Para Teresa Ariño
— Vi você na televisão, Max, e disse comigo: este é o meu tipo.
— (O tipo mexe a cabeça obstinadamente, tenta bufar, não consegue.)
— Vi você com o seu grupo. É assim que o chama? Talvez diga banda, bando, mas não? acho que chama grupo, é uma palavra simples e você é um homem simples. Vocês tinham tirado as camisetas e exibiam todos o torso nu, peitos jovens, bíceps fortes embora não tão musculosos quanto vocês gostariam, imberbes a maioria, na verdade não prestei muita atenção nos peitos, nos tóraces dos outros, só no seu, alguma coisa em você me chamou a atenção, seu rosto, seus olhos que olhavam para o lugar onde estava a câmara (provavelmente sem saber que estava sendo gravado e que em nossa casa te víamos), olhos sem profundidade, diferentes dos olhos que você tem agora, infinitamente diferentes dos olhos que vai ter daqui a pouco, que olhavam para a glória e a felicidade, para os desejos saciados e a vitória, essas coisas que só existem no reino do futuro e que é melhor não esperar porque nunca chegam.
— (O tipo mexe a cabeça da esquerda para a direita. Insiste com as bufadas, sua.)
— Na realidade, ver você na televisão foi como um convite. Imagine por um instante que sou uma princesa que espera. Uma princesa impaciente. Uma noite vejo você, vejo você porque de alguma maneira eu o procurei (não a você, mas ao príncipe que você também é, e o que o príncipe representa). Seu grupo de dança com as camisetas amarradas no pescoço ou na cintura. Também se poderia dizer: enroladas, que segundo os velhos mais inúteis significa em espanhol voluta de capitel, mas que para mim, que sou jovem e inútil, significa uma peça de roupa enrolada em torno do pescoço, do tórax ou da cintura. Os velhos e eu seguimos por caminhos diferentes, como você pode perceber. Mas não vamos nos distrair do que na verdade nos interessa. Todos vocês são jovens, todos vocês oferecem à noite seus hinos, alguns, os que encabeçam as marchas, arvoram bandeiras. O locutor, um pobre diabo, fica impressionado com o baile tribal de que você participa. Comenta isso com o outro locutor. Estão dançando, diz a voz de boçal dele, como se na nossa casa, na frente da tevê, não nos déssemos conta. É, se divertem, diz o outro locutor. Outro boçal. A eles, de fato, a dança de vocês parece divertir. Na realidade só se trata de uma conga. Na primeira fila são oito ou nove. Na segunda fila são dez. Na terceira fila são sete ou oito. Na quarta fila são quinze. Todos unidos pelas cores e por estarem nus da cintura para cima (com as camisetas amarradas ou enroladas na cintura ou no pescoço ou, à maneira de turbante, na cabeça) e por percorrerem dançando (pode ser que a palavra dançar seja excessiva) a área em que os encerraram previamente. A dança de vocês é como um relâmpago no meio da noite de primavera. O locutor, os locutores, cansados mas ainda com uma centelha de entusiasmo, comemoram a iniciativa de vocês. Vocês percorrem os degraus de cimento da direita para a esquerda, chegam às cercas metálicas e retrocedem da esquerda para a direita. Os que encabeçam cada fila portam uma bandeira, que pode ser a das suas cores ou a espanhola; o resto, inclusive o que fecha a fila, agita bandeiras de dimensões mais reduzidas, ou echarpes, ou as camisetas de que vocês previamente se despojaram. A noite é primaveril, mas ainda faz frio, de modo que o gesto de vocês adquire finalmente a contundência que vocês desejavam e que no fundo é merecida. Depois as filas se desfazem, vocês começam a entoar seus cantos, alguns erguem o braço e saúdam à romana. Sabe qual é essa saudação? Claro que sabe e, se não sabe, neste momento você intui. Sob a noite da minha cidade, você saúda em direção às câmaras de televisão e da minha casa eu o vejo e decido lhe oferecer minha saudação, responder à sua saudação.
