“If from great nature’s or our own abyss
Of thought we could but snatch a certainty,
Perhaps mankind might find the path they miss
But then ‘t would spoil good philosophy.”
“Se do grande abismo da natureza ou do nosso
Próprio pensamento pudéssemos arrebatar uma certeza,
Talvez a humanidade encontrasse o caminho que perde,
Mas então isso estragaria a boa filosofia.”
Lord Byron
I
Por certo, seria prisioneiro daquelas recordações pelo resto da vida. Bastaria um elemento: a textura da areia, o ar saturado vindo do oceano ou, de modo mais pungente, a visão de um barco.
Um barco.
Quando chegaram à praia, o sol se esgueirava por entre as nuvens no horizonte, incerto ainda, como se avaliasse a geografia antes de se derramar. Naquele lado da ilha, a faixa de areia em meia-lua era banhada por um mar acinzentado, que avançava e retrocedia, plácido, a despeito do vento fortuito que lhe açoitava as costas.
Do alto da trilha, perceberam um grupo de aves reunidas à beira d’água. Pareciam planejar uma estratégia de ataque em busca de alimento, já que as chances de sucesso eram normalmente maiores nas primeiras horas do dia. Uma delas alçou voo, planando em círculos por alguns momentos até recolher as asas num átimo, mergulhando como uma flecha, ressurgindo triunfante com um peixe no bico.
O homem sentiu quando o menino soltou sua mão para reprimir uma interjeição de surpresa. Os pássaros, imunes à cena, permaneceram em terra em seus caminhares erráticos, longe de qualquer alvoroço. Talvez fosse culpa do frio, daquele frio cortante da manhã.
Tomou a mão do garoto novamente. Era um prolongamento de seu próprio braço. Queria ter certeza de sua presença. Sentia a calosidade da palma, os pequenos dedos dobrados uns sobre os outros. Ele estava ali. De verdade.
O caminho dourado refletido na ondulação fez com que o menino estreitasse os olhos, ainda assim abrindo um sorriso. Como não se encantar com aquela miragem formada por um milhão de lâmpadas, convidando qualquer um a misturar-se ao mar, a correr milagrosamente sobre a superfície líquida, embriagando-se de luz?
O estrondo das ondas nos rochedos fez com que despertasse do devaneio, a lembrança de que as águas guardam o perigo e o abismo na mesma medida em que espelham o céu.
O homem agachou-se, observando a pequena baía de ponta a ponta. Quantos meses haviam se passado desde sua última visita àquela praia? Seis? Dez? Nos morros circundantes notou árvores despidas de folhas, com troncos esbranquiçados e galhos esqueléticos, como se entoassem em vão uma prece, um cenário pouco familiar. Desanuviou a mente quando avistou o bote a uma centena de metros abaixo, balançando sobre a linha d’água, preso a uma corda. Pelo que se recordava, tinha o deixado sob as árvores ali próximas, em terreno seco. Possivelmente as marés o haviam sequestrado numa noite de ressaca qualquer, lançando-o às águas.
Fez sinal para o menino indicando a direção a seguir e assim puseram-se a caminhar, os pés chapinhando na trilha enlameada. Traziam consigo varas de pesca, feitas de uma espécie fina de bambu, além de uma pequena caixa com equipamentos e um balde vazio.
Normalmente, pescavam em outras praias, mais próximas do farol, usando redes e armadilhas. Dessa vez, decidiram inovar, aventurando-se em um local mais remoto. O menino se entusiasmara com a ideia. Sua vida ainda se limitava às áreas que circundavam a casa de luz, não sendo raros os lugares da ilha que ele desconhecia. Normalmente, passava os dias concentrado em estudos, em afazeres de rotina, sem tempo para explorações mais ousadas ou solitárias.
“Chegará o tempo em que você conhecerá o mundo”, o homem disse a ele certa vez. De qualquer modo, jamais o ouvira reclamar. Era como se a resignação estivesse entranhada em sua consciência desde o nascimento. Obedecia. Aguardava. Aprendia. Extraía óleo de plantas e de peixes. Ajudava na horta e na pescaria. Na limpeza das instalações. Talvez soubesse que era essa sua sina. Viver a ilha. Viver o farol. Por isso aquela manhã era tão especial. Era diferente, uma rachadura na rotina que os abrigava.
Observando-o, lembrou-se de quando era ele próprio uma criança. De como acreditava em sereias e nos seres mitológicos que via nos livros antigos do baú, nas ilusões que seriam eventualmente demolidas ao crescer.
“Não seria o máximo se encontrássemos o próprio Netuno hoje?”, perguntou ao menino. “Ou quem sabe uma baleia?”
“E se Netuno aparecesse montado numa baleia?” ele devolveu, sorrindo. Era bom quando ele sorria.
Mas, de fato, seria pedir demais que fossem surpreendidos por algo fantástico naquela manhã?
Ao se aproximarem do bote, pediu ao garoto que aguardasse na areia e, sem cerimônia, irrompeu mar adentro, reprimindo qualquer sinal de desconforto. Alguns passos adiante e a embarcação adquiriu mais nitidez. Era um barco de madeira, desses cujas tábuas de forro se alinham estreitas de um extremo a outro. Certamente pintado de branco quando novo, se assemelhava agora a um esquife de tempos bíblicos, a umidade encardindo suas longarinas.
Inspecionou o interior da embarcação. Não era possível saber há quanto tempo estava boiando a esmo, refém do sal e dos ventos. Tudo parecia em ordem, porém. Notou então os dois remos presos com um arnês no fundo e a poita com sua corda enrolada. Exatamente como havia deixado na última vez. Colocou ali a caixa, o balde e as varas que haviam trazido. Satisfeito, voltou-se para o menino, ainda na areia. Ele o observava com olhos escuros, os braços cruzados à frente. Vestia uma jaqueta grande demais. “Precisamos nos mexer para espantar o frio”, disse a ele, fazendo sinal para que se aproximasse. O menino obedeceu, o mar gelado envolvendo seus pés já no primeiro passo, chegando aos joelhos logo em seguida, fazendo-o prender os lábios em reflexo.
O homem ergueu-o pela cintura e colocou-o dentro do bote. Ainda na água, liberou a embarcação, desfazendo os nós que a prendiam. Segurando-a pela popa, deslizou com ela por alguns metros, superando as pequenas ondulações. Em seguida, com um salto ágil, projetou-se para dentro também. Acomodando-se, disse ao garoto para sentar-se no banco à frente, como mestre observador. Por fim, apanhou os remos, contemplando o cenário. O mar, as elevações com as árvores fantasmas e o céu.
Ali deu-se conta, talvez pela claridade que lentamente se impunha, que as nuvens ganhavam volume sobre eles. Um pensamento cruzou sua mente. Talvez fosse melhor voltar, deixar aquela aventura para outro dia, um dia de céu claro, limpo e com pouco vento. Olhou para o menino, sentado de costas à sua frente, mirando o infinito. Não, não seria justo com ele. Podia não ser o clima perfeito, mas era o que tinham. De qualquer forma não sairiam daquela baía. Estariam abrigados.
Retalhou com vigor a superfície do mar, o impulso brusco fazendo o garoto agarrar-se às bordas com ambas as mãos. Afastaram-se um tanto, o suficiente para que a ondulação ganhasse força, o barco subindo e descendo, subindo e descendo enquanto avançava. Depois de algum tempo, o homem suspendeu os remos e sugeriu que talvez aquele fosse um bom local para a pesca. Ante a concordância do garoto, lançou a poita, a corda se desenrolando e mergulhando no mar com ela. Com o menear apaziguado das ondas, apanhou os anzóis na caixa e deu-os ao menino, para que preparasse as linhas. Pescar daquela forma era muito mais interessante do que lançar redes ou usar armadilhas. Podiam conversar ou mesmo dividir o silêncio se os peixes demorassem a responder.
Em certo momento, o sol foi encoberto. Num primeiro momento, quis ignorar os sinais, dizendo a si mesmo que não era nada, só um instante de capricho. Ao apurar a vista, porém, notou que nuvens carregadas ganhavam forma com rapidez enquanto o mar respondia, irrequieto.
“Melhor voltarmos”, disse ele. “Guarde o equipamento.”
Enquanto recolhia a poita tentava não pensar no erro. Nesse instante, uma chuva leve começou a cair.
“Rápido”, disse ao menino.
Com o deslocamento do bote, a precipitação ganhou força. Ondas logo se arremessaram contra o casco, derramando-se invasoras em seu interior. A urgência se impôs em pouco tempo. O homem calculou a distância até a praia, a areia visível e invisível alternando-se entre a crista e o cavado das vagas. “Segure firme.” Agora precisava remar, erguendo, girando, cortando e puxando as pás dos remos.
A praia. Logo ali. Ergue, gira, corta, puxa. Concentração. Ergue, gira, corta, puxa. A respiração no mesmo ritmo, os olhos fixos na terra. Subindo e descendo. A chuva ganhando força. Mais ondas. Mais espuma. Mais água dentro do barco. Ergue, gira, corta, puxa. “Segure-se, marujo”, disse ao menino, num arremedo de jovialidade desfeito de imediato pelo mar encolerizado. Tentou convencer-se de que estava tudo sob controle, que já enfrentara situações como aquela. Não parecia avançar, porém. O peito arquejava, a vista ardia. A água, a maldita água arremetendo contra a embarcação. O vento, o gosto de sal. Ergue, gira, corta, puxa. Os braços queimando, as pernas retesadas. Força! Mais força! Ergue… Gira… Corta… A água, as ondas, o barco… O menino se abaixando, recolhendo com o balde a água no fundo do bote, jogando o conteúdo costado acima. E de novo. E de novo. “Não”, disse o homem, os dedos crispados aos remos. “Não adianta. Não adianta”. O menino, porém, não o ouvia, ou o ignorava, repetindo o movimento, o balde trêmulo em suas mãos, derramando o pouco que conseguia juntar, incapaz de vencer. Era ele seu próprio reflexo. “Você vai cair do barco”, disse o homem. “Volte para o seu…” O choque de uma série de ondas, jogando o barco como um brinquedo, fez o balde escapar para o vazio. A cena pareceu arrancar o homem da realidade, oferecendo um vislumbre do inevitável. Iriam morrer. Impossível sobrepujar o mar enfurecido, chegar à praia. “Não, não, não… Segure. Erga, gire, corte, puxe. De novo. De novo.” Ali, o menino, abraçado ao banco transversal, imóvel, os olhos fechados, a jaqueta encharcada. O menino… “Não. Hoje, não.” Ergue, gira, corta, puxa. De novo. De novo. Mais ondas, mais água. O vento. A chuva. O que fazer quando tudo parece ruir? “Meu Deus, a praia.” A praia ao alcance dos olhos! Ergue, gira, puxa… A água como milhões de agulhas ferindo seu rosto, a barba esgarçada, pingando. “Vamos, vamos!” Coração, braços… O menino. O menino se abaixando de novo, as mãos em concha recolhendo a água no fundo… “Não, não…” O estrondo. O pequeno corpo voando sobre a amurada, uma visão irreal, impossível. Chamou por ele, paralisado num átimo. Largando os remos, mergulhou. “Não, não hoje.” Nadou na direção onde o menino afundara, pernas e braços se alternando, os olhos abertos, embotados, tentando divisar uma forma, uma silhueta que fosse, em meio ao chumbo liquefeito. A jaqueta, a jaqueta enorme, encharcada. “Não, não… Onde está? Onde está?” Subiu para tomar fôlego, mergulhando novamente em seguida. “Eu vou te achar. Vou te achar de novo.” Deus, por favor, não me abandone. Uma sombra. Ali. Uma sombra. É ele. É ele.” Com o peito explodindo, coração, nervos e braços e pernas exaustos, nadou naquela direção até alcançá-lo. Era ele. Era ele. Abraçou-o pela cintura e voltou à superfície. Uma tosse. Outra. Lágrimas pelo rosto redondo, os olhos avermelhados. “Desculpa…” O homem o abraçou e sorriu. A chuva amansava agora. Estavam salvos. Salvos.
II
Se fosse possível escolher um momento para fazer-se cativo pela eternidade talvez jamais optasse por outro. Ali sentia-se no centro do universo, abençoado por ter na vida um propósito.
Chamava-se Jonas.
Mesmo acostumado à ilha, não deixava de se arrebatar pela audácia daquele pedaço de terra. Remanescente da fúria de antigos vulcões, teria um dia rasgado aquelas águas revoltas, derramando-se em lava, constituindo-se, milhões de anos depois, em um refúgio sólido e seguro. O único até onde a vista podia alcançar.
Enxergava em seu relevo a imagem de uma cruz. No eixo maior, a extensão não era superior a duas horas de caminhada. No menor, menos de quarenta minutos. No lado sul, a elevação era mínima, com três pequenas baías protegidas por morros e densa vegetação. Em direção ao norte, a terra se elevava de modo abrupto criando um topo amplo e achatado, despido de verde, até precipitar-se rumo ao mar em paredões vertiginosos, como se decepados por um deus irascível.
No exato ponto em que os eixos se encontravam, no centro do platô, fora erguido o farol. Sua torre contava com quarenta e cinco metros de altura. Tinha formato cônico, perfeito para suportar os ventos mais severos. Construído com tijolos e pedras seladas com alcatrão, possuía paredes duplas, conectadas por contrafortes internos. No topo, a câmara da lanterna era protegida por vidros espessos, montados sobre nervuras de ferro, havendo ali ainda um passadiço, circundado por um corrimão de bronze contaminado de maresia.
