EntreContos

Detox Literário.

ER 2 – Amor não é clickbait (Sarah Nascimento)

Capítulo 1: tchauzinho Vila da Prata

 

11 de Julho de 2015

 

Ir embora nas férias parecia uma boa ideia, quando meu pai deu a notícia. Agora eu estava pensando se ele não podia ter esperado tipo para o fim do ano. Ia ser da hora ir pra uma cidade grande, com shopping, cinema e uma escola com sala de recursos. Mas tipo, deixar o Thomás, a Bianca e a Gabi? Essa parte que estava sendo uma merda. A semana inteira ajudei meus pais a guardar as roupas, livros e sapatos. Isso só mostrou que realmente íamos embora daquela casa. Não que eu não acreditasse. É que a sensação era mais definitiva: toquei no fundo da gaveta sem as blusinhas, depois ouvi o eco da voz no quarto sem o guarda-roupa e expliquei para minha mãe que meus livros não podiam ficar empilhados. Ou ficavam em pé, um do lado do outro, ou iam estragar. Meio que ia sentir saudade de tudo lá. Mas com certeza não ia sentir saudade dele.

Estava indo para o refeitório. O cheiro de salgadinhos fritos fez minha barriga roncar, já tinha passado do meio-dia. Pelo menos estava livre da escola à tarde. Bia me avisou que o professor Raul queria falar comigo. Antes de entrar no refeitório, ouvi as risadas, devia ter um monte de gente lá dentro já. Estranho, ninguém tinha ido pra casa? Quando escutei a voz de Arthur.

Parei antes da entrada e fiquei ouvindo.

— Idiota, tá me imitando de novo!

Minha voz saiu num resmungo e fechei a mão num punho que adoraria acertar a cara dele. Eu ia embora mesmo, podia deixar uma história pra trás. Tipo o soco da Hermione no Draco Malfoy. Eu podia fazer aquilo também. Me deleitando com essa imagem, entrei finalmente no refeitório.

— Eu quero mais folha chulfite, professora Gláuchiaaaaa — falou Arthur, imitando minha voz mais fina. Geral deu risada.

— Ainda bem que logo eu não vô tá aqui pra ver suas imitações ridículas — falei, tentando não deixar minha voz tremer de raiva.

Ele me chamava de Pato Donald, por causa da minha pronúncia diferente de algumas palavras.

— Shua nova escola vai ter shala de recursos?

Por causa da zoeira dele, respirei fundo, mas não adiantou. Passei a língua nos dentes, onde ficava meu aparelho removível. Já me acostumara com a rotina de retirar o aparelho antes de comer, guardar no estojinho, escovar os dentes e colocar de volta. As palavras com “s” ou “ch” saíam parecendo um chiado e soando iguais, por causa do jeito que o aparelho ficava ali no céu da boca. Arthur gostava de me provocar, então ele ia ouvir:

— Vai se foder.

— Opa, crianças, nada de palavras de baixo calão, porra. Aqui é uma instituição de respeito — repreendeu Raul, usando o tom de fingida autoridade.

— Peito, peito, peito — cantarolou Iury enquanto eu me sentei no banco de madeira na ponta da mesa. Estendi a mão e percebi que alguém havia forrado com uma toalha de pano macia e fina; meus dedos deslizaram na borda da mesa de madeira.

— Laurinha, gostaríamos de te desejar uma boa viagem e dizer que vamos todos sentir sua falta — Raul continuou, agora falando com tom mais sério. Agradeci as palavras e só então reparei mais no cheiro gostoso de coxinha.

Ele falou que na mesa havia refri, bolo da padaria Pão Doce — eu adorava o bolo de chocolate de lá — e um monte de salgadinhos.

— É uma festa pra comemorar sua ida — provocou Arthur, mas Raul ralhou com ele.

Eu agradeci ao Raul pelo gesto e ele serviu todos nós. Eu peguei o copo descartável cheio até a borda e tomei um gole, estava geladinho. Refri de uva era o favorito da Bianca, talvez a Gabi reclamasse e pedisse suco e o Thomás ia competir comigo quem bebia mais copos. Não fazia ideia de onde eles tinham se metido.

— Laurita, pra onde você vai? — perguntou Iury, falando de boca cheia do outro lado da longa mesa.

— Centro de São Paulo. Meu pai disse que dá umas três horas de viagem.

— Então é pertinho pra vir visitar seus professores favoritos e amigos, não é? — perguntou Raul, me entregando um guardanapo de papel pra eu limpar as mãos depois.

— Claro, posso vir passar as férias aqui e matar a saudade.

— Pena que você vai embora e não o Arthur, ele é um saco — comentou Iury e levou um tapão do outro. O som foi daqueles tapas bem no meio das costas.

— Repete — disse Arthur.

— Arthur é um saco — desafiou Iury e veio mais um som de tapa.

— Imbecil — xingou Arthur.

— Animal.

— Rapazes, já chega, ou eu vou botar os dois ajoelhados nos agradáveis cubinhos do meu cubaritmo — ameaçou o professor Raul.

— Você ainda tem essa velharia, professor? — perguntou Arthur. A voz dele soava tão agradável quanto alguém arranhando a unha na lousa.

— Tenho sim, não fale assim de minhas peças matemáticas de museu. Um dia vão valer muito na internet.

— Professor, faz ele ajoelhar nos cubinhos com o número sete virado pra cima — sugeriu Iury, dando risada. — É o que tem mais pontinhos.

— Deve ser bem pior que milho — comentei, pegando uma coxinha de dentro da caixa de papelão na mesa. — Deixa o Arthur uns três dias, professor, uma hora pra cada zoeira que ele faz comigo.

Mordi o salgado, saboreando o gosto delicioso da massa quentinha e do frango na língua. Uma menina da minha aula de braille me perguntou se eu ia morar em apartamento lá na cidade.

— Sim, mas vou ter um quarto só pra mim.

— Bem que eu queria ser filha única — ela disse com tom sonhador.

Alguém esmagou o copo descartável. Será que foi Bia? Ela adora o som do plástico amassando todo. Onde será que minhas duas melhores amigas estavam, que não vieram na minha festa de despedida? E mais, e o Thomás? Não encontrei nenhum dos três a manhã inteira. Que estranho.

— Escutem aqui, eu vou dar mais um copo para cada um, e o próximo que danificar os pobres copinhos vai beber refrigerante fazendo concha com as duas mãos — Raul avisou, fazendo alguns rirem. Até meio bravo ele era divertido.

Peguei minha quinta coxinha e terminei minha bebidinha doce e gelada. Limpei as mãos no guardanapo de papel, passei ele nos lábios pra ter certeza de que não ficaram migalhas na minha boca. Raul me avisou, porém, que caíram farelos na minha blusa.

— Alguém esqueceu de aproximar o corpo da mesa, ou inclinou demais o guardanapo — comentou Raul, mas a voz dele demonstrava que ele sorria. Raul era a simpatia em pessoa, ele zoava a gente, fazia piada de todo mundo, incluindo dele próprio. Eu as vezes esquecia que ele tinha vinte e dois, porque na maior parte do tempo ele parecia ter a nossa idade.

— Professor, quando você fica irritado? — perguntei, passando a mão na blusinha azul pra tirar os farelos.

— Hum, me irrito quando alguém não entende minhas piadas, ou entende e não ri delas.

— Eu sei uma piada, era uma vez uma garota chamada Laura…

— Cala a boca, Arthur — disse Iury, e eu dei risada junto de outras meninas.

Nesse momento, ouvi um som de violão vindo do corredor por onde eu tinha vindo ao refeitório uns minutos antes. Continuei limpando minha roupa, pois os farelos tinham caído na minha calça jeans. Não prestei muita atenção nos passos de quem chegava, só identifiquei que a pessoa estava de tênis, pois fazia aquele som irritante de rangido quando pisava.

Não reconheci a música de primeira. A pessoa parou na entrada do refeitório e ouvi Gabi e Bianca falando juntas: “Uma música para Laura: do seu namorado que te ama muito: Thomás!”.

E ele começou a cantar “Sinais”, do Luan Santana. Foi a coisa mais fofa do mundo. Ele veio dando passos lentos enquanto Gabi guiava até onde eu estava sentada.

— Que bonitinho — ouvi a menina da minha aula de braile comentando com a amiga dela.

— Que brega — ouvi Arthur falar.

Thomas cantava preenchendo o refeitório todo com a voz dele. Meu coração disparou. Então era isso que ele estava tramando a manhã inteira! Eu sabia o quanto Thomas se sentia desconfortável em cantar ou tocar violão na frente das outras pessoas. Ele provavelmente treinou a manhã inteira. Eu não conseguia parar de sorrir.

Ele chegou no refrão, quando a letra falava de beijar até o amanhecer. Eu lembrei na hora de quando a gente se beijou pela primeira vez. Foi lá no pátio externo, depois da aula de braille. Eu tava puta com a professora Gláucia porque eu confundia a letra H e a letra J. Ela ficou me enchendo o saco a semana inteira com o erro de escrever “jistória”. E me fez recitar os pontos corretos das duas letras todos os dias antes de começar os exercícios. A voz severa dela mandando eu falar jota primeiro: “pontos 2, 4 e 5, senhora”. Depois o H: pontos 1, 2 e 5. Eu fiquei tão irritada que tenho certeza de que ela percebeu, mas não deu a mínima.

Então eu tava reclamando baixinho pra mim mesma no pátio, quase dez da manhã; o pessoal já ia sair para o lanche no refeitório. Thomás se aproximou e perguntou o que eu tava falando.

— A Gláucia brigou comigo só porque confundi J e H, que saco, todo mundo erra, que droga.

— Não fica brava não, ela é chata pra cacete. Eu errei só duas palavras no meu texto semana passada e ela me fez copiar ele umas oito vezes.

— Nunca mais vou esquecer essa porra de jistória. Não repete isso na presença do Arthur ou ele vai me zoar mais do que ele já zoa.

Thomás havia segurado minha mão, entrelaçando nossos dedos. Foi super fofo e tentei respirar mais devagar, mas era difícil com meu coração batendo tão forte.

— Não vou falar nada pra ele não, e tive outra ideia. Vamos transformar isso numa lembrança divertida. Fala aí um adjetivo nada legal pra professora que comece com H.

— Horrível.

— Outro.

— Horrenda.

— Boa! Mais um.

— Hostil?

— Esse sempre — Thomás concordou com uma risadinha. Ele tinha uma risada tão fofinha.

O sol nos aquecia de frente. Ouvi o sinal anunciando o lanche, devíamos ir. Mas Thomás disse pra eu continuar com os adjetivos desagradáveis com H.

