– CAPÍTULO 1 –
A Fagulha do Caos
A Academia Arcana de Lyverath erguia-se sobre uma colina íngreme. Não havia muralhas nem torres de vigia em sua arquitetura, apenas pavilhões de pedra clara, telhados curvos e corredores abertos, entrelaçados por jardins geométricos, cerejeiras antigas e espelhos d’água que refletiam o céu com uma perfeição inquietante. Tudo naquele lugar exalava ordem e contemplação. Uma paz tão absoluta que o caos, presumia-se, não sabia como entrar.
No centro do pátio principal, entre canteiros de ervas e colunas talhadas com runas ancestrais, um ancião acariciava a longa barba grisalha enquanto observava o mundo por uma bola de cristal apoiada sobre um pedestal de jade. A esfera era translúcida, com uma névoa azulada girando em seu interior. Às vezes revelava paisagens vastas, como desertos distantes e montanhas cobertas de neve, e às vezes cenas mais mundanas, um tanto íntimas demais. Naquele momento, exibia um senhor feudal usufruindo do direito à suposta primeira noite com uma camponesa de curvas voluptuosas.
— Primeira noite é o meu ovo… — murmurava o velho, exibindo um sorriso sacana ao constatar que, no passado, aquela mesma camponesa já havia se deitado com cinco homens diferentes. Em uma das ocasiões, inclusive, fora com dois de uma só vez: um comerciante das terras do Oeste e o sobrinho dele, que trabalhava como carregador de encomendas.
A bola de cristal era capaz de mostrar passado, presente e futuro em qualquer canto dos Quatro Reinos.
O ancião chamava-se Enoch. Dentro da Academia havia quem dissesse, em tom reverente, que ele era o maior oráculo vivo desde os tempos do Grande Cisma. Outros, em tom menos respeitoso, diziam que passava tempo demais espionando a vida alheia por sua bola de cristal, como uma velha fofoqueira dotada de poderes cósmicos. Ambas as afirmações eram verdadeiras.
Não muito longe dali, ajoelhada à beira de uma pequena fonte circular adornada com lírios, uma menina de cabelos claros observava atentamente uma rã pousada sobre a borda de pedra. Tinha pouca idade, mas havia em seus olhos uma concentração fora do comum.
— Fique parada — sussurrou, erguendo as mãos devagar. — Se colaborar, prometo te transformar numa criatura majestosa.
A rã coaxou, inquieta, enquanto a menina moveu os dedos no ar, traçando símbolos invisíveis. Um brilho rosado envolveu o pequeno anfíbio, mas não houve explosão de energia nem faíscas descontroladas. A magia apenas se curvou à sua vontade. Então, com um estalo seco, duas asas brotaram das costas da criatura. Pequenas, amarelas e surpreendentemente bem estruturadas.
A rã alada deu dois pulinhos hesitantes na borda da fonte e, em seguida, bateu as asas de forma desengonçada, erguendo-se no ar com uma inesperada dignidade.
A garota soltou uma gargalhada e saiu correndo pelo pátio atrás da criatura.
— Voa, rainha dos pântanos! Voa!
A criatura descreveu um círculo no ar, passou raspando por uma cerejeira, contornou uma estátua de mármore representando Nymora, deusa do rio, do ciclo e das colheitas, e por fim aterrissou com surpreendente elegância bem diante de Enoch.
Ao notar a aproximação da criança, o ancião moveu discretamente dois dedos e a bola de cristal abandonou às pressas suas cenas impróprias para passar a exibir um pacato rebanho pastando sob o sol do Reino do Leste.
— O que está aprontando, pequena Sarah? — resmungou, recompondo a compostura. — Não vê que estou trabalhando?
— Eu estava entediada então resolvi copiar uma magia que vi um tiozinho fazendo outro dia. Daqui a pouco pretendo projetar minha consciência pra dentro daquela rã voadora e observar o mundo através dos olhos dela! — a garota falava rápido e quase sem pausas.
Enoch observou a rã por um instante. Não havia espanto em seu rosto. A garota era jovem, mas seu talento estava muito acima da média.
— Não duvido que consiga — disse ele, alisando a barba. — O que me incomoda é ver uma mente brilhante desperdiçando dons tão raros com esse tipo de travessura.
— Travessura?!
— Espionar o mundo pelos olhos de uma criatura alada improvisada, apenas por curiosidade frívola, é um uso bastante questionável da arte arcana. A magia não deve servir aos caprichos mais baixos de seu conjurador.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Engraçado ouvir isso do senhor, porque é exatamente isso o que faz. Fica aí sentado, usando magia pra olhar a vida dos outros, espiando reis, nobres e comerciantes, assistindo a todas as fofocas do mundo!
— Sou um guardião da Ordem. Observo os movimentos do mundo à procura de qualquer oscilação suspeita no Caos. Limito-me a cumprir meu dever: observar tudo, sem jamais intervir diretamente.
— O senhor só observa mesquinharia, escândalos e adultérios!
— E onde mais você acha que o Caos reside? — disse, estreitando os olhos.
A garota se aproximou mais, apoiando as mãos na base de jade do pedestal e erguendo o rosto com curiosidade.
— E o que está vendo agora? Outro caso de comerciante cortejando a esposa de um nobre?
— Hoje não. Embora eu reconheça que certas misérias humanas possuam inegável valor recreativo.
A névoa dentro da bola começou a se mover de forma estranha. O azul translúcido foi lentamente contaminado por veios escuros, como tinta derramada em água parada. O rosto do ancião perdeu a leveza e seus dedos enrugados se fecharam devagar sobre o braço da cadeira de pedra.
— O que foi? — Sarah perguntou, percebendo a mudança.
Enoch não respondeu. Aproximou o rosto da esfera, com um olhar atento, enquanto a névoa se adensava, até formar a imagem de muralhas, torres e telhados. A menina reconheceu na hora.
Era o castelo real do Reino do Sul, que ficava a pouca distância dali. Um brilho instável pulsava no interior da visão, oculto entre corredores e salões ainda não revelados.
O ancião endireitou-se na cadeira.
— Hm.
— “Hm” o quê? — perguntou a garota, subindo em um banco ao lado do pedestal, tentando enxergar melhor. — Mestre Enoch, me diga… o que está havendo?
— Algo grandioso está prestes a acontecer neste reino.
A névoa tremeu e um lampejo sombrio cruzou a superfície da bola. O ar ao redor esfriou.
— Sinto uma fonte poderosa de magia do Caos — continuou Enoch, agora em tom mais grave. — Se eu estiver correto, isso pode abalar a ordem que sustenta o mundo. Pode até mesmo ferir a paz legada pelos Quatro Deuses e abrir uma rachadura por onde o imprevisível envenenará a realidade.
Sarah desceu do banco e correu para mais perto dele, com os olhos brilhando de fascínio.
— Então me conte! — pediu, juntando as mãozinhas. — Conte o que vai acontecer!
Enoch enfim olhou para ela. Naquele rosto antigo, sulcado pelo tempo e pela contemplação de diversos horrores, surgiu um brilho que Sarah conhecia muito bem. Era o brilho que aparecia sempre que ele se deixava seduzir por uma boa história.
— Muito bem. Venha. Vamos observar juntos. Afinal, certas narrativas não devem ser apenas ouvidas, mas testemunhadas.
A névoa se dissipou por mais um instante, revelando agora com nitidez o castelo erguido no coração do Reino do Sul.
***
O salão do trono cintilava sob a luz trêmula das tochas, que iluminavam os vitrais e as tapeçarias finamente bordadas. Ao centro, sobre um trono majestoso adornado com joias reluzentes, sentava-se Zarkon, o Tirano. A impaciência marcava-lhe as feições, enquanto seus dedos tamborilavam nervosamente no braço do assento.
Ao seu lado, diante de uma harpa dourada, uma mulher de beleza hipnotizante entoava uma melodia etérea. Não era princesa, tampouco rainha, mas uma convidada querida do rei, a famosa Selene. Sua voz parecia capaz de acalentar até as almas mais inquietas. Os cabelos loiros desciam em ondas sobre os ombros, contrastando delicadamente com a pele clara e as vestes de seda translúcidas, que lhe realçavam o corpo à luz bruxuleante.
A canção cessou imediatamente ao sinal do rei, que ergueu a mão assim que Archelaus adentrou o salão. O olhar ansioso de Zarkon fixou-se no mago.
— E então? — perguntou, sem esconder a impaciência. — Se livrou do dragão?
Archelaus fez uma leve reverência antes de responder.
— Majestade, como já expliquei anteriormente, o Feitiço da Dicotomia é bastante complexo.
— Dicotomia? — perguntou a barda, prestando atenção na conversa, agora atenta e curiosa. O rei não se importava que ela se intrometesse em seus assuntos particulares. Na realidade, até achava graça nisso. — Como isso funciona exatamente?
O mago endireitou-se, assumindo um tom solene e professoral.
— A dicotomia, jovem dama, divide o destino em duas partes opostas, verdades incompatíveis. Sob a influência deste feitiço, porém, esses opostos passam a existir simultaneamente, ainda que por tempo limitado.
Selene levou a ponta do dedo indicador ao queixo, repuxando os lábios de forma graciosa, com uma expressão de dúvida. Archelaus prosseguiu, acompanhando suas palavras com gestos eloquentes:
— Em termos mais simples, esse feitiço possui exatamente cinquenta por cento de chance de destruir completamente o alvo, e cinquenta por cento de não surtir efeito algum. Entende?
O rei refletiu por um instante, até que seus olhos brilharam com súbita satisfação.
— Ora, mas isso é fácil de resolver! — exclamou, animado. — Basta lançar o feitiço novamente! Se com uma vez temos cinquenta por cento de chance, então duas vezes nos darão cem!
O mago hesitou, desconcertado.
— Majestade… não funciona exatamente assi…
— Não, não, espere! Melhor ainda: lance quatro vezes! Assim teremos duzentos por cento de certeza! Nem os ossos daquele maldito dragão restarão para ameaçar meu tesouro!
O mago abriu a boca para protestar, mas foi interrompido por um dos guardas, visivelmente maravilhado com aquela demonstração de raciocínio.
— Brilhante, Majestade! Ninguém pensa como vós.
Selene ergueu os dedos delicadamente para ocultar uma risada discreta. Archelaus, por sua vez, conteve-se para não suspirar.
— Majestade — explicou ele, com paciência —, como mencionei hoje mais cedo, esta magia consome uma quantidade imensa de energia arcana. Só pode ser conjurada uma vez por dia. Então não seria possível lançá-la novamente hoje. Apenas amanhã.
Zarkon cerrou os punhos, irritado.
— Inaceitável! Não posso dormir com essa maldita dúvida! Preciso saber agora mesmo se o dragão morreu! E se você não for capaz de garantir que meu tesouro estará a salvo ainda hoje, tratarei de encontrar alguém mais competente para o serviço!
O mago sentiu o peso da ameaça. Sabia que perder a confiança do rei não significava apenas humilhação, mas possivelmente o fim da própria vida. Inspirou de for profunda, recompondo-se.
— Majestade, compreendo perfeitamente sua preocupação, mas a situação não é tão simples quanto parece. Posso garantir, com toda certeza, que o dragão na sala do tesouro está morto. Mas também posso garantir que ele continua vivo.
Zarkon ergueu uma sobrancelha e fez uma careta.
— Está me dizendo que… o dragão está morto e vivo ao mesmo tempo?
— Exatamente, meu senhor. Quando o feitiço da dicotomia é lançado, ele provoca uma bifurcação no destino do alvo. Até que alguém observe o resultado diretamente, ambas as possibilidades continuam coexistindo. Ou seja, o dragão agora se encontra em uma superposição de estados.
— Superposição? — perguntou a barda, adiantando a dúvida do rei. — E como isso pode ser resolvido?
— Bom… a realidade só será definida quando alguém entrar na sala do tesouro e testemunhar o resultado. Dessa forma, a superposição colapsará, reduzindo-se a uma única verdade.
Um silêncio desconfortável pairou no salão enquanto Zarkon assimilava a informação.
— Então… basta qualquer bastardo abrir aquela porta e dar uma olhada?
— Exatamente, Majestade.
Selene inclinou a cabeça.
— Mas e se quem abrir a porta for devorado antes de conseguir contar o que viu?
Archelaus lançou um olhar para os soldados reais ali presentes. Todos faziam o possível para parecer invisíveis, desviando os olhos e tentando pensar em qualquer outra coisa. Só então o mago respondeu:
— Digamos que… é melhor que isso não aconteça. Precisamos de alguém que consiga entrar e sair de lá inteiro.
***
Há poucos dias atrás, os portões da cidade se abriram para a entrada de um bárbaro que parecia ter sido talhado a golpes de machado. Era alto, largo de ombros e todo musculoso, e avançava pela rua principal com passos pesados. Havia sangue seco espalhado pelos braços, arranhões recentes cruzando o peito e um corte ainda úmido junto à clavícula. Os cabelos escuros e desgrenhados caíam-lhe sobre o rosto, e a barba espessa estava suja de poeira e suor.
Em uma das mãos, preso por uma corda grossa e arrastado sem qualquer cerimônia, vinha o troféu de sua caçada. Era uma cabeça monstruosa, coberta por uma pelagem escura e rala, manchada de lama e sangue endurecido. O focinho, longo e desproporcional, estreitava-se na ponta e alargava-se na base, lembrando o de um tamanduá deformado. Da boca entreaberta escapavam dentes curtos e amarelados, ainda sujos de carne, emanando um cheiro azedo. O olho baço, semiaberto, continuava preso a uma expressão de ódio.
Qualquer camponês com um mínimo de conhecimento sobre os perigos para além da cidade seria capaz de reconhecer aquela aberração à distância. Tratava-se de um capelobo.
Ao vê-lo passar, as pessoas não demoravam a se afastar. Alguns ainda lançavam olhares curiosos, mas bastava uma olhada na criatura para que apressassem o passo, desviando do bárbaro, que seguia sem olhar para os lados.
Seu destino era a Taverna do Javali Manco, um edifício amplo de madeira velha, cujas janelas abertas deixavam escapar o cheiro de cerveja e gordura. Sobre a entrada pendia uma placa pintada com um javali torto apoiado em uma muleta, obra de algum artista evidentemente bêbado.
Lá dentro, o movimento era moderado. As tochas lançavam uma luz vacilante sobre as mesas ocupadas, e o barulho do salão se espalhava em murmúrios, risadas e cadeiras arrastando no assoalho. Atrás do balcão, o taverneiro enxugava uma caneca mal lavada. Na parede às suas costas, um grande painel de madeira exibia cartazes de toda espécie: recompensas por monstros, procurados vivos ou mortos, pedidos de escolta, cobranças de dívida e outros problemas que as pessoas preferiam resolver pagando alguém mais brutal para lidar com eles.
O bárbaro foi direto até o balcão e, sem dizer uma palavra, largou a cabeça do monstro sobre a madeira. O impacto ecoou pela taverna inteira. A cabeça do monstro quicou uma vez sobre o balcão e ficou ali, com a boca frouxamente aberta, deixando escorrer sobre a madeira um rastro espesso e escuro. O mercador despertou com um sobressalto. Um dos bêbados fez o sinal dos Quatro Deuses. Outro apenas murmurou:
— Pelas barbas de Torun…
O taverneiro ergueu os olhos e abriu um sorriso satisfeito.
— Ora, se não é a velha praga do Desfiladeiro de Khar… — disse, inclinando-se um pouco mais para examinar. — Já tava na hora de alguém trazer esse bicho.
O bárbaro apoiou o antebraço no balcão.
— Você precisava ouvir o barulho que fez quando morreu.
— Por favor, nem me faça imaginar. Quero poder dormir tranquilo esta noite.
O taverneiro agachou-se, puxou debaixo da bancada um pequeno cofre e dele retirou um saco de couro robusto, já cheio de moedas. Depositou-o sobre o balcão, proporcionando um tilintar agradável.
— Recompensa integral. A pedido do rei. E, considerando o tamanho dessa desgraça… — pegou uma caneca de barro, encheu-a diretamente de um barril e a empurrou para diante do bárbaro. — Uma cerveja por conta da casa.
O guerreiro apanhou a caneca e cheirou o conteúdo. Então deu um gole longo, sem pressa.
— Está decente — disse.
Com o saco de moedas preso ao cinto e a caneca em mãos, o bárbaro se afastou do balcão e escolheu uma mesa próxima à parede. Sentou-se de lado, apoiando o braço sobre a madeira, ainda com a postura de quem poderia se levantar para matar alguém, caso a ocasião pedisse.
Então uma voz rouca surgiu ao seu lado, acompanhada de um bafo de álcool.
— Pela cabeça, e por sua aparência, esse aí deu trabalho, hein?!
Na mesa vizinha, um anão o observava por cima da caneca. Vestia trajes de clérigo, mas a túnica estava aberta no peito, o cinto meio aberto, e o símbolo sagrado pendia de lado, como se até os deuses já tivessem desistido de exigir compostura. Perto dele repousava um martelo de guerra, pesado o bastante para resolver pecados alheios de uma forma alternativa.
— Vai me condenar? — perguntou o bárbaro. — Dizer que toda vida é sagrada e que eu devia ter poupado o bicho?
O anão lançou um olhar para a cabeça do capelobo sobre o balcão. Um sorriso se abriu por debaixo de sua barba.
— Tá me achando com cara de druida, rapaz? Pro inferno com essas aberrações!
— Então você não é desses clérigos que choram por qualquer criatura imunda?
— Não costumo chorar nem por humanos imundos. E, cá entre nós, monstro bom é monstro morto. Os deuses que me perdoem, mas tenho certeza de que eles próprios concordam.
A resposta arrancou do bárbaro um esboço de sorriso.
O anão se levantou e ergueu a caneca em um cumprimento informal.
— Thorin.
O bárbaro repetiu o gesto com a própria bebida, embora com menos entusiasmo.
— Ulgar.
— Nome simples, mas fácil de lembrar — disse Thorin, inclinando levemente a cabeça para a cadeira vazia diante da mesa. — Posso me sentar? Cerveja costuma descer melhor quando temos companhia.
Ulgar respondeu apenas com um movimento de cabeça.
Satisfeito, o anão tomou um gole do caneco, deixando um resto espumoso preso ao bigode. Então apanhou o martelo de guerra e acomodou-se na cadeira.
— Diz aí… — disse ele, inclinando-se com interesse — que tipo de desgraça era aquela?
O bárbaro baixou os olhos para o fundo da caneca e girou a bebida antes de responder.
— Um devorador de caravanas. Couro duro, bafo de esgoto, garras grandes. Tinha se escondido entre as pedras do desfiladeiro, atacando tudo que passava por lá.
O anão assobiou, impressionado.
— E você deu conta do serviço sozinho?
Ulgar ergueu os olhos, encarando o companheiro.
— Viu mais alguém trazendo a cabeça pra cá?
— Gostei de você, grandalhão! — disse Thorin, rindo e batendo na mesa com a base da caneca. — Aceita mais um gole? Não precisa mexer na sua recompensa. Hoje a sorte também sorriu pra mim.
O bárbaro deu de ombros.
— Não nego bebida de graça.
Thorin então se virou para o balcão e ergueu a voz:
— Ei, compadre! Mais uma rodada pra mim e pro meu novo companheiro! E pode mandar no copo mais sujo da casa!
— Todos os copos do Javali Manco são igualmente sujos — respondeu o taverneiro. — Mas, no seu, eu posso caprichar.
Thorin esfregou as mãos, satisfeito.
— Ah, isso é que é vida! — disse, abrindo um sorriso. — Nós dois aqui, com os bolsos pesados e a caneca cheia. Momentos assim deveriam ser o direito de todo homem.
Ulgar apoiou o cotovelo na mesa.
— Tô vendo que o dízimo foi generoso.
— Dízimo e vinho são luxos dos sacerdotes. Eu sou clérigo. É outra espécie de desgraça.
Após molhar a garganta com um gole de seu copo especialmente sujo, continuou:
— Sacerdote fica trancado no templo, cantando, benzendo criança e ouvindo confissões de adúlteros arrependidos. Mas pelo menos bebe vinho sem dividir com ninguém. Já o clérigo não. Clérigo anda pelo mundo, entra em ruína mal-assombrada, quebra maldição na base da reza e do martelo, espanta morto-vivo, enfrenta demônio e, quando precisa, desce o cacete em pecador teimoso.
— Então seu trabalho é rezar e bater?
— Nessa ordem, quando possível. Mas às vezes a pancada precisa vir primeiro.
Ulgar soltou uma risada discreta.
— Então essa bolsa cheia — disse ele — veio como recompensa por alguma maldição quebrada na base da porrada?
— Não. Veio de uma tragédia de natureza mais íntima.
O anão suspirou e deu outro gole em sua bebida, e continuou:
— Vendi a aliança da minha ex-mulher.
O bárbaro também deu um longo gole em seu copo, aproveitando cada gota antes de continuar a conversa.
— Você se divorciou?
— Sim. Era uma mulher complicada. Quando tudo acabou, pensei em arremessar o anel de noivado no mar, com um discurso dramático diante do pôr do sol. Mas, depois de refletir um pouco, percebi que seria melhor descolar uma grana do que fazer cena.
— Sábia decisão.
— Eu também achei. No fim, consegui faturar bem com ele. Quase o mesmo tanto que você recebeu por aquela cabeça fedida — o anão encostou seu saco no do companheiro para comparar o volume.
— Afaste esse saco do meu. Está ficando estranho.
O anão soltou um riso, então virou-se e gritou para o taverneiro:
— Ei, compadre! Meu copo está vazio. Faça o seu trabalho e venha com sua bunda gorda até aqui!
Uma nova rodada chegou, trazida pelo taverneiro com a má vontade habitual. As canecas pousaram sobre a mesa com um baque úmido, espalhando um pouco de espuma.
O anão já ia beber a sua quando, sem aviso, o destino resolveu aprontar uma das suas. A porta da taverna se abriu, deixando entrar três homens mal encarados. Vieram falando alto e seguiram direto para uma mesa próxima ao balcão.
— Estou dizendo a vocês — falava o primeiro, um sujeito magro de bigode esquisito —, isto aqui é uma relíquia de verdade!
Ergueu a mão para exibir a peça entre os dedos. À primeira vista, parecia apenas um anel comum: um aro de metal antigo, gasto nas bordas, sem qualquer pedra preciosa encrustada. Mas, quando a luz bateu de lado, inscrições finíssimas surgiram em sua superfície, pequenas runas entalhadas que pareciam emitir uma energia sutil.
O homem ao lado inclinou-se para observar melhor.
— E quem, em sã consciência, pagaria uma fortuna nisso?
— Um estudioso, um mago, um nobre metido a colecionador… sei lá, porra — respondeu o bigodudo. — Qualquer um que saiba o que tem diante dos olhos. Este anel pertenceu a um rei ancestral. Dizem que foi forjado nas próprias fornalhas de Torun, numa era em que os encantadores ainda falavam diretamente com os deuses. Está coberto de runas arcanas, viu só? Não parece grande coisa, eu sei… mas vale, pelo menos, cem cabeças de gado.
O terceiro homem soltou um assobio, aproximando o olhar. Mas sua curiosidade foi interrompida pelo taverneiro, que, atrás do balcão, fingia limpar um copo de origem duvidosa. Após uma cusparada lateral, resmungou:
— Isso tudo é balela!
Os três se viraram na mesma hora.
— Balela? — repetiu o bigodudo, indignado. — Está duvidando da autenticidade da peça?
— Toda semana aparece algum desgraçado por aqui dizendo que encontrou a espada dum herói lendário, ou a costela de algum santo que ninguém conhece, ou a cueca encantada dum rei antigo. Até hoje, tudo que vi foi um monte de lixo e mentiras!
O homem do anel ergueu o queixo.
— Então examine você mesmo, espertão.
O bigodudo hesitou por um instante, mas acabou entregando a joia para o taverneiro, que a pegou entre os dedos grossos e a ergueu na altura dos olhos, franzindo o cenho enquanto a girava devagar de um lado para o outro. Depois aproximou ainda mais do rosto e, não satisfeito, levou-o à boca para mordê-lo com os dentes do fundo.
— Hm… — resmungou.
Foi então que algo mudou.
Uma luminosidade tênue começou a brotar da superfície do anel, espalhando-se pelas runas entalhadas no aro. O metal vibrou levemente entre seus dedos, e um som baixo e áspero emergiu da peça.
