ATO 1
Capítulo 1- tiro na cabeça
Há aqueles dias que prometem mudar tudo na vida de uma pessoa. Pontos de inflexão. São aguardados ansiosamente. Por vezes temidos. Aqueles dias…
Era um desses dias para Lucas Costa. O homem saía do chuveiro em meio a uma névoa de vapor. O enorme banheiro da suíte, revestido em mármore cinza, demorava alguns segundos para ser atravessado.
Chegou, finalmente, ao espelho, um pouco embaçado pelo calor do banho. Era uma silhueta imponente: um metro e oitenta e três, um rosto de feições italianas, barba e cabelos bem-feitos, que chegava à meia-idade sem muitos defeitos. Lucas gostava de se cuidar. A pele bronzeada da praia de Ipanema. Braços e pernas bem trabalhados, conquistados com muito afinco na academia. Torso e abdômen definidos, os músculos cobertos por alguns pelos. Logo abaixo, a peça principal. Dezoito centímetros. E meio. Ou, pelo menos, era o que ele dizia para elas na hora H. Ninguém nunca questionou.
Um pequeno LED azul se acendeu no canto do espelho. Um aviso da assistente de IA que geria a casa. E daí se o espelho do banheiro precisava ter uma câmera embutida? Se alguém invadisse, a vista era boa.
Ele se enrolou na toalha e saiu, chegando ao mezanino que levava aos quartos. Contemplou a bela e ampla cobertura. Uma enorme varanda com hidromassagem e churrasqueira, uma sala em plano aberto, e o mezanino, ainda escuros. Eram umas cinco e pouco. A vista era espetacular, recuada um quarteirão da praia de Ipanema. Os primeiros raios de sol começavam a surgir no horizonte. Lucas desceu as escadas, passando por uma grande tela OLED — tecnologia um pouco antiga, já pedia uma substituta — afixada em uma das paredes revestidas em madeira de fronte a um sofá e pelos quadros de Paul Klee, herdados do pai. Chegou à cozinha. A IA comandava os eletrodomésticos. Todos, sem exceção, possuíam telas, e Lucas pagava caro para que não mostrassem anúncios.
— O café está pronto, patrão. — ele havia programado para ser chamado de patrão.
O homem retirou a xícara da cafeteira. Preparou um pão árabe com a pasta proteica recomendada pelo nutricionista. De toalha mesmo, foi até a varanda. Queria contemplar o dia que mudaria sua vida para sempre. O vento gelado da madrugada refrescava a pele ainda quente do banho. Era prazeroso.
Uma ocasião especial pedia uma vestimenta especial. Voltou ao quarto. As paredes revestidas com papel de parede cinza combinavam com o mármore do banheiro. A cama king-size era uma veterana. Se ela falasse, pediria um cigarro. Assim como o sofá, a hidromassagem e a mesa da cozinha. Vestiu um terno Armani com riscas discretas. Afastou um quadro da parede e digitou a senha do cofre embutido. Dentro de uma caixa prateada, um relógio Tag Heuer, edição limitada. Aquele era o momento certo para usá-lo. Agora estava pronto.
****
Mesmo os dias excepcionais podiam ter seus momentos menos gloriosos.
O sol já brilhava, prenunciando mais um dia de calor no Rio de Janeiro. Uma longa fila de carros bloqueava a passagem de Lucas com seu BMW. Um típico engarrafamento matinal na Zona Sul. O homem não se acostumava com aquilo, apesar de enfrentar o mesmo cenário todos os dias. “Calma, Lucas. Se tudo correr bem, você vai pro trabalho de helicóptero no próximo mês”, pensou, tentando lidar com a situação.
Lucas sempre ligava o rádio ao entrar no carro. Era um ritual, antes mesmo de colocar o cinto de segurança. Música era um elemento importante, capaz de dar o tom das ocasiões. Um metal antes de uma reunião importante dava confiança. Um bom Dance ou EDM na pista era a certeza de um Kenny G mais tarde.
Ligou na JB FM, procurando ouvir algo relaxante que o desconectasse. Foi uma surpresa desagradável ouvir a Cyndi Lauper berrando girls just wanna have fun. Suspirou. Mas deixou para lá. Nada seria capaz de estragar seu dia. Nem mesmo a pessoa esquisita que parecia tentar contato com ele do outro lado do para-brisa quando parou no sinal. Escondeu o Tag Heuer dentro da manga do Armani.
— Hoje tá ruim! — gesticulou com o polegar direito pra baixo, sem muita paciência. Aumentou, em seguida, o volume da música, para abafar o mundo lá fora.
Quando finalmente chegou, entregou as chaves do carro ao valete, como de costume. Mas, em vez de entrar, Ele parou por alguns segundos, contemplando a fachada espelhada.
O Edifício Manchete não era o mais alto ou mais imponente da cidade, mas desde o seu retrofit era um dos mais luxuosos. As empresas pagavam caro para alugar uma laje corporativa na praia do Flamengo, com vista privilegiada da baía de Guanabara e do Pão de Açúcar. Quem ocupava o último andar era a Rock, uma fintech nascida nos pilotis da PUC-RJ, de alunos de economia. Douglas Meirelles era o CEO e grande cabeça pensante do negócio. Bilionário mais jovem do Brasil, capa da Forbes 30 under 30. Os contatos que o parentesco com um ex-ministro da fazenda proporcionava ajudavam, certamente. Lucas Costa conhecia Meirelles de várias chopadas e eventos na PUC. entrou na Rock quando ainda era uma empresa júnior e logo subiu nos organogramas. Em pouco tempo, se tornou CFO, recompensa por um talento nato com os números e as finanças, ao qual ele era muito grato. Ele se via como uma das razões para o sucesso da Rock. Parecia operar milagres com orçamentos, balancetes e impostos. Mas certo dia, há cerca de um ano, o verdadeiro milagre aconteceu.
Uma ligação direto de Brasília. Era da diretoria do Banco Central. Um projeto secreto. A nova fase do PIX precisava de um sistema back-end confiável e rápido, que pudesse lidar com as novas funcionalidades da plataforma. Nos anos 2030, seria capaz de maravilhas, como crediários a prazo, um sistema de criptografia ao portador, quase um cheque eletrônico, e sistemas de recompensas aleatórias ligado a assinatura de um carnê, só para dizer algumas. Seria o maior projeto da história da Rock. Teriam que contratar mais pessoal e colocar projetos secundários em espera. Era uma jogada arriscada, mas se funcionasse, levaria a empresa a outro patamar. E parecia estar funcionando. Uma comitiva do BACEN estava chegando para assinar um pré-contrato naquele dia.
Lucas andou confiante pela calçada. Pisou no pequeno degrau que antecedia a porta com a confiança de Átila, o Huno, ao esmagar a cabeça de um inimigo ao final de uma batalha.
Lucas saiu do elevador assim que a porta se abriu. Encostado em uma das compridas mesas sem divisória, ocupadas por computadores com, pelo menos, dois monitores cada, um homem tão bem-vestido quanto o próprio. Terno Hugo Boss, um enorme Rolex dourado no pulso esquerdo. Na mão direita, segurava um copo de café onde se via a logo verde-musgo do Starbucks. Barba e cabelo curtos, mas arrumados. Um rosto um pouco redondo.
— Olha só, chegou o cara — Gabriel da Silva era um velho conhecido de Lucas nos tempos das festinhas da PUC. Embarcou também na ideia da startup. A convivência na empresa mostrou aos dois que tinham muitos gostos e interesses em comum, e viraram melhores amigos em pouco tempo. Por falta de habilidade e de contatos, não subiu tanto como o amigo, mas, pelo menos, alcançou uma gerência operacional.
— Eu? Não sou isso tudo, não — Lucas apontou para o copo na mão do amigo — e essa viadagem aí? Tá mudando de time?
— Ah, Comprei pra provar
— E concluiu que era uma merda? — O sarcasmo era um dos passatempos preferidos de Lucas.
— Obvio! Mas, vamos falar de coisas importantes — Gabriel mudou o tom de voz, quase sussurrando — já viu a nova secretária do Meirelles?
— A letícia? — Lucas fez uma cara de aprovação — gostosíssima
— Fala baixo, porra! Mas sim, uma loiraça. Peitos maravilhosos, e aquela bundinha… — nova mudança de tom — mas porra, na aba do Meirelles é foda!
— Ihh, vai arregar? Se tu não pegar, eu pego. Até semana que vem tá na minha cama.
— Você que sabe. Eu não tenho as mesmas proteções que você aqui. Ah, esqueci de avisar. Você-sabe-quem já está na sua sala…
O semblante de Lucas mudou. Sua voz se alterou.
— Puta que pariu! Chegou cedo hoje. E você enrolando pra avisar. Tenho que ir antes que ela bagunce as minhas coisas.
Lucas andou rápido, atravessando o espaço aberto ocupado pelas mesas compridas. O Rolex se fixou em seu pensamento. Nem sabia que Gabriel tinha dinheiro para comprar aquilo. Obviamente, queria chamar atenção, ainda mais em um dia especial e com carne nova no pedaço, mesmo que fingisse que não Mas Lucas estava confiante que ver a nova secretária no banco do carona de seu BMW sossegaria o amigo. Era uma amizade competitiva, mas Lucas gostava disso. O estimulava a se superar.
Ao mesmo tempo, aquela presença na sala, sem sua supervisão, era incômoda e deveria ser resolvida. A enxaqueca recorrente das últimas semanas começava a reaparecer.
Ao entrar na sala, Lucas notou logo a familiar silhueta feminina, encaixada de forma justa no uniforme da empresa: saia lápis justa, com um corte atrás, e camisa social branca. Camila Pires era gerente do setor financeiro. Uns trinta e cinco anos, pele bronzeada, o cabelo ondulado tingido com luzes. Mexia em algumas pastas em sua mesa.
— Já está fazendo bagunça?
— Bom dia pra você também, senhor Costa — Camila respondeu, cínica, como era de costume. Já se cansara das peripécias de Lucas há muito tempo. O conhecia bem. Bem até demais. — estou trazendo os relatórios do financeiro pra você assinar. Estamos tendo problemas no servidor e tá uma loucura.
— Porra, logo hoje — Lucas sentou-se na cadeira. Tirou o paletó, pendurando-o no encosto. Desabotoou as mangas da camisa e começou a coçar os pelos do antebraço. — cadê a menina do TI?
— Marina está desde a madrugada mexendo nisso. Você sabe, rodamos essa porcaria toda em COBOL. Claro que volta e meia ia dar problema.
— Eu sei. Mas modernizar o código todo ia ficar caro pra caralho — levou a mão a cabeça e falou baixo, para si mesmo — puta que pariu, minha dor de cabeça tá piorando.
— Você é tão profissional, Lucas. Quanta finesse — Camila era uma das poucas pessoas que conseguiam desarmar Lucas. Virou-se e já ia saindo — enfim, os relatórios estão em ordem cronológica, como você prefere.
— Obrigado — ele se resignou — o que eu faria sem você aqui? É por isso que não posso te demitir…
Ela parou imediatamente após a fala, sob a moldura da porta. Virou-se de volta, e o olhou fixamente nos olhos. A cara mais séria do mundo.
— Você sabe que não pode.
Lucas ficou sozinho na sala, enfim. Respirou um pouco. Ainda tinha um dia de trabalho, mas precisava lidar com a dor de cabeça. Podia ser só estresse. Talvez passasse quando começasse a se concentrar nos relatórios. Contou até três, respirou fundo, e abriu a primeira pasta.
****
A rolha voou da garrafa de champanhe, com a espuma esbranquiçada escorrendo e melando a mão de Meirelles, o CEO, sob efusivas palmas dos outros presentes. Ele cuidou para que o líquido não alcançasse o Patek Philippe em seu pulso. A grande antessala do gabinete do CEO era decorada cafonamente em tons de branco e dourado, quase uma imitação de algum hotel em Dubai. Estavam presentes os executivos do Banco Central, o conselho deliberativo, Meirelles, Lucas, e alguns gerentes operacionais, além de alguns funcionários. O CEO, de pé, na cabeceira de uma longa mesa oval, que apoiava as garrafas de champagne dentro de baldes de gelo e algumas bandejas de canapés, chamou a atenção do grupo e iniciou seu discurso. Seus olhos brilhando tanto quanto sua testa que entrava pelas laterais do cabelo, uma calvície que o minoxidil já não conseguia remediar:
— Hoje é um dia histórico para nós! Subimos a um novo level. A Rock, que comecei de forma tão humilde e com tanto sacrifício, não brigará mais nem com as fintechs da Faria Lima, mas sim com os grandes players de Wall Street!
Efusivos aplausos.
— Mas nada disso — continuou — seria possível sem o trabalho mágico de nosso CFO, que conseguiu projetar um budget tão impressionante e ousado, que pode nos possibilitar todo o resto. Se alguém merece os aplausos hoje, é esse rapaz.
Lucas, agradecendo os aplausos, tentava se fingir de humilde, como se aquela chamada fosse inesperada.
— Muito obrigado, mas não sou só eu que mereço. Não fiz nada sozinho. É um prazer enorme fazer parte dessa família que me dá tanto orgulho.
Lucas observou os presentes na sala. Era aplaudido e aclamado por todos. Gabriel gritava “bravo”, feliz pelo amigo. Marina, exausta após o dia mais estressante de sua vida, mal se aguentava em pé, quanto mais aplaudir. Mas, para ele, não importava muito. Ossos do ofício, ela já deveria saber. Até mesmo Camila o cumprimentava, aplaudindo com um sorriso discreto.
O olhar de Lucas se perdeu um pouco pela sala, até se achar na saia da nova secretária. Aquelas pernas bem torneadas, cobertas delicadamente por uma fina meia-calça, que saíam por debaixo do pano bem justo. As curvas do quadril, onde a saia se encontrava com a blusa branca, translúcida a ponto de ver o sutiã branco por baixo, os cabelos loiros, perfeitamente escovados, que caíam sobre os ombros e enquadravam o jovem rosto como a moldura de um belo quadro.
Imaginou ela mais tarde, sem a saia, a meia calça, a blusa, o sutiã e o que mais tivesse de pano, encaixada sob seu corpo, após ser facilmente seduzida por seu prestígio corporativo, suas mãos fazendo drift por todas as curvas daquele corpo em uma cama do Motel Vip’s, o melhor da cidade. Isso, se não a levasse para o seu próprio quarto. Mas precisava se concentrar, terminar o discurso, antes que fosse tarde demais e tivesse que disfarçar o volume na calça.
— No mais, eu diria que…
Não conseguiu terminar. Uma dor agudíssima irradiou em sua cabeça, quase como se tivesse levado um tiro. Igualmente agudo era o tinito em seu ouvido. Não conseguia se manter em pé. O corpo balançava, as pernas tremiam. A dor não permitia nenhum pensamento. Enquanto caía, via as imagens borradas e cada vez mais escurecidas de seus colegas. Já no chão conseguiu ver Camila se debruçando por sobre seu corpo, a voz trêmula, chamando seu nome e perguntando o que acontecera. Inutilmente, já que ele não conseguia pronunciar uma única palavra. Viu também a secretária nova correndo, em desespero, em direção ao corredor, chamando por ajuda. Em um último fio de pensamento, antes de apagar tudo, ainda ruminou: “que vergonha, não tenho mais nenhuma chance com ela”.
Capítulo 2 – O milagre da medicina
Lucas acordou, ainda grogue. Tentava olhar em volta, os olhos ainda embaçados. Sentia um cobertor pesado sobre seu corpo. Aos poucos, se deu conta que estava deitado em uma maca, em um quarto de hospital meio escuro. Os fios dos eletrodos presos ao seu peito limitavam seus movimentos. A luz vermelha do monitor de oxigenação preso em seu dedo indicador iluminava a penumbra. Tentava recobrar sua consciência. Nada fazia sentido naquele momento. Só recordava-se do champagne estourando e dos aplausos, como se fossem há um minuto atrás.
O silêncio foi quebrado por uma figura alta, negra, que abria a porta de correr. Lucas percebeu que estava em um centro de terapia intensiva. Não era bem um quarto onde estava, e sim um box. Através da porta, observou vários outros boxes como o que ocupava. Pacientes idosos, moribundos ou em coma em cada um deles. O homem vestia um uniforme azul e um Crocs branco. No braço, um smartwatch. Uma figura tão serena como imponente. Não disse nada. Apenas deu um passo para trás, liberando a passagem. Apresentou-se um médico idoso, calvo, muito magro. Um jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Apresentou-se, com uma voz tranquila. Doutor Salvatore Keller, neurologista.
— Como vai, Lucas? Como se sente?
— Não sei… o que aconteceu? — Ele ainda estava grogue — não lembro direito do que houve.
— Você ficou desacordado por dois dias. Teve sorte de ter recebido um atendimento rápido. Tem tido muitas dores de cabeça ultimamente?
Lucas estranhou o conhecimento do médico sobre as dores de cabeça.
— Tenho tido, sim. Mas é normal pelo ritmo de trabalho, não? Como sabe?
— Sua colega, Camila, veio com você na ambulância. Ela fez seu check-in. Comentou sobre sua enxaqueca recorrente — o médico fez uma pausa — estava bem abalada. Ela é sua secretária? Assistente pessoal?
— É… sim….não… mais ou menos. Bem, o que aconteceu?