— Hipócrita.

— Esse foi forte, mais um vai.

— Hipnoterapeuta.

E nós dois rimos.

— Esse não vale, é uma profissão, eu acho.

— Não sei mais nenhum.

— É sério, não liga pra ela, você é inteligente e fofa.

Eu ri de novo, agora ficando vermelha, minhas bochechas queimando de vergonha.

— Sou normal.

— Você é linda.

Ele soltou minha mão e deu um passo, se virando de frente pra mim, a mão dele no meu ombro. Lembro de pensar como era quentinha e agradeci por ter ouvido minha mãe e colocado a blusa rosa de alcinha. Thomás então deslizou a mão até o meu pescoço e depois encostou a palma na minha bochecha.

— Fofa e linda — ele disse baixinho.

E então ele me beijou. E tipo, ser beijada pelo cara que você gosta é maravilhoso de um jeito difícil de explicar. Dá um frio na barriga, a gente fica assim tremendo e pensando em tudo que ele pode não gostar. Só que, quando ele te beija, a alegria explode como se fosse um sol aquecendo de dentro pra fora e você quer gritar pra todo mundo que deu seu primeiro beijo com o cara que você gosta.

Aquele mesmo cara que me beijou dois anos antes da minha partida de Vila da Prata cantava pra mim uma música sobre nunca mais encontrar alguém que fizesse ele feliz do mesmo jeito.

Eu tava tremendo. Gabi, que tem baixa visão e enxerga muito mais que a Bianca, veio pra perto de mim e me abraçou. O cheiro docinho do cabelo dela lembrava chocolate. A Bia pegou um lencinho pra mim na bolsa dela porque eu comecei a chorar. Eu não podia ir embora, com aquele cara fofo e incrível dizendo que ia me amar e tudo o mais.

Thomás terminou de cantar e o refeitório todo aplaudiu. Ele entregou o violão para o professor Raul.

Gabi me soltou e Bia se afastou. Thomás e eu nos abraçamos e eu chorei mais ainda, agradecendo a música, pelas palavras e por ele ser o melhor namorado do mundo inteiro.

Nos beijamos e o professor começou a tocar “Just the Way You Are”, do Bruno Mars, no violão, e geral cantou junto. Foi tipo meu momento romântico parte dois. Nem liguei pro imbecil do Arthur estar ali.

Os lábios do Thomás tinham gosto da bala de menta que ele amava trazer pra instituição e negar dar uma pra todo mundo — só eu ganhava uma. Antes que pudéssemos chegar no refrão da música, porém, a famosa professora Gláucia chegou.

— Laura Gomes, já não falei que beijos são proibidos dentro das dependências desta instituição? Vamos, vamos, já chega.

Bom, eu não podia ir embora sem levar uma bronca da professora, né? O que me deixava puta era que ela brigava só comigo, como se não fossem necessárias duas pessoas no ato de beijar! Eu fiquei dizendo a mim mesma que era a última semana, e o Raul, com todo bom humor dele, ofereceu salgadinhos e refri pra ela pra diminuir o climão.

— Aqui, Glaucinha, temos bolinho de queijo, quase a caixa inteira ainda, come um. Vou colocar Coca-Cola pra você.

E basicamente foi esse o meu último dia na instituição Estrela Cadente.

Quinta-feira chegou e a sensação de que eu ia embora me fazia sentir a garganta fechada, como se eu fosse cair no choro a qualquer segundo. Mais caixas empilhadas, etiqueta para saber se as roupas dentro eram dos meus pais ou as minhas. Tentava não pensar no meu próximo aniversário. Ia passar na cidade nova, sem meus amigos e só com meus pais como convidados. Ia ser incrível! Só que não.

A véspera da nossa partida caiu na sexta, o dia em que as pessoas ficam de bom humor, porque não tem mais aula.

Parada em um dos lados da praça, o mais distante do muro da igreja, esperava meus pais voltarem pra irmos almoçar. A louça distribuída em caixas, então nos restava ir comer num restaurante ou pedir para entregarem em casa.

Eu ia ficar uma eternidade naquele carro, então implorei para eles me deixarem ficar enquanto iam na cidade vizinha. Meu fone de ouvido ficou no carro, então tive de aumentar o volume do TalkBack. A voz feminina leu o nome do aplicativo de ligações, deslizei o dedo pela tela até o contato de uma das minhas melhores amigas. Dei dois toques em “chamar”.

— Bia? Tô na praça, quer vir aqui? Meus pais foram comprar mais plástico bolha e fita. O Thomás será que tá em casa?

Pedi pra ela tentar chamar os dois, ele e a Gabi. O banco de pedra quase queimava minhas coxas. A saia vermelha de lycra não podia me proteger da quentura. Se ao menos fosse umas seis da tarde, o ar estaria mais fresco e com o cheiro das flores que Gabi disse que se chamavam madressilvas. O vento tava tão quente que parecia o bafo de um gigante. Esperava que eles viessem, eu queria aproveitar cada minuto que pudesse antes de ir para São Paulo. Um mosquito zumbiu perto da minha orelha e, por reflexo, já dei um tapa no meu braço, matando o inseto. Que nojo!

— Eu beijei vocêêê até o amanheceeer — cantarolei. “Sinais” não saía da minha cabeça.

Depois de cantar a letra umas três vezes na minha mente, e o sol forte quase cozinhar o meu cérebro, ouvi a voz de Bia gritando meu nome lá do outro lado da praça.

— Aqui! — bati a bengala no chão com força pra eles me acharem. Eu não ia ficar gritando no meio da rua. O professor Raul nos aconselhou a não ficar com essas manias feias de cego.

Gabi chegou primeiro e sentou do meu lado. O som dos saltos altos dela parando imediatamente. Bianca me chamou de novo, como ela devia estar a poucos metros de distância, eu fiquei chamando os dois. Ela chegou antes e me abraçou forte. Não queria soltar. O Thomás teve de fazer cócegas nela.

— Não vai embora não, amiga — Bia pediu e sentou do meu outro lado. Thomás me abraçou em seguida e me puxou para ficar em pé.

— Senta aqui comigo, amor — ele disse, trocando de lugar e me fazendo sentar no colo dele. Muito mais gostoso que o banco de pedra.

— Se a professora Gláucia visse vocês dois agora, ela desmaiaria — falou Gabi com tom sonhador.

— Gente, eu nem acredito que amanhã já vou embora, não vou ver vocês no meu aniversário de quinze anos, vai ser uma merda.

— Podíamos combinar com meu pai pra irmos te ver, Laurinha — sugeriu Bia esperançosa.

Respirei com dificuldade, os olhos arderam. Daqui a pouco eu não ia mais ter lágrimas, porra. Comecei a chorar outra vez e Thomás fez carinho no meu cabelo. Sentia a mão dele descendo pelas minhas costas, tentando me acalmar.

— Não chora mais não, amor. Vai, por favor — ele pediu, todo carinhoso.

— É, amiga, vamos fazer a corrida até o muro da igreja — pediu Bia.

— Não, pelo amor de Deus, vocês não pararam com essa coisa de criança — resmungou Gabi.

Passei a mão nos olhos, secando as lágrimas insistentes. Me esforcei para sorrir.

— Não sei, gente, vai ser a última corrida — falei, incerta.

— Vamos, você adora perder pra mim — afirmou meu namorado, todo presunçoso.

Me levantei do colo dele.

— Bóra, vamos ver quem perde pra quem.

— Top! Eu vou ganhar dessa vez, tenho um truque — declarou Bia animada.

Thomás se postou no meio, eu fiquei à direita e Bia à esquerda.

— Gabi, vem com a gente só dessa vez — pedi com tom de súplica.

— Nem pensar, correr nesse sol? Pra ficar suada e grudenta? Não mesmo. Eu espero aqui.

Deixamos as bengalas fechadas no banco, mandando Gabi cuidar para nós.

— Vamos fazer a contagem regressiva? Três, dois, um, chata! — declarou Thomás, provocando nossa amiga.

Corremos os três pela praça. Ouvi a Bianca desviando para outros caminhos ali dos canteiros gramados e plantas.

— Bianca, era pra ir reto, sua trapaceira!

Ela nem se dignou a me responder. O vento jogou meu cabelo para trás. Eu ia sentir falta disso. Estendi a mão esquerda pra não dar com a cara no muro da igreja como no passado.

Bati com a mão no muro áspero de pedra. Tava mais quente que o banco, o calor me obrigou a afastar a mão.

— Cheguei!

— Cheguei também — gritou Bianca do meu lado direito.

— Eu deixei vocês ganharem — falou Thomás vindo de trás de mim. Ele me abraçou e beijou meu pescoço.

— Para, amor, estamos perto da igreja, não pode fazer isso.

— É o prêmio pela sua vitória — meu namorado me beijou de novo mais forte.

— Quem chegar primeiro na Gabi ganha, já! — gritou Bia e saiu correndo sem esperar a gente.

— Trapaceiraaa!

Meus pais chegaram uma hora mais tarde. Convenci os dois a deixarem o Thomás passar o dia comigo, meu último dia com o meu namorado que eu nunca mais ia ver na vida. Eles não conseguiram falar não, é lógico. Depois de deixar a Bia e a Gabi em casa, fomos almoçar. Thomás pediu para passarmos na casa dele rapidinho.

Voltamos para o trabalho de enrolar plástico bolha no que era frágil, fechar as caixas organizadoras com fita, etiquetar e tudo o mais.

— Eu escutei sua voz ao vento — cantou Thomás, imitando a voz do Luan no meu quarto vazio.

Eu ri alto.

— Tá idêntico! Não vou mais esquecer essa música.

Nos beijamos e senti o familiar frio na barriga, ainda que namorássemos desde os meus treze.

Thomás me deu uma carta em braile dizendo que nunca ia me esquecer e que eu era o amor da vida dele. Tipo, a coisa mais romântica. E a gente se beijou mais um monte no meu quarto enquanto meus pais empilhavam as últimas caixas.

E mais cedo do que eu esperava, o sábado chegou. Eu me sentava no banco de trás enquanto meu pai nos levava pela avenida principal, passando na frente da minha antiga escola, reconheci pela lombada que ele diz que estraga a suspensão do carro. Nada mais de caminhar com minha mãe na praça ali ao lado.

— Não acredito que estamos indo morar em São Paulo — comentou minha mãe, abaixando o vidro da janela. — Se ao menos abrissem uma filial do seu escritório aqui, não é amor?

— Cidades pequenas têm pouco movimento, isso significa menos trabalho, o que quer dizer que teríamos menos dinheiro — meu pai explicou.

Ouvi minha mãe respirar fundo.