— Aju… da… me… — sussurrou a relíquia. — Aju… de…
O taverneiro arregalou os olhos, ficando mais espantado do que quando a cabeça do capelobo havia sido jogada em seu balcão.
— Pela Virgem Marie… — murmurou, com a voz repentinamente mais fina. — É verdadeiro!
Devolveu o anel ao dono com rapidez, com medo de danificar ou de derrubar no chão.
— De onde foi que você arranjou isso? — perguntou.
— Comprei de um anão filho da puta, por uma verdadeira pechincha.
— Deve ter sido um anão muito burro — disse o taverneiro.
— Burro de dar nó! — completou o outro homem, rindo e batendo na mesa.
Ulgar, que até então observava a cena, virou o rosto na direção de Thorin para comentar alguma coisa. Mas permaneceu em silêncio quando viu que o companheiro havia parado completamente. A caneca continuava suspensa a meio caminho da boca e o sorriso desaparecera. Seu rosto agora estava contraído com uma expressão dura, fechada.
Até que apanhou o martelo de guerra ao lado do banco e caminhou até a mesa dos três homens, fazendo o assoalho ranger. Não levava a arma para usá-la de fato. Afinal, uma martelada poderia transformar uma simples discussão comercial em velório. O martelo servia apenas como argumento visual.
— Com licença, camaradas — disse, em tom bastante cordial. — Gostaria apenas de esclarecer uma pequena dúvida, antes que eu comece a interpretar a conversa de vocês como provocação.
Os três se viraram para ele. O homem do anel, ainda recostado na cadeira, arqueou uma sobrancelha.
— E que dúvida seria essa, tampinha?
O anão apontou para a joia entre os dedos do sujeito.
— Esse anel aí… por acaso foi comprado ontem, no mercado velho, de um anão charmoso e boa pinta?
Os homens se entreolharam, e um sorriso largo se abriu no rosto do bigodudo.
— Ah! Agora eu me lembro de você! Você é o anão burro que me vendeu essa preciosidade!
— Sim, fui eu. E agora estou começando a suspeitar que houve, digamos, uma leve desproporção entre o valor do objeto e a quantia que me foi oferecida.
Um dos comparsas soltou uma gargalhada.
— Leve desproporção? Você vendeu uma relíquia por preço de bijuteria!
— O que combina bastante com a sua cara de otário! — acrescentou o outro, culminando em uma risada espalhafatosa dos três companheiros.
Thorin respirou fundo.
— Certo. Então vamos simplificar. Vocês devolvem o anel, eu devolvo o dinheiro, e todos seguimos em frente.
— Escuta aqui, pastor — disse o bigodudo, girando o anel entre os dedos. — Negócio fechado é negócio fechado. Se você foi idiota o bastante pra vender uma fortuna por migalha, isso não é problema nosso!
Com toda a serenidade do mundo, o anão recuou meio passo, estendeu o braço e colocou sua caneca de cerveja em segurança sobre a mesa. Só depois ajustou o martelo na mão, segurando-o pela cabeça de metal, com o cabo apontado para a frente como se empunhasse um taco de bilhar.
— Pois bem… — disse, com um suspiro resignado. — Tentei resolver a situação como um homem civilizado.
E estocou.
A ponta do cabo do martelo encontrou o saco do comparsa mais próximo — não o de moedas — com uma violência pedagógica. O sujeito soltou um guincho que mal parecia humano, dobrou-se ao meio e caiu de joelhos, com as mãos entre as pernas.
A mesa virou no mesmo instante.
O bigodudo se levantou aos berros, e o outro comparsa avançou com um soco desajeitado. O anão desviou de lado e lhe acertou uma cotovelada seca nas costelas.
— Segurem esse filho da puta! — gritou o homem com a dor latejando na virilha.
Um deles conseguiu passar o braço em volta do pescoço de Thorin em um mata-leão, puxando-o para trás. Outro lhe prendeu um dos braços, enquanto o terceiro, ainda meio dobrado de dor, tentava recuperar a dignidade à base de socos na cara do clérigo.
O anão rosnava, sufocado, com as pernas curtas patinando no chão.
A poucos passos dali, Ulgar continuava sentado à própria mesa, observando tudo em silêncio enquanto apreciava a cerveja.
Thorin, já com o rosto ficando roxo, esticava o braço na direção da mesa com a obstinação de um devoto tentando alcançar um relicário. Seus dedos enfim tocaram a caneca. Com enorme dificuldade, puxou-a para perto, ergueu-a até os lábios e deu um gole sofrido.
O efeito foi imediato. Seus olhos se arregalaram e o peito inflou. Os músculos dos braços tensionaram sob a túnica. Então, com um urro que misturava fé, álcool e ressentimento amoroso em partes iguais, fincou as botas no chão e se ergueu de uma vez, levando consigo os dois homens que o seguravam. O que o mantinha no mata-leão foi arremessado por cima do ombro e caiu de costas sobre o balcão com um estrondo escandaloso.
O homem que ainda se recuperava da dor nos ovos, sacou uma adaga.
Finalmente Ulgar se levantou. Não estava com pressa, nem com raiva. Apenas ergueu o corpo e estralou os dedos das mãos.
O sujeito da faca mal teve tempo de virar o rosto, quando foi agarrado pelo colarinho e pelo cinto e arremessado de lado pelo bárbaro. Seu corpo voou por cima de uma mesa, espalhando canecas, pão, pedaços de carne e um velho bêbado que até então dormia em paz. A adaga girou no ar e foi parar cravada em uma coluna de madeira.
A taverna inteira já havia mergulhado no caos. Gritos se erguiam de todos os lados, alguns oriundos do medo, outros de um entusiasmo grotesco. Um bêbado passou a incentivar a briga, enquanto o mercador que até pouco cortejava a garçonete se arrastava para debaixo de uma mesa, agarrado à própria bolsa com desespero. Até um cachorro que ninguém sabia de onde surgira passou a latir para o bigodudo caído.
— Já chega! — rugiu o taverneiro, golpeando o balcão com um pedaço grosso de madeira. — Chega, seus filhos de uma mula sifilítica!
Ninguém pareceu lhe dar ouvidos. Thorin já montava sobre o peito do homem do anel, tentando arrancar-lhe a joia do dedo enquanto o sujeito praguejava e tentava mordê-lo. Ulgar, por sua vez, segurava um dos comparsas pelo tornozelo e o arrastava pelo chão.
O taverneiro puxou uma besta curta debaixo do balcão e apontou para o centro da confusão.
— Eu juro pelos Quatro Deuses que vou chamar a guarda dos Capas Azuis! — bradou, com a voz rouca de ódio. — Quero todo mundo fora da minha taverna. Agora!
A ameaça verbal teve mais efeito do que a besta. Bastou o nome dos Capas Azuis ser mencionado para que alguns dos clientes parassem imediatamente. A guarda real era conhecida por sua tirania e falta de paciência. Quando aparecia, costumava resolver qualquer problema na base da violência, quase sempre encerrando a questão com um encarceramento nas masmorras do castelo.
O anão ainda segurava o anel entre dois dedos, recém-arrancado à força da mão do bigodudo, quando se voltou para o taverneiro.
— Tecnicamente, eu estava só corrigindo uma injustiça comercial.
— Pois corrija lá fora! — berrou o dono do Javali Manco.
O bárbaro largou o homem que arrastava, e o sujeito bateu com a cara no chão, ficando ali mesmo, gemendo. Thorin se levantou, ajeitou a túnica, cuspiu um dente que não sabia dizer se era seu ou do adversário, e guardou o anel no bolso. Ao mesmo tempo, Ulgar aproveitou para dar o último gole em uma cerveja sem dono que encontrara pelo caminho.
Em poucos instantes, os dois já estavam sendo empurrados porta afora, com o sereno da noite os recebendo como se nada tivesse acontecido. O bárbaro estralou o pescoço para um lado, depois para o outro, sentindo a tensão dos músculos se rearranjar após a pancadaria.
— É sempre bom beber e se exercitar um pouco — comentou.
O anão, porém, mal pareceu ouvi-lo. Já havia tirado o anel do bolso e o observava com atenção profunda, sob a luz fria da lua. Havia em seu rosto uma seriedade desconfortável. Ulgar lançou-lhe um olhar desconfiado.
O anel começou a se comportar de forma estranha. Uma tênue linha dourada surgiu correndo pelas runas finíssimas entalhadas no aro, como se a luz brotasse de dentro do próprio metal. Aos poucos, o brilho se intensificou, até envolver a peça em uma claridade pulsante. Então, de seu interior, escapou um ruído estranho, uma espécie de sussurro.
— Jogue fora essa porcaria! — disse Ulgar, dando um passo para trás. — Está amaldiçoada!
Thorin ergueu o artefato um pouco mais, espantado.
— Espere…
— Isso fede a magia. E vou te dizer mais: tudo o que vem de ex-mulher é desgraça. Jogue isso fora, agora!
— Espera, grandalhão… escute.
O anão aproximou o anel do ouvido. O brilho se intensificou por um instante, e então uma voz fraca surgiu, entrecortada, com um tom meio espectral:
— Tho… rin… pres…te… aten…ção…
O rosto do anão mudou na hora.
— Mirabel?!
A resposta veio em fragmentos, esmagada por interferências estranhas.
— Terra… Ras… gada… me captura… ram… Pés Inverti… dos… por favor… de… pressa…
Ulgar permaneceu imóvel, encarando aquilo com um horror supersticioso que já beirava o pavor, enquanto Thorin apertava o anel com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.
— Mirabel! Mirabel! Você está me ouvindo? O que fizeram com você? Responda!
Por um instante pareceu que a voz voltaria. Mas o brilho do anel vacilou. Então a luz se apagou e o metal voltou a ser apenas metal. O anel permaneceu imóvel entre os dedos do anão, que ficou ali parado, encarando a peça sem saber como reagir. Ainda tentou falar de novo, chamou o nome dela mais duas vezes, aproximou o aro do ouvido e o sacudiu com cuidado. Mas não houve resposta.
— Eu odeio magia — resmungou Ulgar. — Não dê ouvidos a essa tranqueira! É mais provável que isso seja um lorde das trevas tentando nos atrair pra uma armadilha do que sua ex-mulher pedindo ajuda. E as duas possibilidades me parecem igualmente ruins!
Fechando os dedos em torno da aliança, Thorin respirou fundo, tentando conter o abalo. Quando voltou a encarar o bárbaro, o humor de taverna havia sumido. Ele já havia se decidido.
— Eu preciso ir até a Floresta da Terra Rasgada. Se Mirabel está em perigo, eu vou salvá-la!
— Você ouviu o que eu disse? Aquilo era magia! E eu não gosto de me meter em assuntos desse tipo.
— Não estou te pedindo pra gostar. Estou te oferecendo trabalho.
Dizendo isso, soltou o saco de moedas do cinto e o estendeu na direção do companheiro.
— Já que houve devolução do produto — continuou —, pode ficar com o valor da venda. Vou precisar de um braço forte ao meu lado nessa missão.
O bárbaro pegou o saco, pesou-o na mão e depois o devolveu ao anão.
— Pode ficar com isso.
Thorin não conseguiu esconder o desapontamento.
— Não vai me ajudar?
Um breve sopro escapou pelo nariz de Ulgar, algo que talvez fosse um riso suprimido.
— Faz tempo que não encontro alguém pra me meter em encrenca. Além disso, você me agradou, anão. E eu gosto de aventuras em que existe chance real de morrer, com adversários perigosos pra desafiar. Eu vou com você!
O anão ergueu o queixo com dignidade, mostrando um sorriso sincero.
***
Sarah continuava inclinada sobre a bola de cristal, com o queixo quase tocando a superfície translúcida da esfera. Durante algum tempo acompanhou em silêncio os fios da narrativa que se desenrolavam em sua frente. Mas a impaciência, como quase sempre acontecia com ela, não tardou a vencer.
— Esses dois aí são legais e tudo mais… — comentou de repente. — Mas qual a relação deles com o dragão? Quero ver logo a parte do dragão!
O ancião demorou para responder. Limitou-se a alisar a barba com lentidão, ainda encarando as névoas da esfera.
— Paciência, minha pequena. Paciência.
Mais alguns minutos se passaram até que a garota tornou a se manifestar:
— Mestre Enoch, tive uma ideia! Já que sua bola de cristal enxerga pontos diferentes do espaço e do tempo, por que a gente não olha logo pra sala do tesouro? Assim descobrimos se o dragão morreu ou não.
— Ah, essa seria uma ideia excelente. Mas a dicotomia não tolera esse tipo de curiosidade. Se observássemos, estaríamos alterando a situação. E, como você bem sabe…
— … você não pode intervir, só observar — completou a garota. — Mas como é que dar uma espiadinha pode mudar alguma coisa?
Enoch se ajeitou na cadeira de pedra.
— Deixa eu te perguntar uma coisa. Quando você observa uma pessoa sem que ela saiba, o que acontece?
— Nada. Ela continua fazendo o que estava fazendo.
— Correto. Mas e quando ela percebe que está sendo observada?
— Hmm, deixa eu ver… As pessoas costumam ficar com medo quando percebem que estão sendo observadas. Então acho que ela tentaria despistar a gente.
— Exato. Elas alteram seu comportamento. Agora imagine que isso não vale apenas para pessoas. Imagine que vale para tudo. Para dragões, para o vento, para a luz e para o destino.
A menina ficou quieta por um instante, refletindo.
— Isso não faz muito sentido…
— Há alguns anos, um sábio chamado Osric conduziu um experimento curioso. Ele abriu duas fendas numa placa de metal e disparou contra ela pequenos grãos de luz, um por vez. Feito isso, esperava encontrar duas listras do outro lado. Uma para cada fenda.
— E não encontrou?
— Não. Encontrou várias faixas, como ondas num lago. Era como se cada grão de luz tivesse atravessado as duas fendas ao mesmo tempo, seguindo mais de um caminho antes de chegar ao seu destino.
— Isso é impossível!
— Foi exatamente o que Osric disse. Então colocou um cristal detector diante das fendas, para descobrir por onde exatamente cada grão passava. E, no instante em que tentou observar… cada grão de luz definiu o seu caminho. As várias faixas desapareceram, e do outro lado restaram apenas duas listras.
— Isso tudo só porque ele olhou?
— O fato de ele ter olhado cravou o destino de cada grão de luz.
Os dois ficaram em silêncio por um breve período.
— Então se olharmos para o dragão… — disse Sarah devagar.
— Nós estaríamos definindo o seu destino — completou Enoch. — Com isso, a sala do tesouro deixaria de conter duas possibilidades ao mesmo tempo e passaria a conter apenas uma, acabando com a dicotomia.
Sarah ficou quieta por um momento. Depois mordeu o lábio, contrariada.
— Tá. Mas continuo achando injusto existir um dragão na história e ele não aparecer logo!
— Essa é uma observação típica de alguém que ainda não entendeu a graça de ver as peças se posicionando no tabuleiro. Cada coisa tem seu tempo, minha pequena. Logo tudo vai se entrelaçar.
Com uma careta, ela voltou a encarar a bola.
— Mas então pule logo pra parte da ação. Quero ver mais pancadaria!
O velho soltou um resmungo baixo pelo nariz. Sarah o conhecia o bastante para saber que aquilo era um bom sinal. Significava que ele estava cedendo.
— Muito bem — disse por fim. — Se é agitação que você deseja, prossigamos para o encontro de Ulgar e Thorin com a tribo dos Pés Invertidos. É ali que a história começa, de fato, a acelerar.
***
Ulgar mantinha a espada erguida, mas não avançava.
O suor escorria por sua testa, descendo pelo rosto e sumindo entre a barba, enquanto seus olhos saltavam de uma lança a outra, calculando as distâncias e ângulos por onde viriam. Mas havia pontas demais apontadas para ele. Bastaria um deslize mínimo, um músculo mais apressado, e aquela clareira se converteria em seu túmulo antes que conseguisse abrir espaço com a lâmina.
A um passo atrás estava Thorin, segurando o martelo de guerra com firmeza nas duas mãos. Estava nas mesmas condições que o companheiro, mas sua atenção não se voltava aos guerreiros que os rodeavam.
Estava nela.
A mulher permanecia de joelhos junto ao líder da tribo, com os pulsos amarrados para trás e uma mordaça apertada entre os lábios. As vestes estavam rasgadas em alguns pontos, manchadas de terra e folhas secas, e havia marcas vermelhas nos braços. Ainda assim, seus olhos continuavam determinados. Mesmo com uma lâmina encostada no pescoço. A arma de pedra negra era apoiada de leve contra sua pele, sem perfurá-la, sustentada pelo próprio líder dos Pés Invertidos. Ao redor dele, outros membros da tribo fechavam o cerco com lanças em punho, todos com os pés virados ao contrário.
— Pela última vez — rosnou ele. — Quero que vocês devolvam a relíquia sagrada de Boitatá!
O anão apertou os dentes.
— Eu já disse que não sei do que está falando!
— Mentira! — gritou, apertando a lâmina contra a pele de Mirabel. Um filete de sangue escorreu. — Esta mulher veio até nossa terra trazendo mapas e anotações. Ela sabia sobre nossa relíquia. Acham mesmo que eu sou idiota?!
— Solte ela agora! — ordenou o bárbaro, sem deixar de encarar as lanças. — Nós não pegamos sua relíquia! Não queremos nada com as tranqueiras do seu povo!
A lâmina de pedra fez nova pressão. A feiticeira encarava o líder com um olhar cheio de desprezo.
Ulgar deu um passo à frente.
Imediatamente, uma dúzia de lanças avançou alguns centímetros em sua direção.
Ele parou.
— Não dê mais nenhum passo! — alertou o líder.
A expressão no rosto do bárbaro mudou. Ele odiava receber ordens.
— Você fala demais.
Ao dizer isso, moveu os ombros de leve, e seus dedos se retesaram no cabo da espada. O anão percebeu na mesma hora. Conhecia aquele pequeno sinal. Era o instante preciso em que alguma coisa, dentro de um guerreiro, deixava de aceitar a utilidade das palavras e decidia que dali em diante a conversa prosseguiria pela lâmina.
— Não… — sussurrou o clérigo, quase sem mexer os lábios. — Ainda não!
Mas já era tarde.
O bárbaro explodiu para a frente. Nenhum homem daquele tamanho deveria ser capaz de se mover tão depressa. Um instante antes estava imóvel. No seguinte, já havia girado o corpo com a espada em arco, desviando de três lanças ao mesmo tempo e partindo a haste de uma quarta antes mesmo que o dono entendesse o que estava acontecendo. O primeiro guerreiro caiu com um grito sufocado, a garganta rasgada de lado a lado. O segundo recebeu a ombreira do bárbaro no peito e foi arremessado para trás, derrubando dois companheiros e uma fogueira baixa, que se desfez em brasas espalhadas pelo chão.
A clareira inteira entrou em colapso.
Os Pés Invertidos berraram em sua língua áspera e se lançaram ao combate de uma vez só, parecendo uma matilha de pequenos demônios de cabelos ruivos. O anão rugiu um palavrão sagrado, erguendo o martelo e avançando na direção da feiticeira. Duas lanças vieram primeiro. Ele aparou uma com a haste da arma e agarrou a outra com a mão livre, puxando o dono com violência para a frente. Quando o sujeito tropeçou, recebeu uma martelada na boca tão brutal que três dentes saíram voando.
— Sai da frente, pé torto!
Outro guerreiro tentou perfurá-lo pelo flanco. Mas ele se virou a tempo de receber a ponta da lança de raspão no ombro. Rosnou de dor, mas respondeu com uma cotovelada no queixo do inimigo, seguida de uma joelhada curta entre as costelas. O pequeno combatente se dobrou, e o martelo desceu-lhe nas costas com um estalo.
Enquanto isso, Ulgar já parecia ter abandonado por completo qualquer noção de prudência.
Quatro guerreiros cercaram-no de uma vez. Uma lança passou rente à sua face, abrindo-lhe um risco na bochecha. Outra rasgou-lhe o braço. Uma terceira ainda conseguiu alcançá-lo de raspão na lateral do tronco. Ele não pareceu notar. A espada descreveu um arco horizontal e abriu o ventre de um adversário. O sangue saltou quente, espirrando-lhe no peito e no rosto. Um segundo inimigo veio por trás, mas o bárbaro girou sobre os calcanhares e enterrou a lâmina por baixo da axila do sujeito, arrancando-lhe um urro tão agudo que até os pássaros noturnos, ocultos nas copas, bateram asas em pânico.
Próxima à clareira, Mirabel, ainda ajoelhada, fora quase esquecida no centro de tudo. O líder da tribo recuara com ela no momento em que a luta explodira, arrastando-a pelo braço, mas agora lutava para manter a própria vida à medida que o caos crescia ao seu redor. Com a mordaça entre os dentes, ela observava tudo com atenção, enquanto os pulsos se torciam para dentro e para fora em busca de qualquer folga nas cordas. Sentia a amarração firme, áspera, cruelmente bem-feita. Ainda assim, uma de suas mãos, ensanguentada e já quase sem sensibilidade, começou enfim a ceder um pouco dentro dos nós.
Foi então que algo cortou o ar.
A feiticeira virou a cabeça por reflexo e viu a arma vindo em sua direção: um machado enorme, lançado do meio da confusão, girando sobre si mesmo e refletindo as chamas das tochas. Não havia espaço para feitiço, nem para esquiva. Restou apenas a certeza de que morreria ali. Assim, fechou os olhos e se entregou ao inevitável.
Mas o golpe não veio.
Por um momento, quase irreal, a feiticeira permaneceu imóvel, suspensa entre a expectativa da morte e o espanto de continuar viva. Quando tornou a abrir os olhos, ainda atordoada, levou um tempo para compreender o que estava vendo.
Havia alguém diante dela. Baixo, largo, de costas arqueadas e braços abertos como se fosse uma muralha humana.
Thorin estava plantado entre ela e a morte. Seus joelhos vacilavam, e um fio de sangue descia do canto de sua boca. A princípio, Mirabel não entendeu. Então seus olhos desceram.
O machado estava cravado nas costas dele. A lâmina havia atravessado a túnica e afundado entre as escápulas. O cabo ainda tremia levemente.
Os olhos da feiticeira se arregalaram. Ela tentou dizer alguma coisa, o nome dele, talvez, ou um protesto furioso. Mas tudo o que saiu foi um som abafado e indignado contra a mordaça.
Thorin virou um pouco o rosto, o suficiente para que ela pudesse ver seu perfil. Havia dor ali, muita dor, mas também aquele aspecto esquisito de sempre.
— Não se preocupe, querida… — murmurou, com a voz falhando. — Eu parei a lâmina do machado com a minha espinha dorsal.
Mirabel ainda permaneceu por mais alguns segundos em estado de choque. Até que, com um movimento brusco de cabeça, começou a esfregar a mordaça contra o ombro do ex-marido, forçando o tecido para o lado até conseguir prendê-lo entre os dentes e arrancá-lo de uma vez.
— Seu idiota! — disparou ela, com a voz saindo rouca. — Você enlouqueceu de vez?!
O anão, ainda respirando com dificuldade, virou o rosto um pouco mais em sua direção. Havia suor em sua testa, sangue nos lábios e dor na coluna, mas, mesmo assim, ainda encontrou forças para abrir um sorriso.
— Achei que — balbuciou, com um fio de voz — você ficaria feliz em me ver…
— Estou impressionada com o tamanho da sua estupidez, Thorin! Mas, para ser sincera… fiquei surpresa por você ter ouvido meu chamado. Conhecendo você, imaginei que a esta altura já teria vendido nossa aliança de casamento para comprar cerveja, ou algo assim.
— Vender nossa aliança?! Eu?! — protestou com uma voz desafinada. Em seguida pigarreou, tentando recompor a dignidade — Ora, querida. Fico até ofendido que você me imagine capaz de agir de forma tão… ahn… desprezível.
Tossiu de novo, e uma fisgada violenta atravessou-lhe o corpo inteiro.
— Thorin! — Mirabel se aproximou, examinando o machado em suas costas.
— Relaxa, chuchu. Eu sou clérigo, lembra? Servo devoto de Nymora. Tenho poderes de cura, você sabe disso.