O dr. Keller fez uma expressão solene, lançando sobre Lucas um olhar sério.
— Infelizmente, não trago boas notícias. Preciso que se prepare.
— Pode falar, doutor. Não tenho medo de doença — disse em tom sarcástico, recobrando um pouco mais a energia — meu corpo é uma máquina perfeita.
— Bom, não é isso que os exames mostram, infelizmente — Keller fez uma pausa — Lucas, você provavelmente tem uma doença autoimune bastante rara. A ressonância magnética que fizemos detectou uma encefalite bastante importante.
O sorriso de Lucas cedeu — como assim?
Os exames de sangue complementares indicarama presença de autoanticorpos, produzidos pelo seu próprio sistema imune. Eles muito provavelmente estãoatacando os neuroreceptores de NMDA do seu cérebro, provocando a encefalite. Parece ser um caso bem agressivo de EDAI, encefalopatia degenerativa autoimune.
O semblante de Lucas mudou. Contraiu um pouco as pernas. Encolheu-se sobre a maca. Em meio ao choque, só conseguiu soltar a frase mais clichê do mundo.
— Isso é grave, doutor?
— Infelizmente, é bastante grave. Administramos uma pulsoterapia de metilprednisolona. É o que diminuiu a inflamação e te possibilitou despertar. Mas não deve ser suficiente. Infelizmente, se a doença progredir como os casos documentados na literatura médica, seu estado mental pode deteriorar progressivamente. Poderá ter lapsos de memória, esquecer nomes, datas e rostos. Perder a coordenação motora, a capacidade de andar, e até de ir ao banheiro. A visão e a audição se deteriorarão progressivamente. Nos estágios mais avançados, o sistema nervoso autônomo pode ser seriamente comprometido, inibindo a respiração e o ritmo cardíaco, levando ao óbito.
— Quanto tempo eu tenho? — Lucas gaguejou, estremecido.
— Se realmente for confirmado o diagnóstico, cerca de quatro a seis meses.
— Não tem tratamento?
— Há tratamentos experimentais, mas não há nada comprovado. De qualquer forma, dada a aparente gravidade do seu caso, aconselharia a buscar o que puder.
— Como o que?
— Bem, eu comando uma equipe multidisciplinar. Estamos conduzindo uma pesquisa, com um tratamento experimental, para alguns casos extremos. Selecionamos estritamente os pacientes. Acredito que você se encaixe nas condições que procuramos — o doutor tirou um cartão de visitas branco do bolso, e colocou sobre a maca — Marque uma consulta, se te interessar.
— Bem, preciso pensar um pouco. — ele estava desanimado. Passava a mão direita suavemente por sobre os pelos do antebraço esquerdo — ainda estou processando a situação. E se não der certo?
— Se não der certo, infelizmente, teremos que discutir cuidados paliativos. Tem alguém para estar do seu lado nesse momento?
— Não, sou solteiro e meus pais moram no exterior — demonstrou levemente certa tristeza e abatimento, o que devia ser mais raro dele externar do que a própria doença.
— E Camila?
— Não, Camila… — Lucas deu um sobressalto — nossa relação é estritamente profissional. Não posso envolvê-la nisso.
Os dias passavam lentamente naquele box de UTI, mas a memória ficou como um borrão, uma coisa só. Lucas dormiu pouco, incomodado com os bipes do monitor e as eventuais intercorrências dos outros pacientes. A comida era insossa. Não mexeu no celular. Tentou se distrair com alguns filmes, mas não conseguiu prestar atenção. Viu algo no noticiário sobre estudantes da UFRJ sendo vítimas de crimes na ilha do Fundão, mas não deu bola. Já era desgraça demais na sua própria vida. Perdera o chão, o sentido, o moral.
Saiu do hospital após cerca de uma semana.Só então lembrou de mandar mensagem para Camila. Disse que estava bem. Não deu detalhes.A dose cavalar de corticoides paravam a inflamação e davam um pouco de ânimo, mas também ansiedade. Devia ir pra casa descansar, mas quis aproveitar o que poderiam ser seus últimos dias na terra.
A brisa gelada da praia do Flamengo atravessava a camisa social branca. O paletó Armani e os sapatos jaziam em uma lixeira do parque adjacente. Talvez algum morador de rua os aproveitassem. Seria melhor assim. Lucas odiaria ver aquela obra de alta-costura sendo engolida pela terra junto de seu corpo. Bem, não veria, tecnicamente. Mas o pensamento ainda era doloroso. Os postes do aterro já se acendiam, iluminando os últimos banhistas e os corredores na ciclovia. Lucas, apertando a areia com os dedos dos pés, pensava na injustiça que o destino o reservara. Logo agora, que concluíra o feito mais impressionante de sua carreira, que se tornaria importante e alcançaria o reconhecimento que sempre almejara.
Ele observava as pessoas seguindo suas vidas, tranquilamente, enquanto via-se condenado por uma obra do acaso. Um possível castigo divino que não entendia por quê, afinal havia gente pior no mundo. Não era nem um pouco justo. Fitou, por longos segundos um casal, sentado sobre uma toalha, que brincava com seus dois filhos pequenos na areia. Não se interessava muito em ter uma família. Não era bem seu estilo de vida. Mas era cruel que o destino lhe tolhesse a escolha. Sentiu uma angústia profunda. Era coisa nova para Lucas. Raramente se sentia triste. Não tinha motivos para tal.
Andou pela areia. Aos poucos, o som das pessoas, do vento, de seus pensamentos iam sendo desligados um a um, até sobrar apenas o mais profundo silêncio em sua mente, entrecortado pelo ocasional marulhar das ondas.Sentia, agora, apenas as águas da Baía de Guanabara resfriando seus pés, encharcando a calça social. Pensou em se jogar. Sumir nas águas salgadas. Morrer afogado parecia doer menos.
Passaram-se longos segundos, até que o barulho de um jato decolando no aeroporto Santos Dumont o despertou. Viu aquele monstro de metal subindo, contornando delicadamente o Pão de Açúcar, cujo topo era iluminado pelos últimos raios de sol. Uma tocha de pedra marrom. Uma cena belíssima. “talvez seja bom ainda ver essa cena algumas vezes”, pensou. Respirou fundo, pegou o cartão de visitas branco no bolso da calça. Observou-o por longos segundos, ainda dentro da água.
DR SALVATORE KELLER
Neurologia * Neurocirurgia
Rua Voluntários da pátria, 157
(21) 5555-8989
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Lucas desceu do Uber em uma esquina movimentada de Botafogo. Estava respeitando, muito a contragosto, a recomendação médica de não dirigir. Estranhou o prédio sem janelas, de poucos andares e nenhum nome na fachada. Mas o número estava certo. Tocou o interfone, e a porta abriu imediatamente, sem nenhum questionamento. Lá dentro, uma sala vazia, silenciosa. Muito limpa e bem iluminada. Paredes de gesso acartonado branco e madeira falsa, típicas de clínica. Um pequeno jardim de inverno com trepadeiras de plástico no canto. As luzes fluorescentes eram tão brilhantes que pareciam rivalizar com o sol lá fora, mas era difícil saber com exatidão, dada a falta de janelas.
Lucas, sentando-se em um sofá branco, pôs-se a pensar, olhando para a televisão desligada afixada na parede. Não sabia o que ouviria ali, se uma sentença de morte ou uma ponta de esperança. Tentou se manter confiante, mas era engolido pela impotência do desconhecer o futuro. Impotência. Coisa que Lucas temia com todas as forças. Queria controlar tudo, queria poder tudo, queria possuir tudo. E estava no caminho certo antes da doença se intrometer.
O devaneio durou pouco, sendo interrompido por um enfermeiro, alto, moreno, um tanto intimidador, um uniforme hospitalar azul que parecia bastante fora do lugar ali. Ele parecia um pouco com a figura do hospital. Estranhou.
— Senhor Costa? Siga-me até o elevador, por favor.
Lucas se levantou buscando manter as costas eretas, de forma a não ser apenas a segunda pessoa mais alta naquela sala. Encarou-o e o seguiu até o elevador. Após saírem, caminharam por um corredor igualmente branco e insípido, até uma porta, que para nenhuma surpresa, também era branca. Lia-se nela o nome do médico e diretor da clínica.
— Aqui, senhor — guiou o enfermeiro, erguendo o braço.
Keller quase que sumia atrás da mesa. Os cabelos brancos faziam uma volta pelas têmporas, coroando o couro cabeludo manchado e nu no topo da cabeça.
— Sente-se, Senhor Costa. Fique à vontade
— Pode me chamar de Lucas, doutor. Gosto do meu nome.
— Como queira. Que bom que pode vir hoje em um dia que a clínica está vazia, assim teremos mais tempo para conversar.
Lucas se ajeitou na cadeira, um pouco mais relaxado. Não parecia ser ele quem precisava de cuidados paliativos ali.
— O hospital mandou o restante dos meus exames, certo?
— Claro, já os vi. Realmente, é um caso complicado.
— Então, não tem o que fazer?
— Bem, para tratar os autoanticorpos anti-NMDA, seria preciso fazer uma grande limpeza no seu corpo. Faríamos um tratamento imunoterápico, com ciclos de anticorpos monoclonais para limpar o seu sangue.
— Isso resolveria o problema?
— Não, mas traria um grande alívio dos sintomas. O problema é que é temporário. Se a sua medula óssea continuar produzindo os linfócitos que fabricam os autoanticorpos, a doença volta e a degeneração do seu cérebro continua. Então, poderíamos tentar um autotransplante, através da edição genética das suas células-tronco, para que sua medula produza linfócitos saudáveis.
— Me parece bem complicado — Lucas estava um tanto cético.
— E é. O problema é que não é um transplante comum. Precisamos realmente matar toda a sua medula, em um nível muito maior que os tratamentos convencionais. A quimioterapia a ser usada é extremamente neurotóxica, e pode gerar uma inflamação até pior que a própria doença no seu sistema nervoso central.
— Então, de um jeito ou de outro, eu vou virar um moribundo. — ele não consegui esconder o desânimo — Então, pra sofrer tanto e ter o mesmo fim, não é melhor ir pelo caminho dos cuidados paliativos?
— Ainda não terminei — Dr. Keller se ajeitou na cadeira, debruçando-se sobre a mesa e apoiando nela os cotovelos. Passou a falar mais baixo, como se contasse um segredo — é por isso que marquei essa consulta em um dia em que o consultório estava vazio. Há uma chance de te salvar, mas é um tratamento bastante caro e experimental. Você seria parte de uma pesquisa bastante secreta que estamos desenvolvendo.
— Eu topo qualquer coisa, doutor. — Lucas assumiu um tom sério e determinado.
— O tratamento consiste em um transplante temporário de todo o seu encéfalo para um corpo provisório sintético. Assim o trabalho em seu corpo original poderia prosseguir sem nenhum dano. Já obtive sucesso com alguns pacientes acometidos por outras doenças terminais. Mas com o seu caso específico seria a primeira vez.
Lucas ficou espantado. Arregalou os olhos.
— É sério? Dá pra fazer isso?
— Impressionante, não? A ciência está avançando rapidamente. Agora, com as técnicas que desenvolvi, consigo separar o cérebro desse corpo quando ele não serve mais ou precisa de reparos mais complexos. Há tempos, já se pode substituir partes defeituosas por próteses biônicas até melhores que os membros naturais. Trocar o corpo todo seria, naturalmente, o próximo passo. Um verdadeiro milagre.
Lucas ouviu atentamente a explicação. Não sabia se acreditava. Era bizarro demais. Mas, talvez, a única esperança. Conformou-se.
— Se não tem outro jeito…
— Bem, mas tenho que alertar dos riscos. É um corpo diferente do seu, então pode gerar algum estranhamento, pela aparência e características que você já está acostumado no seu corpo e não vai encontrar nesse. É o que se chama de disforia. Mas oferecemos acompanhamento na clínica para isso.
— Ah, corta essa, doutor — Lucas adotou um tom jocoso. — o que eu posso estranhar? Ele é feio? Estranho? Baixinho talvez… ah, já sei: tem o pinto pequeno.
— Não tem pinto.
Keller não tinha um traço de ironia sequer em sua voz. Falava sério. Lucas fechou a cara, recuou-se na cadeira e inclinou a cabeça ligeiramente, da mesma forma que um cachorro que tenta entender o que seu dono faz. O silêncio reinou por alguns segundos.
— Como é que é? — A voz que saiu era mais grossa que a de um locutor de rádio.
— É um corpo feminino, Lucas. Infelizmente, corpos masculinos demonstraram, nas primeiras tentativas, ter um maior risco de rejeição, pelo nível mais elevado de testosterona. Mas lembre-se: é temporário, e é sua única chance de voltar à sua vida normal.
— Mas doutor… virar mulher? — Lucas estava resignado. Colocou as mãos contra a região do púbis, instintivamente. A voz afinou com a aflição — que loucura é essa?
— Veja bem, Lucas — Dr. Keller se levantou da cadeira, andando até uma estante com alguns livros acadêmicos, pondo-se de costas para o paciente. — o seu corpo é apenas uma ferramenta, um avatar, com o qual você interage com o mundo. O que importa mesmo é o seu ser, sua identidade. Isso, pelo que a neurociência entende, está no seu cérebro. Você pode ser desconectado do corpo, mas não vai deixar de ser você por isso. Não é empolgante? Já ouviu o mito do barco de Teseu? É a mesma coisa — ele se virou para Lucas, olhando-o nos olhos — pense nas possibilidades: vida eterna, plugar o cérebro em uma simulação, a cura da disforia de gênero para as pessoas trans. O futuro, sem os limites corpóreos, é muito promissor!
— E se não der certo? Eu fico preso nesse corpo novo?
— Bem… há sempre essa possibilidade. Nada é completamente livre de riscos. Mas não é melhor ter uma esperança? A medicina está muito avançada hoje em dia. Não se preocupe — Keller tentava ser persuasivo, de forma sutil — Sabe, tem pacientes que gostaram tanto do corpo novo que não quiseram regressar. Fica sempre a critério deles.
Lucas se levantou e se dirigiu à porta, com muito menos confiança do que tinha quando entrou na sala. Parecia uma criança acuada.
— Eu… eu não sei se eu consigo fazer isso. É muito radical para mim.
— Eu entendo perfeitamente. À primeira vista, parece assustador — o doutor disse com muita calma e cortesia — pense com calma, Lucas. É o que posso te oferecer. Se mudar de ideia, sabe onde me encontrar.
Mais tarde, naquele dia, Lucas chegou em seu apartamento. Já era noite. Não acendeu as luzes, nem comeu nada. Sentou-se no sofá. Respirou. Olhou para o chão escuro por longos minutos.
O breu apenas foi quebrado quando ligou a televisão. Uma reportagem passava no Globo Repórter sobre a longevidade em uma vila no interior do Japão. Novamente, o acaso parecia lhe mostrar, ironicamente, um futuro inalcançável. “tá maluco, deixar de ser homem pra viver mais alguns anos”, pensou.
Levantou-se e andou lentamente até a estante. Pegou um álbum de fotografias de sua infância. Talvez algumas lembranças felizes o animassem. Sentou-se novamente. Folheando o álbum de trás para frente, passou por sua formatura no Colégio Santo Agostinho, suas viagens a Orlando, suas festas com amigos que não via há décadas.
A viagem pelo passado era acolhedora. Sentia-se um pouco melhor. Viveu, realmente, uma vida confortável. Não se envergonhava daquilo. Para ele, era apenas uma circunstância. Uma feliz coincidência. Não se via como privilegiado. Afinal, teve que batalhar muito para chegar na posição que conquistou. Seu sucesso, imaginava, era merecido.
A nostalgia, porém, deu lugar novamente à angústia ao virar a página e chegar em um de seus primeiros aniversários. Viu-se bastante criança, com uma roupa colorida, no colo da Tia Lurdinha, que o segurava com dificuldade devido à idade avançada. Lembrou-se de sua morte difícil, acamada, sem falar e sem reconhecer seus familiares, sendo acompanhada por um cuidador 24 horas por dia. Uma das primeiras vezes que encarou a morte na vida. Foi confuso. Triste. “Esse sou eu em seis meses”, pensou. O coração acelerou com a adrenalina.
Pensou em voltar à praia do flamengo no dia seguinte. Ver aquele pôr do sol o quanto pudesse, principalmente depois que não aguentasse mais ir aos happy-hours no Baixo Leblon.
Ainda com a memória da tia, olhou para a imagem do senhor japonês de 104 anos na tela. Sua voz encoberta por uma dublagem em português. Tudo se embaralhou na cabeça. A paz que ele buscava nas lembranças não foi alcançada. A mente rodava, mais rápido do que nunca. A tia morta. O pôr do sol. O velho japonês. A tia, o sol, o velho. A tia, o sol…
Pegou o telefone. Ligou para o Dr Keller.
Capítulo 3 – Preparação
O Nosso Bar era um rooftop elegante, com vista para a Praça Nossa Senhora da Paz. Calmo e sem música alta, dá pra conversar tranquilamente. Fora, inicialmente, um restaurante, modificou suas atividades após dificuldades financeiras causadas por um incêndio. O espaço era pontilhado por cadeiras e mesas coloridas e suas paredes brancas eram iluminadas por LEDs igualmente coloridos. Não era o lugar costumeiro para Lucas e Gabriel esquentarem a noite antes das baladas. Não dava a impressão de ser um lugar onde as mulheres se impressionariam com um relógio Hublot ou Tissot, um perfume Carolina Herrera ou a chave de um BMW.