— Pronto, saímos da cidade — ela anunciou com um tom de quem estava se segurando para não chorar.

— Tchau, Vila da Prata — sussurrei.

A cidade nova precisava ser foda. Quer dizer, a cidade nova com certeza ia ser foda! Eu ia terminar a escola, cursar Direito igual ao meu pai e um dia trabalhar no escritório junto com ele. Ia ser demais. As lágrimas vinham aos meus olhos enquanto minha mãe me lembrava que existia uma coisa chamada WhatsApp. Todo mundo sabe que no começo a gente se esforça pra conversar. Mas depois de um tempo, Gabi e Bia iam esquecer de mandar mensagem, ou eu ia ficar com preguiça de responder. Conversaríamos sobre pessoas diferentes que elas não conheciam. As duas iam comentar momentos que eu não estive. Podiam até ter piadas internas onde só as duas entenderiam e eu ficaria rindo sem graça. No fim, não ia ser igual. E eu não achava que ia encontrar uma Bianca que me escutasse falar sem parar sobre meus pais e as discussões deles, uma Gabi que adorasse organizar desfiles de moda fingindo que somos altas e elegantes vestindo as roupas chiques da mãe dela. E até parece que eu ia encontrar um garoto tão doce quanto Thomás, que cantaria pra mim e ia tentar me animar depois de um dia ruim.

 

Capítulo 2: quando a segunda-feira não acaba com você.

 

02 de março de 2026.

 

Mais uma segunda-feira, o dia mais odiado da semana. O início da rotina estressante do trabalho. Não que meu trabalho me estressasse. Passei a escova desembaraçando as mechas do meu cabelo castanho. Guardei a escova na gaveta do armário sob a pia do banheiro e passei o desodorante, escovei os dentes e lavei o rosto — o que eu esperava que espantasse o sono — ainda não havia funcionado. Vesti a blusa roxa e a saia longa preta. Coloquei minhas sandálias pretas com salto baixo e, por fim, um casaquinho preto felpudo. Para garantir que as roupas combinavam, desconectei o celular do carregador, ouvindo o TalkBack anunciar a bateria em cem por cento, cliquei no “Be My Eyes” e tirei uma foto minha. O aplicativo leu a descrição da imagem citando quase todas as minhas roupas escuras.

— Tô precisando comprar cores mais variadas.

Bocejei enquanto passava os braços pelas alças da mochila. Retirei a chave do gancho perto da porta, peguei a bengala e saí para o corredor do prédio. Tranquei a porta e peguei o celular no bolso do casaco, aproveitando para deixar a chave ali, só para pedir o Uber. Minutos mais tarde, eu entrava no carro com esperança de tirar uma soneca até o prédio da redação. Meia horinha de sono ia bem. Porém, Lucas, o motorista, puxou assunto e não consegui ficar na minha.

Ele adorava séries e eu curto indicações. Se não fosse Marisa, eu não teria assistido Atypical no ano passado.

— A narração mostra que quem escreveu é sensível, inteligente e profundo — comentei, dando mais detalhes do enredo.

— Eu vi uma série que tinha o personagem narrando tudo, acho que se chama You. Conhece?

— Não, sobre o que é a história?

Enquanto Lucas me deixava curiosa sobre a série, os minutos se passavam depressa e, antes do que eu imaginava, tínhamos chegado no prédio da Portal Paulista.

— É aqui, moça, bom trabalho — o motorista do Uber falou com sorriso na voz. — Depois assiste a série do Joseph Goldberg. Acho que vai gostar

— Beleza, valeu pela indicação, bom trabalho — respondi, abrindo a porta e descendo do veículo.

Dei um passo pra longe do carro e abri a bengala, segurando o cabo e soltando os outros gomos que se encaixaram uns nos outros com um som metálico. Reprimi um bocejo, estiquei o braço direito e comecei a mover a bengala à minha frente, sentindo o costumeiro hall de entrada do prédio do trabalho. Meu casaco preto me protegia do vento frio. Não usava por causa do breve caminho até a entrada, mas sim pelo ar-condicionado que ficava bem em cima de mim na mesa do escritório. Subi o degrau da entrada e entrei, passando pela porta automática que abria quando nos aproximávamos. Eu gostava dessa sensação de familiaridade: tapete grosso na entrada, cheiro de jasmim que se espalhava pelo ambiente, provavelmente através de aromatizantes. Quantos será que eram necessários para um prédio? Será que era possível colocar dentro do ar-condicionado?

Cheguei na catraca e esperei o funcionário, pois meu crachá não estava funcionando.

— Bom dia, moça. Posso te ajudar? — o segurança perguntou, e entreguei o crachá explicando que o sistema não queria me liberar.

Ele aproximou meu crachá do leitor, repetindo o que eu já havia feito, e viu com os próprios olhos que não dava certo.

— Você já fez o reconhecimento facial?

— Não, tem essa agora aqui também?

— Vou liberar pra você com o meu crachá, mas acho que terá de ir verificar o procedimento no RH.

— Que ótimo — resmunguei, irritada.

O segurança liberou a catraca e me conduziu até o elevador. Lá dentro, comentei sobre reconhecimento facial ser um saco.

— Nunca funcionam com a gente. Nos aplicativos do banco, por exemplo: afasta o celular, aproxima o celular, fica num lugar iluminado, não se mexe. Nada disso adianta nada.

— Eu imagino. No meu caso, eu não consigo fazer o reconhecimento tão bem porque não consigo ficar sem piscar.

Eu sorri.

— Os olhos ardem, né? — comentei, e ele concordou. Descemos no quinto andar. Apesar do meu salto baixo, as sandálias ainda faziam barulho. Entrelacei meu braço no do segurança. Não era o jeito correto de segurar na outra pessoa. Da próxima vez eu explicaria a forma certa. Ele insistiu em me levar até a entrada da sala.

— Obrigada.

Ouvi os passos se afastando e senti no rosto a temperatura mais fria por conta do maravilhoso ar-condicionado.

— Quer dizer que você não sabe mais chegar na nossa sala? — perguntou Marisa, com tom de acusação.

Eu senti o cheiro do café que ela adora tomar. Entramos juntas.

— Eu só tava sendo legal, não ia falar para o cara: me larga que eu sei ir sozinha.

Marisa fez o costumeiro som de desconfiança, e Dylan me deu bom dia quando caminhei meia dúzia de passos e bati com a ponta da bengala na lateral da mesa. Retirei a mochila, me acomodei na cadeira confortável, trazendo a mochila para o meu colo. Dylan falou que a chefe já queria me ver no Teams logo cedo.

— Que horas que são, Dylan?

— A mesma de ontem — respondeu, e Marisa riu ali perto.

— Eu mereço — reclamei, tirando o celular do bolso.

Apertei o botão Power, a tão conhecida voz feminina do TalkBack declarou que eram dez para as oito.

— A Pâmela já chegou, Mari?

— Acho que ela tá no banheiro. Por quê?

— Ia pedir um café e pão de queijo. Não sei como ela busca isso em cinco minutinhos na copa.

Bloqueei a tela e larguei o celular ao lado do notebook que retirei da mochila. Em seguida, me inclinei e coloquei ela embaixo da mesa. Ignorei a fome. Pensei que não podia virar rotina assistir série até duas da manhã.

Liguei o notebook ouvindo Dylan cantarolando o refrão de pagode, que com certeza ia ficar na minha cabeça o dia inteiro. Após mais um bocejo, estiquei o fio do fone, colocando o arco sobre meus cabelos. Me movi para frente e conectei a outra ponta na entrada USB. Eu precisava terminar duas matérias, mas só conseguia pensar no que ia comer na hora do almoço. Quatro longas horas até lá. Cacete, eu não ia aguentar. A Pâmela bem que podia voltar do banheiro e ir salvar minha vida trazendo o pão de queijo com café. Se a Quézia me visse comendo na minha mesa de novo, ela ia gritar comigo, mas a fome tava roubando meu bom senso. O Narrador do Windows pediu a senha, digitei rapidamente. A voz inicial do computador parecia estar cansada e com fome igual a mim. O Windows carregou, meu leitor de tela NVDA iniciou em segundos.

— E aí Dylan, como vão os preparativos? — perguntei ouvindo meu amigo e o computador ao mesmo tempo. O fone de um lado só era ótimo para isso.

— Tão indo bem, me deixando maluco, mas a Ágata está adorando. Eu tô pensando em arrumar um segundo ou terceiro empregos para dar conta dos gastos.

Fiz login no sistema do Portal Paulista, depois alternei as janelas com ALT-TAB e cliquei no

aplicativo de bater o ponto: “oi/tchau”. Sorri como de costume. Quando esse nome ia perder a graça? Talvez nunca. Com outro atalho de teclas meu leitor anunciou que o foco agora se localizava na Área de Trabalho. Digitei t para ir direto ao ícone do aplicativo.

— Tenho uma sugestão para seu segundo emprego, Dylan — comentei virando o corpo para a direita e tomando cuidado para não falar tão alto. — Você podia ser garçom ou monitor naquelas festas de criança.

— As crianças iam pisotear ele — comentou Marisa a pouca distância. — Pensa pelo lado bom, você ia ficar mais alto todo esticadinho.

— Com duas amigas como vocês, quem precisa de inimigos? — ele respondeu com tom de desapontamento.

Eu ri, cliquei na minha conta e entrei no Teams, após descer pelos ícones usando Tab. A chefe logou, o NVDA leu a notificação, porém eu não ouvia nada. Ela digitou no chat dizendo que eu estava sem som.

Respondi no chat que ela estava sem som para mim. Quézia então mandou eu ir para a sala dela em cinco minutos. Respondi que estaria lá.

— O que foi? — perguntou Dylan quando eu xinguei o aplicativo.

— O Teams travando, deu um bug esquisito aqui. Vou na reunião presencial.

— A call presencial com a chefe numa segunda? Boa sorte.

— Laura, antes de você ir, comprei isso para você no festival de trufas — Marisa falou, me entregando uma caixinha que devia ter umas oito trufinhas dentro.

— Império do cacau? Mari, eu quero uma caixa dessas, cadê a minha — protestou Dylan, admirando meu presente.

— Só comprei pra Laura, se ela quiser ela divide com você.

— Por que não ganhei uma?

— Porque eu não gosto de você.

— Isso não é motivo.

— Claro que é.

Guardei minha caixa na mochila e peguei a bengala. O som alto e metálico dos gomos se encaixando rápido fez Henrique, provavelmente ocupando uma das mesas no fundo, soltar um resmungo de surpresa.

— Tentem não se matar, eu já volto.