Ali, no alto, contemplando a respiração do oceano, Jonas se agarrava à balaustrada. Tinha o rosto pinçado por pregas que projetavam ravinas rasas feição abaixo, no mais escondidas por uma barba farta e ainda negra. Vestia uma jaqueta de lã cinza escuro, abotoada sobre uma blusa branca, de gola alta. Nos colarinhos havia um par de estrelas amarelas bordadas. Na cabeça, um quepe escuro, um tanto surrado, com uma âncora vermelha sugerindo um inútil símbolo de autoridade.
O sal. O preço de existir ali se refletia na necessidade constante de minimizar a contaminação. O sal. Sempre o sal. Corroendo as vigas, penetrando as paredes, corrompendo os espelhos. Polir, limpar, lubrificar. Polir, limpar, lubrificar. O trinômio a que estava acorrentado.
Chama extinta. Do chão, apanhou uma maleta contendo os equipamentos: chaves de diversos bocais, alicates, pinças, parafusos, tesouras; aventais, óculos, lupas e panos, muitos panos, aliás, feitos de linho, todos imaculados, dobrados com capricho religioso. Apanhou também um balde repleto de um líquido de odor pungente, uma mistura de vinagre e rouge, imprescindível para a tarefa de todas as manhãs.
Entrou enfim na colmeia envidraçada. O alívio pela ausência do vento foi imediato. Diante de si a estrutura imponente, que lembrava um grande barril translúcido com seus dois metros de altura, composto por prismas calculadamente dispostos de cima a baixo. Os benditos prismas que capturavam a luz e impediam que ela se perdesse no céu ou nas profundezas, curvando seus feixes na direção do horizonte.
Esgueirando-se por uma portinhola, penetrou no minúsculo espaço entre as lentes e sentou-se num banco metálico ao lado do bocal. Cercado pelas paredes espelhadas que multiplicavam sua imagem, observou seus próprios movimentos, abrindo a maleta, retirando os panos, ordenando as ferramentas, tudo amplificado em uma coreografia infinita, perfeita. Era o único local de toda a ilha em que se deixava encantar pela miragem de haver ali uma multidão, todos engajados no esforço repetitivo e hipnótico de manter o farol funcionando.
Para isso estava ali. Para que à noite, ou em meio a tempestades, ou em nevoeiros, o farol se erguesse como guardião perpétuo, garantindo que ninguém viesse a se perder, que ninguém caísse vítima das águas. Garantindo que aqueles que para casa retornassem o fizessem em segurança.
Os prismas se encaixavam em um esqueleto de latão. Apurando a vista, examinou as frestas, o vão diminuto em que a fuligem e o sal se acumulavam criando uma crosta venenosa que, no limite, poderia fraturar as lentes, comprometendo ou até mesmo inutilizando suas propriedades reflexivas. Mergulhou um dos panos no composto líquido e pôs-se a esfregá-las em movimentos circulares, com intensidade calculada, admirando a alcalinidade dissolvendo a fuligem, ressuscitando a transparência plena dos prismas que, ao fim, permitiriam à luz romper o vazio, propagando-se mar afora.
“Para que ninguém navegue só”, murmurou, deixando a mente à deriva.
Dia a dia, não apenas o farol demandava sua atenção. Também sua própria sobrevivência se sujeitava ao cumprimento de tarefas recorrentes e sistemáticas. Plantar, colher, cuidar das ovelhas, das galinhas, das cisternas, dos reservatórios. Para que se fizesse a luz, também ele precisava estar bem. Só assim ninguém seria arrastado para os rochedos, tragado para o fundo do oceano.
Não que fosse imune a erros, a enganos, a exaustão. Vezes houve em que sucumbira às tempestades, internas e externas. Em que cedera ao cansaço, dormindo além do permitido, entregando-se a um sono longo e sedutor para depois despertar coberto de vergonha e arrependimento. Não gostava de pensar nisso, nas vezes em que, esgotado, deixara de recolher as cordas, de regular o nível do mercúrio. Porque talvez aí tivesse afetado o funcionamento da lâmpada, condenando aos abismos quem no mar lutasse para se manter vivo.
Deveria ter resistido.
Estava acostumado a esses devaneios, mas era difícil, senão impossível, erguer uma barreira para contê-los. Faziam parte de sua rotina. Tentava sufocá-los com um cobertor de racionalidade, dizendo a si mesmo que tudo, absolutamente tudo naquela coluna de luz, possuía um sistema de acionamento emergencial, que mesmo nos casos mais extremos o brilho rasgaria os elementos. Que mesmo funcionando de modo imperfeito, mesmo que com um fulgor débil, no fim, o farol cumpriria seu propósito, dizendo, a qualquer dos infelizes no mar: tenha fé.
“Por que a demora então? Quanto tempo, filho, quanto tempo?”
Ao finalizar o polimento percebeu que o sol já ameaçava ceder ao próprio peso. Precisava ainda preparar o sistema de rotação. Descendo ao nível inferior à lâmpada, notou o tambor de latão, onde as cordas de cânhamo deveriam ser enroladas. Sem pensar, agarrou as alças e fincou os pés no chão. Sucessivamente, braço esquerdo e braço direito se alternaram puxando e puxando, minutos sem fim, recolhendo as tramas que sustentavam dois blocos de ferro maciço cujo peso acionaria engrenagens que permitiriam a lente girar suavemente sobre o mercúrio, levando a luz a varrer o oceano em pulsos regulares.
As primeiras estrelas se anunciavam, ainda que um tanto encabuladas, quando ele deu o trabalho por terminado, os músculos latejando. Talvez estivesse um tanto velho para tudo isso, pensou, mas não havia alternativa. Voltando à colmeia, com a ajuda de fósforos, fez arder a chama.
“Propague a luz. Propague a luz.”
Passando por uma pequena rampa, chegou à escada de ferro que se espiralava até a base do farol, junto à parede interna. Tinha o costume de descer lentamente, acompanhando o ocaso pelas janelas, já que ofereciam um vislumbre do exterior de diferentes posições. Não raro, detinha-se por completo, as mãos apoiadas nos batentes, mirando pelos vidros até a vista borrar-se na linha em que o mar e o céu se tocavam, deixando-se consumir por um segundo pela esperança de testemunhar algo incomum.
Esperar e esperar. Mais do que o ofício, a expectativa era um traço comum a todos os seus.
Aprendera com seu pai, que por sua vez aprendera com seu avô, que antes aprendera com seus ancestrais, de geração em geração rumo ao passado, até onde era possível conceber. Filhos dos filhos dos filhos haviam sido ensinados a proteger aquele farol, consertando seus mecanismos, lançando cabos, derrubando e reconstruindo paredes com pedras e piche, erguendo degraus circulares e polindo lentes, encaixando e ajustando espelhos, ora benditos, ora ilusórios, como aranhas enclausuradas.
Tudo para que ninguém navegasse só, para que fosse possível encontrar o caminho para o continente. Para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. Fosse num mundo como aquele, fosse num mundo despedaçado.
III
Em terra, chegando à pequena habitação de alvenaria onde teimava em existir, girou a maçaneta de uma porta lateral. Num instante, julgou ouvir algo atrás de si, uma voz que sussurrava “Jonas”, seguido de “estou aqui”. Acostumara-se a ela, a seu fantasma, em verdade o vento que assobiava por entre as rochas na maré baixa.
Desprezando o chamado, entrou enfim, os passos lentos e calculados. Apanhou a lamparina sobre uma mesa fazendo nascer uma pequenina labareda, suficiente para matizar de âmbar paredes descascadas e manchadas pela umidade onipresente. No lado esquerdo havia uma pia de metal, montada sobre um armário de madeira. Nela se via também, em um escorredor de louça, um prato fundo e uma caneca de ferro. À direita, um fogão à lenha repousava junto a uma parede com azulejos à meia altura. Sobre a chapa, uma panela com restante da sopa de legumes feita na noite anterior.
Apanhou dois pedaços de lenha no cesto adjacente, abriu a portinhola do fogão e encaixou-os no compartimento em meio às cinzas. Em seguida, com o auxílio de um jornal velho, acendeu o fogo. Esfregou as mãos com sabão ali mesmo, na pia, a água gelada vertendo em um filete, na esperança de que o cheiro da mistura de polimento cedesse um pouco. Apesar do esforço, um odor vago, recendendo a éter, parecia impregnado no ar. Jonas cheirou as roupas e os dedos, sem contudo identificar de onde vinha.
Com a lamparina em mãos, dirigiu-se a uma saleta onde um rádio telégrafo descansava indiferente. Um tanto antigo, ainda que operacional, mantinha-se refém da frequência 2182 kHz desde que Jonas podia se lembrar. Girando um dos botões, ligou-o, posicionando os fones na cabeça. Informou seu prefixo, indagando se haveria alguém na escuta. “CQ-CQ” Seek You. Seek You. Sem resposta.
Oposto ao telégrafo havia um grande armário de madeira, de portas envidraçadas, frágil demais para um ambiente como aquele. Abrindo-o com cuidado, deixou os olhos correrem pelas prateleiras. No topo viam-se cartas náuticas antigas, enroladas e presas com barbantes, além de instrumentos de navegação cobertos de poeira. Abaixo, tomando todo o espaço restante, três centenas de livros apoiavam-se lado a lado uns nos outros, suas lombadas enegrecidas exibindo números sequenciais. Tratava-se de registros sobre o farol, sobre a estrutura e os equipamentos, sobre os procedimentos de manutenção, sobre as condições meteorológicas, sobre o volume das chuvas, sobre os horários do alvorecer e do crepúsculo, sobre o estado da horta, dos animais, das cisternas. Lado a lado. Ano a ano. Somados, esses apontamentos contavam a história da casa de luz, de suas fundações, de seu passadiço, de seus componentes mecânicos, de seus cabos, de seus tubos, de suas alavancas e de suas manivelas. De seus vidros, de suas lentes. Do óleo, do mercúrio, dos componentes elétricos, da água, dos animais.
Balançou a cabeça, tentando espantar esses detalhes. Apanhou o exemplar mais recente, além de material de escrita, voltando em seguida à cozinha. Notou que a sopa já borbulhava no fogão, desprendendo um odor adocicado de batatas cozidas. Com o diário sob o braço, moveu a panela para o lado mais frio da chapa, apanhando depois um bule com água e um par de trouxinhas de chá, avaliando o local exato em que poderia deixá-lo para que não esquentasse demais.
Por fim, sentou-se à mesa, a sombra alongada eclipsando parcialmente as paredes. Abriu o livro, segurando o lápis entre os dedos rachados. Passando as costas da mão na borda interna, firmou a página. A empunhadura, trêmula até então, ganhou firmeza quando o grafite feriu o papel, transformando seu rastro em letras, palavras, números e parágrafos. Como em todas as noites. Como tantos e tantos antes dele. Anotar tudo, escrever tudo, para que um dia outros absorvessem essas informações e depois as esquecessem.
Enquanto escrevia, pensava naqueles que um dia haviam se sentado àquela mesa, registrando tudo o que se devia registrar. Desenhando tudo o que se devia desenhar. Calculando tudo o que se devia calcular. Desde o início. Aqueles que haviam chegado à ilha quando nada existia e decidiram erguer ali um farol. Aqueles que os substituíram, aqueles que vieram depois. Aqueles que puseram o farol abaixo e depois o reconstruíram. Uma, duas, três vezes. Gente tão antiga que suas existências remetiam a fábulas distantes.
De tanto ouvir falar naquelas pessoas, fosse por causa de seu pai, fosse por causa de Marina, aprendeu a enxergá-las como heróis. Porque viveram o extraordinário, padeceram de devastação, de doenças, superaram furacões, intempéries, frio e calor. Ousaram existir naquele ambiente incompreensível, atravessados pela hostilidade e pelo desprezo dos elementos. Porque se fragmentaram em suas próprias desilusões, encontrando ainda assim um motivo para perseverar juntos. Porque protagonizaram os mesmos capítulos de vida, deixando de lado diferenças, desejos e receios em nome de algo maior do que eles próprios. Porque encontraram a saída de seus labirintos morais, superando os golpes do destino, fosse a morte inesperada de um pai, fosse a queda fatal de um irmão que substituía os cabos dos contrapesos, fosse o desaparecimento de uma mãe que se atirara de propósito no mar, vítima de melancolia.
Ainda que os registros não ultrapassassem a mera burocracia, aprendera a extrair de suas reticências o passado daquela gente imortal.
Quando terminou, voltou ao armário envidraçado e depositou o diário de volta em seu espaço. Em seguida, de um móvel baixo, apanhou uma revista antiga cujas reportagens ele conhecia de cor. Retornando à cozinha notou a panela de sopa sobre o fogão. Tinha esquecido de comer. Tudo bem, não estava com fome. No dia seguinte apanharia um arenque salgado de um dos barris. Claro. Um arenque. Lembrou-se então que nas primeiras horas da manhã, antes mesmo de extinguir a chama, deveria entregar-se à ordenha semanal, além de conferir a horta. Respirou fundo. “Amanhã… Amanhã.” Por ora, poderia sentar-se na cadeira de balanço, na varanda, e descansar.