Com um gemido abafado, o anão apoiou um joelho no chão e fechou os olhos por um momento. Quando tornou a abri-los, o brilho debochado havia cedido lugar a um aspecto mais profissional. Levou a mão ao símbolo sagrado pendurado junto ao peito, agora manchado de sangue, e respirou fundo.
— Escute — disse, com a voz firme, embora baixa. — Vou precisar da sua ajuda. A cura não é instantânea, e enquanto eu estiver puxando a graça da deusa, meu corpo vai ficar indefeso. Se algum daqueles desgraçados chegar perto de mim nesse estado, eu já era.
— Então trate de ser rápido — assentiu a feiticeira, apanhando para si um cajado improvisado, feito com uma tocha apagada.
O anão se ajeitou como pôde, levou as duas mãos à altura do peito e começou a sussurrar as primeiras palavras do encantamento. Seu tom era reverente, quase íntimo. Uma luz azulada brotou entre seus dedos e passou a escorrer devagar por seu corpo, contornando os ombros, a espinha e o tronco, até se concentrar ao redor do machado cravado em suas costas. O metal vibrou de leve. A carne ao redor pareceu relaxar, e sua respiração oscilava entre espasmos de dor e pequenos suspiros de alívio.
Mirabel puxou de dentro do decote um talismã marcado por uma runa ancestral, com o símbolo do Boitatá.
— Mirabel… ei, querida… — sussurrou Thorin. — Essa por acaso é a relíquia desses caras?
Ela se manteve em silêncio.
— Você roubou mesmo?
— Agora não, Thorin.
A feiticeira ergueu o amuleto na direção de uma das fogueiras derrubadas.
— Queime apenas o bastante para afastá-los — ordenou.
A fogueira pareceu inflar. O brilho alaranjado se adensou, ganhando corpo e volume. Então o fogo se ergueu do chão, torcendo-se sobre si mesmo até assumir a forma de uma serpente gigantesca, feita de labaredas e brasas. Seu corpo ardente se contorcia no ar com um silvo ensurdecedor, e seus olhos, duas fendas negras, ardiam com uma intensidade maligna.
Mirabel apertou o talismã.
— Obedeça.
A criatura ignorou e seguiu em frente, rasgando em chamas o acampamento dos Pés Invertidos. Chicoteou cabanas e derrubou árvores com o corpo incandescente. Por onde passava, a madeira explodia em chamas e o ar se enchia de fumaça. Os gritos se espalharam pelo acampamento. Alguns guerreiros largaram as lanças para tentar salvar os seus. Outros, menos afortunados, queimavam até virar cinzas.
— Querida…? — disse Thorin, ainda em meio ao processo de cura. — Não acha que está exagerando um pouquinho?
Mirabel se esforçava para retomar o controle, com o talismã queimando entre os dedos. Mas aquela chama não se comportava como um feitiço comum. Crescia além do limite que qualquer encantamento deveria alcançar, com uma força e uma fúria grandes demais para terem nascido de uma simples fogueira derrubada.
— Thorin… — disse por fim, com voz tensa. — Tem alguma coisa errada! Acho que esta relíquia era algum tipo de selo.
O anão, que já havia recomposto a própria coluna, aproximou-se dela e a envolveu num abraço firme. Mirabel cedeu ao gesto e caiu de joelhos, buscando apoio naquele breve refúgio em meio a toda aquela loucura.
E, no centro de todo aquele inferno, Ulgar se encontrava frente a frente com o chefe da tribo.
O líder dos Pés Invertidos empunhava duas lâminas curvas de pedra negra. Era maior que os outros e tinha uma aparência brutal. Seus passos invertidos desenhavam no chão um movimento torto, confundindo distância e intenção. Havia sangue em seu braço, no peito e no rosto. Havia sangue demais também no bárbaro diante dele.
Nenhum dos dois parecia disposto a recuar.
O chefe atacou primeiro. As duas lâminas cortaram o ar em uma sequência feroz. Ulgar aparou a primeira, tomou a segunda no ombro e sentiu a carne abrir. Aquilo lhe fez sorrir. Era por isso que viera. Toda a floresta, toda a magia, toda a confusão ao redor pareciam perder importância diante daquele único instante em que, enfim, tinha diante de si um inimigo digno de ser abatido.
— Desgraçado! — gritou o líder da tribo. — Olhe em volta. Veja o que fizeram!
Atrás dele, uma cabana desabou em brasas. Os gritos dos Pés Invertidos se misturavam ao silvo da serpente. Corpos se contorciam na terra escura. Pequenas sombras fugiam entre a fumaça. Nem mulheres e crianças foram poupadas.
— Os homens são mesmo uma praga! — continuou. — São de longe a criação mais maldita da deusa Marie!
Ulgar deu de ombros.
— Vai lutar, ou vai chorar?
— Você não entende! Não faz ideia do que destruiu. Minha tribo era milenar, e este era o último grupo que havia restado. E agora… agora tudo está perdido!
— Isso é problema seu e do seu povo. A única coisa que me importa é que…
O bárbaro deu um passo à frente.
— …você é grande…
Mais um.
— …e forte…
Parou a poucos centímetros do oponente, com o incêndio refletindo nos olhos.
— …mas será que sabe lutar?
Naquele momento, o líder dos Pés Invertidos hesitou. Apesar de todo o seu treinamento como guerreiro, reconheceu no homem à sua frente algo terrível. Aquele bárbaro sorria. Coberto de sangue e cercado de fogo. O medo abalou o espírito de luta do chefe, e essa foi sua sentença.
Ulgar avançou. A espada desceu em um corte limpo.
Por um momento, a cabeça do líder ainda parecia ligada ao corpo. Depois se separou. Girou no ar, atravessada pela luz das chamas, e caiu rolando no chão. Seu corpo deu dois passos vacilantes sem comando algum, e então tombou de joelhos antes de desabar por inteiro.
— Fracote de merda!
O bárbaro deu uma cusparada e permaneceu de pé diante do cadáver, arfando, com a espada pingando sangue negro e vermelho.
Ao seu redor, o acampamento continuava queimando.
Os Pés Invertidos que ainda lutavam começaram a recuar. Thorin corria com Mirabel para longe das chamas. Ela, porém, ainda olhava para o homem que acabara de decapitar o chefe da tribo.
— Esse sujeito é completamente maluco! — comentou.
— Pelos deuses! — balbuciou o anão, ao se dar conta de toda a destruição à sua volta. — O que foi que nós fizemos… — estava com lágrimas nos olhos, não apenas pela compaixão, mas também pela fuligem no ar.
O sorriso de Ulgar não saíra do rosto, e seus olhos, tão vermelhos quanto o fogo ao seu redor, percorriam o caos com uma satisfação que beirava a insanidade. A mão fechada em torno do cabo da espada tremia levemente, sedenta por uma segunda rodada.
Então a serpente o viu, virando a cabeça em sua direção. Seus dois olhos negros fixaram-se nele.
Mas Ulgar não recuou.
O bárbaro e a serpente ficaram se encarando por um tempo. Até que a criatura abriu a boca e rugiu, varrendo o acampamento como uma onda. As chamas que ainda ardiam começaram a se mover. Línguas de fogo rastejavam pelo chão em direção a ela, subindo por seu corpo, fundindo-se à sua forma. Os contornos se alteraram, a silhueta se alongou, algo irrompeu de cada lado do tronco, abrindo-se contra o céu noturno. Com a luz do próprio fogo que a compunha, a criatura projetou uma sombra sinistra, que parecia um lagarto com longas asas.
Em seguida, ascendeu acima das árvores, levando consigo cada chama, brasa e fagulha que ainda respiravam no acampamento. A escuridão caiu de repente, absoluta, e então o luar tomou o lugar do fogo.
Restaram apenas cinzas e madeira enegrecida.
Ulgar permaneceu imóvel, com a espada ainda na mão e o sorriso enfim apagado, olhando para o céu com repulsa, enojado pelo cheiro de magia, até que a criatura desaparecesse de vez.
***
— Uau… Que batalha incrível! O senhor viu, mestre Enoch?
O ancião não sabia o que pensar. Seus dedos enrugados repousavam sobre os braços da cadeira de pedra, e sua atenção permanecia fixa no interior da esfera.
— Está tarde — disse ele, erguendo uma das mãos, fazendo com que as imagens da bola de cristal se apagassem. — Já vimos o bastante por hoje.
— O bastante?! Mas… ainda nem chegamos na parte do dragão! E eu queria ver mais cenas de pancadaria! Aquele bárbaro… ele tava parecendo um monstro!
O ancião voltou-se para ela, e só então a menina percebeu algo peculiar. O velho continuava sereno, mas a serenidade agora parecia forçada.
— Há momentos em que até o mais diligente observador deve saber recolher os olhos — disse ele. — Bisbilhotar o tecido do destino por tempo demais cobra seu preço. Precisamos descansar.
— Mas eu não estou com sono!
— Mesmo assim vai dormir.
— Mas…
— Sarah.
A menina fechou a boca e obedeceu, enquanto o ancião recolhia a bola de cristal e se dirigia para fora do pátio. Passou a mão pela barba uma última vez, organizando os pensamentos.
— Tenha uma ótima noite, pequena.
Ela ainda hesitou por um momento, mordendo o lábio inferior. No entanto, como toda criança inteligente sabe fazer, decidiu guardar a revolta para mais tarde.
— Amanhã o senhor me mostra o resto?
— Se o destino permitir…
Sarah fez uma careta, pouco satisfeita com a resposta, mas acabou cedendo. Recolheu-se com passos lentos, arrastando um pouco as sandálias pelo chão de pedra para deixar claro, da forma mais infantil possível, que saía contrariada.
Em seus aposentos, o ancião permanecia imóvel diante da bola de cristal. Por um longo período, não ousou tocá-la.
Por muitos anos, acreditara saber reconhecer os sinais de uma grande ruptura. Guerras começavam com exércitos. Pragas, com cadáveres. Golpes de Estado, com sussurros em corredores de pedra.
Mas aquilo era diferente.
Havia algo naquele bárbaro que o perturbava. Não era apenas sua força, nem sua ferocidade. A destruição que deixara para trás fora excessiva, descontrolada, maior do que a necessidade pedia. Parecia que, onde quer que ele estivesse, a desordem crescia ao seu redor.
Além disso, Boitatá havia sido despertado. E aquilo não era um detalhe pequeno, mas sim uma faísca lançada sobre o tecido da ordem, com grande potencial de gerar um incêndio.
Enoch pousou a mão sobre a bola de cristal, sem despertá-la. A superfície fria refletiu seu rosto cansado. O ancião estremeceu e balbuciou:
— Pelas barbas de Torun… O Caos está avançando!
Mas nem mesmo ele sabia dizer qual peça daquele tabuleiro merecia maior atenção: Boitatá ou Ulgar.
– CAPÍTULO 2 –
O Grande Espetáculo
Outro bárbaro adentrou as ruas de Zéfira. Sua figura não reluzia através de uma bola de cristal. Talvez porque não tivesse importância para o destino do mundo. Talvez apenas porque Enoch, naquele dia, não estivesse olhando para o lado certo. De todo modo, pouco importava. O homem estava ali, e isso continuaria sendo verdade houvesse ou não olhos voltados para ele.
Era enorme, de ombros largos, braços grossos e barba espessa. Sobre a cabeça usava um chapéu largo adornado com penas, medalhões e outros enfeites de gosto duvidoso, fazendo um contraste entre brutalidade e extravagância. As roupas eram um amontoado de couro, tiras, peles e metal gasto, presas ao corpo de forma improvisada. Em uma das mãos carregava seu inseparável porrete, um pedaço nodoso de madeira grossa e disforme. Na outra, preso pelos cabelos e balançando a cada passo, vinha o troféu de sua caçada.
Sem cerimônia, atravessou a porta da Taverna do Javali Manco, foi direto até o balcão e largou a cabeça ali. Ela bateu na madeira com um baque pesado e rolou de lado, deixando escapar um fiapo espesso de baba escura entre os dentes. A boca enorme permanecia escancarada num ricto feroz, cheia de presas longas e irregulares, e a língua inchada pendia para fora como um pedaço de carne estragada.
O taverneiro ergueu os olhos, viu a cabeça, soltou um suspiro e se abaixou atrás do balcão. Sem dizer nada, puxou o pequeno cofre de sempre, abriu-o, apanhou um saco de moedas e o depositou sobre a madeira com um tilintar seco, sem nenhum entusiasmo. O bárbaro esperou um pouco mais, ainda com a mão pousada no porrete, aguardando o atraso natural do espanto alheio. Mas nada veio. Ninguém gritou, fez o sinal dos deuses ou se abalou com aquela cena. A taverna apenas seguiu com seus murmúrios, apresentando total indiferença.
Aquilo o desagradou.
— Já não lhe entreguei o valor acordado? — perguntou o taverneiro. — Se não for consumir nada, pegue essa cabeça imunda e dê o fora daqui.
— Você não vai ficar com ela? É um quibungo. Eles são raros hoje em dia.
— A Coroa manda pagar pela prova da morte, não por coleção de carniça. Se eu começar a guardar cabeça de capelobo, quibungo e toda a desgraça que aparece por essas estradas, em pouco tempo este lugar vai feder pior do que vala comunitária.
— E o que eu faço com isso?
— Sei lá. Arranque os dentes, faça um colar, use de bola numa partida de mortebol ou enfie no cu de algum inimigo seu. Desde que tire esse traste daqui, por mim já está ótimo.
O bárbaro soltou um resmungo. Estava prestes a pegar de volta a cabeça quando seu olhar se deteve no estado do salão. Algumas mesas haviam sido remendadas de qualquer jeito. Duas cadeiras estavam tortas. Havia uma coluna marcada por um corte fundo, e perto da parede uma mesa estava com seu suporte drasticamente torto.
— Que espelunca miserável — comentou, dando uma cusparada no chão. — Eu esperava mais classe da capital do Reino do Oeste.
— Há poucos dias teve um arranca-rabo aqui dentro — respondeu o taverneiro. — Um bárbaro apareceu com a cabeça de um capelobo. Depois ele e um clérigo da cidade começaram a arrumar briga com todo mundo.
— Um bárbaro? E ele era forte?
— Ficou interessado? Então vá atrás dele e peça o sujeito em namoro. Mas, antes disso, tire essa cabeça da minha frente e suma da minha taverna!
De uma mesa próxima, um homem de bigode soltou uma gargalhada. O forasteiro virou o rosto devagar. A expressão que lhe tomou a cara não tinha nada de extravagante.
O sujeito ao lado do bigodudo percebeu isso na mesma hora e lhe deu uma cotovelada baixa.
— Psiu. Abaixa o fogo aí. Você tem ideia de quem é esse homem?
O bigodudo ainda segurava um resto de sorriso, embora já um pouco menos valente.
— Nunca o vi antes.
— É o Gromar.
— Quem?
— Gromar, porra! Mais conhecido como Pau Morto.
O sorriso do bigodudo sumiu por completo. Seus olhos foram da barba espessa ao porrete nodoso, depois voltaram ao rosto do bárbaro, conferindo se aquela montanha era mesmo o sujeito das histórias.
Pau Morto percebeu a mudança e, dessa vez, gostou.
Guardou o saco de moedas na cintura, agarrou o porrete com mais firmeza e caminhou até a mesa dos dois. O assoalho rangeu sob suas botas. Só então notou os hematomas naqueles homens. Nariz torto de um, bochecha inchada do outro, e beiço aberto de ambos.
— Vocês apanharam feio. — O homem parou diante deles. — Foi o mesmo bárbaro de que o taverneiro falou?
O bigodudo limpou o canto da boca com as costas da mão.
— Foi. Ele se chamava Ulgar. Ou algo parecido. Grandalhão, mal encarado. Tava com um anão junto. Thorin. Um clérigo da Igreja dos Quatro aqui do centro da cidade… embora passe mais tempo bebendo nesta taverna do que rezando em qualquer altar.
O companheiro do bigodudo assentiu com vigor, completando:
— Isso mesmo! O anão é um picareta completo. Fez negócio com a gente, recebeu as moedas e depois quis voltar atrás. E quando percebeu que não íamos arredar o pé, resolveu renegociar na base da martelada.
— Na base da desonestidade — corrigiu o bigodudo, ainda ofendido. — Vendeu um anel e depois se fez de vítima. Um dos nossos amigos está na curandeira até agora!
Pau Morto continuou parado, ouvindo tudo sem mover um músculo do rosto.
— E onde eu encontro esses dois?
Os homens se entreolharam. Foi o amigo do bigodudo quem respondeu primeiro:
— Eu os vi há pouco na entrada da cidade. Tavam chegando agora de uma missão, junto com uma mulher. Ela tinha cara fechada, do tipo que não gosta de ninguém.
— Ela é feiticeira — completou o bigodudo. — Eu já a vi antes. Trabalha para a coroa. É estudiosa de runas antigas, e tem um baita rabão!
Com um leve movimento de queixo, Gromar parecia registrar cuidadosamente cada informação em sua mente.
— E o que você quer com esse tal de Ulgar? — arriscou o bigodudo. — Se não se importa da pergunta.
— Não me importo. Quero apenas provar minha superioridade.
O bigodudo piscou, e Pau Morto abriu um sorriso feio e orgulhoso.
— Nenhum homem imundo vai roubar a glória da minha caça só porque chegou antes de mim e impressionou meia dúzia de bêbados. Se esse tal de Ulgar apareceu aqui arrastando um capelobo e achou que isso bastava pra virar lenda… então está na hora de alguém mostrar a ele qual é o seu devido lugar.
O companheiro do bigodudo se remexeu na cadeira, desconfortável.
— Você quer arrumar briga com ele… só por causa disso?
— Não. — Fez uma pausa. — Quero humilhá-lo por causa disso.
Sem dizer mais nada, empurrou a porta com o ombro e saiu da taverna, levando consigo o porrete, o dinheiro e o troféu que não impressionara ninguém.
O bigodudo observou a porta se fechar, depois virou-se para o companheiro e girou um dedo ao lado da têmpora.
— Doido de pedra.
***
A Academia Arcana de Lyverath ardia.
As cerejeiras antigas, antes tão impecáveis e serenas, agora se retorciam em colunas de fogo, lançando pétalas carbonizadas ao vento como neve. Os espelhos d’água ferviam. Os jardins geométricos haviam sido engolidos por labaredas tortas, e os corredores abertos da Academia, outrora construídos para convidar à contemplação, pareciam agora gargantas de pedra cuspindo fumaça e gritos. O caos absoluto se espalhava por toda parte, devorando pavilhões, telhados curvos, estátuas de deuses e bibliotecas inteiras com ferocidade.
Enoch corria com a barba desgrenhada e olhos repletos de pavor. Embaixo dos braços levava sua inseparável bola de cristal. A superfície outrora límpida estava rachada em veios tortos, e a luz em seu interior tremia. A cada poucos passos, o ancião parava, erguia a esfera diante do rosto e procurava freneticamente.
— Sarah! — gritava, sem qualquer traço da compostura habitual. — Sarah!
A bola mostrava salas consumidas pelas chamas. Fragmentos do teto caindo sobre mosaicos partidos. Por um instante revelou o dormitório da garota reduzido a brasas. Depois o grande salão de estudos, já tomado por fumaça negra. Mas Sarah não aparecia em lugar algum.
Enoch girou a esfera com mãos trêmulas, insistindo, forçando a visão, vasculhando cada canto da destruição. Nenhuma imagem dela. Nenhum vestígio. Era como se a garota simplesmente não estivesse mais em parte alguma, arrancada da própria existência.
O ancião sentiu o horror subir-lhe pela espinha. Os dedos apertaram a esfera rachada com tanta força que por um instante pensou tê-la destruído de vez.
— Não… — murmurou, a voz quase sem ar. — Não, não, não…
Foi então que a porta se abriu.
Sarah entrou na sala com uma expressão inocente. As mãos estavam às costas e o corpo balançava de leve sobre os calcanhares, com uma serenidade de se admirar.
— Mestre Enoch, eu quero assistir mais aventuras de Ulgar e seus amigos.
O ancião piscou. A Academia estava intacta. O ar era fresco, nenhuma parede queimava, nenhuma cerejeira tombava em chamas, e o pátio permanecia silencioso além da porta. Diante de si não havia esfera rachada, mas a bola de cristal de sempre, brilhante e polida sobre o pedestal de jade. Toda a destruição existia apenas dentro dela.
Quando percebeu que o olhar da garota se voltava para a visão da Academia em ruínas, o velho quase saltou da cadeira. Com um gesto rápido de dois dedos, tentou alterar a imagem da esfera antes que a garota entendesse que aquele funeral em larga escala era o próprio lar dos dois. As torres em colapso e os salões incendiados se dissolveram em um redemoinho de fumaça azulada, mas o desespero do movimento o fez errar feio o alvo. Em vez de qualquer paisagem inofensiva, surgiu na superfície da bola uma cena bastante imprópria envolvendo a esposa de um comerciante local e um tecelão surpreendentemente avantajado, ambos entretidos em um momento que dificilmente poderia ser confundido com costura.
— Hã? — Sarah, que já dava um passo à frente, estreitou os olhos, tentando entender o que exatamente estava vendo.
Enoch se engasgou tão forte que quase tossiu a própria barba.
— Cof, cof… não! Não, não, não… isso não, isso também não!
Com uma sucessão de gestos apressados e desajeitados diante da esfera, conseguiu mudar a cena, e a mulher do comerciante desapareceu por um instante. Mas então voltou ainda mais nítida, e o tecelão pareceu erguer a cabeça grande — não a de cima — na direção da própria bola de cristal. Com um movimento particularmente desesperado da mão, finalmente o ancião conseguiu dissolver toda a visão em névoa espessa.
Os dois se mantiveram em silêncio por alguns instantes.
— Nossa… — A garota ainda olhava atônita para a bola de cristal. — Isso foi meio constrangedor, né?
— O quê?
— Sei lá. Toda essa situação. Que climão!
— Nã-não. Não houve nada de estranho acontecendo aqui. Você deve ter imaginado coisas! — O ancião pigarreou e tentou recuperar a compostura. — Olha, pequena… veja… hmm… como eu posso dizer isso…
Sarah inclinou a cabeça.
— Use a metáfora das cegonhas. Assim fica mais fácil para nós dois.
— Não! Não é sobre essa porcaria que eu quero falar! Mas é que… eu estive pensando durante a noite passada e… bem… as coisas estão ficando perigosas demais. Então eu acho melhor não observarmos mais Ulgar ou o dragão na bola de cristal…
— O quê?! Como assim?
— É que… hmm… Eu sei que é difícil compreender… Mas…
— O senhor viu alguma tragédia, não foi?
— Sarah…
— Ah, então foi isso! O senhor ficou a noite inteira assistindo a tudo sozinho! Me mandou embora ontem dizendo que estava tarde, e depois passou horas espionando os planos do destino!
— Já chega, pequena! Eu sou seu mestre, demonstre respeito!
A garota, mesmo contrariada, desculpou-se. O ancião deu um longo suspiro, e seguiu:
— As coisas que eu vi… Não poderei mudar nada. É como se eu tivesse lido o roteiro de uma peça de teatro, e em breve terei que atuar em meu difícil papel.
— Se você sabe que algo de ruim vai acontecer, por que não age de forma diferente e impede?
— Porque isso seria intervir. É por isso que geralmente não olho o meu próprio futuro. Senão eu tiro meu livre arbítrio. Sou obrigado a seguir exatamente como eu vi… caso contrário, a ordem estabelecida pelo destino seria manchada, e isso só proliferaria o caos!
— Me mostre o que vai acontecer, mestre. Eu também quero abdicar de meu livre arbítrio.
— Não, Sarah. Já fui bastante claro com você. A partir deste instante, você está proibida de olhar para a minha bola de cristal. Não quero que toque nela, não quero que se aproxime dela sem minha permissão e não quero, em hipótese alguma, que você continue acompanhando a história de Ulgar!
Sarah ficou imóvel, encarando-o. Sentia-se com raiva, ofendida por ele julgá-la incapaz de lidar com aquilo.
— Então é isso? O senhor pode ficar aí vendo batalhas e dragões… mas eu não?
Enoch se levantou devagar da cadeira, encarando-a sem dizer nada.
— Tá bom — resmungou a garota, girando os pequenos calcanhares e caminhando na direção da porta. — Se é assim, eu dou um jeito de assistir às aventuras de Ulgar sem a sua bola idiota.