Segui até a lateral da sala, atualmente livre de obstáculos. No passado, as mesas ficavam dispostas de forma que eu acabava desviando de um e esbarrando em outro no caminho. Como demorou para a Quézia compreender a situação. E ela própria esbarrava nas pessoas, assim como eu.

Entrei no curto corredor que dava na sala dela, bati na porta e, como não escutei resposta, entrei logo. Talvez fosse para eu esperar lá dentro.

Com a bengala, rastreei a parede até achar a cadeira de frente para a mesa da minha chefe e me sentei. O cheiro doce e um tanto enjoado de essência de sakura me fazia lembrar por que eu não gostava muito de vir na sala de Quézia. Levantei a mão livre, passei os dedos pela borda da mesa e encontrei o troféu que ela ganhou.

Prêmio Comunique-se por reconhecimento. Que presentão de Natal, um prêmio pela sua carreira. Se eu ganhasse um Comunique-se, talvez meu pai aceitasse que não segui no direito como ele queria. A ideia de eu me tornar a doutora Laura vinha desde que eu perguntava, quando criança, se ele decorava todas as leis do Brasil. Ele não ria com frequência, mas nessas lembranças a voz dele soava risonha e ele prometia que eu ia entender quando entrasse na faculdade. Suspirei sentindo as lágrimas virem aos meus olhos. O frio do metal do troféu não era desagradável. A estatueta pesava mais do que se poderia supor, já que devia ser maior que minha mão. Ouvi passos de salto alto vindo na direção da porta.

— Cacete, não sei para que lado estava virada.

Pousei a peça valiosa na superfície de madeira, empurrando o troféu mais para o centro da mesa. Ouvi a porta atrás de mim abrir e fechar em seguida. Um suspiro e depois um estalo seco.

— Porcaria de bengala, não fica encostada direito na parede — reclamou minha chefe, recuperando o objeto e encostando no canto com sucesso. — Vou mandar colocarem um gancho aqui. Melhor deixar pendurada.

— Logo você se acostuma, a bengala não é tão ruim.

Quézia contornou a mesa enquanto falava.

— É o que o meu marido diz. Depois de eu machucar o nariz dando com a cara naquele poste… melhor com a bengala do que sem ela.

— Quem é baixa visão não pode andar correndo. Regra básica — comentei tentando não soar condescendente.

Quézia sentou e limpou a garganta. Era o sinal para o fim de conversa fiada. A voz dela assumiu o tom de chefe, não mais da pessoa chateada com os percalços da vida.

— Bom dia, Laura Gomes, a Elaine do RH quer uma foto sua para o reconhecimento facial — Quézia anunciou, movendo a cadeira com rodinhas do outro lado da mesa e batendo o pé num padrão irritante. — Tive uma reunião com ela ontem e expliquei sobre o reconhecimento facial ser complicado para deficientes visuais. Manda sua foto para ela por e-mail ou pelo Teams.

— Pode deixar. Assim que terminarmos aqui eu envio. Meu crachá já não passou agora há pouco.

— Outro ponto… onde está meu controle do ar?

Ela ficou checando em voz alta cada lugar que procurava: gaveta, sobre a mesa, na prateleira lateral, ao lado do notebook. Enquanto ela tentava achar o controle, eu tentava não rir. Repetindo na mente a frase dela: “onde está meu controle do ar?” Imaginei aqueles instrutores de ioga dizendo “respire, conte até três junto comigo. Vamos lá, agora solte devagar o ar pela boca”. Eu apertei os lábios tentando me impedir de rir.

— Achei! Então, eu tenho uma cobertura para você fazer na vila da Prata.

Aí estava um nome que eu não ouvia há séculos. Ia ser interessante voltar na minha cidade da infância e descobrir como ela mudou ou cresceu em pouco mais de dez anos.

— Devo escrever sobre o quê? Ou quem?

— Turismo, curiosidades, feirinhas, destinos para viagens.

— Isso parece incrível — falei empolgada. Ia ser a segunda vez que faria matérias grandes fora da redação.

— Lá existe um instituto que ministra aulas para cegos. Quero que escreva sobre as atividades por lá.

— O seu foco este ano está realmente em pessoas com deficiência.

Ouvi os bipes característicos de Quézia diminuindo o ar, eu soube por conta do gelo que ficou na sala. Cheiro de sakuras geladas. Então era assim que cheirava o Japão no inverno?

Quézia voltou a falar e me esforcei para não divagar de novo.

— Quero mostrar que nós podemos chegar longe, Laura. Termine as duas matérias que você vinha trabalhando, quero elas até o fim do dia. Aliás, até o almoço. Depois vá buscar as passagens, reservar o hotel por cinco dias e vai levar alguém da equipe para te ajudar.

— Posso escolher qualquer um? — perguntei pensando na Marisa. Ela seria minha primeira opção sem a menor dúvida.

— Claro que não. Suas opções são Pâmela Araújo e Dylan Ribeiro.

Dei de ombros, resignada.

— Eu devo então focar nas atividades turísticas. Quanto à instituição, devo falar sobre as aulas e alunos de lá, certo?

— Isso, e não poupe elogios, seja realista, mas com um toque de positividade, está me entendendo? — ela perguntou e, em seguida, pediu para eu prestar atenção.

Me inclinei um pouco para frente e Quézia abaixou o tom de voz.

— Vocês são minha equipe oficial. O departamento da Quézia, parabéns para vocês significa parabéns para a chefe.

— Entendi, vou fazer um bom trabalho. Já morei nessa cidade, então vai ser ótimo retornar — comentei, animada. — Lá deve ter mudado bastante, não é?

— Não são férias, Laura, nada de perder o foco.

— Perdão, só estou curiosa com a perspectiva de reencontrar as pessoas e os lugares onde eu cresci.

— Perfeito, voltando ao que interessa, quero uma matéria por dia, vou avaliar pessoalmente para colocarmos no Portal Paulista.

— Eu não posso comprar as passagens pela internet?

— Tem taxa de conveniência, melhor ir pessoalmente, a rodoviária não fica tão longe. Use isto para pagar.

Ela me entregou um cartão de crédito e me falou o valor máximo que eu podia gastar durante o período fora da redação. Fazer matérias de turismo talvez não me fizesse ganhar um prêmio, porém, sendo positiva como Quézia pediu, mostrando minha competência e criatividade, eu poderia me tornar a próxima jornalista sênior. A segunda na equipe, junto com o insuportável do Henrique. Ia ser tão bom me gabar disso! Dizer a ele que estávamos no mesmo patamar.

Saí da sala de Quézia poucos minutos depois. Não consegui deixar de sorrir. Ia ser divertido demais escrever em outra cidade, passear, conhecer os lugares novos. A questão agora martelava na minha cabeça: Pâmela ou Dylan? Enquanto tentava escolher entre eles, me sentei de novo no meu lugar e comecei a cuidar das matérias. Uma sobre o uso prejudicial de inteligências artificiais e a outra falando da exposição responsável de crianças ou adolescentes nas redes sociais.

Enquanto eu digitava, troquei o fone de um lado só para o outro, que era um arco completo e ia me isolar dos meus colegas por uns minutos.

— Boa escrita, Laurinha — falou Dylan, me adulando só para ganhar um dos meus chocolates caros. Eu o conhecia muito bem.

Coloquei uma das minhas listas de reprodução para o trabalho. Cliquei na dez, ela continha as mais tocadas da banda OneRepublic. Depois de terminar a primeira matéria, parei de digitar e me recostei na cadeira.

Dylan ou Pâmela? O Dylan tinha amizade comigo há uns dois anos, no nível de ele estar comigo na exposição de arte com audiodescrição. Melhor nem pensar naquela tarde. Ele tinha a mesma idade que eu, vinte e seis, e era bem mais divertido que a Pâmela. Por outro lado, eu sabia que ele detestava mudar os planos. Em uma viagem de trabalho, às vezes temos de nos adaptar. Outro fato é que a pobre da Ágata ia escolher tudo sozinha e levar os dois à falência. Ele ia mesmo ter de arrumar uns três empregos para poder ter dinheiro pra festa de casamento. Sobre a Pâmela, bem, ela fazia hora extra com a gente todas as vezes que pediram. Mesmo precisando cancelar as aulas de violão, o que é um hobbie muito legal, a propósito. Além disso, Pâmela segue as ordens. Quando o Henrique jogou uma caixa de formulários na frente dela, mandou Pâmela escanear todos os cinquenta e lançar no sistema, ela assim o fez. Mais tarde naquele dia, Henrique voltou e disse para ela organizar os arquivos por departamentos e cargos. Pâmela fez sem reclamar. Bom, ela reclamou depois, mas aí até eu. Henrique gosta mesmo de inventar trabalho para os outros, como se já não tivéssemos o que fazer. O que me faz pensar duas vezes no caso da Pâmela é que ela vive perdendo a bolsa, esqueceu o celular na pia do banheiro aqui da empresa três vezes, já derrubou a chave de casa no ralo da entrada do prédio, pra onde vai a água da chuva.

Me espreguicei e voltei ao trabalho. Dylan tinha mais vantagens, eu podia lidar com a falta de paciência dele para mudanças. Ia ser bom para ele, Vila da Prata ficava no interior de São Paulo, isso ia desestressar meu amigo.

Terminei as matérias e revisei a ortografia. Depois enviei as duas para Henrique fazer os ajustes visuais que ele gostava.

— Bom dia, Laura, que brinco bonito — disse Pâmela, na mesa do outro lado da minha.

A voz dela me fazia pensar naquelas moças japonesas que têm a voz aguda e doce.

— Brigada, Mel.

— O que são essas pedrinhas azuis no pingente?

— Chama lápis-lazúli.

— Mas é uma pedra, como pode ser um lápis? — intrometeu-se Dylan.

— Boa pergunta, por que chama lápis-lazúli, Laura?

— Sei lá, gente, perguntem para alguma IA.

— Segundo seu artigo, estamos preguiçosos por fazer exatamente isso — comentou Marisa. A voz dela vinha da esquerda, então hoje Marisa havia de fato conseguido subornar o Henrique com o café chique da cafeteria perto da casa dela. Ela devia ter uma lista com tudo que os colegas gostavam e usava isso contra nós, não era possível!

— Curiosidades não são perda de tempo ou falta de raciocínio — argumentei, e ela fez um som de desaprovação.

— Tenho uma notícia pra você, uma surpresa — sussurrei para o Dylan.

— Aceito qualquer trufa que não seja de maracujá ou doce de leite.

— Não é isso, é que eu precisava escolher… — comecei a explicar, porém fui interrompida.