— (O tipo nega com a cabeça, seus olhos parecem se encher de lágrimas, os ombros tremem. Seu olhar é de amor? Seu corpo, antes de sua mente, intui o que inevitavelmente acontecerá? Ambos os fenômenos, o das lágrimas e o dos tremores, podem obedecer ao esforço que nesse instante ele realiza, vão esforço, ou a um sincero arrependimento que, como uma garra, prende todos os seus nervos.)
— Então eu tiro a roupa, tiro a calcinha, tiro o sutiã, tomo um banho, ponho perfume, ponho uma calcinha limpa, ponho um sutiã limpo, ponho uma blusa preta, de seda, ponho meu melhor jeans, ponho meias brancas, ponho minhas botas, ponho um blazer, o melhor que tenho, e saio ao jardim, pois para sair à rua tenho antes de atravessar esse jardim escuro de que você tanto gostou. Tudo em menos de dez minutos. Normalmente não sou tão rápida. Digamos que foi a sua dança que acelerou meus movimentos. Enquanto eu me visto, você dança. Em alguma dimensão diferente desta. Em outra dimensão e em outro tempo, como um príncipe e uma princesa, como o chamado ígneo dos animais que se acasalam na primavera, eu me visto e você, dentro da televisão, dança freneticamente, seus olhos fixos em algo que poderia ser a eternidade ou a chave da eternidade, não fosse seus olhos, ao mesmo tempo, estarem sem expressão, estarem vazios, nada dizerem.
— (O tipo assente repetidas vezes. O que antes eram gestos de negação ou desespero se converte em gestos de afirmação, como se subitamente tivesse sido assaltado por uma ideia ou tido uma nova ideia.)
— Finalmente, sem tempo para me olhar no espelho, para verificar o grau de perfeição da minha indumentária, embora provavelmente ainda que tivesse tido tempo não teria desejado me ver refletida no espelho (o que você e eu fazemos é segredo), saio de casa somente com a luz da porta de entrada acesa, subo na moto e atravesso as ruas onde gente mais estranha que você e eu se prepara para passar um sábado divertido, um sábado à altura das suas expectativas, isto é, um sábado triste e que nunca chegará a se encarnar no que foi sonhado, planejado com minúcia, um sábado como outro qualquer, isto é, um sábado briguento e agradecido, baixinho de estatura e amável, depravado e triste. Horríveis adjetivos que não se encaixam em mim, que me custa aceitar, mas que em última instância sempre admito como um gesto de despedida. E eu e minha moto atravessamos essas luzes, esses preparativos cristãos, essas expectativas sem fundamento, e desembocamos na Gran Avenida do estádio, ainda solitária, e paramos debaixo dos arcos das passarelas de acesso, mas olhe só que curioso, preste atenção, quando paramos a sensação que tenho sob as pernas é que o mundo continua se movendo, como efetivamente ocorre, suponho que você saiba, a Terra se move sob os meus pés, sob as rodas da minha moto, e por um instante, por uma fração de segundo, encontrar com você carece de importância, você pode ir embora com seus amigos, pode ir encher a cara ou pegar o ônibus que o levará de volta à sua cidade. Mas a sensação de abandono, como se um anjo me fodesse, sem me penetrar mas na realidade me penetrando até as tripas, é breve, e, justo enquanto hesito ou enquanto analiso surpresa, os portões se abrem e as pessoas começam a sair do estádio, bando de abutres, bando de corvos.
— (O tipo abaixa a cabeça. Ergue-a. Seus olhos tentam compor um sorriso. Seus músculos faciais se contraem num espasmo ou em vários que podem significar muitas coisas: somos feitos um para o outro, pense no futuro, a vida é maravilhosa, não faça uma besteira, sou inocente, arriba España.)