— O que foi que você disse?
Sarah parou só para olhar por cima do ombro.
— Nada, não.
E saiu da sala batendo o pé um pouco mais forte do que o necessário.
Enoch permaneceu imóvel por alguns instantes, com a mão pousada no pedestal de jade e os olhos fixos na porta por onde a garota desaparecera. Depois soltou o ar devagar, voltando sua atenção para a bola de cristal. Uma imagem começava a se formar em meio à névoa azulada em seu interior, e logo a visão se abriu, revelando com nitidez a praça principal de Zéfira, tomada pela luz clara do dia, com vendedores abrindo tendas, crianças correndo entre os bancos de pedra e, mais adiante, uma aglomeração barulhenta se apertando em torno de um círculo improvisado, onde apostadores e brigões pareciam preparar algum tipo de torneio de briga de rua.
***
Quando atravessaram os portões de Zéfira, Ulgar já estava farto de tanto silêncio no grupo.
Não que ele tivesse vontade de conversar. Nunca tivera. Mas durante todo o caminho de volta, Thorin seguira quieto, o que por si só já era estranho. Mais de uma vez, pareceu criar coragem para falar com Mirabel. Limpava a garganta, acelerava o passo, virava o rosto na direção dela, até chegava a erguer a mão em sua direção… e então desistia, murchando antes mesmo de abrir a boca. A feiticeira percebia. E fingia que não.
Assim que pisaram de novo nas ruas da capital, Mirabel parou. Levou a mão ao interior das vestes e tirou de lá a relíquia roubada dos Pés Invertidos. A peça era pequena e não parecia ter tanto valor. Mas havia demonstrado um potencial avassalador na floresta da Terra Rasgada.
— Preciso voltar para a corte. — Ela olhava atentamente para a relíquia. — Tenho que relatar minha descoberta ao rei e pesquisar mais sobre isto.
Thorin olhou para o artefato, depois para ela.
— Então você roubou a relíquia sagrada do Boitatá por ordens do rei Zarkon?
Mirabel se virou na mesma hora.
— Isso não é da sua conta.
— Eu só perguntei porque…
— Eu não lhe devo satisfações, Thorin. Não mais. Nós não somos mais casados.
O bárbaro assistia à cena de braços cruzados, sem mover um músculo.
— Obrigada pela ajuda. — A feiticeira tornou a guardar a relíquia em seu decote. — Aos dois.
E foi embora, seguindo rua adentro, engolida aos poucos pelo movimento da cidade, enquanto o anão continuava olhando, até perdê-la de vista.
Ulgar deixou passar alguns segundos antes de se pronunciar.
— Odeio essa mulher.
— Eu sei que ela tem um gênio forte, grandão. Mas…
— Não. O jeito dela é o de menos. O problema é que ela é feiticeira. — Ulgar cuspiu de lado. — Gente que mexe com magia não é confiável. Nunca.
O anão ficou em silêncio por um instante. Depois, pela primeira vez desde a floresta, um sorriso pequeno brotou em seu rosto.
— Talvez você tenha razão.
Ele ainda olhava na direção em que Mirabel desaparecera quando, de repente, pareceu se lembrar de alguma coisa. Levou a mão até a cintura, soltou o pequeno saco de couro preso ao cinto e o ergueu diante do companheiro. Já não estava cheio como antes. Restava ali, no máximo, metade do que carregara quando saíram da taverna.
— Tome — disse ele. — É a sua parte. E obrigado pela ajuda.
Ulgar nem olhou direito para a bolsa.
— Já disse que não quero. Pode ficar.
— Não estou fazendo caridade, grandão. Essa metade é sua. Foi merecida.
O bárbaro lançou um olhar rápido para o saco e depois de volta para Thorin.
— Esse tanto aí não paga meus honorários. Você desperdiçou a maior parte jogando fora lá na floresta.
— Desperdicei?
— Eu vi o que você fez. Foi largando moeda em cima dos corpos daquela tribo, enquanto os enterrava. Pelo menos nos que ainda tinham corpo suficiente pra isso.
O sorriso de Thorin se alargou. Estava calmo e satisfeito. Então afrouxou o aperto na bolsa e falou com um tom menos espalhafatoso que o normal:
— Aquilo não foi desperdício. Quando a canção da vida de Marie se extingue num ser vivo, a travessia para o outro lado fica mais fácil se a alma puder pagar uma moeda ao carroceiro.
— Isso é bobagem.
— Pode ser. Ainda assim, quando o meu dia chegar, espero que alguém me ofereça a mesma condolência.
— Não espere isso de mim, porque meu ouro eu não desperdiço com defunto.
Thorin soltou uma risada sincera. O companheiro desamarrou da cintura o saco com a recompensa do capelobo, mostrando que ainda estava cheio e pesado.
— Mas com os vivos eu não vejo problema em ser generoso — completou. — Que tal tomarmos uma bebida?
Dessa forma, seguiram até a Taverna do Javali Manco, atravessando a cidade com o objetivo modesto de beber até que os problemas parecessem menores. Mas, ao chegarem lá, encontraram a porta fechada.
Ao se aproximarem, notaram um pergaminho engordurado pregado na madeira. Thorin deu um passo à frente para examinar.
— “Vendendo cerveja na praça central durante o torneio de briga de rua”.
Ulgar ergueu os olhos.
— Torneio de briga de rua?
— Ao que parece, nosso amigo do Javali Manco decidiu levar o negócio até onde está o povo.
— Então ainda dá pra beber. Vamos!
***
A praça central estava tomada por gente. No centro, uma roda havia se formado em torno de dois homens que brigavam com as mãos nuas. A multidão reagia a cada golpe com bastante entusiasmo. Não havia ali honra, técnica ou espírito esportivo. O que movia aquele círculo era a alegria simples de ver dois sujeitos se destruindo em público.
Um apostador passava de mão em mão recolhendo moedas, anotando nomes e valores em um pergaminho amassado. Perto dali, o taverneiro do Javali Manco havia instalado cinco barris grandes sobre suportes de madeira. As canecas iam e vinham sem descanso, e o sujeito mal tinha tempo de terminar um resmungo antes que outra mão surgisse diante dele empunhando moedas.
Ulgar e Thorin abriram caminho por entre ombros e cotovelos até alcançarem os barris. Ao lado deles, a multidão explodiu com um berro quando um dos lutadores acertou um soco torto na lateral do rosto do outro, fazendo-o tropeçar para trás com a boca aberta e o sangue já escorrendo do nariz.
Thorin apoiou os cotovelos na bancada improvisada do taverneiro e ergueu a voz:
— Compadre! Duas canecas, no capricho!
O amigo já ia pegando sua recompensa, quando o anão o parou.
— Não se preocupe, grandão. Deixa que eu pago a primeira rodada.
Metendo a mão na bolsa presa ao cinto, retirou seis moedas de cobre e as largou sobre a bancada. O taverneiro olhou para as moedas e fez uma careta.
— Isso aí paga só uma caneca.
Thorin franziu o cenho.
— Como é?
— Duas saem por doze cobres.
— Não, veja bem… o preço de um copo é três cobres. Então dois copos deveriam sair por seis. Tô ficando louco?
— Nem você nem eu estamos loucos. É justamente por isso que subi o preço da caneca pra seis. Alta demanda.
O anão respirou fundo, recompôs a dignidade e fez a pergunta que nenhum homem feliz gosta de fazer:
— Tem algum trago mais barato?
O taverneiro se abaixou, puxou de lado um barril menor e deu dois tapinhas secos na madeira.
— Este aqui é mais econômico. Metade do preço, metade do sabor.
— Tudo bem. Afinal, o importante na bebida é a quantidade que se bebe, e não o gosto.
— Discordo — interrompeu o bárbaro, levando a mão ao próprio saco de moedas. — Eu pago a cerveja decente.
— Não. — Thorin ergueu a palma da mão na frente dele. — Eu disse que eu pagaria. Não vou dar pra trás.
— Pare de ser teimoso. Seu dinheiro está quase acabando.
O taverneiro, que ouvira tudo sem qualquer emoção, apoiou as duas mãos sobre a bancada e olhou de um para o outro.
— Por que não tentam faturar uma grana fazendo uma aposta?
Em silêncio, deram uma espiada na roda improvisada no centro da praça. Dois sujeitos se engalfinhavam ali dentro com total falta de técnica. Um era magrelo, e o outro balançava os braços feito um idiota.
— Aquilo ali? — Ulgar soltou um riso. — Parecem dois frangos.
Thorin também observava a cena, mas, ao contrário do companheiro, não parecia exatamente decepcionado. De repente, seus olhos se acenderam.
— Espera um minuto…
O anão agarrou-lhe o antebraço e o puxou para mais perto dos barris, afastando-o da gritaria da multidão.
— Escute com atenção, porque acho que acabei de ter uma visão. E não foi divina. Foi bem melhor!
Antes de prosseguir, bebeu um gole da cerveja barata que havia acabado de comprar, e fez uma cara de nojo ao se dar conta de que o preço reduzido se dava ao fato de haver muita água misturada na bebida.
— Acho que tive uma ideia pra gente ganhar uma bolada! É só a gente juntar o meu dinheiro com o seu… e apostar tudo!
— Que ideia idiota. Bateu com a cabeça, anão?
— Escute o plano completo: eu fico com as apostas, e você se inscreve para brigar. Dessa forma, não tem como perdermos!
O bárbaro levou um instante para entender. Ficou olhando para o anão em silêncio. Quando compreendeu, olhou para os combatentes. Um deles acabara de levar um soco no peito e recuou com uma cara de choro.
— Essa ideia é péssima. Não gosto de bater em coitado. Gosto de luta de verdade. Daquelas em que existe chance real de morrer.
— Pensa comigo, grandão. A gente fatura uma boa grana, enche a cara até esquecer os nomes dos deuses e, se o lucro for realmente bom, ainda sobra pra umas putangas.
— Pensei que você fosse da igreja.
— E sou. Mas não é pecado se divertir.
Ulgar soltou um resmungo baixo pelo nariz.
— E a Mirabel?
— De acordo com ela, ela não é mais da minha conta. Afinal… não somos mais casados.
A multidão urrava. Moedas passavam de mão em mão. Um homem estava caído no centro do círculo enquanto o outro, claramente exausto, tentava manter a pose de valente diante da plateia.
— E aí… o que me diz? — perguntava Thorin, esperançoso.
Sem dizer nada, o bárbaro soltou um longo suspiro e entregou seu saco de moedas e suas armas para o anão segurar. Em seguida, abriu caminho até o centro da praça. O organizador ainda berrava nomes, quando viu a enorme sombra do bárbaro cair sobre ele.
— Quero entrar na próxima rodada. — Ulgar estava parado, encarando-o.
— Quer entrar? Bom… vou ver se consigo encaixar você. O campeonato já está andando. Já temos lutadores suficientes.
Ulgar o ignorou e apenas passou por ele, entrando na arena improvisada. No centro do círculo, os dois combatentes da rodada seguinte se preparavam para lutar, girando os ombros e se encarando. Quando viram o bárbaro entrar daquele jeito, ambos ficaram indignados.
— Sai da arena, palhaço! — gritou um deles.
Parando diante dos dois, Ulgar abriu um pouco os braços.
— Podem vir. Os dois.
A praça inteira pareceu despertar ao mesmo tempo. Gente subiu em banco de pedra para enxergar melhor. Apostadores se acotovelaram. O organizador dos combates ficou imóvel por alguns segundos, tentando compreender a situação e calcular se aquilo lhe geraria prejuízo ou lucro. Quando chegou a uma conclusão, abriu os braços e berrou para a multidão:
— E temos uma mudança de última hora nesta rodada! O troglodita quer uma luta de dois contra um! Façam suas apostas, seus miseráveis!
Thorin apareceu quase no mesmo instante. Sem hesitar, largou sobre a mesa do organizador das apostas tudo o que havia no seu saco e no de Ulgar.
— Tudo no grandão — disse.
Ulgar girou o pescoço devagar para um lado, depois para o outro, estralando. Os dois adversários eram do tipo que gosta de uma boa briga. Um deles era baixo, musculoso e grosso de pescoço, com os punhos já fechados e o nariz tão torto que provavelmente havia perdido sua forma original há muitos anos. O outro era mais alto e mais magro, mas tinha ombros duros, olhar rápido e aparentava ser ágil. Não eram artistas da luta, nem grandes campeões. Mas também não eram camponeses entusiasmados.
— Senhoras e senhores! Diante de vocês, Roderik Mão de Ferro e Lázaro das Docas vão enfrentar um bárbaro selvagem do tamanho de uma montanha!
“E o combate começou! Roderik vem primeiro! Vem reto, vem pesado, vem achando que é uma muralha! Lázaro já abre pelo lado, mais esperto, querendo cercar! O bárbaro ainda não saiu do lugar! Parece estar tranquilo!”
“Roderik entrou com a direita! O bárbaro tirou o rosto! Cotovelada curta! Pelos deuses, que pancada foi essa?! Roderik perdeu tantos dentes que a partir de hoje só vai poder comer sopa.”
“Lázaro entrou agora! Boa! Boa entrada! Acertou na costela! Acertou limpo! O bárbaro sentiu! Não, não sentiu não! Não sentiu nada! Pegou o braço! Puxou de volta! Cabeçada! Bem no meio do nariz! Lázaro caiu de joelhos! Ele caiu de joelhos, minha gente!”
“Roderik voltou! Tá bravo! Tá sangrando! Tá indo no desespero! Entrou baixo, quer pegar na cintura, quer derrubar no peso! Tentou a queda! Ele insiste! E o que é isso?! Virgem Marie! O bárbaro pegou o homem! Levantou! Roderik está sendo carregado acima da cabeça do bárbaro!”
“E lá vai ele! Roderik está voando! Seu corpo se arrebentou todo! Devem ter sobrado mais ossos quebrados do que ossos inteiros em seu corpo!”
A multidão gritava a pleno vapor, pedindo por mais.
— E temos um vencedor! O bárbaro tem uma vitória avassaladora! Pelos Quatro Deuses, mas que luta, minha gente!
Thorin já estava com as duas mãos na mesa de apostas. Apanhou a bolsa com o lucro da primeira rodada e nem se deu ao trabalho de contar o valor. Bastou-lhe sentir o novo peso na mão para abrir um sorriso satisfeito e despejar tudo de novo sobre a mesa.
— Outra vez no grandão.
Ulgar permaneceu onde estava, respirando devagar, com os braços soltos ao lado do corpo. A praça ainda fervia ao seu redor enquanto esperava pela próxima rodada.
Foi então que outro homem entrou na arena.
Era um bárbaro também, mas de um tipo bem diferente. Grande, forte e vistoso, trazia no corpo couro, metal gasto e um exagero de penduricalhos. Sobre a cabeça usava um chapéu largo enfeitado com penas, medalhões e outras bugigangas que faziam dele uma figura ao mesmo tempo ameaçadora e ridícula. Nas mãos segurava um porrete monstruoso, feito de um pedaço de madeira nodosa e resistente.
Por um instante, a praça inteira ficou em silêncio. Até que alguém gritou, lá do fundo:
— Vejam! É o Pau Morto!
A agitação e o delírio da multidão voltaram à tona, enquanto Gromar parava a poucos passos de Ulgar. Ergueu o braço devagar, apontando para ele com um dedo grosso.
— Você.
O bárbaro o encarou.
— Vem cá, ô esquisito. Eu te conheço?
— Eu me chamo Gromar, mais conhecido como Pau Morto. Sou o guerreiro mais poderoso que você vai encontrar nesta cidade!
— Pau Morto? Você sente tanto orgulho assim de ser conhecido como “broxa”?
— Não é isso, idiota. Minha alcunha não quer dizer que eu não seja bom de cama. Na verdade, sou conhecido por ter tanta doença na parte debaixo que, geralmente, as moças com quem eu me deito acabam indo a óbito em poucos dias.
A expressão de Ulgar se alterou, e ele avançou um passo.
— Maldito! Não vou permitir que continue contaminando as putas de Zéfira!
— Ora, então venha me impedir, herói das rameiras.
Firmando os pés no chão da arena, Gromar ergueu o porrete nodoso acima da cabeça e começou a girá-lo com violência, riscando o ar em círculos cada vez mais amplos. A madeira assobiava a cada volta. O chapéu cheio de bugigangas tremia sobre sua cabeça, enquanto Gromar soltava pela boca uma sucessão de sons guturais, guinchos e estalos de língua.
— Ei, juiz! — gritou Thorin. — O cara tá usando uma arma! Cadê a regra do “combate corpo a corpo”?
Mas ninguém lhe deu ouvidos. O público apenas continuou fazendo suas apostas enquanto gritava de empolgação.
Ulgar permanecia plantado no chão, com os olhos fixos no adversário. Sua tranquilidade parecia provocar Gromar, que, em um rompante de violência súbita, girou o corpo inteiro e lançou seu porrete em um golpe devastador, em um arco direto na altura da cabeça do oponente. Mas Ulgar aparou o golpe com a mão esquerda, fechando os dedos sobre o porrete no exato instante em que a madeira se aproximou. O impacto estalou no ar, e o braço de Gromar tremeu. Seus olhos se arregalaram. Jamais pensou que seu golpe pudesse ser tão facilmente aparado.
Com um tranco seco, Ulgar puxou o porrete com tudo. O dono da arma veio junto, arrancado do próprio eixo, arrastado por aquela força absurda, tropeçando para a frente com o peito aberto e guarda exposta. Ulgar o recebeu com uma joelhada precisa e selvagem. O impacto reverberou pela arena com som de tronco sendo rachado.
O golpe atingiu o meio das pernas do oponente com uma violência tão absoluta que não apenas lhe esmagou os testículos, como também lhe tirou qualquer vestígio de virilidade que carregava consigo. O corpo inteiro de Gromar se dobrou no mesmo instante. Seu rosto perdeu a cor e o porrete escorregou da mão. Deixou escapar um urro fino e medonho, um som tão sofrido que até a multidão hesitou por um breve instante.
Pau Morto caiu de joelhos e, daquele momento em diante, sua alcunha mudou o significado para sempre.
O bárbaro vencedor olhou com desdém para o corpo do rival no chão.
— Pronto. Problema resolvido.
A praça veio abaixo. Em meio à gritaria, Thorin apanhou a recompensa da rodada anterior e, sem nem olhar direito, empurrou a bolsa de volta para a mesa das apostas.
— Tudo no grandão outra vez.
Enquanto isso, o organizador do torneio chamara Ulgar para uma conversa em particular.
— Escute… seu próximo combate exige um pouco mais de cautela do que os anteriores.
Ulgar o encarou sem interesse.
— Certo.
— O rapaz que vem agora é de família nobre. Então apenas entre na arena, troque alguns golpes, faça o povo gritar… e depois caia. Não precisa cair feio. Só precisa cair. Você sai daqui com ouro no bolso, ele sai com a honra inteira e todo mundo fica feliz.
— Está sugerindo que eu perca de propósito?
— É mais do que uma simples sugestão. Gostaria que você se comprometesse a perder a próxima rodada.
— Senão…?
O organizador soltou uma risada eufórica.
— Essa foi boa! Você é mesmo um fanfarrão! Mas sei que entendeu. Agora volte para lá, e não se esqueça do nosso combinado!
Naquele momento, Thorin, do lado de fora, fez um sinal aflito chamando-o com a mão. O bárbaro se aproximou, e o anão foi direto ao ponto:
— O que aquele rato queria?
— Que eu perdesse de propósito.
— O quê?!
— O próximo lutador é nobre. Filho de família importante. Querem poupá-lo da vergonha.
— Você não pode perder! Eu apostei tudo em você! Tudo!
Ulgar ainda ia responder algo, quando o barulho da praça mudou.
A multidão começou a se abrir de um lado da arena. O próximo oponente estava chegando. Era jovem, bonito e limpo. Trazia o corpo bem cuidado, o cabelo penteado com esmero e uma faixa de combate amarrada nas mãos. A camisa justa, de tecido caro, já havia sido deixada de lado para a luta. Restavam-lhe as calças finas e as botas luxuosas.
Dois homens o seguiam de perto. Um tinha cara de secretário. O outro, de parasita. Quando o rapaz entrou na arena, a multidão começou a murmurar seu nome.
— Hektor de Arken!
Ulgar o observou por um momento. Seus instintos lhe diziam que aquele homem não representava perigo. O nobre, por sua vez, encarou o bárbaro e se manifestou:
— Meu mestre de armas sempre disse que a verdadeira nobreza se mostra até na derrota do oponente. Não se preocupe, homem grande. Serei gentil.
Do lado de fora da arena, o organizador do torneio cruzou o olhar com o do bárbaro e bateu dois dedos contra o próprio peito, lembrando-o do combinado. A resposta de Ulgar foi um longo bocejo, pois toda aquela situação estava lhe deixando entediado.
Quando o juiz deu o sinal de início, Hektor avançou primeiro. Entrou leve, com a guarda alta, desferindo uma sequência de socos curtos e bem colocados, cada um seguido de um recuo cuidadoso. Os dois primeiros acertaram o ombro do bárbaro e não provocaram reação alguma.
Ulgar recuou um passo e baixou a guarda. O nobre sorriu, girou o punho no ar com um floreio desnecessário e lançou o golpe seguinte com força total, mirando o rosto do adversário.
Com um reflexo impressionante, o bárbaro interceptou o soco com a palma aberta, fechou os dedos em torno do pulso de Hektor e girou o corpo inteiro, usando o próprio impulso do nobre contra ele. Hektor voou por cima de seu ombro e caiu de costas na areia com um baque seco.
A praça urrou.
Com um passo à frente, Ulgar ergueu o punho, mas não chegou a bater. Nem precisou. O nobre já estava no chão, chorando, tentando se arrastar para trás com a dignidade arruinada.
— Combate encerrado — disse o bárbaro, virando as costas.
A multidão respondeu com um gemido coletivo de satisfação. A grande maioria havia apostado em mais uma vitória do bárbaro. O organizador do torneio, nada contente, ergueu os dois braços e entrou no meio da arena com a cara um tanto pálida.
— Esperem! Esperem um instante! Esse troglodita agarrou Hektor pelo braço, e… ahm… isso é falta! Sim, isso mesmo. O combate está anulado!
Thorin, que já vinha correndo na direção da mesa de apostas com o sorriso, parou no meio do caminho.
— Como assim? Ele ganhou dos outros caras agarrando também! Por acaso a regra muda quando o sujeito tem pai rico?
A pergunta encontrou eco imediato. Um homem gordo, vermelho de raiva, foi o primeiro a erguer o punho. Ele havia apostado três meses de soldo no bárbaro.
— Isso é roubo!
— Rouboo! — respondeu outra voz, vinda logo atrás.
— Ladrão!
— Devolve meu dinheiro, fela da puta!
No centro da arena, Hektor conseguiu se erguer com dificuldade. Estava branco de dor, apoiando um braço sobre o lado do corpo que batera no chão, mas a humilhação lhe queimava mais do que as costelas. Havia em seu semblante uma frustração ardente.
— Meu mestre não é arquimago condecorado à toa. — Cuspiu sangue na areia. — Ensinou-me alguns recursos para emergências.
Juntou as mãos diante do peito e, entre as palmas, uma centelha alaranjada nasceu. Pequena no começo, mas crescendo depressa, alimentando-se do próprio ar, até se tornar uma esfera de fogo pulsante, do tamanho de uma cabeça humana.
A expressão de Ulgar mudou no mesmo instante. Ele conhecia aquele brilho. Já tinha visto as desgraças que a magia podia causar, não só nos seres da Terra Rasgada, mas também em pessoas próximas a ele.
Baixou a cabeça e disparou. Atravessou a distância entre os dois como um animal solto, ombro à frente, sem hesitação. O primeiro soco acertou o braço que sustentava o feitiço. Houve um estalo horrível, e a bola de fogo se desfez no ar. O segundo golpe pegou em cheio no nariz do nobre. O terceiro entrou na mandíbula. O quarto já não era mais necessário, mas o bárbaro ainda o deu assim mesmo, e depois outro, e mais outro, batendo com uma fúria desenfreada.
— Ulgar, não!