— Que porra de lugar é esse? — Gabriel, sem conseguir esconder o descontentamento, cumprimentava o amigo. Chegou cedo. Sentado em uma mesa, bebia lentamente uma margarita. Usava um blazer esporte por cima da camisa social branca.
— Um lugar mais tranquilo — Lucas se sentou. Olhou para o garçom — uma caipirinha, por favor?
— Por que um lugar tranquilo? Para morrer de tédio?
Lucas tentou deixar a situação um pouco mais confortável. Falou em um tom sereno.
— Bem, eu queria conversar um pouco. Acho que estou precisando.
— Vai me pedir em namoro? — Provavelmente, Gabriel percebeu que estava sendo um estraga prazeres e tentou melhorar o clima também. Lucas reagiu com um sorriso contido. Respondeu de forma igualmente leve.
— Se tem alguém aqui querendo namorar outro homem, com certeza não sou eu — deu uma pausa de alguns segundos, com uma respiração longa. Seu semblante mudou. Apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Eu fui no médico ontem. Acho que estou com um problema meio complicado.
Gabriel riu. Deu de ombros.
— Ihhh… pegou uma paradinha de alguma piranha.
—Não, cara. Eu… tenho algo na cabeça. Talvez precise de um tratamento mais pesado.
— Como assim — finalmente, Gabriel percebeu que o amigo falava sério. Falou mais baixo, quase sussurrando — câncer? — Olhou para o garçom, erguendo a taça vazia — traz outra?
— Não… não sei. Vou ser direto. Acho que preciso tirar um sabático. Sair por aí, esquecer um pouco esse susto, processar as coisas.
— Não brinca — Gabriel voltou ao tom jocoso — as mulheres do rio de janeiro não são mais o suficiente pra você? Porra, logo agora que você está por cima da carne seca…
— eu sei. Mas é rápido. Alguns meses. Eu faço essa viagem, esfrio a cabeça, faço o tratamento, volto pronto pra outra. O que você acha?
— Bem, se é o que vai te ajudar… faz o que você achar melhor. Era só isso que você queria me dizer?
****
Lucas entrou em casa. Fechou a porta e ficou alguns segundos parado, com as costas contra ela. Um pouco arrependido por ter marcado a conversa com Gabriel. Se sentiu estúpido por ter pensado em algum momento que seria produtivo. Dentro daquela cabeça só devia ter pensamentos sobre álcool e sexo. Bem, não que ele fosse diferente, mas não se considerava tão fútil. Ainda tinha alguma substância. Pensava, por exemplo, em negócios, dinheiro, e tinha ambição. E era essa ambição que, mesmo nesse momento de dificuldade, lhe moveria. Estava na hora de colocar o plano em prática.
A ideia era voltar para a empresa, na forma feminina que assumiria. Todos pensariam que ele estaria viajando, em outro continente. Poderia, imaginou, espionar seus colegas. Saber quem conspirava contra ele, quem realmente o defendia. Saberia coisas que talvez não passassem por ele. Poderia ganhar poder, seria imbatível. Talvez, se tornasse o novo CEO. O homem deu um longo suspiro antes de prosseguir.
O primeiro passo seria redigir um e-mail, que enviaria para a mailing list da empresa. Dizia que, por motivos de força maior, adiantaria suas férias e ficaria alguns meses ausente e, enquanto isso, selecionaria algum representante externo, um neutral party, para tomar conta de seus interesses. Agradecia a compreensão. Atenciosamente, Lucas Costa.
Pairou com o dedo por sobre o botão Enter por alguns segundos. Se enviasse, não teria mais volta. Resolveu apertar de uma vez. Ficou com medo de que, se pensasse demais, desistisse.
Agora, precisava das bases dessa persona. Um endereço, um CPF. A clínica ajudaria a cuidar disso. Era parte do contrato. Proteção total da identidade dos pacientes. Optou por terminar de escolher o nome quando já estivesse com o corpo novo. Queria algo que julgasse coerente com a aparência, que ainda desconhecia. Mas, de qualquer forma, estava engatilhado.
Dali a uns dias, marcou um horário com um corretor de imóveis. Disse que seria o fiador de uma conhecida que viria trabalhar na cidade e precisava alugar um apartamento. Visitou um quarto e sala em Copacabana, na Rua Siqueira Campos. O local era bem diferente de onde ele morava. Mais caótico. Barulho de trânsito, das pessoas e das lojas na rua. O apartamento era minúsculo, mal decorado, com manchas de umidade e mofo mal cobertas com tinta branca barata nos cantos das paredes. Lhe dava ojeriza. Mas, pensou, ajudaria a entrar melhor no personagem. Não faria sentido que sua representante compartilhasse o mesmo endereço, ou mesmo que tivesse status social comparável. Resolveu fechar o contrato. Ao sair, parou sob a soleira. Observou o local por alguns segundos. Aquela seria sua casa nos próximos meses. Fechou a porta lentamente, com bastante cuidado.
****
— Que bom que chegou, senhor Costa. Quase tudo pronto — o dr. Keller o esperava no corredor, fora do elevador. Mesmo esquema: mesma sala de espera vazia, mesmo enfermeiro. Mas o destino era diferente. O terceiro andar tinha alguns quartos e uma bancada de enfermagem. Uma ala hospitalar em miniatura. Ao final do corredor, uma grande porta dupla metálica. As paredes em tom marfim, o chão azul. O doutor abriu a porta de um dos quartos, fazendo sinal para Lucas entrar.
— Fique à vontade. Terá algumas horas para se aprontar.
Lucas, ainda um pouco tenso, tentava processar tudo aquilo. Quanto mais o momento se aproximava, mais parecia surreal. Entrou no quarto em silêncio. Percebendo a preocupação do paciente, Keller tentou intervir.
— Acha que te acalmaria um pouco se eu explicasse novamente o procedimento? Para te assegurar que é seguro?
— Pode ser — respondeu, seco.
Logo, a penumbra do quarto foi quebrada pela luz do aparelho de TV. Um vídeo com uma animação 3d de um corpo humano, com destaque para o cérebro, começou a rodar.
— Então, Lucas. Vamos abrir sua caixa craniana com a ajuda de um equipamento robótico. Não se preocupe, é extremamente preciso. Não fica cicatriz nenhuma. Depois, desconectamos seu encéfalo da medula espinhal. Usamos um nano-bisturi a laser para seccionar os neurônios, com muito cuidado. Em seguida, transferiremos o encéfalo para o corpo provisório, religando neurônio a neurônio, em seu determinado lugar. É um processo demorado, e talvez você precise de uma sedação por alguns dias, enquanto o seu cérebro e o corpo se habituam um com o outro. Dentro de alguns meses, revertemos o procedimento. Se sente mais calmo agora?
— Acho que sim — mentiu. Mas não queria parecer covarde.
— Olha só. Pense nisso como uma fase. Um estágio no processo para alcançar, talvez um dia, a imortalidade. Em pouco tempo, terá seu corpo de volta, novinho em folha.
Lucas respirou fundo, ainda desconfortável.
— Acho que… preciso de um tempo sozinho para me preparar.
— Claro, sem problemas — o doutor saiu, desligando a televisão. O homem, agora, se viu só naquele quarto escuro. Respirou fundo. Meditou sobre as palavras do médico. “É temporário”, repetiu mentalmente várias vezes.
Foi até o banheiro. Olhou o rosto no espelho por vários minutos. Quis reparar em cada detalhe. Cada poro, cada fio de barba. Os pequeníssimos vasos sanguíneos no branco dos olhos. Queria lembrar, para conferir quando recebesse de volta.
Em seguida, lentamente, seu olhar se desviou para baixo. Queria aproveitar o pouco tempo restante para se despedir daquele corpo. De algumas partes, em especial. Despiu-se. Colocou-se sob o chuveiro. Tomou o banho mais demorado de sua vida.
Quando o enfermeiro voltou, estava deitado, o avental médico colocado. Ele pegou seu braço muito delicadamente, apesar da corpulência. Lucas sentiu uma leve pressão quando foi introduzido o cateter periférico em sua veia cefálica. Em seguida, foi requisitado a abaixar seu avental. O enfermeiro, então, colou alguns eletrodos em seu torso. Depois, foi orientado a se deitar em uma maca. Foi levado, finalmente, até o final do corredor.
A maca atravessou a porta metálica. Lucas se surpreendeu ao ver que adentrara um centro cirúrgico completo. O prédio era muito maior do que aparentava pela fachada. Seu coração palpitou um pouco ao ver as grandes luzes redondas pendendo do teto. Foi colocado na mesa, a cabeça embaixo de um grande robô, com vários braços pontudos mirando ameaçadoramente para ela. Um feixe de laser traçava uma linha vermelha em sua testa. Ao virar para o lado direito, além de ver as várias telas na parede, que auxiliariam no procedimento, ainda desligadas, notou uma maca. O cobertor verde cobria a óbvia silhueta de um corpo humano. Fios e tubos saíam por debaixo dele, se conectando a monitores e máquinas. Aquilo o deixou um pouco mais espantado.
A observação foi interrompida por Keller, usando uma máscara cirúrgica e segurando uma seringa, preenchida por uma substância branca e leitosa. Propofol.
— Fique tranquilo. Está em boas mãos. Vai sentir uma ardência no braço agora — o médico injetou a seringa no acesso, Junto dele, o enfermeiro e mais uns dois assistentes que ainda não tinham se apresentado. Eles amarravam seus braços nos suportes da mesa. Lucas, agora, estava com o coração saindo pela boca. O monitor cardíaco não deixava esconder. Mas não iria ser fraco a ponto de desistir de última hora. Keller colocou a máscara em seu rosto. O mundo foi, aos poucos, ficando mais distante.
— Respire fundo agora, Lucas — o doutor estava inabalável — conte comigo: 10, 9, 8…
FIM DO ATO I
ATO II
Capítulo 4 — Despertar
Lembranças. Flashes de uma tarde ensolarada. Adolescentes. Uniformes brancos. Uma menina bonita. Um beijo. Em outra pessoa. Por que não eu? Por que não…
Despertou. Grogue. A cabeça pesada, visão embaçada. Aos poucos, formava-se a imagem de um quarto de paredes azuis. Uma maca. Um avental sobre o corpo. Braços muito brancos.
Aos poucos, Lucas foi recobrando a consciência. Lembrou-se da cirurgia. “Estou vivo. Funcionou então”. Mexeu levemente as pernas. Depois, os braços. A percepção do corpo e do espaço ia ficando mais nítida. Percebeu o acesso venoso desconectado e não sentia dor alguma. Nem parecia que havia sido operado. Percebeu, também a bexiga muito cheia. Disposto a manter sua autossuficiência, Resolveu ir ao banheiro por conta própria, sem pedir por ajuda.
Sentou-se na maca, após alguns segundos. Além da cabeça ainda rodando um pouco, sentiu outra coisa, que o assustou. Um peso que parecia pender da frente de seu tórax. Agora, recobrava o porquê da cirurgia. Aquele já não era seu corpo. Ficou apreensivo. Não sabia o que esperar, mas, ao mesmo tempo, estava curioso para saber como seria sua aparência pelos próximos meses. Apoiou as mãos sobre as coxas, que, agora, se esparramavam e tomavam mais espaço no colchão que as “originais”. As mãos eram delgadas, levemente rechonchudas. Os dedos curvos e a pele muito alva. Lucas começou a respirar mais forte.
Levantou-se, não conseguindo ficar de pé imediatamente. Se escorou em uma parede. Além da tontura, parecia que aquele corpo tinha um equilíbrio diferente. Era como se o mundo tivesse ficado ligeiramente maior. O teto e a esquadria das portas pareciam um pouco mais altos. Deu dois passos e abriu a porta do banheiro, ainda segurando a parede.
O pequeno banheiro era completamente branco, desde o azulejo da parede ao piso. Algumas peças de aço inoxidável, como a pia e uma barra para se escorar no box eram o único contraste. O sanitário estava posicionado bem em frente à porta. Entre eles, uma pia e um espelho de boas dimensões. Não tão grande como o da cobertura de Lucas em Ipanema, mas o suficiente para se enxergar bem. “Ótimo. Vejo como fiquei, faço o que tenho que fazer e volto. Sem problemas”
Mas a realidade não era tão fácil assim. O coração, que não era o de Lucas, começou a acelerar, estimulado pela adrenalina e o cortisol produzidos sob os impulsos elétricos emanados por aquele cérebro em um corpo trocado. Parou diante do grande retângulo prateado. Os olhos mirando a pia. Respirou fundo. Levantou o olhar.
O rosto era ligeiramente ovalado, o maxilar, bastante delicado, marcava muito suavemente a pele. A pele muito branca, as bochechas levemente rosadas pontilhadas com algumas sardas. Os olhos, redondos, cor de mel. Sobre eles, uma fina sobrancelha avermelhada. Uma boca pequena, lábios róseos. Lucas suspirou.
Agora, finalmente, percebia a touca acima de sua cabeça. Puxou-a. Mechas ruivas levemente onduladas penderam sobre seus ombros, de forma incômoda. O cabelo terminava apenas alguns centímetros abaixo, em suas costas.
Engoliu em seco. Estava nervoso, mas ainda queria compreender a dimensão completa daquilo. Desfez os laços do avental. Descobriu os ombros delgados, a mesma pele clara, as mesmas sardas. Desceu mais um pouco e viu os dois volumes em seu peito. Não eram grandes. Pareciam tão firmes como delicados, as aréolas róseas como a boca. Tocou-os, sentindo o tato macio e morno ao qual já era quase um sommelier. Mas, agora, sentia-se igualmente tocado. Em partes que antes não tinha. Propriocepção e sensibilidade completamente desconhecidas para ele. Era bizarríssimo. Precisou de alguns segundos antes de continuar.
Olhou mais para baixo. Sabia que aquela exploração ainda não tinha chegado ao fim. “então, obviamente…”
Deixou o avental cair de uma vez. Revelaram-se quadris arredondados, pernas curtas e, escondida entre elas, uma pequena fenda, no lugar onde Lucas normalmente encontraria um de seus bens mais preciosos. O coração mais disparado do que nunca. A respiração ofegante. Os olhos cor de mel, arregalados, vidrados no espelho. A boca aberta em espanto, revelando pela primeira vez os dentes brancos.
Ficou um tempo ali, congelado, por alguns segundos. Era difícil compreender que aquilo era real. Lentamente, pôs a mão esquerda por sobre o púbis sem pelos, deslizando-a receosamente para baixo, tentando entender aquela anatomia. A mão direita acompanhou. Observava o procedimento pelo espelho. Afastou os grandes lábios, e depois os pequenos, estudando com os olhos aquelas dobras de pele fina e rosada. A abertura revelou, na parte frontal, um pequeno relevo de pele com formato de capuz. Lucas sabia do que se tratava. Puxou o capuz delicadamente, revelando a glande do clitóris. Queria saber a sensação. O porquê de as mulheres gostarem tanto daquele ponto diminuto. Apalpou-o, com certo vigor, usando o dedo médio.
— Aiii…
A resposta, bastante sensível e um tanto dolorosa, fez escapar um leve grunhido. E isso talvez tenha assustado Lucas mais do que qualquer coisa. Pela primeira vez, ouvia aquela voz, muito mais suave e aguda do que a sua. Toda vez que precisasse se comunicar ou se expressar pelos próximos meses, seria com aquela voz irreconhecível.
Ainda precisava urinar. Sentou-se ao sanitário, as coxas se esparramando contra a tampa. Após se acomodar, relaxou, aos poucos. Sentiu o líquido saindo por um lugar onde não estava acostumado, mais embaixo. Ia molhando aquelas dobras de carne de uma forma bizarra. A sensação era terrível. Arqueou as costas e franziu a testa, rezando para que acabasse logo. Por fim, se limpou, estranhando demais a sensação de tocar naquele lugar novamente, com o papel higiênico.
Se recompondo um pouco após cerca de um minuto, vestiu o avental e voltou, ainda desajeitado, para a cama. Precisava processar o que tinha visto, e se preparar para os próximos quatro a seis meses. Apertou a campainha. Não sabia direito o que falar, nem se conseguiria com aquela voz, mas sabia que precisava de ajuda. O doutor Keller chegou prontamente.
— Bom dia, lucas. Que bom que está desperto. Como se sente?
— eu… hã… estranho — era, de fato, muito estranho falar com aquela voz.
— Bem, isso já era esperado. Mas você está se recuperando bem. A cirurgia foi há três dias. Te deixamos em um coma induzido para que seu cérebro pudesse se acomodar.
Três dias a menos de vida. Em outros tempos, seria o suficiente para que Lucas enlouquecesse. Em 72 horas poderiam caber um sem fim de movimentações, decisões a serem tomadas, imprevistos a serem enfrentados. Mas, agora, estava tirando seu sabático. Não havia trabalho com que tivesse que lidar. Logo, sua “representante” chegaria à Rock para cuidar da bagunça.