— A princípio, procurar você é um problema. Será igual, visto a cinco metros de distância, ao que é na tevê? Sua altura é um problema: não sei se é alto ou de estatura mediana (baixo não é), sua roupa é um problema: a esta hora já começa a fazer frio e sobre o seu torso e sobre o torso dos seus companheiros novamente há camisetas e até jaquetas; alguém sai com a echarpe enrolada (como uma voluta) em torno do pescoço e um até cobriu metade do rosto com a echarpe. A lua cai vertical sobre os meus passos no cimento. Procuro você com impaciência, mas sinto ao mesmo tempo a inquietude da princesa que contempla a moldura vazia onde deveria refulgir o sorriso do príncipe. Seus amigos são um problema elevado ao cubo: são uma tentação. Eu os vejo, sou vista por eles, sou desejada, sei que por mim baixariam as calças sem pensar duas vezes, alguns merecem sem dúvida a minha companhia pelo menos tanto quanto você, mas no último instante sempre lhe sou fiel. Por fim, você aparece rodeado de dançarinos de conga, entoando hinos cujas letras são premonitórias do nosso encontro, com o rosto grave, imbuído de uma importância que só você sabe avaliar, ver em sua exata dimensão; você é alto, bem mais alto do que eu, e tem braços compridos exatamente como imaginei depois de vê-lo na tevê, e quando sorrio para você, quando lhe digo, olá! Max, você não sabe o que dizer, a princípio não sabe o que dizer, só ri, um pouco menos retumbantemente que seus colegas, mas só ri, príncipe da máquina do tempo, ri mas já não anda.
— (O tipo olha para ela, estreita os olhos, procura acalmar a respiração, e à medida que esta se regulariza parece pensar: inspirar, expirar, pensar, inspirar, expirar, pensar…)
— Então, em vez de me dizer não sou o Max, você tenta seguir com seu grupo e por um momento o pânico me domina, um pânico que na memória se confunde mais com o riso do que com o medo. Eu o sigo sem saber muito bem o que farei dali em diante, mas você e mais três param, se viram e me fitam com seus olhos frios, e eu lhe digo Max, temos que conversar, e então você me diz não sou o Max, meu nome não é esse, qual é a sua, está me gozando, está me confundindo com alguém ou o quê, e então eu lhe digo desculpe, você parece muito com o Max, e também lhe digo que quero falar com você, de quê, ora do Max, e então você sorri e fica já definitivamente para trás, seus companheiros se vão, gritam seu nome do bar de onde vocês sairão desta cidade, não tem erro, você diz, a gente se vê lá, e seus colegas vão ficando cada vez menores, da mesma maneira que o estádio vai ficando cada vez menor, eu dirijo a moto com mão firme e acelero fundo, a Gran Avenida a essa hora está quase vazia, só as pessoas que voltam do estádio, e você está atrás de mim e me enlaça a cintura, sinto nas costas o seu corpo que se gruda como um molusco na pedra, e o ar da avenida, de fato, é frio e denso como as ondas que agitam o molusco, você se gruda em mim, Max, com a naturalidade de quem intui que o mar é não só um elemento hostil mas um túnel do tempo, você se enrola na minha cintura como antes sua camiseta estava enrolada no seu pescoço, mas desta vez a conga quem dança é o ar que entra como uma torrente pelo tubo estriado que é a Gran Avenida, e você ri ou diz alguma coisa, talvez tenha visto entre os que deslizam sob o manto das árvores alguns amigos, talvez só esteja insultando uns desconhecidos, ai, Max, você não diz até logo, nem olá, nem a gente se vê, você diz slogans mais velhos que o sangue, mas certamente não mais velhos que a pedra a que você se agarra, feliz por sentir as ondas, as correntes submarinas da noite, mas seguro de não ser arrastado por elas.
— (O tipo murmura algo ininteligível. Uma espécie de baba lhe escorre pelo queixo, mas talvez seja apenas suor. Sua respiração, não obstante, se tranquilizou.)