A voz de Thorin veio de longe, engolida pelo tumulto. O anão já corria na direção da arena, empurrando gente para os lados, tropeçando na multidão, mas suas pernas curtas não eram páreo para a velocidade brutal com que o amigo desmontava o rosto de Hektor. Quando conseguiu enfim se meter entre os dois e empurrar Ulgar para trás, o filho do barão já não parecia um nobre. Parecia um punhado de ossos desalinhados embrulhados na pele clara. Sangue escorria pela boca, pelo nariz, por um olho meio fechado, e seus gemidos já tinham perdido qualquer vínculo com palavras.
O organizador correu até o meio da arena, diante do corpo estendido do nobre, e ergueu os dois braços para o alto.
— Agora a falta está evidente! Agressividade excessiva! Vitória de Hektor de Arken!
A praça explodiu. Não em aplausos, mas sim em puro ódio.
O homem gordo que antes gritara “roubo” foi o primeiro a pular a corda improvisada da arena. Veio apontando o dedo para o organizador. Outros vieram junto. Apostadores furiosos. Bêbados indignados. Dois camponeses que certamente nem sabiam mais em quem haviam apostado, mas reconheciam uma trapaça quando ela lhes esvaziava os bolsos.
O organizador tentou recuar, mas era tarde. A multidão invadiu a arena de uma vez só, rompendo o círculo e transformando o torneio em uma confusão de empurrões e justiça popular mal coordenada. Em poucos instantes, o organizador desapareceu no meio da vingança coletiva.
Olhando para aquilo tudo com espanto, Thorin percebeu que havia ainda outro problema. Os guarda-costas particulares de Hektor finalmente entraram em ação. Eram quatro ao todo, homens largos, de peitos pesados e rostos duros, vestidos com libré curta por cima de couro reforçado. Até então haviam permanecido à beira da arena, obedecendo à velha lógica dos ricos: deixar o herdeiro brincar desde que houvesse braços pagos por perto para salvá-lo depois. Mas quando viram o estado do jovem senhor, avançaram sabendo que, se Hektor morresse ali, voltariam para casa só para serem mortos em seguida.
Dois deles abriram caminho à força, chutando apostadores e distribuindo coronhadas com os bastões curtos que traziam presos à cintura. Os outros se lançaram sobre o corpo do nobre, cobrindo-o com os próprios corpos enquanto tentavam erguê-lo sem desmontá-lo de vez. Um dos guarda-costas, ao ver o rosto destruído de Hektor, empalideceu a ponto de parecer prestes a desmaiar ao lado dele.
Mas antes que pudessem tirá-lo da arena, o resto da praça já tinha decidido que aquilo não era mais um problema entre dois lados. Ninguém mais fazia distinção entre juiz, nobre e ladrão. Eram todos contra todos. Dali em diante, ninguém mais soube dizer quem batia em quem, nem por qual motivo. Garrafas voaram. Um banco virou. Alguém chutou um dos barris de cerveja para longe. O taverneiro, a essa altura, já havia se mandado dali. Um dos guarda-costas levou uma canecada na nuca. Outro precisou dar um murro em um camponês enlouquecido para conseguir manter as mãos livres e continuar arrastando o barãozinho deformado para fora do centro da confusão.
Foi então que as trombetas soaram. Três notas curtas, agudas, vindas de algum ponto alto da cidade.
— Os Capas Azuis! — gritou alguém na multidão.
O nome sozinho bastou para calar meia praça por um instante, provocando uma fuga em massa.
Vieram em formação fechada, escudo colado a escudo, abrindo caminho pela multidão a golpes secos e sem aviso. Não gritavam ordem nenhuma, nem pediam pra ninguém se acalmar. Golpeavam primeiro. As explicações, se sobrasse alguém interessado nelas, viriam depois.
Thorin segurava o braço do amigo com as duas mãos, sentindo o corpo de Ulgar tremer sob os dedos. Não de medo, mas daquela fúria que já não sabia mais onde descarregar. Os olhos do bárbaro continuavam fixos no ponto onde Hektor jazia.
— Ulgar. Olha pra mim. Já acabou. Acabou, tá ouvindo?!
Não adiantou. O bárbaro não respondia mais a palavras. Só respondia a movimento e ameaças.
Um Capa Azul se aproximou por trás, escudo à frente, espada erguida na direção do primeiro homem que encontrou pela frente. Com um piscar de olhos, Ulgar apanhou a própria espada, que ainda estava nas mãos de Thorin, e girou o corpo inteiro em um arco só. A lâmina abriu o guarda do ombro ao peito antes que o homem completasse o próprio golpe.
— Ulgar, não! — gritou o anão. — Esses caras são os Capas Azuis!
Outro guarda tentou recuar. Não foi rápido o bastante. A espada o alcançou na altura do pescoço, e ele caiu sem soltar nem um grito. Outros dois guardas vieram juntos, tentando cercar o bárbaro pelos dois lados. Um perdeu o braço à altura do cotovelo. O outro perdeu a vida com um golpe só, que rasgou a couraça de couro reforçado. Um último guarda, mais veterano que os outros, tentou recuar e berrar por reforços. Não teve tempo de fazer nem uma coisa, nem outra.
Ao redor deles, o resto dos Capas Azuis parou de avançar contra a multidão comum e virou, junto, toda a atenção fria que carregavam, na direção do bárbaro parado no meio da arena, coberto de sangue que não era seu.
— Último aviso! — berrou o guarda à frente. — Larguem as armas ou tombarão com elas!
Thorin soltou o martelo no chão e ergueu as duas mãos devagar, com um gesto bem visível para todos. A arma caiu com um baque pesado na areia ensanguentada.
— Sou apenas um clérigo! Não quero arrumar mais confusão!
Ninguém pareceu particularmente comovido com a informação, mas serviu para uma coisa: Ulgar viu o martelo cair. Viu Thorin desarmado, e os escudos dos Capas Azuis fechando o cerco. Sua respiração mudou, ficando um pouco mais calma. Permaneceu imóvel por um instante, então cuspiu sangue na areia. E largou a espada.
No mesmo instante, os Capas Azuis avançaram sobre os dois. Quatro homens caíram em cima de Ulgar, empurrando-o de joelhos. Outros dois agarraram Thorin pelos braços com uma agressividade exacerbada.
— Ei, ei! Vão com calma aí, eu já me rendi! — protestou Thorin. — Não precisam arrancar meus ombros!
— Cala a porra da boca! — rosnou um dos guardas, torcendo-lhe o braço para trás.
Ulgar não disse nada. Levou uma pancada de escudo na nuca, outra nas costelas, e mesmo assim continuou silencioso, apenas observando o cenário ao seu redor. A praça ainda fervia em desordem. Gente ferida gemia no chão. Guardas recolhiam os próprios mortos. Os guarda-costas de Hektor arrastavam o jovem nobre para fora da arena, tentando impedir que o que restara de seu rosto se desmontasse mais no caminho. Ninguém sabia se o organizador do torneio estava vivo ou morto. Ele simplesmente sumiu.
— Em nome do rei, vocês dois estão presos! — bradou um dos Capas Azuis.
Escoltados por lanças e escudos, o bárbaro e o anão foram algemados e levados para o castelo.
***
A cela era úmida e mal iluminada. Não possuía muita coisa ali dentro, com exceção da palha velha que servia como cama, e do balde que servia para aliviar as necessidades.
Ulgar estava sentado junto à parede, com os braços apoiados sobre os joelhos. Não parecia inquieto ou abatido. Na verdade, nunca dava para identificar o que se passava dentro de sua cabeça.
Do outro lado da cela, Thorin explorava o ambiente, preferindo fuçar o infortúnio a ficar sentado dentro dele. Encontrou um cadáver jogado já endurecido, com a pele acinzentada. Parou diante do corpo, pousou a mão no símbolo de Nymora pendurado no peito e suspirou com sincera compaixão.
— Que situação triste, meu amigo… E eu sem um tostão furado pra ajudar você na travessia. Confiscaram tudo, aqueles filhos de uma mula sem cabeça.
Segurou uma das pernas do cadáver e começou a puxar a meia.
Ulgar ficou olhando, sem entender.
— Mas o que diabos você está fazen…
— Nã-nã! — interrompeu-o o anão. — Eu não estou conversando com você. Você é uma pessoa muito desequilibrada.
A meia saiu com um puxão final.
— Às vezes sou consumido por uma fúria fora do controle. — O bárbaro voltou a olhar para a parede. — É como um espasmo de violência. Quando acontece, eu entro num frenesi de batalha. E, enquanto dura, parece minha sede por sangue só se acalma com a carnificina.
Thorin olhou para ele mais uma vez. Depois olhou para a meia que ainda tinha na mão. Sem nada melhor para fazer, decidiu vestir a meia na mão. Alisou o tecido. Ajustou o calcanhar sobre os nós dos dedos. E então ergueu o improvisado fantoche diante do próprio rosto.
— Doutor Thorin — disse, fitando a meia. — Estou com um problema. Tenho sérias suspeitas de que meu novo amigo é um maluco.
Então afinou a voz de forma ridícula e respondeu com o fantoche:
— Ora essa. Muito interessante. Mas por que suspeita disso, meu filho?
Ulgar fechou os olhos por um instante. Mas o anão prosseguiu:
— É que ele mata pessoas como se não fossem nada. Seja agressor ou inocente, homem ou mulher, jovem ou idoso. Ele mata a sangue frio!
A meia respondeu, com o mesmo timbre agudo e pedante:
— Mas diga… será que ele faz isso porque é mau?
— Não sei dizer, doutor.
— Mas é claro que sabe, meu garoto. Muita gente já se confessou com você. Você é a latrina da sociedade. Consegue identificar um filho da puta de longe. Então me diga… seu amigo é um filho da puta?
— Parece que não, doutor. Ele é meio quieto, e gosta de uma boa cerveja. Inclusive me ofereceu ajuda sem pedir nada em troca, e mal nos conhecíamos. Eu gosto de sua companhia.
— Então me fale mais sobre o problema da matança.
— Eu percebi que, quando ele começa com a carnificina, seus olhos ficam diferentes. É como se estivesse dominado por um frenesi.
— Interessante. Tudo parece indicar que esse seu amigo tem dificuldades para lidar com certos assuntos, e essa agressividade toda deve ser a forma que ele encontrou para enfrentá-los.
Thorin inclinou a cabeça para o fantoche.
— Doutor… Será que não tem nada que eu possa fazer para purificar o coração desse meu amigo?
A meia pareceu refletir, ou pelo menos pender um pouco para o lado.
— Não, Thorin. As coisas não são assim tão simples, e você sabe muito bem disso. Quando ele quiser, virá até você. Apenas não o pressione. E não pense que ele é um assassino de sangue-frio… no fundo, ele parece ser um bom amigo.
O clérigo pousou a mão livre sobre o peito.
— Muito obrigado, doutor Thorin. Eu não sei o que seria de mim sem você.
Houve um breve silêncio na cela.
— Depois você diz que eu é que sou o maluco… — Ulgar ainda olhava para a parede.
Thorin apontou para ele com a meia.
— Não posso mais nem ter minha consulta em paz?
— Esse troço é uma meia que você encontrou num cadáver!
Thorin olhou para a meia em sua mão, depois para o morto no canto, e assentiu com seriedade, removendo a meia.
— É… talvez você tenha razão. Mas escuta, grandão. Você precisa parar com esses surtos de violência. Não estou dizendo isso apenas porque sou clérigo… mas você conhece a história: Torun criou o mundo, Varkhan nos deu o Sol e as estrelas, Marie cantou sua canção mais bela para criar a vida, e Nymora nos deu a água, cuida do ciclo da vida, e zela por nós até hoje. Toda vida é importante, e não valorizar isso é o mesmo que fazer desfeita a todo esse esforço conjunto dos Quatro Deuses para permitir a nossa existência. Aquilo que fizemos na Terra Rasgada foi uma completa atrocidade… um total desrespeito à essência da criação.
— Você me disse que não era um desses clérigos chorões. Monstro bom é monstro morto. Não foi você quem me disse isso?
— Os Pés Invertidos não eram monstros, Ulgar. Eles eram protetores da mata. Defendiam a floresta de caçadores de recompensa e protegiam os animais e o equilíbrio da floresta. E nós os aniquilamos! Então… nós é que somos os monstros. Nós é que somos.
— Isso tudo foi por conta daquela megera da sua ex-mulher! Ela se empolgou e incendiou tudo!
— Não sei se a culpa foi totalmente dela. Quero dizer… ela roubou a relíquia ancestral daquele povo, e isso deixou os caras putos! Mas parece que alguma coisa muito poderosa foi libertada ali. Você também viu aqueles olhos negros e profundos.
Um frio percorreu a espinha do bárbaro, só de lembrar. Aquilo havia sido magia pura. Justamente o que ele mais odiava. Então logo mudou de assunto:
— Mas me diga, baixinho… O que você vê naquela mulher? Ela não tem nada demais, além de um belo bundão.
— Ah… você nunca entenderia. Por trás daquele comportamento invocado e metido, há uma mulher muito doce. Nossa vida de casado era boa. Eu é que estraguei tudo. Ela se esforçava, trabalhava, estudava runas o dia inteiro… e eu passava a maior parte do tempo na taverna, enchendo a cara, praguejando e, às vezes, em prostíbulos… Eu sei, eu errei, não precisa me olhar assim! Já pedi perdão a ela e a todos os Quatro Deuses!
— Você ainda a ama?
— Com cerveja! Eu não sou mais o mesmo cara de antes. É isso o que eu quero mostrar a ela! Eu só preciso de mais uma chance… e eu sei que ela vai se orgulhar da pessoa que eu sou hoje.
— Então vá em frente.
— Hm?
— Ela é uma usuária de magia… e isso me dá nojo! Mas se você vê algo de bom naquela mulher, então vá em frente. Chegue nela, diga o que sente.
— Você acha que… Acha que daria certo?
— Com cerveja.
Thorin soltou uma risada longa e satisfeita.
— Sabe de uma coisa? Você tem toda razão! Quando eu a vir novamente, eu…
A conversa cessou de forma repentina quando ouviram o som de passos ecoando no corredor do lado de fora. Passos pesados. Vários. Chaves tilintaram. Uma tocha lançou luz por entre as grades.
A voz do carcereiro veio seca, sem paciência:
— De pé. O rei Zarkon quer ver vocês.
***
Um silêncio desconfortável pairou no salão real. Zarkon tamborilava os dedos no braço do trono, visivelmente contrariado.
Selene dedilhava uma melodia leve em sua harpa enquanto acompanhava a discussão com interesse evidente. Diante do trono, Archelaus continuava explicando a situação com bastante cautela para um rei já sem paciência alguma.
— Não, Majestade. Não há outro jeito. Para a realidade colapsar num único resultado, alguém precisa entrar na sala do tesouro e verificar com os próprios olhos em que estado está o dragão.
— Meu senhor — disse Selene, sem interromper a música —, esses dois soldados na porta parecem fortes e bem armados. Por que não envia um deles para verificar?
Zarkon franziu o cenho. Os guardas empalideceram sem sair do lugar. O rei soltou um suspiro profundo e fez um gesto de desdém.
— Não quero desperdiçar soldados de verdade com algo tão banal. Qualquer vagabundo serve para abrir uma porta e olhar o que há lá dentro. Guardas, temos algum idiota nas masmorras que possa executar essa tarefa?
Um dos soldados pigarreou, tentando recuperar a utilidade diante do olhar ameaçador do rei.
— Majestade, temos um bárbaro e um clérigo local capturados há pouco na praça central. Foram presos após se envolverem num esquema de lutas ilegais, provocarem tumulto na praça pública e assassinarem meia dúzia de Capas Azuis.
— Ah, finalmente algo interessante! — disse o rei, inclinando-se no trono. — É disso que precisamos!
— De assassinos? — questionou Archelaus.
— Eles só mataram alguns guardas incompetentes, não foi? Isso não mancha o caráter de ninguém. Precisamos de homens sem escrúpulos, que não temam o perigo e não tenham nada a perder. Tragam-me os dois. Agora.
Os guardas hesitaram por um breve instante, mas bastou o olhar severo de Zarkon para que corressem em direção às masmorras. Pouco depois, as grandes portas do salão se abriram abruptamente, e soldados surgiram escoltando Ulgar e Thorin, acorrentados.
Ao lado do trono, Archelaus apertou discretamente os lábios. Ulgar sentiu o cheiro da magia assim que o viu e retribuiu seu olhar com um ódio imediato. Selene se inclinou um pouco para a frente. A harpa já estava esquecida ao seu lado, e seus olhos verdes não saíam daquele homem brutal.
Zarkon avaliou os recém-chegados com atenção.
— Muito bem. Apresentem-se, de forma breve.
— Thorin, Majestade. Clérigo de Nymora, servo dos Quatro Deuses, homem de fé, razoável caráter e momentaneamente vítima de um enorme mal-entendido judicial.
Zarkon ergueu uma sobrancelha e voltou os olhos para o outro.
— E você?
Ulgar não respondeu. Seu olhar havia parado em Archelaus desde que entrara no salão. Havia naquele mago alguma coisa que lhe eriçava os instintos de forma imediata e profunda.
Thorin percebeu o silêncio e cutucou o companheiro com o cotovelo.
— O rei está falando com você, grandão.
Ulgar desviou os olhos do mago e encarou o trono.
— Ulgar.
— Apenas isso? — perguntou Zarkon. — Sem epíteto? Sem títulos?
— Apenas isso.
Selene sorriu sem disfarçar. Havia se inclinado um pouco mais no assento. Seu olhar percorria o bárbaro com um fascínio aberto, quase indecente. Não parecia chocada com o tamanho dele, nem com o sangue seco ainda preso em partes da barba. Pelo contrário. Quanto menos o bárbaro se encaixava ali, mais ela parecia interessada.
Archelaus notou. E não gostou nem um pouco.
Zarkon recostou-se no trono.
— Pois bem, Thorin e Ulgar. A situação é simples. Os dois já devem ter percebido que não gozam exatamente da melhor reputação neste momento. Vocês mataram guardas reais e propagaram o caos em meu reino.
— Em nossa defesa… — começou Thorin.
— Não quero sua defesa — cortou o rei. — Quero sua utilidade.
O anão fechou a boca na mesma hora. Zarkon então prosseguiu:
— Tenho um pequeno problema dentro do castelo. Um problema periclitante. E agora preciso de alguém que entre num certo lugar, verifique uma certa situação e volte com a resposta. Nada além disso.
Thorin piscou.
— Isso me parece periclitantemente pouco específico, vossa Majestade.
Ulgar continuava calado, mas agora encarava o rei com atenção mais prática. Se havia uma missão, e havia riscos, então a coisa começava a lhe chamar a atenção.
Archelaus falou pela primeira vez desde a entrada dos prisioneiros:
— O trabalho exige coragem, força e uma certa disposição para lidar com circunstâncias imprevistas.
Ulgar virou o rosto na direção dele.
— Tem magia envolvida.
O mago sustentou o olhar.
— Sim.
O bárbaro fez uma cara de nojo aberta, quase insolente. Selene segurou o riso. Thorin, percebendo que a conversa podia desandar a qualquer momento, apressou-se em ocupar o espaço antes que seu companheiro perdesse a cabeça.
— Majestade, estou certo de que podemos ser… hm… extremamente úteis ao reino, desde que as condições da tarefa sejam razoáveis e que, ao final, Vossa Alteza considere com alguma generosidade a revisão das acusações, da pena e, idealmente, da parte em que seríamos torturados até confessar coisas que nem tivemos tempo de fazer.
Zarkon olhou para ele com uma expressão severa.
— Você fala demais. Gostaria que fosse mais monossilábico, como seu parceiro.
— Sim, senhor! — respondeu o anão.
— Se executarem a tarefa, suas vidas serão poupadas e as acusações serão retiradas. E talvez até recebam recompensa, se eu estiver de bom humor.
O anão abriu um sorriso.
— Obrigado, senhor!
— Ótimo. Então escutem bem: vocês serão levados até a entrada do lugar. Lá dentro, um de vocês deverá observar o que precisa ser observado e me dizer se há uma criatura viva lá dentro. Só isso. Entrem, vejam e voltem.
Thorin coçou a barba.
— Tá… mas que criatura supostamente é para estar dentro desse suposto lugar? Se encontrarmos uma teia de aranha no teto, com um aracnídeo de três centímetros, já conta? Ou devemos observar somente criaturas que fazem embrulhar o estômago? Aliás… aranhas me fazem embrulhar o estômago…
— Silêncio, clérigo! Quero apenas comentários monossílabos, lembra?
Dessa vez, Selene não conseguiu conter a risada.
— Desculpe, meu senhor… mas será que não devemos contar a eles a história completa?
— Blá! Está bem. Mas escutem… Essa missão é altamente confidencial! Se qualquer detalhe vazar, corto-lhes as cabeças!
— Entendido, senhor! — disse Thorin, novamente obediente.
— Certo. Essa missão consiste em…
— Senhor! Senhor! — interrompeu Selene, toda serelepe. — Posso contar a eles? Por favorzinho. Eu adoro narrar uma boa história!
O rei riu. A barda era a única pessoa que podia interrompê-lo. Qualquer outro, e ele jogaria na masmorra de forma imediata.
— Sinta-se à vontade, doce Selene.
Ela sorriu, ajeitou-se diante da harpa e deixou os dedos correrem pelas cordas. A melodia que surgiu foi suave, quase brincalhona, mas logo ganhou um ar mais dramático, preparando o salão para uma tragédia cantada. Então ergueu o rosto e começou:
Nas fundas câmaras do ouro real,
Repousa um horror de estirpe ancestral:
Um dragão imenso, faminto e brutal,
Guardião do tesouro e do medo mortal.
Zarkon, zeloso de cada dobrão,
Chamou Archelaus em busca de salvação.
E o mago, com cálculo, astúcia e arte,
Lançou um encanto que a verdade reparte.
Dicotomia foi o nome escolhido:
Um laço impossível, um mundo dividido.
Metade é silêncio, é cinza, é chão;
Metade é chama, é garra, é dragão.
Por força do encanto, num único estado,
O monstro está vivo, e está sepultado.
Dois fins se entrelaçam em mudo conflito,
Presos no mesmo instante infinito.
Mas falta ao feitiço o derradeiro ato:
Um olhar que desfaça esse duplo contrato.
Pois, quando alguém ousar finalmente ver,
O mundo será obrigado a escolher.
Se o intruso encontrar a fera prostrada,
A morte do monstro estará consumada.
Mas, se ela despertar entre fogo e trovão,
Talvez reste ao valente uma breve oração.
Quando a última nota se dissolveu no ar, Selene deixou a mão repousar sobre as cordas e lançou aos prisioneiros um olhar satisfeito, com a sensação de dever artístico cumprido. Thorin pareceu sinceramente encantado e já batia palmas.
— Bravo! Bravo!
— Em resumo — disse ela, sorrindo —, vocês precisam abrir a porta da sala do tesouro, olhar lá dentro e torcer para que o dragão esteja morto pelo feitiço da Dicotomia.
— Um dragão?! — Ulgar estava inconformado.
— Você tem problemas de audição ou apenas é limitado de intelecto, bárbaro? — perguntou Archelaus.
Mas Ulgar ignorou a provocação. Arriscar a própria vida não o incomodava. O que lhe causava repulsa era o fato de haver magia e criatura encantada envolvidas. Ainda assim, não era homem de recusar desafio.
Selene percebeu o desconforto do bárbaro. Durante toda a canção, não tirara os olhos dele. Aproveitando o breve silêncio que se seguiu, dirigiu-se ao rei com passos leves e graciosos. Sua voz saiu suave, quase musical:
— Majestade, um ato tão heroico como esse merece ser imortalizado em uma bela canção. Afinal, não é sempre que temos diante de nós um homem corajoso o bastante para desafiar a morte por vossa causa.
Zarkon pareceu divertir-se com a observação.
— Para que eu componha algo digno de vossa grandiosidade — prosseguiu, lançando um olhar breve e avaliador para Ulgar —, preciso entender melhor esse… peculiar guerreiro. Conhecer sua bravura, sua história… talvez sua alma.
Os guardas se entreolharam com surpresa, e até Ulgar franziu levemente as sobrancelhas. O rei soltou uma risada rouca e balançou a cabeça.
— Selene, se você pedisse a lua, talvez eu mesmo a buscasse para você. Vá em frente. Converse com ele como desejar. Só cuide para não diverti-lo a ponto de fazê-lo voltar a ter apreço pela vida… ainda precisamos da sua insensatez.