À luz amarelada da lamparina, com uma caneca de chá em mãos, contemplou o céu sem lua, prenhe de estrelas, uma vista incomum para aquela época do ano. O ar frio encheu-lhe o peito enquanto a intermitência do farol revelava em pulsos a cruz da capela trilha abaixo.
Tentou ler, mas as pálpebras se recusavam a manter-se abertas. Vencido, dobrou a revista sobre o colo e fechou os olhos, deixando-se embalar pelo chiado do mar que se insinuava desde as praias.
Sem que pudesse precisar o tempo, despertou com um sussurro.
“Boa noite, meu pai”, disse Tarsis, os olhos grandes como os da mãe se destacando no rosto magro. Vestia uma jaqueta de lã azul e calças de cor cinza. Nas mãos, luvas encardidas e sem dedos traduziam um dia de trabalho intenso. Na cabeça, um gorro verde escuro.
“Boa noite, meu filho”, Jonas respondeu, ainda desorientado, a cadeira rangendo levemente. “Como foi hoje?”
“Nada muito especial…”, respondeu Tarsis, encostando-se na viga principal da varanda, tirando as luvas, com uma expressão ensaiada de enfado. “Meia dúzia de cavalinhas, góbios…”
“Não foi mal”, disse Jonas, percebendo o caixote com os peixes aos pés do rapaz.
“Ah, mas eu trouxe algo que o senhor vai gostar…”, disse Tarsis, um sorriso iluminando o rosto.
“O que é?”
“Arenque, pai”, disse abaixando-se, remexendo os peixes. “Finalmente consegui.”
“Um arenque…”, repetiu Jonas. “Ah, menino, você quase me enganou com esse ar de decepção.”
“Amanhã teremos um almoço diferenciado!”
“Mal posso esperar.”
“Vou guardá-los agora, pai”, disse Tarsis, pondo-se em pé. “Volto já.”
“Arenque…”, murmurou Jonas enquanto o menino se afastava, desaparecendo por trás do pequeno galpão que servia como depósito.
Fechou os olhos novamente, despertando quando o filho voltou, sentando-se ao seu lado em um banco de madeira.
“O dia foi longo, não?”, perguntou Jonas.
“Ainda tenho que limpar o bote”, respondeu Tarsis.
“Você precisa comer, meu filho. Tem sopa na panela.”
“Não tenho fome.”
Analisou-o por um instante. Estava de perfil, mirando um ponto invisível no céu. Sua barba era rala e o bigode tentava se firmar. Os cabelos bastos e rebeldes se estendiam pelos ombros. O nariz proeminente, de fartas aberturas, lhe conferia um ar de invencibilidade. Parecia muito mais velho do que os dezoito anos que tinha.
“Pretende partir quando?”, perguntou Jonas, embora já soubesse a resposta.
“Em dois ou três dias”, respondeu o rapaz. “Tão logo eu dê um jeito no casco.”
“Aquele casco já foi bom.”
“Ainda dá conta do recado. Só preciso tirar o limo e os mexilhões.”
Deixaram que as palavras decantassem. Num instante, tudo o que ouviram foi o rebentar das ondas, intensificado pela subida da maré.
“Eu bem me lembro bem quando foi comigo, quando saí…”, disse Jonas, rompendo a quietude.
“É algo que todos temos que fazer, não é?”
“Sim… Todos nós.”
“Pai?”
“Sim, filho.”
“O senhor ficou com saudades?”
“Você diz, quando eu parti?”
“Sim, quando o senhor partiu. Teve saudades da ilha, do farol?”
“Se tive saudades… Acho que saudades não é a palavra certa. Foi mais apreensão, não sei… Angústia, talvez… Não conhecia nada… Mas sabia que iria voltar e isso me confortava.”
“E como o senhor sabia?”
“Eu… Simplesmente sabia… É a nossa sina. Voltar. Render quem nos espera.”
“Mas o senhor não ficou tentado a permanecer lá?”
“Lá…?”
“No continente, pai. Não ficou com vontade de ficar lá para sempre? Não voltar?”
Jonas calou-se por um momento, revolvendo memórias insondáveis. Depois de algum tempo disse:
“Claro que pensei, filho. Claro que pensei. Ainda penso… Como teria sido a vida se eu tivesse permanecido no continente?”
“E mesmo assim o senhor voltou.”
“Sim, voltei. Não dá para pensar no que poderia ter sido. A vida simplesmente é o que é… Mas no fundo eu tinha certeza do que devia fazer. Tinha certeza do meu propósito. Do meu dever.”
“Dever…”, repetiu Tarsis.
“Meu pai sabia o que eu estava passando”, disse Jonas. “Assim como eu sei o que se passa agora com você. Mas confie em mim. No momento certo você vai voltar. E eu estarei aqui, esperando.”
“Como dizia mesmo meu avô? Case-se, estude…?”
“Ah, sim, era algo glorioso: estude, case-se, tenha filhos. E depois retorne. Encha de vida este farol…”
“Ah, sim, é verdade. Voltar e encher de vida.”
“Voltar e encher de vida… O mais curioso é que não foi seu avô que disso isso, não… Na verdade, foi alguém muito antes, muito mais antigo, muito mais velho que ele, de outras gerações…”
“Eu não vou demorar, pai. Prometo.”
O vento assobiou, esgueirando-se por entre as pedras, preenchendo os minutos em que nenhum deles falou.
“Onde está a revista?”, perguntou Jonas. “Ah, aqui…”
“Quer que leia, pai?”
“Claro, filho. É o que mais quero.”
Tarsis clareou a garganta e então pôs-se a ler, a voz se perdendo num eco de infinitude enquanto o pai cerrava os olhos uma vez mais, murmurando as mesmas palavras lidas em repetição.
A luz intermitente desvelando a cruz da capela em intervalos regulares. Os contrapesos cedendo à gravidade na torre. O céu estrelado girando em espirais. O vento. O sal. Os sussurros.
IV
Em que momento surgiram as primeiras distorções? Quando teriam ocorrido as primeiras falhas, os tímidos alertas que ele terminou por ignorar, talvez por opção deliberada, talvez por mera ingenuidade, preferindo acreditar que estariam imunes, ele e ela, ao avanço do tempo? Se os ossos que sucumbem à fratura definitiva passam antes por um estado de fraqueza, de dor acanhada, assim devia ser com todo o resto, com a visão, com a habilidade de ouvir ou de pensar. Ou mesmo com a capacidade de debelar a tristeza. Se fosse possível identificar o instante exato em que esses sinais precoces apareceram, talvez teria havido uma chance de evitar o pior, de salvá-la. De salvar a ambos.
Quando Marina engravidou, Jonas acreditou que o resgate enfim aconteceria. Que ela voltaria a ser a mesma pessoa que, ao colocar os pés na ilha pela primeira vez, enchera-se de felicidade, extasiada com o verde intenso da vegetação e com as escarpas dramáticas que sustentavam a plataforma rochosa onde o farol se erguia. Os dias em que, entusiasmada, se punha a explorar cada canto da ilha, cada praia, cada baía. Quando nomeava os animais que via com mais frequência, as aves, as baleias, os leões marinhos.
Naquela época, ela se deixava levar pelas trilhas estreitas que conduziam aos promontórios de onde a visão do mar era mais dramática, de onde se viam as diversas tonalidades de azul e verde, os arrecifes aflorando com a ondulação, os cardumes de arenque perseguidos por famílias de orcas. Queria aprender tudo: a geografia da ilha, o regime das marés, o comportamento dos animais e das plantas, o cultivo da horta, a maneira correta de ordenhar as cabras, as atividades de manutenção do farol, a montagem e a limpeza dos prismas, as propriedades da luz, a refração e a polarização. Parecia ter sede de novidades, curiosa ao limite, como se a vida fosse curta demais para entender como tantas coisas diferentes funcionavam.
Ainda no continente, quando se conheceram, dissera a Jonas que jamais se contentaria com uma vida ordinária, dessas, cuja linha é visível do início ao fim. Não, não desejava, jamais, uma existência comum, cumprir o destino de uma típica filha de família burguesa, prometida a um homem de posses para dar-lhe filhos que um dia herdariam e multiplicariam uma fortuna vazia de significado. Queria algo diverso, improvável, com sobressaltos, com jornadas que a obrigassem a se superar, a se entender, a se surpreender. Dizia que os obstáculos é que davam sentido aos dias, que somente o inesperado tornava a vida válida, que viver não significava apenas existir. Que estava ansiosa para experimentar o frio e o desabrigo para dar valor ao sol, que precisava caminhar sob a chuva intensa para estar bem sob o próprio teto. Por isso aceitara desaparecer com ele, esconder-se em algum ponto indefinido do mapa, ainda que isso significasse romper com todo o seu passado para nunca mais voltar.
Naqueles primeiros dias, Jonas só podia celebrar a boa sorte. Marina haveria de adaptar-se plenamente à ilha, ao farol. Em pouco tempo, ele acreditava, seria ela conquistada pela sucessão de operações e de eventos singulares que tinham lugar ali e que jamais se verificavam no continente. Ela, de fato, parecia talhada para aquela vida de sacrifícios, de entrega, mas também plena de significado. Não tardaria a compreender que também era dela a missão de propagar a chama para que ninguém viesse a perecer. E daí para as gerações seguintes.
Depois de um ou dois anos, contudo, o entusiasmo de Marina arrefeceu. Não de repente, nem por uma razão específica, mas pouco a pouco, como se as gotas que compunham seu reservatório de jovialidade se evaporassem lentamente, roubando-lhe a capacidade de se arrebatar. Por mais que Jonas tentasse identificar o motivo, não era capaz. Não havia nada aparente. A vitalidade de Marina foi lentamente substituída pela indiferença, como se uma doença desconhecida a tivesse abatido.
Talvez tivesse se decepcionado com a vida ali, esmagada pela realidade opressora dos elementos. Cansava-se de tudo, não raro reprimia com monossílabos esparsos as tentativas de Jonas em animá-la. Ainda se dispunha a realizar as tarefas diárias, mas faltava-lhe a alegria natural dos primeiros dias. Equilibrava-se, enfim, entre a apatia e o esforço em permanecer fiel ao propósito inicial. Entre o rosto impassível e o sorriso fabricado. Entre o sol e a chuva.
Um dia, porém, viu-a caminhando pela praia ao entardecer, os passos refletidos em coreografia perfeita na lâmina d’água sobre a areia. Uma brisa soprava acolhedora e ela, olhando em sua direção, sorriu. Estava grávida, disse.
Nas semanas seguintes, notou que ela adquirira o hábito de examinar-se diante do espelho quando o quarto de dormir era invadido pelos primeiros raios de claridade. Com a camisa entreaberta, de perfil, Marina deslizava a ponta dos dedos pela barriga, como quisesse adivinhar as formas do bebê que ali crescia. Algo intuitivo, transcendental, permitido unicamente a quem gera outra vida.
De costas para ele, quase sempre ignorando sua presença, juntava as pontas dos cabelos castanhos num coque sobre a cabeça, segurando-o com uma das mãos, o braço delgado suspenso, lembrando a figura de uma bailarina em arabesque. Olhava-se de cima a baixo, o ventre que crescia, os seios, o rosto. Naquele velho espelho seus olhos pareciam ainda maiores, mas talvez fosse só a distorção causada pela luz oblíqua. As sardas que lhe salpicavam a face, dali imperceptíveis, desciam aos ombros e às costas assemelhando-se a uma chuva de minúsculas estrelas.
Diante de sua própria imagem, Marina conversava com o bebê. Murmurava promessas que Jonas não podia ouvir. E em seguida respondia, como se fosse a própria criança, trocando confidências insondáveis.
Ele a imaginou-a dali a algumas semanas, os olhos em enlevo, o pequeno ser sugando-lhe o peito, protegido do resto do mundo. A vida valeria a pena.
Por certo Jonas sufocava qualquer pensamento racional, de que tudo aquilo poderia desmoronar, ou que seu otimismo, mesmo contido, não passasse de uma quimera. Não havia a alternativa a não ser acreditar na boa fortuna. Mesmo que tudo se traduzisse como miragem, uma versão distorcida da realidade, mesmo que o pior pudesse acontecer, estaria com ela, com Marina, pois era essa a única possibilidade de resgatá-la. Se fosse preciso sacrificar a racionalidade para alcançar a tábua de salvação, assim o faria, ainda que se tratasse de uma tábua ilusória. Era a única maneira de prosseguir.
Ali, observando-a, imaginando como ela via o futuro, percebeu o que o amor nada mais é do que o desespero pela vida. E que era essa percepção clara de finitude que o permitia amá-la por completo.
Havia a sensação de que poderiam ter-se preparado melhor para o momento derradeiro. Existia um protocolo para o parto, mas os procedimentos não bastavam para arrefecer a ansiedade de ter que lidar com eventuais improvisos. O berço já havia sido colocado ao lado da cama, o tecido para as fraldas também fora separado. Panos, água quente, bacias e até uma grande tesoura embebida em álcool já estavam à mão, além de gazes, algodão e ataduras. Quando Marina enfim sentiu as primeiras dores, o odor do iodo já era onipresente.