— E assim, ilesos, chegamos à minha casa na periferia. Você tira o capacete, apalpa os culhões, passa a mão no meu ombro. Seu gesto esconde uma dose insuspeita de ternura e timidez. Mas seus olhos ainda não são suficientemente ternos nem tímidos. Minha casa lhe agrada. Meus quadros lhe agradam. Você me pergunta sobre as figuras que aparecem neles. O príncipe e a princesa, eu lhe respondo. Parecem os Reis Católicos, você diz. Sim, algumas vezes também me ocorreu esse pensamento, Reis Católicos nos limites do reino, Reis Católicos que se espiam num perpétuo sobressalto, num perpétuo hieratismo, mas para mim, para quem sou durante pelo menos quinze horas por dia, são um príncipe e uma princesa, os noivos que atravessam os anos e que são feridos, flechados, que perdem os cavalos durante a caçada e inclusive que nunca tiveram cavalos e fogem a pé, sustentados por seus olhos, por uma vontade imbecil que alguns chamam de bondade e outros de boa disposição natural, como se a natureza pudesse ser adjetivada, boa ou má, selvagem ou doméstica, a natureza é a natureza, Max, não se iluda, e estará sempre aí, como um mistério irremediável, e não me refiro aos bosques que se incendeiam, e sim aos neurônios que se queimam e ao lado esquerdo ou ao lado direito do cérebro que se queima num incêndio de séculos e séculos. Mas você, alma abençoada, acha bonita a minha casa e ainda por cima pergunta se estou só e depois se surpreende por eu rir. Pensa que, se eu não estivesse sozinha, teria convidado você para vir? Pensa que, se eu não estivesse sozinha, teria percorrido a cidade de ponta a ponta na minha moto, com você nas minhas costas, como um molusco grudado numa pedra enquanto minha cabeça (ou minha cabeça de proa) afunda no tempo com o único empenho de trazê-lo são e salvo a este refúgio, a pedra verdadeira, aquela que magicamente se eleva desde as suas raízes e emerge? E de maneira prática: pensa que eu teria levado um capacete extra, um capacete que vela seu rosto dos olhares indiscretos, se a minha intenção não fosse trazê-lo até aqui, até a minha mais pura solidão?
— (O tipo abaixa a cabeça, assente, seus olhos percorrem as paredes do quarto até o último recanto. Mais uma vez, sua transpiração torna a manar como um rio caprichoso — uma falha no tempo? — e as sobrancelhas se veem inundadas de gotas que pendem, ameaçadoras, sobre seus olhos.)
— Você não entende nada de pintura, Max, mas intuo que entende muito de solidão. Você gosta dos meus Reis Católicos, gosta de cerveja, gosta da sua pátria, gosta de respeito, gosta do seu time de futebol, gosta dos seus amigos ou companheiros ou colegas, da banda ou grupo ou bando, da turma que viu você ficar para trás falando com uma dona boa que você não conhecia, e não gosta de desordem, não gosta de negros, não gosta de veados, não gosta que lhe faltem ao respeito, não gosta que tomem o seu lugar. Enfim, são tantas as coisas de que não gosta que no fundo você se parece comigo. Nós nos aproximamos, você e eu, a partir das extremidades do túnel e, embora só vejamos nossas silhuetas, continuamos caminhando decididamente rumo ao nosso encontro. Na metade do túnel por fim poderão nossos braços se entrelaçar e, embora ali a escuridão seja tão grande que não poderemos contemplar nossos rostos, sei que avançaremos sem temor e que tocaremos nossos rostos (você, a primeira coisa que vai tocar vai ser a minha bunda, mas isso também faz parte do seu desejo de conhecer o meu resto), apalparemos nossos olhos e pronunciaremos talvez uma ou duas palavras de reconhecimento. Então eu me darei conta (então eu poderia me dar conta) de que você não entende nada de pintura, e sim de solidão, o que é quase a mesma coisa. Algum dia nos encontraremos no meio desse túnel, Max, e eu apalparei o seu rosto, o seu nariz, os seus lábios, que costumam expressar melhor do que ninguém a sua estupidez, seus olhos vazios, as rugas minúsculas que se formam em suas faces quando você sorri, a falsa dureza do seu rosto quando você fica sério, quando canta seus hinos, esses hinos que você não compreende, seu queixo que às vezes parece uma pedra mas que mais amiúde, suponho, parece uma hortaliça, esse queixo seu tão típico, Max (tão típico, tão arquetípico que agora penso que foi ele que trouxe você, que perdeu você). E então poderemos voltar a conversar, ou conversaremos pela primeira vez, mas então teremos de transar, tirar a roupa e enrolá-la em nosso pescoço ou no pescoço dos mortos. Aqueles que vivem na voluta imóvel.