Ela sorriu em agradecimento e voltou-se para o bárbaro, que a encarava com aberta desconfiança. Aproximou-se com elegância e disse, em voz baixa:
— Venha comigo, guerreiro. Prometo não tomar muito do seu precioso tempo.
Thorin, que até então assistia à cena com um sorriso tolo, pareceu despertar apenas naquele instante.
— Perdão… mas eu também vou participar dessa missão.
Selene voltou os olhos para ele, ainda sorrindo.
— Não duvido. Mas, por enquanto, preciso conversar apenas com seu companheiro.
O anão abriu a boca para insistir, mas desistiu quando viu surgir em seu parceiro um discreto sorriso no canto dos lábios, daqueles raríssimos que normalmente só apareciam diante de um adversário realmente interessante.
Com um suspiro de resignação, o anão compreendeu que não estava convidado para o que aconteceria em seguida.
***
Selene fechou a porta do quarto e virou-se para Ulgar, recostando-se contra a madeira polida. Um sorriso brincava em seus lábios vermelhos, enquanto um interesse ardente crescia em seu olhar. Sem dizer uma palavra, aproximou-se, diminuindo a distância entre eles até ficarem perigosamente próximos. O aroma suave de seu perfume envolveu o bárbaro. Selene ergueu a mão e tocou-lhe o peito, deslizando os dedos pelas marcas e cicatrizes que ele exibia com orgulho.
— Sabe, bárbaro… Você despertou minha curiosidade. Homens como você são raros por aqui. Fortes, destemidos… selvagens.
— Se queria um momento comigo, bastava dizer, barda. Não precisávamos de tanto teatro.
— Mas eu adoro um teatro! A ficção e a fantasia tornam a vida mais significativa. Aliás, está pronto para interpretar o seu papel nessa peça? Pois agora vou lhe fazer uma proposta irrecusável.
Do lado de fora, Thorin permaneceu por alguns instantes encostado na parede, de braços cruzados e expressão pensativa. Depois suspirou, coçou a barba e murmurou para si mesmo:
— É, Doutor Thorin. Parece que o grandão se deu bem. E eu tô na mesma…
Não teve tempo de desenvolver melhor o raciocínio. Passos firmes ecoaram pelo corredor e logo uma figura surgiu dobrando a esquina.
Era Mirabel. Ela parou no mesmo instante em que o viu.
— Thorin?
O anão se endireitou depressa, quase dando um pulo.
— Mirabel! — respondeu, com um tom agudo demais. — Ora… veja só… que surpresa agradável e completamente inesperada.
— O que está fazendo aqui?
— Eu ia te perguntar a mesma coisa.
— Eu trabalho aqui, esqueceu?
— Sim. Justo. Pergunta idiota.
— Mas e você? Nunca imaginei te encontrar rondando os corredores do castelo. Espere… você veio aqui só para me procurar?
— Não. Não é nada disso, querid… digo, Mirabel.
O olhar da feiticeira deslizou para a porta diante da qual ele estava parado. Reparou no jeito como ele se mantinha meio de lado, quase protegendo a entrada com o corpo.
— Quem está aí dentro? — perguntou.
— O quê? Ninguém. Quero dizer… ninguém importante. Quer dizer… É só o Ulgar. Com uma nova amiga.
Mirabel inclinou levemente a cabeça. Não precisou de mais explicações.
— Ah…
— É.
Por um instante, os dois ficaram em silêncio. Thorin respirou fundo e juntou coragem para prosseguir.
— Escuta, Mirabel. Sei que corredor do castelo não é o cenário mais indicado pra isso… Mas já faz um tempo que eu venho pensando no que te dizer. Eu até preparei umas frases bonitas…
Ela voltou toda sua atenção para ele. E ele continuou:
— Err… esquece as frases bonitas. Não lembro de nenhuma agora…
Ele tentou recomeçar, agora mais devagar.
— Eu sei que errei muito. Sempre fui um beberrão incorrigível. Nunca honrei o meu vínculo com você, e nem mesmo o meu vínculo com Nymora. Passei mais noites em tavernas e mesas de aposta do que do seu lado. Isso é… — parou, balançou a cabeça. — Isso é ruim. Eu sei que é ruim. Só não sei dizer de um jeito que represente a gravidade da coisa…
— Isso tudo eu já sei, Thorin.
— Eu sei que você sabe. O problema é que, antes, eu só sabia de boca. Agora eu sei de verdade. E isso não muda nada pra você, eu imagino. Mas muda tudo pra mim.
— E o que exatamente você espera de mim?
O anão hesitou, mas desta vez não recuou.
— Nada. Não vim atrás de nada. Não, espera, isso não é verdade. Vim atrás de um monte de coisa. Só que não vou pedir nenhuma delas agora. Eu só… cansei de ficar calado, fingindo que não penso em você o tempo todo. Só isso. Não sei fazer discursos bonitos como um bardo. Só sei que você ainda é importante pra mim, Mirabel.
Houve outro breve silêncio no corredor. Lá dentro do quarto também não se ouvia nada. Então a feiticeira apoiou o peso do corpo numa perna só, pensativa.
— Sabe… lá na floresta… você pulou na frente de um machado para me proteger. Se o golpe tivesse pego num ponto vital, você não teria conseguido usar magia de cura…
— Eu pularia na frente de qualquer perigo para te proteger, sem pensar duas vezes.
— Thorin… — ela fez uma breve pausa. — Eu preciso pensar sobre tudo isso. Tem muita coisa acontecendo agora. Pra ser honesta, eu também não tenho sido uma boa pessoa ultimamente…
— Ora, ora. Pode se abrir para mim, pequena ovelha. Devido à natureza de minha profissão, já trabalhei por muito tempo em confessionários. Pode desabafar à vontade. O assunto vai ficar apenas entre mim, você e Nymora.
— Eu não roubei a relíquia do Boitatá por ordens de Zarkon. Eu devastei a tribo dos Pés Invertidos e profanei suas crenças apenas porque… eu buscava poder. Eu precisava… eu me sentia… na verdade, eu ainda me sinto… muito frágil, impotente. Eu estudei durante muito tempo o poder imbuído nas runas ancestrais, e descobri que a relíquia do Boitatá possuía uma forte essência do Deus da Forja e do Juramento, Varkhan. Eu queria aquele poder para mim. Mas mesmo quando eu o libertei, ali no meio do perigo… eu congelei de medo, e você me salvou. Eu ainda sou fraca. A relíquia não mudou essa realidade. Mas eu pretendo mudar isso!
O anão engoliu o resto do que ia dizer, e ficou ali. Quando enfim decidiu como proceder, foi interrompido pela porta do quarto que se abriu de forma abrupta.
Selene saiu de lá depressa, com o rosto tenso e os olhos cheios d’água. Os lábios estavam apertados com uma expressão furiosa. Passou pelos dois quase sem enxergá-los, segurando a saia com uma das mãos para não tropeçar no próprio passo, e seguiu em direção à sala do trono.
— Pelos Quatro Deuses… — murmurou o anão.
Um segundo depois, Ulgar apareceu à porta. Não havia nele sinal algum de constrangimento ou satisfação. Só a cara fechada, irritada como de costume.
A feiticeira cruzou os braços. Seu olhar caiu sobre o bárbaro com reprovação imediata. Já não simpatizava muito com ele antes. Agora, menos ainda.
Thorin, ainda olhando na direção em que Selene desaparecera, soltou pelo nariz um sopro desacreditado.
— Francamente… eu esperava uma situação dessas do Pau Morto. Não de você, grandão.
Ulgar olhou para os dois e desabafou.
— Não tem dragão porra nenhuma.
Thorin piscou.
— Como é?
— Não tem dragão nenhum na sala do tesouro. É tudo uma encenação, igual peça de teatro.
— Do que está falando? — Mirabel franziu o cenho. — Que dragão?
— Ah… — suspirou o anão. — Isso é meio confidencial. Não podemos dizer uma única palavra a ninguém, nem a você. Mas parece que tem um dragão na sala do tesouro, ameaçando todo o poderio do rei.
— O quê?! — espantou-se a feiticeira.
Ulgar apontou com o queixo na direção do salão do trono.
— É tudo mentira. A barda e o mago armaram tudo.
O anão demorou um instante para entender.
— Archelaus?
— Ele mesmo. Selene me contou tudo. O sujeito é mestre em ilusionismo.
— Ilusionismo? Então o problema da Dicotomia…
— É conversa pra boi dormir — cortou Ulgar. — Parece que o castelo nunca foi invadido por um dragão. Era tudo armação daqueles dois. Ela queria que eu participasse da peça de teatro, como guarda-costas deles, e me ofereceu parte do ouro. Mas eu recusei.
— Espera aí, grandão. Se o objetivo era roubar o tesouro de Zarkon, por que eles estão perdendo tanto tempo com essa papagaiada de dragão e feitiço da Dicotomia?
— Eles só querem interditar a sala do tesouro até amanhã, e ainda ter acesso livre, podendo sair e entrar a hora que quiserem.
— E por que pediram ajuda a você, um completo desconhecido?
— Porque não sou fiel ao rei. A barda pensou que conseguiria me convencer a entrar no elenco da peça dela. E com minha confirmação da existência do dragão, o rei daria sossego por pelo menos uma noite, tempo suficiente para eles encherem os bolsos e sumirem.
Thorin estava tentando organizar as ideias em sua cabeça. Mas o bárbaro estava impaciente.
— Agora chega de conversa mole. Vamos logo até a sala do tesouro, encerrar essa missão. Aí voltamos pro rei e contamos tudo. Quando tudo acabar, quero passar na taverna. Minha garganta está seca.
A feiticeira deu um passo adiante.
— Eu vou com vocês até a sala do tesouro. Quero entender melhor toda essa história.
O bárbaro fez uma cara de repulsa, mas não a impediu de acompanhá-los.
***
Ao aproximar-se novamente da sala do trono, Selene respirou fundo e recompôs sua expressão. Atravessou as grandes portas com lágrimas escorrendo de seus olhos, e a respiração entrecortada por soluços convincentes.
Zarkon levantou-se imediatamente. Os guardas, percebendo o desespero da mulher, levaram as mãos às espadas, apreensivos.
— Pelos deuses, Selene! O que aconteceu? — rugiu o rei.
A barda caiu dramaticamente sobre os joelhos, ocultando o rosto nas mãos trêmulas. Sua voz saiu embargada, carregada de emoção teatral.
— Foi terrível, Majestade! O bárbaro… Ulgar… e também aquele seu parceiro anão… — fez uma pausa dramática, os ombros tremendo delicadamente. — Eles decidiram entrar na sala do tesouro, e descobriram que o dragão está vivo! Ulgar e aquele anão foram massacrados!
Um silêncio aterrador tomou conta do salão. O rosto de Zarkon perdeu completamente a cor, e a fúria em seus olhos logo deu lugar a um medo quase palpável.
— O quê?! Então aquela maldita fera ainda está viva?!
— Sim, meu senhor! E está completamente enfurecida! Quase não consegui sair viva daquele inferno!
O olhar aflito do rei caiu imediatamente sobre Archelaus, que parecia confuso, piscando várias vezes, tentando processar a situação inesperada.
— Precisamos fazer algo! — suplicou Selene, voltando seu olhar para o mago, fazendo com que ele compreendesse a mudança de planos. — Antes que seja tarde demais e ele destrua todo o castelo!
Archelaus pigarreou, recompondo-se o suficiente para improvisar:
— E-eu… vou imediatamente para lá! Posso conjurar um… feitiço de contenção, ou algo assim! É, isso mesmo! Meu novo feitiço vai impedir o dragão de sair por um dia inteiro, até que eu possa usar novamente o feitiço da Dicotomia e resolver definitivamente a situação!
Buscou qualquer sinal de desconfiança pelo salão, mas Zarkon estava apavorado demais para notar a precariedade daquela explicação.
— O que você ainda está fazendo aqui? — berrou o rei. — Vá imediatamente resolver a situação, antes que essa desgraça escape!
Archelaus não perdeu tempo. Virou-se e disparou pelos corredores do castelo, com a capa tremulando atrás de si. O som frenético de seus passos ecoava pelas paredes de pedra, acompanhando o compasso acelerado de seu coração.
Ele precisava deter aqueles dois antes que fosse tarde.
***
O ouro do rei do Oeste se empilhava em arcas abertas, prateleiras, nichos de pedra e montes exagerados espalhados pelo chão. Havia coroas, taças, candelabros, estátuas pequenas, cofres ornamentados, colares, anéis e moedas suficientes para acabar com a fome em todos os Quatro Reinos.
Mas não havia dragão.
Em vez disso, o que tinha ali era um grupo de homens enfiando o tesouro em sacos de couro. Os três recém-chegados pararam à entrada. Do outro lado da sala, os ladrões também pararam.
Por um breve instante, ninguém fez nada. Só se encararam. Os homens do saque ainda seguravam os espólios. Thorin mantinha o martelo junto ao corpo. Mirabel segurava firme o cajado. Ulgar, como de costume, parecia o menos surpreso de todos, embora seus olhos varressem o ambiente com atenção rápida, confirmando o óbvio:
— Não tem dragão porra nenhuma. Vamos embora.
Thorin continuou procurando, com medo de que uma criatura colossal surgisse de trás de uma pilha de taças só para lhe dar razão por ter desconfiado da missão desde o início.
— Bem — murmurou. — Isso explica bastante coisa… e complica ainda mais.
Mirabel estreitou o olhar.
— São homens de Archelaus.
— Tanto faz. O que importa é que nossa missão está cumprida. — O bárbaro virou-se de volta para a porta. — Basta voltarmos até o rei e contar o que vimos.
Um dos ladrões deixou o saco que carregava cair aos pés com um baque pesado, exibiu seus dentes podres e avançou alguns passos.
— Vai com calma, fortão. Vocês não vão a lugar nenhum!
Os outros ladrões já largavam o ouro para sacar facas, espadas curtas e porretes de mão. Thorin suspirou, resignado, apertando melhor o cabo do martelo. Ulgar estalou o pescoço para um lado, depois para o outro, e estufou o peito.
— É mesmo? E quem vai me impedir?
Uma voz rouca surgiu do fundo da sala.
— Eu vou.
Os ladrões abriram espaço e Archelaus avançou devagar entre as pilhas de riqueza. A capa escura arrastava de leve sobre a pedra. Parou a poucos passos dos três.
— De todos os homens que eu poderia encontrar aqui, precisava ser justamente você. Um bárbaro imundo, fedendo a carniça!
Ulgar não reagiu à provocação. Mirabel deu um passo à frente e se pronunciou:
— Archelaus, o que está acontecendo? Mande esses homens largarem as armas, agora!
O mago nem lhe deu atenção. Sem desviar os olhos do bárbaro, disse:
— Que tal um acordo? Vejo que vocês são homens espertos. Todo mundo pode sair ganhando com esta situação.
— Gostei da ideia — disse Ulgar. — Minha proposta é a seguinte: vou decepar sua cabeça na frente dos seus homens. Com isso, eu saio satisfeito, e o mundo fica com um mago a menos. Que tal?
— Você fala demais para um selvagem. Vamos ver quanto tempo sua espada vai resistir antes de perecer para minha magia.
Assistindo a tudo, na porta, quase escondida entre a madeira entalhada e a sombra da dobradiça, havia uma pequena rã alada com os olhos esbugalhados. Mirabel piscou uma vez, distraída por aquela visão absurda. Mas Ulgar nem percebeu. Estava ocupado tentando controlar a respiração, para impedir que seu espasmo de violência o dominasse, cerrando os punhos com força na empunhadura da arma.
O ar da sala mudou. Por um breve momento, o teto pareceu ficar mais alto, a distância entre as colunas mais longa, e o brilho das moedas assumiu um tom trêmulo e instável.
— Tomem cuidado! Ele vai atacar! — gritou Thorin.
No mesmo instante, Archelaus se multiplicou. Quatro imagens suas passaram a ocupar a sala ao mesmo tempo, espalhadas entre os montes de ouro, todas idênticas, com os olhos fixos no bárbaro.
Os ladrões também agiram. Dois avançaram sobre Ulgar pela frente, um terceiro tentou cercar Mirabel pela direita, e os outros se lançaram sobre Thorin como se o anão, por ser menor, fosse também mais fácil de matar.
Nesse ponto, o bárbaro já havia se descontrolado por completo. Sentir o cheiro da magia impregnando o ambiente o deixava louco, e isso o fez avançar com fúria. O ladrão da esquerda foi o primeiro a morrer. A espada do bárbaro subiu de baixo para cima e entrou-lhe por baixo do queixo, estourando a língua e atravessando o céu da boca. O corpo tombou, batendo os calcanhares no chão. O segundo veio logo atrás, com um porrete de mão. Chegou a acertar Ulgar no ombro. Nem pareceu ter encostado. O bárbaro se virou e lhe abriu o rosto de lado a lado com um golpe curto e preciso, cortando bochecha, nariz e um olho em um jorro só. O homem caiu berrando e rolando por cima de moedas e joias.
À direita, Mirabel também estava ocupada. O ladrão que vinha em sua direção ergueu uma espada curta, mas ela foi mais rápida. Traçou uma runa brilhante no ar, e a lâmina do homem começou a ferver. Ele soltou a arma com um grito. Antes que pudesse entender o que acontecera, a feiticeira girou o corpo e lhe acertou uma pancada seca com o cajado na garganta. O homem caiu de joelhos, engasgando com a própria saliva.
— Thorin! À sua esquerda!
Um dos ladrões tentou agarrar o anão pelas costas. Thorin meteu o calcanhar na canela do sujeito, jogou o peso do corpo para trás e esmagou-lhe o nariz com a cabeça. O homem recuou cambaleando. O martelo veio depois, descendo no ombro dele com um estalo.
As quatro imagens de Archelaus ergueram as mãos ao mesmo tempo. Duas das figuras do mago lançaram dardos escuros que vieram zunindo pelo ar. Uma terceira fez surgir um arco de fogo. A quarta apenas sorriu.
Ulgar se moveu com os reflexos de um felino. Um dos dardos raspou-lhe a costela. O outro passou por trás de sua cabeça. O fogo veio reto. O bárbaro jogou-se para a frente, rolou sobre um monte de moedas espalhadas e surgiu do outro lado já com a espada em movimento. A lâmina atravessou um dos Archelaus na altura do peito. Mas não encontrou carne. A figura rachou em luz azulada e se dissolveu em um sopro de fumaça.
A gargalhada do verdadeiro mago ecoou de outro ponto da sala.
Outro dos Archelaus apontou na direção do anão, e o chão aos pés dele afundou em uma poça negra, fumegante, com a pedra se transformando em piche fervente. Thorin pulou para o lado com um guincho pouco digno, mas não conseguiu escapar, ficando preso ali.
Mirabel levou a mão ao bolso e fechou os dedos em torno da relíquia de Boitatá. Estava na hora de usar sua arma secreta. Mas, no instante em que começou a canalizar a energia, viu diante de si alguns membros dos Pés Invertidos. Não pareciam fruto de sua imaginação. Eram nítidos demais. Tinham cheiro, aura, e sentiam dor. Estavam chorando. A feiticeira vacilou.
Ulgar também encontrava dificuldade em suas investidas. Seus reflexos já não respondiam como antes. O cheiro da magia impregnava tudo e lhe martelava a cabeça. Os olhos do bárbaro estavam diferentes agora, mais fundos, tomados por um ódio tão puro que já não deixava espaço para quase mais nada.
Ele abaixou a espada e concentrou-se, procurando sua presa. As três imagens restantes do mago continuavam espalhadas pela sala. Duas sorriam. Uma mantinha o maxilar um pouco tenso demais, quase imperceptível. O suficiente para o bárbaro notar.
Um morcego enorme feito de joias e moedas de ouro surgiu à sua frente. Mas agora que seus olhos estavam fixos em seu alvo, nenhum truque espalhafatoso era capaz de distraí-lo. Deu um salto longo, atravessando a ilusão do morcego. As moedas se espalharam por todos os lados enquanto Ulgar voava com a lâmina em direção ao pescoço do mago.
Archelaus, desesperado e sem tempo para conjurar mais truques, sentiu a morte iminente se aproximando. Não havia mais fuga ou defesa possível. Restava-lhe apenas uma última e arriscada carta: o feitiço da Dicotomia. Apesar de todas as mentiras, aquela magia era real.
Ergueu rapidamente as mãos, sentindo o poder arcano fluir freneticamente entre seus dedos enquanto pronunciava, aos gritos, as palavras ancestrais da magia do caos.
A lâmina de Ulgar avançou contra a garganta exposta do mago. No mesmo instante, um clarão irrompeu ao redor dos dois e os engoliu por completo. O ar estremeceu. A espada parou a poucos centímetros de Archelaus. Por um instante, a realidade hesitou. Então se partiu em duas.
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Ulgar completou o golpe e decapitou Archelaus.
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Ulgar foi vaporizado pelo feitiço da Dicotomia antes de encostar no mago.
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Vitória e derrota passaram a coexistir no mesmo instante. Para todos dentro da sala, os dois homens haviam desaparecido atrás de uma muralha de luz. Permaneceriam naquela indeterminação até que um olhar vindo de fora do alcance do feitiço obrigasse a realidade a escolher um resultado.
— Ulgar… levante!
Um bater de asas rompeu o silêncio. Algo pequeno atravessou a soleira da sala e pairou diante do clarão.
— Você venceu. Abra os olhos.
Era uma rã alada, voando de maneira desengonçada, com os olhos enormes fixos no bárbaro.
— Hã?
— Ribbit.
O universo fez sua escolha.
A luz se desfez e Ulgar se levantou em meio a uma poça de sangue. A cabeça de Archelaus estava próxima a ele, desprendida do corpo.
As outras imagens do mago tremularam ao mesmo tempo, parecendo-se com reflexos inquietos sobre a água. Até que se deformaram em um borrão de fumaça escura antes de desaparecerem.
O piche fumegante aos pés de Thorin sumiu. Enquanto observava o brilho estranho que escorria pelas moedas se apagando, foi o primeiro a compreender o que aquilo significava. E quando avistou a cabeça de Archelaus no chão, obteve sua confirmação.
— Ah… — murmurou, aliviado. — Então deu tudo certo.
Mirabel continuava imóvel, com os olhos fixos no corpo do mago. O cajado ainda estava erguido, mas seus dedos haviam afrouxado. A visão dos Pés Invertidos chorando havia sumido junto com o resto do espetáculo ilusório. A sala agora era apenas o que sempre fora.
Um dos capangas de Archelaus deixou a faca cair da mão. O som metálico ecoou alto em meio ao silêncio. A coragem deles não sobrevivera à morte do patrão. Assim, os que ainda respiravam abandonaram suas armas e tesouros e se retiraram às pressas, tropeçando na riqueza espalhada pela sala.
— Fujam! — berrou Thorin. — Sumam daqui, bando de cagão!
Ulgar não os perseguiu. Apenas continuou de pé no centro da sala, respirando pesado, com a espada abaixada e o sangue escorrendo pelo braço. Seus olhos haviam voltado ao normal, e agora estavam apenas cansados.
Mas não houve nem um minuto sequer para descansar.
Um tremor sacudiu o chão da sala do tesouro com força, fazendo moedas saltarem em pequenos repiques e taças tilintarem. Uma das tochas quase se apagou no suporte. Parecia que alguma coisa aterradora estava avançando pelos corredores.
Então ouviram os gritos. Vinham de longe, ecoando pelos corredores por onde os ladrões haviam fugido. Eram gritos de pânico absoluto, seguidos pelo silêncio da morte.
Mirabel ergueu o cajado no mesmo instante. Thorin apertou o martelo. Ulgar voltou o rosto para a porta, já com a respiração mudando outra vez.
O estrondo seguinte veio acompanhado de uma rajada de calor. O batente de pedra rachou em uma de suas laterais e um rombo enorme se abriu na parede.
E então a criatura entrou.
Primeiro a cabeça, imensa, coroada por chifres recurvos e escamas negras. Depois o pescoço, grosso como o tronco de uma árvore. E por fim, o resto, arrastando-se para dentro da sala de forma colossal. As asas, ainda meio dobradas contra o corpo, roçaram as colunas laterais. As garras riscavam a pedra. O peito subia e descia em ondas lentas, e a cada expiração uma fumaça escura escapava por entre os dentes.
