo que eu julgava protegido pelo silêncio.

— Vamos mudar o rumo dessa prosa, Chico?

Surpreende-me a falta de sensibilidade. Ela não entende que não há mais o que dizer. Levanto-me depressa. Não procuro desculpas, nem lhe dou explicações educadas.

— Preciso ir.

Letícia nada diz quando me afasto e sigo em direção à igreja. Ao me virar, vejo que também deixou o banco e está rindo para o sorveteiro que lhe oferece um picolé. Ela realmente parece não se importar com o desastre que provocou. Deve ser bom ser assim, tão descuidada. É toda alegria em prosa.

Entro na igreja, faço o sinal da cruz e me ajoelho. Tenho muito a confessar, mas só Deus há de me ouvir.

Seja feita a Vossa vontade, Pai, mas livrai-me de todo o mal. Amém.  

 

Capítulo 26

 

Não há tradução possível para o sonho que tive na última noite. Ao refletir sobre possíveis interpretações do que vivi no desdobramento do sono, só me vêm à mente ideias absurdas, todas esbarrando em significados bastante alterados. Não estou bem certo de cada detalhe, pois não sei se sou capaz de separar sonho de imaginação.

Muito mais do que um estado de embriaguez, o sono me leva a sentir uma sutil presença ao meu lado. Estalos repetidos vindos do alto soavam como aplausos repercutindo nas telhas, ou seria o bater de asas? Tudo se torna luz, preenchendo o exíguo espaço do meu quarto.

Vejo a mim mesmo. Falo como se me dirigisse a alguém ainda ausente. Escolho palavras que nunca deveriam ser ditas. Não me sinto mal, apenas repito versos que parecem pragas. Então estou no confessionário, mas não há um padre do outro lado. Só o vazio, como se eu estivesse me confessando a um fantasma. Mesmo assim quero dizer tudo o que sinto, e tudo é muito.

Já estou fora da igreja e ela vem em minha direção. Desmanchando os cabelos com as mãos como se criasse o seu próprio vento. Ouço ao fundo uma melodia difusa, compassos cantados por pássaros. Sinto um misto de ardor e urgência.

Ela parece flutuar, como pode? Não é como eu. Somos distintos. Ela é um ser alado, mas exibe camadas de malignidade. Anjo e seus anseios tão pagãos, com suas asas cobertas de piche. Eu, Narciso florescendo em pleno lodo, procuro o reflexo nas águas turvas. Nelas só consigo enxergar a mim mesmo. Já não me vejo com asas, cedo à hipnótica certeza da imperfeição. Há borboletas sem obrigação de lagarta.

O espelho que nela encontro me deixa quase sem ar. Busco inspiração na distorcida semelhança. Recolho-me nas sombras de seus olhos, sou apenas mais um pecador alado. Sim, tenho asas, mas e daí? Ela também as tem. Grito-lhe todas as palavras malditas que tenho guardadas no vão do tempo. Ela apenas sorri e nada responde.

No momento seguinte, eu também me calo. Sinto plumas chovendo, minha pele revelada úmida e brilhante. A sensação é mágica e prazerosa, esparrama-se preguiçosa por todo o meu corpo. Não recebo aviso ou permissão.

Sei o que temo: não saber mais distinguir anjos de demônios.

Abrace-me, anjo, peço. Ela se encolhe, as asas pesadas do piche. Vejo meus múltiplos cacos e recordações grudadas no breu que ela esconde no peito. Encosto meu rosto no dela, nossas respirações se tocam sem culpa. Meus sentidos permanecem adormecidos por algo sobrenatural. É urgente que eu me desfaça do peso, que expulse de mim o pecado, mas dele não quero me livrar. Eu deveria fugir, mas é em seu corpo que desejo habitar.

Rogo a Deus, aos santos e anjos, mas não recebo respostas.

Não há o que fazer, somos dois Anjos, um em plena queda, outro já há séculos caído. Estamos longe do paraíso, perdemos o direito a nuvens e cantos. É naqueles braços que quero me abrigar, sentir o bater dos corações no mesmo ritmo, como se fossem feitos de mil asas ecoando em uma única melodia.

Desperto suando e com palpitações que demoram a acalmar. Ainda posso sentir a presença, ainda visualizo o rosto, a pele coberta de sardas, os olhos desalinhados. É ela. Letícia.

Então me pergunto como ignorei tantos sinais de perigo. Ao julgar a menina desprovida de encantos, considerei sua presença inofensiva. Estive enganado esse tempo todo. Letícia é sim uma ameaça. Não pela beleza como a tia, mas pela ausência de avisos à beira do abismo.

Talvez ela seja o Mal, e eu só tenha me permitido descobrir isso agora.

 

Capítulo 27

 

Quando finalmente me acalmo e volto a dormir, mergulho em um torpor sem sonhos. A tranquilidade dura pouco, vozes alteradas se avolumam e sobem as escadas como uma nuvem de abelhas selvagens. Batidas na porta me põem em alerta.

— Francisco!

É Mãe, sua voz revela tensão e agonia. Livro-me logo dos lençóis e me levanto. Sinto uma breve tontura, um balançar das pernas, mas logo me recupero.

— Corra até a casa de dona Ursula. Precisamos levar Catarina ao hospital…

— O que aconteceu?

— Apenas faça o que te pedi e sem demora, meu filho.

Visto-me o mais rápido que posso, alcanço o terço e o entrelaço entre os dedos. É hora de rezar, logo me dou conta. Lá fora o sol ainda ensaia os primeiros raios, mas não há tempo para deixar o dia amanhecer.

Dona Ursula logo me acode e promete seguir imediatamente para nossa casa no seu carro, um tanto velho, mas ainda possante. Ao voltar, me deparo com Mãe abrindo a porta para Pedro e Tadeu que amparam Catarina. Noto sangue nas roupas e pavor em seus olhos. Sem pensar, pego a menina nos braços e a carrego no colo até poder acomodá-la no banco traseiro do carro que acaba de ser estacionado rente ao meio fio.

Mãe toma lugar ao lado de Catarina, segurando-a entre os braços enquanto essa se põe a chorar e gemer. Faço menção de entrar no carro para acompanhá-las, mas recusam minha ajuda. Agora é com elas, diz dona Ursula.

— Avisem o Carlos!

Não sei se o pedido vem de Mãe ou de Catarina, mas me sinto imediatamente tentado a desobedecer. O causador do caos deve ser avisado por quê? No entanto, Pedro já se adianta e vai atrás do padeiro, pedófilo e monstro nas horas vagas.

Sento nos degraus da entrada e mais uma vez procuro por cigarros invisíveis ou algo que possa me acalmar. Vejo então dona Olívia se aproximar, gesticulando e dizendo algo para si mesma. Felizmente, está sozinha, sem a sombra do Mal.

— Soube do que aconteceu, que coisa terrível! Espero que tenha sido apenas um susto e Catarina possa voltar logo pra casa.

Baixo a cabeça, pois tenho medo de revelar o que me passa pela cabeça. Claro que desejo o melhor para minha irmã, mas o que afinal seria o melhor para ela? Nas atuais circunstâncias, um aborto espontâneo me parece uma providência divina. Não houve crime, a natureza apenas impôs sua vontade.

— Só podemos aguardar.

Dona Olívia se senta ao meu lado como se tivesse entendido minha fala como um convite. Aguardamos então em silêncio. Tadeu pede licença para passar entre nós, já está na hora da escola, não quer se atrasar. Acho graça, logo ele que sempre diz preferir morrer a ter que estudar cedo.

— Bom estudo, Tadeu.

Ele agradece e segue a pé para a escola. Qualquer coisa seria melhor para ele do que continuar naquela expectativa, sem saber o que fazer. Entendo meu irmão, eu também gostaria de estar em outro lugar.

— E você, Francisco, não tem que ir trabalhar?

— Não. Minhas férias começaram justo hoje.

— Bem hoje, sei… ah, mas ainda vai poder aproveitar muitos dias livres, não?

Balanço a cabeça e sorrio. Ela é sempre tão gentil e jovial. Mesmo na pressa da manhã, sua beleza não se esvai. Os cabelos despenteados trazem ainda mais vivacidade às faces rosadas. O desarranjo de cachos a tornam uma figura mitológica aos meus olhos. Afrodite talvez. Mas o que digo? Meu projeto de santidade não condiz com mitos de infiéis, por mais belas que sejam as suas narrativas.

Como é difícil ser bom o tempo todo!

 

Capítulo 28

 

Horas depois, Mãe e Catarina voltam para casa. Chegam acompanhadas, não mais de dona Ursula, e sim de dois homens. Um deles é Carlão, o outro é, quem diria, Peixotinho. Tenho vontade de expulsar ambos, mas me contenho. O olhar de Catarina entrega o desfecho do acontecimento da madrugada. Está tudo perdido, leio em seus lábios pálidos que não soltam uma única palavra.

— Vamos para o quarto, minha filha. Você precisa descansar.

Carlão beija a testa de Catarina e afaga levemente sua cabeça. Parece ter receio de tocá-la, já que não mais se assemelha à bonequinha divertida que tudo recebia com riso e charme. Que seja assim, que ele logo perca o interesse por ela e busque saciar seus caprichos em outros cantos.

— Descanse, meu benzinho.

Mãe e filha se encaminham para o aposento, que ainda permanece às avessas devido à saída intempestiva ao amanhecer. Ninguém se lembrou de ajeitar as coisas, nem mesmo eu, tão ciente da necessidade de ordem e limpeza. Juro que não foi por preguiça, nem por descaso, apenas me distraí com dona Olívia e meus pensamentos desnorteados. Faltou-me disciplina, admito, tentarei redobrar minha vigilância.

Peixotinho e o padeiro/pedófilo permanecem na sala, fazendo-se de solícitas presenças.  Logo se acomodam, um no sofá, o outro na poltrona perto da janela. Penso em arranjar uma desculpa e ir para o meu quarto, mas isso decerto desagradaria a Mãe, e Deus sabe o quanto ela necessita de paz no momento.

— Uma tragédia!

Peixotinho, sempre com sua inabilidade natural, rompe o silêncio. Ninguém está feliz, é claro, mas não gosto do tom dramático que esse senhor traz a cada acontecimento.

— Nem me fale, nem me fale…

O tal Carlos é um canastrão, atua tão mal quanto se veste. O que terá visto Catarina em um sujeito tão repugnante? Mocinhas sem pai se aventuram por aí à procura de substitutos de heróis? Talvez exista explicações para tais ligações, mas tudo farei para que essa se rompa o mais breve possível.

Catarina está bem e há de se recuperar em poucas semanas. É muito jovem e pode traçar um novo rumo de vida, muito mais abençoado. Quem sabe o sofrimento não lhe traga algum juízo? Além do mais, não existe outra saída para ela além de se afastar desse canalha e voltar a atenção aos estudos.

— Agradeço pela preocupação e cuidados, mas agora precisamos ajeitar as coisas por aqui.

É Mãe, voltando para a sala, quem estabelece o fim do horário de visita. Tem a voz firme e o olhar dirigido à porta.

Os dois se levantam, dizem mais algumas palavras de consolo e saem juntos segundos antes da porta ser trancada.

— Que Deus tenha piedade de nós, Francisco, e esses dois aí que se lasquem.

Ela passa a mão no meu braço, simula um carinho e vai para a cozinha. Não há tempo a perder, ela dirá muitas vezes ainda que para si mesma. Sabe que quando o capitão traça nova rota, só os desavisados escolhem contrariá-lo. Se Deus quis assim, assim há de ser.

 

Capítulo 29

 

Com toda a confusão dos últimos dias, não tive como lidar com o impacto gerado por aquele sonho estranho. Na verdade, até agora, não sei se foi mesmo um sonho ou um delírio. Talvez tenha sido o resultado de uma espécie de febre noturna. De qualquer forma, a sensação de ameaça continua pairando, em algum canto da mente, à espera de uma oportunidade para voltar a me atormentar.

Não sei como poderei encarar Letícia depois disso tudo. Já posso imaginar a mocinha espevitada vindo comentar sobre a perda de Catarina. Vai dizer que foi melhor assim, que agora minha irmã está livre do canalha, que Deus sabe o que faz. Não, ela não mencionaria o Santo nome, não por respeito, mas porque desconfio que Nele nem acredite. Uma descrente!