— (O tipo chora, também parece tentar falar, mas na realidade são soluços, espasmos provocados pelo pranto o que agita as suas bochechas, as maçãs do rosto, o lugar onde se adivinham os lábios.)
— Como dizem os gângsteres, não é nada pessoal, Max. Claro, nessa asseveração há uma parte de verdade e uma parte de mentira. É sempre uma coisa pessoal. Chegamos ilesos através de um túnel do tempo porque é uma coisa pessoal. Escolhi você porque é uma coisa pessoal. Nem é preciso dizer que eu nunca tinha visto você antes. Pessoalmente, você nunca fez nada contra mim. Isso eu lhe digo para a sua tranquilidade espiritual. Você nunca me violentou. Nunca violentou ninguém que eu conheça. Pode ser até que nunca tenha violentado ninguém. Não é uma coisa pessoal. Talvez eu esteja doente. Talvez tudo isso seja o produto de um pesadelo que nem eu nem você sonhamos, embora lhe doa, embora a dor seja real e pessoal. Desconfio, no entanto, que o fim não será pessoal. O fim, a extinção, o gesto com que tudo isso se acaba irremediavelmente. Mais ainda, pessoal ou impessoalmente, você e eu voltaremos a entrar na minha casa, a contemplar meus quadros (o príncipe e a princesa), a tomar umas cervejas, a nos despir, eu voltarei a sentir suas mãos percorrendo desajeitadas minhas costas, minha bunda, minhas entrepernas, procurando talvez meu clitóris, mas sem saber onde ele se encontra exatamente, voltarei a tirar sua roupa, a pegar sua pica com as duas mãos e a dizer que ela é muito grande quando na realidade não é muito grande, Max, e você devia saber disso, voltarei a metê-la na minha boca e a chupá-la como provavelmente ninguém chupou antes, depois tirarei sua roupa e deixarei que você tire a minha, uma das suas mãos ocupadas com meus botões, a outra segurando um copo de uísque, olharei nos seus olhos, esses olhos que vi na televisão (e com que voltarei a sonhar) e que me fizeram escolher você, voltarei a me repetir que não é nada pessoal, voltarei a lhe dizer, a dizer à sua lembrança nauseabunda e elétrica que não é nada pessoal, e mesmo então terei minhas dúvidas, sentirei frio como agora sinto frio, tentarei lembrar todas as suas palavras, até as mais insignificantes, e não poderei achar consolo nelas.
— (O tipo volta a sacudir a cabeça com gestos de afirmação. O que tenta dizer? Impossível saber. Seu corpo, melhor dizendo, suas pernas, experimentam um fenômeno curioso: por momentos um suor tão abundante e espesso como o da testa as cobre, principalmente a parte interna, por momentos parece que sente frio e a pele, das virilhas até os joelhos, adquire uma textura áspera, se não ao tato, à vista.)