— Pâmela, por que a pasta compartilhada da equipe tá com senha? Você mexeu nela por último, que senha colocou? — a voz profunda e mau-humorada do Henrique preencheu a sala, e até eu me encolhi um pouco de susto.

— Era a pasta da equipe? Mas eu estava trabalhando nela sozinha a semana passada inteira — justificou a Pâmela.

— Até quinta não tinha senha na pasta, então todos nós estávamos acessando. Fala logo a senha, por favor — ele pediu com um tom em que o “por favor” era só um acessório inútil na conversa.

— Dojo casa house. Tudo junto, e a palavra dojo é maiúscula — respondeu a Pâmela com tom de quem queria se enfiar embaixo da mesa do escritório e não sair nunca mais.

— Adorei a senha, Ken — falei, rindo. A senha dela era o nome da casa do Ken no último filme da Barbie. Aparentemente, ninguém além de mim no escritório entendeu a piada. Que decepcionante.

Abri o navegador do notebook enquanto esperava o Henrique aprovar ou modificar as minhas matérias. Digitei no Google: hotéis em Vila da Prata e gastei os próximos minutos procurando um que não fosse caro. Não que houvesse muitas opções de qualquer forma.

— Não acredito, Pâmela, por que os títulos são “reformulação da estrutura familiar, a mulher como chefe de família, um, dois e três”? O que é isso? — questionou Henrique, irritado.

— Por que não trocam mensagens escritas? Melhor que atrapalhar a gente com a bronca que é só pra moça — observou Marisa.

— Não estou dando bronca, estou fazendo uma pergunta. Por que, Pâmela?

— É que eram versões tipo rascunho, revisada e final.

— E essas outras: descomplicando a política sim; descomplicando a política, agora sim e descomplicando a política, com certeza?

— Vai lá na mesa dele, Pâmela, pelo amor de Deus — pediu Marisa, e a coitada foi conversar e ouvir a chamada de atenção mais de perto.

— Vixe, ela vai ter que arrumar essa pasta nos próximos dias. A Quézia odeia essas enrolações todas juntas — lembrou Dylan.

Encontrei no Google um hotel legal chamado Paraíso. Fui olhar os quartos individuais para comparar as diárias com o outro hotel na cidade ao lado.

— Retire essas outras versões e as coloque numa pasta de rascunho e outra de revisão, organize direito e não faça isso de novo — dizia Henrique com o tom de autoridade que eu sabia que ele usaria o tempo todo conosco se fosse nosso chefe.

— Vou começar agora, não vai demorar muito, eu vou fazer isso bem rápido — garantiu Mel, com a voz tremendo um pouco de nervoso.

Ela voltou para a mesa dela, e todos ouvimos Henrique falar o quanto esses jornalistas novos eram incompetentes.

— Não é para tanto, Henrique, já deu, né — falou Dylan, tentando encerrar o assunto.

Mel foi ao banheiro e Henrique me enviou de volta minhas matérias já formatadas e com as palavras grifadas. Ele colocou a lista de tags que eu devia sugerir, e apaguei uma por uma. Eu sabia colocar minhas próprias tags e foi o que fiz, e depois subi os arquivos na pasta da equipe.

Me levantei e peguei a bengala. Segui para o banheiro feminino. A pressa me fez ir ao mais próximo, em vez do banheiro maior para deficientes.

Entrei e fiz o que precisava em minutos. Ouvi então um som de chamada de voz.

— OI, amor — a voz aguda e chateada vinha de um ponto à direita. — Estou no trabalho.

Destranquei a porta devagar, saí e dei três passos até a pia.

— Levei uma chamada de atenção. E nem foi da chefe, foi do cara que acha que é chefe. Odeio ele.

E Pâmela foi contando a situação para o ficante dela, o Rodolfo. Eu comecei a lavar as mãos e senti pena dela. A pressão era enorme quando você era uma estagiária que começou há um mês apenas. Talvez eu devesse ajudar. Se eu levasse ela comigo na viagem em vez de levar o Dylan, isso podia deixá-la animada e poderia provar aos outros que ela era capaz de fazer muito mais. Pâmela abriu a porta da cabine e saiu do banheiro.

— Eu não quero falar isso, agora não — ela disse com a voz chorosa. — Não quero falar isso, amor.

Usando o hábito e a memória, eu achei o papel para secar as mãos. Puxei umas cinco folhas, devia ser o suficiente.

— Não tô sentindo nada disso nesse momento, amor — ela respondeu, cansada. — Tá, eu vou tentar, só pra você parar de me encher. Eu sou forte, eu sou competente, eu sou humana e posso errar.

Ela repetiu as três afirmações sem muita convicção. Em seguida, ela se despediu do rapaz e desligou.

Joguei os papéis no lixo ao lado da pia e me virei para falar com minha amiga.

— Mel, não liga não, o Henrique adora implicar por qualquer coisinha. Ele pega até no pé da Quézia.

— Eu juro que não sabia que a pasta era para todo mundo mexer, eu fiz do jeito que eu organizo.

— Não deixa ele te chatear. Olha, eu aposto que você é muito mais responsável do que ele pensa, por isso queria te chamar para ir fazer umas matérias comigo numa cidade do interior.

— Sério, Laura? Posso ir com você? Onde é? Fica longe do escritório?

— Deve dar umas três horas até lá, pensa só, uma cidade do interior onde a gente vai passear e ver lugares para indicar aos outros.

— Eu topo, vamos quando?

Eu sorri com a empolgação imediata.

— Amanhã, vou avisar a Quézia que escolhi você, a gente sai amanhã cedo. Eu vou pegar as passagens agora.

Eu voltei para minha mesa, fechei o notebook. Se Dylan não perguntou aonde eu ia, ele devia estar ocupado. Abri a mochila, peguei uma das trufas e coloquei do lado do notebook do meu amigo. Me despedi da Marisa e fui falar com a Quézia.

Ela estava no celular com o marido, listando para ele os motivos pelos quais deviam continuar pagando o Sam’s Club. Esperei pela pausa enquanto ele, com certeza, rebatia cada ponto que ela citou e comuniquei que escolhera Pâmela para ir comigo.

Ajustei as alças da mochila nos ombros enquanto o elevador descia. Saindo às onze, eu ia conseguir almoçar logo. Ainda bem!

No trajeto breve de Uber até a rodoviária, fiquei pensando sobre voltar para a cidade onde nasci. O que teria acontecido com a Bianca, o Thomás e a Gabriela? Será que eles estariam morando lá ainda? Ir para a instituição me faria, com certeza, encontrar eles, ou pelo menos ter notícias. Como seria se Thomás tivesse se casado com Bianca? Seriam um casal fofo. Ele sempre foi romântico e ela era atenciosa. Gabriela era mais exigente, ele teria que lembrar de todas as datas importantes e dar presentes à altura.

Desci na rodoviária recebendo, aliviada, a ajuda do motorista de Uber. Ele me levou até um funcionário e se foi, após eu agradecer a ajuda. Caminhei em silêncio ao lado do rapaz depois de explicar para qual cidade eu queria comprar passagens. Ao chegar no guichê, retirei as passagens e não aguentei mais o calor. Guardei os papéis na mochila e o casaco preto foi junto. Minha mãe achava feio eu andar de mochila para cima e para baixo, na opinião da dona Cláudia, a filha de vinte e seis parecia ter dezesseis de novo, atrasada para a aula de biologia do ensino médio. Mas olha a praticidade! Não queria mais a blusa? Enfia na mochila e tá tudo certo. Até parece que eu ia conseguir levar mochila, blusa no braço e bengala, impossível!

Retornei com o funcionário para a saída da rodoviária. Resolvi que ia almoçar em casa assistindo Once Upon a Time.

Passei a mão por dentro do elástico da bengala, pendurando-a no meu pulso, só para garantir que ela não ia escorregar, e fui então pedir o Uber para minha casa.

O vento quente não aliviava nada o clima da cidade. O cheiro adocicado de alguma barraquinha de milho próxima me deixou ainda com mais fome que antes.

— Já encontrei motorista, mas ele tá meio longe ainda, moço — eu disse, mostrando a tela do celular ao funcionário.

Ele leu a placa em voz alta e disse que ia me avisar quando visse o carro chegando. O sol forte nos obrigou a voltar uns metros e ficar embaixo da cobertura. A sombra bem-vinda aliviava o calor, mas não totalmente.

Deslizei o dedo na tela, ouvindo o TalkBack ler as informações sobre a cor do carro. Reparei que a placa formava a palavra “vil”, achei engraçado e printei para mandar no grupo “maus elementos”. Escrevi na legenda da foto: “será que o motorista é malvado?”. Só consegui fazer essa proeza porque o motorista ainda ia demorar sete minutos, e todos sabem que sete minutos do Uber podem ser dez, ou quinze. Depende do trânsito e da vontade de quem está dirigindo.

Li a mensagem de Dylan: “tomara que ele seja horrível e te sequestre para um país de nome impronunciável”.

Gravei um áudio de volta, dando risada.

— Quanta amargura nesse coração.

Dei dois toques em “recentes” na tela e voltei ao aplicativo do Uber. Seis minutos ainda. Senti o celular vibrando com notificação e retornei ao WhatsApp.

— Ele está puto porque você vai levar a Pâmela para a matéria em campo e ele vai ter de organizar a pasta geral que ela bagunçou — disse Marisa no áudio, se acabando de rir. — É por essas que você é a minha número um, Laurinha.

— Eu te deixei uma trufa, Dylan. Nem assim estou perdoada?

O próximo áudio era do Dylan:

— Nem todas as trufas de café expresso da Império iam fazer eu te perdoar, Laura Gomes.

Mandei emojis de chocolates e corações.

Veio outro áudio dele:

— Talvez eu te perdoe por duas caixas de trufas. A propósito, eu estou apaixonado por esse recheio de café expresso — o restante do áudio ele sussurrou. — Esse chocolate é quase tão bom quanto sexo.

Marisa mandou figurinha de um policial com algemas.

— Cuidado, Marisa, ele pode gostar dessas algemas aí — alertei com um sorriso ao falar.

Fui olhar o Uber outra vez. Três minutos para o vil motorista chegar. Eu deslizei o dedo na tela até ele reler as informações da placa e eu vi o nome do motorista: Arthur.

— Nossa, universo, não tô gostando desses sinais — comentei baixinho. O funcionário até pensou que eu estava falando com ele. Eu não podia ficar com essa mania de falar sozinha. As pessoas iam achar que eu tinha um parafuso a menos. Recebi uma ligação. O TalkBack falou o número inteiro: final zero cinco. E eu, inocente, pensando que ele tinha desistido, cacete. Recusei a chamada. Uma hora ele ia ter de me deixar em paz.