O bom senso me diz que não devo alimentar receios infundados. Foi só um sonho, repito para mim. Nada aconteceu de fato, não haverá consequências, portanto. Não existem evidências, nem dos meus delírios noturnos, nem do bebê que um dia poderia vir a me chamar de tio.

Um ciclo de vida às avessas, uma história que se encerra, abreviada pelos desígnios da natureza.

Sinto falta da presença de tia Cotinha. Acostumei-me a tê-la por perto, mesmo que ela não mais enxergasse minhas asas. Não entendi a sua repentina partida. Terá pressentido o incidente e foi-se embora antes do tumulto se instalar? Talvez volte amanhã ou depois, mas de fato sua ajuda já não se faz mais tão necessária. Mãe não precisa mais dela. Vai tratar de reerguer Catarina a seu modo, sem palpites ou olhares de piedade. Algo mudou, vejo nos olhos que voltam a se molhar, agora de novas águas. Como se a última gota de um veneno qualquer tenha sido absorvido e determinado o fim de uma fase difícil.

Minha irmã mal sai do quarto nos dias seguintes. Está pálida e chorosa, mas não reclama de nada. Carlão insiste em vê-la por duas ou três vezes, depois desiste diante da nossa recusa em abrirmos a porta. Catarina nem parece se importar com isso. Talvez tenha se cansado dele, talvez queira voltar a ser apenas uma adolescente lidando com as novidades da moda e os namoros de escola. Não ficaria espantado com isso, na verdade, me alegraria por ela.

Posso soar cruel, mas considero que a perda gestacional foi um mal necessário. Sem a interrupção da gravidez a harmonia familiar não poderia ser retomada. Custará a nós paciência e abnegação para ultrapassarmos esse triste episódio, mas certamente seremos capazes de reconduzir a vida da família à normalidade.

Vejo tudo o que aconteceu como uma espécie de apagamento, anulação de uma falha, uma nova chance para conquistar as bençãos celestiais. Catarina pecou, ninguém poderá negar, mas Jesus morreu por todos nós, pecadores, para que triunfemos sobre todo o mal. Ela há de receber o perdão e o benefício do esquecimento. Todo mundo sabe como essas coisas se dão em cidade pequena. As pessoas falam, maldam, mas em poucos meses se cansam do assunto e buscam fofocas mais atuais. Não será diferente dessa vez.

A reputação de Catarina está perdida? E que importância tem isso, no fim das contas? Nunca foi uma questão importante sermos reconhecidos como modelo de família. Há muito não podemos representar o ideal retratado em livros, filmes e novelas. Desde que meu pai largou mulher e filhos, instalou-se uma nova configuração familiar nesta casa. E temos nos saído bem, na medida em que Deus, o Altíssimo, nos orienta a seguir suas leis.

É assim que penso. E por isso por mais que tropece, sempre encontro o caminho de volta rumo à santidade. Sou bom, se assim não fosse, nada me restaria a não ser desistir de alcançar a perfeição. Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, quis com virtudes inabaláveis me agraciar.

Sou bom, e o Mal que lide com isso.

49 comentários em “ER 3 – Sem Pecados (Claudia Roberta Angst)”

  1. Sarah S Nascimento
    15 de agosto de 2026
    Avatar de Sarah S Nascimento

    Olá! Vamos lá para mais comentários! 1- Eu adoro ver como a mente do Fransisco raciocina, ele dorme no lugar mais alto da casa, porque é o lugar mais perto do céu! Kkkkk, maravilhoso. 2- Noooossa, que o moço tá sonhando com mulher pelada! Kkkkk, adorei, coitado, isso deixou ele perturbadíssimo! Risooos. 3- Caramba, esse Fransisco é determinado, nada de ceder aos prazeres solitários, é aquela coisa, né? Quando você acredita muito que não deve ou não pode fazer algo, você faz de tudo para seguir nesse caminho, nessa crença. Isso me lembrou que quando eu tinha 16 anos, uma amiga da escola que tinha me levado na igreja dela, né, me falou que os prazeres solitários eram o que causava câncer nas mulheres. Pode um negócio desse? O lado ruim de certos ensinamentos religiosos, não quero especificar nenhum aqui, é fazer as pessoas acreditarem em coisas que não têm nada a ver. Enfim, voltando para a história! Rs. 4- Hummm, olha o Fransisco invejoso, queria ser ele ali abraçando a Olívia, né? Risos. Eu tô começando a concordar com o Fransisco, que as provações estão grandes, é sonho, depois ele vê o irmão, alguém tão próximo a ele, tão perto da mulher com quem ele tem sonhado. Tá difícil, moço! 5- Geeeente, se a irmã do Fransisco estiver grávida, esse rapaz desmaia, ou sai de casa, ou, se pudesse, deserdava ela. Kkkkk. Deve ser isso e todo mundo fica evitando ele porque sabem que ele é desse jeitinho peculiar. Nossa, se for isso mesmo, o Fransisco vai surtar! Rs. 6- Interessante esse raciocínio do Fransisco sobre ele ter um minuto de exposição a emoções ou situações que ele nunca viveu, porque ele pode virar santo depois, mas ainda não é. Sobre as pessoas que viraram santas terem cometido erros no passado e tudo o mais. Ao mesmo tempo que ele tem razão nessa reflexão toda, também parece que ele tá justificando o pecado que ele quer cometer. Risos. Pecado premeditado é mais feio ainda, hein, seu Fransisco? Risos. E essa família dele enrolando pra falar que a moça tá grávida, gente! Do que vai adiantar ficar adiando? Ele vai notar alguma hora? E outra, será que a mãe e a tia dele estão tentando descobrir quem é o pai do bebê? Ou o que fazer com a moça agora que isso aconteceu? Enfim, sei lá, kkkk. 7- Adorei essa frase: “Penso em me sentar sobre alguma lápide e esperar.” Foi bem dramático, eu curtiiii! O pobre do Fransisco tá ficando desesperado, tadinho. 8- Tava pensando aqui comigo, vamos dizer que o Fransisco se permita, sei lá, dar uns beijos, kkkk, quem é que ele vai escolher pra fazer isso? Pois ele quer a Olívia, mas ela já tá de rolo com o irmão dele. Então, tipo, quem mais ele teria, né? Sei não. 9- Eu falei que o rapaz ia surtar! Kkkk. Acho que esse é o momento perfeito para ele cometer aquele pecado que ele tava pensando antes. Rs. Tá irritado, tá chateado, talvez pense que não tem mais como virar santo, enfim, o moço tá num momento complicado. Embora a complicação seja muito mais da irmã dele. Tipo, imagina como vai ser difícil para ela ter um filho aos 16 anos? Ela que tá com a vida cheia de desafios, e não o pobre Fransisco que vai virar tio. Nossa, ele vai ficar com vergonha de sair, de olhar as pessoas, tô até imaginando já. Rs. Comentários gerais: Como já falei antes, a sua escrita é perfeita, às vezes rebuscada demais, parece muito com livros clássicos, mas é bom para aprender palavras. Fico pensando se o objetivo da história é o Fransisco citar os pecados, ou viver os pecados, ou, sei lá, ter situações onde esses pecados se apresentam e ele de fato resiste, não sei, mas é muito interessante ver a forma com que ele se comporta. A questão da ausência do pai dele foi um pouco mais explorada e é legal ver o impacto que isso tem nele. Faz a gente pensar que a ausência do pai foi o que levou ele para a religiosidade, como se fosse um refúgio para ele. Gostei muito dessas questões de desejo, prazeres e tal, porque mostra que ele ainda é humano. Tem coisas que ele evita, para continuar no objetivo de virar santo, mas ele ainda é um cara, e ver como essa verdade impacta e afeta ele é muito interessante. Tô curtindo um pouco mais o Fransisco. Rs. Ele me causou muito estranhamento ali na primeira parte, mas agora acho que já tá normal. Fransisco e eu já somos amigos. Kkkk. Um pouquinho. Rs. Era isso, até a próxima parte!

  2. Kelly Hatanaka
    14 de agosto de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Oi Claudia.

    Francisco segue em sua observação do mundo.

    Agora, teve um sonho erótico com Olivia, ao mesmo tempo em que descobre que o irmão tem um caso com ela. Também, descobre que a irmã está grávida.

    Ele luta contra as tentações, o pecado da inveja, da luxúria, da ira.

    Acho muito interessante a forma como ele parece estar sempre, incessantemente, pensando em si mesmo, o mundo se define a partir dele. Ele se preocupa com a inveja e a ira, mas penso que seu grande fraco é o orgulho.

    Surge o Peixotinho. Ele vem e vai, sem muito dizer. Mas algo me diz que ele volta e que ele tem informações sobre o pai que vão surpreender Francisco. Imaginei, esperei que ele conversasse com a mãe a respeito de Peixotinho, mas nada. Tudo se passa sempre e somente em sua cabeça.

    O que, alias, começa a me deixar encafifada. O quanto do que ele vê é real e o quanto é imaginário?

  3. marco.saraiva
    14 de agosto de 2026
    Avatar de marco.saraiva

    Na segunda parte o livro mantém bem o que já foi narrado e agora começamos a ver um Chico mais cansado da própria santidade, mais curioso em sentir a chama da paixão que ele tanto tenta apagar. O irmão continua com a relação com a viúva do coveiro, aos trancos e barrancos, e apesar de Chico continuar julgando os dois nos seus monólogos, sonha com Olívia. Questiona-se sobre os próprios sentimentos. Apesar de não vermos, ainda, um Chico que quebra a própria santidade, nessa segunda parte ele começa a andar nessa direção.

    Talvez a gravidez de Catarina seja o estopim. A segunda parte termina nesse ponto final, com jeito de que “de agora em diante tudo será diferente”.

    Durante a leitura, pensei uma coisa interessante: Chico, apesar de buscar a própria santidade, olha as pessoas com certo ar de julgamento. Coisa leve, mas está lá. O orgulho, talvez, da própria pureza, o que entra em imediata contradição. Um dos pecados mais elusivos é o orgulho, por que ter orgulho das próprias virtudes pode acabar, por si só, destruindo-as. Bem legal.

    A escrita continua linda como sempre. Poética, fazendo aquelas brincadeiras com palavras que você faz tão bem. É sempre muito gostoso ler texto seu.

    Curioso para a parte 3!

    PS: o único trecho nessa segunda parte que me soou estranho foi a visita de Peixoto. É claro que, como narrativa, a visita tem valor, já que revela mais sobre o pai de Chico, estabelece agora um personagem que pode servir de ligação. Traz para a superfície sentimentos que ele não gosta de sentir. Mas, cena por cena, Peixoto vai até o trabalho dele para nada? Só entra pela porta da frente, fala “oi, sou o Peixoto, eu conhecia o seu pai”, e vai embora?

  4. Givago Domingues Thimoti
    10 de agosto de 2026
    Avatar de Givago Domingues Thimoti

    Fase de Leitura: [Capítulos 11 a 18]

    Data: [10/08/2026]

    I. 📌 RESUMO DA MINHA IMPRESSÃO INICIAL

    A leitura de “Sem Pecados” me gerou um impacto extremamente positivo ao me apresentar a Francisco, um protagonista soberbo, religioso e contraditório que logo se tornou um dos meus personagens favoritos pela sua humanidade e profundidade psicológica. A dinâmica dos capítulos curtos e o ritmo equilibrado da história, que se desenvolve sem pressa mas com total clareza. O texto é uma verdadeira aula de literatura, repleto de subtextos, belas construções frasais e figuras de linguagem, onde até a repetição de ideias funciona perfeitamente para refletir a mente e o foco do personagem. Fui totalmente cativado pela voz autoral inteligente e cheia de frescor, que consegue construir a ambientação de uma cidade pequena e tradicional de forma brilhante apenas através da visão de mundo do protagonista!

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada do avanço da trama, da evolução dos personagens e das engrenagens narrativas nesta etapa.

    1. Progressão do Enredo e Ritmo

    ✨ Pontos Fortes: 

    Pessoalmente, eu acho que o enredo fluiu muito bem. É uma história dinâmica. Creio que se acelerar mais estraga!

    1. Evolução de Personagens e Relações

    ✨ Pontos Fortes: 

    Esse é um dos grandes destaques do romance. Eu fui assistir no fim de semana passado como o Homem Aranha, mesmo depois de 4 filmes, continua sendo o mesmo, cometendo os mesmos erros, etc… Dá aquele ar de permanência, de continuidade amargo. Tudo continua igual.

