EntreContos

Detox Literário.

ER 2 – O Jarro (Marco Piscies)

I

Samuel escorria na direção do sono. O dia de trabalho na loja de antiguidades havia sido longo. A chuva se lançava fina contra a janela, ritmada como uma canção de ninar.

Quando molhava os pés no primeiro sonho da noite, algo o puxou de volta. Sua mãe separava panelas na cozinha. Logo, lançava legumes na frigideira. Súbito, Samuel abriu os olhos. O coração acelerou. Ouvia o cantarolar distraído da mãe, abafado pelas paredes da casa. Sua mãe, que estava morta há anos.

Levantou-se da cama devagar. Um trovão cruzou o céu e iluminou o quarto por um instante. A escuridão que seguiu pareceu ainda mais densa. Abriu a porta. O canto da mãe tornou-se mais nítido, acompanhado pelo som da faca que descia ritmada contra a tábua de corte.

Samuel ignorou o interruptor no corredor e seguiu andando na escuridão. Os pés descalços o levaram até a escada. Esforçou-se para manter o silêncio. Queria ser invisível. Sentia que aquele momento estava por um fio; um movimento em falso e ele a perderia mais uma vez.

Outro trovão retumbou, e o raio iluminou a sua loja de antiguidades no andar de baixo. As bonecas de porcelana nas prateleiras estavam viradas na direção da cozinha como se admirassem a melodia que vinha de lá.

Desceu o último degrau. Sua mãe agora parecia descascar cenouras. Era estranho que estivesse fazendo tudo aquilo no escuro. Espiou pela esquina com todo o cuidado. Ela não estava lá. Ao invés de legumes na frigideira, o som era o da chuva que o vento soprava para dentro através da janela aberta. O lugar estava vazio, tão solitário como ele nos últimos anos.

Andou até a janela para fechá-la. Surpreendeu-se com o envelope sobre a pia. Era branco, com detalhes finos pintados à mão, e selado à moda antiga, com cera vermelha.

Samuel nunca tinha visto nada parecido com aquilo.

 

II

A noite estava avançada, e na escuridão do escritório o único nicho de luz era o do monitor do computador que iluminava o rosto de Thomas. A música clássica vazava abafada do headset.

Thomas pesquisava informações sobre mais um caso de desaparecimento em Londres. Os fóruns públicos da internet estavam cheios de teorias conspiratórias sem sentido, e alguns Youtubers um pouco mais sérios só discutiam o óbvio. Ele, por outro lado, fazia parte de um grupo mais seleto, e trocava informações em um fórum privado. Sentia falta de Isaac Danpora. No pouco tempo que o amigo estivera ativo no fórum, sempre trazia excelentes pontos às investigações que faziam. O garoto parecia sempre ter alguma informação que ninguém mais tinha acesso. Porém, há meses ele não aparecia online.

Sentiu a movimentação no andar de baixo da casa sem ter que ouvi-la. Vivia lá há tantos anos que sabia quando havia algo de errado, a casa falava, e ele sabia escutá-la. Retirou o headset. A tempestade do outro lado da janela era tudo o que conseguia ouvir.

“Veronica?”

Nenhuma resposta. Mesmo que já estivesse aposentado, o instinto falou mais alto, incrustrado fundo em seu âmago, treinado por uma vida inteira de trabalho como investigador da Scotland Yard. Abriu a porta do escritório e espiou pelo parapeito da escada. Algo tinha caído no andar de baixo, e ainda fazia um som fugaz, como uma moeda que demora a assentar após cair ao chão. Abriu a porta do quarto devagar. Pela fresta, viu que a esposa dormia tranquila.

Tentou descer as escadas em silêncio, mas se os costumes de investigador ainda estavam vivos na sua memória, o corpo já não era o mesmo. Assim como ele, sua casa em Londres já mostrava os sinais da idade, e os degraus rangiam alto.

A luz da sala estava apagada, mas a luz da lua preenchia o ambiente com uma penumbra sinistra. Tudo era sombras e sugestões. A ventania drapejava as cortinas de uma janela aberta. Um dos descansos de copo que deveria estar sobre a mesa havia caído ao chão – ou teria sido derrubado?

Na penumbra, aquele envelope branco sobre o sofá era destaque, com os detalhes dourados pintados à mão, e o selo de cera vermelha.

Para Thomas, o caso era óbvio: estava diante de uma cena de invasão domiciliar. Restava saber o que havia dentro daquele estranho envelope.

 

III

Em seu sonho, Edward havia conseguido tirar a maldita foto. Estava há três semanas vigiando aquele idiota, sabia que ele traía a esposa, tinha todas as evidências, mas aquele papel fotográfico nas suas mãos era à prova conclusiva, a última peça do quebra-cabeça. A imagem ia ganhando cor aos poucos. Balançou a fotografia para acelerar a secagem. Edward sorria sem perceber. Finalmente deixaria de receber as ligações diárias da senhora Hammington exigindo urgência.

Quando a foto ganhou um pouco mais de nitidez, Edward notou que estava escura – mais escura do que deveria, mas decidiu esperar mais um pouco antes de se sentir um idiota por ter errado a exposição da lente. O que viu não foi o marido promíscuo da senhora Hammington, mas sim o seu próprio escritório, em uma foto tirada da sua própria mesa de trabalho. A luz vermelha do laboratório dificultava a visão. Na fotografia as luzes do seu escritório estavam apagadas, exceto a luz da luminária sobre a mesa. Havia algo na escuridão. Um vulto, muito parecido com os que tinha visto naquele dia fatídico, anos atrás. Os olhos brancos se abriram. No breu do escritório, na folha de papel fotográfico, o vulto olhava na sua direção.

Edward acordou com a cabeça latejando. Tinha caído no sono novamente sobre a mesa de trabalho. Ergueu o rosto e sentiu um filete de saliva acompanhar o movimento. Esperava que não tivesse estragado os relatórios que usou como travesseiro.

A única fonte de luz no escritório era a sua luminária acesa. O cenário era idêntico ao do sonho do qual acabava de acordar. Edward apertou os olhos e fixou-se na escuridão do cômodo. De fato, como no sonho, havia algo no escritório com ele. Estava bem ali no limiar da penumbra, onde a luz da luminária acabava e a escuridão começava. Uma sombra no escuro, perfeitamente imóvel, como uma fotografia mal revelada. Se forçasse a imaginação, podia determinar pequeninos braços e pernas, e dedos.

Coçou os olhos. O movimento lembrou-o da ressaca lancinante. Abriu uma gaveta na escrivaninha e encontrou o cantil de aço, sentindo o resto de whisky dançar no fundo. Então, sem pensar duas vezes, jogou a coisa na lixeira. Olhou adiante novamente. O vulto ainda estava ali, imóvel, pequeno, como uma criança surpreendida durante uma travessura. Não, ainda menor. Como um gnomo de jardim escondido bem no limiar de onde a vista alcançava.

A princípio descartou a coisa como um jogo de imagens criado pela pouca iluminação – com toques da ressaca como a cereja do bolo. Porém, quanto mais olhava para a coisa, mais achava que havia algo de errado. Estava fixado na imagem. Sem tirar os olhos dela, alcançou a fiel Canon AE-1 com uma das mãos. Era uma máquina antiga, mas tão costumeira que não precisava desviar o olhar para ajustá-la. Clicou. O obturador rangeu. A foto estava tirada.

Saltou até o interruptor e acendeu a luz. Apenas seu velho escritório, com o estalar constante das tubulações de aquecimento que remontavam à era vitoriana, os quadros baratos pendurados nas paredes, e o cabideiro ao lado da porta, sempre segurando ao menos um dos seus dois sobretudos.

Edward não sabia se estava aliviado ou frustrado. Há anos buscava por alguma experiência paranormal, mas nunca havia encontrado nada que o satisfizesse. Nada que respondesse suas perguntas. Tudo o que via eram sombras projetadas pelo whisky.

Voltou a se sentar, e dessa vez sentiu uma vontade imediata de terminar de beber o whisky no cantil. Olhou para a lixeira. Sentiu-se observado, com a certeza de que alguém seguia seus movimentos. Olhou para frente novamente. A única outra cadeira no lugar, reservada para os seus clientes, julgava-o, vazia.​

“O que foi?”​

A cadeira escolheu manter o silêncio debochado.

Foi só então que Edward notou o envelope no chão. Era branco, e estava selado com cera vermelha. Suas cores o destacavam das tábuas escuras, tanto que não entendeu como não o havia notado antes. Andou até ele. O chão rangeu com os seus passos – os sons de um escritório centenário. Pegou o envelope. Os detalhes dourados no papel pareciam feitos à mão. Seu nome estava escrito no verso.​

“A Edward Basser,
um convite inoportuno”

Procurou nas gavetas um abridor de cartas – sabia que tinha uma tranqueira daquelas em algum lugar – mas não encontrou.

Decidiu abrir o envelope com as próprias mãos.

 

IV

Cory acelerou e ultrapassou o último sinal vermelho. A chuva lavava o sangue no seu corpo. A água escorria vermelha e encontrava o cano de escape da moto, quente como as chamas do inferno, então virava vapor e era levada pelo vento. Enquanto mantinha um punho girado no acelerador, Cory tentou ligar mais uma vez para Isaac Danpora. O telefone tocou e tocou e tocou, mas ninguém atendeu. Precisava de ajuda. Queria que aquele vento que batia em seu rosto levasse embora também a sua angústia. Mas não importava o quanto acelerasse, os pensamentos continuavam lá, misturados aos poucos fragmentos de memória que permaneciam, como se um demônio o atormentasse e o permitisse lembrar apenas o suficiente para que o terror tomasse conta da sua alma.​

Skye, seu sorriso, o vestido branco dançando com o vento.

Todas aquelas pessoas mortas. As máscaras cobrindo os rostos defuntos.

A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo.

O sangue que impregnava tudo. O chão, as paredes, suas mãos. Tudo.

A plateia morta gritando o seu nome. Cory, The beastThe beast.

The Beast.

Gritou, mas a ventania e a chuva engoliram a sua voz. Pouco tempo depois, chegou à garagem que chamava de lar.

Demorou para encontrar as chaves: as mãos tremiam. Abriu a porta de correr, empurrou a moto para dentro, e fechou o lugar com um estrondo metálico. Apertou o interruptor, mas a luz não respondeu. Lembrou-se que haviam cortado a energia por falta de pagamento. Arrastou o corpo encharcado até um canto onde a luz da lua se fazia notar desbotada. A anatomia musculosa e rígida não condizia com o caminhar zumbificado. Escorreu o corpo pela parede e sentou-se no chão. Pegou o celular, querendo encontrar o contato de Skye, mas a água havia danificado a tela touchscreen e agora os gestos não funcionavam.

Chorou. Os soluços o ninaram devagar, até cair em um sono profundo.

Acordou com o toque do telefone. No aparelho, Skye sorria para ele, exatamente como a eternizou naquela foto tirada há três anos. Atendeu.

“Por que você continua me ligando?”, falou a voz de Skye. Cory não soube responder. Estava feliz apenas de ouvi-la.

“Cory?”

“Eu…”

“Você não fez merda de novo, fez?”

“Não sei. Acho que não…”

Tudo estava acontecendo rápido demais. Skye havia desaparecido há meses. Ele foi o principal suspeito por muito tempo, a polícia havia cansado de interrogá-lo, e ele, cansado de estar preso no próprio corpo e na própria culpa. Procurou-a em cada canto de Londres, cada clube e hotel. Buscou seu corpo nos necrotérios. Nada. E agora ela sorria para ele na palma de sua mão, mas a voz era como uma faca a perfurá-lo.

“Cory, quer saber? Já chega. Eu vou aí agora buscar o Simon.”

“Simon?”

“Seu filho, Cory. Meu filho. Toma jeito, se recompõe. Toma um banho gelado. E arruma o Simon. Chego aí em dez minutos.”

“Meu… filho?”

Então os rumores eram verdade. Skye estava grávida antes de desaparecer. Mas por que ele não se lembrava de nada?

“Cory… o Simon está aí com você, não está? Cory?”

A voz de Skye tornou-se um eco distante. Ele ainda digeria a recém-descoberta paternidade. Nas janelas altas da garagem a noite persistia, mas a chuva havia cessado. Havia dormido poucas horas, ou muitos dias?

Notou o lodo no chão logo à frente. Apesar da pouca luz, a lua revelou que eram pegadas. Suas pegadas. Ele não lembrava delas. Não lembrava de muita coisa ultimamente.

“Cory? Onde está meu filho, Cory? Abre a boca, sua besta. Seu animal. Cadê meu filho?”

Ele deixou Skye no chão. Sua voz era agora como uma lembrança da qual não queria recordar. Levantou-se. O corpo todo doía, especialmente as pernas e o peito, que gritavam. Seguiu as pegadas. O rastro de lama o levou até a saída dos fundos da garagem, uma porta simples de metal que abria para o campo de futebol comunitário. Uma pá enlameada descansava na parede ao lado. Cory girou a maçaneta. A porta rangeu.

Poucos passos adiante, no gramado, viu um pequeno monte de terra, como se alguém houvesse enterrado ali um animal de estimação. Ou uma criança.

Jogou-se sobre o monte de terra, cavando com as mãos o solo molhado. Ainda conseguia ouvir a voz de Skye perguntando pelo filho, ecoando em sua mente naquele tom digital filtrado pelo alto-falante. Sentiu pedras e raízes machucarem as mãos, mas a dor apenas o fez cavar com mais afinco. Até que encontrou.

Um envelope imaculado pela terra, perfeitamente branco, com detalhes dourados, selado com cera vermelha. Dentro, um convite.

 

Meu querido amigo. Se você está lendo esta carta, eu não estou mais no reino dos vivos.

Meu enterro será em Bishopstone, Sussex, no dia 19 de setembro, na Igreja de Santo André às 10:00.

É muito importante para mim que você compareça, para que possamos nos ver uma última vez.

Seu eterno amigo,

Isaac Danpora

 

O convite tremia em suas mãos. Sabia que as alucinações haviam ido longe demais daquela vez, e que tinha que fazer algo a respeito, mas seus dois únicos confidentes naquele mundo não estavam mais ali. Seu coração estava quebrado, partido em dois lutos.

Simon. O nome do seu filho veio como um soco através das memórias quebradiças. Para tentar encontrar um fio da realidade e entender onde estava, voltou para a garagem e achou o celular no chão. Seu histórico de ligações não acusava nenhum contato recente de Skye. A data na tela, porém, chamou a atenção: dezoito de setembro. A festa havia acontecido há seis dias. Não era a primeira vez que vivenciava perda de tempo, mas nunca havia perdido seis dias seguidos.

Como se a realização moldasse a realidade, sentiu fome, e a garganta queimou. Bebeu dois copos de água da torneira. Na geladeira, desligada pela falta de luz, a maior parte da comida havia estragado. Encontrou um pacote de salgados ainda fechado no armário e o devorou, empurrando tudo para baixo com mais água.

Seis dias. Certamente deveria estar morto agora. Não conseguia pensar em uma explicação, mas já há algum tempo não conseguia explicar muito do que acontecia em sua vida.

Cory vestiu a jaqueta e pegou o capacete. As feridas nos punhos já cicatrizavam. Olhou-se no espelho: hematomas e cortes, e uma expressão sombria. Montou na moto e buscou por Bishopstone no celular. Parecia a única coisa a ser feita agora, como se estivesse sentado na arquibancada e assistisse a sua vida ser ditada por um convite e um traço de esperança. Sentiu o peito apertar, mas as lágrimas não vieram.

Com um pisão a moto roncou, e ele acelerou.

 

V

Samuel não conseguiu voltar a dormir. Cada tentativa de fechar os olhos era frustrada por um som diferente. Algo na cozinha. Passos na loja no andar de baixo. Vozes que poderiam ser o vento, sombras projetadas na parede.

O sol mal nascia quando ele se levantou e encheu uma mochila com algumas mudas de roupa e outros itens essenciais. Desceu e, sem pensar muito no que fazia, foi direto para a estação de trem mais próxima. Não encontrou passagens para Bishopstone: o lugar não tinha estação ferroviária local. Ao invés disso, comprou uma passagem para Brighton, que era a cidade mais próxima. Foi até um Starbucks e comprou um café, e segurou o copo com as duas mãos para esquentar o corpo. (Era dezoito de setembro, teria que encontrar um lugar para dormir, mas não imaginava que isso seria um problema.)

Na rua onde morava, a cidade ainda acordava. Uma placa rústica balançava contra o vento, as juntas de ferro rangendo sobre a porta da sua loja de antiguidades. Na madeira, o nome talhado balançava: Orbuculum. Enquanto esperava a condução chegar, Samuel lembrou-se do seu primeiro encontro com Isaac há dois anos, quando o jovem entrou na loja e fez soar o sino. O garoto imediatamente se enamorou da bola de cristal que descansava sobre uma almofada em um canto da loja há gerações. Era o item mais caro e mais chamativo do lugar, e ele a comprou no primeiro dia em que pôs os pés ali. Disse que sentia uma energia benigna que emanava da esfera. Seguiu-se uma longa conversa. Isaac Danpora sabia de tantas coisas sobre misticismo que até mesmo Samuel, considerando-se um especialista no ramo, ficou assombrado. A amizade entre os dois floresceu fácil. E agora, ele ia para o seu enterro. Sentiu o coração apertar. Bebeu um pouco mais de café.

Na vitrine da loja, longe dali, as bonecas de porcelana assistiam os transeuntes na rua. Na maçaneta da porta, uma placa: “fechado”.

 

VI

O relógio na parede da sala marcou a meia-noite e Thomas ainda estava sentado no sofá, com as luzes apagadas e o convite nas mãos. A iluminação pública invadia o ambiente apenas o suficiente para que ele pudesse ler e reler o texto no papel.

Por instinto, não havia fechado a janela, como se ela agora fizesse parte de uma cena criminosa. Minutos atrás ele havia recuperado a filmagem da câmera externa da sua casa, e o vídeo só o deixou mais confuso. Fosse quem fosse a pessoa que realizou aquela pegadinha, sabia o que estava fazendo. Havia um espaço em branco na filmagem; o equipamento parou de funcionar justamente quando o arrombamento aconteceu. Em um momento a câmera capturava o exterior da sua casa, a noite chuvosa e monótona típica de Londres. Então, estática. Quando o aparelho voltou a funcionar a janela da sala já estava aberta e o ato consumado.

O que o intrigou não foi a falha no aparelho – era de se esperar que um criminoso experiente soubesse neutralizar uma câmera simples. O que realmente o deixava com a pulga atrás da orelha era que, pouco antes da falha, a câmera havia capturado alguma coisa. Um vulto; uma sombra de algo se aproximando, mas a aproximação vinha de cima, do telhado, e ele não conseguia imaginar alguém rápido o suficiente para descer daquela altura, abrir a janela trancada, deixar o bilhete sobre o sofá e sair em tão poucos segundos. A não ser que tivessem agido em grupo. Mas, se fosse o caso, para que tanto esforço apenas para entregar o convite para um funeral?

O caso era estranho demais para não ser dividido com Edward, seu amigo do fórum online de atividades paranormais. De qualquer forma, Edward era tão amigo de Isaac quanto ele, e se o convite fosse verdade, ele merecia saber da notícia. Como a noite já estava avançada demais, decidiu enviar apenas uma mensagem de texto. Quando pegou o telefone, porém, notou uma chamada não atendida do próprio Edward. Thomas estivera mergulhado demais nas próprias reflexões para ter notado as vibrações do celular.

Em seu escritório, o mundo de Edward foi pintado de vermelho por alguns minutos. A cena e o processo eram lugar-comum para ele. Revelar fotos era um misto de terapia e hobby. A luz vermelha mal iluminava, como a noite banhada por uma lua de sangue.

Sequer havia tentado dormir naquela noite. Sabia que não conseguiria, não após ter lido o convite. Como Thomas não havia atendido a sua ligação – provavelmente porque já estaria dormindo – dedicou-se a revelar a foto que havia tirado antes.

O telefone tocou no escritório. No papel fotográfico, a imagem ainda ganhava nitidez. Deixou o processo seguir naturalmente e foi atender a ligação. Era Thomas, retornando à sua chamada de quase uma hora atrás. Em poucos minutos os amigos atualizaram um ao outro sobre os acontecimentos daquela noite. A dupla de investigadores digeriu os fatos em silêncio. Pela janela do escritório, Edward observava o gotejar constante da água da chuva que já não caía mais, escorrendo pelo topo das coisas.

“Acha que essa carta é verdade?”

“Eu não entendo por que todo esse esforço para entregar um convite de funeral.”

“Uma brincadeira dele, então? Isaac nunca foi de pregar peças assim. Ele some por seis meses e volta com uma pegadinha?”

“Não sei. Pode ser uma armadilha, também. Alguma espécie de esquema elaborado para nos levar para algum lugar isolado. O modus operandi é comum: a carta é urgente, faz que tomemos decisões precipitadas.”

“Armadilha? Acha que estão tentando nos sequestrar?”

“Não sei. Pelo que conversamos no fórum, já passei um tempo suspeitando que tentariam alguma coisa contra nós. Mas hoje em dia não temos investigado nada do tipo. Tudo está muito estranho.”

Thomas afundou no sofá da sala. Sentia o corpo tão pesado quanto a mente. No andar de cima, Veronica abriu a porta do quarto e desceu as escadas. A esposa olhou-o com a expressão confusa de quem ainda tenta absorver o mundo ao acordar.

“Thomas? Está tudo bem?”

Ele colocou a ligação no “mudo”.

“Está sim, amor. Estou no telefone com o Ed.”

“Aconteceu alguma coisa?”

“Não, não. Está tudo bem”

Veronica foi até a cozinha beber um pouco de água, então retornou ao quarto. Thomas retomou a conversa.

“Mas e se for verdade?”, falou Edward. “É do Isaac que estamos falando aqui.”

“Você está certo. Não sei se o convite é verdade, mas o que você descreveu, e o que eu presenciei, não são casos comuns. Estivemos procurando coisas assim as nossas vidas inteiras. Agora que nos confrontamos com o demônio, não podemos vacilar.”

“Então você vai?”

“Vou.”

“Eu diria que é perigoso irmos juntos, mas eu não vou deixar você ir sozinho. E, se for tudo verdade, preciso estar lá para dar minhas condolências à família.”