Lucas passou o resto da semana na clínica, se recuperando da operação e aprendendo a controlar aquele corpo através de sessões de fisioterapia. Evitou, o máximo que pode, olhar para aquele corpo desnudo novamente. Quando precisou ir ao banheiro ou tomar banho, fez de forma breve. Mas o estranhamento ainda persistia. Os dias na UTI após seu mal súbito pareciam um spa perto daquilo.
Logo, estava de alta. Vestiu-se de forma a não chamar a atenção: tênis, calça jeans, um sutiã simples e uma blusa de alcinha preta. As roupas eram providenciadas pela clínica. O doutor Keller ainda teve a cortesia de pedir um uber para o paciente. Antes de ir, porém, entregou a Lucas uma bolsa de dimensões consideráveis.
— O que é isso, doutor? — Falou com aquela voz ainda estranha, mas que não o incomodava mais tanto.
— Ah, é o “kit de sobrevivência”. Entregamos a todos os pacientes do sexo masculino. Aí tem tudo o que você pode precisar para passar os próximos meses. Não se preocupe. Se precisar de algo mais, é só falar. A propósito, Já decidiu o nome que quer usar durante esse período.
— Ah, ainda não. Preciso pensar… — Lucas ficou nervoso. Não reconhecia outro nome que não fosse o seu. Nem mesmo apelidos teve durante a infância ou a adolescência.
— Claro, sem pressa. Assim que decidir, nos avise e preparamos toda a documentação.
A conversa foi interrompida por um carro preto parando em frente à porta da clínica.
****
Entrou no apartamento. Os últimos raios de sol ainda impediam a escuridão total. Apoiou as costas na porta, como fizera antes de pôr o plano em prática. Mas, agora, já estava em campo. O que via ao olhar para baixo e o que sentia tocando aquela pele não deixavam dúvida. Incômodos sem fim, como se o mundo estivesse desregulado. A textura da tinta barata aplicada pelo senhorio na porta em nada lembrava a madeira laminada de sua cobertura. O sutiã provocava um aperto um tanto doloroso naqueles volumes estranhos e novos, e o atrito com a porta aumentava a sensação. O tecido da calcinha entrando por entre as nádegas e por outras partes adjacentes gerava um desconforto indescritível. Talvez tivesse que ser assim, algo que devesse aguentar durante o processo. Mas era temporário, não ia durar para sempre, pensou.
Sentou-se de frente para a pequena escrivaninha. Estranhou demais a sensação, ou melhor, a falta de sentir algo pressionando no meio das coxas. Também não suportava mais aquele aperto no peito. Com um gesto um tanto desajeitado, buscou, com as duas mãos, o fecho do sutiã. Precisou de algumas tentativas até conseguir soltá-lo. Ao conseguir, porém, foi tomado por uma estranha, mas reconfortante, sensação de alívio. Era como soltar um cinto apertado depois de um dia inteiro, mas muito mais intenso. Talvez, entre todas as novas experiências, a primeira positiva. “Pelo menos uma coisa de bom nesse corpo”, pensou.
Ligou dois notebooks, um MacBook Pro, que pertencia a sua antiga identidade, e um outro, mais simples. Logou no sistema da empresa, a partir de um VPN que indicava um IP do Nepal. Assim seria: depois, Lhasa, Bali, Kerala, Egito, et cetera. Estaria buscando a cura para os males do corpo e da alma através da espiritualidade, do jejum, da meditação tântrica, kundalini, acupuntura, sucos detox, contato com a natureza. Tudo o que estava na moda e apontavam para a imagem de um ser iluminado, assim como Steve Jobs.
Enviou uma mensagem, indicando já ter encontrado sua representante. Agora, precisava preencher a ficha da empresa com a nova identidade. Começou pelo trivial, endereço o RG e CPF já preparados pela clínica. Marcou, por memória muscular, o botão de sexo masculino, mas percebeu em poucos segundos. Corrigiu o erro, mas de forma um pouco hesitante, após um suspiro profundo e pensar por alguns segundos. Ainda não fazia sentido na sua mente. Agora faltava o principal.
Ainda não conseguia decidir qual seria o nome. Primeiro pensou em algo irônico, meio bobo. Algo que pudesse se desprender facilmente após voltar à vida normal. Escreveu Kethleen. Apagou. Kathyah. Kleicianny. Nomes de pobre. Engraçados, mas não iriam impor nenhum respeito. Pensou em alguma personagem. Rose DeWitt Bukater. Beatrix Kiddo. Trinity. Evelyn Williams. Não. “Muito na cara, alguém vai desconfiar”. Lolita? “Ficou doido?? que porra de pensamento intrusivo é esse?”, admoestou a própria consciência.
Estava se cansando de tudo aquilo. Olhou para a pele alva e delicada dos antebraços, iluminada pelo brilho das telas dos notebooks. “Humm, Acho que esse corpo combina com clara”. Isso, Clara. Escreveu. Rolou até o fim do formulário. Hesitou, já com o cursor sobre o “enviar”. Clara combinava até demais. Ficou nervoso. Não queria criar algo que gerasse algum tipo de apego com aquele corpo. Já não bastasse ser mulher, ainda piorar com algum tipo de afeto, alguma lógica que fizesse sentido. Não, um homem como Lucas não poderia se ver assim. Era uma posição temporária e nada mais. Ele era homem, nasceu homem e iria morrer homem, apesar da situação. Então não, nada poderia fazer sentido. Nada para ele poderia encaixar em ser mulher. “Eu, hein, tá me estranhando?”, disse a si mesmo em seu monólogo interno. Voltou e apagou o nome.
Escreveu Lucia. Simples. Ele mesmo, mas no feminino. Se alguém desconfiasse da semelhança do nome, era só responder que se tratava de uma coincidência tremenda. Afinal, são nomes muito comuns. Estava tão farto daquela elucubração que nem notou que esquecera o acento agudo da letra u. Enviou o formulário. Desligou os computadores. Se jogou na cama e adormeceu sem sequer ter trocado de roupa. Antes de dormir, porém, ainda ponderou sobre aquilo tudo por alguns segundos: “Agora essa operação tem um nome e uma identidade: Lucia”.
Capítulo 5 — De volta ao jogo
Lembrava do pai. Severo. Distante. Traíra sua confiança. Os quadros de Paul Klee não passariam na alfândega. Coisa feia, disforme. Penduraria na sala para lembrar o buraco que carregava no coração…
Lucas acordou com uma dor lancinante. Achou que fosse um infarto. “será que dá tempo de ligar pro doutor?”. A realidade, porém, era mais simples: dormira sobre o seio. Talvez, demoraria algum tempo até seu cérebro entender que certas posições não eram mais práticas ao se deitar.
Não precisava de despertador. O barulho do trânsito e os camelôs da rua Siqueira Campos eram o bastante para lhe despertar. Já era a segunda semana naquele corpo, mais ou menos. Não lembrava a data exata. Sabia, porém, que era o terceiro dia após criar a identidade de Lúcia. E era também o dia da entrevista na Rock.
Era razoável que, para representar alguém de tamanha importância na hierarquia da empresa, seria necessária uma aprovação. Lucia seria sabatinada por uma comissão. Cabia a Lucas prepará-la. Ainda não saberia quais eram os membros, mas não haveria surpresa. Ele conhecia muito bem todos os membros da alta cúpula. E os acionistas externos pouco se importariam com a situação, desde que os números fossem positivos.
O problema maior era, pela primeira vez, sair do apartamento. Mandou o supermercado entregar as compras no dia anterior. Pediu para deixar na porta e só saiu para pegar com o corredor já vazio. Ainda não sabia como se comportaria, como seria percebido naquela forma. Nunca admitiria a ninguém, mas, no fundo, estava com um certo medo.
Foi até a cozinha. Usava uma camiseta velha que trouxera consigo do apartamento. Um abadá de um camarote do carnaval de Salvador, um dos piores dias da sua vida. Com certeza, não era seu tipo de diversão. Faltava refinamento. Também vestia uma calcinha. A mesma desde que chegara. Pegou um pão e um vidro de geleia na geladeira. Tentou girar a tampa, como fazia habitualmente. Sem sucesso. Tentou de novo. Apoiou na pia, tentou usar o pano da camiseta como auxílio. Nada funcionou. “Mas que porra”. Não entendia por que aquele gesto tão banal se tornara tão complicado.
— Mas que porra de mão fraca e pequena. Puta merda!
A voz também não ajudava. Era suave demais para que qualquer xingamento proferido tivesse algum impacto. Suspirou. Lembrou de um velho truque. Pegou o isqueiro e esquentou a tampa por alguns segundos. Depois, usando a camiseta, girou a tampa. Ela saiu facilmente.
— Caralho, já não basta mijar sentado, agora vou ter que viver sem força também — falou quase sussurrando, com medo de algum vizinho escutar.
Após tomar café, com muito esforço, pois considerava o gosto do café coado intragável e não tinha mais a acesso à cafeteira de expresso da sua cobertura, começou a preparar as coisas. A reunião era só à tarde, então poderia tomar o seu tempo. Correr, naquelas circunstâncias, seria uma receita para o desastre. Abriu, finalmente, o “kit de sobrevivência”. Esperava algo hi-tech, mas se surpreendeu com a banalidade dos itens que estavam guardados ali: Primeiramente, roupas, de todos os tipos: calcinhas, sutiãs, tops, roupas de banho, calças, desde jeans a leggings, camisetas e blusas de vários estilos, vestidos, de festa, casuais, formais, saias plissadas, rodadas, curtas, longas. Um guarda-roupa completo, para qualquer ocasião. Maquiagens, esmaltes, e outros produtos de beleza, que ele sabia que precisaria procurar tutoriais na internet para usar. Alguns brincos (as orelhas já vieram furadas), colares e pulseiras. Tudo bijuteria, mas bonitas. Itens de higiene pessoal. Absorventes, sabonete íntimo, hidratantes, etc. Não faltava nada. O Doutor Keller havia realmente pensado em tudo.
Tirou a camiseta. Começou a testar as roupas. Viu um vestido bonito, estampa floral. Gostou da simplicidade de vestir. Mas o decote em v e as alcinhas eram um pouco reveladores, não se sentia confortável em mostrar aqueles volumes ainda, por mais que nem fossem tão grandes. Achou que seria estranho demais usar saia. Decidiu, então, ficar só no básico de camiseta e calça por enquanto.
Despiu-se. Precisava enfrentar o horrendo desafio de tomar banho. Ligou o chuveiro. Esperou a água esquentar. Testou, esticando o braço esquerdo até alcançar a água. Esperou mais um pouco. Entrou sob o chuveiro com a água quase queimando a pele. Nunca fora adepto de banhos extremamente quentes, mas agora estava sendo estranhamente confortável. Parecia que aquele corpo pedia aquela temperatura. O que não era confortável era a água fazendo caminhos que Lucas nunca havia experimentado. Por entre os seios, por sobre os quadris, encharcando os cabelos e deixando-os pesados, ou descendo pelo púbis e escorrendo por entre os lábios. Deixava aquela anatomia estranha extremamente pronunciada em sua propriocepção. Sentia, com ainda mais veemência, que estava em território desconhecido.
Tocar naquele corpo trazia um tato delicado, macio. Uma pele suave, como porcelana, meio fria, ainda mais quando molhada. A textura macia da gordura por baixo da pele, principalmente nos seios, bem diferente do corpo de Lucas. Era uma sensação que ele já conhecia e adorava. Mas, experimentar isso de dentro era totalmente diferente. Ao terminar o banho, se secou com delicadeza, pela estranheza de sentir a toalha passando por aquela anatomia.
Enrolou a toalha na cabeça, por sobre os cabelos ruivos molhados. Ficou ali, observando um tempo no espelho, repetindo o ato que fizera na clínica. “O que será que ainda não vi? O que falta aprender sobre esse corpo?”. Como que tomado por um ímpeto, tentando seguir antes que perdesse a coragem, foi até a cama, e mergulhou as mãos na grande bolsa preta do “kit de sobrevivência”, até achar um espelho de maquiagem. Deitou-se na cama, o corpo ainda desnudo em exceção da toalha na cabeça, as pernas dobradas e ligeiramente abertas. Posicionou o espelho por entre elas, segurando com a mão esquerda. Com dois dedos da outra mão, afastou os lábios. Sentiu um ar fresco tocando aquela cavidade. O espelho mostrava, com clareza, aquelas camadas de pele rosada, guardadas por aquelas bandas carnudas que ele afastava com os dedos. Por entre elas, duas bandas de pele mais fina, que se encontravam na parte anterior, formando uma dobra que se assemelhava um capuz. Lucas afastou-o com os dedos, revelando a diminuta glande do clitóris. Ainda estava com receio de tocá-la após o incidente na clínica. Afastando os grandes e pequenos lábios, pode ver um pequeno furo que deduziu que seria por onde saía o xixi, e um outro maior, na extremidade posterior, com uma textura mais complexa. Sabia que era a entrada da vagina. Teve o pensamento intrusivo de talvez introduzir um ou dois dedos, mas se conteve, por medo de doer ou de a sensação ser ruim e estranha demais. Estranhou a ausência do hímen, que deveria proteger aquela entrada. Esse pequeno detalhe o intrigou.
O nervosismo inicial se misturava com um pouco de fascínio. Não era nem de longe a primeira vez que Lucas via uma genitália feminina, mas nunca teve a oportunidade de apenas observá-la assim, de modo a explorar seus detalhes, sem a intenção de satisfazê-la, ou melhor, de usá-la para sua satisfação. Parecia quase um inquérito científico. Era estranho chamar aquilo de autoconhecimento, afinal, não sentia que era propriamente seu corpo. Mas julgou pertinente aquela compreensão. Talvez ajudasse em algo nos próximos meses. Guardou o espelho de volta. Continuou sua preparação para a reunião.
****
— Boa tarde, querida. Pode entrar — Gustavo era o gerente de RH da Rock. Lucas sempre o considerou um homem patético. Feio, gordo, mal nascido. Dotado de um mal gosto para estética e para mulheres. Se esforçava para se integrar com a alta cúpula da empresa, mas, para Lucas, isso nunca seria possível. Não tinha a classe, a testosterona para tal.
Lucas usava uma calça social preta e uma camisa simples da mesma cor. Não teve coragem nem o conhecimento para algo mais elaborado em termos de moda. Apenas passou um batom fosco. Arriscou um delineado, mas não teve a precisão que os tutoriais da internet requeriam. A tentativa de apagar os erros deixou as sobrencelhas levemente esfumadas com a tinta do lápis, o que julgou suficiente.
Gabriel também estava presente. Lucas não sabia exatamente por que ele estava ali. Talvez tentando escalar na hierarquia de novo. Isso, só o CEO saberia responder. A surpresa, porém, era Camila. Não era de tomar parte nessas ocasiões importantes. Não era a dela. Com certeza, Meirelles não a delegaria se não tivesse pedido expressamente, porque não era a primeira, nem a segunda, nem a última opção. E o pior: ela notaria melhor do que ninguém qualquer trejeito ou conhecimento particular de Lucas. A interpretação da personagem Lucia teria que ser muito boa.
— Então, foi difícil achar o endereço? — Gustavo não sabia fazer graça.
— Na verdade, não. Lucas me passou o endereço muito bem.
— O que mais ele te passou? — Camila tinha, de longe, a postura mais séria da sala — Eu acho estranho ele escolher alguém de fora para lhe representar, em vez de alguém de confiança e que conhecesse os projetos da empresa. Mas isso não é culpa sua. Apenas uma observação minha.
Ah, então era isso? Ela estava com ciúmes? Ou tinha a pretensão de alguma ascensão na empresa? Lucas respirou fundo. Queria fulminá-la, mas não podia sair do personagem. Contou “um, dois” mentalmente
— Então, eu fiz isso por…
— Quer água, café, senhorita? É senhorita, sim?
Salvo pelo gongo. Quase pôs tudo a perder com uma gafe. A intromissão de Gabriel era, de certa forma, oportuna. Teria tempo de se recompor e recomeçar a resposta. Notou que ele o olhava meio obstinadamente desde que entrou na sala. Lucas conhecia aquele olhar. Infelizmente, não tinha como avisar o amigo. Restava torcer que seu medo de mexer com alguém acima no organograma da empresa o contivesse, da mesma forma que com Letícia, a secretária de Meirelles. Lucas sabia que, por sorte, Gabriel era burro demais para desconfiar de algo.
— Senhorita, sim. E não quero, não, obrigado… digo… obrigada — era muito, mas muito estranho para Lucas se referir a si mesmo no feminino. Como se tivesse que fazer força para a palavra sair de sua boca — pelo que conversei com lucas, ele quer que suas decisões passem por alguém neutro, sem uma opinião própria sobre os rumos dos projetos, que possa gerar alguma interferência. É apenas uma forma de manter ativa sua presença enquanto está longe. Um avatar. E é menos frio que só delegar as coisas por e-mail. Não é muito comum no Brasil, mas acontece muito em Wall Street e no Vale do Silício. É uma vanguarda e um pouco de modernidade que eu… ele quer trazer para a Rock.
— Então é falta de confiança mesmo — Camila sussurrou discretamente, mas Lucas pode perceber. “Bom que sabe que não confio em você, filha de uma p…”. Teve que respirar fundo de novo.
— Bem, eu tenho plena confiança nas escolhas do senhor Costa. O conheço muito bem. Além de um gestor eficiente, é meu amigo pessoal. Sua presença vai ser muito bem-vinda, e vai trazer muita beleza para o ambiente do escritório.