    Aqui, percebemos, mesmo que de relance, de um trecho para outro, que Francisco não permanecerá o mesmo, diante desses percalços inerentes à vida. E assim como o protagonista, os demais personagens continuarão nessa toada. Muito bom! 

    ⚠️ Pontos de Ajuste: [Falta profundidade nas motivações, as relações parecem estagnadas ou os comportamentos, incoerentes?]

    Eu diria que o Tadeu está bem apagado! Dos 4 irmãos, é o que menos aparece, sendo uma sombra de Pedro… Convém adaptá-lo, de alguma forma.

    1. Gramática, Diálogos, Subtexto e Estilo

    ✨ Pontos Fortes: [Diálogos com vozes distintas, bom uso do subtexto (não ditos, tensões) e consistência no tom da obra.]

    O excelente trabalho já apresentado no primeiro trecho permanece aqui. Ótimas construções inspiradas: 

    “Esperar é o castigo dos impacientes. Esperar é a alternativa dos sem destino. Esperar é um verbo ingrato que sussurra obscenidades ao pé do ouvido da impulsividade. Esperar é ficar inerte quando se quer rasgar véus com dentes e fúria. Esperar é balançar as pernas na beira do abismo.” 

    “Meus olhos também se enchem de água, má água, mágoa. Sentimentos turbulentos desembocam em um mar que não cabe em mim.”

    ⚠️ Pontos de Ajuste: [Conversas expositivas demais, perda de voz dos personagens ou excesso de explicações da narrativa.]

    “Em nome do pai, do filho, do espírito santo” => Aqui não era para pai, filho e Espírito Santo virem em maiúsculo nas iniciais?

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a sustentação da voz autoral e o envolvimento com o universo e os dilemas da narrativa.

    🗣️ A Força da Voz Autoral: 

    Outro ponto positivo para você! Para finalizar esse aspecto, eu diria que Retomando meu comentário anterior, Sem Pecados solidificou o melhor do seu estilo de escrita. Simples, inteligente, muito bem articulada, repleta de subtexto e com boas doses de humor. 

    🌍 Ambientação e Subtramas:

    Claudia, o seu segundo trecho, embora curto, é muito sucinto e feliz em apresentar os desenlaces dos acontecimentos. Francisco se atraindo pela viúva Olívia, essa por sua vez se envolvendo com Pedro, Catarina engravidando, um estranho reconhecendo os traços semelhantes entre Francisco e o pai Zé… Tudo isso de um jeito dinâmico e interessante. Está tudo muito bom e cativante.

    O único alerta que eu faço é referente ao Tadeu. Por enquanto, muito apagado…

    🔥 Engajamento e Tensão Narrativa: [O conflito gera expectativa? O leitor se sente instigado a descobrir os próximos passos da história?]

    No meio de uma aula de processo civil, peguei seu texto para ler e foi uma leitura tão boa, tão gostosa, que fiquei levemente triste quando percebi que acabou. Claudia, que romance gostoso e inteligente você está construindo! Terminei a leitura com um sorriso no rosto e completamente instigado para a próxima parte.

    Já nesse trecho, Francisco começa a esbarrar nos limites perfeccionistas da santidade. E sofre com isso; (res)sente uma forte atração pela viúva Olívia, a cobiça, descobre que ela e Pedro tem um tórrido caso, ele inveja o irmão, ele tem raiva do irmão, a irmã engravida… Num mundo tão imperfeito, como manter-se firme na busca pela santidade? Francisco vacila. E eu estou amando isso. É muito bom ver um personagem tendo seu processo de evolução tão bem desenhado. Francisco já não é o mesmo do início.

    No mais, me resta te parabenizar, Claudia! ótimo trabalho! Estou ansioso pelos próximos capítulos!

  5. maromba ronaldo
    3 de agosto de 2026
    Avatar de maromba ronaldo

    ola amigos cheguei é o maromba ronaldo estão todos se divertindo nesse desafio deveras ARROJADO? cheguei chegando agora lerei tudo e emitirei impressões marombicas… Sai de baixo que eu tô chegandooo assinado maromba ronaldo

  6. Gustavo Araujo
    30 de julho de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Oi, Claudia! Voltei aqui para comentar a segunda parte do seu romance, que se desdobra dos capítulos 11 a 18. Pelo que noto, você aprofunda as divagações de Francisco, que tenta equilibrar a devoção à fé, ou melhor, a pretensa vocação à santidade, com as tentações típicas da juventude.

    Nesse aspecto, ganha destaque o sonho erótico que ele tem com a viúva do coveiro, dona Olívia, a repressão do desejo, dos efeitos dos hormônios. Achei interessante o modo como ele lida com os ciúmes do irmão Pedro, que sabe ser amante de Dona Olívia. É um sentimento que mistura admiração e inveja, mas que ele termina por transformar, de modo um tanto forçado, em algo contrário à pureza que ele acredita ter.

    É fascinante, aliás, como você trabalha a psique de Francisco, como traz as dicotomias que se digladiam no pensamento dele, fazendo com que ele questione princípios até então inabaláveis. Será que sua vocação é mesmo a santidade? O que antes era uma certeza vai sendo lentamente mitigado. De repente, ser anjo já está bom…

    Curiosa, também, a aparição do Peixotinho, fazendo Francisco lembrar-se do pai. Aparentemente isso ficou meio solto, mas sou capaz de apostar que esse personagem vai retornar de modo mais contundente nas próximas etapas.

    O que o texto trata em suas entrelinhas é da necessidade de propósito, de pertencimento, de sentido. Mesmo para alguém que (ao menos no início) se diz predestinado ao altar santíssimo, isso não é fácil. E o que ocorre com Catarina, que fica grávida, certamente vai trazer questionamentos ainda mais perturbadores para o jovem Francisco. Não sei até quando ele haverá de resistir aos encantos de Dona Olívia, ainda que seja em pensamento haha

    Queria falar um tantinho da prosa, Claudia. Está excelente. O que mais me chama a atenção é a fluidez, a facilidade de leitura. É bem fácil para o leitor deixar-se levar, como num passeio de trem. A gente senta e fica admirando a paisagem que passa pela janela. Só que, de repente, vem aquele soco no estômago, poético, sensível – que na analogia ferroviária equivaleria a testemunhar uma cachoeira imensa ou até uma montanha nevada.

    Há várias passagens assim, mas vou destacar uma no final desta parte:

    “Tia Cotinha alisa minha alma com a palavra que tanto esperei ouvir, mas agora a denominação me soa banal, sem o esplendor da descoberta das asas. Meus olhos também se enchem de água, má água, mágoa. Sentimentos turbulentos desembocam em um mar que não cabe em mim.”

    Caramba… Dá para ficar um bom tempo meditando sobre essa imagem e, mais do que isso, sobre o usa da linguagem: má água, mágoa, mar turbulento. Putz, ficou muito bom. Metáfora ao estilo de Zafón.

    Valeu pelo texto, amiga. Vou aguardar com ansiedade a próxima etapa, torcendo para que o Chico descubra que a felicidade pode estar nas próprias mãos hahaha

  7. Elisa Ribeiro
    28 de julho de 2026
    Avatar de honestly75db5abe65

    Seguindo do capítulo 11 em diante, minha amiga.

    Seu narrador radicalmente não confiável aqui atinge um novo patamar. Gostei de ver no capítulo 11 o cantinho que ele habita e seus delírios se avolumando. Gostei da digressão sobre o número sete e do destaque aos dois dentre os sete pecados – a ira e a inveja –  que vão sobressair nos capítulos que seguem.

    Nos capítulos de 12 e 13, à luxúria que perturba a ambição de santidade de Francisco se acrescenta a inveja que sente de seu irmão Pedro por se permitir desfrutar o que lhe é vedado. Tal inveja é enunciada explicitamente no capítulo 15: “Inveja. Sim, sinto o gosto da cobiça em minha boca”. A acompanhar a inveja, Francisco também se consome em raiva, talvez do irmão que consumou seu desejo não realizado, talvez de si mesmo, por sua covardia disfarçada de ambição de santidade.

    Gostei do personagem Peixotinho, ele surge bem carnal, o que me alegra, porque foi o que sugeri no comentário à parte inicial. O episódio com Peixotinho introduz a fratura de Francisco decorrente da ausência do pai. O que, acredito, será explorado adiante no seguimento da história.

    A reação de Francisco à gravidez da irmã é mais um movimento que acontece na história que você nos conta. Francisco se percebe julgando a irmã, atitude nada condizente com suas fantasias de beatitude.

    Resumindo, nessa parte 2 um conflito íntimo se instala em Francisco, o personagem e a história crescem. No capítulo 17, esse conflito é dissecado pelo personagem, numa autoreflexão, que, embora bastante explicativa, está brilhantemente descrita. Destaco o parágrafo final, sobre esperar, altamente roubável.

    A questão dos bordões e das autoindagações segue, mas já não me incomodam, fazem parte do estilo da autora, ou do personagem. Que sigam, pois.

    Aguardo confiante saber para onde a terceira parte da história irá me levar.

  8. Mariana Carolo
    26 de julho de 2026
    Avatar de Mariana Carolo
    • Acho sempre legal rachaduras em pérsonagens. O Francisco não pensando mais em ser anjo, seria interessante ver isso em uma ação concreta. Por exemplo, ele prensando a Olívia em algum canto e ela reagindo bem mal. Ou algo do tipo.
    • Nossa, o Chico esquisito? Essas pessoas ao redor do anjinho são tão injustas.
    • Catarina tá grávida mesmo e eu jurei que ele ia sugerir aborto. Bem coisa desse tipo de gente.
    • Cláudia, eu acho a tua escrita bastante poética. Mas a parte do água, má água etc. pesou um pouco a mão. Acaba enfraquecendo a frase seguinte, que é tão forte.: “Sentimentos turbulentos desembocam em um mar que não cabe em mim”.
    • Já quer ser santo de novo, Chico? Vai pro psicológo…
    • Claudia, tu criou um personagem muito interessante e com potencial para ser memorável. Não sei o que tu pretende com essa narrativa, mas desenvolve ela (ações concretas, expansão dessa classe baixa burguesa decadente que faria o Nelson Rodrigues bater palmas).

    Comentários sobre os capítulos 17 e 18

  9. Mariana Carolo
    25 de julho de 2026
    Avatar de Mariana Carolo
    • Fico pensando se a cena de Olívia e Pedro não foi alucinação do Francisco. Ele é completamente enviesado, não dá para confiar.
    • Claudia, desenvolve a Olivia e o resto deles. Dá voz para quem tá implorando contar a sua versão das coisas.
    • Catarina tá grávida né? Aposto que vão mandar ela para uma “fazedora de anjos”. Ou a tia Cotinha que vai fazer isso? Por que chamaram ela?
    • É interessante o quanto o Francisco é autocentrado, ele não percebe o que tá na cara dele. A família morrendo com a gravidez e ele querendo atenção. Como vai reagir à notícia da gravidez da maninha? Imagino ele pegando essa criança escondido e abandonando ela. Deus me livre.

    Comentários sobre os capítulos 15 e 16.

  10. Mariana
    25 de julho de 2026
    Avatar de Mariana

    Comentários sobre os capítulos 15 e 16:

    • Fico pensando se a cena de Olívia e Pedro não foi alucinação do Francisco. Ele é completamente enviesado, não dá para confiar.
    • Claudia, desenvolve a Olivia e o resto deles. Dá voz para quem tá implorando contar a sua versão das coisas.
    • Catarina tá grávida né? Aposto que vão mandar ela para uma “fazedora de anjos”. Ou a tia Cotinha que vai fazer isso? Por que chamaram ela?
    • É interessante o quanto o Francisco é autocentrado, ele não percebe o que tá na cara dele. A família morrendo com a gravidez e ele querendo atenção. Como vai reagir à notícia da gravidez da maninha? Imagino ele pegando essa criança escondido e abandonando ela. Deus me livre.
  11. Mariana Carolo
    24 de julho de 2026
    Avatar de Mariana Carolo
    • Pedro agindo normalmente é mais uma indicação do quanto o Francisco é um narrador enviesado.
    • Esse teu texto tá muito Nelson Rodrigues, Claudia. O Chico louco de vontade de se aliviar e resistindo, é muito bem escrita a cena. Quase humorística, de um jeito meio cruel.
    • Toda a passagem com o Peixotinho é muito boa. Incialmente, o ciúmes que o Francisco sente ao ouvir a mãe ser chamada de Heleninha. Depois, a informação de que ele conhecia o pai.
    • É muito bem feita a cena de novela final, o Peixoto na escada e o Francisco fantasiando com paternidade. Aqui tu foi Janete Clair.
    • Eu não sei se tu pretende estender o romance, mas fica a sugestão de colocar outros pontos de vista. Por exemplo, o Pedro é realmente um sacana? Imaginei ele falando sobre a dona Olívia. Ou ela mesmo comentando sobre como tem medo do doido do irmão do Pedro.