“Te busco amanhã de manhã, então?”

(“Você quer dizer hoje, daqui a pouco? Se formos hoje, teremos um dia para dar uma olhada no lugar.”)

“Fechado.”

(“Vai dormir, então. Não quero você na estrada com sono.”

“O mesmo para você.”)

Thomas desligou o telefone com mais perguntas do que respostas. Levantou-se em um movimento afoito demais, e as costas reclamaram. Andou a passos lentos até a garagem, deixando a dor passar. Encontrou um dos seus muitos kits que ainda guardava mesmo após a aposentadoria. Pegou o pó prateado e foi até a sala coletar digitais. Queria passar na Scotland Yard antes da viagem no dia seguinte, cobrar alguns favores que ainda podiam ser cobrados.

Por mais que tentasse, porém, não encontrou digital alguma. A janela, o sofá, o envelope: todos estavam incólumes. Estava lidando com um profissional – ou algo sobrenatural. Para adicionar à crescente lista de mistérios, o pó prateado, apesar de não ter ajudado com as digitais, reagiu com outras partículas, destacando o que parecia ser uma camada de pó finíssimo, semitranslúcido, como um rastro de poeira peculiar que o meliante havia deixado para trás, traçando um claro caminho da janela ao sofá, e então voltando à janela. Ele não fazia ideia do que era aquilo, mas coletou o material mesmo assim. Alguém nos laboratórios da Scotland Yard saberia informá-lo.

Ao desligar o telefone, Edward voltou ao laboratório mergulhado em vermelho. A foto estava pronta. Nela, uma mão magra e de pele cinzenta, com os dedos alongados e afiados, nascia da escuridão e ajeitava, com cuidado, seu convite no chão.

 

VII

Vista de cima, Londres era uma planície de metal, o Tâmisa entre prédios e pontes captando a luz do sol em manchas que cintilavam como um milhão de diamantes. Finnegan olhava pela janela do topo do The Shard, e a vista ajudava a acalmar a aflição. Sentia-se um deus olhando curioso das nuvens o mar de gente e seus cotidianos absurdos, cada um o próprio Sísifo, dali apenas imaginação. Não eram sequer pontos na paisagem, eram apenas sugestão. Mas sabia que estavam lá e queria ter igual certeza quando pensava sobre o paradeiro dos pais. Queria saber que estavam em algum lugar de Londres, talvez presos, talvez em sofrimento, mas vivos. Queria certeza, mas só conseguia esperança.

Estava em outro beco sem saída. Os arquivos confidenciais espalhados na mesa do café eram o resultado de meses de pesquisa, mas não levavam a lugar algum. Isaac Danpora, na foto do perfil oficial da National Crime Agency, olhava-o em preto-e-branco, pedindo que continuasse, que buscasse respostas.

Espreguiçou-se. Olhou para longe novamente, como se o horizonte pudesse ajudá-lo. Um garçom serviu a segunda xícara de café daquela manhã. Finnegan gostava do lugar porque era silencioso e pouco invasivo. Ninguém tentava puxar assunto, nenhum curioso esticava os olhos para espiar o seu trabalho. As mesas ao redor estavam vazias. Eram apenas ele e os arquivos, e todas as perguntas não respondidas.

Tamborilou a caneta na mesa. Passeou o olhar pelos documentos. Alguém na cozinha lançou carne em óleo quente, e o som efervescente lembrou-o da sua mãe. Uma das chefs mais renomadas de Londres, desaparecida há dois anos. Se fosse alguém diferente, choraria. Mas a sua natureza transformava luto em fervor.

O celular tocou. Era George.

“Temos uma nova pista”, falou o amigo da NCA.

“Desembucha.”

“Tanya voltou. Quer nos encontrar no Chaopraya. Hoje.”

“Tanya? Sério?”

Yup. Às vezes os deuses estão do nosso lado, Finn. Ou o que quer que esteja nos acompanhando nesse caso. Me encontra no escritório às um-meia-zero-zero para o briefing.

Finnegan juntou o material espalhado em uma pasta. Pagou a conta e desceu de elevador para a garagem. Dentro do Audi Q8, (jogou a pasta de arquivos no porta-luvas, e acelerou.)

No escritório da NCA, o briefing foi simples: Tanya havia ligado para o número protegido e pedido uma conversa olho-no-olho, e o restaurante tailandês foi o lugar escolhido. A informante parecia nervosa. Dois agentes foram enviados para o restaurante à paisana alguns minutos antes, com a missão de encontrar algum ângulo na situação que havia passado desapercebido pelo time. Apesar de todos os fatos sugerirem que aquele seria um contato simples, nada era trivial quando recebiam uma ligação do mundo dos mortos.

​Finnegan e George subiam o elevador do prédio comercial em silêncio. Apesar da robustez, o terno vestia Finnegan como se fosse extensão da própria pele. George parecia desconfortável com qualquer indumentária que não fosse equipamento de guerra. As caixas de som tocavam música clássica. George testou a escuta escondida no terno; tudo funcionava bem.

“Você fala?”, perguntou Finnegan.

“Mete bala você. Ela vai mais com a sua cara.”

“É difícil nascer bonito.”

“Cala a boca.”

A porta do elevador se abriu, e a música clássica deu lugar ao jazz que escapava do salão principal do restaurante. Duas recepcionistas os aliviaram de seus sobretudos.

O Chaopraya era um lugar típico daquele lado de Londres, onde os números no cardápio falavam mais sobre o ambiente do que sobre a comida. A música à meia-luz tecia uma atmosfera intimista. Tanya os esperava um pouco mais isolada do resto dos assentos, e apenas a chama da vela singular no centro da mesa iluminava trêmula a sua fronte.

Finnegan sabia que tudo o que via em Tanya era falso. Os lábios, os seios, a cor do cabelo, a cor dos olhos. Era o tipo de mulher que sugeria simplicidade, mas quanto mais de perto olhasse, mais complexa se tornava. Naquela noite ela se apresentava jovem e inocente, com ares de inexperiência, brincando com um copo de bebida que havia esvaziado antes que chegassem. O cabelo caía sobre parte do rosto como um véu.

“Sentiram a minha falta, cavalheiros?”

Sentaram-se diante dela. George manteve o silêncio. Vez ou outra olhava ao redor, procurando qualquer coisa fora do lugar. Notou os dois agentes à paisana em mesas opostas.

“Você sumiu. Achamos que o pior tinha acontecido”, disse Finnegan.

“Ficaram preocupados?”

“Tanya. A esta altura já tínhamos agentes procurando o seu corpo no Tâmisa. Ficamos em alerta por horas, um setor inteiro esperando o seu contato. Fizemos uma força-tarefa para te encontrar nas ruas.”

A modelo não o olhava nos olhos. Tamborilava as unhas na mesa. O garçom se aproximou, e George pediu bebidas para todos, incluindo uma nova dose do que quer que ela estivesse tomando. Tanya esperou que o garçom se afastasse.

“Eu não tive coragem de ir na festa.”

“Então você nunca saiu de Londres?”

“Não. Mas Melina queria a grana então eu deixei ela ir no meu lugar.”

“Perdoa o meu francês”, falou George. “Mas o que caralhos você achou que podia acontecer? A gente tinha um time inteiro te dando cobertura.”

Tanya girava o copo vazio na mão, mas os olhos perscrutavam o salão. Finnegan captou seu rosto em um ângulo diferente. Havia algo de errado com o olho que ela cobria com o cabelo. Ele esticou o braço e tocou a mecha. Ela enrijeceu, mas permitiu que continuasse. Havia um corte no supercílio e uma roxidão recente.

“Não é nada. Eu tinha que voltar a trabalhar. Tenho que pagar as contas.”

“Cliente?”

“Você sabe que não. Emmet. Ele não gostou que eu troquei de lugar com a Melina sem avisar. Mas já falei que não é nada.”

O garçom se aproximou novamente e Tanya voltou a mascarar o rosto por trás das mechas louras. Três copos foram servidos sobre a mesa. Seu copo vazio foi retirado.

“Então, quer contar a história para nós?”, falou Finnegan.

“Eu falei pra vocês. Eu vivo falando que essas pessoas são perigosas. Não no sentido normal da coisa. Eu reconheço gente violenta ou com más intenções, quando vejo. Dá pra notar. Mas essa gente é perigosa de outro jeito. Não sei se vocês iam conseguir me ajudar, se eu realmente precisasse de ajuda.”

Em uma sala de operações da NCA, no discreto setor de Casos Especiais, um pequeno time monitorava a cena, ouvindo cada palavra captada pelos microfones da dupla. Tanya bebericou um pouco do dry martini.

“Quando eu vi a quantidade de meninas que o Emmet tava mandando… era alguma coisa grande. E evento grande, pra esse pessoal, não sei não. Quero distância.”

“Nós sabíamos que o evento seria grande. Por isso toda a operação. Era a nossa chance de pegar os caras com a boca na botija. Por isso te enchemos de escutas. Você estava com um GPS. Equipamentos caros que você jogou fora em uma lixeira.”

Finnegan respirou fundo. Não estava ali para reclamar. Tanya o olhava com ares de criança que sabe que fez malcriação.

“O que você achou que ia acontecer nesse evento, que te apavorou tanto?”

“Sei lá. Sacrifício humano? Eu sei lá que porra que eles fazem.”

Ela bebeu o resto do martini de uma só vez.

“Você chamou a gente aqui só para isso?”, falou George. “Só para dizer que tá viva e repetir o que a gente já sabe?”

A modelo abriu a bolsa e pegou o celular. Ao fundo, o saxofone introduzia uma nova melodia. Risadas, conversas e o tilintar de taças acompanhavam a música enquanto Tanya tocava a tela do aparelho, procurando algo.

“Aqui”, virou a tela para eles. Era o mapa de Londres, com o zoom focado em uma área montanhosa. Um marcador indicava um ponto de interesse, em um vale no meio de uma reserva florestal. A modelo olhava para a tela como se fitasse uma certidão de óbito.

“Antes de Melina ir, eu pedi pra ela dividir a localização comigo. Esse foi o último lugar que eu peguei.”

George tirou uma foto da tela com o próprio celular. Então pediu as coordenadas, que ela ditou, número por número.

“Ela não voltou?”, perguntou Finnegan.

“Eu ainda não vi nenhuma das meninas que foram pra festa depois daquele dia.”

“É por isso que você está com tanto medo?”

“Eu não sei se eles têm meu nome escrito em algum lugar, se eles tavam esperando me ver e viram a Melina, e agora tão me procurando por aí. Emmet fala que isso não faz sentido, que ele não dá lista de nomes pra ninguém, mas sei lá. Vai que o diabo falou meu nome pra eles.”

“Você sabe que pode pedir custódia protetiva se quiser.”

“Eu tô pensando em sair da cidade por um tempo. Tenho um lugar pra ficar em Manchester.”

“Manchester não é exatamente longe daqui.”

“Porra, Finnegan, se você não tiver um lugarzinho na Irlanda pra mim, Manchester é o mais longe que eu consigo ir e ainda ganhar um trocado.”

“O lugar é uma hora e meia de carro daqui”, falou George, referindo-se ao mapa que Tanya havia fornecido.

“Por favor, me diz que vocês vão lá procurar a Melina.”

“Nós vamos.”

“Então me liga quando encontrarem ela.”

A modelo se levantou. O vestido elegante acompanhava as curvas do seu corpo, mostrando muito e revelando pouco. Tanya estava vestida para o trabalho.

“Eu tenho que ir agora.”

“A gente entra em contato”, falou George.

Ela anuiu. Finnegan segurou o seu braço.

“Fala pro Emmet que da próxima vez que ele fizer isso com você, ele é um homem morto.”

Ela abriu um sorriso amuado, beijou-o no rosto, e partiu.

Com a modelo fora do cenário, o lugar assumiu outra atmosfera. Finnegan estava agora sentado em uma mesa de restaurante, não em uma mesa de trabalho. Ele mudou de assento e foi para o outro lado, onde ela antes havia sentado, para conversar com George de frente. Deixou escapar um suspiro cansado.

“Sério? Emmet é um homem morto?”, falou George, soltando uma risada. “Ouviram isso? Mister Finn está fazendo aulas com o Denzel Washington agora.”

Na escuta, a equipe soltou risadas. O próprio Finnegan riu. Os agentes à paisana pagaram as suas contas e se retiraram, a equipe foi dispensada, e as escutas desligadas.

“Vai comer alguma coisa?”, falou George.

“A NCA está pagando?”

“Como se isso fizesse diferença.”

“Faz diferença no whisky que eu vou pedir.”

“Agora você falou a minha língua.”

Passaram o resto da noite digerindo o que havia acontecido, e preparando os próximos passos da operação.

 

VIII

Sentados em bancos de metal no baú da van, Finnegan, George e outros quatro agentes sacudiam com cada solavanco do automóvel. Há alguns minutos haviam abandonado a rodovia, e agora seguiam por uma estrada de terra, subindo a encosta da montanha por um caminho serpenteante. Revisavam seus equipamentos: pistolas e munição, coletes a prova de balas feitos com malhas-de-faraday, equipamento de observação e pequenas bolsas de couro cheias de sal. Não carregavam armamento pesado. O objetivo naquela manhã era coletar informações e recolher as evidências que George precisava para que o Departamento de Casos Especiais enviasse uma unidade de invasão tática.

Do assento de passageiros, Samantha abriu a portinhola na parede.

“Dez minutos, meninos.”

A van chacoalhou vigorosamente: estavam agora fora da estrada, e mesmo que a motorista mal pisasse no acelerador, o solo desnivelado forçava-os a se segurarem em seus bancos. Assim que o automóvel parou, Finnegan abriu a porta traseira e foi o primeiro a saltar.

Os coturnos encontraram solo macio. O outono mal havia começado, mas algumas árvores já se despiam em um tapete de folhas douradas. A brisa soprava gelada, e o céu, parcialmente coberto pela folhagem, era de um cinza sinistro. Os outros cinco agentes desceram da van. Acostumavam-se com a atmosfera do lugar em um silêncio tenso. Até mesmo Karen, a jovem motorista do grupo, desceu do automóvel sem o sorriso típico no rosto.

George reuniu todos em um círculo. O mapa no aparelho que segurava indicava a última localização de Melina. Era o endereço de uma mansão construída há um quilômetro e meio dali, longe da civilização, em terras ignoradas pelas cidades para que bilionários pudessem aproveitar o anonimato. Era uma coisa centenária, opulenta, e que havia sido comprada há sete anos por uma empresa ligada ao grupo que investigavam há meses. Um aglomerado de gente sem nome e sem rosto, cuja existência era apenas inferência e conjectura, mas que pareciam com os desaparecimentos recentes.

Todos sabiam das suas instruções, mas George fez questão de revisá-las em um minuto: Karen e Samantha permaneceriam na van, monitorando os arredores e acompanhando-os pelo feed de vídeo e som. Os outros seis seguiriam em duplas: Nick e Scott para a entrada traseira da mansão, Lucas e Anton para a entrada frontal. George e Finnegan subiriam uma elevação próxima para analisar a propriedade de um ângulo mais favorável.

“Vocês me escutaram, né? Estamos coletando evidências. Eu quero fotos, vídeos, espectrograma completo. Não esqueçam das lentes ultravioleta. No geral, a prioridade hoje é não sermos vistos. Não assumam riscos desnecessários e notifiquem o grupo de qualquer atividade. Se não se sentirem seguros, recuem. Eu quero sair daqui com o meu time inteiro e um mandato garantido, sem ter que preencher nenhum formulário de disparo, entenderam?”

As duplas seguiram os seus caminhos e avançaram pela floresta em passos cuidadosos.

George e Finnegan eram os únicos ali com histórico militar. Caminhavam em sincronia, predadores que não precisavam de uniforme camuflado para ativar os instintos refinados por anos de treinamento. A caminhada até o topo da elevação foi silenciosa e eficiente. Para Finnegan, a situação era terapêutica. Pelas próximas horas, tinha carta branca para relegar ao segundo plano todos os outros problemas da sua vida pessoal.

Alcançaram o ponto de observação no tempo esperado, antes dos outros agentes chegarem às suas posições. Encontraram uma área com vegetação rasteira e se deitaram de bruços. No céu as nuvens corriam rápidas, nunca deixando o sol brilhar por entre as camadas de algodão cinza. George monitorava o time pelo GPS, então Finnegan foi quem pegou o binóculo.

A mansão misturava-se bem com a mata que a cercava. Apesar dos muros altos, as árvores dentro do terreno da propriedade eram como uma extensão da floresta. Era um amplo monolito vitoriano, com os seus milhares de detalhes intrincados, torres cilíndricas com pontas cônicas voltadas para o céu, um número estrondoso de janelas, tudo coberto por tons de cores frias. Havia um ar de ancianidade no lugar. Mesmo com a tinta aparentemente nova, a casa transmitia a imponência de quem existia há séculos.

“Guarita no portão principal. Muitos carros estacionados, a maioria de luxo. Parecem civis. Ninguém na frente. Duas câmeras no portão frontal, cobrindo ao menos cento e vinte graus”. O time confirmou, e Finnegan prosseguiu: “Entrada de serviço nos fundos. Câmera no portão, olhando para Sudeste. Há um jardim, mas não vejo ninguém. Porta dos fundos com uma única câmera pegando um ângulo amplo do terreno”.

O time confirmou novamente. Tendo coberto os pontos mais urgentes, Finnegan analisou o resto do cenário.

“O lugar está vazio”, falou, fora do rádio.

“Você não falou que tinha carros estacionados?”

“Sim, mas não tem ninguém em nenhuma janela. Nenhum guarda. Nenhum filhinho de papai fumando maconha no jardim. Espera. Tem alguém na porta da frente.”

“Guarda?”

A entrada principal da mansão era digna de filmes de época. Uma fonte de água talhada em pedra branca adornava a passagem de carros. Poucos metros adiante, um breve lance de escadas terminava em uma volumosa porta dupla de madeira maciça. Uma das bandas da porta estava entreaberta, e o corpo de um homem se projetava para fora, no chão, com o braço estendido adiante como se tentasse escapar do lugar, congelado no tempo.

“Finnegan?”

“Ele está morto.”

“Quem?”

Passou o binóculo para o amigo. George soltou um grunhido ao avistar a cena. A floresta farfalhava com a ventania. No rádio, os agentes confirmaram suas posições e iniciaram o trabalho. George e Finnegan não precisavam trocar palavras para endereçarem a pergunta que pairava no ar. Os segundos que George levou para tomar alguma ação se arrastaram. Ele pegou o rádio.

“Mudança de postura. Possível ambiente hostil e possível homicídio. Há um corpo na porta principal. Samantha, eu preciso de uma permissão para entrar.”

A chefe de comunicações levou um momento para responder.

“Ok, me dá um minuto.”

No rádio, Anton confirmou que tinha visual do corpo avistado por Finnegan. Os agentes mais próximos da mansão ficaram a postos.

“Vamos entrar, então?”, falou Finnegan, pronto para se levantar.

“Calma.”

Aguardou em silêncio. A espera pelo retorno da permissão foi um desafio de autocontrole. Os pássaros sentiram-se corajosos o suficiente para retornarem aos seus postos sobre os galhos das árvores, e agora cantavam como se os instigassem a prosseguir.

“Temos permissão com restrição de não-engajamento”, falou a voz de Samantha, misturada à estática. “Duas unidades de reforço estão a caminho.”

“Vocês ouviram”, falou George. “Sem engajamento. Recuem ao primeiro sinal de antagonismo. Nick, Scott, entrem pelos fundos e nos alcancem na entrada principal.”

“Há muitas janelas aqui, George”, respondeu Scott no rádio, o sotaque escocês diferenciando-o do resto da equipe inglesa. “E o jardim é muito amplo. Seremos alvos fáceis.”

“Então circulem a casa e nos encontrem no portão principal. Eu e Finn vamos entrar com vocês.”

Levaram quinze minutos para se reunirem próximos ao portão principal, ainda encobertos pela mata alta. Havia menos janelas naquela face da mansão, e cobertura ampla para avançarem devagar, caso encontrassem problemas. Assim que chegaram, Lucas os atualizou.

“Nenhum movimento. O portão principal está aberto.”

“Aberto?”

“É mecânico, com retorno hidráulico”, falou Finnegan, que analisou a passagem de longe. “Vê como as duas bandas não encostam uma na outra? Alguém forçou o portão para fora, e o sistema hidráulico ficou comprometido.”

Estavam prontos para entrar. Finnegan pediu que o time aguardasse e avançou primeiro. Seguiu agachado. Forçou o portão, que cedeu com facilidade, e avançou até a guarita. A porta estava aberta. O lugar era pequeno, com espaço para apenas dois vigias. Sobre a mesa havia um maço de cigarros aberto, um cinzeiro com cinzas frias. Acionou o mecanismo de abertura do portão, que se abriu torto, liberando o caminho para o resto do time.

Prosseguiram com Finnegan à frente e George na retaguarda. Adiante, a mansão os observava imóvel, aguardando a sua aproximação. O time procurou se posicionar atrás da fonte de água que enfeitava a entrada, ou ao lado dos carros estacionados por todo o percurso, em busca de algum tipo de cobertura. Mantinham os olhos nas janelas. A porta principal estava muito próxima agora. Podiam ver o corpo no chão e sentir o cheiro acre de carne em decomposição.

Finnegan agachou-se ao lado do morto. O rigor mortis o havia transformado em uma estátua congelada em um grito de horror. Uma espuma avermelhada fugia da boca do defunto, os olhos arregalados fitavam o vazio. Vestia roupa de gala: o terno preto, camisa branca e gravata vermelha disfarçavam a decomposição. Achou que conhecia o homem. Encontrou sua carteira no bolso interno, e confirmou a suspeita.

“É Arthur McGrimmon”, falou no rádio.

Sir Arthur McGrimmon?”

“Sim. Ele mesmo.”

O homem era uma figura proeminente na política inglesa e nome importante no parlamento. De todas as coisas que esperavam encontrar naquele dia, conexões entre sequestros e desaparecimentos e o Parlamento Britânico não estavam entre elas – quanto mais o cadáver de uma figura pública daquele porte.

“Puta merda”, disse Anton. O agente havia espiado para dentro do salão principal e agora se afastava do grupo para vomitar. Scott arriscou abrir um pouco mais da porta e arregalou os olhos.