Era magnífico. Não havia outro termo para descrevê-lo. Talvez terrível, sim. Monstruoso, sem dúvida. Mas também magnífico. Havia naquela forma gigantesca algo de soberano, de primevo, de tão violentamente belo que os três, por um instante inteiro, ficaram apenas olhando.
Os olhos do dragão pousaram sobre eles. Negros e profundos. A criatura soltou uma bufada curta, e o ar quente atravessou a sala. Mas o anão foi o primeiro a recuperar a voz.
— Não se preocupem, gente. Deve ser só mais uma ilusão daquele desgraçado.
O dragão abriu a boca. A voz que saiu dela não era nada humana. Era grave, profunda, quase tétrica, rasgando o ar como fogo antes de alcançar o ouvido de quem a escutava.
— Eu não sou uma ilusão.
Thorin congelou.
O dragão inclinou a cabeça de leve, encarando-os com um tipo de inteligência que tornava tudo ainda pior.
— Não me reconhecem?
Ulgar não respondeu. Nem conseguia. Seus olhos estavam presos nos olhos da criatura. Naquela escuridão sem fundo. Na mesma escuridão que vira antes, entre as chamas, acima da floresta. Sua mão apertou o cabo da espada até os nós dos dedos embranquecerem, mas o resto do corpo permaneceu imóvel.
Ao seu lado, Mirabel levou a mão ao bolso quase por reflexo. A relíquia dos Pés Invertidos ardia. O calor atravessou o tecido e mordeu-lhe a pele. A feiticeira puxou o ar entre os dentes e arregalou os olhos.
— Não pode ser…
Thorin encarou o dragão por mais um tempo, e seu rosto perdeu o pouco de cor que ainda lhe restava quando conseguiu, por fim, confirmar sua suspeita.
— Galera… É o Boitatá!
A criatura pareceu crescer só por ouvi-lo. Uma pressão invisível se espalhou por toda a sala do tesouro, pesada, esmagadora. O ar tornou-se denso a ponto de causar dor ao entrar nos pulmões. Thorin sentiu os joelhos cederem, tornando quase impossível caminhar. Mirabel endureceu de alto a baixo. Até Ulgar, que já enfrentara todo tipo de monstro, percebeu o instinto mais profundo de seu corpo lhe ordenar, com urgência brutal, que recuasse.
A aura assassina do dragão se abriu pela sala como um manto de morte etérea, fixando os três no chão. Boitatá avançou um passo, e o chão de pedra gemeu sob seu peso.
— Os humanos são mesmo uma raça maldita!
O calor aumentou.
Mirabel tentou erguer o cajado. Mas não conseguiu. Seus dedos mal respondiam. Thorin apertou o martelo com as duas mãos, mas ele agora parecia pesar o equivalente a uma torre. Ulgar cerrou os dentes e forçou o corpo para a frente, contra aquela presença insana, tentando andar contra aquela correnteza de terror e histeria.
— Vocês rompem, corrompem, saqueiam — prosseguiu o dragão. — Tocam o mundo e tudo apodrece um pouco. Onde chegam, o equilíbrio cede. A ordem da natureza se rompe. A terra se enche de ferro, de fumaça, de ganância.
Seus olhos negros, profundos, passearam pelos três.
— Não. Vocês, humanos, não podem ter sido criação dos Quatro. Vocês só podem ter sido obra do Quinto. Daquele que os próprios humanos renegam tanto… que nem ousam se recordar da existência.
Mirabel sentiu a relíquia arder ainda mais no bolso. O dragão se virou para ela.
— Devolva isso, criança. Devolva a relíquia que você roubou de mim, agora. Você não é capaz de controlar o caos advindo dos poderes dessa peça.
A feiticeira abriu a boca para responder. Nenhum som saiu. Queria comentar a respeito do deus proibido. Queria ganhar tempo para recuperar suas forças. Queria inventar qualquer coisa. Mas sua língua parecia ter secado. O peito subia e descia em movimentos curtos demais. As pernas não respondiam. Sentia-se dentro de seu mais profundo pesadelo. O corpo inteiro sabia, com uma clareza horrível, que ali estava sua morte.
Boitatá baixou um pouco a cabeça. O brilho entre seus dentes se acendeu. A feiticeira viu o fogo nascer ali dentro, concentrando-se no fundo da garganta do dragão, parecendo um pequeno sol assassino. Viu a luz crescer e as escamas do pescoço brilharem por dentro. Viu, com a lentidão cruel dos momentos sem saída, o exato instante em que a criatura reuniu energia suficiente para apagá-la do mundo.
Suas pernas continuavam imóveis. E o fogo veio. Não era uma labareda dispersa, mas um fogo concentrado. Um jorro compacto, brutal, direto, lançado contra ela com precisão.
Mirabel fechou os olhos. E, por um segundo inteiro, tornou a ser a mulher ajoelhada na floresta da Terra Rasgada, vendo a morte vir do céu com um giro de aço e fogo, certa de que não havia mais caminho, certa de que o mundo acabaria naquele ponto exato.
Mas a dor não veio.
Houve calor. Luz. Um rugido de chamas. E ainda assim… ela continuava viva. Mirabel abriu os olhos, atordoada. Havia alguém diante dela. Baixo. Largo. Braços abertos.
Thorin estava plantado à sua frente como uma muralha, exatamente como antes. Só que, desta vez, não havia machado preso às costas, nem coluna quebrada. O fogo do dragão o apanhara por inteiro. Suas vestes se desmanchavam em cinza luminosa. A barba, os ombros, as mãos, o símbolo de Nymora em seu peito. Tudo estava sendo consumido ao mesmo tempo, rasgado da existência pela violência absoluta daquela chama.
Mirabel gritou com um som cru e rasgado, com toda a intensidade que seus pulmões permitiram.
O anão não conseguiu responder. Não conseguiu sequer se virar. Seu corpo estava sendo completamente desintegrado diante dela, levado em partículas incandescentes. Seus contornos se desfizeram, e o rosto sumiu antes que pudesse formar uma última expressão compreensível.
Um instante depois, não restava mais nada do homem que um dia ela amara, exceto por um amontoado de cinzas. O eco do grito da feiticeira reverberou pelas paredes de pedra.
Boitatá ergueu de novo a cabeça. O fogo ainda fumegava entre seus dentes, e já estava preparando outra rajada.
Mas agora Ulgar entrou em ação. Moveu-se como um animal ferido, rompendo a paralisia na força bruta, arrancando o corpo daquele torpor assassino com um rugido que parecia vir de algum lugar mais fundo que a garganta. Correu em direção a Mirabel no exato momento em que o dragão voltava a inspirar.
A feiticeira mal teve tempo de compreender, quando o bárbaro a atingiu com o ombro, arrancando-a do lugar. Os dois rolaram por cima de moedas, correntes e cálices tombados, enquanto a segunda rajada de Boitatá atravessava o espaço onde Mirabel estivera meio segundo antes e explodia contra a parede do fundo, derretendo ouro e pedra com um clarão infernal.
Mirabel ainda tentava respirar. Mas Ulgar não esperou. Pegou-a no colo e disparou para fora do salão. Atrás deles, o rugido do dragão sacudiu o castelo inteiro.
Quando a adrenalina da fuga diminuiu, olharam para trás e se deram conta de que não adiantava esperar por Thorin. Ele jamais voltaria a segui-los.
***
O silêncio já havia tomado conta da Academia de Lyverath.
Enoch caminhava sozinho pelos corredores com um lampião na mão. A luz morna balançava de leve a cada passo, iluminando trechos de pedra polida, tapeçarias antigas e portas fechadas atrás das quais os aprendizes, ao menos em teoria, já deveriam estar dormindo. O ancião seguia devagar.
Ao passar diante do quarto de Sarah, porém, seus passos cessaram.
Havia um som vindo lá de dentro. Enoch ficou imóvel, e ergueu um pouco mais o lampião, escutando. Era choro. Mas não o choro irritado de uma criança de castigo. Aquele som possuía outro teor. Um peso mais intenso. Uma dor baixa, engolida entre soluços pequenos.
Parecia luto.
O ancião franziu o cenho. Pela primeira vez naquela noite, sentiu frio.
Oi Thales.
Sua história continua ótima, uma delícia de acompanhar.
A história segue, surgem novos elementos, novos personagens e você não perde a mão da história. Adorei achar a rã voadora no finalzinho e pensar “sai daí, menina!”, sinal de que o enredo está amarradinho na sua cabeça, apesar do caos aparente.
É também um elemento muito interessante. O que teria acontecido se Sarah não tivesse interferido nos acontecimentos? Ela se rebelou contra as regras, observou o feitiço da dicotomia e, com isso, escolheu uma realidade. E agora? É isso que causará o caos, ou isso os salvou?
As relações se aprofundam, também. Thorin e Mirabel, Enoch e Sarah, laços que se mostram mais fortes do que parecia no início. Também a repulsa que Ulgar sente pela magia vai se revelando cada vez mais intensa e, penso, em algum momento terá sua origem revelada.
Você já mostrou o que pode acontecer/acontecerá na visão que Enoch tem da Academia em chamas. Não consigo imaginar como aquilo se dará e isso é muito bom. Como leitora, fico aqui imaginando o que vai acontecer e se aquilo foi causado pela interferência de Sarah ou se esta interferência impedirá aquela visão de se concretizar.
Acho que seria fácil se perder escrevendo uma história com tanta coisa acontecendo, mas você está tirando de letra. Destaque para as cenas de luta/ação, que eu acho tão difícil de desenvolver.
Os personagens continuam muito gostáveis. Torço para que Thorin tenha se salvado de alguma forma. Torço para que a visão da Academia em chamas não se concretize. Enfim, não quero com isso dizer que a história deveria seguir esse ou aquele caminho. É só que, definitivamente, não estou lendo de forma indiferente. Eu já estou na torcida pelos personagens.
Muito bom!
E aí, meu chapa rs
Desculpa a demora. Você estava muito pop, daí fui comentar os esquecidos rs mas parece que a sua quietude fez o povo dar uma esquecida desta bela história. Como eu havia prometido, venho trazer o resultado da minha análise mais técnica. Os comentários vão se referir a você na terceira pessoa porque as anotações foram feitas ao longo do tempo e agora eu as trouxe pra cá. Espero que sejam úteis. Vamos lá!
“Dicotomia do Dragão” é um texto muito criativo, com uma combinação rara de elementos: fantasia épica, humor irreverente, brasilidade mítica, pancadaria de RPG, metanarrativa oral, pseudociência/quântica e aventura escrachada. O resultado é bem divertido e bastante legível. O capítulo é longo, mas não parece pesado porque há muita variação de situação: Academia Arcana, castelo real, taverna, anel mágico, resgate de Mirabel, tribo dos Pés Invertidos e despertar do Boitatá.
A principal força está no equilíbrio entre invenção e clareza. O texto cria muitos nomes, conceitos, reinos, deuses, raças e criaturas, mas não se torna hermético. Mesmo com “dicotomia”, “superposição”, “Caos”, “Quatro Deuses”, “Pés Invertidos”, “Boitatá”, “capelobo”, “Terra Rasgada”, “Academia Arcana” e “Fagulha do Caos”, o leitor consegue acompanhar a linha de ação. Isso é um mérito considerável.
A moldura Enoch/Sarah funciona muito bem
A escolha de abrir com Enoch e Sarah observando os acontecimentos pela bola de cristal é um acerto estrutural. Essa moldura cumpre várias funções ao mesmo tempo.
Primeiro, ela apresenta o mundo de forma leve. Em vez de despejar um prólogo solene sobre a origem dos reinos, dos deuses e da magia, o texto nos coloca diante de um velho oráculo tarado/fofoqueiro e uma criança prodigiosa que questiona tudo. Isso dá graça e cria vínculo imediato.
Segundo, a moldura permite comentar a própria narrativa. Sarah funciona quase como leitora impaciente: quer ver o dragão, quer pancadaria, quer pular para a parte interessante. Enoch funciona como contador mais experiente: entende que as peças precisam ser posicionadas. Essa dinâmica é ótima porque antecipa possíveis reações do leitor dentro do próprio texto. Quando Sarah pergunta qual é a relação de Ulgar e Thorin com o dragão, ela verbaliza exatamente a dúvida que o leitor poderia ter naquele ponto.
Terceiro, a moldura dá unidade a um capítulo que, sem ela, poderia parecer uma sequência de episódios soltos. A bola de cristal transforma tudo em “história testemunhada”, quase como se Enoch estivesse narrando uma campanha de RPG para Sarah. Isso combina muito com o tom.
O humor é o grande diferencial
O humor funciona porque não vem só de piada verbal. Ele nasce do choque entre solenidade e vulgaridade. A Academia Arcana tem arquitetura elegante, espelhos d’água, runas e paz contemplativa; logo depois, Enoch está espionando uma cena sexual e soltando “primeira noite é o meu ovo”. Esse contraste estabelece a regra do texto: o mundo é épico, mas seus habitantes são indecorosos, falhos, debochados e fisicamente presentes.
A cena do rei Zarkon é outro ótimo exemplo. O conceito de feitiço quântico poderia ficar pedante, mas a ignorância matemática do rei — acreditando que duas conjurações dariam cem por cento e quatro dariam duzentos por cento — torna a explicação divertida. A piada não interrompe o worldbuilding; ela o torna mais palatável.
Thorin também é um achado cômico. O clérigo divorciado que vendeu a aliança da ex-mulher e depois descobre que ela servia para comunicação mágica é uma ideia muito boa. O humor dele é vulgar, mas não gratuito: caracteriza o personagem. A venda da aliança, a pancadaria na taverna e o chamado de Mirabel criam uma sequência de causa e consequência bastante eficiente.
Ulgar e Thorin são uma dupla forte
A dupla funciona porque há contraste. Ulgar é seco, supersticioso, brutal, direto. Thorin é falastrão, clerical, bêbado, emocionalmente enrolado e surpreendentemente leal. Isso cria boa química de aventura.
A taverna é uma das partes mais vivas do capítulo. O encontro entre eles tem ritmo, conflito, humor e um objeto narrativo claro: o anel. A briga é visual, fácil de imaginar, e constrói os dois personagens pela ação. Thorin briga por ressentimento e prejuízo; Ulgar só se mexe quando a situação finalmente merece força. A cena explica muito sem explicar demais.
O chamado de Mirabel pelo anel também é um bom gancho. A história deixa de ser apenas “dois beberrões se metendo em confusão” e ganha missão. Mais importante: Thorin se transforma. O humor some por alguns segundos e aparece o vínculo real com a ex-mulher. Esse tipo de virada dá profundidade sem dramatizar demais.
A brasilidade entra de modo orgânico
O texto acerta ao incluir elementos brasileiros sem parecer colagem artificial. O capelobo, os Pés Invertidos e o Boitatá entram em um universo de fantasia que também tem anões, bárbaros, dragões, clérigos e reinos. Essa mistura poderia ficar bagunçada, mas aqui funciona porque o tom já é híbrido desde o começo.
O melhor é que o Boitatá não aparece apenas como referência folclórica decorativa. Ele é força de desequilíbrio. A relíquia roubada por Mirabel funciona como selo, e quando o fogo se transforma em serpente/dragão flamejante, o texto conecta mito brasileiro ao macroconflito do Caos. Isso é promissor.
A cena dos Pés Invertidos, porém, exige cuidado. Ela é impactante, mas também envolve massacre, destruição de uma tribo milenar e morte de mulheres e crianças. O texto percebe a gravidade disso pelo olhar de Thorin e Mirabel, mas Ulgar continua quase extasiado pela violência. Esse contraste é bom, desde que a narrativa trate isso como sinal preocupante — e o final com Enoch assustado parece indicar que sim.
O ponto mais interessante: Ulgar talvez seja o verdadeiro Caos
A pergunta final de Enoch é uma boa promessa: o problema é Boitatá ou Ulgar? Essa é a melhor abertura para a continuação. Até ali, o texto parece uma aventura cômica de fantasia; no fim, ele sugere que há algo mais sombrio no bárbaro.
Ulgar não é apenas “forte”. Ele parece uma força de desordem ambulante. Onde ele entra, a situação escala. Na taverna, uma briga vira caos geral. No acampamento, uma missão de resgate vira massacre e libertação de uma entidade incendiária. O texto sugere que ele talvez não esteja só reagindo ao mundo; talvez esteja ampliando o Caos ao redor.
Essa é uma chave excelente para o romance, porque impede Ulgar de ser apenas o bárbaro engraçado e sanguinário. Ele pode se tornar um problema metafísico.
O problema do ritmo: há muito episódio em um capítulo
Esta primeira entrega contém material para vários capítulos menores:
Isso torna a leitura dinâmica, mas também cria risco de compressão futura. Se cada etapa do romance tiver esse mesmo volume de acontecimentos, o autor talvez não tenha espaço para desenvolver consequências emocionais, relações entre personagens e escalada do conflito.
O texto é mais forte quando fica em cena — taverna, diálogo com o rei, batalha — e menos forte quando precisa explicar a estrutura do mundo ou acelerar ligações entre eventos. A solução não é cortar necessariamente, mas escolher melhor onde expandir e onde resumir.
Sobre os verbos dicendi
Em meu comentário anterior, apontei o meu incômodo com o uso do “disse”, mas eu ajustaria a crítica. O problema não é exatamente usar muito “disse”. Na verdade, “disse” costuma ser o verbo dicendi mais invisível e funcional. Substituir por “retrucou”, “exclamou”, “interpelou”, “redarguiu”, “bradou” a cada fala pode piorar o texto.
O problema é outro: o texto depende demais de marcações explícitas de fala quando a própria dinâmica do diálogo já permitiria cortes.
Em vez de variar muito o verbo, ele poderia usar mais:
Exemplo: em vez de várias falas com “disse Enoch”, “perguntou Sarah”, “respondeu o ancião”, ele pode deixar Sarah interromper, subir no banco, morder o lábio, olhar para a esfera. Isso marca a voz dela sem precisar nomear sempre.
Então eu não diria apenas “varie os dicendi”. Eu diria: reduza a necessidade deles.
Gordurinhas
As “gordurinhas” estão principalmente no começo e em algumas explicações. O início da Academia é bonito, mas poderia ser ligeiramente mais curto para chegar mais rápido à interação Enoch/Sarah, que é onde o texto realmente acende. Também há alguns momentos em que o texto explica conceitos depois de já tê-los dramatizado bem.
No meio, a explicação do experimento das duas fendas é divertida e didática, mas precisa tomar cuidado para não soar aula demais. A presença de Sarah ajuda bastante, porque ela reage como criança impaciente. Ainda assim, se o romance repetir muitas explicações longas desse tipo, o ritmo pode pesar.
Enfim, por hoje era isso. Aguardando com entusiasmo a próxima entrega. Abraço!
Hello Thales… Boa tarde, tudo bom?
Enquanto eu lia o capítulo, fiquei pensando muito em como o texto consegue equilibrar duas coisas que normalmente entram em conflito na fantasia: o humor e a grandiosidade. Tem uma sensação muito parecida com a de obras do Terry Pratchett, principalmente porque os personagens parecem conscientes do absurdo do próprio mundo. O Enoch, por exemplo, foge completamente daquele arquétipo clássico do mago sábio e intocável. Ele é quase um velho fofoqueiro cósmico, a cena dele usando a bola de cristal para assistir escândalos mundanos quebra a solenidade da fantasia medieval de um jeito muito divertido.
Ao mesmo tempo, a relação entre Ulgar e Thorin me lembrou bastante a dinâmica de personagens em The Witcher. Existe aquele contraste entre o guerreiro bruto e silencioso e o personagem mais falante, cômico e emocional. Só que aqui o humor é mais “sujo”, mais brasileiro, mais próximo de conversa de bar mesmo. Isso funciona muito bem porque impede o texto de cair naquela fantasia excessivamente séria que às vezes acaba ficando engessada.
Também achei muito interessante a forma como o capítulo usa conceitos de física quântica dentro da narrativa fantástica. A questão do dragão estar morto e vivo ao mesmo tempo claramente conversa com o gato de Schrödinger, mas o texto traduz isso de um jeito leve e acessível. A conversa entre Sarah e Enoch funciona quase como um mecanismo didático dentro da história, sem parecer aula expositiva demais. E o mais legal é que isso não fica só como referência inteligente: acaba virando tema central da narrativa, porque o próprio caos parece funcionar como algo ligado à instabilidade da realidade.
Sarah, inclusive, funciona muito bem como contraponto do Enoch. Ela representa o leitor impaciente que quer logo “a parte do dragão”, enquanto ele entende o prazer da construção lenta da história. Tem até uma camada metalinguística aí, porque o texto comenta sobre narrativa enquanto narra. Quando ela reclama da demora da ação, parece quase uma conversa entre autor e leitor.
Outra coisa que achei forte foi a mudança de tom durante a batalha dos Pés Invertidos. Até então o capítulo mantém um clima mais aventuresco e cômico, mas ali a violência começa a ficar realmente desconfortável. O Ulgar deixa de parecer só um bárbaro carismático e começa a assumir algo mais perturbador. A destruição causada por ele e pela Mirabel não tem glamour heroico. Quando o líder da tribo fala que aquele era o último grupo restante do povo dele, a cena ganha um peso muito diferente.
E acho que é justamente aí que o capítulo fica mais interessante. O “Caos” não aparece só como força mágica abstrata. Ele aparece nas pessoas, nos impulsos, na violência, no desejo, no orgulho, na curiosidade e até no humor. Isso dá profundidade ao mundo porque impede uma divisão simples entre bem e mal.
Além disso, gostei muito da presença do Boitatá. Misturar elementos do folclore brasileiro dentro de uma estrutura de fantasia épica medieval deixa o universo mais original. Em vez de depender só de dragões e mitologias europeias, o texto começa a construir uma identidade própria.
No geral, achei um capítulo muito forte em ritmo e personalidade. Os diálogos funcionam bem, os personagens têm presença muito rápida e o texto sabe alternar humor, filosofia e brutalidade sem perder fluidez. O Thorin, principalmente, rouba várias cenas porque consegue ser engraçado e trágico ao mesmo tempo.
Graaaande Thales. Acabei lendo seu texto agora pela manhã, antes de começar a trabalhar e me atrasei kk, sinal de que a leitura foi rápida e fluida, me fazendo perder a noção do tempo. O capítulo de abertura tem uma energia muito própria e uma ambição narrativa clara. Dá pra perceber desde as primeiras páginas que você está construindo um mundo com camadas (mitológico, humorístico, épico) e que tem prazer genuíno em contar essa história. Isso aparece na escrita, e é o tipo de coisa que não se finge. Começa bem.
O dispositivo do ancião e da menina funciona muito melhor do que eu esperava. É um recurso clássico de frame narrativo, e em mãos menos cuidadosas vira apenas desculpa expositiva. Mas a dinâmica entre Enoch e Sarah tem vida própria. Ela questiona, ele condescende com carinho, e os dois acabam gerando uma tensão cômica e filosófica ao mesmo tempo que é bastante agradável de acompanhar. O trecho da explicação sobre a dicotomia quântica, claramente uma reinterpretação do experimento da dupla fenda, foi o momento em que o texto mais me surpreendeu. Você transformou física quântica em magia medieval de forma orgânica, sem explicar demais e sem ser pretensioso. Gostei muito disso.
A cena da taverna também funciona. O encontro entre Ulgar e Thorin tem o timing certo para comédia física, e a briga pela aliança do ex-casamento é um gancho afetivo eficiente porque é ridículo da forma certa e revela algo sobre os personagens enquanto entretém. A voz do narrador nessas passagens é ágil e tem senso de humor genuíno.
A batalha contra os Pés Invertidos é tecnicamente competente e tem boa movimentação coreográfica. Você sabe escrever ação. O ritmo acelera onde precisa, e há detalhes físicos que ancoram a violência sem deixar tudo vago e genérico.
Agora, os pontos de atenção.