    Comentário sobre os caopitulos 13 e 14

  12. Mariana
    21 de julho de 2026
    Avatar de Mariana

    Comentários sobre os capítulos 11 e 12:

    • Claudia, é legal que você está construindo um personagem com uma lógica própria e previsível. O sonho, a ideia de salvação, a perturbação misturada com desejo. Tudo isso é muito do Francisco.
    • Mesmo sendo vista apenas pela ótica do Francisco, a Olívia é uma figura interessante. O que se esconde atrás da viuvez dela? Talvez nada, pode ser só loucura do Francisco
    • Ou a relação dela com o Pedro existe e é uma coisa boa? Uma nova chance para uma mulher amar.
    • A cena dos dentes sangrando é interessante. Aliás, fica como sugestão (ou talvez você fez e eu ainda não cheguei) – como Francisco reage ao sangue? Ele é daqueles que se chicoteia?
    • A descrição do irmão é quase carregada de tensão sexual.

    Enfim, vamos ver o que acontecerá

  13. Martim Butcher
    21 de julho de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Olá, Claudia. Cá estamos de volta para a leitura da história do imaculado Francisco. Vamos lá!

    Comecei o capítulo 11 e logo de cara tive a sensação de que aquilo que eu tinha observado na entrega anterior permanecia acontecendo. “Sou um homem de hábitos frugais”. Lá vem Francisco, pensei, com seu irresistível ímpeto de definir a si mesmo. A frase de abertura do romance, embora levemente diferente no conteúdo, tem a mesma estrutura. Francisco sempre quer garantir que a opinião que tem a respeito de si seja levada em consideração, e inclusive algumas sequências de ação estão em nome da ilustração de sua própria figura, como é o caso da passagem de abertura do capítulo 11, em que descreve e narra costumes íntimos.

    Como já observei anteriormente, isso é extremamente eficaz no que se refere à definição do estilo e da voz narrativa. O procedimento, porém, tem diversas consequências na evolução da narrativa, pois sobra pouco espaço para o desenvolvimento das ações, para o protagonismo dos demais personagens, para, em suma, o confronto de Francisco com o mundo que o circunda. Não acho que isso seja necessariamente um defeito, não quero entrar ainda nesse mérito. A questão por agora é saber se você adota o expediente conscientemente como autora ou se está refém da personalidade um tanto covarde do seu personagem.

    O que quero dizer com isso?

    Por um lado, eu penso o seguinte: se for depender da vontade de Francisco, ficaremos para sempre retornando à ideia que ele faz de si, justamente porque ela é tão frágil que a contraposição com o mundo externo fatalmente a colocaria em crise. De fato, no pouco que seu discurso deixa entrever do lado de fora, Francisco já entra em parafuso. Mas cada vez que algo nele começa a se abalar, ele recorre à garantia da formulação de sua bondade, que a certa altura vai ficando gasta, embora haja variações. Lá pelas tantas desse mesmo capítulo 11, Francisco diz: “Para encerrar, já de olhos fechados, relembro minha missão. Tornar-me um santo com asas. Ou um anjo pleno de santidade. Não importa, o que preciso mesmo é me afastar de qualquer pecado que possa macular minha jornada. E esse não é um propósito fácil.” Que diferença há entre esse trecho e outros tantos que o precedem? Não ignoro que, nas suas especulações internas, alguma coisa vai se deslocando lentamente. Já há um questionamento entre ser santo ou anjo. E, em direção ao final, se oferece um terceiro caminho: ser tio. Isso desafoga a narrativa. Mas de modo geral, a afirmação de sua submissão a Deus, a castidade, a penitência, os hábitos frugais etc., tudo isso são variantes de um mesmo carácter que já foi muito bem definido lá atrás. E lá atrás ele já deu muita bandeira de que esse caráter é uma máscara que esconde coisas pecaminosas. Fico com a sensação de que resolvi a charada sobre Francisco há muito tempo, enquanto o texto insiste em redizer essa charada, como se ainda não estivesse solucionada (espero que eu esteja enganado, por sinal). Quando digo que você pode estar refém do desejo do personagem, significa que a força dele para evitar o contato com o mundo externo pode estar se impondo a você inconscientemente. Há vários personagens, mas eles estão ainda distantes, como se você mesma não se atrevesse a se aproximar deles porque o pretensamente casto Francisco prefere assim. Parece que, a cada escapadela, uma voz te diz: “Ah, não, já passeamos muito por hoje, vamos voltar à casinha. Como eu ia dizendo, sou bom, quero ser um santo etc.”. Em algum diálogo abaixo o Francisco foi chamado de chato. Concordo parcialmente. Um chato, sim, mas não é porque o personagem narrador é chato que sua prosa deve ser chata. Talvez sendo sedutor com as palavras e a condução do enredo ele revele muito mais ambiguidades de caráter do que afirmando seu sofrimento e seus dilemas, com a vantagem de nos entreter. Por enquanto a mim ele não seduz muito, salvo em alguns momentos mais ensaísticos.

    Há, porém, o outro lado. Talvez você esteja criando um texto deliberadamente repetitivo por algum motivo que ainda ignoro. As coisas quando permanecem sem exercer uma função antiga muitas vezes já estão exercendo uma função nova. Voltemos ao trecho que destaquei: “Para encerrar, já de olhos fechados, relembro minha missão. Tornar-me um santo com asas” (e por aí vai). Bom, do plano de Francisco e de sua concepção de si já sabemos bastante. Se você insiste em redizer isso é, talvez, porque alguma outra coisa está se gestando nessa insistência. Não descarto essa hipótese, embora ainda não consiga ver o que pode vir de interessante por esse caminho. Uma outra coisa que penso é que a amplificação do discurso sobre si em detrimento das passagens narrativas está em nome de uma forma antirromanesca (no melhor sentido da expressão). Seria uma forma desprovida de acontecimentos externos. Tudo se passaria na consciência do narrador. Quase como um ensaio, mais um ensaio ficcional, pois os movimentos reflexivos não são os seus, mas os de um personagem. Será que você quer algo assim? É uma pergunta sincera.

    Não posso deixar de observar que, apesar dessas impressões, a segunda entrega parece ter mais cenas de ação do que a primeira. Estou certo? Ainda assim, ficou-me a sensação de giro em falso. Talvez eu esteja por demais influenciado pelas passagens que julguei repetitivas, sobretudo a de abertura do capítulo 11, antecipando e me decepcionando, com um pouco de presunção, que você teria evitado que Francisco voltasse com sua ladainha de autodefinição, conforme eu desejava. Mas Sem pecados é o que você deseja, não é? Isso é o mais importante agora, eu acredito.

    Outra coisa que me passou pela cabeça várias vezes diz respeito à localização histórica dessa narrativa. A voz de Francisco, seu vocabulário, o fato mesmo de ele ser um papa-missas, tudo converge para algo ali entre o século XIX e a primeira metade do XX. Mas outros elementos indicam que a coisa é mais contemporânea (em algum lugar, se me lembro bem, fala-se de um “postinho”, em referência ao posto de saúde). Há um sabor anacrônico no romance que ainda não sei a que se presta. É proposital? A concordância entre o Bem e a moral católica é algo inusual em nossos tempo, penso eu, embora tenha sido muito relevante em tempos passados. Sua narrativa parece ter sido criada em e para um mundo que já não existe mais. Não descarto isso como gesto estético, se é que é gestoe estético e não meramente uma adesão inconsciente ao universo ficcional de autores que você (e eu também!) preza. Outra possibilidade: se trata de um romance de época. Aí a coisa seria diferente. Isso tudo passa pela sua cabeça também? Ou para você a narrativa é plenamente contemporânea, em todos os seus aspectos?

    Seguimos conversando! Parabéns pelo trabalho.

  14. Priscila Pereira
    1 de junho de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Oi, Claudia! Tudo bem?

    Voltei pra terminar de comentar o seu começo de romance!

    Francisco parece ter um entendimento superficial da Bíblia, e nenhum relacionamento com Deus. Quanto mais chegamos perto de Deus, quanto mais o conhecemos, mais somos conscientes das nossas falhas e pecados, percebemos que santo, puro, digno, perfeito é só Ele e que nós não conseguimos nunca sem a ajuda dEle sermos realmente bons. Então o Francisco, pra mim, está bem longe de Deus, e estou muito curiosa para saber o que você tem em mente para ele, será que ele vai perceber que não é o santo que pensa? Ou será que essa distorção de imagem vai ter uma consequência na saúde mental dele? Será que ele vai conseguir a redenção (porque sem a percepção do próprio pecado é impossível se arrepender e buscar a redenção)? São incontáveis possibilidades e estou bem curiosa!

    Não sei o que pretende pras próximas partes, mas como o romance é em primeira pessoa e o narrador é tão chato, você tem tomar bastante cuidado pro romance não ficar chato, arrastado, de fazer raiva no leitor. Mas tenho certeza que você vai conseguir driblar a chatice do Francisco e apresentar um ótimo romance!

    Até a próxima etapa!

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Pri, tudo bem? Obrigada por completar o seu comentário. Não, eu sinto muito, mas não acredito mesmo que você vá gostar do desenrolar do meu romancinho. Terei de decepcioná-la mais uma vez.

      Francisco é jovem, vive em mundo particular, engana-se a si mesmo, e talvez tenha um transtorno psicológico. Mas quem sou eu para julgá-lo?

      A narrativa corre sério risco de se tornar chata, arrastada, pífia e até morna, mas prefiro que provoque raiva no(a) leitor(a). Francisco e os demais personagens não estão aqui para agradar ninguém, viu, muito menos a esta autora que vos fala. Sorte sua que não é obrigada a ler as aventuras e desventuras do protagonista-que-se-acha-santo-mas-não-é. (Mas se puder, leia, tá?)

      Quero deixar claro que não estou tecendo um tratado teológico nem defendendo qualquer posicionamento religioso. É mais uma provocação quanto a mazelas sócio-psicológicas, nada demais.

      E vamos continuar escrevendo porque temos muito chão pela frente.

      Beijos.

  15. Gustavo Araujo
    31 de maio de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Oi, Claudia! Cá estou a ler o seu princípio de romance, com a história de Francisco, o auto-intitulado-pretenso-futuro-santo-isento-de-pensamentos-impuros-e-titular-absoluto-da-virtude.

    Muito bacana como você nos apresenta esse protagonista, por meio de uma narração em primeira pessoa em que se destaca uma quase-obsessão pela pureza de espírito e pelo corpo fechado para o pecado. Isso é repetido à exaustão, de modo a demonstrar que Francisco é alguém ao mesmo tempo assombrado pelas tentações da carne e do espírito e orgulhoso de ser invulnerável a isso.

    É pelas declarações dele, ou melhor é pelas entrelinhas das declarações dele que vislumbramos o mundo que ele habita. A Mãe (sempre com maiúsculas), os irmãos homens (que mais parecem um só), a irmã, enfim, o núcleo familiar fragmentado e pecaminoso e que lhe serve como contraponto na busca pela pureza pessoal.

    Mas não só isso. Há também os vizinhos, a viúva em especial, além do padre, a jogar com a mente dele, de Francisco, levantando questões incômodas, fazendo aflorar pensamentos de que ele pode estar desejando a viúva e, concomitantemente, sendo desejado pelo homem de batina. E tudo isso você faz sem contar, mas mostrando, com muita perícia, através de pensamentos, de dilemas e de anseios.

    Não dá para perceber, ainda, o rumo da história, ainda mais se considerarmos que há três etapas pela frente. Mas ouso imaginar que tanto o padre como a viúva terão papel fundamental no desenvolvimento do nosso jovem narrador, não só colocando sua fé à prova, mas exigindo dele sacrifícios e atitudes. Talvez isso tudo venha a servir para que ele se descubra como pessoa, mas é cedo para bancar a cartomante aqui.