“Jesus, Maria e José…”

George foi em seu encalço. Com um empurrão, escancarou uma das bandas da porta. O hall de entrada da mansão estava pintado com sangue e vísceras.

Era um imenso salão aberto, e tudo o que o adornava era a morte. O carpete e os tapetes haviam adquirido o tom escuro do sangue seco, as cortinas e os pilares gregos estavam pintados de carmim e entranhas. Havia um pandemônio de corpos em decomposição, dispostos em um padrão lôbrego, o desespero estampado nos rostos voltados para a porta. Era óbvio que haviam morrido tentando fugir de alguma coisa. Havia cadeiras luxuosas que, apesar de agora jogadas ao chão pela fuga infrutífera da multidão, formavam um semicírculo voltado na direção de uma parte vazia do saguão, onde o chão de mármore exibia longas manchas de sangue.

Karen, que acompanhava o time com Samantha pelo feed de vídeo, tentou falar alguma coisa no rádio, mas desistiu. Anton ainda vomitava, afastado da porta principal, apoiado em um dos carros de luxo. Finnegan evitava tocar no sangue seco. Todos observavam a cena em silêncio, como se tivessem esquecido o próprio idioma. Até mesmo as paredes e o teto abobadado, seis metros acima, não haviam escapado dos sinais da carnificina. Um braço desprendido do corpo jazia pendurado em um dos ganchos do lustre dourado ao centro, o sangue já seco não pingava mais.

Finnegan avançou para dentro da cena, devagar. Os corpos inchados vestiam roupas de gala e alguns dos rostos ainda inteiros vestiam máscaras variadas. Uma parte dos cadáveres exibia claros sinais de alvejamento, porém outros haviam sofrido golpes concussivos, e ainda outros foram retalhados por armamentos medievais espalhados pelo chão, antes meros objetos de decoração, agora os instrumentos de um massacre.

“Finn, volta. Vamos deixar isso para a perícia.”

“Vamos investigar primeiro.”

“Isso é…”

“Eu sei o que é, mas você sabe o que vai acontecer quando a perícia chegar.”

Os agentes fingiam não ouvir a conversa. Sabiam o que aconteceria: tempo perdido. Havia ao menos uma figura proeminente morta, e dezenas de outros corpos a serem investigados. Por sua natureza sigilosa, o Departamento de Casos Especiais era ainda mais burocrático do que o resto da NCA. Mas Finnegan não fazia parte daquele meio. Era um empréstimo do Exército Irlandês, e andava à margem das regras, sem precisar tocá-las. No pior caso, ele seria enviado de volta ao país de origem sob acusações de obstrução da justiça, mas Finnegan parecia achar que a tentativa valia a pena.

“Você vai”, falou George. “Eu e os outros vamos estabelecer um perímetro.”

Era inevitável sujar as botas naquela cena, e por vezes Finnegan teve que erguer os pés para evitar pisar nos os corpos mutilados. Notou que segurava o cabo da pistola com força desnecessária. Respirou fundo. Só naquele instante notou o esforço que despendia para manter a calma. Havia tomado a decisão no calor do momento, considerava-se forte o suficiente para aquilo, mas agora, vendo-se cercado por um mar de sangue e moscas, vacilava. O cheiro de morte era intenso demais para que seus sentidos se acostumassem. Atravessava as narinas e penetrava na pele, e ele estava convencido de que nenhum banho o removeria do corpo. Já havia passado por sua cota de batalhas no Afeganistão, onde a visão de corpos soterrados por escombros ou empilhados em valas comuns não era rara, mas ali a atmosfera assumia um tom surreal: era uma mansão transformada em mausoléu. Uma festa interrompida pelo desespero. As memórias vieram tão pungentes que ele sentiu o peso do fuzil nas mãos, a pressão do capacete contra o crânio, e ouviu o tilintar do equipamento de guerra. Teve que redobrar os esforços para voltar à realidade. Diminuiu o ritmo respiratório e afrouxou o punho que segurava a arma.

Olhou para trás: os olhos do resto do time o acompanhavam em silêncio fúnebre. Avançou até o centro do salão, onde os corpos rareavam e de onde todos pareciam fugir. Encontrou no chão – nas mãos rígidas de uma mulher – um cartão com uma lista de nomes, dispostos em duplas.

“Era um ringue de lutas ilegais.”

“O que disse?”

A voz de George veio de longe. Finnengan notou que sussurrava para si mesmo. Repetiu a dedução no rádio.

“Era um ringue de lutas ilegais. Achei o card. Não reconheço todos os nomes, mas alguns eu sei que são lutadores antigos de MMA. Lembra do Chael Sonnen?”

“Lembro, o cara foi banido por doping.”

“Sim. E Cory Walker estava aqui também.”

“O namorado da Skye Levy?”, falou Samantha no rádio.

“Ele mesmo.”

“Vou puxar a ficha dele.”

Skye era uma cantora de alguma relevância no Reino Unido e que havia desaparecido há poucos meses, mas eles nunca haviam conectado o seu desaparecimento com o resto dos casos que investigavam. Cory, seu namorado, era um lutador de MMA que caíra em desgraça quando foi banido do esporte por ter matado o seu oponente, no que foi obviamente um uso de violência desnecessária. Finnegan exalou frustração. Não queria imaginar que o corpo da cantora estivesse ali também, entre cadeiras e vísceras. Não queria pensar que seus pais poderiam estar naquele mesmo lugar, e que seus últimos momentos foram desespero.

Tomado por uma urgência repentina, caminhou a passos largos até um dos corredores laterais.

“Vou entrar.”

“Algo em mente?”, falou a voz de George, abafada pela estática.

“Quero entender que merda aconteceu aqui.”

Procurou por um lugar específico. Abriu porta atrás de porta. O silêncio imperava dentro da mansão, mas os pássaros lá fora assoviavam uma canção inocente, como querubins carregando para longe as almas daquela gente. Viu quartos luxuosos, alguns com malas de viagem abertas sobre a cama. Viu salas de estar, salas de leitura e de jantar, alguns com sinais da morte que havia irradiado do salão. Corpos sobre o carpete, manchas de sangue nas paredes. Encontrou a cozinha, de onde poderia acessar os fundos da mansão. Até que, ao seguir o som das moscas, finalmente encontrou o que buscava.

Havia mais um corpo no chão diante de uma das portas de um longo corredor, perfeitamente ornamentado por um carpete macio. As entranhas do homem escapavam pelo estômago e se espalhavam pelo uniforme. Era um dos funcionários de segurança do evento. Aparentemente havia morrido tentando fugir até aquela sala, que fora convertida em um centro de vigilância, com monitores espalhados sobre mesas, cujas telas exibiam o feed das câmeras do lugar. Finnegan ergueu os pés para passar por cima do corpo. A aparelhagem ainda funcionava. Em uma das telas, George era um aglomerado de pixels aguardando o seu retorno. O resto do time era exibido pelas câmeras externas, fazendo o reconhecimento da área e estabelecendo um perímetro seguro.

Seu objetivo era encontrar as gravações do que aconteceu, que ele suspeitava ter sido o evento de seis dias atrás. Talvez avistasse Melina e outros conhecidos pelas câmeras e descobrisse os seus paradeiros. Apertou enter em um teclado, e uma tela surgiu, exigindo credenciais. Estalou a língua. Não conhecia muito de eletrônicos. Estava acostumado a ver salas como aquela, mas jamais conseguiria navegar pelo sistema de vigilância, tanto menos quebrar a proteção por senha. Tinha a solução para o impasse, mas ela era no mínimo ineficiente. Procurou por um cabo USB. Encontrou o celular de um dos guardas ainda conectado ao carregador. Retirou o cabo, e ligou ao seu próprio celular, então encontrou o gabinete de um dos computadores e conectou o aparelho. Acessou um aplicativo do Exército Irlandês, feito pelo departamento de inteligência. Executou o comando e aguardou. O sinal ali não era bom, mas o aplicativo não precisava de muita coisa. Ele varreria o computador e se o sistema de vigilância fosse conhecido e tivesse brechas, o aplicativo faria o download do máximo de informações que pudesse. O problema, para Finnegan, era que havia muita incerteza naquela equação. Olhava para a tela exibindo caracteres mais rápido do que conseguia lê-los, como se observasse a escrita fantasmagórica de algum pergaminho de magia negra. Tudo o que podia fazer era confiar nos cérebros do departamento de inteligência que haviam criado o aplicativo, e aguardar.

Perambulou pelo quarto, com passos impacientes. Abriu gavetas. Abriu um armário e encontrou dezenas de pastas com documentos diversos. Folheando-as, viu que uma delas carregava o nome de Isaac Danpora.

“Bingo.”

No salão principal, George não queria perturbar a cena, mas a espera e o silêncio eram extenuantes. Viu-se caminhando pelas beiradas da hecatombe, procurando rostos familiares na multidão de cadáveres. Nick e Scott fizeram o mesmo. Olhar a cena tão de perto, e de forma tão corriqueira, ajudava a fixá-la no olho da mente. Precisavam daquilo para manter a motivação correta, e seria destas imagens, no futuro, que tirariam energia para continuar buscando a verdade quando o mundo inteiro estivesse lutando para que desistissem.

Foi George que encontrou Melina. Agachou-se ao seu lado, um xingamento sussurrado que soou como uma prece. O corpo da modelo estava entrelaçado com outros três, braços e pernas misturados em um fim desesperado. Seu rosto, porém, havia encontrado uma serenidade única, os olhos fechados, o cabelo, endurecido com o sangue, caía-lhe sobre o rosto e escondia um pouco da violência. George se levantou, e a cena diante dele era agora mais triste do que absurda. Pensou em Tanya. Então o rádio em seu ombro soou com estática.

“Puta merda”, falou Karen, a voz esbaforida.

“Diga.”

Silêncio.

“Karen? O que aconteceu?”

Nada. A equipe que formava o perímetro do lado de fora o chamou, e quando George saiu da mansão pela porta da frente e olhou na mesma direção que olhavam, viu o filete de fumaça preta esticando-se até o céu na distância.

“Karen? Samantha? Na escuta?”

A motorista demorou longos segundos para respondê-lo. Quando a sua voz alcançou o rádio da equipe, soava sussurrada, mas o tom era de urgência.

“Eles colocaram fogo na Van!”

“Quem?”

“Múltiplos hostis. Indo na sua direção, com equipamento incendiário. Saiam daí agora!”

“Eles estão atrás de vocês?”

“Eles não viram a gente, eu e Samantha estávamos fora da van quando vieram. Estamos escondidas. Sam machucou o joelho na correria, mas está bem. Eu já notifiquei os reforços. Eles estão chegando. Agora sai daí!”

“Finnegan, sai daí de dentro imediatamente. Scott, Nick, para fora, agora.”

George via os hostis, mas sabia que estavam próximos. Uma revoada de pássaros alçou voo ao Norte. Teriam que seguir para o Sul, para longe da van. Lucas e Anton o alcançaram em poucos segundos, mas ninguém que estava dentro da mansão o respondeu. George tentou o rádio novamente, e a reposta foi um disparo vindo de dentro do salão principal.

Correu até lá. Melina tinha os dentes fincados no braço de Nick, que urrava de dor. Os mortos se erguiam, e Scott abria caminho entre eles com disparos. Levantavam-se apoiados nos membros que ainda possuíam, como se acordassem de um longo sono. Os que não tinham pernas, rastejavam-se a esmo. O som era de músculo, tecido e juntas se partindo e cedendo e encontrando novas posições em uma nova vida.

Os gemidos eram de fome.

 

IX

Finnegan apontava a pistola na direção da criança.

“Eu matei você”

O dedo vacilava no gatilho. O garoto caminhava devagar na sua direção com o corpo errado. Deveria ter no máximo três anos de idade, mas era alto demais, os braços longos demais. O corpo adulto e aquela cabeça diminuta. As entranhas escapavam da barriga como adornos grotescos balançando a cada passo. Mas os olhos eram os mesmos. A mesma confusão no rostinho inocente. A pergunta eterna.

Bābā?”

A criança-que-não-era olhava o seu braço e a sua mão e a sua pistola como se acabasse de descobrir uma novidade curiosa. Aquele olhar vacilante de antecipação, que só existe no semblante de quem vê algo pela primeira vez, esboçou em Finnegan um sorriso hesitante. Nos seus sonhos, ao invés de uma perfuração na testa, o garoto ostentava aquela inocência, e vivia por décadas, até a curiosidade se transformar em nostalgia, e o tempo que passa rápido demais quando já se viu tudo o que há de ser visto.

Foi com o mesmo ar infantil que a criança fincou os dentes no seu antebraço. Finnegan urrou. Espremeu o gatilho por instinto mas a bala não teve destino. O estampido trouxe de volta a realidade e a cacofonia de armas de fogo, a voz de George no rádio e os seus próprios gritos de dor. Com a bota, empurrou o homem morto para longe. O movimento fez a criatura cambalear para trás e trazer consigo um pouco da carne do antebraço entre os dentes. Finnegan pôs a Glock na mão inábil, acostumou-se com o peso, e atirou, desta vez fazendo a cabeça do homem explodir, espalhando o vermelho podre por telas de vigilância, paredes e teclados. O corpo caiu inerte ao chão, morto mais uma vez.

As câmeras de vigilância mostravam o inferno visitando o reino dos vivos. George tentava resgatar Kevin, mas o agente já estava cercado por dezenas dos corpos mutilados, que o puxavam para baixo e o faziam rugir a agonia de quem era lançado ao diabo. Do outro lado do salão, Scott abria caminho com tiros. Finnegan iniciou uma transmissão.

“Scott, George, sai daí. Eu me viro.”

Na tela, George não esboçou reação. Ainda tentava salvar o agente em frangalhos. Finnegan olhou a mordida. O sangue escorria, mas não jorrava. O braço tremia. Foi até o celular e tirou o cabo antes do descarregamento total das informações. Colocou o aparelho no bolso, pegou a ficha de Isaac Danpora e enfiou-a entre a barriga e o cinto, jogou o uniforme por cima, e correu.

Já era possível ouvir os rugidos das baforadas de fogo dos lança-chamas. Labaredas crepitavam fora da vista. No final do corredor principal avistou o salão, que era inteiro os gemidos dos não-mortos e corpos aglomerados e olhares vazios. Seguiu adiante, na direção dos quartos.

“De onde eles tão vindo?”, falou no rádio.

“De tudo que é lugar, porra!”, gritou Scott.

“Norte”, falou George. “Vai para o Sul, Finn.”

Virou uma esquina e logo adiante uma pessoa o olhava de volta. Tinha uma camisa preta amarrada no rosto, mas os olhos eram jovens e assustados, como se achasse que o lança-chamas que segurava pudesse explodir em suas mãos a qualquer momento. Vestia preto, e as luvas e as botas eram pretas, mas os olhos eram grandes e verdes e o encaravam, primeiro com horror, depois com receio. Viu a arma na mão do ex-soldado, e o seu ferimento no braço, e Finnegan soube que não iria queimá-lo. Não por prudência, mas pelo receio de ter encontrado alguém naquele pandemônio que parecia mais determinado do que perdido.

Finnegan deu um passo adiante. E outro. Os olhos verde-esmeralda o seguiram, as mãos ainda baixas. As bolas de fogo vindas do lado de fora faziam a casa estalar de dor, mas ali, o silêncio. Passaram a centímetros um do outro, e quando estava longe o suficiente, Finnegan voltou a correr.

Mortos gemiam atrás das portas e tentavam alcançá-lo nos corredores. Encontrou um quarto com as janelas voltadas para o Sul, abriu uma delas e saltou para fora. A fronte da mansão lançava labaredas para o ar. Finnegan encontrou uma árvore próxima ao muro, mas os galhos eram altos demais para escalá-la, especialmente com o braço latejando de dor. Gente vestida de preto vinha de ambos os lados. Saltou de novo para dentro da casa.

A fumaça era agora onipresente. Finnegan seguiu agachado e tossindo e ignorando as chamadas no rádio. Encontrou as escadas e subiu para o segundo andar, onde a fumaça era abundante, mas os mortos não tossiam. Uma mulher em chamas caminhava em passos lentos para lugar nenhum, em silêncio mórbido. Finnegan correu, encontrou o quarto acima do anterior, e a mesma árvore próxima à janela. Dali, jogou-se sobre os galhos e conseguiu apoio, apesar de ter que usar o braço ferido, o que o fez engolir a dor e xingar entredentes. Saltou dali para o muro, e do muro para a floresta. Poucos segundos depois, línguas de fogo explodiam as janelas em uma chuva de estilhaços.

 

X

Finnegan saiu do prédio e fechou o casaco. Os sons de Londres vinham de longe e chegavam cansados, mas ali, apenas a brisa e a rua deserta. Atrás dele o prédio era mais um dentre muitos gêmeos, por fora um monumento de tempos idos, a arquitetura vitoriana tombada e uniforme dobrando esquinas até onde o olho alcançava. Eram quase duas da manhã. Ainda sentia o gosto de fuligem e o cheiro de fumaça e ainda ouvia os sons dos mortos. O antebraço era lembrança constante do que havia acontecido há poucas horas. Precisava de um banho.

O pub estava a apenas três quarteirões dali. Mantinha a tradição britânica de disfarçar-se na vizinhança: as janelas insuspeitas e a porta que mais parecia levá-lo para uma sala de estar. Não fosse a placa de metal na parede, que dava ao lugar o nome de “Killman’s Corner”, e a música que escapava tímida das frestas, acharia que era outra residência.

Abriu a porta. As dobradiças o anunciaram, olhos vieram e se foram. Olhos raros, agentes da NCA que usavam o lugar como refúgio. Milton o esperava do outro lado do balcão. Era um agente aposentado, que operava o lugar mais pelo prazer de ajudar antigos amigos do que pelo dinheiro.

“O Redbreast, Milton, por favor.”

“Acabou. De irlandês tenho o Jameson.”

“Jameson então. Puro.”

O barman deixou o uísque cair no copo em um feixe âmbar perfeito.

“Tem Guiness na casa?”

“Sempre.”

“Uma pint então.”

“Dia difícil?”

A pint and a dram. Não é como se eu nunca tivesse pedido isso antes.”

“Tô falando da sua cara”, uísque servido, e Milton pegou o copo de chope. “Tá acabadão.”

“É. Dia difícil.”

Chope servido. O barman empurrou para ele os dois copos com cuidado.

“Pegou o cara, pelo menos?”

Finnegan olhou para o braço. Usava um casaco sobre as faixas, mas um olho experiente saberia, pelo volume e pela forma como evitava apoiar-se daquele lado, que havia algo de errado. E Milton já tinha visto muitas coisas na vida.

“Ainda não.”

“George tava nessa com você?”

“Estava, sim.”

“Ele tá nos fundos. Pediu pra não ser incomodado, mas sei que vocês são parceiros. Ele não parece bem. Nem pediu nada pra beber.”

“Nada para beber?”

“Só um refrigerante e um café. Falou que tava dirigindo.”

Finnegan pagou as bebidas. Cruzou as mesas à meia-luz e a música a meio-volume. Encontrou George em um canto especialmente escuro, iluminado apenas pelo resto de luz que fugia dos outros cantos do pub. A tela do laptop iluminava o seu rosto.

“Você está com uma cara horrível.”

George deu a ele um segundo de atenção. Olhou para o braço que segurava estranho o copo de uísque. Grunhiu. Então, os olhos voltaram para o laptop. Finnegan se sentou – primeiro os copos, depois ele. Anuiu na direção do café já bebido e da coca-cola pouco tocada pelo amigo.

“E essa coca aí?”

“Estou dirigindo. Como está o braço?”

“Vou sobreviver. Ficaram uma hora cutucando essa merda, limpando tudo.”

“E te botaram pra tomar antibiótico?”

“Sim.”

“Então larga essa merda desse copo de uísque.”

“Tá pedindo muito.”

George grunhiu.

“Eles te seguraram lá até agora?”, falou George.

Finnegan anuiu e tomou o primeiro gole do Jameson, a queimação uma distração bem-vinda.

“Deixaram você por último por isso, então. Queriam te cozinhar. Foi quanto tempo de debriefing?”

“Quatro horas.”

“Pegaram no pé por você ter entrado sozinho?”

“Metade foi isso. O que eu perdi nesse tempo?”

“A equipe de suporte capturou um dos candangos. O resto ou morreu no incêndio ou fugiu.”

“Morreram? O que, entraram na casa assim, marchando, sem se preocupar em não estar lá quando a coisa toda caísse na cabeça deles?”

“Por aí.”

“E o homem que capturaram?”

“Uma garota. Adolescente. Estão interrogando ela agora.”

“Chegou a ouvir alguma coisa?”

“Não.”

“O que você está fazendo?”

Finnegan espiou a tela diante do amigo. Reconheceu a imagem da mansão – na tela, as pessoas e suas máscaras riam e conversavam e achavam que a morte ainda estava a anos de distância. Lutadores se preparavam no centro de salão como atrações de uma noite extravagante, torsos nus em uma arena sem cordas. Havia algo de peculiar na cena, uma certa metodologia no cenário como se cada movimento e cada risada tivesse um significado velado e atendesse um objetivo acima do que ele conseguia explicar.

“Isso é um dos vídeos que eu extraí”, disse Finnegan. “Isso tinha que estar com a equipe de evidências.”

“Eu dei uma cópia para eles.”

“Você sabe do que eu estou falando.”

George fechou o laptop e o empurrou para o amigo.

“Mas eu não estou com nada que não deveria estar comigo. Você foi quem guardou uma cópia, e você vai correr atrás da própria investigação.”

“Eles já estão no meu pé, George. Estão putos que eu quebrei um protocolo na operação.”

“Por isso mesmo”. O laptop entre eles mediava a conversa, silencioso. O copo de Guiness suava, e o suor perigava tocar o aparelho. “Você tem que ver isso, Finn. Você tem que ver os vídeos.”

“Está tudo lá? Não cortou nada?”

“Vários dos arquivos estão corrompidos, mas o que dá para ver já é o suficiente. É o Cory, Finn. Foi o Cory.”

“Ele? Sozinho?”

“Não. Sozinho não.”

“Eles me pediram para ficar em Londres enquanto avaliavam as evidências. É uma ordem.  Meu comandante já deu o aval.”

“Então a gente espera. Confia no processo. Torce para não ser tarde demais.”

