EntreContos

Detox Literário.

Dentro do Crocodilo – Conto (Angelo Rodrigues)

I

Machado desceu à rua, chamou um tílburi, e o homem veio lento, com um cavalo velho. Da varanda lateral, Carolina o observava partir.

— Rua do Ouvidor, por favor.

O homem olhou Machado. Olhou o cavalo.

— Ouvidor?

— A Garnier.

— Hoje chamam aquilo de Moreira Cezar.

— Eu ainda chamo de Ouvidor.

— Pois o senhor chama como quiser. O cavalo é que não sabe ler placa de rua.

Machado pousou o pé no estribo. Levava nas mãos uma pasta fina, de couro, com as provas finais revistas de Dom Casmurro. Devia devolvê-las a Julien Lansac, para que seguissem a Paris.

— É longe, senhor.

— É logo ali.

— Para o senhor, talvez. Não para o coitado aqui. Está velho como eu. Não passa do Catete.

Machado tirou o pé do estribo. O bonde apareceu no alto da rua, rangendo nos trilhos. Não o deixaria à porta da Garnier, mas o levaria até onde a caminhada não parecesse abuso contra homem nem contra cavalo.

Carolina continuava na varanda. Machado ergueu a pasta, num pequeno gesto de despedida, e esperou o bonde chegar.

Já sentado, Machado pôs a pasta sobre os joelhos e segurou-a com as duas mãos. O carro desceu aos solavancos. Misturavam-se o ruído dos trilhos, o passo dos animais, os pregões, o ranger das rodas e as conversas que começavam antes que alguém soubesse o assunto. O Rio mudava de nome, de governo, de placas e de ambições, mas ainda conservava muita coisa antiga debaixo dessa tinta fresca.

Num dos pontos seguintes, subiram dois funcionários públicos, um rapaz com jornal dobrado e uma senhora que trazia no rosto a resignação de quem já conhecia todos os atrasos da cidade.

Abriu a pasta, tirou algumas folhas e leu duas linhas. Depois voltou à primeira. Não era a frase que o incomodava. Era o nome.

Candinho e Capitu. Isso não lhe saía da cabeça. Bateu com a unha três vezes sobre as folhas e tornou a levá-las à pasta.

Desceu próximo ao porto. Diante da Praça XV, um vapor fundeado recebia passageiros, enquanto embarcações menores levavam sacas de café para bordo. O cheiro do mar vinha misturado ao de carvão, suor animal, peixe, lama e tabaco.

Ao passar pela Rua Primeiro de Março, viu as vitrines dos cambistas, cheias de ouro, libras, francos e dólares. Lembrou-se de uma crônica antiga, escrita três anos antes, quando o câmbio andava tão baixo que o mil-réis mal se sustentava na casa dos oito pence e toda a cidade parecia calcular o preço do pão pela cotação de Londres. “Fedor judaico”, escrevera. A expressão vinha à mente agora, e ele sentiu na própria boca o gosto de tê-la escrito — não havia nisso justiça, mas uma preguiça de pensar que o costume chama de franqueza. Ainda assim, parou diante das moedas. A vista das libras, como escrevera então, restituía o equilíbrio ao cérebro e fazia parar, mirar, cobiçar.

A Rua do Ouvidor começava logo adiante, estreita, elegante e barulhenta. Das portas abertas vinham cheiros de papel novo, tecidos, charutos, café e conversas. Alguns jornalistas discutiam política sem baixar a voz sobre o Caso Dreyfus, bolsa, bondes. Um homem examinava a própria figura no vidro de um alfaiate. Alguém ria de uma notícia chegada de Paris ainda sem saber se ela era verdadeira.

Antes de entrar na Garnier, Machado olhou um pouco mais a cidade. Os bondes elétricos começavam a transformar a paisagem. Em certos pontos ainda coexistiam bondes puxados por burros e linhas já eletrificadas. Havia fios no alto, trilhos novos, animais cansados e placas republicanas em ruas que continuavam respondendo pelo nome antigo.

A livraria estava como sempre, embora lhe faltasse o homem que a fazia parecer imóvel. Garnier morrera seis anos antes, mas Machado ainda o via ao fundo, à esquerda, pena na mão, entre cartas, notas soltas e livros de escrituração. A casa continuava cheia: advogados, escritores em ascensão, gente que imaginava ler francês e não lia, mas folheava livros com boa autoridade. Havia cheiro de papel, couro, poeira fina e rua trazida nos sapatos.