    De qualquer maneira, a prosa, como sempre, está muito agradável de ler. As palavras caem perfeitamente no que se pretende passar. Há, ainda, construções muito bem elaboradas. Por mais de duas vezes me peguei sorrindo enquanto lia. Muito bom ver uma escrita desse nível entre nós.

    Enfim, há algo de loucura na busca de Francisco pela santidade. Ele não percebe, ou parece ignorar que a ambição é um pecado grave, não? E também luta contra os instintos animais que vez ou outra se insinuam pelo corpo. Vai ser interessante quando tudo isso vier à tona.

    Ótimo trabalho, minha amiga. Espero ansioso pela continuação.

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Gustavo, tudo bem?

      Você apontou algo que realmente estava começando a me incomodar: os irmãos que parecem um só. Pedro e Tadeu não se distinguem muito, a não ser pela insinuação do romance entre Olívria e Pedro. Tadeu mal se manifestou, preciso rever isso.

      O grande perigo da ambição de Francisco é de se tornar uma obsessão. Claro que essa pretensão à santidade encombre muitas lacunas da vida do rapaz. Enquanto mantemos o olhar fixo em um só ponto, não conseguimos enxergar o que acontece ao nosso redor, nem a nós mesmos. É uma cegueira que não pode evitar o caos.

      O que acontecerá com Francisco? Não tenho um destino fechado ainda para ele… Tudo pode mudar. Aguarde.

      Abraço.

  16. marco.saraiva
    29 de maio de 2026
    Avatar de marco.saraiva

    Primeiramente, peco perdao pela falta de acentos. Estou usando o teclado do laptop do trabalho, que esta configurado em ingles. Alias, o corretor tambem esta em ingles, entao provavelmente alguns erros de digitacao tambem passarao desapercebidos. Foi mal!

    Gosto da sua escrita por que ela tem muita personalidade. Seu estilo narrativo eh simples e direto, mas nao simplorio. Eh uma leitura redondinha, que segue em tom quase infantil. Na verdade eu diria que o tom eh sim infantil, mas de proposito. A inocencia de Francisco, mesmo na idade adulta, confere a ele um ar de mocidade que me faz ve-lo como um daqueles anjinhos de michelangelo, com asinhas pequenas, sobrevoando a humanidade e observando-os de longe, sem entender os seus caminhos vis.

    A narrativa vem em um formato de diario. Ao inves de cenas e dialogos, temos um narrator sempre-presente, destilando memorias, com o ocasional trecho de conversa. Por um lado gosto de leitura assim por que sai do esperado e quebra um pouco o que se ve por aqui. Por outro lado, sempre achei dificil estabelecer conexoes e peso emocional em narrativas feitas desta forma. Nao eh impossivel, apenas acho mais dificil. Aqui, ainda nao vi muito para estabelecer grandes conexoes com personagem algum, mas com certeza estou curioso para ver onde Francisco vai chegar em sua eterna bondade e pureza, e onde seus irmaos e irma vao terminar, tambem.

    Alias, o livro eh sobre isso: personagens. Apesar de Francisco ser o narrador e protagonista, o que brilha aqui sao as pessoas e a vida que as linhas do texto conferem a elas. Gosto de Tia Cotinha, tenho uma certa pena de Pedro, e fico nervoso quando a narrativa toca no Padre Olavo e suas “tendencias”. A promessa que voce estabeleceu aqui, nesta primeira parte, eh que veremos mais de todos eles nas proximas, e desperta uma curiosidade quanto aos seus desfechos. Isso eh muito bom.

    Se tenho uma nota, eh sobre o vai-e-vem na linha temporal, que me deixou um pouco tonto. Francisco fala da sua infancia e do presente intermitentemente, e por vezes me peguei sem saber onde eu estava. Algumas escolhas de palavra nao ajudaram, como, por exemplo, voce falou que Pedro era “Jovem, quase adolescente”. Um “quase adolescente” para mim eh alguem que ainda nao chegou na adolescencia. Ainda mais quando vem seguido de outra descricao dele como “um quase menino”. Por algum tempo achei que Olivia estava tendo relacoes com uma crianca! Outro exemplo: no incio, vemos Francisco falando da sua infancia e entao ele fala de como os irmaos dele o acusam de pedofiolia, e eu fiquei pensando em “como uma crianca pode ser pedofila?”

    Mas, tirando este detalhe pequeno, o texto eh muito bom, e quero saber do desfecho dado a estes personagens. Terminamos a leitura com esta curiosidade de Francisco que parece beirar a obcessao, e imagino que esta eh uma sementinha para que, nas proximas partes, esta pureza dele comece a falhar.

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Marco, tudo bem?

      Obrigada pela leitura e, principalmente, pelo comentário.

      Não tinha pensado na possibilidade do “quase” criar tanta confusão. Pedro não é mais um adolescente, mas não é também um adulto formado. Está naquele limbo, ainda sem saber quem é e o que quer da vida. Jovem, quase adolescente é diferente de Criança, quase adolescente, né? Talvez eu troque “quase um adolescente” por “praticamente um adolescente”… talvez, mas não garanto. Vou prestar mais atenção à questão da faixa etária dos personagens.

      O tom infantil seria algo naif da parte do narrador?

      Minha intenção é dar um pouco mais de espaço e desenvolvimento aos personagens coadjuvantes. Mesmo que todos fiquem limitados à visão de um narrador nada confiável.

      Pode contar com futuras falhas da pureza de Francisco.

      Abraço.

  17. cyro eduardo fernandes
    28 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Cláudia construiu os primeiros capítulos de um romance através de uma prosa muito bem cuidada, rebuscada, mas sem exageros, e com toques coloquiais.

    O protagonista sofre de uma autoestima inflada e por um autoconhecimento distorcido. Francisco está construído solidamente, com suas reflexões sempre favoráveis a si mesmo, e suas dores pela ausência do pai, os olhares do padre, e os conflitos com os irmãos.

    Há ironia ao longo do texto, entremeadas pelas críticas sociais. O romance de Pedro com a viúva torna-se interessante, principalmente quando as visitas de Francisco ao cemitério despertavam desconfianças infundadas.

    Creio que a ausência do pai pode ser mais bem explorada. Vai acabar ajudando a detalhar um pouco mais a personagem materna.

    Parabéns e perdão pelas minhas observações não serem tão aprofundadas como as que recebi de você (obrigado outra vez!).

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Cyro, tudo bem?

      A ausência paterna ainda será explorada mais adiante na narrativa. É um ponto importante na biografia de Francisco. Uma lacuna que dificilmente será completada apenas com fé e orações. Não no caso do meu protagonista, pelo menos.

      Que bom que percebeu os toques de ironia e crítica social no texto. Não quis exagerar na dose, espero continuar a trama sem perder a linha.

      Muito obrigada pela leitura e, principalmente, pelo comentário.

      Abraço.

  18. rubem cabral
    26 de maio de 2026
    Avatar de rubem cabral

    Olá, Claudia.

    Impressões gerais.

    A melhor abertura de romance que li aqui, até agora: “Sofro de bondade”. É muito legal pq junta a simplicidade de uma frase curta, dá rapidamente o tom do que virá a seguir e já faz crescer a suspeita de um narrador não fiável. A consistência da narração e da “alma” do personagem é muito boa, ele soa sempre num conjunto de notas, num círculo muito bem delimitado. O romance parece insinuar uma primeira quebra do boníssimo e pientíssimo personagem, já perto do final do último capítulo. Toda a construção é muito sólida e parece partir de uma autora com olho muito arguto e com percepção muito fina do que é a natureza humana. Há camadas na personalidade de Francisco, que parece em primeira impressão um narcisista, mas que provavelmente tem mais nuances por mostrar.

    Qualidade da escrita

    Ortografia, pontuação, etc. O texto está muito bem escrito. Tem coisas muito pequeninas a revisar: “bíblia” (substantivo próprio, deveria estar com B), “Não entendo porque se exalta tanto” (por que, é uma pergunta indireta), “É o começo do que eterno” (falta verbo?), “Tantos os meus olhos quanto…” (tanto).

    Diálogos

    Os diálogos são poucos, mas funcionam bem, parecem naturais.

    Personagens

    Francisco é um personagem imenso, que abafa e produz uma grande sombra sobre os demais. A mãe, o padre, os irmãos, a tia, os vizinhos, ainda estão um pouco pálidos diante de um sol tão brilhante. Talvez dar espaço para outros personagens e subtramas possa trazer um pouco de “quebra” (se for sua intenção) nos segmentos por entregar.

    Abraço!

    • claudiaangst
      26 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Olá, Rubem, obrigada pela leitura e comentário.

      Finalmente, alguém se deu ao trabalho de apontar as falhas de revisão. Confesso que não sei revisar meu próprio texto. O olhar de revisora simplesmente ignora os erros e lacunas (acho que tenho algo de Francisco, hein).

      Não vejo o protagonista como um narcisista, apenas tentei retratar um jovem que ainda não descobriu quem é de fato e se esconde sob camadas e camadas de hipocrisia e ideais que herdou. Um impostor de si mesmo.

      Já percebi que preciso mesmo dar mais cor e carne aos outros personagens. O problema é que sendo Francisco o narrador, fica difícil ele conceder espaço aos demais. E se parar de olhar para o próprio umbigo, vai apenas dar a sua versão da vida dos outros. Talvez esse seja o único caminho a seguir (confiando na “bondade” de Francisco).

      Todos os comentários, incluindo o seu, têm me feito pensar em que rumo dar à narrativa. Já tenho o desfecho delineado, mas o caminho até lá dependerá de muitos fatores. No final, são os personagens que mandam em mim e não ao contrário. Doideira? Com certeza!

      Abraço.

  19. André Lima
    24 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DE TUDO PORQUE LI TUDO NUMA TACADA SÓ PORQUE FOI BOA LEITURA

    Bom, eu estava preparado para comentar por capítulos. Li os dois primeiros capítulos ontem, mas tive que interromper a leitura e acabei relendo tudo hoje. Então vai ser um comentário só. Aí vão as impressões:

    A abertura é uma declaração de intenções muito bem executada. Sofro de bondade é uma primeira linha que faz tudo o que uma primeira linha precisa fazer: instala o tom, apresenta o narrador e já planta a ironia que vai sustentar o romance inteiro. Francisco é um narrador não confiável da melhor espécie, aquele que genuinamente acredita em tudo o que diz, o que torna cada afirmação dele simultaneamente hilária e perturbadora. Lembrei um pouco do estilo do nosso conto com o Cyrino (“Filha de Deus”).

    A relação com os irmãos é o melhor motor cômico do capítulo. A forma como Francisco descreve os supostos crimes de Pedro, Tadeu e Catarina com aquela indignação contida e piedosa, para em seguida absolvê-los com misericórdia, é o tipo de voz que o leitor vai querer acompanhar por duzentas páginas. O trecho sobre entregar a questão nas mãos de Deus e dispensar os próprios sermões é perfeito.

    A ausência do pai, introduzida com cuidado no final do capítulo, instala uma tensão emocional que equilibra bem a comicidade. A frase sobre ser órfão duas vezes se Deus não existir é excelente, e o recuo imediato, a autocorreção fervorosa, é o mecanismo central da voz de Francisco funcionando no seu melhor (Aqui é referência total ao nosso continho! haha).

    A memória da Tia Celina e o primeiro desgosto amoroso é um dos trechos mais bem construídos da etapa. A criança que fecha o coração para o amor porque a professora se entregava a todos em dedicação tem uma lógica interna perfeitamente coerente com Francisco, e é ao mesmo tempo genuinamente engraçada e ligeiramente melancólica. Você calibrou bem essa ambiguidade. Engraçado que estou achando sua voz narrativa mais próxima dos contos do que do seu romance (Entrelinhas e Guias).

    O diálogo com os irmãos sobre a viúva do coveiro cumpre duas funções ao mesmo tempo: estabelece a tensão familiar e sugere, nas margens, algo que Francisco não verbaliza e possivelmente não permite que apareça sequer em sua própria consciência. Esse subtexto ainda está muito embrionário, mas é onde o romance pode crescer de forma mais interessante (Sugestão para a segunda etapa).

    Já o capítulo 3 é o mais “interno” dos quatro, quase um monólogo teológico, e funciona como pausa reflexiva na narrativa. Francisco debatendo sua própria natureza, questionando se seria parte do Pai e imediatamente se repreendendo, tem uma qualidade que lembra certas vozes da tradição da literatura de confissão, sem ser pastiche de nenhuma delas.