Um gole na Guiness. A amargura trouxe um pouco de lucidez. Na frente de George, o gelo aguava o refrigerante. Finnegan puxou o laptop para si e colocou-o ao seu lado na mesa.

“Eu vou ser suspenso, George.”

“Só se descobrirem.”

“E você não sabe de nada, então?”

“Nunca nem vi esse laptop.”

“Pelo Kevin.”

“Pelo Kevin.”

“E Isaac.”

George esticou o braço, pegou a dose de Jameson, e os copos se tocaram, e ele bebeu um gole mais extenso do que o de costume.

“Como está o resto do time?”

“Cada um lidando como pode. Karen perdeu a virgindade hoje.”

“Ah é?”

“Sim. Uma hora a pessoa tem que presenciar uma coisa dessas, mas assim, já de cara perdendo também um membro da equipe, acho que foi muito para ela.”

“Vou falar com ela depois.”

“Eu falo com ela. Ainda sou o chefe dessa equipe.”

“Vai pra casa, George. Descansa.”

A brisa lançava contra as janelas uma miríade de gotículas da garoa que tinha início. Era tão fina, que as pessoas na rua não se importavam em abrir os seus guarda-chuvas.

“Eu falei com os pais dele”, disse George. “A mãe dele não parava de chorar. Não abraçou o marido, não desabou de dor. Ficou só ali chorando, sem conseguir falar. Kevin deve ter contado para ela dos riscos do trabalho, as coisas que a gente espera acontecer, você sabe, o que o protocolo pede para fazermos quando entramos nessa linha de ação. Mas a verdade é que nada te prepara para isso.”

“Você nunca fez isso antes?”

“No exército, sim. Mas na NCA é diferente. Seu filho está na polícia, não está em algum deserto a milhares de quilômetros de distância com bala voando para todo lado.  Eu fiquei lá tentando dizer que o filho deles tinha morrido com honra, que seria lembrado. Mas não tinha corpo pra mostrar. Ela perguntava os detalhes e eu não respondia, não podia responder. O pai veio depois. Ele ouviu a comoção e veio andando dos fundos da casa. Parou uns passos atrás da mulher. A esposa dele chorando desconsolada na porta, o filho deles se foi e ele ficou lá me olhando. Não vi raiva nele, mas eu sabia que estava a um impulso de me socar.  Me jogar no chão e encher de porrada para calar a minha boca, como se, desde que eu parasse de falar, o filho dele nunca teria morrido. E o pior é que eu acho que não me defenderia se ele fizesse isso.”

“Não é culpa sua.”

George balançou a cabeça. Fez que pegaria o uísque, mas bebeu a coca-cola aguada. Olhou o laptop fechado. Olhou a janela, e a chuva decorando as luzes dos postes.

“Por que você está aqui, Finn?”

“Você sabe.”

“Não estou falando dos seus pais. Nem dessa investigação. Você disse que um dia me contaria o que te fez entrar para essa linha de investigação. Não vejo melhor hora para isso.”

“Não vê melhor hora para isso? George, há menos de vinte e quatro horas você estava atirando em gente morta. Você perdeu um amigo. Vai dormir.”

Os olhos de George eram globos de vidro e dentro dele parecia chover também. Perdeu-se na bebida borbulhante. Bebericou mais um pouco do refrigerante.

“Vou só terminar isso aqui.”

Finnegan pensou no crucifixo da mãe, e notou que não sentia o frio familiar contra o peito. Quando olhou para baixo, viu que o pingente havia saído da blusa e descansava do lado de fora, o cristo de braços abertos em sua eterna expressão de sofrimento, mas pequeno demais para que Finn distinguisse os seus olhos.

“Eu vi um cavalo voando um dia, bem no céu de Helmand.”

A risada de George só veio depois de um breve momento de digestão.

“Você foi aceito em uma das organizações mais seletas desse país por que teve uma alucinação em campo de batalha?”

Finnegan guardou o crucifixo dentro da blusa. Sorria, mas o sorriso derreteu conforme as memórias retornavam.

“Foi em Herrick quatorze. Meu segundo tour. No avião para lá já estavam falando do tenente Hargraves para mim, tentando me preparar para o cara. ‘Ele é um bom homem, pode confiar, mas ignora que é um pouco descompensado’. E tudo o que me passava pela cabeça era que ninguém naquela guerra era ‘compensado’.”

“Achei que você tinha servido com Hargraves no primeiro tour.”

“Não, só em Herrick quatorze. Quarto pelotão, companhia D. Fiz o processamento em Bastion e depois de dois dias me botaram num helicóptero para Nahr-e Saraj.

“Você chegou no auge da merda em Helmand.”

“É. Pois é. O comando tinha farejado a localização de um depósito de explosivos e enviou o pelotão de Hargraves para um qal’a. E como o talibã decidiu meter bala neles, acharam que era sinal de que estavam indo para o lugar certo.

O qal’a era enorme, parecia que tinha séculos de idade. A coisa parecia um castelo. Muros de cinco metros, uma torre de vigia de dez. Tudo tinha cor de barro naquele lugar, as paredes, os arbustos, a folhagem das árvores. Parecia que deus tinha lembrado de trazer só o lápis de cor bege para pintar no dia que criou aquilo.

Hargraves me recebeu lá, designou a minha equipe de combate, perguntou se eu tinha tudo o que precisava e perguntou se eu acreditava em Deus. Eu disse que sim, e ele falou daquele jeito dele, disse que era bom que eu acreditasse mesmo, porque aquele lugar precisava de um pouco mais de deus.

Tudo o que a gente tinha para fazer era esperar. Patrulhas simples para manter o controle da área, abrir caminho para os comboios de abastecimento, essas coisas. Mas na primeira noite eu já pude ver o problema: não importasse para onde você olhasse no horizonte, dava para ver as luzes de alguma vila próxima. Eram cinco, e nenhuma delas queria a gente ali. O Talibã atacava quase toda noite. O de sempre: tiroteio de trinta minutos, no máximo quarenta. De vez em quando até se engraçavam com alguma granada que nunca dava em nada. Queriam ganhar no cansaço.

Eu não gostava daquele lugar. Era grande demais. O forte foi feito para cem homens, e éramos vinte e sete, mais os seis afegãos que lutavam com a gente, e o intérprete. Não tinha como proteger o lugar inteiro, só que ninguém parecia preocupado. Foi Karim quem me fez entender a fama de Hargraves”

“Karim?”

“O intérprete. Era um local. Durão da porra. Perdeu a família inteira para o Talibã e disse que a comunidade local estava em frangalhos, mas que ele queria fazer a diferença. Disse que ninguém ali estava realmente preocupado com uma invasão do forte, porque ninguém do lugar queria botar os pés lá. Ele falou que, quando o pelotão de Hargraves chegou, o lugar já estava ocupado.”

“Hagraves teve que conquistar o forte, então?”

“Não. Não era esse tipo de ocupação. Karim falou que o lugar estava ocupado há centenas de anos. Pela mesma coisa.”

“Coisa?”

“Ele não queria me dizer o nome. Não quis me falar o que era. Falou que era superstição boba, mas nenhum afegão riu quando ele contou a história, nem ele. Nem nenhum outro soldado britânico, quando eu perguntei. E quando falei com Hargraves, ele não riu também. Só fez o sinal da cruz, e pediu para que eu rezasse com mais fervor antes de dormir. Então vieram os sons.”

“Sons?”

“A gente estava preparado para os tiros e as balas zunindo, e as explosões. E elas vinham com a constância do Talibã que você já conhece. Só que eu não estava preparado para as vozes.

Não eram vozes claras. Não é como se falassem no nosso ouvido. Quando a gente ouvia, era como se flagrássemos alguém chorando, e disfarçassem o choro quando nos notavam. Mulheres. Crianças. Era sempre assim, na esquina, no fundo da sala, longe. Atrás de uma parede. Atrás de uma porta. Homens sendo torturados, longe demais. Nunca era algo feliz. Era sempre choro e dor e lamentação. O pior eram as crianças, porque sempre parecia que elas estavam bem ali. Eu olhava para baixo e jurava que veria um moleque chorando e perguntaria se estava tudo bem e o levaria até a sua mãe, mas tudo o que eu via era o barro.

Havia outros sons, também. Guerra antiga. Ferro contra ferro, como se estivessem lutando bem ali do lado de fora, mas nunca havia nada. E canhões. Sabe o som dos canhões cerimoniais? Seco? Aquilo era diferente. Dava para sentir o impacto chegando pelo chão, com artilharia de verdade.”

“Como você sabe que estava ouvindo o som de artilharia de verdade?”

“Eu só sabia. Todo mundo sabia. Era como se estivéssemos ouvindo as memórias do lugar. Não me entenda errado, não era como se a noite fosse só isso. Mas era comum a ponto de ninguém estranhar mais. Estaríamos comendo alguma coisa, ou conversando, e ali dava para ouvir uma mulher chorando, e a conversa terminava. E só ouvíamos em silêncio, até o choro notar que era notado, e parasse.

Na vigésima segunda noite, sofremos o maior ataque desde que eu cheguei. Pelo que eu vi nos olhos dos garotos, foi o maior ataque que todos eles tinham visto. Até Hargraves foi para as muralhas. As noites em Nahr-e Saraj eram muito escuras, o que chegava a ser quase um paradoxo, já que o céu era tão cheio de estrelas que não parecia fazer sentido o campo ser tão escuro daquele jeito. Naquela noite tinha tanta bala voando sobre as nossas cabeças, mas não conseguíamos ver nenhum clarão para retornar fogo. As equipes agiam na maior ordenação que conseguiam, mas a verdade é que eu sentia que estávamos atirando em nada. Então vieram as bombas de morteiro. Os foguetes RPG. Explosões que batiam no muro e levantavam barro que nem fumaça. Eu estava do outro lado do forte quando ouvi a torre de vigia cair e rezei para que ninguém estivesse dentro dela, mas sabia que havíamos perdido ao menos cinco garotos só naquela queda. E não cessaram. O Talibã continuou atirando e atirando, uma hora da manhã, duas, três. Não acabavam as balas. Não se cansavam.

Eu estava no topo de um dos muros, agachado e guardando meu último carregador, adiando a viagem até o depósito para pegar mais munição, quando ouvi o cavalo. Não dava pra acreditar. Não tinha como alguém a cavalo estar vivo no meio de tanta bala. Mas quando chegou perto, segui o som com os olhos e olhei para cima. Era umas quatro e meia da manhã, o céu estava daquele jeito meio cinza. E eu vi o cavalo. Depois, quando falei com Hargraves, ele jurava que era vermelho. Eu não lembro de cor nenhuma. Mas era um cavalo, e ele cavalgava no ar e estava indo embora, e até hoje não sei dizer direito se era um homem sentado sobre ele ou se era só a sombra das nuvens. Mas eu vi o que vi, e Hargraves viu também, e outros dois que estavam por ali. E quando o cavalo foi embora a batalha acabou, e a gente notou que estava atirando em fantasmas. A torre não tinha caído. Ninguém estava ferido.

‘Ele está só lembrando a gente’, foi o que o tenente falou. Mas quando eu perguntei quem era ‘ele’, o homem só fez o sinal da cruz de novo.”

“É uma história e tanto.”

“Você não sabe o inferno que Hargraves passou pra resolver a papelada do relatório daquela noite.”

Finnegan usava o uísque e a cerveja como vírgulas, e os copos já passavam da metade. Milton surgiu, a sua sombra contra a meia-luz fez com que parecesse maior do que era.

“Eu estou de partida. Vocês fecham a porta e apagam as luzes?”

George anuiu. A dupla ouviu os passos do homem até a porta da frente, ouviu o abrir e fechar da folha de madeira, e o baque no batente. Estavam acompanhados dos grilos agora. Londres dormia.

“Eu menti.”

“Porra. Não vai me dizer que inventou isso tudo?”

“Não. Tudo isso aconteceu. Mas não foi por isso que eu entrei para essa área.”

Finnegan fez o uísque dançar no fundo do copo, e lançou o resto da bebida na garganta, sentindo o peito queimar, e o calor descer até a barriga.

“Depois de trinta e três dias, o quartel-general confirmou a informação sobre o depósito de explosivos e passou as coordenadas de um grupo de construções em uma das vilas. Veio junto outro destacamento. Hargraves liderou quase todos para lá. Deixou no qal’a só a guarnição básica. A gente fez como sempre faz, com cuidado, avançando devagar. Essas vilas têm tantos ângulos, tanta esquina e tanta janela. É um inferno. Mas foi uma das operações mais fáceis que a gente fez. Os desgraçados passavam noite sim e noite não crivando o adobe do qal’a de bala, e quando a gente entra no território deles, eles recuam. Eles atiraram, mas nada que desse medo. Pareciam atirar mais para dizer que estavam indo embora.

Os afegãos que andavam com a gente estavam todos de bom humor. Karim falou que os aldeões ‘não fizeram’. E quando perguntei ‘não fizeram o quê?’, ele falou ‘não tiveram coragem de fazer o pacto com a coisa do forte’. Sākin al-Qal’a, foi o que ele falou.”

“O que é isso?”

“Eu não sei, o nome da coisa? Eu não sei. Àquela altura aquele tipo de conversa já não nos afetava, mas andando ali no meio de uma vila morta, com os rifles na mão, e ouvindo aquilo, nada parecia certo. Eu só quis encontrar os explosivos, mandar o sinal, esperar o comboio e sair de lá.

Hargraves distribuiu as seções pelas duas fileiras de construções e a minha seção recebeu o setor Sul. Fomos eu e a minha equipe que achamos o depósito.”

Silêncio. A brisa ululava entre as frestas da janela. A madeira do assoalho rangia. O lugar todo estalava, incomodado com as palavras de Finnegan.

“Eu ouvi as correntes, fiz o sinal para a equipe parar. Andei na frente. Virei a esquina. Tinha um garoto afegão. Não devia ter mais do que três anos. A pele cor de terra. O cabelo duro de sujeira. Estava confuso. Preso a três correntes que o prendiam a explosivo suficiente para derrubar a casa e matar todo mundo naquele pátio. No chão, ao redor dele, havia alguma coisa desenhada em vermelho. Um círculo enorme, que cobria a sala inteira. Era tão vermelho quanto os olhos do garoto. Ele olhou para mim. Falou bābā. Deu um passo na minha direção.

Tinha tanto material ali. Explosivos e fertilizante e baterias. Fiação. Cordéis. Foi muita informação, muito pouco tempo. Ele falou bābā de novo, andou outro passo, as correntes esticaram, e deu pra ouvir um pino desarmar. Uma peça metálica voou atrás do garoto, todo mundo ficou em silêncio ouvindo a coisa rolar pelo chão. Eu não sei que merda eles fizeram mas eu sabia que se o garoto andasse mais um pouco eu e o resto da minha equipe desapareceríamos. O time pedia para eu ir embora, mas eu estava achando que o garoto ia seguir a gente se a gente só saísse. Eu levantei a mão, pedi para ele parar. Karim chegou, viu a situação, e falou com o menino. Não quis perder tempo me explicando o que estava falando. E daí outro segundo passou, e Karim correu na direção do garoto. Eu gritei para ele parar. Acho que ele reconheceu a armadilha e a intenção era parar o garoto, impedir que ele andasse mais, só que não calculou direito. Quando o menino viu Karim correr até ele, ele mesmo tentou correr o resto do caminho para encontrá-lo no meio.

Fui eu quem atirou. Meu cérebro agiu no automático e eu só pensei depois. Atirei na cabeça do menino. O sangue era da mesma cor do círculo no chão. Era da mesma cor. E apagava tudo. Os dois eram da mesma cor.”

Finnegan só notou a lágrima descer de um dos olhos quando ela já tocava o seu queixo. Fungou. Bebeu a Guiness.

“Eles queriam que você fizesse aquilo.”

“Karim estava certo. Eles não tinham tido coragem.”

“Você descobriu o que era?”

Shayatin.”

“Que porra é essa? Alguma coisa ligada aos muçulmanos?”

“Não é nada ligado a religião nenhuma. Não é como se eles estivessem fazendo algo que fosse real. Era só uma piada. Uma coisa para algum espírito em algum lugar rir da nossa cara. Noites sem dormir, terror noturno, balas zunindo, uma criança morta e uma vila inteira enganada, só para alguém em algum lugar que não sabemos provar para outro alguém que sim, nós mortais somos tão influenciáveis como crianças. É por isso que eu odeio essa gente. Gente que nem essa galera dessa festa, dessa mansão. Eu não sei o que aconteceu lá, mas eu sei que eles estão tentando tocar o intocável, e acham que estão fazendo algo magnânimo. Eles só estão servindo de entretenimento para alguma coisa, como se fossem as formigas de um formigueiro cósmico. Mas, no processo, matam…”

As palavras fugiram, e a bebida tinha acabado.

“E você entrou para o departamento de assuntos especiais depois disso.”

“Hargraves me chamou assim que eu pisei no Reino Unido de novo.”

George tocou o seu ombro, apertou, e o momento se alongou.

“Acho que nós dois precisamos de um descanso.

Finnegan anuiu.

 

XI

No quarto do hotel, Finnegan se sentou diante do laptop e assistiu o primeiro vídeo que encontrou. Convidados recepcionados com sorrisos calculados, bocas se movendo sem som. Uma miríade de rostos – a equipe de evidência levaria meses para realizar todas as identificações. Não tinha todo aquele tempo. Foi para o próximo vídeo.

Horas antes do fim, as garotas de programa desceram das limosines, vestidos curtos e brilhantes, pele à mostra em todos os lugares certos, e sorrisos sabidamente falsos, mas a falsidade bem-vinda de quem espera fantasia. Melina andava entre as colegas de trabalho, ignorante do futuro, sem ter ideia de o quão certas estavam as intuições de Tanya. Finnegan demorou-se no rosto conhecido. Então, foi para o próximo vídeo.

Fim da noite. Convidados atrás de máscaras assistiam aos gladiadores em lutas sem tempo e sem regras, à moda romana. Os rostos rígidos das máscaras testemunhavam a brutalidade masculina em sua versão essencial. Cada golpe causava espanto em alguns e excitação em outros. O sangue quente jorrava, e ao redor, em vez de cordas, mulheres mascaradas e seus longos vestidos vermelhos coletavam o líquido do chão com panos. As lutas terminavam apenas quando um dos combatentes caía desacordado. Panos eram espremidos sobre feridas e depois torcidos sobre receptáculos, preenchendo-os com sangue e suor. Havia método em tudo aquilo, uma forma ritualística, e mesmo que o vídeo fosse mudo, Finnegan deduziu a presença de um cântico. Não sabia o que assistia, mas o cântico lhe soava essencial para a cena, que parecia errada se mergulhada em silêncio, como uma missa em que apenas o padre falasse.

E lá estava. A boca na máscara não se movia, mas o homem atrás da violência, meio coberto pelo derramamento de sangue, gesticulava em louvor ardente. Diante dele, mais sangue. E a violência escalava conforme o seu fervor aumentava.

Outra luta terminou, os lutadores removidos, e Cory entrou em cena. A pele pálida, o cabelo negro já empapado de suor antes mesmo da luta começar, grudado à fronte. Entre as mechas, os olhos fixos no oponente. Olhos treinados de quem já havia feito aquilo dezenas de vezes, mas ali, como não tocavam luvas nem trocavam palavras, o olhar traduzia uma intenção assassina.

Cory lutava bem, mas era imprudente. Para cada dois golpes que acertava, recebia um de volta, e cada golpe que recebia alimentava a sua ira. A gravidade dos seus ataques crescia junto com o fervor do homem mascarado, que agora, de pé, gesticulava como se narrasse o ato final.

Cory finalmente derrubou o adversário, montou sobre ele, e iniciou uma torrente de golpes desnecessários. O homem no chão já não se movia. Cory parou de socar, e começou a bater a cabeça do homem contra o assoalho. As mulheres colhiam o sangue diligentes. Os receptáculos transbordavam. A plateia se levantava. E o sangue fluía, até surgir das paredes e do teto, gotas, uma após a outra, e logo uma chuva sanguinolenta caía sobre o salão. O homem que cantava abriu os braços e recebeu a chuva como uma bênção. Em movimento perfeitamente gêmeo, Cory fez o mesmo. E a matança teve início.

Todos voltaram-se contra todos. Socos, pontapés, mordidas. Seguranças armados disparavam a esmo. Convidados muniram-se das armas ornamentais e lutavam como guerreiros e guerreiras de tempos primordiais. Matavam uns aos outros em desespero, como se matar fosse mais importante que viver, e morrer daquela forma fosse a pior das maldições. Matavam sem querer morrer, mas ali todos matavam e todos morriam. Finnegan não piscava. Sabia que o que via era absurdo, mas estava hipnotizado.

Em meio a tudo aquilo, Cory era Ares. Cada golpe do seu punho ceifava uma alma. O último a morrer foi Sir Arthur McGrimmon, que, como se voltasse à realidade, arrastava-se na direção da porta principal. Cory, àquela altura munido da pistola de um dos seguranças, atirou nas costas do homem, que, em um último movimento, desabou sobre a porta, abrindo-a. Talvez por ser o único sobrevivente, talvez pela porta agora aberta lembrar-lhe do mundo externo, Cory parou. Olhou ao redor, largou a arma. Correu até a motocicleta, deu a partida e acelerou, forçando o portão fino da frente do lugar com o impacto.

Finnegan ficou ali, olhos virados na hecatombe, agora apenas o contador de tempo indicava que aquilo era um vídeo, e não uma fotografia dantesca. Sabia que não conseguiria dormir. A cérebro latejava, o braço doía. Fechou o laptop. Preparou café. As faixas no antebraço estavam manchadas de sangue. Trocou-as, e tomou o antibiótico junto com o café preto. Foi até o próprio computador e buscou o que o time da NCA sabia sobre Cory. Em sua desgraça, o ex-lutador alugava uma garagem nas margens de Londres. Era o seu último endereço conhecido. Finnegan vestiu o coldre de ombro por costume, e só depois lembrou-se que a arma de serviço tinha ficado para trás, junto com todo o equipamento envolvido no evento daquela manhã. Estalou a língua. Teria que correr o risco.

A garagem de Cory ficava ao lado de outras idênticas que cercavam um campo de futebol em uma área menos opulenta da capital. Bateu na porta metálica. Nenhuma resposta. Lembrou-se do tenente Hargraves, de suas palavras quando o convidou para aquele ramo de investigações e Finnegan disse ‘sim’ sem hesitar.