O carro chegou depois de mais uns três minutos. Agradeci o funcionário que me levou até a porta da frente do veículo.

Entrei no carro e falei o código de quatro números para iniciar a viagem. Pior que o Arthur não era mau nem nada. Depois de uns quarenta minutos de conversa sobre o outro emprego dele, a esposa e os filhos, desci na frente do meu prédio. Desesperada para almoçar.

Não ia ficar sujando louça, já que eu ia viajar no dia seguinte, então pedi logo duas marmitas no iFood. Cinco dias fora iam me obrigar a usar a mala maior, ainda mais porque queria levar o notebook, sapatos, blusas.

Almocei vendo minha querida série. Ou não tão querida, pois, por culpa dela, eu chegara atrasada no trabalho de manhãzinha. Depois liguei para o hotel para reservar um quarto só com duas camas. Outra vantagem que eu não havia pensado antes. Ia ser mais confortável dividir o quarto com a Pâmela do que com o Dylan.

Marjorie mandou mensagem dizendo que ia desmarcar a sessão de terapia, e depois eu comecei a pesquisar o endereço da instituição de cegos de Vila da Prata. Estrela Cadente, um nome interessante de um fenômeno completamente visual. Pensei na voz de audiodescrição do último filme que assisti. Ela provavelmente diria assim para descrever o fenômeno: “uma concentração de riscos brilhantes se precipita do alto na direção da cidade. De noite, várias pessoas olham para cima com ar sonhador”. Sorri, que ideia sem sentido pedir coisas para meteoros em chamas caindo na Terra. O bom seria pedir que nenhum deles caísse na sua cabeça enquanto tá fazendo seu pedido.

Meu celular tocou e atendi, deitada no sofá.

— Oi, meu bem, é a mãe. Como você tá, querida?

— Oi, mãe, estou bem. E a senhora? Melhorou da gripe?

Passamos alguns minutos nessas banalidades, até que contei:

— Eu vou para outra cidade, viajar a trabalho. Vou escrever matérias interessantes sobre esse lugar, compras, comida, atividades pra diversão. Não é o melhor emprego do mundo?

— Que cidade você vai, filha? Já viu se tem que tomar vacina para alguma doença? Leva seu remédio da alergia, não esquece.

— Vou levar sim, mãe. Então, você não adivinha, eu vou para a Vila da Prata.

Pronto, dona Cláudia enlouqueceu com essa pequena informação. Mandou perguntar de tanta gente que nem me esforcei para lembrar a lista de nomes que ela deu.

— Pode deixar, vou procurar cada uma dessas pessoas, enquanto escrevo, visito os lugares e mando as matérias para minha chefe.

— Você tá usando aquele tom, tá sendo irônica, não é, Laurinha?

— Desculpa. E o pai tá bem?

— Tá sim, ele pegou um caso grande no escritório e tá ocupado. Falei pra ele não se matar de trabalhar, mas ele não me escuta. Depois ele vai ter um esgotamento e vai ver que eu tava certa.

— Fala que eu mandei um beijo. Toda vez que você liga ou eu ligo ele tá ocupado, né? Desse jeito eu falo com ele no Natal, então. Vou indo lá, mãe, te amo.

Desligamos, e suspirei pensando como meu pai não fazia questão de saber da filha dele. Fazer o quê. A vida é assim. Lembrei da indicação do motorista do Uber que eu peguei de manhã cedo e procurei a série que ele mencionou. Stalker pirado por uma moça aleatória e escritora. Ou jornalista… credo. Me arrepiei só de imaginar um cara me perseguindo e interpretando tudo que eu fazia de um jeito distorcido.

Mais para o fim da tarde, desloguei do sistema da empresa e terminei de colocar as roupas e a toalha na mala.

— Ah, vou ficar num hotel, não tem necessidade de levar toalha.

Retirei ela e não precisei comprimir as roupas. Meu celular tocou de novo, final do número zero cinco. Deixei chamar até cair a ligação.

Jantei minha segunda marmita de noite e mandei mensagem pra Mel pra gente se encontrar na rodoviária no dia seguinte, às seis da manhã. Naquela noite sonhei com o instituto onde eu aprendi braile, mobilidade e atividades da vida diária. Senti o costumeiro aroma de lavanda dos produtos de limpeza que gostavam de usar sempre. Os pássaros cantando do lado de fora das janelas. E eu debruçada na mesa, os braços de cada lado da máquina braile. O queixo apoiado na superfície de metal geladinha da máquina.

No sonho, eu me sentava na cadeira dos fundos e o Arthur se sentava do meu lado.

— Cinco Laurinhas foram passear, lá na beira do mar, a professora Gláucia chamou quá-quá-quá-quá-quá…

— Vou dizer pra ela que você chamou ela de pata.

— Que meda.

— Seu crianção, moleque, imaturo.

— Quá, quá, quá, quá. Patinha feia.

— O pato feio vira um cisne.

— O quê? Eu só ouvi quá-quá-quá.

O sonho continuava, com mais encheção de saco. Acordei puta da vida. O assunto para a próxima sessão com a Marjorie ia ser memórias desagradáveis surgindo quando você volta à sua cidade da infância.

Eu não lembrava como foi que Arthur começou a me chamar de patinha. Pelo menos a Gláucia deu um esporro nele quando ouviu a musiquinha. Lembrei com prazer da sensação ótima de ver Arthur levar bronca em vez de mim. Uma das raras vezes em que fiquei feliz por estar no mesmo ambiente que minha professora de braile.

Mas eu bem que podia sonhar com o gostoso do Luan Santana. A gente juntinho, se casando e tal, até combinaria: Laura e Luan, perfeito!

Me levantei ainda imaginando o sonho bom que eu não tive de noite. Fui tomar banho, depois que saí me sequei e joguei a toalha no cesto. Vesti a jeans, blusinha azul-clara e penteei o cabelo. Coloquei meus brincos de gota. Prata na Vila da Prata. Peguei a mala e saí de casa, trancando a porta.

Peguei Uber para a rodoviária e fui cochilando, e sonhei alguma coisa com o Luan, mas ao acordar não lembrava de nenhum detalhe. Mas a voz do idiota do Arthur não saía da minha mente. Não podia deixar isso me chatear.

Agradeci ao motorista e desci na rodoviária. A Pâmela se aproximou animada demais para seis da manhã. Achei melhor só tomar café quando chegasse lá na cidade. Pâmela tomou suco e comeu um pastel ali na rodoviária, se assustando com o preço.

— Já comeu, agora tem que pagar, minha filha — eu falei, rindo da indignação dela.

Entramos no ônibus às seis e quarenta. Chegaríamos lá provavelmente perto das dez da manhã. Eu senti um frio na barriga ao pensar em todos os meus amigos. Não sabia se ia ser estranho, divertido ou constrangedor. Talvez fosse tudo isso ao mesmo tempo. Me recostei na poltrona e coloquei os fones. Só pela nostalgia, botei a playlist do Luan Santana, cuja primeira música era Sinais. Fechei os olhos e adormeci, para inveja da Pâmela, que não conseguia dormir em ônibus. Ela estava tão empolgada que talvez não dormiria nem se estivesse cansada. Eu apaguei.

 

Capítulo 3 culpa da dança:.

 

Acordei ouvindo a voz aguda de pâmela, demorei um segundo ou dois me situando na realidade. Bocejei me recriminando pela soneca prolongada. Só faltava eu não conseguir dormir de noite, cacete! Descemos do ônibus e minha amiga foi retirar as malas do bagageiro. O ar condicionado agradável do veículo ficou só na lembrança. Felizmente Vila da Prata resolveu não me receber com chuva, relâmpagos e frio. Como da última vez que viajei com minha mãe para ver minha avó no hospital. Meu pai não nos levou, já esqueci por que, eu devia ter uns treze anos. Só sei que naquele tempo, a rodoviária encharcada foi um desafio. Atravessar uma calçada gigante escorregadia sem cair de bunda. Minha mãe me agarrou e eu morri de medo de cair durante os passos traiçoeiros. Não tem nada pior que se esborrachar num chão molhado no frio! O som da chuva obrigava a gente a gritar, foi o que mamãe fez quando paramos perto da porta: “dá um passo largo!”. Não serviu de nada a orientação, eu estava sem bengala, portanto o resultado foi catastrófico. O meio fio virou um riachinho de água suja onde eu mergulhei os dois pés antes de subir no ônibus. Um horror. Nessa terça de março, a cidade me cumprimentava com uma manhã completamente oposta. Meu horóscopo entregou a promessa exata: viagem confortável para os cancerianos. Tô de volta, Vila da Prata! Em algum lugar nos arredores, Gabriela, Bianca e Thomás viviam suas vidas sem saber que eu ia aparecer, retornando das cinzas como uma fênix… ou não. O sol intenso no meu rosto me fez pensar nas roupas de calor que eu trouxera. Eu torcia para que o hotel Paraíso não fosse muito longe, ia ser um sofrimento andar meia hora de tênis e calça jeans. O vento forte jogou meu cabelo para trás, refrescou bastante no pescoço. Que estação do ano estávamos? Outono, ou ainda verão? Eu recusei comer um salgado ou beber café na rodoviária, o valor da comida custava um rim. O motorista nos disse que o hotel Paraíso ficava uns dez minutos de caminhada. Pâmela quis usar o Google Maps.

Eu nunca acreditei nesse papo do ar ser melhor no interior, mas até que faz sentido. A poluição é muito menor, o que parece ter irritado meu nariz. Comecei a espirrar enquanto seguíamos pelas ruas de Vila da Prata. Não peguei a bengala na bolsa de lado porque não daria para segurar no ombro da Pâmela e levar a mala na outra mão, eu não tinha três mãos para ainda levar a bengala, né?

— Me avisa dos degraus, por favor, não esquece— falei enquanto seguíamos por um quarteirão. — Essa mala é emprestada também, se as rodinhas enroscarem e quebrarem, Dylan me mata.

— Eu aviso sim, agora tá chegando um mega degrau alto para subir — ela indicou certo. Só da primeira vez.

Mais alguns passos adiante e Pâmela desceu depressa para a rua. Meu corpo acompanhou imediatamente, me fazendo descer o próximo degrau com força. As rodinhas da mala pesada bateram no chão com violência quando puxei a mala junto de mim. Por que foi mesmo que eu escolhi a Pâmela?

— Vixe, desculpa, eu falo no próximo.

Comprimi os lábios engolindo a resposta mau-criada que eu queria falar. Tentei relevar, não andamos juntas a muito tempo ainda.