— Obrigada — deu um sorriso desajeitado.
— No mais — Gabriel continuou — se quiser, posso te explicar como funcionam as planilhas do financeiro. Tenho certeza que Lucas já te deu um Briefing, mas sempre pode ter escapado algo.
“Fui eu que projetei as planilhas, idiota”. Lucas foi enfático:
— Não precisa. Já me familiarizei bem com elas. Lucas foi muito didático.
— Pressuponho que Lucas tenha te informado do nosso dress code, também — Gustavo acrescentou.
Ah, o bendito dress code. Ele estava torcendo para que esquecessem desse detalhe. Talvez aquilo fosse um problema.
— Dress code? — Tentou desconversar.
— Sim. O uniforme feminino é uma camisa social branca, saia lápis de linho, acima do joelho, com fenda traseira, na cor cinza-escuro. Calçado de salto preto, Meia-calça opcional. Estranho o senhor Costa não mencionar isso, ele foi um dos proponentes mais entusiastas do uniforme nas reuniões do conselho diretor. Defendia que valorizar a estética das funcionárias ajudaria a elevar o moral e aumentar o engajamento da equipe.
Claro que Lucas lembrava. Propôs o uniforme porque, ao observar as funcionárias dos escritórios vizinhos, constatou que era o modelo que mais proporcionava uma vista das pernas das secretárias. Agora, era ele quem teria que deixá-las à mostra.
— Entendido. Irei me preparar.
— Bem — intrometeu-se Camila — acho que é tudo, por hoje. Deliberaremos sobre a entrevista. Algum de nós ficará responsável pela sua supervisão aqui na empresa.
“E não será você, obviamente” Lucas pensou. Um e-mail do Nepal resolveria aquilo facilmente. Era só delegar a supervisão a Gabriel.
Levantaram-se. Gustavo se adiantou para cumprimentar a nova colega, apertando-lhe a mão, seguido por Camila. Já Gabriel surpreendeu, pondo as mãos sobre os ombros de Lucas/Lucia e beijando os dois lados de sua face.
— Nos vemos em breve, senhorita.
Lucas saiu. Aproveitou o escritório vazio para seguir até o banheiro sem que ninguém notasse que já sabia o caminho. Precisava repetir aquele hórrido ritual de esvaziar a bexiga. Pôs a mão sobre a porta. Só quando começou a empurrá-la, notou se tratar do banheiro masculino. Parou imediatamente. Olhou para trás, para checar se alguém notara a confusão. Virou-se e entrou no banheiro certo.
Parou diante do espelho. Com as mãos apoiando sobre a pia, contemplou aquele rosto ovalado, pontilhado de sardas, olhos cor de mel, o cabelo ruivo partido no meio da testa, formando duas leves franjas. Respirava fundo. “Então, eu vou ter que ser a Lucia, agora?”
Capítulo 6 — Um dia de trabalho
Lucas acordou cedo no dia seguinte ao da entrevista. Pudera. Agora que não era mais o CFO, o ponto deveria ser cobrado com mais rigor. Tomou seu desjejum e começou a se arrumar. Havia testado algumas maquiagens na noite anterior. Decidiu fazer algo suave, apenas um pouco de corretivo sobre as sardas mais proeminentes e um pouco de blush nas maçãs do rosto. Conseguiu passar o lápis na pálpebra, mas ainda não sentiu segurança em tentar fazer o “gatinho” como o tutorial ensinava. Passou um gloss suave de cor cereja nos lábios. Pronto. Sentia que era o suficiente para ser apresentável, mas sem chamar atenção. Achava que, para cumprir seus objetivos e coletar as informações que gostaria, deveria passar a impressão de ser uma funcionária comum.
Vestiu-se. E aí as coisas não se encaixaram. A blusa branca justa transparecia a silhueta do sutiã. Podia-se espiar os seios por entre os vãos dos botões. A saia deixava a mostra uma certa extensão das pernas. E a fenda atrás mais ainda. Era perceptível que se sentar com ela exigiria certo recato. E o pior, Lucas sabia que aquilo tudo era exatamente o efeito esperado. Não seria nada fácil sair assim. Pelo menos teve a cortesia de liberar o uso de meia-calça, pois as mulheres sempre reclamaram do frio do escritório. Sem problemas. Achava algumas meias-calças sexy também. Vasculhou o “kit de sobrevivência”. Nada. Doutor Keller não pensou em tudo, infelizmente. Teria que comprar em algum momento, mas no começo daquele dia, pelo menos, sofreria com o frio e a exposição.
Pegou um táxi na rua. Conseguira fazer um rabo de cavalo, seguindo um tutorial e comprando um elástico em uma loja chinesa na rua. Mais um lapso do doutor Keller. Ficaram apenas duas pequenas mechas de cabelo caindo de cada lado do rosto, que ele prendeu por trás das orelhas menos de um minuto depois, pois começavam a incomodar. Mal fechou a porta e ouviu os cumprimentos do motorista.
— Bom dia, linda. Para onde vamos?
Lucas gelou. A fala do motorista o pegou completamente desprevenido. Nunca em sua vida havia sido abordado daquela forma por alguém na rua. Teve um pouco de medo de aquele homem tentar fazer algo. Ao mesmo tempo, sabia que, se o reprimisse, estaria sozinho em um carro trancado com alguém mais forte. “Preciso que Keller arrume uma carteira de motorista para a Lúcia. Vou comprar um spray de pimenta, também”. Passou o resto da viagem com as pernas bem fechadas, contemplando aquela falta sensorial entre as coxas.
— Deu 50, princesa. Como vai pagar? — Nem mesmo após o fim da corrida o homem se conteve. Foi um alívio sair daquele automóvel — tchau, bebê. Tenha um bom dia.
Andou meio constrangido a pequena distância da calçada até a porta do prédio. Os calcanhares bambeavam como um bambu fino. Ainda não se acostumara ao salto. Notava que alguns homens a olhavam, uns brevemente, outros a encaravam por alguns longos segundos. Bem diferente de antes, quando, na maioria das vezes, passava como um fantasma por ali. O único olhar que recebia vinha do canto do olho de outros executivos, corrigindo a rota para não se trombarem na calçada, ou o breve “bom dia” do segurança na porta.
Lucas ia atravessado o pequeno degrau antes da entrada do prédio. Quase que imediatamente ao levantar a perna, sentiu o tecido da saia subindo por sobre sua coxa, revelando um pouco mais de pele. Seu rosto corou. Teve a impressão de que o segurança deu uma olhada mais vistosa. Tentou discretamente e ligeiramente esticar a barra da saia enquanto seguia em um passo ligeiro até o elevador.
****
Lucas passou boa parte da manhã revisando as planilhas de orçamento. Era um trabalho tedioso, mas queria ter certeza de que não havia nada de errado. Nada que custasse o grande contrato do Pix. Se algo desse errado por sua causa, iria de herói a vilão em um piscar de olhos. Como tinha acesso à sua antiga sala, não havia como alguém observar e questionar o que estava fazendo.
Só havia um problema: estava caindo de sono. Dormir naquele corpo havia se provado uma tarefa difícil. Os seios e os quadris exigiam negociar com a cama e procurar posições que melhor acomodassem sua forma. Frequentemente, isso levava horas, ou todo o esforço era depreciado por movimentos involuntários durante o sono. Resolveu fazer uma pequena pausa para buscar um café. Mal saiu e deu de cara com Gustavo, do RH.
— Bom dia, senhorita. O uniforme caiu muito bem no seu corpo. Como está se adaptando ao trabalho?
— Bem, eu acho — Lucas deu um sorriso mecânico — só estou achando o ar-condicionado um tanto gelado…
— Ah, aqui é assim mesmo, meu bem. As meninas sempre reclamam. Vista uma meia-calça amanhã, deve ajudar a segurar o frio um pouco.
— É… vou aderir… obrigada — Lucas já estava ficando sem graça.
— Um café ajuda, também. Se quiser, te mostro como operar a máquina.
Lucas deu um passo para trás.
— Não precisa. Parece bem intuitivo — realmente era. Apenas posicionar o copo e pressionar a tela.
— Fique à vontade m’lady. Se precisar de algo, pode me procurar — Gustavo sorriu e fez arminhas com os dedos. Lucas se segurou para não revirar os olhos. Não podia perder o personagem. Apenas sorriu de forma discreta, apertando os lábios, e repetiu o gesto timidamente.
Dirigiu-se à máquina de café. Como qualquer executivo no mundo, os membros da alta cúpula da Rock Pagamentos se apresentavam como legítimos cafetófilos. Douglas meirelles havia comprado uma máquina industrial da Nespresso, do mais alto luxo, para potencializar o teamwork. Era abastecida todas as manhãs com grãos de dulsão Madagascar, torra média. Oferecia notas de avelã e canela do Ceilão, e deixava um final de baunilha. Lucas considerava um blend decente, apesar de ter uma preferência pelos grãos nacionais. Sabia, porém, que o catálogo internacional agregava valor à cultura do escritório.
Ao chegar, notou que não estava desacompanhado. Gabriel fitava meio de lado, um sorriso de canto de boca, apoiado na parede e segurando um copo.
— Bom te ver, Lucia. Precisa de ajuda com a máquina?
— Não, obrigada. Acho que já peguei o jeito.
Gabriel deu um passo a frente. O sorriso abriu mais.
—É sempre bom ter gente nova e inteligente por aqui. Conte-me mais sobre você? Quantos anos tem? Que tipo de música gosta de ouvir? Curte sair, bar, balada?
Lucas não queria deixar Gabriel muito confortável. Suas intenções eram bem óbvias, até porque ele mesmo já havia performado a mesma abordagem na máquina de café. Mas ele se saía melhor. Ao mesmo tempo, sabia que rebater de uma forma muito dura geraria problemas. Era a etiqueta da empresa.
— Ah, não muito — sorriu discretamente — sou uma pessoa mais quieta. E acho que, em termos de música, gosto de tudo.
— Eu gosto muito de rock progressivo, sabia? Conhece Pink Floyd? A “música do helicóptero” deles é ótima. É só uma pena que o Roger Waters começou a usar os shows para fazer política. Às vezes é até bom ele não tocar mais…
Lucas percebeu a chance de terminar aquela conversa. Conhecia bem o amigo. Sabia como poderia desarmá-lo de forma sutil.
— Conheço, sim. Você está falando de The Happiest Days of Our Lives, que emenda em Another Brick in the Wall, parte dois. Eu gosto muito do conceito do álbum The Wall. Praticamente uma ópera-rock.
O sorriso de Gabriel murchou. Lucas sabia que ele perdia o cool quando não estava mais por cima da situação.
— Bom… que legal que conhece. Você tem bom gosto — Gabriel retirou da carteira o seu cartão. O fundo na cor light bone, com a marca d’água da empresa, seu nome e número de telefone impressos na fonte Silian Rail — se precisar de alguma coisa do seu supervisor, mande uma mensagem. Será um prazer te responder.
Tinha mais essa. Ele ainda seria o supervisor. Era um mal menor que Camila, mas ainda ruim. Agora, sozinho na máquina, Lucas podia beber seu café em paz.
Deu o primeiro gole. Fez uma careta. O gosto amargo quase fechou sua garganta. Não podia ser. Meirelles nunca deixaria o café estragar dentro da máquina. A tratava como sua filha. Deu outro gole. Não era o café. Era ele mesmo. “Agora eu não gosto mais de café? Mas que porra… essa tortura ainda vai piorar?” esbravejou mentalmente. Por sorte, estava sozinho. Cometeu o pecado mortal de despejar todo o conteúdo de um saquinho de açúcar na bebida. Só assim para torná-la suportável.
****
No dia seguinte, Lucas se dirigiu à copa durante o horário de almoço. Adotou o hábito de trazer marmitas de casa e esquentá-las no micro-ondas, o que considerava de extremo mal gosto, além do fato de não saber cozinhar direito. Na sua cobertura, delegava o preparo da comida à sua IA pessoal, que operava aparelhos automatizados na cozinha. Não queria, porém, se aventurar muito pela vizinhança com aquele corpo.
No dia anterior, pode almoçar sozinho. Agora, porém, Encontrava companhia. Três mulheres. A mais velha, Carla, cerca de 50 anos. Lucas não a via muito. Sabia apenas que era uma subordinada da equipe de Gabriel. Fazia uma expressão meio chorosa.
— É por causa da minha cor, não é, Camila?
— Eu espero que não seja, querida. Senão teremos problemas sérios aqui. Mas dessa empresa eu espero tudo — Camila tinha a expressão séria e determinada de sempre.
A terceira mulher era Marina, a “menina do TI”. Pálida, magra, cabelos lisos curtos que não chegavam aos ombros. Tinha uma aparência pronunciadamente mais jovem que as outras duas. Mais até que a da Lucia. Mexia em um quebra-cabeças que se assemelhava a um cubo mágico, mas com muito mais lados e cores. Um “icosaedro mágico”, por assim dizer. Não falava muito. Observava a conversa na maior parte do tempo.
As três mulheres demoraram um pouco para perceber a nova presença na copa. Lucas teve medo da reação de Camila, principalmente após a reunião. Mas a reação foi inesperada. Camila abriu um sorriso. Falou em tom convidativo.
— Bom dia, Lucia. Sente aqui com a gente.
Carla ia se levantando da mesa. Lucas sentou em seu lugar.
— Bom, não vou amolar mais vocês. Deixe-me ir
— Você não amola, querida — Marina falou em um tom baixo, mas singelo.
— O que houve — Lucas perguntou, entrando no personagem e tentando expressar preocupação.
— O que houve? — Camila adotou um tom sério — O que acontece todo dia nessa empresa. A gente é explorada, assediada, trabalha que nem um burro de carga por uma mixaria. Eu fico preocupada com você. Eu não sei onde o lucas te achou. Mas, isso aqui, minha filha, é o inferno.
Lucas já conhecia aquela afronta. Não ia sair do personagem, mas não queria perder a oportunidade para alfinetar.
— E por que você ainda trabalha aqui, então?
— Pra não morrer de fome, né? Aqui eu faço o trabalho de cinco, sou praticamente a secretária daquele… me desculpe, porque ele te contratou… mas, daquele cachorro do Lucas. Ele não deve saber nem trocar a cueca se eu não ajudar. Além de ser gerente do financeiro, e outras coisas.
— Isso sem contar tudo o que eu faço — Marina entrou na conversa, finalmente.
— Pois é! Essa menina cuida do back end quase sozinha. Tem coisa que só ela mexe. E ainda pagam ela como analista júnior. Essa empresa não tem trinta funcionários. A coitada da Carla tá sofrendo um assédio moral danado do Gabriel. Ele comanda uma equipe de três pessoas e se acha o fodão por isso. Por isso ela estava chorando.
De fato, a folha de pagamentos era enxuta. De outra forma, o projeto do Pix não caberia no balanço. Travar o orçamento de pessoal, impedindo novas contratações, foi necessário para alocar o montante necessário para o desenvolvimento. Fazia parte do “milagre” alcançado por Lucas que fez a empresa entrar nos requisitos da licitação. Mas, de certa forma, ele achava que eram os ossos do ofício. Quem não desse conta podia pedir pra sair. Apertou os lábios discretamente.
— Mas, deixando isso de lado, estamos curiosas. Conta pra gente como o Lucas te achou.
— É, bem… — teve que inventar algo na hora. Não esperava esse tipo de pergunta naquele momento — a gente se conheceu no LinkedIn e…
— E rolou alguma coisa? — Marina deu um sorriso malicioso.
— Marina! Respeite a colega — Camila repreendeu a amiga — mas… é isso: Estamos curiosas. Ele fez alguma proposta nesse sentido?
— Nossa, meio invasivo, não? — Lucas corou — e não, não rolou nada. Ele foi extremamente profissional. Muito educado.
— Caramba, pelo visto ele está evoluindo — Camila continuou — bem, eu notei a conversa que o Gabriel teve com você esses dias no cafezinho. E o jeito que ele e o Gustavo falaram com você na entrevista. Aliás, por que o Lucas iria querer delegar a sua supervisão pra ele? Por que se importa com isso? Toma cuidado com os homens nessa empresa, tá bom?
Lucas se sentia bastante ofendido. Claro, já havia se relacionado com colegas, e não poucas. Mas Não via mal nisso. Todos os relacionamentos foram consentidos. Elas poderiam simplesmente dizer não. Queria dar uma resposta. Mas Camila parecia aberta. Se aproximar dela poderia render informações. Ela poderia baixar a guarda futuramente e deixar escapar algo sensível. O melhor era que Lucia se fizesse de desentendida.
— Como assim?
— Ah, Lucia — Marina respondeu meio tímida — você é… com todo o respeito… uma mulher jovem, atraente, bonita. Esses canalhas não se aguentam. O cérebro deles deve ficar na cabeça de baixo.
— Pois é — Camila aproveitou o fio — é complicado falar tanto aqui. Lucia, é estranho dizer isso pra alguém que eu mal conheço, mas eu enxergo algo positivo em você, de verdade. Mas não sei explicar o quê. Você me parece ser uma boa pessoa. Que tal a gente sair pra almoçar qualquer dia? Aí eu te boto por dentro dos podres de todo mundo. Te deixo preparada pra tudo.
Lucas se entusiasmou. Estava dando certo. Sorriu.