Lençóis tinham sido amarrados nas vigas superiores do quarto, como cordas, de modo que ela se agarrava a eles em tração, no intuito de empurrar o bebê para fora. De algum modo, sabia o que fazer. Encurtar a respiração. Empurrar, empurrar. Estava acocorada, os dentes e olhos cerrados, os braços suspensos em força, a camisola empapada grudada no corpo. Jonas acompanhava em expectativa, próximo a ela, o coração acelerado, atento, pronto a acolher o bebê ao menor sinal. Eram só eles ali. Vai correr tudo bem, pensou. Tantas mulheres haviam passado por isso, naquele mesmo quarto. Não seria diferente com ela. O bebê nasceria sob o signo do farol, destinado a salvá-los todos. O nome… Não havia ainda um nome, até porque não tinham como saber o sexo. Claro, haviam debatido, sugerido um ou outro, mas no fim concordaram que era preciso ver o bebê para decidir. O rostinho dele, ou dela, daria a pista.
Marina puxava os lençóis, os nós dos dedos esbranquiçados, parecendo romper a própria carne. Continhas os gritos antes de lhe escaparem pelos lábios. Emudecia a própria dor, talvez não querendo assustar a criança prestes a chegar. Empurre, empurre. Sentia as pernas latejando, o ventre rasgando-se num misto de aflição e enlevo, transpirando, estremecendo.
Enfim, aconteceu. O bebê veio à luz, coberto por uma fina camada acinzentada, o cordão umbilical enrolado em seu pescoço. Jonas o apanhou de plano. Era uma menina. Uma menina. Marina, em êxtase, sem plena compreensão da cena, observou-o enquanto ele livrava a bebê do aperto. Viu também quando ele a segurou pelas pernas, dando-lhe um pequeno tapa para que respirasse em choro, para que os pulmões se enchessem de vida.
“Por que ela não chora?”, perguntou Marina, enfim. Jonas olhou para ela, a face repleta de dúvida, sem saber o que dizer. Outro tapa. Nada. Sem reação. Não, não… Aquilo não estava acontecendo. Limpou a bebê com um pano. Estava arroxeada, o rosto contraído, imóvel. Por favor, por favor… Não permita que isso aconteça.
“Faça alguma coisa…”, suplicou Marina. Jonas deitou a bebê no colchão e massageou-lhe o peito. Uma, duas, cinco vezes. Sem resposta. Repetiu e repetiu o movimento, enquanto Marina dizia algo indecifrável, o rosto em lágrimas. Por favor, por favor… Soprou a boca da bebê na esperança de encher-lhe os pulmões, sem sucesso. Uma, duas, seis, dez vezes…
Jamais cresceria, jamais andaria pela casa a brincar, jamais envelheceria.
Na manhã seguinte embarcaram no pequeno bote, ele e Marina. Ela trazia consigo uma pequena caixa contendo o corpo da criança. Eles a chamaram de Lívia. Era um dia de céu azul perfeito, de mar plácido, isento de ondas. Remaram até certo ponto, em silêncio, processando a perda. Olhando para a caixa, Marina, em lágrimas, disse: “minha bebezinha, não tenha medo… Vou seguir você na escuridão.”
V
Ao despertar percebeu que o alvorecer era iminente. Nuvens se acumulavam, impulsionadas por um vento vigoroso. Em breve tomariam o céu por completo, conferindo à ilha seu matiz cinzento usual. Só então percebeu o cobertor sobre si. Não se lembrava de tê-lo trazido. Desvencilhando-se, levantou-se, entrando pela cozinha rumo ao lavatório a fim de livrar-se do torpor que o impregnava. Terceira noite seguida em que dormia na varanda. Depois de se aliviar, olhou-se no espelho, o rosto ainda retorcido, o odor de éter ainda presente.
Serviu-se chá, agora frio. Abrindo um dos armários, apanhou um biscoito seco, consumindo-o com avidez a despeito do gosto ocre. De modo automático, recapitulou mentalmente as tarefas do dia: ordenhar as cabras, conferir a horta, separar o peixe, extinguir a chama, conferir a cisterna e o reservatório de óleo, limpar os vidros externos da galeria, tracionar as cordas.
Antes de trocar-se, sentou-se à frente do telégrafo uma vez mais, colocando os fones. Seek You. Seek You. Só o ruído em resposta, os estalos das tempestades elétricas a um mundo de distância. As centelhas, a radiação do espaço. Nenhum bipe. Nada.
Resignado, seguiu à varanda para observar a praia, logo abaixo. Apesar da pouca luz àquela hora, podia perceber a linha do mar confundindo-se com o horizonte, sinal de que um nevoeiro se insinuava. Respirando profundamente, sentiu o ar salgado nas narinas, decidindo caminhar até a orla. Sentia que precisava disso, ainda que tivesse que adiar por algum tempo os afazeres. De todo modo não poderia extinguir a chama se a névoa incipiente se confirmasse.
Descalço, sentiu os grãos da areia úmida acumulando-se entre os dedos a cada passo. Vestia um casaco gasto, de lã, sobre uma camisa de mangas longas. As calças com as barras puídas pareciam mais folgadas do que de costume. Talvez estivesse com fome, mas não se importava.
A claridade se fazia mais presente agora, permitindo a ele entrever as linhas do relevo ao redor, os contornos ganhando e perdendo nitidez por conta da luz efêmera do farol. Deslocando-se lentamente, observava os grupos de gaivotas se reunindo à beira mar, ensaiando os primeiros mergulhos. Pensamentos antigos forçaram passagem, mas ele os reprimiu de plano, preferindo concentrar-se na natureza em movimento.
Sentou-se sobre uma pequena elevação, onde a vegetação rasteira tentava vencer a esterilidade. Voltou sua atenção para o mar diante de si. Dali parecia-se com um lençol de cobalto, avançando infinito. Imaginou as embarcações que nele havia naquele preciso momento. Uma, duas, cinco, jamais saberia quantas. Deixou a mente vagar sinuosamente, na esperança de as enxergar. Pensou em seus tripulantes aflitos, obrigados a dominar o desassossego, empenhando promessas para que o farol não viesse a falhar, para que a luz os conduzisse como uma estrela-guia. Suas expressões contraídas, os sulcos de preocupação desenhados em suas faces desanuviando-se, enfim, quando superassem os instantes de angústia, graças à chama que ele e somente ele mantinha acesa.
Por vezes considerou ir até lá, até os rochedos, para assegurar-se da presença dessas embarcações. Poderia então acenar aos marinheiros, cumprimentá-los. Convidá-los a vir à terra por algumas horas que fossem, para quem conversassem, para que ele conhecesse suas histórias, para que pudesse contar a eles as suas. E para que, em algum instante, pudesse perguntar-lhes se, por um acaso, teriam conhecido seu filho, Tarsis.
Jamais faria isso. Porque temia não encontrar barco algum. Porque mesmo que encontrasse, mesmo que viesse a conversar com os marujos, a resposta poderia ser desafortunada. Na incerteza, ao menos, havia possibilidade e por ora isso era o bastante. Assim, tão somente se permitiria imaginar aqueles homens fantasmas, seus dramas, seus anseios, suas superstições, suas perguntas e suas respostas. Suas histórias.
Jamais conheceria seus rostos ou ouviria deles as vozes. E eles, por outro lado, tampouco saberiam quem Jonas era ou foi, embora pudessem imaginá-lo também, embora pudessem prestar-lhe um tímido agradecimento quando ultrapassassem os arrecifes. Destinados a nunca se cruzar, estariam unidos pelos lampejos intermitentes da Casa de Luz.
Em meio às divagações, percebeu que da bruma que deslizava sobre o mar cinzento um brilho hesitante se fazia notar. Era uma luz azulada, que oscilava obediente, subindo e descendo, escondendo-se e revelando-se por trás das ondas à distância. Fogo de Santelmo, talvez.
Observou com atenção. Podia ser um navio, um barco. Ou apenas sua mente cansada a lhe trair a atenção.
Tarsis…
Não, não podia ser. Tinha medo de acreditar, de sofrer a dor da decepção. Melhor não se entusiasmar. Melhor retornar a casa, aos afazeres, acorrentar-se à realidade e deixar a esperança de lado. Para que encher-se de expectativa? Poderia ser – ou deveria ser – nada mais do que o reflexo de um raio de sol que havia rompido a camada de nuvens, ou um relâmpago travesso a brincar de esconder.
Desejou que a névoa ao redor engolisse a centelha azulada, tornando-a invisível e fazendo desaparecer sua angústia. O brilho, contudo, intensificou-se para depois enfraquecer-se. E de novo. E de novo. Um padrão repetido em intervalos precisos. Três curtos, três longos, três curtos. Três curtos, três longos, três curtos.
Levantou-se.
Lá estava uma vez mais. Em flashes bem definidos: três curtos, três longos, três curtos.
Apressou-se rumo ao pequeno cais no canto da praia, os pés criando sulcos na areia. Ali repousava o bote branco, imundo, carregado de umidade entre as tábuas paralelamente montadas, com os remos presos por um arnês em seu interior. Sem pensar, pulou na embarcação, libertando-a de suas amarras. Desprendeu os remos e com habilidade encaixou-os no tolete do costado, as pás cortando a linha d’água no instante imediato. Retesou os músculos movendo os braços em círculo com toda a força que tinha. A luz. Não podia perdê-la de vista. Precisava ser rápido, antes que viesse a fenecer. Mirou com precisão o ponto de destino. Ali, sim, ali. Manteria os olhos fixos nele, custasse o que custasse. Reme, reme, ordenou a si mesmo, ainda que o brilho sucumba ao nevoeiro.
Inevitavelmente viu-se engolido pela névoa espessa. A luz… Não fosse o clarão difuso e compassado do farol, teria perdido a noção de espaço.
Estranhamente, a linha d’água tornou-se plácida, fazendo o barco escorregar de modo suave, como que abrindo uma fenda em “V” na superfície enquanto avançava.
“Olá?”, disse Jonas, as mãos em concha ao redor da boca, a voz alta prolongando-se de seus pulmões arfantes. “Alguém aí me ouve?”
Sem resposta.
“Olá… Alguém aí? Eu vi o sinal…”
Quando menino, ouvira de seu pai uma fábula sobre o primeiro homem da linhagem. Teria sido ele deixado na ilha por um capitão muito severo, com orientações precisas sobre seus encargos, sobre seu destino: erigir o farol, manter a luz acesa, deixar descendentes para que a chama se propagasse pelos anos, décadas e séculos por vir, de geração a geração. No entanto, disse o pai, esse mesmo capitão teria alertado aquele primeiro homem, também, de que apesar de todas as dificuldades ele terminaria se afeiçoando à ilha, aproveitando tudo o que ela podia oferecer, suas plantas, flores, frutos, peixes, cabras, árvores. Que encontraria propósito, talvez a própria felicidade, especialmente quando percebesse a relevância de sua missão, e mais ainda quando ensinasse os filhos e os filhos dos filhos sobre os trabalhos, sobre os segredos, e os visse depois assumindo os mesmos encargos. Todavia, e esse era o ponto mágico da história, um dia o capitão severo voltaria para buscá-lo. E nesse momento o primeiro homem não poderia hesitar, por mais apegado que estivesse àquela terra, por mais que tivesse assuntos a resolver. Deveria simplesmente obedecer, atender o chamado. Não poderia haver ressalvas, adiamento, nem nada. Não poderia agarrar-se a nada. Não poderia trazer nada de volta ao navio, um pedaço de grama, uma concha, nem mesmo um grão de areia. Nada. Embarcaria de volta da mesma forma como no dia em que ali chegara, despido de tudo, pronto a regressar – se é que havia de fato um destino final. E assim seria com todos, com o segundo, com o terceiro, com o quarto homem, de geração em geração. Para sempre, para sempre.
Por um instante, Jonas supôs que aquela luz azulada, que se repetia em intervalos regulares – três curtos, três longos, três curtos – poderia ser o chamado de regresso daquele capitão imaginário, exigindo que deixasse tudo para trás, para sempre, e embarcasse de volta para a jornada derradeira.
A ideia o pôs desconfortável. Ainda que se tratasse de uma fábula, não tinha como evitar o pensamento de que esse tal capitão levara todos os faroleiros, suas famílias, seus filhos. Levara seu pai. Levara Marina. Não, não poderia ser ele agora, não quando havia tanto por fazer. Não sem que visse Tarsis uma vez mais.
“Olá! Alguém aí?”, repetiu, voltando à realidade imprecisa do nevoeiro.
Pensou no pai, em sua natureza lenta, às vezes temperamental, mas também acolhedora. Em sua mania de ensinar-lhe sobre a vida por meio de alegorias que ele, menino, nem sempre compreendia. Na fé ingênua que ele nutria pela providência divina, certo de que todos os problemas se resolveriam a despeito de qualquer dificuldade.
Teria o pai se exasperado com o arrastar dos dias, dos meses, dos anos, até que Jonas finalmente regressasse do continente? Teria se deixado imergir em devires, refém da oscilação das águas, considerado a possibilidade de que talvez morresse só?
Difícil imaginar isso. Pelo que se recordava, o homem jamais deixou transparecer qualquer ressentimento, reclamação ou frustração pelo tempo que Jonas levou para retornar à ilha. Jamais o questionou sobre o período passado no continente. Ao contrário. Quando Jonas finalmente regressou dizendo ter conhecido uma garota e que esperava trazê-la em breve à ilha, o homem transformou-se na própria felicidade, provavelmente imaginando aquele lugar enchendo-se de vida outra vez. Como um dia ocorrera com o avô ante a seu próprio regresso, e com o bisavô daí para trás, com pais e filhos, gerações e gerações rumo ao passado até onde se podia conceber.