— Suas palavras, reconheço, foram amáveis Temo, porém, que você não tenha pensado suficientemente bem no que dizia. Ainda menos no que eu dizia. Ouça sempre com atenção, Max, as palavras que as mulheres dizem quando são comidas. Se não falam, bom, então você não tem nada a ouvir e provavelmente não terá nada a pensar, mas se falam, ainda que seja apenas um murmúrio, ouça as palavras delas, pense em seu significado, pense no que dizem e no que não dizem, tente compreender o que na realidade querem dizer. As mulheres são putas assassinas, Max, são macacos enregelados de frio que contemplam de uma árvore doente o horizonte, são princesas que procuram você na escuridão, chorando, indagando as palavras que nunca poderão dizer. No equívoco vivemos e planejamos nossos ciclos de vida. Para os seus amigos, Max, nesse estádio que agora se comprime na sua memória como o símbolo do pesadelo, fui apenas uma piranha esquisita, um estádio dentro do estádio, a que alguns chegam depois de dançar uma conga com a camiseta enrolada na cintura ou no pescoço. Para você eu fui uma princesa na Gran Avenida fragmentada agora pelo vento e pelo medo (de tal modo que a avenida em sua cabeça agora é o túnel do tempo), o troféu particular depois de uma mágica noite coletiva. Para a polícia eu serei uma página em branco. Ninguém jamais compreenderá minhas palavras de amor. Você, Max, se lembra de alguma coisa que eu lhe disse enquanto me passava na cara?
— (O tipo mexe a cabeça, o sinal é claramente afirmativo, seus olhos úmidos dizem que sim, seus ombros tensos, seu ventre, suas pernas que não param de se mover enquanto ela não olha para ele, tentando se desamarrar, sua jugular que palpita.)
— Lembra que falei o vento? Lembra que falei as ruas subterrâneas? Lembra que falei você é a fotografia? Não, na realidade você não lembra. Você bebia demais e estava ocupado demais com os meus peitos e a minha bunda. E não entendeu nada, do contrário teria saído correndo na primeira oportunidade. Gostaria de fazer isso agora, não é verdade, Max? Sua imagem, seu outro eu correndo pelo jardim da minha casa, pulando o portão, afastando-se rua acima a grandes pernadas, como um corredor dos mil e quinhentos metros, ainda se vestindo, cantarolando um dos seus hinos para criar coragem e, depois de vinte minutos de corrida, exausto, no bar onde esperam por você os componentes do seu grupo, ou galera, ou patota, ou turma, ou como se chame, chegar e tomar uma caneca de cerveja, dizer cara, vocês nem imaginam o que me aconteceu, tentaram me matar, uma puta fodida da periferia da cidade, dos arredores da cidade e do tempo, uma puta do além que me viu na tevê (saímos na tevê!) e que me levou de moto, chupou meu pau, me deu a bunda e me disse palavras que a princípio me soaram misteriosas mas que depois entendi, quer dizer, senti, uma puta que me disse umas palavras que senti com o fígado e com os culhões e que a princípio me pareceram inocentes ou tesudas ou produto do meu ferro que chegava até as entranhas dela, mas que depois não me pareceram mais tão inocentes, cara, vou lhes contar, ela não parava de murmurar ou sussurrar enquanto eu trepava nela, normal né?, mas não era normal, não tinha nada de normal, uma puta que sussurra enquanto alguém a fode, então ouvi o que ela dizia, cara, colegas, ouvi suas palavras fodidas que abriam passagem como um barco num mar de testosterona, então foi como se esse mar de testosterona, esse mar de sêmen estremecesse ante uma voz sobrenatural, e o mar se encolheu, se retraiu, o mar desapareceu, caras, e todo o oceano ficou sem mar, toda a costa sem mar, só pedras e montanhas, precipícios, cordilheiras, fossas escuras e úmidas de medo, e nesse nada o barco continuou navegando e eu a vi com meus dois olhos, com meus três olhos, e disse não é nada, não é nada, querida, cagado de medo, fossilizado de medo, depois me levantei tentando disfarçar, disfarçar o cagaço, disse que ia ao banheiro tirar água do joelho, dar uma cagada, e ela olhou pra mim como se eu tivesse recitado John Donne, cara, como se eu tivesse recitado Ovídio, e eu recuei sem parar de olhar para ela, sem parar de olhar para o barco que avançava impassível por um mar de nada e de eletricidade, como se o planeta Terra estivesse nascendo outra vez e se eu estivesse ali para testemunhar o nascimento, mas testemunhar para quem, cara?, para as estrelas, suponho, e quando me vi no corredor fora do alcance do seu olhar, do seu desejo, em vez de abrir a porta do banheiro esgueirei-me até a porta da casa, atravessei o jardim rezando, pulei a cerca e saí correndo rua acima como o último atleta de Maratona, o que não traz notícias de vitória mas de derrota, o que não é ouvido, nem celebrado, nem ninguém lhe oferece uma caneca d’água, mas que chega vivo, cara, e que além do mais entende a lição: nesse castelo não entrarei, essa trilha não percorrerei, essas terras não atravessarei. Nem que me apontem com o dedo. Nem que tudo esteja contra mim.