“Você nunca vai se acostumar. Nunca. Eu preciso que você entenda isso. Você vai ter que se cercar de regras. Rotinas. Lugares para voltar quando a mente quiser fugir. Porque você vai ver coisas que a sua cabeça não está pronta para ver. Você acha que o Afeganistão foi o pior, que nada é pior do que aquilo, mas você está enganado. A sua mente é a sua melhor ferramenta, e se você não a proteger, aí é que a merda começa.”

Deu a volta na garagem. Luzes apagadas. Espiou as janelas altas. Vazio. Nos fundos um buraco cavado no chão de terra. Vazio. Voltou ao carro, massageou as têmporas. A voz do tenente ecoava, sabia que precisava dormir, mas não achou que conseguiria. Reviu os arquivos. Cory. A mansão. Isaac Danpora. Os desgraçados tinham um arquivo sobre Isaac Danpora, que ele encontrou e agora via as fotografias da equipe de evidências na tela do laptop. O garoto era listado como uma pessoa de interesse, mas não fazia parte daquele grupo. Nas notas do arquivo, o grupo suspeitava que algo grande aconteceria em Bishopstone, no dia dezenove. Olhou o relógio. Era madrugada do dia dezenove.

Finnegan ligou o carro e partiu para East Sussex.

 

XII

Thomas dirigia sem pressa pela M23. Com o carro climatizado e todas as janelas fechadas, ouviam o mundo externo como se navegassem dentro d’água. Edward, no banco de passageiro, continuava com a pesquisa no celular.

“Ouve essa. ‘Nell St John Montague era o pseudônimo da atriz britânica nascida Eleanor Lucie-Smith. Nell era também escritora, socialite e’, saca só, ‘clarividente’.”

“Ela era de Bishopstone?”

“Mais ou menos. Está enterrada lá.  ‘As divinações de Montague eram populares nos círculos sociais. Ela apareceu em alguns dos primeiros programas de televisão em 1932, lendo as mãos de convidados’”

“Deixa eu ver.”

Edward mostrou uma foto em preto e branco de uma atriz elegante dos cabelos escuros e rosto alongado.

“E ela é a única pessoa de destaque de lá?”

“Ela, um poeta e uma santa.”

“Uma santa?”

“Sim. Coisa antiga, século oito.”

“Isaac não tinha algo a ver com uma santa?”

“Tinha? Ele não parecia religioso, nem nunca falou nada de santa comigo.”

“Comigo também não, mas lembro de ter ouvido isso sem querer. Só não lembro como.”

“Leofwyn, é o nome da santa.”

“Leofwyn. Não é exatamente um nome comum.”

“Século oito, Tom.”

“Se você me deixar terminar de falar. O que eu quis dizer é que não é um nome comum, mas ainda assim não me é estranho.”

“Então você se lembra.”

“Vagamente.”

“Entra naquele posto ali, preciso mijar.”

“Você me chama de velho, mas não consegue ficar na estrada uma hora sem ir ao banheiro? Não fez xixi antes de sair, filho?”

Edward balançou a garrafa térmica que carregava consigo, a água dançando com o movimento.

“Estou tentando me hidratar mais.”

“Achei que isso era álcool.”

“Quem me dera.”

Sentiu-se mal falando aquilo. Tentava parar de compensar qualquer desconforto com bebida, e sentir saudades da coisa agora tinha ares de pecado.

Thomas aproveitou para parar o carro ao lado de uma das bombas de gasolina de auto-atendimento.

“Quer alguma coisa da loja?”, perguntou enquanto retirava a mangueira da bomba.

“Vê se tem Mentos.”

“Qual cor?”

“Azul.”

“Se não tiver, posso pegar Extra?”

“Não. Essa merda tem gosto de plástico.”

Edward foi procurar o banheiro enquanto Thomas abastecia o carro. Era uma rara manhã sem nuvens no Sul da Inglaterra, o sol alto inspirava as pessoas a saírem de casa. As mesas externas dos cafés e do bar estavam quase todas ocupadas. O vozerio animado dos viajantes e o toque fresco do sol sobre a pele lembravam um fim de semana na praia, não fosse o concreto firme sob os pés e o odor de gasolina no ar.

Um túnel aberto na parede lateral do centro de conveniências levava até os banheiros. O corredor era longo, tendo que passar pela extensão da loja antes de terminar em uma bifurcação. Conforme avançava no caminho, os sons da parada à beira da estrada tornaram-se distantes o suficiente para que Edward pudesse ouvir os ecos dos seus passos, e além, mais próximo do fim do corredor, ouvia até mesmo a sua própria respiração. Algumas adolescentes saíram às risadas do lado feminino. Quando Edward virou para o lado masculino, elas eram apenas ecos distanciando-se do silêncio ali dentro.

O banheiro estava perfeitamente vazio. Todas as cabines tinham as portas semiabertas. Ninguém nos mictórios, nenhuma torneira aberta.  Um espelho se alongava por toda a extensão de uma das paredes, refletindo a ausência. Edward parou o caminhar por instinto, tornando-se tão imóvel quanto o ar do lugar. O déjà-vu veio sem aviso: ele abrindo a porta do banheiro da escola durante o horário de aula, quando o mundo inteiro estava em outro lugar e a ele fora concedida permissão especial para visitar aquele mundo vazio e proibido por um breve minuto.

O momento se alongou. Olhou para trás: ninguém. Nenhum som, também. Apenas a música de fundo da vida, o som do vinil entre músicas, que só se ouve quando não há nada mais para ser ouvido. Quis andar de volta, olhar o túnel, verificar se ainda estava onde deveria estar, mas ficou. Quis que a Canon AE-1 estivesse consigo. Os primeiros passos que deu dentro do banheiro ecoaram alto demais. Andou até o espelho, e por um momento achou que não veria ninguém ali, que ele mesmo era também parte dos ecos. Mas lá estava ele, olhando de volta para si mesmo do outro lado da lente.

Um homem entrou no banheiro e o momento foi perdido. Sentindo-se um idiota, Edward foi mijar.

Voltaram à estrada com Edward no volante. A mudança era bem-vinda; precisava de um pouco de distração. Mascava o Mentos azul que Thomas havia comprado, olhos na estrada, e na BBC Radio 2 as guitarras etéreas de Street Spirit (Fade Out) começaram a tocar.

Agora no banco de passageiros, Thomas examinava a foto que Edward havia revelado na noite anterior. A mão diminuta a ajeitar o convite no chão era óbvia, mas se torcesse o ângulo da forma correta poderia conjurar ali muitas outras formas, como nuvens negras contra o céu noturno.

“Você acha que isso é real?”

“A mão?”

“É.”

“Eu fiquei pensando nessa foto um bom tempo. Mas não sei dizer, direito.”

“Acha que é algum artefato de imagem?”

“Eu fiquei um tempo achando que foi sombra projetada da minha mão na hora da foto. Eu tirei sem olhar. Não sei se fiz besteira quando cliquei, minha mão estava numa posição estranha.”

“E quais você acha que são as chances de isso ter acontecido?”

“As mesmas de um demoniozinho ter aparecido no meu escritório de noite para me entregar um convite.”

“Você fala como se achasse que não fosse real.”

“Eu não sei mais o que é real nessa história toda.”

Thomas pôs a foto de volta no porta-luvas, e por um tempo, o som de Radiohead foi tudo entre eles e a estrada.

“Eu sinto que eu deveria estar mais empolgado com isso tudo”, falou Thomas.

“Empolgado?”

“Passamos os últimos anos investigando esse tipo de coisa. Querendo provar a existência do inexplicável. Mas agora que me deparo com algo convincente, não estou empolgado. É como se o meu cérebro não quisesse entreter a ideia de que o que presenciamos na noite passada foi um fenômeno sobrenatural.”

“Seu cérebro está tentando justificar o que viu. Pessoas que nem a gente sempre tentam justificar o que não entendem, diminuem a complexidade da imagem até achar alguma caixinha com uma etiqueta para colocar ela.”

“Você acredita, então?”

Edward diminuiu o volume do rádio quando o locutor começou a falar alto demais.

“É estranho.”

“Estranho como?”

“Eu me sinto como se estivesse dirigindo na direção do inferno, mas eu estou calmo com isso. Como você, eu também não estou empolgado, mas talvez seja porque estamos indo para o funeral de um amigo.”

“E você acha mesmo que o convite que recebemos era para um funeral?”

Àquilo Edward não tinha resposta. Seguiu os sinais para a próxima saída, e logo a A23 deslizava sob os pneus do carro.

Aos poucos, as vastas paisagens do Sul da Inglaterra, com os seus rolos de feno e ovelhas a pastar, deram lugar a casas de campo e pequenos comércios locais. Agora dirigiam devagar pelo pequeno centro de Alfriston, a vila mais próxima de Bishopstone com alguma hospedagem. Edward jogou o carro no estacionamento do The White Hart Guest House, uma casa feita de pedra escura coberta de limo. Havia cinco vagas no estacionamento a céu aberto, mas apenas uma estava ocupada.

“Olha só para isso”, falou Thomas, fitando o Austin A35 com a lataria creme, limpa e reluzente, um artefato do século passado, diante de uma casa que remontava o milênio anterior.

Passava pouco do meio-dia. Os dois detetives esticaram os ossos e entraram para fazer o check-in. A hospedaria era uma casa de família antiga, onde antes moravam várias gerações sob o mesmo teto. Agora comportava apenas o dono e quatro outros quartos que ele alugava. Todos estavam disponíveis. Reservaram dois quartos separados, descarregaram as malas e voltaram para o carro a fim de traçar o final do percurso até Bishopstone, dali apenas mais quinze minutos de estrada. O enterro só aconteceria no dia seguinte, mas queriam visitar o lugar antes. Para o almoço, desembrulharam os sanduíches da Tesco que trouxeram desde Londres.

Bishopstone era feita de estradas estreitas e gente rural, grandes prados delimitados por cercas vivas, que dividiam tudo em quadrados com quilômetros de extensão. Casas de pedra que nasciam do chão de terra, àquela altura quase formações naturais, parte da paisagem. Tudo estava separado por longos trechos de terra e outros tantos de asfalto. Edward conduziu o carro ao lado de um campinho onde crianças jogavam futebol, e um pequeno salão comunal construído em uma campina verdejante, onde dois moradores jogavam tênis de mesa.

“Ainda fazem lugares assim?”, falou Edward.

“Em vila pequena todos se conhecem. Melhor fazer logo um salão onde todos podem se encontrar durante o dia.”

Passaram sobre uma ponte de madeira que suportava apenas um automóvel por vez. Um riacho cortava a vila ao meio, a água corrente era o som de fundo da vida ali. Ao longe, imponente sobre uma colina, a Igreja de Santo André era um vulto contra o sol, a sua torre do sino vigiava a todos. A vila inteira existia em função da igreja, construída em sua órbita. Como se desse boas-vindas aos visitantes, o sino badalou e a vila parou.

A partida de tênis de mesa cessou, e os olhos dos jogadores se voltaram para a torre da igreja. No campinho uma criança chutou a gol mas o goleiro não se esforçou para defender o ataque. A bola encontrou o fundo da rede e caiu no chão, sem comemorações. O tempo parou enquanto o sino tocava, olhos voltados para a colina, e tão naturalmente quanto interromperam todas as suas atividades, retornaram à normalidade quando o som cessou.

Thomas verificou o relógio: uma e vinte da tarde. Franziu o cenho. Edward seguiu uma placa que dizia apenas “Igreja”, e uma seta para a direção correta.

Vista de perto, a igreja de Santo André trazia o ar esperado de ancestralidade do lugar. Carregava nas paredes, orgulhosa e cansada, o peso dos séculos de vida. Não havia estacionamento. Edward parou o carro próximo à entrada, e a dupla de investigadores abriu as portas e saiu para a brisa gelada. A torre logo adiante chamava a atenção, robusta, o campanário com aberturas escuras para deixar escapar as badaladas, que ainda reverberavam pelas pedras. Havia um cemitério aberto ao lado da igreja, sem nenhuma mureta ou portão. As lápides de pedra simples estavam espalhadas de forma um tanto espaçada. Um homem de andar torto andava entre as mais distantes, e entrou na igreja pela porta lateral, a madeira pesada descendo sob o batente com um estrondo.

Edward subiu os poucos degraus até a entrada. A porta estava aberta, e acima dela um relógio de sol cravado na parede mostrava as horas com precisão impressionante, apesar de os números romanos que um dia o adornaram terem sumido e agora o relógio ser apenas uma coleção de ranhuras pouco legíveis e um gnômon cujo desgaste de eras sob sol e chuva o havia transformado em uma mera haste pálida. Aquele pequeno pedaço de ferro, e aquelas pedras descascadas, haviam visto a terra girar tantas vezes ao redor do sol, que agora eles e a sombra do astro eram grandes amigos, e ainda marcavam a hora da mesma forma que o faziam mil e trezentos anos atrás, agora com o cantar dos pássaros e o som de crianças a brincar ecoando no vento.

Quando atravessaram o batente, viram-se em uma pequena antecâmara, no pé da torre do sino. Uma porta de madeira escura encontrava-se cerrada com corrente e cadeado protegendo o ferrolho. Pela posição, Thomas deduziu que fosse a passagem para a escadaria da torre. Ao lado, a passagem os levou até o interior da igreja. O lugar era todo anacronismo: bancos e almofadas novos, e havia um quadro de cortiça com panfletos da comunidade, e caixas de som ligadas ao microfone na tribuna, tudo supervisionado pelas estátuas desbotadas de santos, um teto em abóbada que parecia não ter sido reformado há gerações, e uma série de placas espalhadas pelas paredes e colunas, mensagens de dedicação e memória fincadas no lugar através das eras. Edward andou até a mais próxima. O texto soava moderno, voltado para visitantes como ele, contando um pouco da história que já havia visto em sua pesquisa na internet: a igreja tinha cerca de mil e trezentos anos de idade, sendo destacada, dentre outras virtudes, por nunca ter parado de funcionar em todo aquele tempo.

Não havia ninguém no lugar a não ser eles. Edward soltou um assovio de assombro. Estar ali era um contraste direto com os prados da vila e a atmosfera leve de Bishopstone. Dentro da igreja sentia-se sob o peso de toneladas de pedra, tornadas mais pesadas com o passar do tempo, e o julgamento dos santos e do Cristo na parede mais distante, todos olhando-os de cima. A brisa tocava mais gélida, e os sons do mundo externo vinham como que através de uma mortalha.

Ao lado havia uma passagem em arco coberta por uma cortina vermelha. Edward afastou o tecido e espiou. O cenário do outro lado era fúnebre, de flores tristes fazendo a vigília sobre um caixão fechado no centro. Mais ao fundo havia uma porta que mais lembrava a passagem para um calabouço, o anel de ferro, que alguém usaria para abri-la, ainda balançava. Pensou em falar com Thomas, mas naquele momento ouviu algo se quebrando atrás de si.

Thomas não havia acompanhado o amigo até a cortina. Em vez disso, deixou os olhos e o assombro guiarem os seus passos. O peso da atmosfera era palpável. Sabia que estava longe da sua juventude, mas ali sentia-se ainda mais velho, um ancião a absorver toda a história do lugar em seus ossos. Viu-se diante de uma das placas na parede, esta de mármore antigo e quebradiço:

“Eles vêm com machados banhados no sangue de cristãos, e salivam com o ódio que os atiça da ponta do chicote do próprio demônio. Mas eu não fraquejo. Jamais fraquejarei, ó Senhor, mesmo que o fio atravesse a carne, esta virgem pertence à sua Igreja.

Santa Leofwyn, 798 A.D.”

Thomas pôde ouvir a voz da santa em sua mente recitando as próprias palavras cravadas na placa, não afável e fervorosa em oração como sugeria o tom do texto, mas tomada por cólera divina, fanática, que retumbou em seu peito. Ele estremeceu, afastou-se sem olhar para trás e esbarrou em uma estátua da Virgem Maria que descansava sobre uma mesa próxima. O artefato foi ao chão e o som dos seus cacos ecoou como um sacrilégio que há muito a igreja não presenciava. Foi tomado por uma paralisia de assombro, e Edward andava até ele, quando ambos notaram o homem na entrada da Igreja, por onde eles haviam acabado de entrar. Era o mesmo homem que Thomas havia visto antes no cemitério, agora aprumado, mas quando deu um passo à frente, o andar ainda era tão torto quanto antes. Aparentava quarenta e tantos anos sob o sol, o rosto envelhecido por uma vida difícil e trabalho árduo.

“Desculpe…”, murmurou Thomas. “Eu…”

Mas não soube o que dizer mais. O homem agachou-se e começou a coletar os pedaços de porcelana da mulher santa.

“É só uma estátua. Harrold faz dezenas dessa pra vendê.”

“Se me der o endereço desse Harrold, eu posso encomendar uma nova.”

“Bishopstone Road número três.”

“Obrigado.”

O homem coletou o resto dos cacos e os dispôs sobre a mesa que antes sustentava a Maria inteira.

“Viemos para o funeral de Isaac Danpora”, falou Edward.

“É só amanhã.”

“Então é verdade? Isaac Danpora está morto?”

“Nunca fiz velório para gente viva.”

“Por que o caixão já está aqui?”

“Está aqui porque deveria estar aqui, e vocês não deveriam estar aqui até amanhã.”

Thomas deu um passo adiante. Com um gesto, pediu em silêncio que Edward o deixasse falar.

“Foi você que preparou tudo, então?”

“Foi eu sim.”

“E foi você que enviou os convites?”

“Não. Esses não foi eu não.”

“Quem foi, então?”

O homem cambaleou na direção dos fundos da igreja.

“Amanhã às dez da manhã.”

E ficaram ali, ouvindo o ritmo descompassado do andar do homem até que uma porta foi aberta e fechada e eram só Edward e Thomas sozinhos novamente.

“Sério Tom? Quebrou logo a Maria?”

Thomas estalou a língua e a dupla saiu da igreja com o peito pesando um pouco mais, agora que tudo parecia ser, afinal, realidade. Edward falou do caixão esperando por eles, das flores fúnebres. Um silêncio interveio entre os amigos, enquanto a realização do que faziam finalmente ganhava raízes. Decidiram andar juntos até o endereço dado a eles pelo homem.

Bishopstone Road estava a poucos minutos de caminhada da igreja, uma ruela de terra e grama, com as marcas gêmeas dos pneus dos carros que amassaram a vegetação tantas vezes por ali até traçarem uma trilha perene. O número três era um dos lados de uma casa geminada, branca e ampla. Parecia lugar de gente que morava desde os pais e pais dos pais que também vieram de lá. Uma mulher regava as plantas do jardim e sorriu para eles, desejando-lhes um bom dia. Pediram por Harrold, e a mulher, esposa do ceramista, entrou na casa para chamar o marido.

Enquanto esperavam, notaram as estátuas de grés espalhadas entre as lavandas e, aqui e ali, dedaleiras altas que cresciam rente às paredes e serviam de adorno para uma ou outra cena de grés: uma dupla de crianças envergonhadas olhando para o portão da casa, uma pequena fonte de água onde bebiam dois pássaros. Mas a maioria das estátuas era de pequeninos seres bípedes de quatro asas finas que mais lembravam insetinhos magricelas, alguns dos dedos das mãos e dos pés afiados, alguns com sorrisos astutos, outros parecendo profundamente indignados.

A mulher retornou com o marido, ficando mais atrás para observar a interação.

“Harrold é o meu nome”, falou o ceramista. Era louro e alto, a barba cortada rente e as roupas simples e limpas. “Faz tempo que não recebo visita de gente que não conheço”. Ofereceu a mão à dupla. “Testemunhas de Jeová?”

Edward e Thomas trocaram olhares. Thomas foi quem apertou a mão do homem primeiro. “Não. Sou Thomas, ele é o Edward. Viemos porque soubemos que você faz estátuas para a igreja de Santo André?”

“Já fiz bastante. Mas faz um tempo que não faço nada pra eles.”

“Pois houve um acidente agora há pouco. Eu quebrei uma Maria de porcelana. Gostaria de saber se posso comprar uma de você para repor.”

O homem assoviou.

“Mal presságio, ein?”

“Eu que o diga.”

“Eu não tenho nenhuma aqui comigo, mas eu vou fazer e coloco lá quando terminar.”

“Posso já deixar pago, então?”

“Não vou cobrar a igreja por isso. Se você quiser pagar, deixa lá na caixinha da igreja.”

“Além de figuras religiosas, você faz muitos gnomos também?”, falou Edward.

“Gnomos?”

Edward gesticulou na direção dos pequenos seres espalhados pelo jardim, alguns tão escondidos entre a folhagem que mais pareciam pequenas crianças espionando a conversa.

“Ah. Não são gnomos. São fadas.”

“Fadas? Achei que fadas fossem criaturinhas fofas com asa de borboleta.”

“Não, não são assim, não”, disse o homem, com uma risada divertida.

“Posso tirar uma foto?”

Harrold olhou para as estátuas, e olhou para a mulher na soleira da porta.

“Acho melhor não.”

“Claro, me perdoe, andando por aí querendo tirar foto da casa dos outros.”

Não havia mais nada a ser dito, e a dupla de investigadores retornou ao carro, e partiram de volta à pensão, com o peito ainda pesado. E Edward, o caminho inteiro até lá, olhando e reavaliando a foto da pequena mão segurando o envelope no seu escritório.

 

XIII

Depois de descer do trem, Samuel de táxi até o The White Hart Guest House. O homem atrás do balcão era corpulento, observava-o de cima enquanto ele preenchia os últimos dados pessoais para o registro de hóspede.

“Se não incomodar a pergunta, carece de dizer o que passa em Bishopstone?”

“Por quê? Muito movimento?”, falou Samuel, sem desviar os olhos do formulário.

“Segundo hóspede indo praquelas bandas no mesmo dia. Só curiosidade.”

Terminou de preencher o formulário e empurrou-o para o homem.

“Velório.”

“Por Deus! Meus pêsames. Carece de contar quem é o falecido?”

“Um amigo. Isaac Danpora.”

“Um Danpora faleceu em Bishopstone?”

O homem falou mais para si do que para Samuel, como se as palavras tivessem escapado por baixo da respiração sem que ele as permitisse.

“Conhece a família?”