A minha maior preocupação com esse primeiro capítulo é a unidimensionalidade dos personagens centrais. Ulgar é o bárbaro brutal que gosta de matar e sorri coberto de sangue. Thorin é o anão trapaceiro e cômico com um coração mole escondido. Mirabel é a feiticeira competente e irritada com o ex. Esses três são arquétipos bem executados, mas só arquétipos. Até o final do capítulo, não vi nenhum momento em que qualquer um deles me surpreendesse como pessoa, em que a máscara do tipo escorregasse e aparecesse algo inesperado por baixo. O texto os usa com eficiência, mas ainda não os habita. Para um conto de espada e feitiçaria mais curto, isso seria suficiente. Para um romance, vai precisar quebrar esses moldes em algum momento. E quanto mais cedo melhor, porque o leitor começa a antecipar os personagens antes de se apegar a eles.
Relacionado a isso, há um risco de folclorização excessiva que começa a aparecer especialmente nos Pés Invertidos. A tribo de pés virados ao contrário, com seu líder brutal e sua relíquia sagrada, cumpre bem a função de obstáculo narrativo, mas é destruída, literlmente, queimada até virar cinzas, incluindo mulheres e crianças, sem que o texto pause para processar isso. O próprio Thorin tem lágrimas nos olhos, mas a cena passa rápido.
Outro ponto: o humor e o épico ainda não estão em equilíbrio perfeito. Nas cenas de taverna, o tom funciona. Nas cenas de batalha, o texto quer ser épico e grandioso (e consegue em vários momentos, inclusive, parabéns pela versatilidade), mas às vezes o humor dos personagens quebra o peso emocional antes que ele pouse de verdade. A fala do Thorin sobre ter parado o machado com a espinha dorsal, por exemplo, é engraçada, mas chega num momento em que o texto havia criado tensão genuína, e a piada a dissolve antes que o leitor sinta o impacto. Isso não é erro, é escolha de tom, mas é uma escolha que precisa ser consciente e consistente, porque define que tipo de experiência você está oferecendo ao leitor.
Por fim: Zarkon. O rei tirano que soma probabilidades para chegar a duzentos por cento de certeza é hilário, mas é tão caricato que mal parece habitar o mesmo mundo que a cena da bola de cristal, que tem uma melancolia e uma profundidade genuínas. Se ele for um personagem recorrente, vai precisar de ao menos uma camada a mais para não virar apenas o vilão idiota que existe para ser derrotado.
O texto tem vitalidade, tem humor e tem imaginação de sobra. A fundação está boa. O desafio agora é construir sobre ela com personagens que surpreendam. Gente que o leitor não consiga antecipar completamente.
Parabéns, Thales. Boa abertura.
Dicotomia do Dragão | Autor(a): Thales Soares
Fase de Leitura: [Ex: Capítulos 1 a 5 / Primeiro Arco]
Datas: 08, 10 e 11/05/2026
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
Dicotomia do Dragão é uma fantasia bem humorada (estilo Desencanto, da Netflix), que faz referências a outras fantasias famosas (The Witcher e Harry Potter), apresentando a história de vários personagens, os quais estão entrelaçados por algo que veremos adiant.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Completamente. É um romance ao modelo do autor. Uma fantasia bem humorada, muito tudo, menos clichê.
Sim, especialmente nas descrições das cenas de luta. Para mim, foi aqui que o seu romance de fantasia brilhou. A inserção do Boitatá, por outro lado, me pareceu bem deslocada. A ver se ele se sustentará.
É uma boa fantasia. Pessoalmente Thales, sem querer ser repetitivo (mas sempre sendo) e nem ofensivo, não sou o público alvo da história. Às vezes acho que você perde a mão na tentativa do humor. Mas para quem gosta, será um prato cheio.
Oi Thales.
Bom, eu costumo gostar das suas histórias e de sua escrita, informal, despretensiosa e divertida. Então comecei com altas expectativas. Que não foram frustradas.
A história conta com uma ambientação muito bem feita, com personagens sendo apresentados de forma orgânica e muito hábil. De cara, já curti Enoch e Sarah. E esse é um ponto bem “thalesiano”: personagens carismáticos, muito gostáveis.
Outra coisa “thalesiana” são as muitas referências a cenas de séries e filmes de fantasia. Não sei se é proposital ou se as referências “vazam” porque você consome muita fantasia, mas o resultado fica interessante. Parece uma paródia, mas sem ser exatamente. O leitor sente uma vibe do mundo de Senhor dos Aneis, de The Witcher, de Harry Potter, tem um momento “ah lá!” mas vê os personagens soltando termos coloquiais inesperados, gírias e palavrões e percebe que Thorin é Thorin e é anão, mas não tem escudo de carvalho.
Sua história bem poderia ser uma zoeira e só, mas não é assim. Também faz parte do universo thalesiano a filosofia e a física quântica. E a matemática. Como assim, se há 50% de chance de sucesso, é só fazer duas vezes, qual o problema?
E daí, lá pelas tantas, surgem curupiras e boitatá e o leitor pensa, gente, onde isso vai dar? O que é isso? Não posso largar a leitura agora.
Você tem um estilão próprio, cheio de personalidade. Faz muito bem em falar sobre o caos, porque só você mesmo para domar uma narrativa caótica e entregar uma história interessante.
E fecha esta primeira parte com uma virada. Ulgar, que parecia ser um herói, ou anti-herói, talvez seja um vilão. Será?
Eu acredito no poder do humor e no valor do entretenimento.
Bom, tem uns pequenos problemas de revisão, coisa besta, um “há poucos dias atrás”, tenho certeza de que gente mais capacitada que eu vai aponta-los.
A narrativa de Thales apresenta as cenas fantasiosas com descrições detalhadamente bem feitas. As imagens absurdas surgem naturalmente.
Os diálogos de Sarah com Enoch são bem construídos e despertam a curiosidade do leitor.
O feitiço da dicotomia é engenhoso, com um olhar filosófico . Faço aqui uma parêntesis, é difícil eu me conectar com histórias de dragão. Explico para caso da crítica tornar-se mais severa. Não faço parte do público alvo.
Por outro lado, tomaria facilmente uma cerveja na Taverna do Javali Manco, apesar do copo de barro. E diálogo lá também fluiu bem.
A cena da briga é engraçada e os xingamentos originais. Há um toque de humor audacioso, meio debochado, que eu particularmente acho que valoriza texto, saindo do lugar comum.
Há violência de sobra, as brigas dariam um belo filme. Boa narrativa até aqui. Vamos ver o que acontecerá com o dragão.
Observei uma Digitação errada “ Inspirou de for profunda, recompondo-se.”
Olá, Thales! Tudo bem?
Terminei de ler o começo do seu romance!
Gostei bastante da aula de física para crianças, aprendi umas coisas aí 😆
Essa parte da Sarah conversando com o Ancião ficou muito boa mesmo, os personagens são bem desenvolvidos e cada um tem a sua voz própria. E mesmo que essa parte tenha sido bem explicativa, não ficou chata nem didática, funcionou, fez sentido para a história.
A próxima cena foi o puro suco da ação e do caos! Você é muito bom em narrar uma pancadaria, ficou bem cinematográfico, deu pra imaginar e visualizar tudo direitinho.
Uma coisa, quando fala da feiticeira, não registrei como sendo a Mirabel, então fiquei um pouco confusa, até entender que a feiticeira era a Mirabel.
Ficou bem fofo a parte em que o Thorin salva a Mirabel! 🥰
Mas… O poder de cura dele foi muito conveniente, não foi não? 😏 Como boa escritora de drama, preferia que ele tivesse morrido mesmo salvando ela, teria muito mais impacto, pq não é muito heroico entrar entre uma pessoa e a morte se você tem o poder de cura, né?
Achei muito original a tribo dos pés invertidos e a liberação do Boitatá, misturar folclore brasileiro com dragões ficou bem legal, dá pra ver que mesmo que seu livro tenha sido inspirado por milhares de coisas, ainda assim tem identidade própria, que está a sua cara!
A cena final deu um bom gancho para continuar!
Estou gostando bastante do seu romance, continue nessa pegada, mais infanto juvenil, sem coisas impróprias para menores, que vai ficar fantástico!
Espero continuar te ajudando com o romance até o final!
Até a próxima etapa!
olá, amigo.
bom, em primeiro lugar, parabéns pela coragem e determinação de participar de um certame tão diferente e inovador como esse. Vai ser certamente uma maratona para ler e escrever. Esse é o meu primeiro comentário nesse certame, entao me desculpe se for um pouco raso ou proveitoso. É diferente de comentar contos, como fazemos normalmente.
a premissa do texto é interessante. Tem muita inspiração nos RPGs medievalistas, tais como Dungeons and Dagons, The witcher, etc. Os personagens representam classes (clérigo, mago, barbaro, feiticeira) e isso tem o risco de torná-los arquétipos. Ate o momento, não vi um desenvolvimento tão complexo, mas ainda é o início do texto. Apenas o clérigo tem uma profundidade maior até agora, e isso foi bem construído. O elemento brasileiro é interessante, mas seria um pouco desperdício se a tribo estiver aí só como npcs a serem enfrentados numa quest. Mas, ainda é só o início do texto
a escrita é informal e nao toma pra si um grande protagonismo. Não vi nada de errado.o enredo é bem divertido. Tem uma dose de ação e de desenvolvimento já no início. Me pergunto se o mago e a aprendiz vão ter alguma ação na historia ou vão so narrar. Seria um potencial desperdiçado o último. No mais, o mago bisbilhotando a prima noctis me parece um pouco fora do lugar e não achei que acrescentou muito. A menos que isso apareça mais tarde na história novamente.
pra finalizar, queri dizer que gostei da leitura e estou ansioso pelos próximos capítulos.
boa sorte!
“Dicotomia do Dragão”, de Thales Soares, estabelece-se como uma narrativa de fantasia que utiliza uma estrutura metanarrativa interessante para explorar a tensão entre a ordem e o caos. O texto inicia-se na Academia Arcana de Lyverath, onde o ancião Enoch e sua aprendiz Sarah observam o mundo através de uma bola de cristal. A trama se ramifica em duas frentes: a corte do rei Zarkon, onde o mago Archelaus lançou um feitiço experimental que deixou um dragão em um estado de superposição (morto e vivo simultaneamente), e uma taverna onde o bárbaro Ulgar e o clérigo anão Thorin se unem em uma missão para resgatar Mirabel, ex-mulher de Thorin, das mãos da tribo dos Pés Invertidos. O clímax desta primeira parte culmina em uma batalha brutal que desperta a entidade mística Boitatá, sinalizando o avanço do Caos sobre a Ordem estabelecida.
O texto conecta-se com o leitor ao evocar valores universais e arquétipos profundamente enraizados no inconsciente coletivo. Como aponta Jung, o mito do herói — representado aqui pela dupla Ulgar e Thorin — reflete o esforço humano para superar obstáculos e libertar a consciência das amarras do “monstro” ou da “sombra”. A busca de Thorin por Mirabel ressoa com o tema universal da “donzela em perigo” que, em termos psicológicos, simboliza a busca pela anima ou pela totalidade do ser. Além disso, a luta entre a paz contemplativa da Academia e a violência crua do mundo exterior espelha o dilema humano entre a contemplação e a ação, um ponto central da filosofia existencialista.
Do ponto de vista psicológico e filosófico, o texto introduz questionamentos instigantes através do “Feitiço da Dicotomia”:
Tecnicamente, a obra apresenta qualidades e defeitos distintos:
O texto possui afinidade com a literatura épica clássica (como a Ilíada ou a Odisseia) na sua celebração da coragem e no foco em heróis que são modelos de ação, ainda que falíveis. A brutalidade da batalha na clareira ecoa a “alegria feroz” dos poemas nórdicos citados por Borges, onde a vitória é conquistada pelo “gume das espadas”. Diverge, porém, ao adotar o tom do romance moderno, focado no conflito interno e na desconstrução do herói.
Em suma, Thales Soares entrega um início de romance sólido, com um conceito filosófico central forte (a superposição do dragão). O maior desafio para as próximas partes será equilibrar as discussões teóricas dos magos com o desenvolvimento emocional dos protagonistas, garantindo que os personagens não sejam apenas peças em um tabuleiro de xadrez metafísico, mas seres cujos desejos e medos ressoem com a verdade humana.
Thales!
Rapaz, você tem um estilo muito bem definido. Está muito familiarizado com o universo que aborda e, sobretudo, com as pitadas de humor que aqui e ali vão rompendo uma possível solenidade que ronda o universo fantástico. Gosto muito disso, porque assim você perturba um pouco os lugares-comuns (uso o termo de nenhuma maneira em sentido depreciativo, isto é, como sinônimo de clichê, mas como tópicos frequentados por determinada tradição). Acho que esse humor bem dosado, muito mais do que a inserção de elementos folclóricos brasileiros, é o que dá a brasilidade do seu romance, sem a qual correria o risco de tornar-se uma mera imitação de um modelo externo. Não sei se você faz isso conscientemente, mas no fim pouco importa.
Já pensou em ganhar dinheiro com isso? Ou melhor: já está ganhando dinheiro com isso? Não manjo absolutamente nada de mercado editorial, mas imagino que você pode dar uma bombada dia desses…
Uma vez me falaram que os Beatles faziam música de criança para adulto. Achei muito cirúrgica essa definição, embora na hora tenha me magoado, porque adoro Beatles e senti que fosse uma diminuição do seu valor. Talvez seja, mas who cares? Eu não acho. E sinto um pouco disso em relação ao seu estilo, fato que obviamente tem uma relação com o gênero fantasia (me perdoe se erro no termo exato, desconheço essas nuances). Pelo que vi hoje, você faz uma literatura de criança para adulto. E o fato de haver cenas de sexo e violência não altera em nada isso. Não é exatamente o conteúdo que é infantil. Gostaria de poder explicar isso melhor, mas por enquanto é só um insight. Talvez tenha a ver com a fluidez, a facilidade, sei lá. O aspecto divertido, como você diz. Literatura como uma brincadeira.
Enfim, teria mil coisas pra dizer sobre minha diferença em relação às escolhas literárias, mas acho que isso não te interessaria. Então deixo aqui apenas minha impressão da leitura, que foi muito gostosa. Gostei particularmente do desdobramento metalinguístico, a posta em abismo. Muito mais que as cenas de ação, me interessa o conflito que vai nascendo a partir da observação de uma ação, entre o velho e a menina, embora precisem da ação para que se crie o contraponto. Ele obrigatoriamente nos faz pensar sobre nossa própria posição como leitores. O velho olha a história do bárbaro e teme interferir nela. Nós olhamos a história do velho e… Será que há um risco de interferência? Enfim, o que você põe em jogo é uma questão elementar da representação e da narrativa, aqui tratada com equilíbrio entre a solenidade e a ironia. Muito bom isso.
Só para não ir embora sem encher o saco, quero dizer que fico feliz de poder apreciar e ter curiosidade por uma literatura tão diferente daquela que faço e pesquiso. Pois é, cresci com Proust de um lado e Mamonas Assassinas no outro. Mas essa mesma felicidade tem um sabor melancólico quando constato que do outro lado não existe essa mesma curiosidade.
Boa sorte na continuidade, e parabéns.
Olá, Thales! Tudo bem?
Primeiro parágrafo: Bem descritivo, já ambientando o leitor onde se passará a história e qual, mas meio genérico demais para o meu gosto.
“— Primeira noite é o meu ovo… — murmurava o velho, exibindo um sorriso sacana ao constatar que, no passado, aquela mesma camponesa já havia se deitado com cinco homens diferentes. Em uma das ocasiões, inclusive, fora com dois de uma só vez: um comerciante das terras do Oeste e o sobrinho dele, que trabalhava como carregador de encomendas.” 😫
“como uma velha fofoqueira dotada de poderes cósmicos. Ambas as afirmações eram verdadeiras.” 😄
“rã pousada” está gramaticalmente certo, mas me soou estranho.
“— Engraçado ouvir isso do senhor, porque é exatamente isso o que faz. Fica aí sentado, usando magia pra olhar a vida dos outros, espiando reis, nobres e comerciantes, assistindo a todas as fofocas do mundo!” Essa fala ficaria bem melhor se o narrador não tivesse contado ao leitor exatamente isso ali atrás.
“Se eu estiver correto” me soou estranho… melhor “se eu estiver certo” ou “se estiver correto”.
“Pode até mesmo ferir a paz legada pelos Quatro Deuses e abrir uma rachadura por onde o imprevisível envenenará a realidade.” Essa frase tá na cara demais que foi pra informar o leitor, não parece natural que o velho estivesse falando isso pra criança, nem pra ele mesmo.
Primeira parte achei bem legal, gostosa de ler, sem erros e poucos estranhamentos.O texto está ágil e interessante, conseguiu prender minha atenção e gerar curiosidade para continuar lendo.
***
“Inspirou de for profunda,” forma
“Posso garantir, com toda certeza, que o dragão na sala do tesouro está morto. Mas também posso garantir que ele continua vivo.” Dragão de Schrödinger 😍
Gostei dessa segunda parte, explicou o que imagino que será grande parte da trama (julgando pelo título) informando o leitor sem parecer demasiado expositivo.
***
“Há poucos dias atrás,” 🫢
“Um dos bêbados fez o sinal dos Quatro Deuses.” 😅
“Perto dele repousava um martelo de guerra, pesado o bastante para resolver pecados alheios de uma forma alternativa.” Gostei 😄
“monstro bom é monstro morto” também acho 😌
“— Então seu trabalho é rezar e bater? — Nessa ordem, quando possível. Mas às vezes a pancada precisa vir primeiro.” 😏
“o anão encostou seu saco no do companheiro para comparar o volume. — Afaste esse saco do meu. Está ficando estranho.” 🤣 Lá ele!
“fingia limpar um copo de origem duvidosa” já usou essa figura, seria legal talvez usar outra.
“não o de moedas ” desnecessário
“recém-arrancado à força” tem como arrancar sem ser à força?
“cuspiu um dente que não sabia dizer se era seu ou do adversário,” como seria do adversário??
Essa parte foi bem interessante… muita ação, tudo muito bem descrito e interessante de ler, mas parece ser uma história que não tem nada a ver com o começo, como se estivesse se direcionando para um lado oposto, mas… sei que tudo deve fazer parte da trama e que fará sentido em algum momento. Eu prefiro coisas mais diretas, sem muita enrolação, mas mesmo assim o texto continua interessante de acompanhar.
Bem, por hora é isso.
Depois volto pra ler e comentar mais um pouco.
Parabéns por ter encarado esse desafio!
Até mais!
Olá, Thales!
O seu texto estava em minha lista de espera porque eu vi que você fez um capítulo grande com divisões internas. Como eu já imaginava, a melhor escolha seria ler tudo de uma vez.
A divisão interna do capítulo é coerente com a proposta e a minha única preocupação aqui é se o limite total do romance será suficiente para encerrar o enredo.
Que a sua criatividade sempre foi o ponto forte da sua escrita, disso ninguém tem dúvidas. O que você fez aqui é algo realmente digno de nota. Uma narrativa mitológica com toques de brasilidade, algo original e que ficou na dose certa de “putaria”. Se tivesse pesado mais a mão, desta vez realmente iria estragar a experiência.
Neste primeiro momento, compartilho apenas a impressão da leitura. Futuramente, caso haja tempo e disponibilidade, virei trazendo apontamentos sobre a parte mais técnica. Sobre isto, o que já posso deixar de antemão como uma observação é o uso dos verbos dicendi (aqueles usados pra enunciados). Há uma grande variedade deles na nossa língua, mas você se apegou ao “disse” e isso acaba incomodando às vezes. Fica um “disse me disse” desnecessário rs
Todavia, isto que apontei acima pode ser uma oportunidade para uma transformação dessa história em algo que talvez lhe caiba melhor. Vejo que sua escrita é mais parecida com um roteiro, então mesmo utilizando o modo clássico de narrativa, talvez aqui seja o caso de levar esse texto para o lado de uma peça de teatro e não um romance em si. Digo isto porque os diálogos são justamente as melhores partes do seu texto. É ali que você desenvolve as principais ideias.
Enfim, gostei do que li e fiquei com vontade de saber o que vai acontecer com os seus personagens. Eles são cativantes do seu próprio jeito e, apesar da complexidade do enredo devido a muitos elementos criados exclusivamente por você, há uma coerência interna que faz valer a pena ler toda a extensão.
Não digo que foi perfeito, porque bem no início e lá no meio tem umas gordurinhas, mas é coisa pouca. O mais importante é ser honesto com o leitor e isso você foi, parabéns!
Abraço e até a próxima!
Olá! Estarei comentando a partir de um lugar rememoração e emoção, pois não pude fazer anotações para uma impressão mais detida em recortes e também não tive como escrever logo após a leitura.
E aí, Thales, espero que esteja bem! Li o seu primeiro porque às vezes o que se quer é se transportar para um mundo completamente diferente onde as possibilidades são outras. Ou não são. Depende da dicotomia. Mas sobre o que é definitivo: o texto é fluido, os personagens são charmosos e, naturalmente, neste capítulo ficamos conhecendo mais uns do que outros, cujo desenvolvimento não parece esquecido, mas prometido para um momento mais adequado da narrativa. Dosagem que faz bem ao romance.
A construção de mundo também é feita sem excessos expositivos, com as explicações inseridas em momentos coerentes para a narrativa. Por se tratar de um romance, há bastante tempo para distribuir bem isso costurando as regras desse universo com as fases da narrativa, o lance metalinguístico do mago e da aprendiz na orbe é bem legal… e, apesar disso, direciono algumas críticas ao contexto da história. Toda a caracterização até então aponta para algo bastante genérico e veja que não sou um leitor constante de fantasia, mas tudo está aqui: o mago e a orbe; a aprendiz; o dragão; o tirano; o anão guerreiro e astuto (mistura de Thorin do Hobbit com Tyrion das Crônicas de Gelo e Fogo); o bárbaro; e a feiticeira. Como eu disse, os personagens cativam, mas neste primeiro capítulo suas caracterizações e ações equivalem aos seus arquétipos, o que empobrece a trama… ao mesmo tempo que, admite-se, é cedo para taxar e os capítulos seguintes certamente darão espaço para um aprofundamento dessas figuras.
Minha outra implicância com a caracterização é a introdução de elementos do folclore brasileiro. Veja, eu cresci com a típica fantasia de dragões, magos, guerreiros, etc. Era Conan do Shwaznegger, Caverna do Dragão, Yu-Gi-Oh, etc. Tudo massa pra caramba, aliás. Na época, eu criança me perguntava porque não tínhamos essas coisas legais na nossa história e foi só nos últimos anos que reeduquei meu olhar para nossa diversidade cultural e figuras folclóricas, inclusive trazendo disto para os meus textos… o que direi a seguir é uma escolha de abordagem minha e não implica que a sua não seja válida e, verdade seja dito, um primeiro capítulo não possibilita que eu carimbe qual será a sua abordagem… mas há alguns sinais.
A minha abordagem tem sido que, ao trabalhar com um personagem folclórico na narrativa é necessário que todo o contexto se conforme a lógica por detrás desse personagem. Então, por exemplo, falar das icamiabas como guerreiras amazônicas genéricas esvazia o sentido de mulheres indígenas guerreando na selva se não trazer o contexto dessa selva para a história. Neste capítulo, a denominação de curupira fica encerrada no traço dos pés virados, ignorando o peso de um guardião da floresta ou mesmo o elemento florestal (pelo que me lembro, posso estar errado). Assim, o ente folclórico parece um enfeite. Com o Boitatá parece que será diferente, mas para além de sua caracterização física, fica a dúvida de como sua história será adaptada…
Lembra-me Harry Potter: quando você vai olhar a definição de Castelobruxo, a escola de magia que fica na Amazônia, é dito que o castelo é cercado de “curupiras”. Em se tratando de uma figura mítica, não há completamente nada que obrigue que o Curupira é uma figura só e que não possa ser mais de um, mas, na real, parece-me que a autora da série queria dar alguma caracterização plausível, mandou o estagiário pesquisar “amazonic legends” no Google e inseriu aquilo pra dar uma fachada de globalidade para o seu mundo fantasioso. Artifício barato, empobrecedor.
Então o elemento do curupira para mim pareceu deslocado e mal apropriado, enquanto a ideia de “Ulgar e Boitatá” como elementos constituintes de um caos vindouro não me convenceu justamente porque as associações que faço a Boitatá não me parecem pertencer a esse mundo dos arquétipos genéricos… mas é como eu disse: é apenas o primeiro capítulo e o desenvolvimento pode imbuir mais originalidade aos personagens e conformar melhor os elementos escolhidos para o enredo. A história convida para mais.