Antes de continuar, passou a vista na prateleira de que mais gostava: Machado de Assis. Passou os dedos sobre algumas lombadas. Helena, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cuba. Olhou de novo. Não encontrou A Mão e a Luva.

Numa prateleira próxima, viu O Ateneu. Raul Pompéia já não entrava mais em livrarias. Ainda assim, parecia capaz de deixar uma frase áspera atrás de cada lombada.

— Mais um livro sobre os salões do Império? — perguntou alguém às suas costas.

Machado se virou. O homem que falara tinha um volume de Zola nas mãos e a expressão satisfeita de quem acabava de descobrir a miséria humana em francês.

— Nem todo salão é limpo — disse Machado.

Em seguida, Machado continuou seu caminho em direção ao fundo da loja.

Julien Lansac, ao contrário de Garnier, não ficava no salão dos livros. Preferia o escritório. Não viera ao Rio de Janeiro apenas para acompanhar inventário e liquidação de dívidas. Viera também para decidir se aquele negócio ainda merecia continuar.

— Senhor Machado — disse ao vê-lo entrar, endireitando-se em sua cadeira.

Lansac gostava de livros, mas não se enganava com eles. Administrava um negócio.

Após a morte de Baptiste-Louis Garnier, Machado diminuíra sua frequência na livraria. Se Garnier gostava de conversar, Lansac gostava de contabilidade. Tinha dificuldade com o português, o que o deixava acanhado diante de quem pouco o entendia. Machado escolhera facilitar. Conversava com ele em francês.

Lansac tinha o corpo magro, a barba aparada, o paletó escuro mesmo sob o calor carioca e uma elegância parisiense já um pouco fora de moda. Vivia no segundo andar da livraria, acima dos livros, preferindo ouvir a loja sem se misturar a ela.

Machado ajeitou-se, abriu a pasta e entregou as provas finais de Dom Casmurro.

— Seguem neste fim de semana para Paris — disse Lansac. — Está mesmo terminado?

— Nunca está.

Lansac acendeu um charuto enquanto corria os olhos sobre as folhas que Machado lhe confiara.

— Melhor que Memórias Póstumas?

Machado abriu um pouco os braços.

— Se não for melhor, ao menos deixará uma certa dúvida por muito tempo.

Para Lansac, aquela era uma conversa que bastava. Autor. Livro. Impressão em Paris. Lucro à Garnier. Machado começou a descer as escadas. Quando já estava no limiar, voltou-se:

— Já não vejo nas prateleiras A Mão e a Luva.

Lansac o olhou, como se recuperasse da memória uma página contábil:

— Foram-se todos. Uma livraria de São Paulo levou o lote. Disseram que havia falta por lá. Outros virão de Paris.

Machado deixou a loja. Na rua, entre o barulho dos bondes e dos pregões, o nome voltou a bater por dentro da pasta, agora vazia: Candinho.

Desceu a Primeiro de Março sem se voltar ao câmbio outra vez. Agora pensava em tomar um elétrico. Antes passaria na Colombo para um café.

Da porta, viu Bilac cercado por dois homens que ainda falavam de Floriano como se o marechal pudesse entrar a qualquer momento. Optou por tomar o bonde para Laranjeiras.

Em casa, Carolina, na varanda, o recebeu com alegria.

— Entregou?

— Entreguei — disse, sem muita convicção.

— Não vejo a alegria de antes.

— Não. Algo me incomoda.

— Sempre algo te incomoda quando terminas um livro.

— Não é o livro. É o nome.

— Nome se troca.

— Mas já segue a Paris neste fim de semana.

— Que nome?

— Candinho.

— Candinho? — perguntou Carolina.

Machado, que ainda não se defendera daquela escolha, percebeu que já perdera.

— Candinho Santiago — disse, com a voz cansada.

Carolina levantou os olhos do livro que segurava.

— Candinho é nome de moço que acredita em tudo o que lhe dizem. Capitu não perderia tempo com ele.

Machado, que caminhava a passos lentos pela varanda, voltou-se a ela com uma nova escolha:

— Tonico? Tonico Santiago?

Carolina se ajeitou sobre a cadeira.

— Tonico é nome de moço que entra pela cozinha. Capitu precisava de alguém que entrasse pela sacristia.