“Família antiga, com uma casa antiga. Mas faz tempo que eles não vivem em Bishopstone. Quando aparecem, enchem a casa com convidados por uns dias e depois vão embora. Eu sei por que às vezes a casa não segura tanta gente e alguns dos convidados acabam ficando aqui. Os Danpora são uns dos poucos daquelas bandas que veem gente de fora que nem gente normal.”

“Ah é?”

“É. Povo estranho, o de Bishopstone. Tem lá os costumes deles. Manda os meus pêsames pra família Danpora.”

Samuel agradeceu e subiu para o quarto e deixou a mochila sobre a cama. Testou o colchão: era macio, bom para dormir. Pela janela podia ver a rua, mas quase nenhum carro passava por lá. O lugar era cercado de árvores altas e o verde manchava todas as coisas, até a luz do sol descia filtrada por entre a folhagem.

Desceu as escadas novamente. Estava interessado na sala de entrada da hospedaria, especialmente nos livros que tinha visto esquecidos sobre as prateleiras. O homem atrás do balcão retornava da cozinha com um copo de chá.

“Quer chá?”

“Aceito, obrigado.”

O homem voltou a desaparecer pela porta da cozinha. Samuel caminhou até os livros. A estante era velha de um jeito simples, apenas prateleiras de madeira pura, feitas para durar. Os livros ao alcance dos olhos eram mapas locais e guias turísticos, com cópias de O Ramo de Ouro e Paraíso Perdido misturados entre eles, as capas de tecido desbotado. Mais para baixo, uma prateleira chamou a sua atenção por conter várias cópias dos mesmos três livros, todos da mesma autora. Samuel pegou um deles, o de capa vermelha. A cópia estava em bom estado. O toque da capa e a textura do tecido o transportaram para outro tempo, onde havia mais honestidade no processo de um artefato como aquele, e o esforço para produzi-lo era tão óbvio, que emprestava mais humanidade ao simples toque.

O Livro Vermelho das Fortunas, dizia o título em baixo relevo. A imagem de um rosto de olhos fechados e boca aberta ocupava o centro da capa. Era como se o livro dormisse, esperando ser acordado. Na parte inferior da capa, o nome da autora seguia em letras finas: Nell St. John Montague. Abriu o livro. Na folha de rosto a data de publicação: 1924.

“Seu chá.”

O homem estava ao seu lado, olhando de um bom palmo acima. Samuel agradeceu a cortesia.

“Não perguntei o seu nome.”

“Pode me chamar de Bailey. Tô vendo que descobriu a nossa celebridade local.”

“Nell Montague? Ela era famosa?”

“Apareceu na televisão e tudo. Uma das primeiras convidadas em programas de tevê. Era vidente, entende? Lia as mãos das pessoas, e via o futuro nas cartas. Era o que ela falava.”

“Você não acredita?”

“Meu bisavô acreditava”, Bailey caminhou de volta para o seu posto atrás do balcão. “Tanto que comprou esse monte de cópias aí. A coisa tá fazendo cem anos já, e ninguém nunca quis levar. É como se ele tivesse comprado só pra dar dinheiro pra autora, entende? Pra ajudar de alguma forma.”

“Ela nunca veio agradecer?”

“Pior que veio. Tem uma foto dela bem ali atrás, perto da lareira. Vê só, é aquela ali em preto e branco. Meu avô era um gurizinho na época.”

A foto não foi difícil de encontrar. Estava cuidadosamente posicionada entre pequenas estátuas de Anjos, e uma cesta com frutas de cera. Uma mulher sorria para a câmera ao lado de um pai, uma mãe, e três filhos. Pousavam em frente ao mesmo White Hart Guest House, que não havia mudado muito nos últimos cem anos, mas no preto e branco e no desgaste da foto o lugar parecia mais velho naquela época do que era em tempos atuais. Nell Montague diferia dos Bailey como se viessem de planetas diferentes. Ela era a mais alta na foto, e tinha o rosto amplo e cheio. Vestia um traje cheio de babados e uma boina de tricô que era pequena demais para a sua cabeça. O sorriso no rosto era sincero e charmoso.

“Ela era uma belezura, não era?”, falou Bailey que, súbito, estava ao seu lado novamente. “É beleza antiga, entende? Não se fazem mais assim. Eu gosto dela. Acho que tinha a minha altura.”

“Ela era um tanto excêntrica.”

“Ah sim, mesmo pro tempo dela. O povo de Bishopstone nunca bateu muito bem da cabeça!”

“Como assim?”

“Você sabe. Se vestem estranho. Acreditam em coisas malucas.”

“Tipo o quê?”

“Tipo isso, vai. Ver o futuro nas cartas, nas mãos das pessoas. Olha, a gente vive meio isolado aqui, muito perto da natureza, então não tem como evitar, você tem que acreditar em algumas coisas, entende? Você tem que respeitar o lugar onde vive. Mas eles vão longe demais.”

Samuel notou que havia outras pequenas estátuas espalhadas ao redor das lareiras. Pequenos dragões de porcelana, duendes feitos de madeira. Pegou com cuidado uma das figuras mais próximas: uma bela estátua colorida de uma pequena menina magricela, de orelhas pontudas e asas de borboleta.

“Eu estou tentando imaginar o que é ‘ir longe demais’ por aqui.”

“Isso aí é ir longe demais, por exemplo.”

“Isso?”

“Sim, fadas. Meu bisavô acreditava nessas coisas, por isso era tão fã da Nell Montague. Meu avô não foi diferente. Mas isso é coisa da época, entende? O povo evoluiu. Mas Bishopstone parece que ficou parada no tempo. Você tá indo pra lá, você vai ver. Perdeu alguma coisa? As fadas roubaram. Apareceu alguma coisa na sua casa que você não lembra de ter posto lá? Foram as fadas. O leite estragou? Fadas.”

Samuel ouvia, hipnotizado pela figura que segurava. A fada sorria meiga para ele, mas havia um subtexto de malícia nos olhinhos de porcelana.

“Quanto você quer num exemplar de O Livro Vermelho das Fortunas?”, falou, para a surpresa de Bailey.

 

XIV

Samuel passou boa parte daquela tarde deitado na cama do quarto, movido pela curiosidade que sempre teve de revelar os segredos das coisas antigas do mundo. Lia o livro que acabara de comprar. Era um guia para a leitura de cartas de tarô. Nell Montague não era a melhor das escritoras, mas equilibrava a técnica medíocre com um humor afiado e bem típico do seu tempo. Lê-la transportava-o para outra época, o que geralmente fazia o tempo passar rápido. Mas não conseguiu perder-se na leitura, pois algo lia o livro com ele.

Era o quarto. Eram as estátuas lá embaixo. Ao menos, era a mesma sensação que sentira quando as viu olhando de volta para ele. Sentia olhares acompanhando cada página virada, como se a casa em si estivesse curiosa para saber a sua opinião sobre a leitura. Não havia nada, é claro, ao seu redor. Tudo estava perfeitamente estático, como deveria estar. A janela fechada mostrava a folhagem dançando ao vento do lado de fora. O abajur, a cadeira, os quadros de natureza morta. Nada se mexia, mas Samuel sentia como se cada um daqueles objetos se aproximasse um pouco mais dele sempre que não prestava atenção, a fim de espiar um pouco das palavras do livro.

Quando deu por si, o sol já se escondia no horizonte, e um carro acabava de parar no pequeno estacionamento da hospedaria. Olhou pela janela e viu dois homens – um de meia-idade, outro parecendo estar mais perto dos sessenta – ambos tão forasteiros naquele lugar como ele.

Foi até o salão de entrada. Encontrou a dupla conversando enquanto observava os quadros espalhados pelas paredes e sobre a lareira. Bailey não estava lá. Quando ouviram os seus passos na escada, os sussurros cessaram.

“Presumo que vieram de Bishopstone.”

“É um bom chute”, falou o homem mais velho.

“Estão aqui para o funeral também? Eram amigos de Isaac? Bailey falou que eu não era o único, mas o carro de vocês foi o único que eu vi desde que cheguei. Sou Samuel. Prazer.”

Trocaram apresentações. Thomas demonstrou interesse imediato na amizade entre Isaac e Samuel. O homem tocou a campainha da recepção.

“Temos muito o que conversar, Samuel, se você não se importar de trocar algumas palavras conosco.”

“Não é como se eu tivesse outro compromisso.”

Bailey surgiu pela porta atrás do balcão.

“Bailey, poderia, por favor, nos servir…”

“Chá”, completou Edward. “Chá, por favor.”

“Chá. Para mim também”, disse Thomas. “Samuel?”

“Chá nunca é demais.”

Bailey trouxe para eles uma bandeja com um bule cheio e três xícaras. O trio passou a próxima hora sentado em poltronas no pequeno salão de entrada, enquanto os matizes da hospedaria mudavam do dourado do sol poente para o cobre da escassa iluminação pública lá fora.

“Ele entrou um dia na loja, como um cliente qualquer. Estava curioso com os artigos que eu exibia na vitrine.”

“Que tipo de coisa?”

“Deixa o homem contar a história dele”, falou Edward. “Perdão, se eu deixar, o Tom faz tudo parecer um interrogatório.”

As risadas vinham fáceis. Sentiam que faziam uma pequena homenagem ao amigo que se fora. As luzes internas da hospedaria eram tênues, como o luar entrando por uma janela. A lareira estava imersa na penumbra, as estátuas de ninfas e fadas vigiando-os das sombras.

“Velhos hábitos”, falou Thomas.

“Tudo bem. Na vitrine eu coloco as coisas que chamam mais a atenção. Um relógio cuco do século dezoito, pinturas da era vitoriana, conjuntos de chá, estas coisas. Mas o objeto mais chamativo eu deixo dentro da loja. A pessoa vê a vitrine e entra por curiosidade, mas fica mesmo pela bola de cristal.”

“Uma bola de cristal? Elas são bem comuns.”

“Não essa. Ficou na nossa família por gerações. Estava lá desde sempre, na verdade. Meus pais nunca souberam de onde veio. Ela era bonita, circunferência perfeita, e tinha o próprio suporte, um pequeno altar forrado com tecido de seda púrpura. Mas o mais legal dela é que você não via o reflexo da loja nela.”

“É opaca?”

“Quase. Ela refletia muito pouco, mas refletia alguma coisa. Algum lugar que não era a loja.”

Silêncio. Edward bebericava o chá. Ouviram a tosse de Bailey dentro dos aposentos da hospedaria, e a ventania noturna ululando pelas janelas.

“Não acreditam em mim?”

“Deve haver algo que explique o fenômeno.”

“Não sei se existe explicação. Ela só mostrava algum outro lugar que não era ali. E o pior é que pessoas diferentes viam coisas diferentes. Janelas onde não havia janelas, luzes onde não havia luzes.”

“Você está falando que tem um artefato mágico bem no meio da sua loja?”, falou Edward.

“Vocês não falaram que investigam assuntos paranormais? Achei que iam gostar da história.”

“Nós nos interessamos pelo paranormal, mas se uma coisa dessas existisse de verdade, alguém já teria postado em algum lugar.”

“Já tentaram. Acontecia o que você esperaria: fotografar ou filmar não adiantava. O fenômeno acontecia apenas a olho nu, o que deixava tudo muito subjetivo, então cada um inventava uma explicação do que via na cabeça e ia embora sem ter muito o que dizer. Além disso, tinha gente que não via nada.”

“Você fala como se você mesmo não acreditasse que a coisa é mágica.”

“Eu só estou falando o que acontecia. É o que os meus clientes diziam. Não sei se é fenômeno da física ou algo paranormal.”

“Eu gostaria muito de vê-la”, disse Thomas.

“Isso não vai ser possível. Isaac comprou ela naquele dia em que entrou na minha loja pela primeira vez.”

A conversa seguiu por mais alguns minutos. Thomas finalmente se levantou.

“Foi um prazer falar com você, Samuel. Espero te ver amanhã lá. Precisa de carona? Não vi o seu carro lá fora, a menos que seja o dono do A35.”

Samuel riu. “Eu não dirijo. Mas aquele carro seria uma aquisição para a loja.”

“Amanhã então, às oito?”

“Às oito.”

A dupla de investigadores subiu a escada aos sussurros. Ouvindo a movimentação, Bailey surgiu para recolher o chá e desejar-lhes boa noite.

“Era com você mesmo que eu queria falar”, disse Samuel. “Você não teria um pouco de leite que eu possa levar para o meu quarto, teria?”

“Posso servir um copo.”

“Não tem uma garrafa fechada? Daquelas pequenas mesmo.”

“Só tenho garrafa grande.”

“Tudo bem, eu pago.”

Samuel subiu a escada com uma garrafa de plástico de dois litros de leite, fechada como queria. Sentou-se na beira da cama e, antes de dormir, deixou o leite sobre a mesa de cabeceira.

 

XV

Quando Cory chegou em Bishopstone, a noite era tudo o que havia. Guiava a motocicleta devagar, como um predador à espreita, o motor ronronando curioso. As luzes dos postes eram pequenos refúgios sob a escuridão. A igreja no topo da colina era sombra contra as nuvens que cobriam a lua, e foi para lá que ele se dirigiu. Não havia hotel ou hospedaria em Bishopstone, e mesmo que houvesse, ele não teria condições de pagar uma estadia. Há algumas horas havia notado que sequer teria como cobrir a gasolina para voltar para Londres, mas como tudo em sua vida nas últimas semanas, lidaria com aquele problema quando se tornasse, de fato, um problema.

Os sons da noite evitavam a igreja de Santo André. Tudo soava distante, como se o lugar estivesse em outro lugar. Cory desligou a moto e deixou a máquina cair sobre o cavalete, rangendo, cansada. No celular os dígitos marcavam uma hora da madrugada. Quis sentar-se na calçada, mas antes, decidiu caminhar pelas lápides do cemitério – teria tempo demais para descansar até o enterro do amigo.

Algo caminhou pelas lápides com ele. O farfalhar da grama contra a brisa, que ele sabia serem passos. O bate e bate constante do caule de uma flor contra o mármore, que ele sabia serem passos. Aqui e ali eles o acompanhavam, e ele sabia, porque era como eles. Não os via, mas os reconhecia, como quem anda no meio de um mar de estranhos e não se sente sozinho.

O nome Danpora saltou à vista. O musgo cobria as letras em baixo-relevo, anciãs, e mesmo sob a luz do sol o texto seria difícil de enxergar, mas as nuvens andaram apenas o suficiente para que a lua pintasse de prata o sobrenome e seus pés pararam, e os passos pararam com ele. Afastou o musgo com a mão. Thomas Danpora, 1786. Não era Isaac, mas o peito gelou mesmo assim. Durante toda a viagem até ali, suas lembranças pingaram visões aterradoras, uma após a outra. Viu as vísceras, os gritos de desespero, e soube que eram as suas mãos e os seus dentes e os seus olhos. Mas não sabia se era ele. Mesmo assim, as súplicas que ecoavam de um passado recente em uma mansão remota em Londres faziam-no sentir-se como o diabo em seu trono no inferno.

Sentou-se sobre a pedra. Ainda se lembrava da promessa de Isaac, de como o amigo falou que eram semelhantes, que carregavam consigo algo que não queriam carregar, e que ele sabia da cura. Para os dois. Então por que estava morto?

Quis chorar, mas as lágrimas não vieram. Sentia cada batida do coração, como se agora o órgão precisasse de toda a sua atenção para funcionar. O suspiro trêmulo que soltou entre os lábios foi um chamado. Elas vieram até ele naquele momento, pequeninas, dezenas delas, de todos os lados, e conferenciaram. Pouco do que falavam fazia sentido, mas ele soube que soavam exatamente como deveriam soar. Então, ouviu com atenção.

 

XVI

Samuel acordou no dia seguinte e a primeira coisa que fez foi inspecionar a garrafa ao lado da cama. O líquido se tornara viscoso da noite para o dia, cheio de grumos bolorentos, e quando abriu a tampa o odor foi quase insuportável. Olhou ao redor. Nada se movia, mas agora tudo parecia diferente.

Encontrou Edward e Thomas na recepção. Tomaram um café da manhã simples, servido por Bailey, trocando conversa sobre o tempo e curiosidades sobre Bishopstone. No carro para lá, Samuel seguiu em silêncio, até ver a primeira placa que indicava que se aproximavam do seu destino.

“Vocês não me contaram como conheciam o Isaac.”

“Ele que encontrou a gente”, disse Thomas. “No fórum. Um monte de gente falava com ele. O garoto era uma enciclopédia ambulante. Sabia responder qualquer pergunta sobre mitologia e folclore.”

“Ele foi o único membro do fórum que encontramos na vida real. Discutíamos o tempo todo sobre um monte de coisas. Ele não gostava muito de usar a internet, então passávamos um tempo em um Starbucks às vezes. Inclusive, alguns dos achados que eu tive no meu ramo foram graças a ele. Excelente investigador, também.”

“Quando que ele apareceu no fórum pela primeira vez?”

“Uns dois anos atrás.”

“Para mim também. Dois anos atrás ele entrou na minha loja. É como se ele tivesse aparecido no mundo há dois anos, sumiu do mundo há seis meses, então morreu.”

A Igreja de Santo André surgiu no horizonte, apenas a ponta da torre. Eram nove e meia. As poucas pessoas que estavam fora de casa em Bishopstone cuidavam dos seus jardins ou andavam com os seus cachorros.

“Ele apontou vocês para alguma coisa… sobrenatural?”

“O tempo todo.”

“E vocês… encontraram?”

Thomas hesitou em responder.

“Eu diria que até hoje nunca vi nada que não pudesse explicar.”

Samuel não respondeu, mas sorriu, satisfeito.

Chegaram à Igreja e viram o jovem sentado na calçada bem ao lado da moto. Vinte e tantos anos, músculos avantajados sob a roupa apertada, a pele marcada por cicatrizes antigas, e outras não tão antigas assim. Braços sobre os joelhos, olhos perdidos. A jaqueta descansava sobre a moto. Não havia mais ninguém ao redor. Edward foi quem se aproximou primeiro.

“Olá”. O jovem não respondeu. “Veio aqui para o velório?”

“Sim. Tava começando a achar que era o único.”

Samuel tinha as mãos no bolso, tentando manter um pouco de calor no corpo. A brisa transformava-se em uma ventania gelada, apesar do sol e do céu limpo.

“Só nós quatro? Bailey falou que havia uma família inteira dos Danpora aqui.”

“É, mas eles não moram aqui”, disse Cory.

“Você e Isaac eram bem amigos, não é?”, disse Thomas.

“Por que acha isso?”

“Isaac não falava muito da família dele com a gente.”

“É. Faz sentido.”

“Eu não te conheço de algum lugar?”

“Provavelmente não.”

Estendeu a mão. “Thomas.”

O jovem demorou, mas se levantou, limpou as mãos na calça jeans, e apertou a mão de Thomas.

“Cory.”

Trocaram saudações, e o assunto morreu. A ventania ganhava corpo a cada minuto. A jaqueta de Cory drapejava sobre a moto, e ele vestiu-a, mas os outros não souberam se a vestia para se proteger do frio, ou se apenas para fazer parar o barulho.

Súbito, o sino retumbou. De perto o som era tão profundo que reverberava dentro do corpo. Bam, bam, bam, como se socassem os próprios peitos. Thomas olhou para o relógio: dez horas em ponto. A porta da igreja se abriu sem que ninguém estivesse lá para recebê-los. O sino não parou de tocar na décima badalada, e após algum tempo, trocaram olhares. E entraram.

Na antecâmara da igreja, a porta para a escadaria da torre permanecia acorrentada, o ferrolho protegido com cadeado. Mais adiante, a passagem em arco estava revelada, as cortinas vermelhas recolhidas para os lados. O caixão no centro estava aberto, e os arranjos de flores mais próximos do que Edward se lembrava, projetando-se sobre o esquife como que para lamentar a perda de um amigo. Passo ante passo, andaram até lá.

O caixão estava vazio.

26 comentários em “ER 2 – O Jarro (Marco Piscies)

  1. Thales Soares
    31 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Marcão!! Deixei seu romance por último, porque era o que eu mais estava ansioso para ler, de todo o desafio. Eu só não queria deixar para comentar ele na última hora do último dia… mas tudo bem, vamos lá!

    Primeiramente, vamos sintetizar os capítulos, para termos uma melhor visão do enredo:

    Cap. 1: Conhecemos Samuel, o cara da loja de antiguidades. Numa noite ele ouve sons que parecem ser de sua mãe morta na cozinha e, ao investigar, encontra sobre a pia um envelope misterioso.

    Cap. 2: Conhecemos Thomas, o investigador aposentado. Ele percebe uma possível invasão em sua casa durante a tempestade e encontra sobre o sofá um envelope. Isaac Danporra ajudava ele a desvendar alguns casos.

    Cap. 3: Conhecemos Edward Basser, o cara das fotos (detetive particular). Ele acorda de um sonho com um vulto em seu escritório e encontra no chão o envelope.

    Cap. 4: Conhecemos Cory, o motoqueiro traumatizado. Ele se culpa pelo desaparecimento de Skye e do filho Simon. Encontra enterrado no campo atrás de sua garagem o envelope. Aqui descobrimos que esse envelope é um convite para o funeral de Isaac Danporra em Bishopstone.

    Cap. 5: Samuel, o cara da loja de antiguidades, parte de trem rumo a Brighton para chegar ao enterro de Isaac Danporra em Bishopstone, lembrando como conheceu o amigo quando ele comprou uma bola de cristal em sua loja.

    Cap. 6: Thomas (o aposentado) e Edward (o cara das fotos), são investigadores do paranormal ligados a Isaac Danpora. Um telefona pro outro, e fofocam sobre o que aconteceu com eles. Então decidem ir juntos ao funeral, enquanto Thomas encontra um rastro estranho sem digitais e Edward revela uma foto mostrando uma mão cinzenta colocando o envelope em seu escritório.

    Cap. 7: As coisas finalmente se entrelaçam? Não! Aqui partimos para um novo núcleo narrativo. Conhecemos Finnegan, o irlandes, que é um agente ligado à uma organização especial. Ele está investigando desaparecimentos dos próprios pais. E conhecemos George, parceiro de Finnegan. Ele parece ser ex militar, ou coisa assim. Conhecemos também Tanya, uma puta informante (literalmente), ligada a um esquema perigoso. Ela deveria ter ido a uma festa investigada pela agência deles, mas ficou com cagaço e mandou uma outra putanga, chamada Melina, em seu lugar. O ponto de ligação com os capítulos anteriores é que Isaac Danpora aparece nos arquivos de Finnegan, como alguém importante para essa investigação.