De qualquer forma, achei mais seguro pegar a bengala e ir andando ao lado da estagiária, usando os muros ou o meio fio para me referenciar. Não me lembrava do tanto de passarinhos que tem no interior. Um bando de bentivis passou fazendo algazarra lá no alto, como eram bonitinhos. Meu pé afundou numa parte quebrada da calçada. O que acontecia ao andar por São Paulo também, o tempo inteiro. Depois de uma esquina percorremos o caminho diante da entrada de um restaurante, ai que fome que eu tava. O cheiro maravilhoso de alho e cebola fritando me deu água na boca. Um bife refogado ia bem demais. O aroma de comida me chamava como os sons do Cassino Lótus chamava o Percy Jackson no livro do ladrão de raios. Não sei se foi sorte ou tortura o fato do celular da Pâmela ter travado bem na frente do restaurante.

— Liga logo, trem — resmungou ela tamborilando as unhas na capinha.

Meu estômago roncou alto enquanto ela reiniciava o aparelho para continuarmos o trajeto.

Longos minutos depois, me dei conta que meu horóscopo mentiu quando disse “viagem confortável”. Deviam ter dito tour recreativo nos Quintos dos Infernos. Que sol forte do cacete! Na calçada em frente ao hotel havia um chafariz com uma fonte, o som relaxante da água me causou aquele ímpeto secreto de entrar debaixo da água da fonte. Um dia sob o efeito de álcool eu ainda vou me jogar num chafariz. Contornamos a base de pedra e chegamos por fim no hotel e subimos os dez degraus da entrada.

— Ai minha academia que eu nunca fui, porque sou assim? — reclamei erguendo a mala com esforço. Pelo menos pâmela ficou ofegante também ao falar que a escada havia terminado. O ambiente fechado trouxe o frescor e o delicioso aroma de alguma flor, cujo nome não fazia a menor ideia. Quando  a Pâmela tropeçou, levei um susto e não pude ajudar. Ela xingou baixinho e agradeceu a Deus não terem outras pessoas por perto para verem a gafe. Pisei no estreito tapete do mal, poucos passos depois paramos próximas ao balcão de madeira.

— Bom dia, meu nome é Flávio, posso ajudá?

— Sou Laura e esta é minha amiga Pâmela. Queremos reservar um quarto por cinco dias, por favor.

— Certo, pode me emprestá o documento?

— Um minuto, deixo na bolsa sempre no mesmo lugar, assim não perco.

— Boa ideia — falou Pâmela enquanto eu entregava o meu CPF.

— Por causa do festivar o hotel tá cheio, os úrtimo quarto que eu tenho são no térreo, tem problema?

— Não, tudo bem. Térreo é bom, a gente nem vai ficar muito aqui — expliquei.

— O bão é que não tem que subi escada, né moça?

— Escada é de boa, depois que a gente conhece bem o lugar, é tranquilo.

— Ah, mas é bão facilitá a vida, aqui, vocês ficam no dez. Já que a senhorita gosta de escada, esse fica bem do lado.

Nós dois rimos e ele me entregou a chave.

— Moço, aqui tem Wi-Fi? — perguntou Pâmela.

— Tem não, moça. Só lá no centro.

— Não? Mas, tipo, como assim não?

— Tô brincando, a rede chama Hotel Paraíso e a senha é hóspede53.

Nós duas seguimos para o quarto. Atravessamos a recepção de chão liso, liso como aqueles pisos encerados.

— Ele te enganou direitinho — comentei a meio caminho do início do corredor com os dormitórios.

— Levei um mega susto, Deus me livre ficar num lugar sem internet.

Assim que entramos no quarto, encostei a mala do lado da parede, estendi uma das mãos e apoiei num ponto acima e com a bengala fui contornando o quarto a passos lentos. Dessa forma eu pude saber onde ficavam as duas camas de solteiro, a mesinha com as cadeiras – quando precisássemos almoçar ou colocar o notebook ficaríamos ali – depois encontrei a porta do banheiro, o armário e a mesinha de cabeceira com o telefone.

Eu não conseguia decidir se sentia mais fome ou calor. Pâmela fechou a porta do quarto e retornei até lá para abrir minha mala. Me agachei, abri o zíper e com pressa revirei as roupas em busca de uma saia ou chort. Uma blusinha mais leve cairia bem.

Pâmela achou melhor pedir Uber para irmos para o centro e eu não discuti. Coloquei o chort preto e uma blusinha de alcinha amarelo-mostarda. Troquei o tênis que eu usava por uma rasteirinha combinando com a cor do chort.

— Vou para o festival de zebrinha — ela anunciou empolgada.

— Me dá um pouco dessa alegria toda, mulher.

— Bolsa check; câmera check; chiclete check — ela listou, minutos depois..

— Aí, como se chama uma ladra discreta de doces?

— Lá vem você com as piadas ruins, Laurinha.

— Vai, como se chama?

— Sei lá.

— Chiclepto maníaca.

Ela riu da minha zoeira e me ofereceu um de tutifrute enquanto saíamos para o corredor em frente ao quarto.

— Não, brigada, se eu mascar  chiclete agora vou ficar com dez vezes mais fome do que já estou.

Atravessamos a recepção e retornamos para o sol quase do meio-dia. Descemos as escadas e pâmela colocou o endereço da praça no aplicativo. Enquanto esperávamos o Uber do lado de fora, Flávio veio até a porta.

— O café da manhã cumeça as sete, tem lavanderia nos fundo do corredô, passano os quarto. O restaurante fica no úrtimo andar.

Agradecemos a ele e Pâmela falou que o motorista estava a dois minutos.

— Me explica isso de seu conjuntinho ser de zebra.

— É que a camiseta e a saia têm listras, preta e branca igual das zebras. Mas a sua blusinha é linda também, amarelo mostarda é um tom mais escuro do que amarelo vibrante, sabe?

— Sei, hum-hum — respondi só de zoeira.

— Ai desculpa, eu esqueço que você não enxerga.

— Relaxa, gatona.

O Uber chegou, entramos no carro e seguimos para a primeira atração da cidade, o famoso festival das laranjas. Esperava  que lá houvesse muito mais para comer do que só laranja. Nunca tinha participado de nenhuma das edições quando era pequena, meus pais gostavam mais de ir para cidade vizinha e eu só lembrava de não ir para a escola nem ao instituto no dia do festival. Claro que eu me beneficiava depois, comendo um pedaço de bolo que Bia trazia e Iury as vezes me dava um potinho de mousse. Como eram artesanais, os potes todo ano mudavam de formato ou material. Talvez eu tivesse na casa da minha mãe um ou dois potinhos guardados. Ia perguntar a ela depois, felizmente dona Cláudia odiava jogar coisas fora. Ainda mais pertencentes à única filha.

O motorista parou na lateral de uma rua, descemos e caminhamos uma quadra até chegar nas ruas fechadas para o evento. O aroma nos envolvendo assim que nos aproximamos. O eco de instrumentos musicais ao longe, risadas de crianças e adultos, conversas animadas, identifiquei um cheiro de molho, com certeza preparavam lanches. Deliciosos lanches com salcicha, batata palha, vinagrete, purê… minha barriga roncou de novo. Ainda bem que a Quezia mandou eu vir neste festival em vez da Marisa, por exemplo. Ela ficaria muito ansiosa com vários estímulos ao redor dela ao mesmo tempo.

— Laura, tem um monte de barraquinhas, assim uma do lado da outra e tal, elas são coloridas, tipo muito bonito. Nossa, quanta coisa!

— Daqui a pouco começamos com o trabalho, primeiro eu preciso comer. Ou eu vou ficar com tontura e dor de cabeça. Já deve ser umas onze e pouco.

Nós caminhamos pelas ruas e eu parei para comer dois cachorros-quentes e um copão de suco de laranja com acerola.

— Quer molhinho? Ketchup, mostarda? Pimenta?

— Nem pensar, depois eu deixo cair na blusa e vou ter de estrear a lavanderia do hotel, brigada Mel.

— Será que ia manchar? Mostarda na blusa mostarda?

— Faz o teste, depois joga ketchup naquele seu crópped vermelho e me conta.

— Ai, você está ficando mau humorada igual ao Henrique.

— É a fome, como eu acabei de comer, daqui a pouco eu viro gente, prometo.

Pâmela resolveu comer também, afinal o café dela foi as seis da manhã na rodoviária. Eu ouvia a música ao vivo provavelmente vindo da praça. Ia perguntar pra Mel depois que ela terminasse o pastel de Bauru.

Nós duas seguimos até a praça e de fato havia um grupo com instrumentos musicais e um vocalista. A especialidade deles parecia transformar em sertanejo todo tipo de música. Pâmela começou a dançar do meu lado, senti o braço dela e lembrei a ela que primeiro vinha o trabalho.

—Só essa, espera só essa, rapidão, Laura!

— Até que é gostoso esse ritmo meio de forrozinho. Pera, não tavam cantando sertanejo agora pouco?

— E daí? Tem espaço para todos os estilos!

Pâmela se afastou um pouco e eu peguei o celular. Coloquei o fone de ouvido e desbloqueei a tela. O volume do TalkBack precisava ficar quase no máximo, eu entrei no grupo com Marisa e Dylan. Cliquei duas vezes para gravar áudio na hora que o refrão repetiu, Pâmela já cantando junto: “o coração que você quer entrar tem dona”.

Dylan escreveu: “eu podia tá aí curtindo a musiquinha brega de Luan Santana! Te mato Laura”.

Marisa mandou uma figurinha de uma juíza com um martelo e a frase: “vai trabalhar vagabundo”.

Eu mandei carinhas rindo.

— Chega dona Pâmela, vamos começar ou a gente não sai daqui hoje.

Demos a primeira volta fotografando as barraquinhas, com quatro tipos de laranjas diferentes.

— Laranja lima é mais docinha para o consumo. — explicou o rapaz, quando pedimos para tirar fotos ali. O aroma cítrico impregnado no ar que refrescava a pele.

Minha parte favorita foram os doces; vinte minutos mais tarde chegamos em uma barraquinha com Mousse de laranja: o gosto ainda continha a mistura de doce no começo e azedinho no final. Que delícia de sobremesa, cremosa com cheirinho cítrico. Se eu soubesse preparar daria um recheio de bolo perfeito. Que bom que Iury me convenceu a comer um dos mousses no passado. Se eu reencontrasse ele também, ia fazer questão de agradecer. Encontramos ali potes de vidro com compota e geleia de laranja, minha mãe ia adorar para usar no café da manhã. Mais um ingrediente para as torradas sem glúten dela. E lá vinha a tentação: os bolos.

— Bom dia, seus bolos tão com uma cara ótima — pâmela falou.