— Mas que gentileza. Aceito.
— Combinado. Bem-vinda a Rock, e boa sorte!
Capítulo 7 — Revelações
— E então, Lucas? Como tem sido? Está se adaptando? — Keller sentava relaxado em sua cadeira. Ostentava o sorriso e a leveza que Lucas já conhecia.
— Bem, doutor. Acho que sim, aos poucos. Preferia mil vezes ter meu corpo de volta. O meu… você sabe.
— Tudo a seu tempo, Lucas. Estamos trabalhando muito bem. Infundimos a primeira dose da medicação ontem. Até agora, está tudo estável. Não se preocupe. Foque no que está a seu alcance agora. Tem algo que eu possa te ajudar?
— Ah, tem a coisa do café.
— Sim, sim. Bem, como posso explicar? Você tem seus gostos, suas preferências, e elas ficam no seu cérebro. Mas a reação do cognitivo é mediada pelo sensorial. Você está em um corpo diferente, é lógico pensar que vai ter uma sensibilidade diferente. De paladar, de tato, de temperatura. Não é um crime beber café com açúcar. Não tem problema nenhum se adaptar temporariamente. Daqui a pouco está tudo de volta ao normal.
— Entendo doutor. Bem — ele se sentou mais ereto na cadeira. Mais tenso. Cruzou as pernas bem fechadas, por sobre a longa saia preta que usava, pois achou as calças jeans femininas apertadas demais — eu tenho umas perguntas sobre… lá embaixo. Eu andei, como posso dizer, explorando.
— Isso é normal — Keller sorriu discretamente — é um autoconhecimento. Vai te ajudar a entender melhor e a enfrentar esse período.
— Bem, uma coisa que eu notei: eu não… digo, esse corpo não é… virgem?
— Lucas — Keller retornou à tranquilidade. Buscava acalmar o paciente — fazer um corpo sintético é um grande desafio para a bioengenharia. É natural que alguns detalhes possam ser relativizados. O corpo funciona perfeitamente. Não faz falta nenhuma. Não se preocupe com isso.
Lucas se acalmou um pouco. Mas ainda era estranho demais ter aquela conversa. Keller também não ajudou muito com a próxima pergunta.
— E então? O que sentiu durante essa exploração?
— Eu? — Lucas franziu a testa — acho que curiosidade, talvez. Nervosismo, como se tivesse mexendo em algo que não é meu, mesmo dentro desse corpo… bem. Acho que só. Nunca imaginei que um dia iria olhar e tocar um corpo feminino e não sentir tesão ou prazer — ele se agitou um pouco — eu acho que sinto falta disso. Sexo, prazer, sempre foram importantes para mim, sabe? Ficar distante do que me faz poder experimentar essas coisas está me fazendo mal.
Keller se projetou para frente. Sorriu.
— Mas quem disse que você está distante? Acha que um corpo de mulher não pode proporcionar isso?
Lucas deu um pulo na cadeira.
— O que? Você quer que eu… sinta prazer assim? Eu nem saberia por onde começar.
— experimente aos poucos. É um corpo perfeitamente funcional. Uma hora você chega lá, não se preocupe.
Lucas corou ao ouvir aquilo. Considerou um absurdo a hipótese de sentir prazer em um corpo feminino. O completo oposto de sua masculinidade. Fazer qualquer coisa sexual naquelas circunstâncias parecia ferí-la. Inadmissível.
O doutor se levantou da cadeira. Pôs-se a caminhar em direção à porta do consultório. As mãos dentro dos bolsos do jaleco branco.
— Venha comigo, Lucas. Quero te mostrar uma coisa. Acho que vai te animar.
Lucas levantou. Seguiu Keller pelo corredor de paredes azuladas até o elevador. Desceram até o subsolo da clínica. Outro corredor os levou a uma enfermaria. Possuía cerca de oito nichos enfileirados, cobertos por cortinas. Ouvia-se o chiado e os bipes de aparelhos médicos trabalhando e monitorando por trás de algumas delas. Keller conduziu Lucas até o último nicho, perto da parede.
— Prepare-se, Lucas.
Keller puxou a cortina. E lá estava o corpo. Deitado, imóvel, sobre uma maca. Nu, com um lençol cobrindo-o do umbigo para baixo. Eletrodos monitoravam seus sinais vitais. Um tubo entrava pela boca, responsável pela respiração. Fluidos corporais eram coletados por uma sonda. Outros fluidos eram inseridos por um catéter no pescoço. Um emaranhado de fios e tubos conectavam aos monitores, ao respirador e às bombas que mantinham o fluxo das garrafas de soro.
Lucas começou a hiperventilar. Foi um choque se ver assim, de fora. Frágil. Inanimado. À mercê da medicina e dos aparelhos. Sentia sua existência e identidade sobre uma corda bamba. “Isso não está me animando, doutor”.
— Está vendo, Lucas? Está tudo bem, tudo sobre controle.
— Não é essa a impressão que tenho — a voz quase não saía, estava ofegante.
— Fique calmo. Eu sei que pode não parecer para alguém leigo, mas está tudo correndo bem. Essa é a mais alta tecnologia. Você retornará em breve.
Lucas respirou fundo. Como o doutor falou anteriormente, não era algo que estava mais sob seu controle. Deveria confiar. Tentou mudar de assunto, não pensar tanto no que via em sua frente
— E o que acontece com esse corpo quando eu voltar?
— Você vai ver.
Passaram então a outra sala do subsolo. Uma sala menos iluminada e muito fria. Montadas nas paredes, algumas cápsulas de metal branco. Pequenas escotilhas de vidro permitiam ver uma densa névoa no interior delas. Em algumas, percebia-se, por entre a névoa, a silhueta de uma cabeça. No centro, uma mesa de metal com um lençol branco, que claramente cobria um corpo
— É aqui que os corpos sintéticos ficam armazenados antes dos procedimentos. Em um ambiente controlado, antes de serem ativados — descobriu a cabeça. Um rosto feminino, pálido, nariz e queixo fino. Cabelos lisos e bem pretos — esse aqui está sendo preparado para o nosso próximo paciente. Um homem com câncer de pâncreas terminal. Não falo mais detalhes pelo sigilo que nos comprometemos.
Era uma visão um pouco macabra. Mas ajudava a passar um pouco mais de credibilidade. Tudo parecia muito avançado. Lucas admirou por alguns segundos, antes de ter que sair rápido por causa do frio.
Seguiram até uma porta metálica no final do corredor. Ali o ambiente mudava completamente. Uma parede grossa de tijolos. A temperatura era bem mais elevada. Lá dentro, uma caldeira com uma escotilha circular. O fogo que saía iluminava toda a sala. Um carrinho sobre trilhos com a tampa da escotilha estava posicionado. Um corpo coberto por um lençol sobre ele.
— E é aqui que cremamos os corpos após seu uso. Para não gerar risco biológico — Keller empurrou o carrinho, dando destino final ao corpo e tampando a escotilha.
Lucas sentiu um pouco de aflição naquela sala. Eram corpos sintéticos e provisórios, mas ainda era estranho. Quase como cremar um ser humano real. Estranho pensar que o corpo que agora habitava terminaria ali também. Não queria se apegar, mas também não conseguiu relevar aquele pensamento.
Voltaram ao lobby. Keller pegou uma prancheta.
— Eu já ia me esquecendo. Para a sua carteira de motorista, preciso que assine esse papel. Vou dar entrada nos documentos e te entregarei em breve.
Lucas pegou uma caneta sobre a mesa, com a mão esquerda. Assinou na linha determinada. Despediu-se. Pegou um uber de volta para casa, onde iria se arrumar para voltar ao trabalho, após almoçar com suas nem tão novas colegas.
Ainda estava estranho. Muita informação para processar de uma vez. O impacto de ver seu antigo corpo. A possibilidade de sentir coisas naquele estado. Toda a estrutura. Mas, por fim, um pensamento peculiar tomou sua mente e o intrigou mais ainda. “Espera aí, eu assinei aquele papel com a mão esquerda?”
****
Lucia, Camila e Marina resolveram almoçar em um bar descontraído na Praia do Flamengo. Um pouco afastado do escritório, mas a caminhada extra protegia de qualquer entreouvido. Sentaram-se uma mesa na calçada. O vento fresco balançava as abas do guarda-sol por sobre a mesa. Não era exatamente um dia bonito, mas ainda dava para aproveitar o ar livre. Marina tirou a camisa, pendurando-a no encosto da cadeira, e revelando uma blusa preta por baixo.
— Você não está com frio? — Lucas tentou quebrar o gelo.
— Não. Não sinto muito frio em geral
O clima entre elas parecia leve, como se já convivessem há muito tempo Fizeram seus pedidos. Observaram o ambiente por alguns segundos. Novamente, Lucas tentou puxar conversa.
— E então, o que vocês queriam me contar?
Camila se aproximou da mesa, como se tentasse falar sem que ninguém de fora ouvir.
— A gente quer te alertar. Essa empresa tem uma cultura extremamente tóxica em relação Às mulheres. Os homens aqui são predadores. Todos eles. O Lucas e o Gabriel são os piores. Não podem ver uma funcionária nova.
— O Meirelles também, mas é mais discreto — Marina retrucou.
— Ele é até a página dois. A Letícia, secretária nova, já entrou na roda.
Lucas estava resignado. Não queria um segundo round da conversa da copa, para ser golpeado de indiretas por Camila. Mas não sabia como reagir.
— Não foi essa a impressão que eu tive do Lucas — falou em um tom sério.
— Menina, você não sabe de nada, inocente. O Gabriel já começou com você. Chega com uma conversinha mole, daqui a pouco chama pra sair, dá uns presentinhos, pede uber black pra você voltar pra casa… daqui a pouco está na cama dele. E sabe o que acontece depois? Te descarta, vai atrás de carne nova. E se você falar algo, ou atrapalhar a sua produtividade, é rua. Ah, e tem o Gustavo. Os homens da empresa desprezam ele, então ele tenta chamar a atenção sendo o cafetãozinho das meninas. Dá pitaco em roupa, maquiagem, manda sorrir e ser simpática.
Lucas estava petrificado. Apertou os lábios. Apertava o antebraço com uma das mãos por baixo da mesa. Não sabia o que responder. Afinal, não tinha uma única mentira saindo da boca de Camila.
— Eu achei muito estranho o Lucas mandar um e-mail da puta que pariu pedindo pro Gabriel ser seu supervisor. Fiquei preocupada. Acho que tem coisa aí. Eles devem estar armando algo para você. O Lucas está levantando pro Gabriel te cortar.
O sangue de Lucas ferveu. “Que afronta”, pensou. Isso nunca aconteceria. Nem em circunstâncias normais. Nunca que ele ajudaria Gabriel a competir com seu body count.
— E você não tem medo de eu contar isso pra ele?
— Não. Primeiro, porque imagino que você não é esse tipo de pessoa — Camila ficou séria — e segundo, porque ele já sabe de tudo isso. Sabe o filho da puta que ele é. E não pode fazer nada. Sabe por quê? Porque eu sei os podres daquele homem, minha filha. Se ele tentar alguma coisa eu acabo com a vida dele.
— Podres? — Lucas ficou tenso. A conversa foi para uma direção que, apesar de não ser inesperada, era temida. Sabia exatamente a história que Camila contaria. Nenhuma novidade. Mas queria ouvir da boca dela — que podres?
— Ah, ela não sabe ainda — Marina deu um sorriso irônico.
— O Lucas é meu ex, Lucia. Eu caí nesse golpe quando entrei aqui — Camila suspirou — na verdade, não teve um pedido de namoro concreto. A gente ficou por um pouco mais de um ano. Eu sei que foi de longe o relacionamento mais longo dele. Ele sempre me disse que raramente saía mais de duas vezes com a mesma pessoa. Não sei o que ele viu em mim, se queria algo diferente ou sei lá.
— Caramba — era realmente diferente para Lucas ouvir isso daquela forma. Inicialmente, achou que não faria a menor diferença em como enxergava a situação. Mas era claro que tinha deixado uma ferida profunda no coração dela.
— No começo, era muito bom — Camila continuou — ele me tratava bem, me levava nos lugares que eu gosto, e… era muito bom na cama. Acabei virando uma pessoa fundamental na vida dele, até mesmo no trabalho. Mas, depois, começou a mudar. Começou a ficar frio. E ciumento. Passou a me perguntar sempre onde e com quem eu estava. Queria mandar nas minhas roupas, na minha rotina. Eu também comecei a ser mais cobrada no trabalho e fiquei muito cansada. Até que peguei o telefone dele e vi as conversas picantes que ele mantinha com a menina nova do marketing. Ali acabou. Disse que a Rock inteira iria saber. Acho que por isso subi tão rápido. Ele deve ter usado a influência para tentar calar a minha boca. Vai saber…
Sinto muito por isso, Camila — o arrependimento era genuíno. Camila era bem diferente da maioria das pessoas que Lucas convivera durante a vida. Tinha, genuinamente, uma bondade e uma sinceridade no coração. Não ligava para dinheiro, status ou aparência. Ele achou que poderia ser a pessoa para finalmente parar e criar uma família, como seu pai sempre lhe aconselhara. Traumas do passado… achava uma pena deixar ela escapar. Mesmo não se acostumando com a vida a dois. Se acostumou a ser solteiro. Mas, agora, não dava mais para voltar ao passado. O garçom servia os pratos e as três estavam com fome.
— Não tem problema, Lucia. Foi bom botar para fora um pouco.
— O assunto pesou, né? — Marina falou em tom jocoso — vamos comer e tentar distrair disso.
— Certo, amiga — Camila seguiu o tom — coma logo pra voltar e brincar com seu pogobol.
— Meu o quê?
— Não é com isso que você mexe? Pogobol?
— É COBOL, amiga — as três riram
— Eu sei, mulher. Estou zoando.
Fantasma,
Pra começar com sinceridade, a imagem me deixou indisposto com o texto. Achei que entregava muito, e além disso os traços impecáveis do personagem parecem mais exaltar do que criticar a padronização da beleza, que previ (com razão) ser objeto de crítica ao longo do texto.
Acontece que essa mesma impressão negativa inicial, ao colocar as expectativas lá embaixo, surtiu um efeito curioso: gostei bem mais do texto do que o esperado. Há um humor bem dosado (por exemplo, na elipse do banho demorado), uma aproximação inteligente ao universo empresarial contemporâneo. Nota-se uma pesquisa de vocabulário, de objetos significativos, marcas, hábitos. Por vezes a coisa fica um pouco esquemática, sobretudo na caracterização dos personagens, mas entendo que isso poderá ser colocado em crise ao longo do romance, para que você tenha criaturas palpáveis, não apenas tipos. Esse mesmo esquema também oferece o risco de que seu romance fique parecido a tantos outros que mesclam sci-fi com crítica social (a meu ver, muitas vezes moralistas e conservadores).
Gostei muito de uma passagem em que você diz assim: “Queria contemplar o dia que mudaria sua vida para sempre.” É inteligente, porque se mesclam as razões do personagem com as do narrador. O narrador sabe que as razões da mudança são outras, mas o personagem ignora. Acho que pode explorar mais jogos linguísticos desse tipo, pois dão força à prosa, que sem trabalho miúdo corre o risco de ficar apenas em função da entrega do enredo.
No mais, gostei de ler e quero saber como a coisa continua. Até a próxima!
Fantasma, você criou uma trama de ficção científica original.
Os personagens estão bem construídos e o texto flui relativamente bem. Às vezes dá uma travadinhas, exagerando nas marcas de relógio ou nas transições pela cidade. Nada crítico.
Uma revisão é necessária para eliminar os pequenos erros de digitação. Por exemplo, “estãoatacando os neuroreceptores de NMDA” .
Acho que você fez uma abertura que permite explorar a história do protagonista por diferentes ângulos. Considero um ponto bem favorável para manter o texto interessante.
Esse texto me lembrou um encontro improvável entre American Psycho, Frankenstein e A Metamorfose, mas atravessado por uma estética muito brasileira, corporativa… A forma como o Lucas é construído: ele não é só um personagem arrogante, ele é quase um símbolo de um capitalismo narcísico que acredita ter controle absoluto sobre o corpo, sobre o dinheiro e até sobre o próprio destino. E justamente por isso o “tiro na cabeça” funciona tão bem como título, uma execução simbólica daquela masculinidade performática que ele cultiva obsessivamente.
A tecnologia no texto não aparece como algo futurista no sentido brilhante da ficção científica clássica, mas como uma continuação grotesca do presente. Os espelhos inteligentes, o PIX evoluído, os corpos sintéticos, tudo parece muito plausível e próximo, quase sufocante. Isso me lembrou muito Black Mirror,.
Iinteressante como o texto brinca com o horror corporal de uma maneira quase filosófica. Quando Keller fala sobre o corpo ser apenas um “avatar”, imediatamente pensei no paradoxo do barco de Teseu, mas também em O Retrato de Dorian Gray. Só que aqui não existe beleza eterna: existe a manutenção desesperada da identidade através da ciência. O terror não está em morrer, mas em deixar de ocupar o lugar social que Lucas construiu para si mesmo. O corpo feminino vira, para ele, uma espécie de fantasma antecipado.