“Socorro…”
Uma voz tênue desprendeu-se do nevoeiro, a bombordo ou a estibordo, impossível dizer. Um sussurro sem forma, sem procedência.
“Aqui”, devolveu Jonas. “Eu ouvi. Estou a caminho. Não se preocupe…”
Fatiou a água suavemente, impulsionando o bote, os ouvidos atentos, a fenda negra atrás de si. Não, não era Tarsis, não era a voz dele. Sentiu um misto de resignação e alívio pela ansiedade domada.
“Diga seu nome, amigo!”, pediu Jonas. “Para que eu possa encontrá-lo.”
Alguns segundos se passaram.
“Oliver…”, respondeu a voz trêmula, enfim. “Está frio.”
Jonas maldisse a sorte. Não havia uma manta sequer em seu barco. Continuou a remar, investigando a névoa, sem sucesso.
“Tenho chá quente na ilha, Oliver… Está sozinho?”
“Estou… Estou sozinho… Como é seu nome?”
“Jonas.”
“Deus o abençoe, Jonas.”
Não devia estar longe. O som da voz era mais claro agora. Adiante, porém, a nevoa parecia mais e mais carregada, as partículas se adensando como se pretendessem criar um universo próprio, destacado da realidade, esponjoso e impenetrável.
“Estava indo ao continente, Oliver?”, indagou Jonas, muito mais para manter a conversa viva do que por autêntica curiosidade.
“Sim, meu bom homem”, respondeu ele, ainda invisível. “É o que nos resta, não é mesmo?”
O choque surdo do barco de Jonas com destroços indicou o fim da busca. Ali, agarrado a um pedaço de madeira, um homem tentava manter-se na superfície.
Jonas estendeu-lhe a mão. Oliver a agarrou com força, os dedos enregelados assemelhando-se aos de um cadáver. Jonas puxou-o para dentro do barco, despindo-se do casaco para que ele pudesse se aquecer.
“Tome, vista isso.”
Encolhendo-se no banco à retaguarda, o queixo trêmulo, batendo incontrolável, Oliver obedeceu. Por fim, disse:
“Graças ao bom Deus, você apareceu, meu filho.”
Era um tanto mais velho do que Jonas havia suposto. A barba, grisalha e farta estava ensopada. Dela se desprendiam dois fios d’água. Na face curtida pelo sol, óculos de aros redondos remanesciam firmes, protegendo-lhe os olhos cinzentos, da cor do mar. Era um rosto vagamente familiar, pensou Jonas, embora estivesse certo de que jamais o vira.
“As rochas acabaram com o seu barco…”, disse, revirando com a ponta dos remos os pedaços de madeira que ainda boiavam.
“Creio que não fui feito para as lides do mar, amigo”, respondeu Oliver, a voz ainda vacilante.
“Este mar é perigoso mesmo para quem passa a vida navegando.”
“Por sorte, você viu meu sinal, a luz da minha lanterna…”, disse Oliver por entre palavras entrecortadas, ainda encolhido. “Foi obra da providência, tenho certeza. Nem tenho como agradecer.”
“Não se incomode com isso. É o meu trabalho.”
“Muito obrigado… Muito obrigado.”
Jonas girou os braços mais uma vez, os remos rasgando a superfície.
“Em breve você estará recuperado”, disse enquanto varria o céu com os olhos, em busca do brilho lânguido do farol.
VI
Quando a primavera chegou, enfim conseguiu trazê-la para fora de casa. Sentaram-se à sombra de uma árvore.
“A dor não precisa ser perpétua”, disse Jonas, ciente de que as palavras cairiam no vazio. Como processar a perda se nem mesmo memórias existiam?
Ao menos conseguiu transformar as saídas matinais em algo corriqueiro, dia após dia, arriscando uma ou outra palavra com ela. A certa altura, sugeriu que Marina retomasse os trabalhos com a horta ou com os animais. Talvez fizesse bem a ela. A mulher, com os olhos presos no infinito, assentiu, mas ele não saberia dizer se ela o ouvia de fato. Não podia saber por onde seus pensamentos vagavam. Parecia capturada pelo deleite do pesar, presa a um labirinto sem o mínimo desejo de encontrar a saída.
Para sua surpresa, no dia seguinte, ao retornar dos trabalhos no farol, ele a encontrou agachada junto à porção de terra onde plantavam legumes e hortaliças. Marina tinha as mangas da camisa arregaçadas e as calças enlameadas. Jonas nada disse. Manteve-se à distância, observando-a enquanto ela revolvia a terra.
Talvez tivesse percebido que Lívia poderia viver para sempre dentro dela. Que a existência terrena da bebê podia ter sido breve, podia ter cumprido seu ciclo natural, os desígnios superiores, mas que nada, absolutamente nada, tiraria dela o sentimento de que a filha habitaria em seu peito até o fim dos dias. Ali, pelo menos, estaria abrigada do mal e da intranquilidade. Fariam companhia uma à outra enquanto Marina se empenhasse em tarefas rotineiras.
Dias mais tarde, enquanto varria a casa, atentou para o armário de madeira e portas envidraçadas próxima do rádio telégrafo, o local onde eram guardados os registros da ilha e do farol. Embora o móvel estivesse ali desde que ela podia se lembrar, nunca se dera ao trabalho de verificar o que de fato havia em seu interior.
Ao abrir as portas, examinou as prateleiras de cima a baixo. Assemelhavam-se a um repositório infinito de mapas, cartas náuticas, tábuas de cálculo, inventários, planilhas e anotações, centenas e centenas delas, contidas em folhas esparsas, tudo empilhado a esmo, sem ordem aparente. A maior parte continha apontamentos técnicos sobre o farol, sobre seu funcionamento, havendo também observações sobre o clima, dados geográficos, regime de marés e controles diversos. Alguns desses papéis estavam amarrados com barbantes, mas a maior parte jazia simplesmente amontoada sem qualquer referência ou padronização.
Decidiu num átimo que iria organizá-los. Sim, organizar tudo. Colocá-los em ordem para compreender o comportamento da ilha, a história do farol e de seus habitantes.
Quando disse a Jonas o que pretendia fazer, ele sorriu em resposta. Era um sorriso fabricado, porém, que disfarçava o receio de que essa tarefa não seria suficiente para resgatá-la das horas de silêncio que ainda a capturavam.
De todo modo, nos dias que se seguiram, Marina pôs-se a estudar aquela miríade de papéis. Logo percebeu que poderiam ser reunidos em volumes de acordo com os anos em que haviam sido produzidos. Agulha e linha, pensou. Dada a falta de materiais apropriados na ilha, poderia costurar as folhas, assim, de modo artesanal, protegendo-as depois com capas de couro curtido, transformando tudo em livros.
Logo, os trabalhos passaram a consumir toda sua atenção. Lia. Entendia. Separava. Empilhava. Perfurava. Laçava. Prendia. Por horas e horas. Dia a dia. Repetindo e repetindo. Agora, assim como ele, também ela tinha uma ocupação reiterada, um tanto automática, que a permitia conversar consigo mesma, elaborar pensamentos paralelos, devanear como num sonho desperto.
A cada fim de tarde, quando Jonas tornava a casa, ela o surpreendia com detalhes extraídos daqueles documentos. Não que parecesse empolgada com as descobertas. Ao contrário. A maneira como ela se manifestava era ainda lenta, a voz baixa, como quem pede licença. Mas, de qualquer forma, não deixava de ser uma manifestação que, em algum momento, acendera nela uma fagulha de interesse.
Inicialmente falava das questões administrativas, sobre como os controles de entrada e saída de material permitiam vislumbrar a evolução da estrutura do farol, dos galpões, da própria casa em que moravam. Sobre como a adoção de diferentes tecnologias tinham alterado o regime da luz.
Mas foi pelas histórias das pessoas, contidas nas entrelinhas dos registros que Marina viu-se fisgada. “Veja essa anotação aqui”, ela disse certo dia, mostrando a ele uma folha de papel contendo uma lista em que diferentes nomes. Escritos à mão, com caligrafia perfeita, via-se: Lúcio, Regina, Cícero, Helena, Marco, Simone. “São as pessoas que moravam aqui. Que estavam aqui, nesta casa, nesta ilha…”
Até então, Jonas enxergara aqueles papéis como mera burocracia, algo despido de maiores significados. A bem da verdade, nunca tinha atentado para o número de gerações que já haviam passado pela ilha. Desconhecia as vidas daquela gente. Por natural, conhecia, ou pensava conhecer, o passado de seu pai, de seu avô, de seu bisavô. Sabia, ou pensava saber, quem foram suas famílias, esposas, irmãos e o que ocorrera com eles. Mas daí para trás, devia admitir, seus antepassados não passavam de um grupo indefinido, um amontoado de gente cujas vidas ele ignorava por completo, como os nomes que Marina passou a citar noite após noite.
Pelas anotações, dizia ela, podia-se saber quem havia chegado, quem havia partido. Quem havia nascido, quem havia se acidentado, quem caíra doente, quem havia morrido. Os remédios, os fármacos, os itens de primeiros socorros, as variações do inventário indicavam tempos difíceis e outros mais amenos através dos anos. Em determinada época, alguém pensou em construir ali um cemitério, que na verdade nunca chegou a existir. Alguém teve que decidir essa questão, disse Marina, com uma nota de urgência na voz, como se precisassem, eles mesmos, encontrar a solução para aquele dilema, e não que tivesse sido algo vivenciado e decidido décadas e décadas antes.
Inevitavelmente, o ato de cerzir o passado tornava todos aqueles fatos vívidos e atuais. Desafios, vitórias e transformações se desprendiam dos velhos papéis revelando que muitas das pessoas que ali habitaram viram-se obrigadas a enfrentar situações extremas, a debelar incêndios reais e metafóricos, a lidar com o desamparo, com as perdas e com a frustração. Mas era gente que havia encontrado meios para sobreviver a tudo isso, ao arrastar das horas, à solidão, aos furacões, às intempéries, ao frio, ao calor e mesmo ao luto.
“Imortais. Essas pessoas são imortais… Estão aqui. Aqui!”, dizia ela, apontando para os volumes já prontos. “Passaram por tanta coisa… Que nem a gente…”
Eventualmente, Jonas passou a lançar seus apontamentos por inteiro nos diários, não mais como simples anotações frias, mas completas, abrangentes, incluindo impressões pessoais. Disse a Marina que graças a ela legariam às gerações futuras relatos autênticos, para que não houvesse dúvidas de que ambos tinham existido de fato, que haviam superado a dúvida, o desassossego e a dor mais pungente que alguém pode sofrer. Estava, aliás, sendo sincero, não mais escondido sob um véu de descrença ou receio.
Marina, prendendo os lábios, concordou. Sim, porque haveria gerações futuras, apesar de tudo. Juntos eles passariam por aquela tormenta porque não havia alternativa senão avançar. Superar-se. Redimir-se. Também eles seriam imortais. Os filhos dos filhos dos filhos saberiam, assim, o que eles pensavam, pelo que ansiavam e o que temiam. Que em certo momento tiveram que reunir coragem para exorcizar os próprios demônios e vencer. Que faziam parte de algo muito maior. Que a imortalidade só poderia ser atingida de forma coletiva.
Depois de muito tempo Marina parecia feliz. Feliz. Seus tímidos sorrisos por ocasião do jantar, à luz mortiça da lamparina, funcionavam como o lampejo da esperança pela qual Jonas tanto ansiara. Ainda havia períodos de quietude, especialmente quando se sentavam na varanda para ler e reler revistas ou livros antigos sob as estrelas, quando apenas o assobio do vento sobre as ondas se fazia ouvir. Mas era um silêncio diferente, compartilhado, não excludente. Ali, a ausência de palavras permitia a ele perceber o quão próximos haviam se tornado, com, ambas as solidões se protegendo e se completando. Ali viram renascer a intimidade e o bem-querer.
Marina estava grávida novamente.
Olá Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar pela coragem e disposição de apresentar seu texto nesse certame. Escrever um romance é uma tarefa bastante complexa e trabalhosa e acho que só de se exporem e se disporem dessa forma, todos os participantes já merecem uma congratulação
sobre o texto. Um operador de farol e seu filho moram em uma ilha inóspita. O texto é muito bem escrito tecnicamente. Tem um estilo muito bom. As descrições tanto do cenário quanto dos personagens é muito bonita e ambienta o leitor. Percebe-se que o escritor fez uma boa pesquisa sobre funcionamento de faróis marítimos Eu achei que o conflito principal do texto ainda não foi estabelecido. Será a tensão gerada pela ida do filho ao continente? Será alguma marca do acidente do início? O texto é bem curto, e deixa querendo mais. Poderia ter alongado um pouquinho mais nessa etapa pra incluir ja o conflito.Enfim, boa sorte. Gostei mesmo.
Desde ja peco perdao pela falta de acentos, estou digitando esta resposta no meu laptop do trabalho (com teclado em ingles). Estou viajando e ele eh o unico computador ao qual tenho acesso no momento. Alias, provavelmente voce vera alguns errros de digitacao tambem, porque o corretor esta em ingles =)
Eh um inicio e tanto. Gosto muito da sua escrita, Gustavo, mas acho que isso voce ja sabe faz algum tempo. Correndo o risco de me repetir: gosto de como voce usa a poesia com parcimonia. Nao exagera, escolhe as palavras com cuidado, chamando a atencao para trechos de forma natural, como se voce falasse “ok, preste atencao no que eu vou te dizer agora, neste paragrafo…“. Funciona bem demais.