    Cap. 8: Finnegan e George investigam seguem uma dica de Tanya, que revela a eles qual foi o último ponto de GPS que ela conseguiu detectar de Melina. Eles então vão até lá junto com uma equipe de agentes especiais. O local é uma mansão da festa clandestina, organizada por bilionários. Eles fazem toda uma abordagem estilo Missão Impossível aqui, e são extremamente cautelosos. Mas eles percebem que tá todo mundo morto, porque rolou a maior carnificina ali, envolvendo políticos, lutadores de lutas clandestinas, um tal de Cory Walker, Melina e Isaac Danpora. Quando Finnegan está quase descobrindo o que rolou, através de um pendrive de guerra que hakeia qualquer coisa, aparece uns malucos com lança chamas, e então os cadáveres do salão principal se levantam e rola uma festa de zumbis!

    Ok! Agora vamos lá, para a minha opinião.

    Primeiramente, quero dizer que, de todos os romances obrigatórios que li, este foi o que mais gostei! Seu estilo me chama bastante a atenção, porque você é criativo, e escreve altas loucuras, assim como eu. Posso dizer, seguramente, que sou seu público alvo. Vi algumas pessoas reclamando do excesso de personagens… no entanto, não acho que tenha sido esse o problema. Sim, vi alguns probleminhas narrativos (que já vou falar mais sobre eles), mas nada que tire o brilho do que você escreveu.

    A história sofre, principalmente, de um ritmo meio esquisito. No primeiro capítulo, parece que teremos aqui uma parada meio os casal Warren, com umas paradas envolvendo espíritos malignos e essas coisas. Os seis primeiros capítulos parecem conduzir o leitor a isso, cada um levantando um pilar na trama, apresentando calmamente um novo personagem, e entrelaçando os fios narrativos. Aqui você proporciona uma sensação muito boa no leitor, pois tem muita coisa que lemos e pensamos “Há!!! Eu sabia!!”. Isso é bastante recompensador, pois mostra que você não fez uma trama previsível, mas sim algo que possui um sentido lógico, e apresentou muito bem tudo para o leitor. Você é um ótimo contador de histórias porque você sabe como guiar o leitor.

    No entanto, o problema de ritmo que eu citei vem porque os capítulos seguintes não tem nada a ver com os primeiros. Calma, vou explicar. O meu romance eu também sofri um pouco com isso… com a divisão das cenas. Aqui, eu acho que se você tivesse chamado os subcapítulos I, II, III, IV, V e VI, de Capítulo 1, e os subcapítulos VII e VIII, que são mais longos, de Capítulo 2, acho que as coisas ficariam mais claras na cabeça do leitor. Mas você parece ter feito uma sopa, e jogou tudo no mesmo caldeirão.

    Nesse suposto “Capítulo 2” (vou dividir assim a história, para ficar mais fácil de comentar), o ritmo muda completamente. Aqui saimos de invocação do Mal e vamos direto para 007. Investigadores, martíni, Jazz, ricaços, mulheres sensuais, operações de espionagem e infiltração. Você narra tudo de forma primorosa. Mas aqui a história, que estava seguindo por uma estrada retilínea do ponto A até o ponto B, faz uma curva radical e vai até um ponto C aleatório. E o ritmo fica totalmente louco, principalmente quando chegam os malucos, e os zumbis começam a atacar, e a história vira uma espécie de Uma Noite Alucinante. E o gancho que você deu, no final: “Os gemidos eram de fome”. Cara, que doideira…

    Sim, eu gostei… na verdade, é totalmente o meu estilo! Mas vejo uma problemática aqui. O leitor não faz a menor ideia do que esperar para a segunda parte. Não dá mais pra simplesmente deduzirmos as coisas, porque você parece ter estabelecido um conjunto de regras claras nos 6 capítulos iniciais, que guiavam até um lugar específico… mas então, de repente… não é que você quebrou essas regras… mas você apresentou outro conjunto de regras, totalmente diferente das outras. É difícil de explicar o que estou tentando dizer… mas é como se essa história tivesse sido narrada meio que no improviso, num free style, sem se preocupar tanto em fazer algo tão redondo, já que há até uma mudança de gênero meio brusca… mas isso não necessariamente é algo ruim, pois como eu mencionei, você não quebrou nenhuma regra do seu próprio universo. Você apenas deixou de cumprir a promessa do velório do Isaac… sim, eu sei que você vai abordar isso mais tarde, nos capítulos seguintes. Mas é que agora o leitor está envolvido com outra coisa… você soltou um rojão brilhante demais, que tirou a atenção daquela coisa mais contida que você estava construindo de forma tão paciente no início… e agora o leitor já nem se importa mais com esse velório. Fico com medo, inclusive, dos zumbis roubarem a cena na continuidade da história… porque fico imaginando você chegando aqui na próxima etapa do desafio, dizendo ao leitor “Gente, agora vou mostrar o velório do Isaac Dan porra, e o que aconteceu com os amigos de internet dele”, e o leitor pense “Foda-se o Dan Porra!! A história tem batalhas contra zumbis agora!!!”.

    Enfim, ótimo romance, Marcóla!! To extremamente ansioso para ler a segunda parte. Vou deixar por último novamente, porque tenho certeza de que será o meu favorito.

    Vlww!

  2. cyro eduardo fernandes
    29 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Marco escreveu um início de um romance de terror com imagens bem elaboradas. Quatro personagens são unidos por um envelope. A violência e os zumbis trazem um tempero interessante. A tensão paira em todos os ambientes. Realmente prendeu a atenção.

    Senti falta de mais tempo na mansão, acho que a cena poderia render ainda mais.

    As piadas de George e Finnegan no restaurante dão uma quebrada na narrativa, trazendo originalidade ao ambiente escuro.

    Fiquei procurando o jarro! Cadê?

    Parabéns. Sigo curioso para os próximos capítulos.

  3. Martim
    28 de maio de 2026
    Avatar de Martim

    Marco,

    Comecei a ler seu texto faz uns dez dias, larguei (por necessidade da vida) e hoje, fazendo uma horinha num café do centro, li o restante numa sentada. Peguei o texto mais ou menos onde o havia deixado, com receio de que pudesse ter me perdido na trama, mas a verdade é que isso não fez a menor diferença. É um tipo de romance que a gente pode agarrar meio por qualquer parte, como quando ligamos a televisão e está passando um filme que não conseguimos largar. Não que o enredo a longo prazo seja irrelevante. Ele é, mas o que mais me atrai é a escrita esperta dos diálogos, a agilidade das situações, a imensa eficácia na edição de tipo cinematográfica. Estamos diante de um profissional – foi isso que pensei ao ler sua entrega. Trata-se de alguém que tem pleno domínio do gênero e do estilo escolhidos, ainda que corra o risco, justamente por conta desse domínio, de submeter uma possível pessoalidade da voz autoral aos ditames estandarizados de um produto pop. Volto a isso daqui a pouco.

    Os nomes escolhidos são ótimos. Isaac Danpora sugere um monte de coisas, não dá pra saber bem a origem, que deve ser mista, e por isso mesmo é adequado a uma figura eixo do mistério. O nome do restaurante tailandês também é bem escolhido. Adorei o diálogo lá, bem aos estilo policial. Para mim é o ponto alto da entrega. Só reparei que você se refere a copos, quando sabe-se que o dry martini se toma em taça (fiquei até imaginando a modelo brincando com o caroço de azeitona na boca depois de matar o drink, mas aí lembrei que o estilo londrino do dry martini é com casca de limão, não azeitona, confere?). Ah, e quando o sax entra com a melodia, senti falta do nome da melodia. Blue Train? Caravan? Alguma do Charlie Parker? Enfim, ajudaria a compor a “mobília” narrativa, que de resto já está muito bem desenhada.

    Quando chegam à mansão, pareceu para mim um De Olhos Bem Fechados meets Resident Evil. Talvez por isso tenha achado uma pena que o Resident Evil tenha se imposto tanto e tão rápido. Mas você precisava deixar um gancho, e isso é justo.

    Agora vem minha provocação. A pergunta é: por que um autor com tanto domínio técnico dentro do que ele se propõe se destina a escrever um livro que poderia ser escrito por várias outras pessoas? A minha sensação é que aquilo que chamei de seu profissionalismo é também o que te distancia de uma voz original. Para deixar bem claro: está muito bem feito, e eu leria sem parar de cabo a rabo, querendo saber o que vai acontecer. Talvez meu questionamento não seja tanto em relação a O Jarro, porque ele já está em andamento e acho que você deve ir até o fim nas escolhas que já fez. Mas para o futuro, talvez valha a pena pensar: será que o mundo precisa de mais um livro como O Jarro? Será que ele é necessário? São perguntas sobre a construção de uma voz autoral, que acho que no seu caso valem muito a pena serem feitas, uma vez que o domínio narrativo está bem consolidado.

    Aguardo ansioso pela continuação, de todo modo. Parabéns!

    • marco.saraiva
      28 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Desde ja peco perdao pela falta de acentos, estou digitando esta resposta no meu laptop do trabalho (com teclado em ingles). Estou viajando e ele eh o unico computador ao qual tenho acesso no momento.

      Obrigado pelo retorno e pela leitura. Sua correcao sobre as tacas (ao inves de copos) eh justa, adicionei na minha lista de revisoes. Agradeco os elogios: essa comunidade eh o que me faz sempre continuar evoluindo como escritor!

      Sua nota sobre a especificidade da musica ambiente, por outro lado, eh uma que nunca me agradou. Quase sempre que um autor cita algum grupo musical, musica em especifico ou artista em particular, eu nao o conheco. Entao as palavras escritas no texto nao querem dizer nada para mim. Sao apenas nomes proprios de pessoas que nao me trazem nenhum tipo de referencia. Eh claro que, por um lado, isso pode despertar um interesse em expandir os meus horizontes musicais, mas eu nunca vou interomper uma leitura, ainda mais quando ela esta interessante, para ouvir o som de algum grupo de jazz citado pelo autor, apenas para me ambientar. Por outro lado, quando o autor fala que “toca jazz”, ora, eu conheco o jazz, e consigo imaginar a atmosfera, sem ter que torna-la especifica. Eh o tipo de trabalho que gosto de colocar na mente do leitor e nao interferir muito. Mas nao sou contra! So nao tenho boas experiencias com este tipo de abordagem, quando a vejo.

      Engracado voce ter trazido o ponto da originalidade no final. Como voce pode, na primeira de quatro partes, deduzir que “o mundo nao precisa deste livro”? Eu nao quero comecar nenhum debate ou discussao acalorada, mas voce tem nocao de como isso soa prepotente? Eu me esforcei para nao assumir nada em todos os textos que eu li ate agora. Critiquei alguns mais do que outros, mas sempre baseado no que vi, e tentei nao deduzir o que viria a seguir. Mas de qualquer forma, dizer que “o mundo talvez nao precise deste livro”… pense bem em como isso afeta a mente de um escritor. Imagine se Tolkien nao escrevesse O Senhor dos Aneis, ja que, afinal, o mundo ja tinha O Hobbit? Imagine se Dostoevsky deixasse de fora Alyosha em Irmaos Karamazhov, ja que ja havia explorado conceito parecido com Myshkin em O Idiota? Quantos autores hoje consagrados, vistos como classicos, nao teriam dado ao mundo o que deram, por acharam que o mundo “nao precisa de outro livro como este”? Quantos filmes? Quantas musicas?

      E ainda assim – ainda assim! Mesmo que o presente livro seja o maior dos cliches: nao consigo imaginar algum momento onde falar isso para um autor teria algum valor! O mundo precisa do meu livro, nem que seja para que eu mesmo o coloque para fora. E que evolua. E que crie. Eh claro que opinioes quanto ao enredo, forma, filosofia, temas, personagens e outras abordagens sao sempre uteis, especialmente vindo de um grupo tao incrivel de escritores. Mas por em questao a existencia do texto? O ego de quem fala essa frase tem que estar na estratosfera.

      Eu ja estou ciente do preconceito da maioria quanto ao que escrevo – e o que outros no EC escrevem tambem. Nas livrarias, terror, ficcao cientifica e fantasia ficam relegados as prateleiras ao lado dos Mangas e literatura infanto-juvenil e jogos de tabuleiro (E olha que alguns mangas sao extremamente profundos tambem, mas muita gente acha que todos sao bobos). O mundo decidiu que apenas a ficcao realista e o drama poetico – e classicos e a tal da Alta Literatura – podem explorar a natureza humana. Mas eu resisto, nao por que sou um tolo que quer continuar em erro. Eu amo ler Dostoevsky, Tolstoi, Emily Bronte, Jane Austen, Comarc McCarthy, Tolkien, Sanderson, Steven King. Amo ler TODAS essas obras. Entao tenho, na verdae, um pouco de pena de muitas pessoas que se negam a ler o que cismam em chamar de “literatura de genero”, apenas por puro preconceito! Ja vi tantas pessoas negarem a si mesmas experiencias maravilhosas e leituras incriveis, apenas por que “jamais lerao fantasia” ou “terror eh coisa de gente boba”. Ainda pior: ja vi pessoas lerem livros incriveis e perderem a nata da leitura apenas por ja iniciarem a empreitada com a ideia de que o genero jamais tera a mesma capacidade narrativa e alcance emocional de um classico.

      Entao, voltando a sua pergunta: sim, o mundo precisa de um livro como O Jarro. Nem que apenas eu e os do meu circulo sejam os unicos a le-lo!

      • Martim Butcher
        30 de maio de 2026
        Avatar de Martim Butcher

        Marco, te peço desculpas se o que disse te chegou como depreciação. Como eu disse na primeira frase do bendito parágrafo, era uma provocação. E você respondeu muito bem a ela, de verdade. Eu não afirmei que o mundo não precisa do seu livro, apenas te sugeri perguntas que me faço constantemente e que acredito serem produtivas para a consciência crítica do autor a respeito do que ele produz. E quer saber? Na maior parte das vezes eu mesmo me respondo: não, o mundo não precisa do que escrevo, mas vou escrever mesmo assim, e quem sabe, lá no fim, uma necessidade que não existia passe a existir.

        Agora, se essa necessidade vai surgir ou não, do meu ponto de vista, depende da relação que o autor estabelece com os lugares-comuns a partir dos quais ele constrói sua empreitada. Nesse sentido, o problema a se enfrentar por quem escreve em gênero ou “em alta literatura” é o mesmo. Eu mesmo acho o conceito de alta literatura bem furado. No fim, a singularidade (ou a “necessidade”, para usar o termo do debate) de uma obra depende de um certo deslocamento desses lugares-comuns. Às vezes o deslocamento é mínimo, mas cirúrgico. E o fato de um obra pertencer a um gênero não é nenhum impeditivo para que seja uma grande obra.

        Enfim, reitero minhas desculpas se acaso o que comentei chegou aí como um fator de desmotivação para continuar escrevendo. Não era minha intenção (embora, como a gente sabe, de boas intenções o inferno está cheio). Reconheci no que você escreve habilidade e talento enormes, e justamente por isso achei que cabia uma provocação – no sentido mais elevado do termo. Meu desejo não é que O Jarro seja bom. Meu desejo é que seja excepcional.

        É isso, por enquanto.

  4. André Lima
    25 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DA PRIMEIRA ETAPA

    Cara, que texto legal. Sério. Feliz por termos esse tipo de narrativa no desafio. É um romance que tem uma ambição de construção coral. Você abriu com quatro personagens em quatro situações distintas, conectados por um envelope misterioso, e expandiu progressivamente até uma cena de massacre em mansão vitoriana com mortos-vivos levantando do chão kkk sério, eu estava quase que desejando ler algo desse tipo.

    É uma trajetória longa e variada para uma primeira etapa, e há partes que funcionam muito bem, mas tenho algumas sugestões para a segunda etapa!

    O que funciona de forma mais imediata é a atmosfera da abertura. Os três primeiros capítulos, Samuel com sua loja de antiguidades e os sons da mãe morta, Thomas acordando pelo instinto de investigador aposentado, Edward no laboratório fotográfico com a ressaca e o vulto, têm uma qualidade densa e melancólica que combina bem com o registro do romance. Acho que você gosta dessa tradição do thriller sobrenatural britânico, e isso aparece na escrita quando o texto desacelera o suficiente para deixar a atmosfera trabalhar (E vou falar sobre o ritmo mais adiante).

    O capítulo de Edward é o mais forte dos três iniciais. A cena do laboratório com a luz vermelha, a ressaca, o vulto que pode ser real ou criação do whisky, tudo isso tem tensão construída com economia. E a foto revelada no final do sexto capítulo, a mão cinzenta com dedos alongados ajeitando o envelope, é a melhor imagem de todo o texto. Você guardou bem essa carta. Mas sinto que queria ver mais dessas construções imagéticas na história, pois ficou realmente muito bom.

    O capítulo de Cory talvez eu deva classificar como corajoso (?) porque é o mais fragmentado e o que mais arrisca. Os fragmentos de memória intercalados com a corrida de moto, Skye, o bebê, o sangue, a plateia morta gritando The Beast, criam um estado dissociativo que funcionou, eu curti. A ligação de Skye, com aquela voz cortante pedindo pelo filho enquanto Cory escava o solo com as mãos, é um dos momentos de maior tensão emocional do romance. O envelope enterrado no jardim de futebol comunitário é uma variação inteligente das outras entregas. Ficou criativo.

    É um romance extremamente criativo, por sinal, cheio de atmosfera e com personagens bem legais. O maior problema estrutural, que julgo ser um ponto de atenção pra segunda etapa, é a mudança de registro entre os capítulos mais intimistas e os capítulos de ação da NCA. Samuel, Thomas e Edard existem numa atmosfera de horror psicológico contido, enquanto Finegan e George existem num thriller de ação corporativo. São dois romacnes diferentes convivendo no mesmo texto, e a costura entre eles ainda não aconteceu de verdade. O envelope é o único fio que os conecta, mas é um fio fino demais para sustentar duas linguagens tão distintas. Sei que estamos na primeira etapa ainda, mas em termos de estrutura narrativa, são palavras demais que ainda deixam o leitor sem saber muito bem sobre o que exatamente está lendo. Sinto que isso foi proposital, não estou dizendo que é um ERRO, mas é um risco que, ao meu ver, pode ser mitigado já na segunda etapa.

    Finnegan é o personagem mais subespecificado considerando o espaço que ocupa. Ele aparece no sétimo capítulo já em plena operação, sem que o leitor tenha tido qualquer momento de intimidade com ele antes. Sabemos que tem histórico militar irlandês, que perdeu os pais, que é emprestado à NCA, mas tudo isso chega como informação funcional em vez de como peso emocional. Talvez seja interessante adicionar esse background, o que acha da sugestão?

    Sobre os capítulos da mansão, achei que o ritmo acelerou masi do que devia. A cena do massacre é descrita como um texto quase jornalístico que não combina com o registro dos primeiros capítulos. Eu gostei mais do ritmo mais lento e descritivo do início. O braço pendurado no lustre dourado, as máscaras sobre os rostos dos cadáveres, o cheiro de decomposição, tudo isso tem potencial de ser perturbador, mas é enumerado com velocidade que não deixa o horror pousar no leitor. A chegada dos mortos-vivos no final, com Melina mordendo o braço de Nick, é um golpe narrativo válido, mas chega meio que num ritmo de blockbuster. Se eu pudesse exigir algo como leitor que gostou da obra, exigiria que esses momentos tivessem mais peso narrativo, como você fez no início.

    APANHADO GERAL

    É uma premissa sólida e começa com uma qualidade atmosférica muito boa que me envolveu absurdamente. Os primeiros capítulos mostram uma sensibilidade para o horror psicológico e para personagens marcados por perdas. O envelope como dispositivo de convergência é instigante e promete um ponto de encontro que quero ver acontecer.

    O desafio da segunda etapa é integrar de verdade os dois registros do romance, ou fazer uma escolha sobre qual deles vai dominar. Se for o horror intimista dos primeiros capítulos, os capítulos de ação da NCA precisam ganhar mais textura emocional e menos eficiência operacional. Se for o thriller de ação, os três personagens iniciais precisam entrar nesse mundo de uma forma que não abandone o que os tornou interessantes. Ou, agora aqui pensando enquanto escrevo, você pode acabar adotando uma terceira via surpreendente também kk.

    A força do seu texto eswtá nos personagens, sem dúvida. E me peguei pensando no Isaac que foi morto antes de aparecer fisicamente, mas presente em quase todas as tramas ao mesmo tempo. Ele acaba sendo o grande personagem ausente do romance. Mas tudo em que ele está envolvido acaba criando uma presença enorme para alguém que não conheci “vivo” . Esse paradoxo pode ser o coração do romance se você confiar nele. Quem sabe? Muitos caminhos!

    Parabéns pelo fôlego! E vamos pra segunda etapa!

  5. Mariana
    15 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Impressões do capítulo VI ao VIII

    • Eu resolvi ler o restante da história em uma tacada só. O teu texto é ágil, fica melhor assimilar as informações desse jeito.
    • Eu jurava que era uma história de detetives com alguns toques sobrenaturais até as linhas finais. Parabéns, fui enganada. Ainda pode ser uma investigação, óbvio. Mas deixou de ser uma história de detetives tradicional.
    • Afinal de contas, quem é esse bendito Isaac Danpora e o que vai acontecer nesse enterro?
    • Os personagens finais são comuns nessa Londres? Ou era uma teoria da conspiração do fórum?
    • Achei muito bem construída a ligação dos personagens dos capítulos iniciais.
    • A cena do Finnegan enojado eu estava pensando “ué, militar com problemas ao ver sangue?”. Daí tu traz o PTSD e resolveu a questão.
    • A festa final me passou uma sensação de Ilha Epstein.
    • Enfim, a primeira parte é muito competente. Apresenta os personagens, produz mistério e deixa um gancho muito bom para a continuação. Parabéns, ansiosa pelo próximo pedaço
    • marco.saraiva
      19 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Oi Mariana, obrigado pela leitura!

      “Afinal de contas, quem é esse bendito Isaac Danpora e o que vai acontecer nesse enterro?” – era esta a pergunta que eu queria levantar, mesmo. Hahahaha! Que bom que despertou o interesse.