CRÍTICA APÓS LEITURA DO ATO I
Fala, Felipe. Tranquilo? Ficam aqui as impressões:
Esse texto tem energia e uma premissa genuinamente interessante. Antes de entrar nos pontos específicos, preciso dizer que a escolha de estruturar o romance em torno de uma transferência de consciência para um corpo feminino como dispositivo narrativo tem potencial real, especialmente se a intenção for explorar questões de identidade, gênero e corpo. A primeira etapa ainda não deixa claro se essa é de fato a intenção.
A abertura em torno de Lucas é competente. Você instala o personagem com eficiência, e o ambiente da fintech com seu verniz de modernidade e competição tem verossimilhança. A relação com Camila funciona bem como tensão latente, especialmente a cena em que ela para sob a moldura da porta e diz você sabe que não pode, que carrega história sem explicá-la. Esse é o melhor momento do capítulo.
O colapso durante o discurso tem boa mecânica dramática, e o último pensamento de Lucas antes de apagar, a preocupação com a secretária, é um detalhe de personagem que revela muito com economia.
O problema do capítulo é que Lucas é apresentado quase exclusivamente por marcadores de status: o Armani, o Tag Heuer, o BMW, os dezoito centímetros e meio. Entendo que a intenção é retratar um homem definido por posses e aparência, e isso é uma escolha legítima. Mas para que o leitor acompanhe com interesse a jornada de um personagem assim, precisa haver algo além da superfície que justifique a atenção. Por ora, Lucas é uma coleção de atributos, não uma pessoa. A doença vai ser o catalisador para aprofundá-lo, o que é válido estruturalmente, mas o capítulo 1 deixa muito pouco para se agarrar antes de isso acontecer. Talvez valha alguns ajustes na etapa 2.
A conversa sobre a secretária entre Lucas e Gabriel também merece atenção. Ela cumpre uma função de caracterização, mas o tom vai além do desconfortável de forma que pode alienar o leitor antes que ele se engaje com a história. É uma escolha que você precisa fazer conscientemente: se o objetivo é mostrar um homem que precisa ser desconstruído, tudo bem. Se é apenas textura de personagem, corre o risco de cansar antes de engajar. Eu, particularmente, gostei da escolha, mas estou apontando aqui que pode ser um risco para alguns leitores.
A cena do hospital funciona melhor que o capítulo anterior. O doutor Keller tem uma presença interessante, com aquela calma calculada que sugere mais do que diz. A cena na praia do Flamengo é o momento em que Lucas mais se parece com um ser humano real, e você acertou em deixá-la respirar. O jato contornando o Pão de Açúcar como razão para não se atirar é uma imagem bonita e contida. Gostaria de ver mais e mais desse seu estilo narrativo aqui na próxima etapa.
A revelação do transplante de consciência é onde o texto precisa de mais cuidado. A premissa científica é apresentada com uma velocidade que não deixa o peso da proposta pousar no leitor. Lucas processa em segundos o que seria uma ruptura total com a realidade que conhece. A resistência dele é legítima e cômica, mas é resolvida rápido demais. O momento em que ele liga para Keller após ver o álbum de fotos tem boa motivação emocional, a memória da tia acamada é eficaz, mas a transição do desespero à decisão ainda poderia ganhar mais tempo e textura. Eu sugeriria aproveitar o amplo limite de palavras para dar mais peso a isso.
A conversa com Gabriel é o trecho mais fraco da etapa. Ela existe para que Lucas se despeça do mundo sem revelar nada, o que é uma função narrativa legítima, mas a cena não entrega mais do que isso. Gabriel é por ora apenas uma função, não um personagem.
A sequência da preparação para o procedimento funciona melhor. O apartamento de Copacabana como disfarce, a decisão de espionar a empresa na forma feminina, a despedida no espelho. Esse é o Lucas mais interessante do texto, o homem que até na véspera de uma transformação radical está pensando em poder e estratégia corporativa. Há algo simultaneamente cômico e patético nisso que o romance pode explorar muito bem. Gostei bastante disso. É bem original.
O centro cirúrgico e o encerramento do ato têm boa tensão, e terminar no propofol e na contagem regressiva é uma escolha de final de ato que funciona.
APANHADO GERAL
A premissa é sólida e a estrutura da primeira etapa cumpre sua função de instalação. O que vai definir o que esse romance pode ser é o que você faz com Lucia, que presumo ser o nome que Lucas escolherá para o corpo feminino, o que também dá o título ao romance.
A questão central que o texto vai precisar responder, e quanto antes melhor, é o que a experiência de habitar um corpo diferente vai revelar sobre Lucas que ele não poderia ter descoberto de outra forma. Se a resposta for apenas que ele vai aprender a respeitar as mulheres depois de ser tratado como uma, o romance vai funcionar como sátira mas vai ter um teto baixo. Se a resposta for mais complicada do que isso, se a experiência revelar algo sobre identidade, sobre a relação entre corpo e consciência, sobre o que Lucas realmente é sem os marcadores de status que o definem, o texto tem potencial para ser muito mais. Mas atenção para fugir dos clichês!!! Há muitas histórias com premissas parecidas.
Keller é um personagem que ainda guarda muitas perguntas. Aquela clínica sem janelas, o enfermeiro intimidador, a proteção total de identidade. Há algo funcionando nas margens da narrativa que ainda não se revelou, e isso é um dos elementos mais interessantes da etapa.
No geral, é uma abertura promissora. Agora é com a Lucia.
Parabéns, Felipe!
Olá Fantasma!
Terminei de ler a primeira parte do Romance na semana passada, mas só agora consegui organizar os comentários.
Fique à vontade para dar esclarecimentos e explicações sobre o meu ponto de vista aqui. Como meu conhecimento em português está bem abaixo da média dos demais autores/leitores aqui, busco focar mais na minha experiência como leitor. Como isso acaba sendo um tanto pessoal, espere críticas que talvez não façam sentido para você, mas que foi a experiência que tive ao ler o texto.
Inclusive estou sendo bem critico, pois acho que posso ajudar mais assim. Mas deixo claro que gostei do texto e achei a proposta bem interessante!
Visão Geral:
Achei o texto um pouco truncado. Há um foco em detalhes das aparências e vestimentas dos personagens de forma a descrer um pouco a sua personalidade e o que se esperar deles que é bem interessante, mas pode ser um pouco mais trabalhada. Não sei se é proposital, mas achei os personagens um pouco caricatos, exagerados dentro de um estereótipo.
Além disso o texto carece de uma revisão mais aprofundada, com alguns erros bobos de pontuação. Nada que atrapalhe a experiência ou que vá impactar o texto final, já que isso aqui é apenas o começo de algo muito maior.
Gostei de ideia e do tema e, por conhecer o Rio de Janeiro, a ambientação ficou muito boa para mim. Talvez para quem não conhece a cidade valha a pena dar detalhes da região, esclarecendo o motivo da escolha (que para mim foram certeiros!), como a clínica escondida em Botafogo ou o Nosso Bar em Ipanema.
O modo como a história começa a se desenhar a partir do Capítulo 3 é bem interessante, e me faz pensar que caberia um maior desenvolvimento da rotina de Lucas e sua iteração com os personagens centrais. Talvez até mesmo um capítulo à parte para tratar isso, antes do 1 ou entre o 1 e o 2.
Opinião Pessoal:
Interessante e intrigante. O romance parece entregar uma visão de um mundo diferente, por parte do protagonista, de alguém que se encontrava com a vida resolvida, no ápice, e de uma hora para outra precisa rever não apenas os seus conceitos, o modo como enxerga o mundo, mas também entender como o mundo agora o enxerga. (E o enxergava)
Querendo saber o que essa história vai nos entregar no seu desenvolvimento.
Capítulo 1
Muitos detalhes na rotina, descrevendo Lucas. Vai dando uma ideia de sua personalidade com base na sua rotina.
“Ele” com letra maiúscula, não sei se proposital.
“entrou na Rock” iniciando com minúscula após ponto final.
“leticia” com letra minúscula. Algumas falhar em pontuação também, como o ponto final logo em seguida após “gostosíssima”.
O primeiro capítulo é um pouco corrido na apresentação dos personagens. Temos a questão do limite de palavras, mas acho que ele poderia se estender mais, como uma primeira parte. Mais tempo para entendermos e sentirmos os personagens, de modo que a transição seja mais impactante para o leitor.
Capítulo 2
Capítulo 2 segue apresentando o personagem e agora a proposta da história. Está interessante, mas ainda sinto que poderia aprofundar mais no personagem. Temos cenas e personagens descritos pelas suas aparências, talvez de forma proposital já que temos a aparência e vida de Lucas como ponto central da história.
É apresentado, ao fim, a doença de Lucas e uma primeira proposta do que será o caminho principal da história. (Que depois vemos que muda na terceira parte)
Ainda temos alguns erros de revisão, como no trecho que diz “mas era engolido pela impotência do desconhecer o futuro”.
Capítulo 3
Conversa no Nosso Bar pode ser usada como uma ponte no futuro, ou ser um pouco mais aprofundada. As cenas seguem parecendo passar um pouco mais rápido do que o necessário. A história está muito interessante, mas por se tratar de um romance acho que é possível enriquecer bastante o cenário e os relacionamentos. (Não me pergunte como, talvez algum dos outros comentaristas seja melhor nisso do que eu)
Em seguida vamos para a melhor parte desse primeiro ato, onde começamos a ver qual era o plano do protagonista desde o início e as coisas fazem sentido. As ações casam perfeitamente com a personalidade que havia sido apresentada até aqui.
Voltando agora ao Capítulo 1, acho que o ganho de um maior desenvolvimento dos personagens centrais ainda mais importante. Não sei o que se passará, mas se a ideia é fazer um comparativo de como as pessoas reagiam ao Lucas e como se portarão frente à nova personagem isso acabará pesando mais.
O texto entrega algo totalmente inesperado. Ele me enganou direitinho. Achei que fosse uma história sobre a transição de uma mulher trans, algo denso e dramático e me deparo com um soft sci-fi (será que é mesmo? Já não sei mais…), sobre um homem desenganado que apela para um tratamento experimental que vai trocá-lo de corpo temporariamente.
Lucas é um heterotop padrão, do alto de todos os privilégios que as loterias genética e socio-econômica poderiam conceder. E, em seu momento de maior conquista, vê tudo desmoronar. Agora sua única chance de se salvar é viver algum tempo num corpo feminino.
Vou te falar que gostei muito! É uma premissa interessante e corajosa.
Enquanto lia, fui pensando naquele filme dos anos 2000, com Mel Gibson, “Do que as mulheres gostam”. No filme, o protagonista, um completo misógino cretino, sofre um acidente que faz com que ele consiga ouvir os pensamentos das mulheres e isso o transforma num ser humano aceitável.
Não sei se sua história vai seguir esse caminho. Percebo essa possibilidade e é bem interessante. Mas tem algo mais aí, não tem? Esse doutor Keller aí é bem suspeito, com essa clínica escondidinha, esse procedimento meio Frankenstein. Tem caroço nesse angu. E vejo aí a possibilidade de um outro tipo de história, talvez um thriller.
Sem falar na ideia de que Lucas, com seu corpo feminino, pretende continuar trabalhando na mesma empresa, como representante dele próprio. O que ele vai descobrir desse jeito? Tem a Camila, que bem poderia ser uma aliada/interesse romântico/parça de verdade. Tem seus amigões do peito que, talvez não sejam tão amigos assim.
E por isso eu disse que achava a premissa corajosa. Ela abre muitas possibilidades e cada uma leva para um desenvolvimento diferente. Acho que um ponto de atenção aqui seria perceber se será necessário fazer uma escolha. Ou se será possível desenvolver todas as possibilidades.
De início, percebi alguns excessos. Tudo é muito detalhado. As roupas, carros, grifes, e que fetiche por relógios, hein! Porém, entendi, ao longo do texto, que esses elementos desenham quem é Lucas, como é seu mundo e quem são as pessoas que o rodeiam.
Chamou minha atenção a solidão de Lucas. Tem tudo e não tem ninguém a seu lado.
Apesar de ter gostado muito da história até agora e de ter funcionado muito bem para mim, um leitor mais
chatorealista pode achar difícil de embarcar totalmente. Esse pode precisar de mais para suspender a descrença.O que eu aponto nesse sentido?
Lucas aceita muito fácil a ideia de morrer. O luto está muito rápido. Ele quase não passa pela negação, pela raiva, pela barganha. Vai direto para a depressão e aceitação. Entendo que ele teve pouco tempo para processar, mas acho que seria mais comum ele ficar confuso e errático do que triste e melancólico.
Outra coisa: um sujeito como ele não aceitaria facilmente um diagnóstico de um médico. Com certeza ia consultar especialistas no exterior, médicos “de grife”. E ia exigir mais do que palavras como garantia.
Também, não acho que ele deixaria Lúcia em um apartamento tão precário. Afinal, ela é ele e ele se ama. Mas, talvez isso faça sentido mais para frente.
Aliás, vale para tudo. Só vi aqui o comecinho de sua história e os pontos que destaquei podem ser propositais. Se meus pitacos puderem ajudar, ótimo, senão ignore.
Resumidamente, gostei muito e espero pela continuação.
Lúcia / Corpo Estranho | Autor(a):[O Fantasma
Fase de Leitura: [Ex: Capítulos 1 a 5 / Primeiro Arco]
Data: 12 e 13/05/2026
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
Lúcia / Corpo Estranho tem uma roupagem de comédia de ficção científica. Lucas, um machão CFO de uma grande companhia, se vê obrigado a trocar de corpo , indo parar no de uma mulher, para se curar de uma grave doença neurológica autoimune.
Pessoalmente, não sou fã de humor. Acho que tanto a escrita quanto a narrativa tem alguns problemas urgentes para cativar o leitor. Mas, creio que os ajustes corretos e uma melhor atenção ao desenvolvimento dos personagens e do universo do romance, pode ser um bom livro divertido /satírico.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Felipe, confesso que não conheço tanto o seu trabalho. Lembro de um ou outro texto que li em alguns desafios. Então, vou abordar mais a ideia. é uma ideia interessante, que me lembra alguns filmes (tem dois filmes da Netflix, um francês e um inglês, que partem da ideia de um homem sendo inserido num universo que a misoginia é substituída pela androginia. Também temos o clássico brasileiro Se Eu Fosse Você, no qual Tony Ramos e Glória Pires trocam de corpos. E por fim, lembro também daquele filme do Mel Gibson que ele consegue ouvir os pensamentos das mulheres [e que tem a versão das mulheres que escutam os pensamentos dos homens).
Há uma roupagem interessante aqui da ficção científica para a discutir a diferença entre os gêneros. Ainda assim, creio que será necessário dar um passo a mais com essa história, para não cair na mesmice desse tema.
Então, esse é um ponto interessante. O universo do trecho está bastante centrado na figura do personagem central, um homem rico, bem sucedido, sedento atrás de status. Acho que está mais para o lado de uma alusão do que para o lado da construção. Como destaquei anteriormente, penso que a ambientação e a construção ainda não está boa. Penso que é fundamental desenvolver melhor as cenas, adicionar coisa nova, para mostrar que Lucas é rico e detèm status, para além das marcas. Mostrar seu machismo para além de uma menção indireta.
Outro ponto que queria destacar é que, se tratando de uma história que se passa no Rio de Janeiro, sendo uma cidade tão rica culturalmente, acho que a história precisa refletir muito bem esse ambiente. Se, por exemplo, Lucas vive tranquilamente nesse território boêmio e farialimer (que pessoalmente desconheço, sendo algo até estranho) do Rio de Janeiro, acho que o romance precisa demonstrar isso. Agora que Lucas vai virar Lúcia, é importante mostrar a transformação da visão que elu (risos) tem da cidade. E, por que não ousar mais e transformar a cidade do Rio em um personagem da história. Vivo, pulsante, cosmopolita, perigoso, mas apaixonante.
Eu tenho uma dificuldade natural com textos de humor (assim, eu interpretei esse romance, pelo menos). Acho que sou mais visual nesse ponto. Ou, sou só chato mesmo. Então, não consumo esse tipo de literatura.
No final das contas, enquanto uma obra de humor, penso que seu trecho depende do leitor comprar sua ideia ou não. Ainda acho que nesse caso, seria fundamental que você investisse um pouco mais em desenvolver o personagem. Mostrar que ele é sem noção sim, mas é gente boa.
No final, penso que o cliff hanging ao final do trecho foi muito bem executado. Com certeza retornarei a ler esse romance na próxima etapa.
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Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pelo Autor.