Esta primeira parte eh um inicio fechadinho, com apenas dois personagens. Levanta perguntas, estabelece conexoes, e nos faz pensar no que vamos ver adiante: a vida de Jonas sem o filho, na ilha? Ou a vida do filho sem o pai, no continente? Que fim terao estes personagens?
Eh um inicio lento, mas nem um pouco enfadonho. Voce usa o espaco para nos introduzir os personagens e nos envolver com eles. Mas voce nao eh bobo: sabendo que o inicio seria lento, abre logo com um soco na cara. O primeiro capitulo eh tao tenso, que a mudanca de ritmo foi muito bem vinda depois.
No geral, eh um excelente inicio. Me parece o preambulo de uma obra digna dos mestres. Falta ver como voce fara o resto! Apesar de eu nao ter duvidas de que sera excelente.
Me arrisco, inclusive, a fazer chutes. Nao eh a toa que o nome do personagem principal eh Jonas e o do filho, Tarsis. Na Biblia, eh para Tarsis que Jonas tenta fugir a fim de escapar dos designios de Deus. No seu livro, Jonas fala que seu destino – seu dever – eh manter o Farol sempre aceso. Sempre. Sera que, nas proximas partes, ele sera obrigado a abandonar o farol, para resgatar o filho? Sera que ele se vera obrigado a ir na direcao de Tarsis e para longe dos designios de Deus?
Sera que vai ser engolido por uma baleia? =)
Tambem queria anotar aqui o paralelo com o livro A Estrada, de McCarthy. Talvez seja por que eu tenha acabado de termina-lo, mas ainda assim, os paralelos sao muito fortes. Nao vejo como uma imitacao ou mesmo uma forma de fazer um espelho da trama do livro americano; apenas vejo como uma especie de ode ao grande mestre. Aqui, pai e filho tambem estao sozinhos, um “o mundo inteiro do outro”. O pai tenta mostrar o mundo para o filho, e para isso quase se sacrifica, logo no inicio. Jonas tem vislumbres da mulher que se foi, uma memoria na forma de uma voz fantasmagorica – e aqui, ela tambem se matou (aparentemente). Os opostos tambem parecem propositais: contrapontos para enfatizar a referencia. Enquanto em A Estrada, pai e filho devem continuar andando sempre em frente, aqui eles estao destinados a voltarem ao mesmo lugar, e permanecerem, geracao apos geracao. Enquanto em A Estrada a mulher se mata por desespero, aqui ela se mata por tedio. Alem de tudo isto, eh claro, em A Estrada pai e filho carregam “A Chama” consigo. No seu livro, Jonas “propaga a luz”, e ve nisso um fim maior do que ele proprio. Gostei das referencias por que fizeram da leitura uma experiencia mais familiar. Senti-me retornando a um amigo que nao plenajeva ver tao cedo.
Por fim, tambem queria elogiar a forma do texto, especialmente no uso das repeticoes. No primeiro capitulo, as repeticoes vem na forma das ondas, e emprestam a narrativa a visao e a sensacao do mar:
“Afastaram-se um tanto, o suficiente para que a ondulação ganhasse força, o barco subindo e descendo, subindo e descendo enquanto avançava.”
“Não, não, não… Segure. Erga, gire, corte, puxe. De novo. De novo.”
“Estavam salvos. Salvos“
O texto vai e vem, junto com as ondas, e a imagem segue fluida, belissima.
A partir do segundo capitulo, porem, a repeticao vem na visao do inferno. A melancolia que eh a tortura infinita de Sisifo. A tentativa de buscar nesta vida pacata um significado. Muitissimo interessante.
To doido pra ler o resto!
———————–
Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pelo Autor.
———————–
A análise do texto “Silêncio”, de Gustavo Araujo, revela uma narrativa densa que utiliza a atmosfera de isolamento para explorar as profundezas da psique humana. Como primeira parte de um romance, o texto estabelece com firmeza o que Luiz Antônio de Assis Brasil chama de “personagem como irradiador da narrativa”, onde a interioridade de Jonas dita o ritmo e o peso de cada palavra.
Resumo e Ambientação: O Farol como Universo Singular
A história se passa em um farol isolado, onde Jonas exerce o ofício herdado de seus ancestrais: manter a chama acesa e os espelhos polidos. A narrativa alterna entre o presente meticuloso e burocrático de Jonas e uma recordação traumática de um naufrágio em que ele tentou salvar seu filho, Tarsis. O ambiente é marcado pelo som do vento, o cheiro de éter e a estática do rádio, criando um cenário de espera perpétua. O conflito central, embora inicialmente pareça ser a manutenção do farol, revela-se como o enfrentamento do luto ou da ausência de Tarsis, cuja presença no final do texto é questionada pela própria solidão de Jonas: “Onde está você, meu filho… Por que não volta?”.
Conexão com o Leitor e Valores Universais
O texto conecta-se com o leitor através de valores universais como a paternidade, o luto e a busca por sentido na rotina. A dor de um pai diante do perigo iminente do filho no mar é uma imagem poderosa que evoca empatia imediata. Além disso, a obra explora a “questão essencial” do ser humano: a necessidade de ordem contra o caos. Como observa Harold Bloom, lemos para encontrar uma alteridade que reflita nossa própria solidão e para nos encontrarmos de modo mais intenso. O leitor se vê em Jonas não apenas pelo seu trabalho, mas pela sua necessidade de esperar algo que dê sentido ao seu isolamento.
Aspectos Psicológicos e Filosóficos: O Nada e a Melancolia
Sob a ótica de Kierkegaard, Jonas parece viver o que o filósofo descreve como o “espírito que está sonhando no homem”, onde a inocência é um nada que gera angústia. A melancolia de Jonas não é apenas tristeza, mas uma “reação objetivamente adequada a um ambiente opressor e desumanizante”, onde o silêncio se torna seu único confidente.
O texto evoca o existencialismo, onde as coisas só ganham vida pela presença humana; como Françoise na obra de Simone de Beauvoir, Jonas tem o poder de “arrancar as coisas do estado de inconsciência” através de seu ritual diário de polimento e registro. A rotina de Jonas funciona como a “jaula” mencionada por Elena Ferrante: ele habita as formas repetitivas para tentar evitar que a verdade — a possível perda do filho — desague em uma “escrita convulsa” ou em um colapso mental.
Aspectos Técnico-Literários: Construção e Linguagem
Afinidades Literárias: De Shakespeare a Melville
O texto demonstra afinidades claras com clássicos:
Qualidades e Defeitos: Uma Análise Franca
A grande qualidade do texto reside na sua capacidade atmosférica e no controle do ritmo. O autor evita o clichê do diálogo explicativo, preferindo mostrar o caráter de Jonas através do “esforço repetitivo e hipnótico” de seu trabalho. A descrição dos equipamentos do farol como um “capricho religioso” confere dignidade ao personagem.
Como defeito, ou ponto de atenção, a narrativa corre o risco de cair no que William Zinsser chama de “escrita cansativa” se as descrições burocráticas dos diários se tornarem longas demais sem um avanço claro no conflito psicológico. Embora o “silêncio” seja o tema, o autor deve cuidar para que o leitor não se sinta “perdido em meio a um vácuo”, como um pássaro num galho frágil prestes a dormir. A ambiguidade final é um trunfo, mas se prolongada excessivamente nas próximas partes, pode frustrar o leitor que busca uma “certeza” em meio ao “abismo de pensamento” citado por Byron na epígrafe.
Em suma, “Silêncio” é uma abertura de romance inteligente e tecnicamente precisa. Ele estabelece um mundo onde o silêncio não é apenas ausência de som, mas um antagonista ativo que Jonas tenta, desesperadamente, preencher com o rastro trêmulo de seu lápis no papel.
Li recentemente o livro É a Ales do Jon Fosse e a leitura de seu texto me rememorou a atmosfera desse livro. Há em comum entre seu texto e o do Fosse a solidão, a ambiência marítima, o tempo meio circular, a relação entre os personagens repleta de silêncio. Mas no seu texto há muitas descrições, aliás muito boas, o que o distancia do Fosse e o aproxima ao melhor do romantismo, inclusive pela ambiência.
Não sei o que dizer do seu texto. Terminei querendo reler. O primeiro capítulo me impactou pela qualidade da descrição, do ambiente, da ação e da comoção dos personagens.
Daí em diante me vi hipnotizada pela rotina de Jonas, ouvi ecos do Filho de Mil Homens do Walter Hugo Mãe, o Farol, quase um personagem. As descrições muito vividas, imenso mérito, me senti na ilha, no farol, na casa.
Por enquanto, apenas o prazer de ler um texto muito diferente de todos os outros nesse desafio. E uma imensa curiosidade em saber para onde você vai nos levar com essa sua história.
Olá, Gustavo, tudo bem?
Resolvi comentar o seu texto por pura curiosidade associada ao interesse de que você também leia o meu projeto de romance.
Antes de mais nada, gosto imenso de faróis, um misto de mistério e romantismo. Um farol abarca tantos símbolos, tantos significados sob camadas e camadas de interpretações. Há o lado histórico, a solidão do faroleiro, muitos ângulos para serem abordados em pinturas, músicas, filmes e textos literários.
E o título? Nada mais misterioso do que o silêncio. Já passa a ideia de solidão (enfatizada pela imagem escolhida e “um barco” como parágrafo isolado. A ausência de sons também remete a um ralentar do tempo. [Estou comentando ao mesmo tempo que estou lendo, parágrafo por parágrafo. Vamos ver o que vai sair disso, então já peço desculpas pelo comentário caótico. ]
O romance já começa com boas descrições do ambiente, fruto certamente das suas observações em viagens inesquecíveis.
A reunião de pássaros foi algo que me tocou, pois me lembrei de encontrar, ao caminhar na praia, bem cedo, várias gaivotas agrupadas como se estivessem se preparando para uma grande aventura. Uma cena linda e, ao mesmo tempo, perturbadora.
A citação de seres mitológicos fortalece a atmosfera de mistério.
Há um homem e um menino. Serão pai e filho? Avô e neto? Saíram para pescar dentro da baía, até que nuvens pesadas surgissem, anunciando tempestade. A sequência da luta para chegar à praia foi bem narrada, transmitindo o clima de tensão. O desespero do homem é quase palpável, o tom crescente na urgência dos sentidos aguçados: tato, paladar, visão, audição.
“Estavam salvos. Salvos.” Que alívio me deu ler essas duas pequenas frases. Pelo menos, até então, a criancinha foi poupada.
No segundo capítulo, descobrimos a identidade do homem: Jonas. Mais adiante, temos a caracterização do personagem, não é jovem. O responsável pelo farol, lutando contra os efeitos corrosivos do sal. Aqui em Santos, sabemos bem como a maresia provoca ferrugem em tudo.
E também temos a descrição do farol, que deve contar como personagem, creio. Muitos detalhes, tanto da construção como da manutenção necessária para preservar sua funcionalidade. Imagino quão vasta deva ter sido a pesquisa sobre o assunto. Virou especialista em faróis?
Também ficamos sabendo que cuidar do farol é uma atividade herdada de pai para filho, em gerações sucessivas.
“Tudo para que ninguém navegasse só, para que fosse possível encontrar o caminho para o continente. Para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. Fosse num mundo como aquele, fosse num mundo despedaçado.” > Lindo esse parágrafo. Fiquei com a impressão de que anuncia alguma revelação. O menino era o filho dele e se perdeu?
No terceiro capítulo, o “fantasma” aparece, uma voz que Jonas escuta chamar seu nome, produzida pelo vento. Agora é a habitação do faroleiro que recebe descrição minuciosa, dá para imaginar com detalhes a casa.
Jonas mantém um diário, onde anota o que considera importante. Por falta de outros registros, só pode imaginar como viviam os que o precederam naquela função.
O parágrafo com a repetição de “talvez” ficou ótimo. Traz todo o drama existente em tantas vidas, como hipóteses, como suposições. Vidas de heróis, de gente que viveu ali naquele mesmo ambiente, lidando com tantos desafios.
Tarsis é o nome do filho, que tem olhos grandes, iguais aos da mãe. O diálogo é verossímil, mas me pergunto se o personagem é real ou apenas fruto da imaginação ou memória de Jonas. A conversa prossegue com naturalidade e a idade de Tarsis é revelada: dezoito anos. Ele está de partida para o continente, onde deve estudar, casar, ter filhos para, depois, retornar. Jonas afirma ser essa a sina da família, se afastar e depois voltar para encher de alegria o farol. Portanto, concluo que Tarsis, filho de Jonas, está vivo e na plenitude dos seus 18 anos.