    6 de Agosto, data da Transfiguração…

    O risco do capítulo, e é pequeno ainda, é que ele circula em torno das mesmas obsessões dos anteriores sem revelar uma camada nova de Francisco. Funciona como aprofundamento do retrato, mas não como avanço. Nos próximos capítulos vai ser importante que algo ou alguém perturbe a serenidade do narrador de uma forma que ele não consiga absorver tão facilmente com uma oração.

    Em minha opinião, o almoço com dona Helena é o melhor momento dos quatro primeiors capítulos.

    O pensamento sobre ter nascido de uma relação carnal com o consequente enojo aprofunda algo que o romance vai precisar desenvolver com cuidado. Há algo em Francisco que excede a religiosidade e toca num território de dissociação mais complexo, e esses momentos são os mais ricos do texto.

    A cena com Padre Olavo é onde o texto dá o salto mais importante de toda a etapa. Até aqui, Francisco era cômico e perturbador de forma equilibrada. Aqui, pela primeira vez, ele experimenta algo que não consegue nomear e que o texto também recusa a nomear, o desconforto diante do olhar do padre, o mal-estar que congela. O sinal da cruz como fuga é perfeito. E a saída com os punhos cerrados e os olhos marejados, sem que Francisco compreenda inteiramente o que sente, é o momento em que o romance mais cresce literariamente. Você deixou a cena funcionar sem explicá-la. Muito bem.

    A descrição da beleza das santinhas como o único objeto estético que Francisco permite a si mesmo contemplar com prazer também está muito bem colocada aqui, especialmente depois do diálogo sobre vaidade com o padre. Há uma erotização sublimada e completamente inconsciente que Francisco aplica às imagens sagradas, e o texto sabe o suficiente para não dizê-lo em voz alta. Novamente, nada de exposição!

    O nono capítulo é, de longe, o mais leve até então, e cumpre sua função de respiro.

    Apanhado Geral

    É um romance extremamente coeso. A voz de Francisco foi estabelecida desde a primeira linha e se manteve consistente pelos dez capítulos sem uma única vez escorregar para fora do personagem.

    O que o romance faz de melhor é o que os melhores narradores não confiáveis sempre fazem: permitir que o leitor veja o que o narrador não consegue ver sobre si mesmo.

    O que posso sugerir como ponto de atenção na segunda etapa é o movimento. Dez capítulos se passaram e Francisco está essencialmente no mesmo lugar emocional em que começou, o que é coerente com o personagem, mas vai precisar de alguma pressão externa que o desloque de verdade, isso em termos de estrutura narrativa. O nome na lápide, o padre, dona Olívia, o pai ausente, são todos fios que enxerg que o texto puxou sem ainda resolver. A segunda etapa vai precisar escolher qual ou quais desses fios vai tensionar de verdade e, sinceramente, me preocupo se você vai conseguir fazer tudo em 50 mil palavras kk.

    Bom, gostei bastante. Parabéns. A grande força do romance, até aqui, é, sem dúvidas, Francisco. Uma criação genuína!

    • claudiaangst
      1 de junho de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, André, tudo bem?

      Sim, catei algumas palavrinhas lá do nosso conto Filha de Deus, da minha parte, claro. O tema é pertinente aos dois textos, não acha? Tenho essa mania de contaminar uma nova narrativa com as outras que ficaram pra trás. Ou será preguiça de escrever algo completamente novo? Fica o questionamento.

      Concordo com você: Francisco não consegue enxergar a si mesmo. O objetivo da santidade, um delírio que ele alimenta desde criança, o torna cego para a realidade (a sua e a de todos ao seu redor).

      Na segunda parte pretendo movimentar um pouco mais a narrativa, mas não vá esperando muita ação. Bom, a esta altura, você já sabe como os meus textos são, então…

      Alguma tensão deve haver, mas não sei se vou arrematar todas as pontas soltas. Afinal, na vida, deixamos muitos buracos sem cobrir, não é mesmo?

      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário abrangente.

      Abraço.

  20. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    22 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Sem Pecados | Autor(a): Claudia Roberta Angst

    Fase de Leitura: Capítulos 1 a 10

    Data: 20/05, 21/05 e 22/05/2026 

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    “Sem pecados” é um romance que nos apresenta Francisco, um homem soberbo e religioso, extremamente cheio de si e suas contradições.

    Impacto extremamente positivo!

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]
      • Gostei bastante: capítulos curtos, dinâmicos, voltados para o desenvolvimento da narrativa, mas sem ignorar a necessidade de destrinchar os elementos certos para a história.
      • A história se desenvolve num tempo muito bom; não é nem apressada demais, nem lenta de menos.
      • Não há qualquer brecha para compreender o que vem por aí: eu amo isto!

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Francisco está MUITO BEM desenvolvido. Até o momento, meu personagem favorito. Tem uma nuance psicológica interessantíssima. Mesmo nesse trecho inicial, é perceptível que há diversas camadas nele. Além disso, é terrivelmente humano. Espero ver mais dessas camadas adiante;
      • Acho que todos os personagens estão bem desenvolvidos, cada um ao seu jeito. Claro, será necessário destrinchá-los mais no desenvolvimento.

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Minha chatice com a questão da repetição de palavras/ideias não apareceu aqui. O motivo é simples: faz parte da construção da psiquê da personagem. Talvez irá cansar alguns leitores. Mas ainda assim, é uma repetição sempre atrelada a um fato novo na história. É o foco do personagem. Detalhe sutil, muito bom.
      • Esse texto é um prato cheio; há subtextos, belas construções frasais, figuras de linguagem variadas… Aula de literatura.
      • ótimas frases:
        • “Tenho mais alguns minutos, antes que a obrigação me bata continência.”
        • “Olhando mais de perto, dona Olívia parece mais velha do que deve ser, mas não lhe falta certa graciosidade. O luto é que pesa no seu andar, tudo perde o brilho de qualquer juventude que possa ainda resistir (talvez essa última frase pudesse vir depoisde um ponto final… Arriscado ensinar o padre a rezar a missa.”

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Claudia, que primor de escrita! Quero escrever igual a você quando crescer!

    Francisco me lembrou bastante aquela personagem de “Beijo Roubado”  e também aquela personagem idosa de Gabriela Cravo e Canela, a religiosa que na série chamava todas as mulheres da cidade de quengas! Claro, são histórias com propostas diferentes! Todavia, há em ambos uma aura de caricatura, o que traz um certo humor. 

    Para finalizar esse aspecto, eu diria que Sem Pecados traz o melhor do seu estilo de escrita. Simples, inteligente, muito bem articulada, repleta de subtexto e com boas doses de humor.

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Altíssimo! Claudia, você foi extremamente feliz em construir o ambiente de Sem Pecados. O que é interessante no seu trecho em relação a esse aspecto é que em poucos momentos você trouxe descrições sobre o ambiente em si. Ainda assim, com muita habilidade, você articula bem o texto e a visão de mundo do protagonista e cria, no leitor, o universo de Francisco.

    Além disso, acho o principal: Francisco enquanto personagem tem jeito, tem cheiro, fala, é permanentemente inconsistente e etc, que nem gente como a gente. É um personagem extremamente humano (ainda que caricato)! Parabéns!

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Tem muitas coisas que me fizeram apreciar essa história. Primeiramente, a sua escrita: primorosa, sagaz, sensível e com uma escolha de palavras invejáveis. Por todo o trecho que você nos apresentou, eu fui me cobrindo com suas palavras como quem se enrola num edredom quente num dia frio. Há diversas frases maravilhosas que são possíveis de destacar.

    Além disso, é uma narrativa sem pressa. No seu tempo. Por meio do narrador-personagem, você constrói muito bem o ambiente dele; uma cidade pequena, talvez em tempos mais antigos, com tradições mais conservadoras. Tudo muito bem articulado e explicitado pelo protagonista.

    Francisco, mesmo sendo um chato de galocha, me conquistou (até o momento). A chatice que habita em mim acena desinteressada a chatice que habita nele. É um personagem religioso, soberbo, cheio de si, mas que caminha inseguro diante de sua humanidade. De uma forma muito louca, identifiquei minha ansiedade nesse processo repetitivo de auto-afirmação religiosa do Francisco; a todo o momento, na nossa cabecinha ansiosa, os pensamentos indo e vindo, verificados e justificados. Se errados, são algo a mais além do erro humano. É o tal do perfeccionismo.  

    Por isso, até o momento, é um dos meus personagens favoritos, devido à sua construção.

    No mais, o texto me cativou. Com certeza, será um dos primeiros a ser lido na próxima etapa. 

    PS: Claudia, você precisa urgentemente pedir para sua filha fazer uma capa ilustrando esse romance, por favor! Seus fãs lhe imploram!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Nossa, Givago, como vou conserguir escrever a segunda parte do meu livro agora? Você me deixou sem palavras.

      Claro que adorei o seu comentário e seus elogios. Deu até uma animada para continuar a saga de Francisco, viu? Tão bom quando um texto nosso consegue atingir o leitor!

      Você percebeu questões que eu ainda estou descobrindo, as tais camadas de Francisco. E ele é chato mesmo!

      Espero que o desenrolar da narrativa não te decepcione. Farei o melhor que puder, isso posso garantir.

      Já passei o seu recado para a minha filha. Quem sabe esta aventura não acabe em um lançamento no futuro? Não seria maravilhoso se todos aqui pudessem ter seus romances publicados com sucesso?

      Muito obrigada pelo seu comentário, Givago. Abraço.

  21. Priscila Pereira
    21 de maio de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Oi, Claudia! Tudo bem?

    Li o primeiro capítulo só por enquanto, e tenho algumas ideias pra trocar…

    Bem… Francisco é um pé no saco, desculpa a franqueza, mas imagino que era essa a sua intenção, né?

    Fiz um paralelo dele com a Irene, e acredito que eles sofram do mesmo mal, um é (e só ficará claro nos finais) o completo oposto do outro. Vamos ver se vou acertar.

    Uma coisa que me chamou a atenção é que quando comecei a ler imaginei que o Francisco fosse um velhinho, mas depois, por causa da briga com os irmãos, pareceu um adolescente, então não consegui definir a faixa etária dele, o que prejudicou a imersão.

    Nada a declarar sobre a sua escrita, né… primorosa!

    Depois volto pra ler mais um capítulo!

    Até!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Oi, Pri, agradeço pela sua leitura. Sim, Francisco é um chato-chatíssimo, isso ele não reconhece, né?

      Considero que tanto Irene quanto Francisco vivem um conflito interno entre o Mal e o Bem. Afinal, não é o que enfrentamos todos nós?

      Francisco é jovem, é o filho mais velho, mas ele comenta que Pedro mal saiu da adolescência. Então, imagino que Francisco esteja na segunda década de vida. Mas ele tem toda essa postura de velho mesmo, falta uma brisa de juventude. Vou rever esse ponto, para talvez deixar mais claro que se trata de um homem jovem. Ou não.

      E aguardo a continuação da sua leitura e posterior comentário.

      Até.

  22. Kelly Hatanaka
    21 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Afff, Claudia. Que lindeza!

    Já nas primeiras palavras, seu protagonista Francisco se apresenta em dois níveis. O que ele acredita ser, bom, quase santo, e o que ele vai deixando escapar, afinal, quem, em sã consciência, se declara assim, bom, de boca cheia? Francisco nem bem começa sua história e a gente já percebe: ele não é nada disso e aí tem.

    A história começa singela, um rapaz religioso, que sente a ausência de uma figura paterna e que fantasia sobre ela, e que busca aprovação na sua dedicação à palavra de Deus. Ele é diferente de seus irmãos, descritos como maus, pecadores. Quer saber do pai, mas teme o que pode descobrir. Abriga-se na paternidade de Deus, na medida do possível.

    Tem um relacionamento próximo com o padre Olavo, um relacionamento estranho em que ele pressente perigo. Interessante este pressentimento. O quanto desse perigo é real e o quanto é imaginado/idealizado/fantasiado por Francisco?

    E tem a viúva Olivia. O que aconteceu entre ela e Pedro? O que acontece entre ela e Francisco?