      “Os personagens finais são comuns nessa Londres? Ou era uma teoria da conspiração do fórum?” – não entendi a pergunta. Que personagens finais?

      Enfim, grande abraço e nos vemos na próxima parte!

  6. Priscila Pereira
    13 de maio de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Marco! Tudo bem?

    Voltemos ao seu texto!

    VII – VIII

    Aqui tem uma mudança bem expressiva no tom do romance, deixa de ser mais misterioso, enevoado e noir, pra ser mais investigativo.

    Gostei bastante dos diálogos, deram agilidade e mostraram bem o tipo de pessoas que os personagens são. A ambientação está muito boa mesmo. E a escrita continua firme, cheia de personalidade, mas simples e eficaz, meu estilo preferido!

    O último capítulo ficou excelente, mais focado na ação, com a pegada investigativa na prática.

    “para evitar pisar nos os corpos mutilados” escapou da revisão

    “Não queria imaginar que o corpo da cantora estivesse ali também, entre cadeiras e vísceras. Não queria pensar que seus pais poderiam estar naquele mesmo lugar, e que seus últimos momentos foram desespero.” Não sei se perdi alguma coisa, mas por causa de ter citado o Corry e a Skye e logo depois vir essa frase, eu entendi que o Finnegan pudesse ser o filho deles. Se não for isso, seria legal rever essa frase…

    “George via os hostis, mas sabia que estavam próximos.” Aqui não é “George não via os hostis…”?

    Zumbis?? Não estava preparada pra isso… me pegou real de surpresa! Não imaginava que o romance iria para esse lado, mas achei bem interessante, deu um gancho bem legal pra próxima fase.

    Bem, Marco, já dá pra perceber que seu romance vai ser ótimo, bem instigante de acompanhar, e a escrita está excelente também.

    Espero poder contribuir com minha percepção de leitora até o final!

    Até a próxima etapa!

    • marco.saraiva
      19 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Olá novamente Priscila! De novo obrigado pela leitura!

      Rapaz, você já pegou umas duas deslizadas minhas nas descrições. Realmente, quando cito os pais de Finnegan naquela frase, parece que ele está falando de Cory e Skye, o que com certeza não é o caso. Vou alterar, obrigado!

  7. Canibalismo Cultural
    13 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Boa tarde, Marco. 

    Enquanto eu lia os personagens, fiquei pensando bastante em Joris-Karl Huysmans, principalmente por essa sensação de desgaste interno que todos carregam. Seus personagens parecem emocionalmente cansados antes mesmo do horror começar, e acho que isso é o que deixa a narrativa interessante. O Samuel, por exemplo, a cena da mãe na cozinha funciona justamente porque ele já parece assombrado pela ausência dela há muito tempo. 

    Edward… O escritório escuro, o whisky, a obsessão pelo paranormal, a insônia, tudo nele passa a sensação de um homem consumido pelas próprias fixações. Não parece um personagem construído para ser “cool” ou heroico, mas alguém meio prostrado, o que deixa ele mais humano. 

    O Cory parece viver num estado constante de ruína emocional. Tudo nele é excessivo, a culpa, a violência, a confusão mental. Em vários momentos senti que ele já não consegue mais distinguir memória, trauma e realidade. Isso me lembrou muito esses personagens decadentes da literatura francesa que vão sendo consumidos pelas próprias obsessões até perderem completamente a estabilidade emocional.

    O Thomas funciona de outra maneira, mais contida. Ele tem esse ar de homem cansado pelo tempo, alguém que já viu coisas demais e agora vive quase mecanicamente. Gostei porque você evita transformar ele naquele investigador brilhante e invencível.

    “Quando molhava os pés no primeiro sonho da noite”, gostei dessa frase ❤ você escreve de um jeito bem imagético.

    • marco.saraiva
      19 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Olá! Obrigado pela leitura e pelos apontamentos! Fico feliz que esteja curtindo. Espero que curta também as próximas partes. Não sou nenhum Joris-Karl Huysmans, mas estamos sempre evoluindo! Hahaha

  8. Mariana
    13 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Oi Marco, impressões dos capítulos IV e V:

    • Somos apresentados ao Cory, a apresentação mais diferente das quatro. Ele tá mal… Acabado, pelo que entendi, o desaparecimento da mulher e os seguintes interrogatórios foram a principal causa.
    • A cena dele escutando a barriga, em meio aos assassinatos, me soou errada e bem creepy. Achei que ela estava morta…. Ficou legal, surpreende o leitor.
    • Digo o mesmo para toda a sequência do Cory encontrando o envelope. Macabrona, fiquei com medo que fosse a criança.
    • Samuel é dono de uma loja mística.
    • Issac tem relação com Thomas e Samuel, e o envelope seria um convite para o seu enterro. Ok, vamos ver onde isso vai parar…
    • Como eu disse, a impressão se mantém: um suspense bastante competente. Parabéns

  9. Kelly Hatanaka
    12 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Eba! Lembro de ter lido partes desta história na área-off e de ter gostado muito. Porém, sofria com a distância entre um capitulo e outro. Agora vou poder ler de forma um pouco mais contínua.

    Em primeiro lugar, preciso dizer que eu acho que sou seu público, embora, provavelmente, não seja a sua “persona”. Mas uma história como esta parece ser, um thriller noir com mistério e um toque de sobrenatural, é bem o tipo de livro que eu xingo pelas manhãs, quando acordo cansada porque não consegui largar a leitura.

    Nesta primeira parte você nos apresenta os personagens. Um tanto sem contexto, um monte de nomes e cenários. Para mim funciona. Gosto de montar o quebra-cabeças de quem é quem e quem faz o quê e onde. Aos poucos, alguns personagens vão vindo à luz. Finnegan e George aparecem um pouco mais, conhecemos a NCA, ficamos intrigados com Isaac Danpora.

    Na minha opinião, a parte um cumpriu o que se espera de uma parte um. Apresentou os personagens, definiu a ambientação, apresentou pedaços do mistério e deixou o leitor curioso.

    Infelizmente, eu acho que não vou poder ajudar muito, porque gostei meio demais da história e não estou conseguindo achar defeitos. Ou, melhor dizendo, pontos de melhoria.

    Manda logo a parte 2, sim?

    • marco.saraiva
      19 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Obrigado pela leitura, Kelly! Fico muito feliz que você tenha curtido. Sinto até uma responsabilidade maior agora para manter o nível que você gostou tanto.

      Eu fiz essa primeira parte sabendo que ela está um pouco “inundada” de personagens, mas achei legal você ter notado isso e mesmo assim gostado da leitura. Como você mesma falou, é uma espécie de quebra-cabeças. Nem todo mundo gosta deste estilo de história, então fico aliviado que você curtiu.

      Nos vemos na próxima parte! =)

  10. Mariana
    12 de maio de 2026
    Avatar de Mariana

    Oi Marco, aqui vai as minhas impressões dos três primeiros capítulos:

    • São capítulos curtos, de apresentação dos personagens (Samuel, Thomas e Edward). Você ambientou a história em Londres e os nomes deles estão de acordo.
    • Todos os três receberam o convite, não sei se essa prmeira parte revelará do que se trata o tal “convite”. Mas eu gosto desse tipo de mistério.
    • Eu entendi a proposta, mas os três encontros com o envelope me soaram parecidos demais. Se não foi proposital, fica um ponto a se pensar.
    • Eu gostei pelo fato de que está incrivelmente bem escrita. A proposta de personagens recebendo um convite misterioso não é nova, mas você escreve de um jeito que dá vontade de ler. Tipo o Stephen King, que sabe fazer o básico do terror de um jeito extremamente eficiente. Tanto que eu ia ler um capítulo só e acabei lendo três.
    • Estou curiosa para saber o que é o envelope.
  11. toniluismc
    8 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Marco!

    Li até a seção IV. Infelizmente não consegui continuar, mesmo com vontade. Existem textos (não apenas escritos) que exigem uma parada pra assimilação sob o risco de arruinar a experiência e/ou a compreensão. Não sei se foi intencional da sua parte (no caso do meu texto, foi), mas o seu é um desses casos.

    Como em todas as demais leituras, em um primeiro momento compartilho apenas a sensação que ficou com a leitura. Análises mais detalhadas virão futuramente, de acordo com o tempo e oportunidade.

    Levando isso em consideração, acho que aqui o “leão ainda está enjaulado” (acho que você entende a piada interna rs). Você traz uma narrativa em terreno anglo-saxão, mas é perceptível que o ponto de vista é latino, o que é natural, dada a sua origem. Confesso que isso me incomoda, pois preferia ver algo que soasse mais “natural”. Às vezes parece que você está tão preocupado com a técnica que acaba sacrificando a qualidade da mensagem que você está querendo transmitir na questão do conteúdo em si.

    Talvez funcione para uma proposta de entretenimento, mas eu tenho dúvidas se é realmente esse o seu propósito, vide a sua nítida preocupação com a estética do texto.

    De todo modo, parabéns pelo trabalho. Você pode ignorar as minhas impressões, pois é só algo imediato que pode mudar em uma segunda leitura. Espero poder voltar em breve.

    abraço

    • marco.saraiva
      10 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Olá. Obrigado pela leitura!

      Não foi o meu propósito fazer com que você parasse no meio da leitura para assimilar o texto. A experiência é única para cada leitor, e sinceramente não me importo com a sua abordagem, desde que consiga ler o texto no seu próprio ritmo. Mas se a leitura foi cansativa para você, isso me preocupa. É uma das coisas que sempre tenho medo: escrever de forma que canse o leitor e o faça desistir de prosseguir. Enfim, se foi este o seu caso, por favor me diga!

      (nota: desistir de prosseguir com a leitura porque você não se identifica com o texto por gosto pessoal é diferente de desistir por ser uma experiência cansativa. Espero que esteja me fazendo entender).

      Sobre a história se passar em terreno “anglo-saxão” mas com “visão latina”, não entendi muito bem onde você quis chegar com isso. Por que o texto é de um “perceptível ponto de vista latino”? Só pelo fato de eu ser brasileiro? Será que se você não soubesse que sou brasileiro, ainda assim acharia que o texto tem um “ponto de vista latino”? Pergunto por curiosidade. Que trechos do texto fazem você achar que ele me denuncia como um latino escrevendo uma história no Reino Unido?

      Não me importo muito, na verdade, se assim for interpretado. Existe por aí uma miríade de autores internacionais escrevendo seus próprios pontos de vista sobre diversas culturas (Dan Brown e Liu Cixin, por exemplo). Não acho que a escrita deva se limitar apenas à sua própria vivência e cultura. Não me limito a escrever apenas textos ambientados no Brasil, só por ser brasileiro, nem me limito a expressar apenas a cultura brasileira. Além disso, vivo no Reino Unido há mais de seis anos e acredito ter absorvido uma parte considerável da cultura desse país tão rico e tão antigo. Na verdade, tenho me apaixonado cada vez mais pela cultura daqui, e acho até interessante trazer essa visão para um grupo com textos tão majoritariamente focados na cultura brasileira.

      Então realmente, só gostaria de saber o que te faz achar que a escrita é “perceptivelmente de um ponto de vista latino”. Não vejo isso como um ponto negativo, só uma curiosidade. Ou você é daqueles que despreza qualquer literatura que não se passe em terra tupiniquim?

      Sobre a literatura ser de entretenimento, eu me repito (já falei isso algumas milhares de vezes no EC): eu nego completamente essa classificação de um texto. Mas sim, se você for do Clube dos Simpatizantes do Anderson, provavelmente irá classificar o meu texto como “literatura de entretenimento” e “inferior”. Não me incomodo muito com isso para dizer a verdade, vocês só não são o meu público-alvo mesmo. Mas acho interessante a sua estranheza quanto à minha técnica:

      Talvez funcione para uma proposta de entretenimento, mas eu tenho dúvidas se é realmente esse o seu propósito, vide a sua nítida preocupação com a estética do texto.

      Por que uma literatura de entretenimento, como vocês gostam de chamar, não poderia ter uma técnica bonita / rebuscada? Achei o apontamento um tanto curioso.

      Abraços! Espero que goste do resto da leitura! Mas algo me diz que não vai gostar, rs rs rs.

  12. Priscila Pereira
    7 de maio de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Marco! Tudo bem?

    I – VI

    A melhor coisa aqui é a descrição e o clima de suspense e mistério. Saber o que vai acontecer tirou um pouquinho da surpresa, mas a escrita está tão boa e o clima tão legal que é como se estivesse lendo pela primeira vez.

    “A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo.” Não consegui visualizar essa cena, mas acredito que seja intencionalmente sem sentido pra mostrar o quão doido o personagem está…

    O capítulo IV foi o mais sinistro até agora, os outros foram mais num tom de suspense, mas esse foi bem doido, e você conseguiu mostrar bem uma mente alucinada.

    Gostei bastante do tom de suspense e mistério, e também de vários pontos de vista sendo mostrados, os personagens estão bem desenhados e interessantes, e já estou curiosa para ver onde tudo isso vai levar, imagino que seja um romance de mistério, investigação meio Sherlock Holmes, um tantinho noir, bem legal, até agora!

    Por hoje é só, depois volto para ler mais!

    Parabéns por ter aceito esse desafio!

    Até mais!

    • marco.saraiva
      7 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Oi Priscila, obrigado pela leitura!

      Na frase “A pele da gravidez de Skye no seu rosto, o bebê chutando o veludo” eu tentei descrever uma cena onde Cory recosta o rosto sobre a barriga da namorada grávida… talvez eu tenha sido infeliz. Hahaha!
      Geralmente não explico as minhas intenções no que escrevo mas esse será um longo desafio e acho que é uma boa oportunidade de aprender mais com todos vocês, então aí está =)

      Que bom que você pegou o clima noir e de mistério. A segunda parte deste texto que eu enviei teve um pouco mais de ação então foge um pouco do suspense inicial, mas não queria perder esse fio, que vou puxar de novo nas próximas partes.

      Abração!

      • Priscila Pereira
        7 de maio de 2026
        Avatar de Priscila Pereira

        Nossa, pensei em algo muito mais mórbido, por causa do sangue, dos corpos, e defuntos, imaginei que ele tinha tirado a pele da barriga dela e feito de máscara, algo assim… 😆 se não era essa a intenção é melhor mexer nessa frase aí 😁

  13. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    5 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    O Jarro | Autor(a): Marco Piscies

    Fase de Leitura: I – VIII

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    “O Jarro” (e seus oito primeiros capítulos) apresenta ao leitor uma história de terror extremamente competente, ambientada na sombria Inglaterra. Não sou um dos maiores fãs de terror, mas, pelo menos nesses primeiros instantes, conseguiu captar minha atenção. Bem escrita, bem ambientada. Um trabalho excelente.

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]
      • Capítulos nem curtos demais, nem grandes demais. Durante a leitura, me pareceu que cada trecho da história trouxe consigo a quantidade de informação certa. Ou, a quantidade de suspense certo. Muito bom
      • Ponto fortíssimo = ccapítulo 8 = gore, explícito, potente e que colocou essa história num patamar acima. 
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Onde a história perde tração ou parece apressada?]
      • O início é lento e parece meio repetitivo, com os quatro homens sendo incomodados com alguma entidade com o mesmo modus operandi. Mesmo que conscientemente você vê que não é a mesma coisa, tem o sabor que parece. 

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Os que mais apareceram, para mim, foi George e Finnegan. Eles estão bem delineados.
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Há inconsistências ou falta de profundidade em algum personagem?]
      • Eu entendo que essa é uma chatice minha, chegando até ser meio subjetivo. Mas não gosto muito dessa pluralidade de personagens sendo apresentados logo assim no início. Considerando que temos uma história de terror que, naturalmente, não desenvolve com tanta naturalidade, acho que pode ser temerário ter esse tanto de personagem.

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Aqui é outro ponto muito positivo. A escrita está muito boa. Marco, sua técnica aqui para escrever está irretocável. Parabéns! Continue assim! 
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Repetições de palavras, problemas de pontuação ou ritmo de frase.]
      • Acho que só um deslize pontual de gramática; reposta

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Esse é um capítulo que me lembrou bastante um projeto que você começou anteriormente aqui no EC. Inclusive, tinha o mesmo esquema, salvo engano, de vários personagens tendo suas jornadas costuradas pelo mesmo modus operandi. Bom, continuando, esse trecho quevocê nos apresentou está a sua a cara, o seu estilo. Um terror no qual a tensão vai se acumulando conforme vamos lendo. Aliado a isso, uma escrita talentosa e competente. Parabéns pelo trabalho!

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Aqui mais um ponto positivo: o clima sombrio de Londres é bem construído, assim como a crescente tensão, que transportam o leitor para o universo. Pessoalmente (não leve como uma crítica, mas como um desabafo), gostaria de ver essa história ambientada no BR. Enfim, chatice minha, ignora isso.   

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Via de regra, eu não sou de ler terror. Então, normalmente, não consumo esse tipo de obra, especialmente se for gore. Entretanto, acho que essa foi a primeira vez que continuei a leitura por livre e espontânea vontade. Repito: a escrita está tão boa, que o leitor vai tocando o barco., cada vez mais instigado pela penumbra narrativa à sua frente. 

    Parabéns pelo trabalho! Continue assim.

    • marco.saraiva
      7 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Oi Givago, obrigado pela leitura!

      A pluralidade dos personagens desta história realmente é algo que martela na minha cabeça. Pensei em vários momentos cortar alguns, mas a verdade é que essa história nasceu de um jogo de RPG que narrei para um meu grupo, então sempre soava injusto para mim cortar um dos personagens. Cada um deles tem um papel a cumprir aqui, e espero que consiga fazer jus a todos eles.

      Eu quase sempre tenho problemas quando inicio a leitura de novos livros de ficção, pois são muitos personagens para aprender, muitos nomes para lembrar, especialmente em fantasia. Então eu já estou acostumado com esse sentimento, e espero que ele vá embora logo nas suas próximas leituras!

      PS: aliás, este livro aqui é o meu projeto que você tinha lido no EC. Então você não estava errado, você já leu esse texto antes (mas esta versão agora está bem revisada e mudei algumas coisas, adicionando outras também). Tanto que pedi para o Gustavo tirar ele do ar. Vou terminá-lo por aqui, no desafio de 2026!

      Abração!

      • GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
        11 de maio de 2026
        Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

        Poxa, que bom que a minha memória não me traiu desta vez. Abraços!

  14. rubem cabral
    2 de maio de 2026
    Avatar de rubem cabral

    Olá, Piscies.

    Impressões gerais.

    É um ótimo romance de terror. A construção em pedaços distintos, usar esse esquema de colcha de retalhos que aos poucos vai fazendo sentido, apresentando diferentes personagens ligados ao convite misterioso para o funeral de Isaac, é instigante, gera curiosidade. O parte de Cory deu a entender em algo sobrenatural, em definitivo, enquanto as anteriores apenas sugeriam tal coisa. A parte final, com o pessoal da NCA e os mortos na mansão no meio da floresta e sua reanimação final ficou realmente muito boa. Lembrou um pouco Clive Barker (um pouco mais elegante e menos sujo que o mestre).

    Como são muitos personagens, minha sugestão seria um mínimo que fosse de descrição deles, para ajudar a diferenciá-los. Fora as profissões, o texto não nos oferece muitas pistas sobre isso. Não digo fazer uma ficha de cada um, pois isso é um bocado artifical, mas um tiquinho que fosse. Não formei imagens mentais de nenhum personagem.

    Qualidade da escrita

    Ortografia, pontuação, etc. O texto está muitíssimo bem escrito. Não passei um pente fino, mas não vi nada para apontar em termos de grafia, concordância, pontuação e tudo mais. A qualidade da escrita, em termos de metáforas, construções de frases memoráveis, descrições, etc., é muito boa e inspirada também. Pequenas coisinhas, como citar os pássaros na cena do massacre, por exemplo, acrescentaram um “molho” bacana ao texto, tornaram a coisa visual e deram um quê de ironia.

    Diálogos

    Achei todos os diálogos bons, embora eu não goste do formato que usa aspas duplas, típico da língua inglesa. No diálogo com a Tanya no restaurante fiquei com um pouquinho de dificuldade de identificar quem falava o quê. Talvez ficasse bom referenciar isso. Veja o trecho:

    “Eu não tive coragem de ir na festa.”

    “Então você nunca saiu de Londres?”

    “Não. Mas Melina queria a grana então eu deixei ela ir no meu lugar.”

    Os personagens ainda eram novos para mim, eu ainda não sabia quem era Melina e Tanya havia acabado de aparecer. Não é erro, veja bem, apenas acho que ficaria melhor adicionar um “- confessou Tanya”, por exemplo. A pergunta sobre se ela saíra de Londres, não sei qual dos dois a fez.

    No mais, fico aqui na torcida que a 2a parte não tarde muito.

    Abraço!

    • marco.saraiva
      7 de maio de 2026
      Avatar de marco.saraiva

      Oi Rubem, obrigado pela leitura!

      Acabei absorvendo o costume dos diálogos com aspas. Leio muita literatura internacional e acho que acabou ficando. Prefiro escrever assim, mesmo.

      Sobre o número de personagens: como comentei em outro lugar aqui, o número de personagens deste texto é realmente um ponto fraco, mas não consegui a energia para cortar nenhum. Talvez fosse a melhor decisão, mas agora é tarde. De qualquer forma, a ideia é que eles, com o tempo, se tornem mais distintos uns dos outros, especialmente nos próximos capítulos onde eles terão mais espaço para se desenvolverem.

      Eu não costumo fazer descrições físicas a não ser que seja necessário. Mas se você não formou imagem mental nenhuma de nenhum dos personagens, talvez esse seja um ponto que eu deva levar em consideração mesmo. Vou anotar.

      Sobre o diálogo e a distinção de quem está falando o que, geralmente eu considero a fluidez da leitura. Prefiro manter o diálogo correndo e evitar escrever “ela disse”, “falou fulano”, “disse sicrano”. No exemplo que você usou, o diálogo era entre Tanya e Finnegan, com ocasionais comentários de George (comentários pontuados por mim, esses sim com artefatos como “disse George”). Não vejo necessidade de pontuar cada pedaço de diálogo, prefiro correr o risco de ser menos claro e deixar o diálogo mais fluido na mente do leitor.

      Grande abraço!

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 17 de julho de 2026 por em Coringa, Entre Romances e marcado .

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