Machado debruçou-se no parapeito da varanda, mirando a rua.

— E então?

— Bento. Mas não um Bento inteiro. Bentinho.

Naquela mesma tarde, Machado preparou uma emenda de última hora. Saía Candinho e entrava Bento; e onde Bento ficasse grave demais, devia diminuir até Bentinho.

À noite, quem apareceu foi José Veríssimo. Não em pessoa; em carta. Machado passou o resto da noite respondendo ao amigo. Já tarde, Carolina entrou no gabinete e lembrou-lhe que o dia seguinte seria sexta-feira.

Machado ergueu a folha de correção para ela.

 

II

Logo pela manhã, Machado voltou à rua. Lá estava o mesmo homem e seu mesmo cavalo velho.

— Só até o Catete?

— Acho que hoje nem isso — respondeu o cocheiro.

Machado desceu a Rua das Laranjeiras em busca de um bonde. Cerca de uma hora depois, descia novamente na Praça XV. Os cheiros eram os mesmos, a movimentação mais intensa. O vapor continuava fundeado, recebendo passageiros que se despediam com gestos pequenos, enquanto embarcações menores levavam sacas de café para bordo. As chaminés já soltavam o fumo da partida. Esperava a maré boa para ganhar a barra.

Quando Machado voltou à Garnier com a folha de correção, encontrou Julien Lansac diante de um moço magro, de barba ainda indecisa, filho de russo e francesa. Sobre a mesa havia um velho número da Epokha, aberto num conto de Dostoiévski que ainda não se chamava apenas O Crocodilo. Trazia um título comprido: Um acontecimento extraordinário, ou uma passagem na Galeria Passage.

O moço lia em russo, parava, sorria sozinho, e depois traduzia para Lansac, em francês.

— Um homem dentro de um crocodilo? — perguntou Machado, antes de entregar a folha com as correções.

Lansac voltou-se para ele.

— O senhor conhece?

— Ainda não.

— Não?

O moço continuou. Traduziu mais alguns períodos. Falava de Ivan Matveitch dentro do animal, vivo, acomodado, disposto a transformar a própria desgraça em carreira pública. Lansac ria, mas ainda não sabia se ria do crocodilo, do russo ou da tradução.

— Acho que o russo deixou o homem vivo demais — disse Machado.

Lansac ergueu os olhos.

— Vivo demais?

— Sim. Dentro do crocodilo, ainda discursa. Isso é vantagem excessiva. Há homens que só se tornam interessantes quando já não podem explicar-se.

Por um instante, Machado pensou em Carolina. Ela diria que Ivan Matveitch, com nome inteiro e discurso pronto, ainda não começava a ser digerido. Faltava-lhe o essencial: a dúvida.

— E lhe pareceu inverossímil? — perguntou Lansac.

Machado dobrou devagar a folha que trouxera de casa.

— Não. Inverossímil seria tirá-lo de dentro do crocodilo.

Guardou no bolso do paletó a folha em que Candinho morrera antes de nascer. No lugar dele, menor e mais perigoso, entrava Bentinho.

O moço franco-russo perguntou:

— E o que o senhor faria com Ivan Matveitch?

Lansac arriscou:

— Abriria o crocodilo?

— Não.

— Faria dele uma autoridade? — perguntou o moço. — Um funcionário dentro do animal, recebendo visitas, despachando, dando opiniões?

Machado olhou para o velho número da Epokha.

— Também não.

— Então?

— Ninguém faria nada. O alemão continuaria cobrando um quarto de copeque por visita ao crocodilo, a Mutter continuaria sentada, o chefe ponderaria, a esposa se acomodaria, e Ivan Matveitch seria lentamente digerido pela circunstância.

À noite, Machado contou a Carolina a história do russo dentro do crocodilo. Ela ouviu em silêncio, com a mesma atenção com que examinara Candinho.

— Ivan Matveitch — disse ele. — Preso no bicho, mas vivo. Discursando.

— Nome comprido — disse Carolina.

— Russo.

— O crocodilo não sabe russo.

Machado sorriu.

— E que nome lhe daria?

— Nenhum. Enquanto tem nome inteiro, ainda parece senhor de alguma coisa. Quando começa a ser digerido, perde primeiro o sobrenome, depois a voz, depois a importância.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 20 de agosto de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .

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