    Este começo de romance conta muito através do que não diz e de tudo que nos leva a duvidar a respeito de Francisco. O título, “Sem Pecado” me faz pensar na passagem do Evangelho, em que Jesus diz à multidão que queria apedrejar uma mulher que, aquele que não tivesse pecados, que atirasse a primeira pedra. Será Francisco a apedrejar os pecadores, julgando-se sem pecado?

    É interessante também como você não descreve muito as coisas e lugares, mas a ambientação está lá, impecável. Vejo uma cidade pequena, as casas parecidas, simples, imagino Francisco, um rapaz bonito com roupas antiquadas e muito limpas, o cabelo dividido com exatidão.

    Fico imaginando o que vem por aí. Conheceremos o pai? Saberemos do passado da mãe? Quais são os segredos dessa família?

    Estou gostando muito de sua história!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Calma, Kelly, ainda teremos o desenrolar da história entre Pedro e a viúva. Nada muito explícito, apenas deixando a imaginação do(a) leitor(a) voar. E Francisco com isso? Também será atingido? Quem ler, verá.

      O que você imaginou sobre o protagonista e a cidade bateu com o que eu transmitir. Isso me deixou bem satisfeita.

      Muito obrigada pela leitura e pelo comentário gentil e abrangente.

  23. Sarah S Nascimento
    17 de maio de 2026
    Avatar de Sarah S Nascimento

    Olá, Cláudia! O seu texto parece muito com aqueles livros clássicos, tipo Machado de Assis, inclusive nas primeiras linhas, quando o personagem conta sobre o nascimento dele, os santos que lhe faziam companhia e toda essa ambientação religiosa, eu pensei no Bentinho lá do Dom Casmurro.

    Achei interessante saber que os irmãos desse protagonista não são como ele, e ele sendo o mais velho fica ainda mais simbólico né? Ele guiando os irmãos e tal e coisa. Gostei dele chamando eles de “almas perdidas”, kkkk, parece devoto mesmo o cara.

    Gente, esses irmãos dele inventando histórias… são cruéis hein? Acho que o mais leve foi inventar que ele fumava maconha, tá louco, esses irmãos dele pegam pesado. kkkkk.

    Um dos únicos momentos onde me identifiquei com o Francisco, se apaixonar pela professora. Mas ele era tão pequeno que acho que se apaixonar nem é a expressão certa aqui. Que fofura ele falando “sujeito marido”, kkkk, parece pensamento de criança inocente mesmo. Muito fofo. Caraca, mas uma desilusão com cinco aninhos, risos, tadinho dele.

    Nossa agora que percebi: Francisco não é o nome do santo casamenteiro? E esse Fransisco aí da história não tem vida amorosa, kkk, que legal a contradição. Curti.

    Ah não, esquece, eu fui pesquisar e falei errado, o santo casamenteiro é o santo Antônio, rs, perdão!

    Maledicência, gostei dessa palavra.

    No trecho que o Francisco citou o professor de matemática eu pensei: “meu Deeus, esse Francisco é muito chaaaaaato!”, risos. Ele só sabe dizer que é bom, que é bom, que é bom.

    Estou no capítulo quatro e começo a sentir que alguma coisa grande vai acontecer, por favor, alguém faz esse Francisco aí se mexer. kkkk.

    Nossa, fiquei triste pela dona Helena, essa descrição de quatro filhos e um monte de sofrimento. É tão triste que isso seja super comum, homens que abandonam a família assim. Sem mais nem menos. Será que descobriremos o que houve com o pai do Francisco?

    Caramba, que bonito o jeito que Francisco descreveu os olhos, cabelos e traços dele e dos irmãos. Um dia quero escrever assim, é tão imercivo e conversa com a história que ele ta contando. Lindo demais, muito bem feito. E olha só, temos mais informação do pai dos quatro: um safado bonitão. kkkkk.

    Eita o padre Olavo olhando e elogiando o rapaz hein? Olha só, seu padre, cuidado!

    Eu adorei esse diálogo sobre vaidade, beleza, espelhos, é aquele tipo de diálogo que diz muito mais nas entrelinhas. Além disso, você faz as falas daquele jeito que sabemos sempre quem tá falando sem precisar ficar dizendo: disse fulano, disse ciclano, ficou perfeito.

    Uau, participar desses desafios sempre me faz conhecer palavras novas, nunca tinhavisto essa: “veleidades”, gostei.

    Gente, esse Francisco vai citar cada um dos pecados? Pera é isso não é? Ele falou da vaidade, agora tá falando de avareza, será que ele vai mostrar uma forma de se esquivar de cada um? Hum, será que é isso? Vamos ver.

    Ai crédo, ele gosta de dar uns passeios no cemitério? ai não, odeio cemitérios. Qual é Francisco, pare de falar em beleza na morte cara! risos. Eu e esse Francisco aí não nos daríamos bem.

    Aaah, ele deitou no mármore, ele deitou no mármore como se fosse uma caminha confortável! Qual é Francisco! Esse moço tá me deixando nervosa. kkkk. Só falta ele cair no sono ali deitadão, todo largado.

    Olha, então o senhor Francisco não é indiferente as belezas femininas! Dona Olívia, risos. Mas falando de olhos verdes, tava pensando, é interessante esse negócio dos olhos das pessoas mudarem de cor quando estão no sol ou na sombra. É difícil pra mim imaginar um castanho que pode virar verde, são cores diferentes, e acho que de tons diferentes. Devo ter essa dificuldade porque vi poucas cores quando era pequena. Até isso é meio difícil de fazer, transferir as cores que eu vi num papel mostradas em olhos, afinal eu já vi verde, mas nunca vi olhos verdes. Ok, me distraí, perdão! kkkk.

    Essa foi boa demais, a tia chamou ele de anjo e o rapaz achou que ia crescer asas nele e sair voando? risos, adorei isso. Mas que mostra de humildade né, senhor Francisco!

    Estou na parte sobre a praça agora. Jesus, esse seu personagem me irrita. kkkk, compra uma pipoca, um sorvetinho rapaz, não mata não! Ai gente, os extremos tornam as pessoas inflexíveis, irredutíveis por nada!

    Terminei o texto agora. Estou morrendo de curiosidade também sobre o que houve entre o Pedro e a dona Olívia. Também queria saber se o pai do Francisco vai aparecer ou ele vai ser essa fonte de dúvidas e imaginações. Francisco já citou alguns pecados ali, mas acho que ta faltando uns dois ou três.

    Como falei no início, a linguagem do seu texto parece com a dos livros clássicos, isso não é crítica não, eu não li tantos clássicos assim, mas acho que eles são muito importantes e a gente aprende bastante sobre linguagem e histórias.

    Eu aprendi umas palavras novas bem legais e parando pra pensar, o Francisco não parece muito com o Bentinho não. O comportamento do Francisco é bem mais religioso, devoto e confortável do que o do Bentinho. Acho que foi só a impressão inicial mesmo, por causa de toda a história de nascimento, religião, promessa para santo e tudo o mais.

    Eu vou ser sincera, os outros personagens me parecem muito mais interessantes do que o Francisco. rs. Ele me exaspera, me irrita um pouco, eu dei umas boas suspiradas aqui ao longo da leitura. kkkk.

    Seu texto é muito bem escrito, ideias claras e interessantes, ambientação maravilhosa, detalhes bem colocados, contexto, pensamentos, tudo se encaixa perfeitamente.

    Eu não tenho nenhum ponto de melhoria pra citar, pelo menos não na questão da escrita. Tá tudo impecável.

    Sobre a história, confesso que em dois ou três trechos minha mente deu uma viajada. Acho que não consegui me conectar ao Francisco, me identifiquei com pouquíssimas coisas. As partes mais divertidas eram ver os irmãos importunando ele. Kkkk. Ah, eu vou fazer o trocadilho, com sua licença viu? Mas acho que é o seguinte: Francisco, nosso santo não bateu. kkkk. Desculpa, eu não podia perder essa chance! Até logo!

    • claudiaangst
      22 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Sarah, adorei o seu comentário, tão leve e divertido.

      Ainda bem que o seu santo não bateu com o do Francisco, viu? Eu ficaria preocupada com você, menina.

      Fiquei bem satisfeita em saber que o protagonista te incomodou, te exasperou. Isso é sinal de que atingi o meu objetivo: tocar a leitora.

      Francisco vai continuar correndo atrás da santidade, e fugindo dos pecados… Ele tenta excluir todos da sua vida, mas sei lá, acho que não está tendo muito sucesso. Contamos para ele? Não, né? Deixa que ele descobre sozinho.

      Obrigada pela leitura e pelo comentário tão especial. Abraço.

  24. Mariana
    10 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Comentários capítulos 9 e 10

    • A cena do Chico na praça fazendo ginástica, o pipoqueiro e o sorveiteiro me lembrou demais Nelson Rodrigues. Não sei, a banalidade do cotidiano que esconde turbilhões de sentimentos.
    • É interessante que Francisco faça ginástica, não parece algo da personalidade dele.
    • O interesse dele no possível relacionamento da Olívia com o Pedro também tem muito do Rodrigues.
    • Tá um cheiro de que esse livro vai acabar em tragédia familiar, que vira matéria de programa violento.
    • Medo do interesse maior do Chico ser no irmão do que na viúva.
    • Cláudia, eu quero terminar de ler a história. O que começou como um fluxo de consciência tá se mostrando um drama familiar bastante interessante. E classudo. Parabéns
    • claudiaangst
      10 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Mariana, estou adorando os seus comentários de leitora atenta. Comecei a ler Nelson Rodrigues muito, muito nova, antes do que deveria, mas era fascinada pelos seus textos. Na banalidade do cotidiano nascem muitos dramas familiares. O final já está definido, mas o caminho até lá ainda estou elaborando… Mistério.

  25. Mariana Carolo
    9 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Comentários do capítulo 7 e 8:

    • Olívia foi uma adição interessante ao romance, a ideia de uma disputa entre irmãos. É clássico, mas funciona.
    • O final do 7, como é muito o fluxo do Chico, ficou um pouco confuso. Uma sugestão é de repente separar graficamente.
    • O capítulo 8 é bastante curto, mas interessante.
    • A ideia do Chico enlouquecendo com as asas dá para entrar até no body horror. Imagina, as asas brotando, rasgando a pele…
    • Eu acredito que o Chico tem algum problema psiquátrico.
    • A tia Cotinha, com o seu cabelo meio descolorido, foi um retrato muito crível. Todo mundo conheceu uma Tia Cotinha.
    • Amanhã pretendo terminar a primeira parte, mas tá sendo uma leitura muito prazerosa Claudia.
  26. Mariana Carolo
    9 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Impressões capítulo 6:

    • Tadeu apareceu um pouco mais, mas ainda não entendi a sua persona (na verdade, nem sei se importam muito os manos)
    • O Chico trabalha como burocrata, isso é bastante kafkiano
    • O lance do cemitério me lembrou uma história real, de uma mulher que se apaixonou por uma foto em um túmulo. Admito que todo o passeio tinha um ar de sensualidade – como se o Francisco sentisse uma atração física no ritual
    • Ficou legal o fato do final acabar em um sonho/acordado… A passagem ficou bastante onírica
    • O túmulo é do pai mesmo? Ou de alguém com o mesmo nome? Ou é tudo um sonho?
    • Retorna ao passeio nos próximos capítulos e, concordo com o Chico, artes de cemitérios são bonitas mesmo.

  27. Canibalismo Cultural
    7 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Buenas ami, tudo bom?
    Vou falar só do primeiro capítulo que foi o que eu mãos gostei c:

    Enquanto eu lia esse texto, pensei muito em Carta ao Pai. Não exatamente pela história, mas pela sensação. Tem a mesma angústia de alguém tentando entender a própria vida através de uma ausência. No Kafka, o pai é uma presença enorme. Aqui, o pai nunca esteve ali, mas mesmo assim ocupa tudo.

    O que mais gostei foi essa dúvida constante sobre o narrador. Em vários momentos eu fiquei sem saber se ele é só uma pessoa sensível e machucada ou alguém tentando esconder alguma coisa de si mesmo. Quanto mais ele insiste que é bom, mais triste isso fica. Parece alguém tentando se convencer disso o tempo inteiro.

    Também achei muito forte a forma como a religião aparece. Não parece uma fé tranquila, parece quase um apoio emocional para ele não desabar. Como se Deus e os santos fossem a única forma de preencher o vazio deixado pelo pai. Algo bem comum, muitas das vezes a religião/Deus é a única coisa que uma pessoa tem e que mantêm a sua esperança na vida. Ao se apegar na ideia de que o sofrimento dela não vai durar para sempre e que pelo menos em algum plano da existência ela vai ter pazser amada ou seja la qual for o que a sua alma anseia.