— (O tipo mexe a cabeça afirmativamente. Está claro que quer dar a entender sua aquiescência. O rosto, devido ao esforço, se avermelha notavelmente, as veias incham, os olhos se esbugalham.)
— Mas você não ouviu as minhas palavras, não soube discernir dos meus gemidos aquelas palavras, as últimas, que talvez tivessem salvado você. Eu o escolhi bem. A televisão não mente, essa é a única virtude dela (essa e os filmes antigos que passam de madrugada), e seu rosto, junto da cerca metálica, depois da conga aplaudida unanimemente, me antecipava (me apressava) o desenlace inevitável. Trouxe você na minha moto, tirei a sua roupa, deixei você inconsciente, amarrei suas mãos e seus pés numa cadeira velha, pus um esparadrapo na sua boca não porque temo que seus gritos alertem alguém, mas porque não desejo ouvir suas palavras de súplica, seus lamentáveis balbucios de perdão, sua débil garantia de que você não é assim, de que tudo era brincadeira, de que estou enganada. É possível que esteja enganada. É possível que tudo seja uma brincadeira. É possível que você não seja assim. Mas o caso é que ninguém é assim, Max. Eu também não era assim. Claro, não vou lhe falar da minha dor, uma dor que você não provocou, ao contrário, você provocou um orgasmo. Você foi o príncipe perdido que provocou um orgasmo, pode se sentir satisfeito. E eu lhe dei a oportunidade de escapar, mas você também foi o príncipe surdo. Agora é tarde, está amanhecendo, você deve estar com as pernas entorpecidas, com cãibras, seus pulsos estão inchados, não devia ter se mexido tanto, quando começamos eu avisei, Max, isto é inevitável. Aceite da melhor maneira que puder. Agora não é hora de chorar nem de lembrar congas, ameaças, porradas, é hora de olhar para dentro de você e compreender que às vezes a gente vai embora inesperadamente. Você está nu na minha câmara de horrores, Max, e seus olhos acompanham o movimento pendular da minha faca, como se ela fosse um relógio ou o cuco de um relógio de parede. Feche os olhos, Max, não é preciso que você continue olhando, feche os olhos e pense com todas as suas forças numa coisa bonita.
— (O tipo, em vez de fechar os olhos, abre-os com desespero e todos os seus músculos disparam no último esforço: seu impulso é tão violento que a cadeira a que está fortemente amarrado cai com ele no chão. Bate com a cabeça e com o quadril, perde o controle do esfíncter e não retém a urina, sofre espasmos, a poeira e a sujeira das lajotas aderem ao seu corpo molhado.)