Quanto à escolha dos nomes, encontrei significados interessantes, pesquisando na internet (além das fontes da minha cabeça). O nome Jonas significa “pomba” em hebraico. Segundo a Bíblia Hebraica, Jonas foi um profeta convocado por Deus para viajar até Nínive e alertar a todos sobre a vinda do castigo divino devido aos inúmeros pecados do povo. Jonas se recusou a ir até Nínive, pois acreditava que a punição era merecida e pensava em suas próprias necessidades. Ao invés disso, partiu para em um navio com destino a Tarsis (o nome do filho). Surpreendido em uma tempestade (o que me fez pensar no primeiro capítulo), acaba sendo engolido por um peixe gigante (o farol, ou a sua solidão?). Três dias depois, Jonas concorda em ir a Nínive, e então o peixe (seria uma baleia? Seria a misericórdia divina?) o devolve à praia. Diante do perigo, Jonas se arrepende de ter partido do farol, tenta salvar o filho, lutando consigo, ele consegue voltar à praia. Aconteça o que acontecer, Jonas sempre volta ao farol. Társis é um termo que se refere uma região costeira mencionada na Bíblia, associada à famosa história bíblica por ser o destino para onde o profeta Jonas tentou fugir. Tarsis seria o refúgio de Jonas? Quem ele tem como direção para tentar fugir da solidão? (Fui muito longe no emaranhado da simbologia dos nomes?)
O romance em desenvolvimento está muito bem escrito, revelando estilo próprio do autor, que sabe mesclar técnica, detalhes de pesquisa, a uma densidade sentimental que sempre me fisga como leitora.
Confesso que ao iniciar essa leitura pensei que encontraria algo mais fundado em descrições técnicas, ou um texto filosófico sobre a solidão do ser humano. Felizmente me enganei de forma brutal. A leitura se revelou muito mais fluida do que imaginei. Ponto para o autor.
Talvez por estar tão envolvida pela trama, eu tenha deixado escapar falhas de revisão. Apenas percebi dois pontos que podem ser melhorados:
No mais, nada tenho a acrescentar, a não ser que agora me sinto impelida (obrigada pela curiosidade) a ler o restante da sua obra.
Continue com o bom trabalho!
Oi, Claudia! Muito obrigado pela leitura e pelo comentário. Sensacional a pesquisa que você fez a respeito dos nomes. Confesso que para escolher fui muito mais prosaico. Jonas é nome do cara da Bíblia, aquele que segundo a tradição foi engolido por um grande peixe (uma baleia?); já Tarsis foi da minha cabeça mesmo, nem pensei na relação entre esse nome e o nome de Jonas. De repente, é alguma espécie de eco da minha infância, quando eu li um livrinho de histórias bíblicas com o drana de Jonas… Enfim, coincidências do bem, né? Valeu, minha amiga. Obrigado mesmo pelos apontamentos!
Gustavo apresenta um texto irrepreensível, denso e melancólico em Silêncio. Na ilhota a solidão é hereditária. O farol é o propósito. O tempo passa, as rotinas permanecem. A família acaba sendo a âncora, que fulmina o sonho de morar no continente. Pai e filho…a segurança falsa é iluminada pela tempestade. Os registros são técnicos e impessoais. Nas entrelinhas, os personagens imaginam as histórias que ali foram vividas, enquanto se mantinha, destruía, e reconstruía-se o farol. A introdução deixa uma ampla gama de histórias possíveis , girando, quem sabe 360o.
Obrigado pela leitura e pelo comentário, Cyro.
CRÍTICA APÓS LEITURA DOS CAPÍTULOS I AO III
Você não sabe como me alegra essa sua abertura raiz, do Gustavo do Velho Testamento, tratando a poética de modo mais PUNGENTE! Gostei muito dos parágrafos curtos e do ritmo quase onírico, com pitadas de maresia e sol quentinho de beira-mar. A prosa já chega com uma segurança e uma qualidade imagética que sentia saudade de ver na sua escrita.
A sequência da tempestade no capítulo I é a cereja do bolo dessa etapa. A progressão do perigo é construída com uma precisão quase musical: o ritmo da frase vai encurtando à medida que o mar encoleriza, os períodos longos e contemplativos da chegada à praia cedem lugar a fragmentos, a imperativos, ao mantra do remo que se repete e se desfaz. “Ergue, gira, corta, puxa.” Isso não é só também questão de resgate de um estilo (Uso resgate aqui, mas não é bem resgate, né?), é o texto mimetizando a exaustão e o desespero do personagem no próprio ato da leitura. Quando o menino cai do barco e Jonas mergulha, a voz narrativa quase colapsa junto com ele. Bravo!
O capítulo II é mais lento e mais expositivo, mas sustenta bem o peso do que veio antes. A descrição do farol tem uma qualidade enciclopédica que em outras mãos seria fria, mas aqui funciona porque Jonas não está apenas descrevendo uma estrutura, está descrevendo um legado, uma herança, um fardo. O trecho dos prismas e do polimento é quase meditativo, e a frase “para que ninguém navegue só” chega com a força de um verso, não de uma explicação. Poética na medida certa.
O capítulo III, com o encontro entre Jonas e Tarsis, é onde o romance mostra seu coração. A conversa sobre partir e voltar, sobre dever e sina, sobre o que poderia ter sido, tem uma contenção emocional muito difícil de alcançar. O peso da cena pousa nos silêncios, nas repetições, no vento que assobia entre as pedras enquanto os dois ficam sem palavras. A última imagem, com Tarsis lendo em voz alta enquanto o pai fecha os olhos, é belíssima. Você sabe que sou fã de repetições e aqui o artifício está dosado corretamente.
A prosa é rica, elaborada, cheia de camadas, e isso é um mérito inegável. Há momentos em que a acumulação de imagens e qualificativos torna a leitura um pouco opressiva, como se o texto não confiasse inteiramente no leitor para completar o que está sendo sugerido, acho que isso pode ser um risco para alguns leitores. O parágrafo sobre os ancestrais que ergueram e reconstruíram o farol, com suas mortes e desaparecimentos, é um exemplo: cada um desses elementos dramáticos merecia respiro, espaço para ser sentido, e ao chegarem todos juntos numa mesma enumeração acabam se anulando um pouco. Às vezes a contenção serve à prosa mais do que a abundância. Mas, como estamos falando de um romance, eu gostaria é de ver mais palavras, mais espaço para desenvolver esses elementos. Eles são importantíssimos pra atmosfera da históra!!!
Falando em atmosfera, Jonas ainda é mais atmosfera do que personagem. Sabemos o que ele faz, sabemos o que pensa sobre o farol e sobre o legado, mas ainda não sei o que o fere especificamente, o que ele desejou e não teve, o que carrega de forma particular além da sina coletiva da família. A conversa com Tarsis abre essa possibilidade quando ele admite que pensou em ficar no continente, que ainda pensa. Esse é o momento em que Jonas mais me interessou como pessoa, e foi o mais rápido do texto. Faz falta expandir essa fissura.
A identidade do menino do capítulo I também me deixou com uma pulga atrás da orelha. Presumi ser Tarsis, mas o texto não confirma. Se for uma ambiguidade intencional, funciona muito bem. Se for uma lacuna, vale fechar.
Por fim, e isso é mais uma curiosidade do que uma crítica: o texto carrega uma dimensão quase alegórica que ainda não sei onde vai parar. O farol como propósito herdado, a sina de voltar, as gerações se repetindo, a espera como condição existencial. Há algo de Beckett nisso, algo de Garcia Márquez, algo de Saramago. Alegorias exigem que o concreto seja sempre mais forte do que o simbólico, senão o texto vira parábola, e parábola fecha o leitor em vez de abri-lo. Por ora o equilíbrio está bom.
Aguardo pela próxima etapa e lamento que você tenha escrito tão pouco… Que venha mais. Vamos expandir isso aí, vamos dar mais camadas, vamos tratar o passado com mais palavras!
Parabéns, Gustavo!
Salve, André. Muito obrigado pelo comentário. Você sabe que sua opinião é importante para mim, até pela identidade de estilos que nos une. Creio que por isso você conseguiu captar a essência do texto, a atmosfera onírica que permeia esse início do romance.
Como se trata do primeiro contato do leitor com a história de Jonas, preferi adotar essa postura, sem revelar demais, preferindo me aferrar ao trauma e à rotina ao mesmo tempo opressiva e segura que prende Jonas ao farol, que o faz suportar a carga de um legado e ansiar pela presença do filho. Daí o acúmulo de repetições, como você bem percebeu. Daí a incerteza de quem é quem no primeiro capítulo – algo deliberado que, espero, ajude a prender o leitor nas fases que se seguirão — o que dialoga diretamente com a epígrafe do Byron. Daí, enfim, as lacunas que você notou, que dependem um tanto do leitor para serem preenchidas.
Mais uma vez te agradeço pelas impressões. Você é como um leitor ideal para mim. Espero retribuir a análise em breve. Valeu!!
Gustavo,
Como mínima retribuição ao seu comentário tão generoso sobre o que venho escrevendo, deixo aqui algumas impressões sobre seu romance em andamento.
Li o primeiro capítulo e fui passear com os cachorros. Não porque o que li tenha me aborrecido, pelo contrário. Quis, apenas, experimentar a expectativa que a leitura de uma cena tão precisamente recortada me causava. Ventilei hipóteses de continuação e achei que você ia, a partir do capítulo 2, retomar a narrativa a partir de onde ela tinha parado. Mas você escolheu a elipse, o que destaca seu texto entre tudo o que li até agora no Entre Romances. Os colegas, de modo geral, optam pela continuidade, ou, se há corte entre capítulos ou cenas, procuram estabelecer o nexo entre uma coisa e outra. Você esquiva esse vínculo deliberadamente, o que acho muito interessante, pois convida quem lê a completar a relação entre a cena da tempestade e a que ocorre anos depois.
Nesse sentido, fico pensando se o primeiro parágrafo do capítulo 2 não estaria enfraquecendo esse efeito de corte. O conteúdo do parágrafo é muito importante, mas entendo que ele deveria vir depois, talvez muito depois. Assim como está, você antecipa em forma de enunciado o “decantamento” da experiência traumática antes que a gente possa ver, em cena, o homem que Jonas se tornou. Faz sentido pra você?
Por alguns momentos fiquei pouco à vontade com o estilo dos diálogos e do registro escolhido. Há certa formalidade solene que não consigo identificar com um lugar real no mundo. Mas isso está parcialmente justificado pelo fato de que o farol está um pouco fora do mundo: “O farol nada mais era do que um universo singular, eterno, imutável”. É uma escolha válida, mas para sustentá-la é preciso fazer ênfase contínua nessa singularidade. Nisso entram não apenas os detalhes realistas da ilha e do farol, já muito bem colocados, mas também as condições que fazem com que nesse espaço as coisas ocorram de modo diferenciado em relação ao mundo, como em um tempo paralelo. Dito de outro modo: para que a linguagem formal e solene se sustente, acho que o farol tem que ser constantemente caracterizado em um tempo fora do tempo do mundo.
“E ele diz que se chama Jonas
E ele diz que é um santo homem
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
E ele diz que está comprometido
E ele diz que assinou papel
Que vai mantê-lo preso na baleia
Até o fim da vida
Até o fim da vida
Até subir pro céu”
Lembra dessa? Impossível não associar o nome do seu personagem à famosa história da baleia. O farol seria análogo à baleia? Algo para Jonas se insinua entre o compromisso e a prisão. Suspeito que uma das linhas de desenvolvimento do romance será acerca do dilema entre dar continuidade à tradição familiar ou não. Por que se comprometer com esse papel de guardião? Qual é o preço que se paga por essa integridade moral? E qual é o preço que se paga por rebelar-se contra isso, eventualmente?
O ritmo, as repetições, isso tudo está bem administrado e acentua o desenvolvimento das ações sem mão pesada. Às vezes as repetições tangenciam a monotonia, o que para mim não é um problema ,afinal deve ser tedioso viver num farol: a forma espelha, assim, o conteúdo. Entendo que, em outra escala formal, essa monotonia fará mais sentido se aliada a uma narrativa predominantemente de “baixa temperatura”. Quero dizer que minha expectativa em relação a esse romance é de não ser a todo tempo surpreendido por acontecimentos relevantes. Eu apostaria no tédio, na repetição dos gestos e cenas, na rotina. E, de repente, algo acontece, por meio do corte (como você já fez, por sinal).
Gostei muito do final do trecho apresentado, pois você, elegantemente, não recorre a ganchos, senão que narra abrindo mão justamente da categoria gramatical que define as ações (os verbos). Isso é muito valioso, caracteriza bem seu estilo e guarda uma afinidade com a estratégia de mostrar e cortar.
Bom, comentários talvez um pouco abstratos, os meus… Mas é isso, gostei da leitura e espero acompanhar os desenvolvimentos.
Olá, Martim, obrigado pela leitura atenta. É por esse tipo de interação que eu ansiava desde que o E-Romances tomou forma: trocar impressões, perceber como o leitor recebe o texto e, em função disso, ajustar (ou não) a história.
Seu comentário é excelente, ainda que eu não concorde plenamente com tudo o que você disse. É que ele me permite entender como funciona o raciocínio do bom leitor, digo, do leitor atento, daquele que mergulha na história aos poucos.
Pelo que noto, você absorveu a história do jeito que eu esperava, com um misto de dúvida desejo por saber o que vem a seguir. Mais do que isso, percebeu a atmosfera onírica que toma conta dos parágrafos, como uma bruma a disfarçar as intenções deste autor. De fato, não quero dar ao leitor informações demais. Não quero dar certeza de nada (aliás, repare que é sobre isso que trata a epígrafe do Byron). E pelo jeito isso está dando certo haha A bem da verdade, eu mesmo não tenho tudo traçado ainda. O final está bem nítido na minha mente, mas confesso que ainda estou trabalhando no caminho para chegar até lá.