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A obra “Lucia, ou Corpo Estranho”, do autor Fantasma, apresenta-se como um prólogo instigante que utiliza uma premissa de ficção científica para explorar dilemas profundos da condição humana. O texto inicia introduzindo Lucas Costa, um homem de meia-idade extremamente vaidoso, bem-sucedido no ambiente competitivo das startups e cujas interações sociais são pautadas por um narcisismo tóxico e pela objetificação alheia. O ponto de inflexão surge com o diagnóstico de uma doença autoimune rara, a EDAI, que lhe reserva apenas poucos meses de vida. A “salvação” oferecida pelo Dr. Salvatore Keller é radical: um transplante temporário de seu encéfalo para um corpo sintético feminino, enquanto seu corpo original é tratado. O capítulo encerra com Lucas prestes a iniciar o procedimento, já planejando usar sua nova identidade como uma ferramenta de espionagem e poder corporativo. Conexão com o Leitor e Valores Universais
O texto conecta-se com o leitor ao tocar em medos universais: a finitude da vida e a perda da identidade. Como aponta a sociologia de Bauman, vivemos em uma “modernidade líquida” onde a busca pela saúde tornou-se uma guerra contra a doença e a identidade é algo a ser “comprado” ou moldado conforme a conveniência. Lucas personifica o homem contemporâneo que acredita ter controle total sobre seu “corpo máquina”. A fragilidade dessa ilusão gera uma empatia imediata, pois o leitor reconhece o desamparo humano diante da natureza implacável, um tema central na psicanálise freudiana. Aspectos Psicológicos e Filosóficos
A obra é um campo fértil para o exame do dualismo cartesiano. Dr. Keller utiliza uma premissa puramente de Descartes ao afirmar: “o seu corpo é apenas uma ferramenta, um avatar… você pode ser desconectado do corpo, mas não vai deixar de ser você”. Essa visão separa a “coisa pensante” (res cogitans) da “coisa extensa” (o corpo), tratando o organismo como um relógio que pode ser consertado ou substituído.
Entretanto, a psicologia de Jung e a filosofia existencialista de Sartre lançam questionamentos sobre essa facilidade:
Análise Técnico-Literária
O autor Fantasma demonstra habilidade ao seguir a máxima de Stephen King: priorizar a situação sobre o enredo. A situação de um “macho alfa” preso em um corpo feminino é robusta o suficiente para sustentar a narrativa sem artifícios mirabolantes.
Afinidade Literária e Crítica
O texto possui afinidade óbvia com “A Metamorfose” de Kafka, na medida em que o sujeito acorda em um corpo que não reconhece como seu, e com “O Médico e o Monstro” de Stevenson, pela dissociação física da psique. Diverge, contudo, ao dar ao protagonista uma agência consciente e maquiavélica sobre sua transformação, aproximando-se mais de uma fantasia de poder do que de um horror existencial puro.
Qualidades:
Defeitos:
Em suma, “Lucia, ou Corpo Estranho” é uma abertura promissora. O sucesso da obra dependerá de como o autor lidará com a “desorientação” de Lucas no novo corpo. Se ele se limitar à espionagem, será um conto de entretenimento; se mergulhar na reconstrução da identidade de Lucas, poderá alcançar a “ressonância” que transforma um livro em uma experiência duradoura.
Olá, Fantasma, tudo bem?
Ao contrário do nosso colega Rubem, não achei que a imagem escolhida tenha sido uma espécie de spoiler. Imaginei outra situação do que a retratada, talvez uma transição de gênero🕺>💃. Enfim, nada me alertou para o que eu leria a seguir.
O título pode não ser o definitivo, mas eu recomendaria acentuar Lúcia.
(fala a Claudia que não recebeu o acento devido no seu nome ao ser registrada, pois segundo a IA: “O acento agudo no “a” (Cláudia) é uma característica da língua portuguesa (e às vezes espanhola), devido às regras de acentuação de paroxítonas terminadas em ditongo crescente. Inglês, Italiano, Alemão, Espanhol: A grafia comum é Claudia (sem acento).” Isso tudo para dizer: é melhor tacar um acento aí no nome Lúcia só para agradar os revisores chatos de plantão.
Mas vamos ao que interessa, o seu texto:
O começo do romance é repleto de descrições, ambientações, detalhes que enfatizam as circunstâncias sociais do protagonista. Sim, autor, conseguimos entender que todos são ricos 💲 e ostentam estilos de vida caríssimos: uma grande tela OLED; uma enorme cama king-size; quadros de Paul Klee; relógios ⌚ das famosas marcas Tag Heuer, Rolex, Patek Philippe, Hublot, Tissot; citação na revista Forbes; ternos 🕴️ Armani e Hugo Boss; BMW; menção à Faria Lima, e ao fato dos pais do Lucas morarem na Europa. Talvez um pouco de clichês além do necessário, mas aí é com você. Também exagero em alguns pontos para marcar bem meus personagens. Menos é mais? Não sei, às vezes mais é só precaução mesmo.
Ainda comentando sobre o início do seu ato 1, fiquei receosa de estar lendo um romance hot, 💋cheia de relações 🔥 escusas com CEOs. Talvez lá na frente o excesso de descrições, sobretudo focadas no corpo do protagonista, se justifique. Enquanto fui lendo, fui virando os olhos, e tive um pouco de dificuldade de focar minha atenção🔎.
Ainda bem que a narrativa seguiu para outro lado, mais interessante ao meu ver. A ideia de trocas de corpos não é original, mas sempre dá pano pra manga, digo, dá assunto pro desenvolvimento do enredo. Acho que vou curtir a continuação do seu romance🙂. Quem viver (ler), verá.
Vamos à parte chata🙄, as falhas de revisão:
– […] patrão. — ele havia > […] patrão. — Ele havia
– […]na PUC. entrou na Rock > […] na PUC. Entrou na Rock
– Ah, Comprei pra provar > Ah, comprei pra provar
– A letícia? > A Letícia?
– […] demais. — estou trazendo > […] demais. — Estou trazendo
– […] antebraço. — cadê a menina do TI? > […] antebraço. — Cadê a menina do TI?
– […] um pouco. — ele estava > […] um pouco. — Ele estava
– […] um moribundo. — ele não > […] um moribundo. — Ele não
– […] paciente. — o seu corpo > […] paciente. — O seu corpo
– rio de janeiro > Rio de Janeiro
– — eu sei. > — Eu sei.
– fingisse que não Mas Lucas > fingisse que não. Mas Lucas
– no acesso, Junto dele, o enfermeiro > no acesso. Junto dele, o enfermeiro
Se escapou alguma coisa, peço desculpas, mas foi o que encontrei para poder te ajudar a melhorar o texto.
Caso eu me lembre de mais alguma sugestão, aviso em outro comentário. Siga em frente com confiança que o romance vai vingar.
Optei por uma revisão bem sincera para este desafio, daquelas cruas, que acho que eu, como autor, gostaria de ter para uma obra deste porte. Tanto tempo que você dedicou para escrever este texto, o mínimo que eu posso oferecer de volta é a total sinceridade!
Quando comecei a leitura, soltei um enorme suspiro. O tom inicial me fez pensar que o conto era um soft-porn, descrevendo cada detalhe do corpo de Lucas, inclusive indo além do que o necessário para descrever também a sua genital. Não que seja ruim, mas não sou o público-alvo, que achei que a leitura seria enfadonha. Para a minha surpresa, não foi. O conto não é soft-porn. O que no início parece superficialidade, depois notei ter profundidade. O espaço gasto para descrever cada detalhe de Lucas, suas vestimentas, seus acessórios, tem um objetivo. Passa para o leitor que são essas as coisas que ele valoriza. Lucas é superficial, lembra Parick Bateman, escolhendo relógios e ternos a dedo, comparando as suas posses com as posses dos seus amigos, amizades competitivas. Tem orgulho do próprio pau, por que é o macho-alfa, o cara que tem certeza que vai comer a secretária em uma semana, por que está acostumado a ter acesso fácil às mulheres, e as vê como objetos a serem conquistados. É importante que o texto tenha passado para mim esta ideia, por que senão a coisa toda seria pura perda de tempo: a cena típica de início de romance, onde o autor usa a velha tática de colocar o personagem de frente para o espelho para descrever as suas características físicas. Mas aqui, a cena tem um peso maior.
O tom da leitura é informal. Trechos como “De toalha mesmo, foi até a varanda” e “E daí se o espelho do banheiro precisava ter uma câmera embutida? Se alguém invadisse, a vista era boa” convidam uma leitura conversacional e irreverente.
A guinada da história era meio óbvia não só pelo título da obra como também pela imagem de capa escolhida, mas não acho que em algum momento foi a sua intenção fazer disso uma surpresa. E você trabalhou a coisa bem, pulando o desnecessário e indo direto ao assunto. Achei particularmente boa a forma como você descreve os personagens ao redor de Lucas. A narrativa é de terceira pessoa limitada, mas você consegue fazer com que o leitor absorva as mudanças em Lucas de forma natural, mudando o tom que usa ao descrevê-las. O início do livro traz a imagem de Douglas Meirelles como um homem bem-sucedido, uma figura deífica, alguém que todos querem ser, que Lucas almeja ser um dia. Mais para o final deste primeiro ato, porém, vemos um Douglas sem nenhuma profundidade, um homem egoísta e superficial, que só pensa em mulheres e materialismo, extremamente arrogante. Um homem que não dá valor algum à amizade de Lucas. Acompanhamos, inclusive, a mudança progressiva de ponto de vista de Lucas, já que, inicialmente, o fato de ninguém tê-lo visitado no hospital é tratado pela narrativa como algo sem importância alguma. O CFO da empresa, um dos homens mais importantes do negócio e amigo de várias daquelas pessoas, não recebe a visita de ninguém por uma semana inteira. E ele nem nota. Mas aos poucos estas discrepâncias nas expectativas de Lucas ficam óbvias, a ponto de ele até se arrepender de ter chamado Douglas para conversar. Isto bota as coisas em perspectiva: Lucas, quando posto de frente com a morte, muda o ponto de vista da sua vida inteira. Agora Douglas não é um exemplo e sim uma farsa, quase um desapontamento. Camila, que no início parecia tê-lo levado ao hospital por admirá-lo e considerá-lo um amigo, provavelmente o fez apenas por obrigação.
A cena onde ele joga o terno e os sapatos no lixo é importantíssima: ele está se despindo da sua pele anterior, tornando-se alguém novo. Mudando de atitude, pensando no que nunca pensou antes. Por isso foi um pouco frustrante quando, mais para o final do conto, descubro que ele está tramando voltar à mesma empresa como mulher, para espionar os antigos amigos e tentar escalar a escada corporativa de novo. Me parece uma volta à persona antiga, descarta o simbolismo do terno jogado fora, da mudança de perspectiva. Mas é difícil julgar a mudança de personagem apenas no primeiro ato, temos muito espaço pela frente para trabalhar este arco.
No final, ficou essa sensação louca de Psicopata Americano + A Substância + Emília Perez, com toque de Brasil e da personalidade do autor, também com a sua criatividade. Foi uma leitura que me chamou a atenção e quero continuar lendo para ver onde vai dar!
Agora, para as tecnicalidades! Tudo o que se segue são o que eu considero “tecnicalidades” e você pode ignorar ou acatar, tanto faz. Acho que tem muito de gosto e opinião pessoal então não necessariamente são críticas:
– Lucas ouve Heavy Metal? Pelo estilo, me parece difícil. Não impossível, mas extremamente pouco-provável. Gente que aprecia o metal tende a ser outlier, ter um espírito rebelde e criativo, com mais personalidade. Lucas é o oposto de tudo isso: joga o jogo da sociedade, faz o que as pessoas esperam dele, tenta ganhar o jogo da vida seguindo as regras do mundo.
– “Lucas andou confiante pela calçada. Pisou no pequeno degrau que antecedia a porta com a confiança de Átila, o Huno, ao esmagar a cabeça de um inimigo ao final de uma batalha.” Não seria a confiança de Átlia ao IR para a batalha? Depois que esmagou a cabeça o oponente ele já não precisa mais de confiança.
– Como que Camila Pires, a gerente do financeiro, conhece COBOL? No mundo corporativo este tipo de linguagem e conhecimento fica mais para a galera de TI. No máximo, gente da alta gerência fala coisas do tipo “Ah o nosso sistema é antigo” ou “o banco de dados está desatualizado”. Como a história se passa daqui a uma década, talvez dê para acreditar que as pessoas do futuro adquiriram um pensamento mais tecnólogico, mas eu duvido. A tendência é o oposto: daqui a dez anos, a galera do alto escalão falaria simplesmente “nosso sistema é tão antigo que nem IA tem”. Falar que “a gente ainda está rodando COBOL” é algo extremamente técnico para um CFO e uma gerente do financeiro.
– O que Marina, a “menina do TI”, estava fazendo na reunião do alto escalão, com representantes do governo e os grandes nomes da empresa em uma reunião de abertura de champagne? Talvez o CTO estivesse lá mas… a “menina do TI”?
– Alguns anglicismos foram destacados com itálico, mas outros, como “drift”, não.
– A dor de cabeça de Lucas me parece algo essencial para o primeiro capítulo e é o artefato que muda completamente o sentido da narrativa e inicia o conflito. Porém, ela surge de repente, na metade do primeiro capítulo quando ele já está na empresa. Eu colocaria a dor de cabeça logo no início. Talvez até abriria o livro com ela: Lucas reclamando da dor de cabeça antes de admirar o próprio pênis nos primeiros parágrafos.
– Notei algumas vezes a obsessão por detalhes desnecessários. “Segurava o copo na mão direita” ou “fez algo com a perna esquerda”. Por exemplo: “Passava a mão direita suavemente por sobre os pelos do antebraço esquerdo”. Quase sempre este tipo de descrição é desnecessária. “Coçava o próprio braço” ou “se abraçava como se o ar-condicionado estivesse frio demais” é melhor do que “a mão direita tocava o braço esquerdo”.
– Revisãozinha boba: “A dose cavalar de corticoides paravam a inflamação e davam um pouco de ânimo, mas também ansiedade. ” – O sujeito é “dose” então o verbo deveria ser “parava” e não “paravam”. “Dava” e não “davam”. Ou então troca para “Os corticoides em excesso paravam…”.
– Revisãozinha boba: o parágrafo a seguir é diálogo mas não tem travessão e tem duas palavras sem espaço entre elas. “Os exames de sangue complementares indicarama presença de autoanticorpos, produzidos pelo seu próprio sistema imune. Eles muito provavelmente estãoatacando os neuroreceptores de NMDA do seu cérebro, provocando a encefalite. Parece ser um caso bem agressivo de EDAI, encefalopatia degenerativa autoimune.”
– A distinção de “evitar contar e tentar mostrar” é sempre subjetiva e cada autor tem as suas próprias ideias do que é “contar muito”. Aqui eu vejo que você usou muitos parágrafos dedicados a contar histórias paralelas, como, por exemplo, as origens de certas amizades, a história do prédio Manchete, casos que ocorreram no passado, pensamentos e devaneios. Eu uso pouco este tipo de recurso, mas não acho um recurso inválido, e você o utiliza bem na maior parte do tempo. Mas, algumas vezes, o “contar” passa um pouco do limite, para mim. Por exemplo: “Camila era uma das poucas pessoas que conseguiam desarmar Lucas”. Nem precisava ter falado. O diálogo já meio que deixava isso claro, e bastava mais algumas cenas com Camila para enfatizar a ideia.
– Finalmente: O livro trabalha a estranha ideia de que os cérebros não têm conexões com o resto do corpo (como se os hormônios femininos e masculinos não fizessem parte da evolução do cérebro humano, fazendo com que cérebros femininos e masculinos sejam bem difrerentes). Mas apenas um personagem trabalha este ponto, o doutor Salvatore, então estou assumindo que esta seja uma visão de um doutor meio inescrupuloso, e não uma mensagem do texto em si.
Olá.
Gostaria de complementar: as lembranças do Lucas sobre sua infância e sua fragilidade ao se descobrir mortalmente doente trouxeram uma lufada boa de complexidade e humanidade ao personagem. Então, ao contrário do que eu disse, Lucas não é 100% um personagem “plano”. Quis comentar aqui, pq achei que não fui completamente justo na minha avaliação.
Abraço!
Olá, Fantasma.
Li o ato 1 e aí vão minhas impressões.
Primeiro, sem ter a ver com o seu texto em si, não gostei muito da imagem que você escolheu, pois é um grande spoiler. Quando vi a imagem, vi o título e o nome do personagem principal, embora ainda não soubesse “como”, já sabia que alguma mudança de sexo do personagem principal estava a caminho. Não estraga a experiência, mas talvez você pudesse usar uma imagem diferente, caso resolva criar um e-book, por exemplo.
Bem, vamos ao texto em si.
Impressão geral: eu gostei do que li até agora, mas estou dando crédito pelo que virá depois. A ideia de um personagem machista que se torna mulher e passa por poucas e boas já vi, por exemplo, no filme “Switch”. Até agora os personagens estão um tanto unidimensionais e estereotipados. Se irá acontecer alguma redenção ou não do Lucas, isso ainda é mistério. O arco do personagem promete ser interessante.
Qualidade da escrita
Personagens: até agora são mais arquétipos. Lucas e Gabriel não têm muitas nuances. Certamente Lucas passará por transformações que o farão ver o outro lado, mas, por enquanto, ele é um personagem “plano”.
Enredo
Eu gostei da pesquisa que você talvez tenha feito sobre a doença do Lucas e a ideia futurista de um corpo que o cérebro dele poderia habitar enquanto seu corpo original sofreria o tratamento. Uma dúvida: na passagem em que Lucas estava na Praia do Flamengo, ele havia saído do prédio da empresa na Glória e caminhado a pé ou havia saído de casa? De início eu estranhei pq lembrei que o Lucas morava em Ipanema e poderia ter ido a praia ali perto de casa, embora de lá ele não tivesse a vista do Pão de Açúcar. Talvez você pudesse justificar no texto o pq dele estar nessa praia ou como ele chegou lá.
Resumindo: bom começo de trama! Vamos ver o que vem por aí.
Abraço.