    E o final me pegou muito. Quando ele fala sobre ser órfão duas vezes caso Deus não exista, senti que o texto deixa de ser só sobre abandono e vira um medo quase existencial de não existir ninguém olhando por nós.

  28. Mariana
    6 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Impressões sobre o capítulo 5

    • Até agora o meu preferido, disparado.
    • Você dá elementos para caracterizar os irmãos e faz um contraponto com a mãe. É interessante que a falta de dentes materna não é pensada pelo narrador como a mãe ter se anulado pelos filhos
    • Queria saber mais sobre o Tadeu
    • Eu senti quase uma pontada de ciúme incestuoso no Francisco. Como é a relação dele com a Catarina em níveis mais profundos?
    • O padre Olavo foi nojento, mesmo que em poucas linhas. Parabéns
    • Por que esse homem bonito sumiu?
    • O sentimento de Francisco pelas santas, quase beirando o fetichismo, muito bom.
    • Investir mais nessas ações, Cláudia
  29. Mariana Carolo
    5 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Impressões sobre o capítulo IV:

    • É um capítulo curto, mas bem escrito e o com mais ação até aqui. Refeições podem ser momentos tensos ou carregados, como é aqui.
    • “Corto a carne que não a minha” – baita frase
    • É aqui que o Francisco desenvolve um pouco mais a mágoa sobre a ausência paterna e isso é bom. Como se ocorresse uma rachadura no verniz de santo acima de tudo e todos.
    • Traz mais essa família. Eles são bastante pobres? Pergunto pela questão dos dentes da mãe.
    • A parte que ele se sente enojado por ter nascido de uma relação carnal ficou muito boa também. E acredito que é um aspecto a ser bem explorado.
    • Continuo tendo vontade de ler a tua história, Claudia
  30. Mariana Carolo
    4 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Admito que fiquei curiosa e fui para o capítulo 3

    • Aqui temos Francisco em delírios de grandeza fantasiados de modéstia. É de se desconfiar desse narrador. E ter medo da maldade de gente boa.
    • A escrita em fluxo de consciência se sustenta na poesia e na narrativa fina. Tu está andando em uma navalha, Cláudia e tá conseguindo não cair.
    • Eu quero saber mais sobre essa mãe. Imagino o Francisco uma pessoa com altos problemas, a mãe dele tipo Norma Bates. Mas o texto tá elegante demais para isso.
    • A fala do Francisco sem Cisco dá uma ideia de dualidade interessante. O Cisco é o que ele joga para debaixo do tapete?
    • Cláudia, o teu personagem é interessante. Mas eu quero ação, quero ver o que esse Fran/Cisco vai fazer. Do que ele é capaz.
    • Eu realmente quero conhecer melhor o Pedro e a Catarina. São adolescentes, quem eles são?

    • claudiaangst
      4 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Mariana, agradeço muito os seus comentários, são muito assertivos. E fico envaidecida com a sua curiosidade em continuar a leitura. Francisco é um enigma até para mim. Preciso ficar atenta para não cair do fio da navalha, mas se eu não pular fora vou acabar me cortando, né?

      Cisco pode ser a trava que Francisco tem nos olhos e o impede de enxergar os outros e a si mesmo.

      Pretendo falar mais dos irmãos de Francisco: Pedro, Tadeu e Catarina. Tadeu é o mais ignorado até então.

  31. Mariana Carolo
    4 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Vamos lá, as impressões do capítulo 2:

    • Sim, temos um protagonista narrando a sua própria vida.
    • Ele me lembrou os caras chamados de incels. Toda essa religiosidade serviria para marcar frustração em não ter um relacionamento?
    • Fiquei pensando se Catarina e Pedro existem mesmo ou são criação do puro Francisco. Vai que ele é esquizofrênico.
    • Talvez o preconceito seja meu, mas alguém tão carola seria tão ok com homossexualidade?
    • É um capítulo curto, que apresenta a religiosidade do Chico e a importância da avó para a sua moralidade
    • Achei fofa a decepção amorosa. E um adulto falando daquele jeito é, ao mesmo tempo, um tantinho assustador.
    • Sobre a escrita, a mesma qualidade do primeiro capítulo

  32. Martim Butcher
    3 de maio de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Olá, Claudia,

    Seu narrador tem um gostoso sabor machadiano, já apontado pelos colegas no fato de ele não ser confiável. A todo tempo o que ele pinta de si é desmentido pelos próprios desejos. Em um mundo em que tudo é excesso e pecado, tudo se torna, inversamente, digno de curiosidade e cobiça. Quanto mais Francisco se impõe limites, mais sua sanha em romper os limites se amplia.

    Mas bem, de isso você já deve estar ciente, tanto é que construiu o personagem tendo essa oposição como eixo. Parece-me, no entanto, que, passados alguns capítulos, não seria mais tão necessário que ele nos fizesse lembrar com tanta constância acerca de como vê a si mesmo. Por exemplo, no capítulo 9 (ou seja, já com o romance um tanto avançado) ele não passa praticamente nenhum parágrafo sem atribuir-se alguma característica:

    “Minhas idas à praça dão-se por uma única razão: falta-me preguiça”.

    “Não alimento o ócio”

    “Na praça, posso dar voltas, esticar as pernas, fazer exercícios nas barras e aparelhos ali dispostos pela prefeitura. “

    “[…] eu me contenho, pois como disse não me entrego à gula.”

    “Não sei se são gostosos. Nunca provei um que fosse. Comedido permaneço, magro me conservo.”

    “A humildade já conheço, a edificação do trabalho também.”

    “Acho até graça, pois nós três sabemos que é pouco provável que eu gaste meus reais com guloseimas.”

    “Não sou mais criança, o alimento que busco é o espiritual.”

    Isso só no capítulo 9! E escolhi esse trecho meio ao acaso (como predica o Auerbach!), poderia ser qualquer trecho. Essa sua estratégia dá coesão estilística e unidade ao narrador – isso é ótimo – mas entendo que precisaria de alguma dosagem. Mesmo aquilo que é narrado como cena (o diálogo com o pipoqueiro) não tem o valor circunstancial inerente ao que é propriamente narrativo, senão que está em função da caracterização do personagem, como um eterno presente (não à toa você narra no presente essa cena do pipoqueiro, pois ela parece acontecer todos os dias; não é propriamente uma cena). O texto respira quando vão aparecendo acontecimentos que fogem ao esforço de definir o narrador como sempre igual a si mesmo. Essas cenas, sim, tem valor circunstancial e instauram, ainda que brevemente, alguma crise no olhar que o narrador tem sobre si e sobre os outros. É o caso da linha narrativa que envolve Olívia e Pedro.

    Entendo que aquilo que Elisa apontou (muito bem apontado, por sinal) como falta de “carne” tem um pouco a ver com isso. Eu opino que apenas em conflito com um mundo de acontecimentos não subjugados à força centrípeta de definição da voz narrativa é que essa voz irá encontrar sua carne. Há um lindo achado, lá pelas tantas, em que você brinca com o nome do narrador: ele seria um Francisco sem cisco. Fico aqui pensando: o que resta de Francisco se subtraímos tudo o que ele define de si? É o vazio? É simplesmente Fran? Ou é a partir dali que ele passa a existir efetivamente?

    • claudiaangst
      4 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Obrigada pelo seu comentário detalhado, Martim. Acho que exagerei na dose ao tentar imprimir o caráter dúbio de Francisco. Mas há no personagem um exagero deturpado mesmo, que em algum momento vai extrapolar e chegar a… (sem spoiler). Sabe panela de pressão já detonada pelo tempo? O risco de explodir é grande.

      Francisco não tem um cisco nos olhos, mas sim uma trava que o impede de enxergar a realidade e a si mesmo. Ainda não o decifrei totalmente… será que conseguirei?

      • Martim Butcher
        6 de maio de 2026
        Avatar de Martim Butcher

        Eu espero que você não consiga decifrar o Francisco totalmente, Claudia. Acho que os bons personagens sempre conservam uma opacidade, algo que nos faz retornar a eles sem saber o que eles são. Mas como escritores nosso papel é tentar, né? E isso de ir descobrindo o personagem ao mesmo tempo que o criamos é muito gostoso… Boa sorte na aventura!

  33. Mariana Carolo
    3 de maio de 2026
    Avatar de Mariana Carolo

    Oi Cláudia. Estou seguindo os colegas, lendo os primeiros capítulos e deixando as minhas impressões:

    • Quando crescer, quero ter o domínio de texto que tu tens. A prosa tá segura e muito fluída.
    • Me pareceu um texto sobre problemas paternos e como o Francisco acaba lidando com isso. Achei interessante
    • O Francisco me pareceu não ser um narrador confiável. Nem uma pessoa boa.
    • Gostaria de ver a perspectiva dos irmãos e da mãe dele.
    • O meu texto também tem a questão dos santos e religiosidade. São assuntos do meu agrado.
    • Francisco vai narrar a sua infância? Enfim, é um texto muito bem escrito e que é a tua cara. Sabe, tu me lembra as grandes escritoras brasileiras tipo a Lygia Fagundes Telles
  34. Maria Elisa Soares Ribeiro
    2 de maio de 2026
    Avatar de Maria Elisa Soares Ribeiro

    O ponto alto do texto é a voz do narrador-personagem.

    Trata-se de um narrador obviamente não confiável, mas que se apresenta como confiável ao expor logo nas primeiras linhas sua escolha ética em narrar o presente para não incorrer em fabulações ou inverdades. Um narrador que “abomina mentiras”, mas mente o tempo todo para si mesmo. Se diz bom, mas deixa escapar o tempo inteiro agressividade, ressentimento, maledicência.

    Esse narrador — radicalmente não confiável — é um grande achado e o motivo pelo qual o romance deve ser enfrentado até o final.

    Outro destaque é a linguagem, que mistura um registro meio conservador, com referências religiosas, com um “acento” meio interiorano. Soa artificial, não um artificialismo da autora, mas da personagem. Como se Francisco quisesse alavancar sua bondade, sua correção, sua ascese em relação ao comum dos mortais, por meio de uma afetação na linguagem, arrisco. Francisco é estranho e sua linguagem reflete isso.

    Penso, entretanto, que ainda há espaço para investir nessa estranheza personalíssima da linguagem da personagem. Talvez aumentar a fricção entre o registro mais alto da língua e eventuais regionalismo, ou o registo mais coloquial, com o dos textos religiosos.

    Por outro lado, senti um pouco de falta de carne no personagem. Ele fala muito do que pensa, do que vê, mas eu como leitora consegui enxerga-lo poucas vezes ao longo do texto. Explicando, vi poucas vezes o corpo do personagem em sintonia com suas emoções e interioridade, salvo na cena do cemitério, mas nessa cena temos uma situação extraordinária. A carne, penso, precisa aparecer mais no ordinário: à mesa, na relação com os outros personagens. Como leitora, uma luz se acende, quando percebo isso que aqui estou chamando de “carne”, num personagem.

    Apenas Francisco é um personagem bem delineado até aqui, os demais surgem e saem de cena apenas para compor as nuances do protagonista. Acho que até aqui está ok, entendo que ganharão corpo com o desenvolvimento da história.

    Como ponto de atenção, sugiro estar atenta a duas coisas que talvez precisem sem um pouco calibradas, a saber: o que parecem ser bordões (“sou bom”) e as perguntas que o personagem se faz.

    É isso por ora, minha amiga querida e revisora maravilhosa de todas as horas. Beijos e boa sorte!

    • claudiaangst
      4 de maio de 2026
      Avatar de claudiaangst

      Antes de mais nada, agradeço imenso o seu comentário, Elisa.

      Francisco ainda é um enigma para mim. Talvez eu esteja exagerando na sua voz e me esquecendo de lhe fornecer carne, estrutura humana. Terei de rever a questão do bordão – sou bom! Sempre achei curioso como as pessoas mais inseguras insistem em repetir que são suas as qualidades que estão longe de possuir.

      Tentarei desenvolver melhor os demais personagens, mesmo que Francisco os despreze. Afinal, só ele tem as asas da bondade e santidade.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 3 de outubro de 2026 por em E-Rom G4, Entre Romances e marcado .