A Kelly sacou bem as dualidades do texto: a cena inicial, por exemplo, é inicial mesmo ou é algo que já aconteceu? Quem é o menino que quase se afoga? É Jonas? É Tarsis? Mas esse “quase se afoga” é quase mesmo? Jonas é o Jonas da baleia? Será? E a cena que Tarsis aparece à noite? É de verdade ou é um sonho? Já aconteceu ou vai acontecer? Talvez isso explique por que o primeiro parágrafo do capítulo II está ali. Ou talvez não explique haha Talvez explique a linguagem formal do diálogo. Ou talvez não.
Enfim, a ideia é conferir ao leitor um mínimo de coerência mas pouca certeza. Uma linha tênue que seja, para prendê-lo à história, mas muitas dúvidas sobre o restante, para que ele monte sua própria versão antes que eu apresente a minha. No seu caso, não quero que vc tenha certeza de que o farol está fora do tempo. Quero que vc desconfie disso, até me critique por alguma falta de coerência a esse respeito. Lá no fim, quando tudo estiver mais nítido, quando a luz varrer a bruma, talvez você diga: “ah… então era isso! Genial!” Ou talvez vc diga: “ah, então era isso. Que merda!” hahaha Em todo caso, o texto terá gerado uma reação e no fim é isso o que vale.
O que quero é libertar uma história sobre assuntos que me perturbam: solidão, tempo e memória. E quero fazer isso de modo lento, contemplativo, como deve ser a vida numa ilha solitária, quem sabe (como vc diz) perdida no tempo e no espaço. Sem recorrer a sangue na parede a todo momento. Talvez um dia minhas filhas leiam. Hoje elas são pouco mais do que crianças. Se eu atingir esse pequeno público de duas pessoas mega exigentes já me dou por satisfeito haha
Mais uma vez te agradeço pelo tempo despendido com esse pequeno texto.
Olá, Gustavo! Tudo bem?
Voltei pra ler mais um pouco!
“Eu bem me lembro bem quando foi comigo, quando saí…” tá sobrando um bem aí, não tá?
Terminei de ler tudo, e gostei bastante desse seu começo de romance. Já dá pra notar que será algo bem introspectivo, denso, uma rotina repetida, anseios, desejos, sonhos, lembranças. Gostei muito da parte dos diários, de como o protagonista imaginava a vida pessoal dos antepassados enquanto lia a burocracia. O ar misterioso e meio sombrio me fez pensar se aquele filho existia mesmo, ou se era um fantasma, uma lembrança. O farol me pareceu quase mágico, atraindo as pessoas sempre de volta para ele, quase como se não tivessem escolha. O ritual apresentado da saída do jovem para estudar, casar, ter filhos e voltar enchendo de vida o farol soa quase como uma seita.
A escrita está muito boa, como sempre, gostosa de acompanhar e ao mesmo tempo que instiga bastante a imaginação. O texto tem um tom melancólico, enevoado, meio onírico, que me agrada bastante, deixando em dúvida se aconteceu mesmo tudo o que foi narrado, ou se são apenas lembranças, fantasmas e almas penadas, destinadas a vagar pela ilha e cuidar do farol.
Enfim, gostei bastante!
Parabéns pela iniciativa!
Até a próxima etapa!
Silêncio | Autor(a): [Gustavo Araujo]
Fase de Leitura: [Ex: Capítulos I a III / Primeiro Arco]
Datas: 07 e 08/05
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
“Silêncio” nos apresenta uma história densa, dinâmica, detalhista e com uma proposta ousada diante dos tempos automatizados atuais. Em determinada medida, me lembrou o romance alegórico do Saramago, “O Conto da Ilha Desconhecida”, embora me pareçam duas premissas diferentes.
O conto está muito bem escrito, com trechos que se aproximam da poesia.
Ainda há espaço para lapidação, embora pareça uma obra pronta.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Esse é um texto que dispensa assinaturas. O trecho inicial do romance “Silêncio” nos apresenta uma proposta de narrativa avessa à contemporaneidade: denso, lento, detalhista, bucólico e extremamente intimista.
A leitura desse trecho (e do romance) evidencia que a narrativa irá se desenvolver de um jeito avesso ao tempo que vivemos; quem espera ler e compreender enquanto espera impaciente ser atendido numa fila de hospital ou banco ou deitado no sofá, prestando atenção no celular, na TV que está ligada ou qualquer outra distração, se frustrará.
Esse é um dos grandes traços da escrita do Gustavo no qual posso pensar que identifiquei. Remetendo aos literatos do período anterior ao de Byron, entre o Barroco e o Arcadismo, “Silêncio” nos entrega a expectativa de retornar a um tempo anterior, bucólico, para discutir questões existencialistas e universais através de uma história que promete emoção.
O universo dos faroleiros é pouco conhecido. Ainda assim, com a descrição precisa dos detalhes, você conseguiu transformar alguns momentos em cenas de filmes. Em especial, a digressão que encerra o primeiro capítulo, a descrição da rotina do faroleiro, Muito bom!
O que eu ajustaria: diálogo de Jonas e Tarsis.
Bom, vou copiar e colar um trecho acima para retomar minhas impressões. (…) uma proposta de narrativa avessa à contemporaneidade: denso, lento, detalhista, bucólico e extremamente intimista.
Foi uma leitura que me forçou a parar e refletir. Em tempos que vivemos tão apressados e automatizados, numa tentativa de acompanhar a velocidade da tecnologia, esse trecho (e provavelmente o romance inteiro) será um solovanco necessário para frear, ler, interpretr e refletir.
Já por esse exercício mental de frear a ansiedade, pelo menos para mim, vale a pena continuar a leitura. Levando em conta a qualidade de escrita e a quantidade de veredas pelas quais essa história pode seguir, creio que nesse primeiro momento encontro-me cativado!
Oi, Givago. Muito obrigado pelo comentário, pelo tempo que você dedicou ao texto. Você não tá errado ao sacar que se trata de um contraponto ao universo literário atual, dominado pela fórmula da aceleração. Pensei de fato em algo mais contemplativo, mais lento, mais próximo das questões existencialistas que nos acometem insidiosamente. Tenho na manga algumas ideias sobre o que vem a seguir, mas ainda tô matutando… Vamos ver como outros leitores recebem a história. Valeu mesmo pelas impressões.
Por nada, Gustavo! Espero que eu tenha contribuído de alguma forma
Olá, Gustavo! Tudo bem?
Começamos com um trecho de um poema de Byron, que já dá uma ideia de que o autor pretende tratar da natureza, do pensamento humano e da boa filosofia. Alta expectativa aqui.
I
Primeiro parágrafo: Curto e direto, já mostra que o livro será também sobre memórias, sobre o mar, sobre um barco. Direto, mas poético.
“a lembrança de que as águas guardam o perigo e o abismo na mesma medida em que espelham o céu.” Ótima frase!
“Desanuviou a mente quando avistou o bote a uma centena de metros abaixo, balançando sobre a linha d’água, preso a uma corda. Pelo que se recordava, tinha a deixado sob as árvores ali próximas, em terreno seco. Possivelmente as marés a sequestraram numa noite de ressaca qualquer, lançando-a às águas.” Aqui está falando do bote, não? Então o certo não seria tinha o deixado… as marés o sequestraram…? Pode estar se referindo a corda, mas pra mim não faz sentido nenhum não ser o bote. E esse “sob as árvores” ficou estranho, como se fosse debaixo das raízes.
“Seria pedir demais que fossem surpreendidos por algo fantástico naquela manhã?” Pelo título, poema e primeiro parágrafo, meu chute é que vai acontecer alguma coisa ruim com o menino e o homem, provavelmente seu pai, vai remoer e tentar entender, conviver com isso no restante do livro.
“Estavam salvos. Salvos” A cena anterior a essa frase é ótima! Muito tensa, muito instigante, li prendendo o ar de nervoso. Muito bom! Lembrei desse conto… se não me engano foi o que você mandou para o desafio começo, meio e fim, não foi? Curiosa pra ver o que pretendia com ele!
Primeira parte muito boa, ambientação está ótima, sentimos todo o clima marinho e náutico sem sermos atulhados de expressões específicas. O clima de mistério, de que alguma coisa ruim vai acontecer foi bem elaborado também.
II
“Era o único local de toda a ilha em que se deixava encantar pela miragem de haver ali uma multidão, todos engajados no esforço repetitivo e hipnótico de manter o farol funcionando.” Que lindo isso!
“deixando a mente derivar” achei bem interessante esse “derivar”… entendi o que quis dizer, e achei legal usar essa palavra, mas soou estranho, como se estivesse errado, mesmo não estando.
Essa segunda parte teve mais introspecção, meditação e manutenção. Foi relativamente fácil visualizar o que o protagonista estava fazendo, mesmo sem ter noção alguma sobre faróis, graças à técnica do autor. Gostei do ritmo, do tom e da escrita até agora. Mesmo não sabendo exatamente o que vai acontecer, nem sobre o que será o romance, a leitura segue tão boa que leria facilmente o romance inteiro sem me importar com o conteúdo.
Por enquanto é isso, logo volto para ler mais.
Parabéns por encarar esse desafio!
Até mais!
Valeu pela leitura atenta, Priscila. Fico feliz que vc tenha gostado, ao menos até o trecho lido. Vou considerar as mudanças que você sugeriu na parte em que eles visualizam o barco para que não haja dúvidas. Dificilmente as cenas que imaginamos na nossa cabeça se reproduzem de modo idêntico na cabeça de quem lê. Por isso é interessante essa construção conjunta como estamos fazendo aqui.
Fiquei ainda mais contente quando vc disse que o conteúdo acaba sendo irrelevante na sua leitura. Sinal de que a prosa está bem ajustada. Mas não se engane: em breve a realidade do Jonas será remexida kk
Brigadão mais uma vez!
Oi Gustavo.
A história abre com um momento dramático. Um homem e um menino saem para pescar e são surpreendidos por uma tempestade. O menino cai do barco, por pouco não se afoga, mas o homem consegue salvá-lo.
Em seguida, somos apresentados a Jonas, que é o faroleiro. Ele conta de sua rotina, seus muitos afazeres, rotineiros, repetitivos e, ao mesmo tempo, vitais para sua segurança e para o bom funcionamento do farol. Sua solidão e o silêncio são palpáveis.
Sente-se, também, o peso da idade se intensificando.
Uma de suas atividades é fazer registros no diário do farol. Há centenas de livros, escritos pelos outros, que vieram antes dele. Tudo é registrado. Informações sobre a casa, o farol, os equipamentos, os animais. Mas nada sobre as pessoas que cuidaram de tudo isso ao longo do tempo. Sobre estes, Jonas apenas colhe informações nas reticências.
Fiquei pensando que esses homens que por anos a fio cuidam do farol são como uma única entidade.
Quando Jonas dorme, aparece Tarsis. É possível imaginar que Tarsis seja o filho, que saiu para pescar e volta agora. Mas penso que se trata de um sonho ou alucinação. Pareceu-me bem claro que Jonas era um homem solitário, que em dado momento questiona a demora de seu filho, como se fosse um evento de muito tempo antes. Jonas também reflete sobre a importância de proteger o farol, para que os necessitados encontrassem o caminho do continente e para que nenhuma outra pessoa viesse a chorar. O que insinua que ele tenha sofrido uma grande perda.
Será que Tarsis morreu ou só não mandou mais notícias após ir ao continente? De que forma o capítulo inicial se relaciona com Jonas? Será ele o menino que caiu no mar ou o homem que por pouco conseguiu salvar o filho?
Esta parte um foi excelente. Cumpriu seu papel de apresentar os personagens e nos deixar curiosos a respeito deles e de seus destinos.
Engraçado que este é o segundo texto que leio no desafio e o segundo a tratar da solidão. Aqui, na sua história, a solidão é bem mais física, tangível. Jonas está mesmo sozinho em uma ilha, cuidando de um farol. Porém, ele não parece sofrer com a solidão, e sim com a saudade ou a falta de alguém específico.
O ambiente é opressivo. A opressão, no caso, não parte do outro, mas sim da casa, do farol, todos a cobrarem de Jonas ações repetitivas, uma máquina-homem a atender outras máquinas. Ele está imerso na natureza, uma ilha, o mar selvagem. E ele, segue agindo como máquina. Será que em algum momento, ele voltará à natureza selvagem?
O clima da história é melancólico, mas há, muito bem desenhado, perto da superfície, uma sensação clara de perigo.
Achei esse começo muito promissor. Deu vontade de ler o resto da história.
Oi, Kelly! Muito obrigado pelo comentário. Fiquei feliz quando vi que meu texto estava na sua lista de leitura. A intenção foi justamente essa: apresentar o cenário, os personagens (pelo menos alguns deles), a atmosfera, tudo para gerar no leitor um tantinho de curiosidade sobre o que vem a seguir. Legal que você captou a atmosfera onírica e de dúvida que permeia o texto — algo que não por acaso reflete a epígrafe do Lord Byron.
Acredito que a escolha pela solidão como pano de fundo, como você bem pontuou, reflete o mundo em que a gente vive atualmente. Somos a “sociedade do cansaço”, né? Embora hiper-conectados, não raro acabamos isolados pelo excesso, esperando que alguém venha nos resgatar. No fundo, é disso que trata o romance.
Mais uma vez te agradeço pela leitura generosa. Vou encontrar um tempinho e ler o seu texto também. Valeu!!