— Não vou levantar você, Max, está bem assim. Mantenha os olhos abertos ou feche-os, tanto faz, pense numa coisa bonita ou não pense em nada. Está amanhecendo mas, no caso, daria na mesma se estivesse anoitecendo. Você é o príncipe e chega na melhor hora. É bem-vindo, pouco importa como venha ou de onde venha, se uma moto o trouxe ou se chegou com seus próprios pés, se sabe o que o aguarda ou ignora, se apareceu por engano ou consciente de que enfrentava o seu destino. Seu rosto, que até há pouco só era capaz de expressar estupidez, ou raiva, ou ódio, agora se recompõe e sabe expressar aquilo que só é possível adivinhar no interior de um túnel, onde confluem e se misturam o tempo físico e o tempo verbal. Você avança resoluto pelos corredores do meu palácio, parando apenas os segundos necessários para contemplar as pinturas dos Reis Católicos, para tomar um copo d’água cristalina, para tocar com a ponta dos dedos a superfície dos espelhos. O castelo está silencioso apenas em aparência, Max. Por momentos você acredita estar sozinho, mas no fundo sabe que não está. Deixa para trás sua mão levantada, seu torso nu, sua camiseta enrolada na cintura, seus hinos guerreiros que evocam a pureza e o futuro. Este castelo é a sua montanha, que você terá de escalar e conhecer com todas as suas forças porque depois não haverá mais nada, a montanha e a sua ascensão lhe custarão o mais alto preço que você pode pagar. Pense agora no que você deixa, no que pôde deixar, no que teve de deixar e pense também no acaso, que é o maior criminoso que já pisou na Terra. Despoje-se do medo e do arrependimento, Max, pois você já está dentro do castelo e aqui só existe o movimento que o levará inelutavelmente aos meus braços. Agora você está no castelo e sem se virar ouve as portas se fecharem. Você avança no meio do sono por corredores e salas de pedra nua. Que armas você leva, Max? Só a sua solidão. Você sabe que em algum lugar eu estou à sua espera. Sabe que também estou nua. Por momentos você sente as minhas lágrimas, vê o fluir das minhas lágrimas pela pedra escura e acredita que já me encontrou, mas o cômodo está vazio e isso o desconsola e ao mesmo tempo o estimula. Você continua subindo, Max. O cômodo seguinte está sujo e não parece ser de um castelo. Tem uma velha televisão que não funciona e um catre com dois colchões. Alguém chora em algum lugar. Você vê desenhos de criança, roupa velha coberta de mofo, sangue seco e pó. Abre outra porta. Chama alguém. Diz a esse alguém que não chore. Na poeira do corredor vão ficando suas pegadas. Por momentos você acredita que as lágrimas gotejam do teto. Não tem importância. No caso, daria no mesmo se brotassem da ponta do seu pau. Por momentos todos os cômodos parecem o mesmo cômodo estragado pelo tempo. Se olhar para o teto vai pensar ver uma estrela ou um cometa ou um relógio cuco sulcando o espaço que vai dos lábios do príncipe aos lábios da princesa. O castelo é escuro, enorme, frio, e você está só. Mas sabe que há outra pessoa escondida em alguma parte, sente as lágrimas, sente a nudez dela. Nos braços dela aguarda-o a paz, o calor, e nessa esperança você avança, evita caixas cheias de recordações que ninguém tornará a fitar, malas com roupa velha que alguém esqueceu ou não quis jogar no lixo, e de vez em quando você chama a sua princesa, onde você está?, diz você com o corpo enregelado de frio, fazendo os dentes rangerem, bem no meio do túnel, sorrindo na escuridão, talvez pela primeira vez sem medo, sem ânimo para provocar medo, animado, exultante, cheio de vida, tateando na escuridão, abrindo portas, cruzando por corredores que o aproximam das lágrimas, na escuridão, guiando-se unicamente pela necessidade que seu corpo tem de outro corpo, caindo e se levantando, e por fim chega à câmara central, e por fim me vê e grita. Estou imóvel e não sei de que natureza é o seu grito. Só sei que por fim nos encontramos e que você é o príncipe veemente e eu sou a princesa inclemente.
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