— Brigada meu amor, sou Rosa, prazer viu? Vão querer quantos pedaços?

— Dois pedaços, por favor — respondi.

— Claro querida, vou pegar um guardanapo para você, aqui. Toma — a senhorinha me entregou o pedaço generoso de bolo.

A massa fofinha desmanchava na boca, o recheio como uma camada fina e bem cremosa espalhando na língua, o sabor um tantinho mais doce que o musse. O sol agora me aquecendo pelas costas enquanto eu comia com gosto. Então, do mais absoluto nada, senti alguém esbarrar com força vindo da minha lateral.

— Miguel, não corre assim, volta aqui e pede desculpa pra moça! — gritou furiosa uma mulher. — Desculpa viu? Essa praga já derrubou o neto do prefeito hoje!

Eutentei falar, mas com um monte de bolo na boca não pude responder para tranquilizar a mãe estressada que deu no pé pra impedir o filhinho de destruir o festival. Criança arteira me irrita. Tentava não ter ranço, porque minha avó dizia que depois nosso filho nasce exatamente do jeito que a gente detestava nas crianças dos outros.

— Tudo bem, querida? Não machucou não? — Rosa perguntou preocupada. — Meu filho também é deficiente visual. Vira e mexe acontece isso com ele também.

— Que aconteceu? Eu tava olhando meu insta rapidão — explicou Pâmela.

— Um molequinho esbarrou na sua amiga. Então, querida, você está bem? Não machucou?

Finalmente engoli e consegui falar:

— Tô ótima, não foi nada. E que bolo saboroso! Tá de parabéns, dona Rosa.

Dobrei o guardanapo e limpei a boca tentando decidir se comia um segundo pedaço ou não.

— Eu morei aqui quando era pequena, tinha bastante cego mesmo — respondi.

— Por que você foi embora, menina? Cansou do povo do interior, foi?

— Não, meu pai recebeu uma oferta de trabalho e não dava para ir e voltar com essa lonjura toda, três horas na ida e três na volta, ele não ia conseguir.

— Está certo, trabalho é trabalho. Quer mais bolo, meu amor?

— Não, mas tava ótimo. Vou escrever sobre a senhora, você que prepara eles?

— Sim, eu trabalho na padaria Pão Doce, não sei se você lembra. Então se quiser mais é só ir lá e procurar por Rosa.

— Vou sim, quanto custa?

Os comes e bebes no festival custavam menos de vinte reais. O que era perfeito, já que provavelmente haviam famílias inteiras indo curtir a tarde. Sem falar nas pessoas da região que vinham de outras cidades.

Pâmela e eu paramos em uma tenda com uma fila de mulheres.

— Aqui tem perfumes em vidrinhos pequenos, menor que a sua mão. Miniaturas eu acho — explicou pâmela.

— Tá muito caro? Se tiver uns cinquenta ou até setenta eu levo.

— Tem muita gente ali na frente, não consigo ver as plaquinhas com preços, já já a gente descobre.

— Beleza.

Demorou uns dez minutos, enquanto estávamos na fila ouvíamos a música ao vivo que soava nas caixas de som provavelmente na praça. Ao redor as pessoas falavam alto, eu pegava trechos das conversas. A banda tocava músicas que agradavam a maioria. Crianças corriam para cima e para baixo, ouvi um grupinho de meninas apostando corrida da barraca de perfumes até a entrada da feira.

— Um, dois, três, já!

Nem registrei direito o som dos vários passos frenéticos, pois lembrei da última vez que corri na praça ali perto até a igreja, junto com Thomás, Gabriela e Bianca. O Thomás estava implicando com a Gabi porque ela não quis correr com nós três. Outra mãe estressada gritou com a filha quando a garota derrubou sorvete no chão e voltei a prestar atenção na música ao vivo.

A fila andou um pouco, Pâmela conseguiu identificar o preço e disse que os perfumes custavam sessenta e cinco.

— Para uma miniatura ta bem salgado o valor. Mas deve ser artesanal. Bom, vou acabar com minha grana desse jeito — reclamei. Ainda assim entreguei para a vendedora o meu cartão pessoal com meu nome em braile.

Carreguei no pulso a sacolinha de pano que continha a miniatura do perfume com notas de flor de laranjeira. Do lado de fora da tenda, deixei Mel borrifar um pouco nela, já que eu não podia comprar  para nós duas.

— Gostei do cheiro, é difícil achar perfume de flores que não seja enjoativo — comentei enquanto caminhávamos devagar. — Já notou o aromatizante horrível da sala da Quezia?

— Sim! Só ela curte aquele negócio de flor de sakura.

Pâmela me levou até umas cadeiras de plástico e nos sentamos para descançar um pouco.

Comecei a prestar atenção nas conversas ao nosso redor.

— Vó, é um festival! Fes-ti-val-, tem festa no nome, então tem que dançar.

— Não pode me obrigar, menina e não rebola desse jeito não. Vou contar para sua mãe.

— Ela que me ensinou a dançar! Vem vó, dança comigo, vai, você gosta das músicas do Kevinho! Já vi você cantando!

Comecei a rir tentando ser discreta, cobri a boca com a mão livre. A voz da senhorinha reticente me pareceu familiar. O timbre… ou o tom mau-humorado. Fiquei tentando lembrar quem eu conhecia com aquele jeito de falar. Do meu lado, Pâmela cantava a música do MC Kevinho.

— Isso vó! Vou gravar para a mamãe ver que eu não to mentindo quando falar que você dançou — disse a voz alegre da garota. — Não para de dançar, vó. Por favorzinho, calma aí…

— Elas tão aqui perto? — perguntei baixinho para Pâmela.

— Sim, é uma senhora com blusa rosa e saia preta e a menina acho que tem uns treze anos, ela tá de vestido roxo. Uma fofura.

A música chegou no refrão.

— Que tá fazendo, Natalha?

— Tava dando oi para um amigo, vó.

— Mandando beijo?

— Ele é meu flertante — a garota disse gargalhando provavelmente com a reação da senhora.

— Já chega disso — falou a senhora mais velha.

— Não, pera aí, vó! Era brincadeira, ele ainda é só conversante — provocou a  garota.

— A avó dela saiu andando com cara de brava — contou Pâmela ainda rindo.

— Interrompemos essa dançante poesia cantada de MC Kevinho para convocar todos os alunos do Instituto Estrela cadente para a frente do palco — falou umam voz masculina no microfone.

Dessa vez eu reconheci: era o Iury.

Me levantei tão rápido que a cadeira arrastou para trás. Meu coração disparou por causa da empolgação.

—Onde você vai, Laura?

— Me leva lá perto do palco.

A voz de Iury soou no microfone enquanto só o instrumental da próxima música começava.

— Alguém guia os cegos aí gente, o Madruguinha tá me falando aqui que ninguém ta ajudando o cego, vamos lá gente! Fala pra eles ajudarem, Madruguinha.

Pâmela pegou na minha mão e fomos caminhando no meio das pessoas. Esbarrei de leve nos outros pelo caminho.

No próximo segundo ouvimos um som de respiração rápida no microfone e um barulho alto de um tecido sendo esfregado. Não era possível que Iury tivesse feito o que eu tava pensando.

Ouvimos as pessoas ao redor reagindo ao que quer que tenha acontecido no palco.

— O cachorro dele lambeu o microfone! — ouvi uma moça comentar. — Que nojo.

Eu tive de concordar com ela, ainda mais se o Iury fosse continuar falando.

— Se eu tivesse metade da grana dele, também me deixariam fazer o microfone de brinquedinho do meu cão guia — ouvi um rapaz comentar com um tom cheio de inveja. Pior que eu não duvidava que Iury fizesse, nas palavras de dona Cláudia, minha mãe, uma pataquada daquelas.

Chegamos numa área onde enfileiraram cadeiras para todos os lados.

— Desculpa aí galera, o Madruguinha lambeu o outro microfone.

Eu ri enquanto pâmela me levava para dar a volta na área das cadeiras.

— Agora venham todos os ex alunos, ex professores, ex-maridos, ex-namorados, excomungados e se juntem na frente do palco. Tô brincando padre, piadinha.

Eu ri enquanto Iury anunciava que tínhamos um minuto para nos agruparmos lá.

— Laura Gomes?

Parei na hora, Pâmela falou no meu ouvido que quem me chamou fora a senhora brava que dançava com a neta a pouco. O fato era que a voz pertencia a ela, a ilustre e não tão amada Professora Gláucia. Falando como gente normal eu não reconheci muito bem, mas o tom de professora dizendo meu nome completo? Isso era inconfundível!

Ela se aproximou,  pegou no meu braço e me puxou para um abraço apertado.

— Oi  fessora, tudo bom? — perguntei com a voz saindo com esforço. A dona Gláucia ao que parecia dava abraço de danificar costelas. Nunca soube, nunca abracei ela no passado.

Ela me soltou e  depois virou para ^Pâmela e a cumprimentou.

Após isso, a professora voltou sua atenção para mim:

— Que faz por aqui, Laura Gomes? Voltou para morar?

— Não senhora — respondi lembrando de jogar os ombros para trás e ajeitar a postura. Parei imediatamente de enrolar e soltar o elástico da bengala. — Eu só vim a trabalho.

— E trabalha com o quê?

— Jornalista.

— É a sua cara, naquela época você era curiosa e meio fofoqueira.

Pâmela riu. Já imaginava a minha querida estagiária contando para a redação inteira que minha antiga professora me chamou de fofoqueira.

— E você, menina? Como disse que é o seu nome?

— Sou Pâmela, Laura e eu somos parceiras — ela respondeu num tom simpático.

Provavelmente sem perceber o que poderia significar essa palavra. Não que fosse ruim sugerir que a Pâmela fosse minha namorada. O problema não era esse, era apenas a dona Gláucia ter uma ideia equivocada do tipo da nossa parceria. Pensando bem, dane-se, eu não precisava corrigir nada.

— A senhora deu aula para a Laurinha do quê?

— Braille e reforço de português.

— Trinta segundos, venham todos os ex relacionados com o Instituto Estrela Cadente — repetiu Iury começando a imitar o som da vinheta de contagem regressiva da Globo.

— Vem comigo Laura, eu te levo. Pode vir junto com sua… amiga — a professora Gláucia disse para a Pâmela e seguimos contornando a área das cadeiras.

Poucos passos depois, Gláucia pediu licença para um grupo de adolescentes onde a neta dela se incluía.

— Posso ir também vó?

— Não, você não, Natalha.

Chegamos em frente do palco. Gláucia pegou a bengala da minha mão, fechou e entregou para a pâmela. Ficar sem a bengala me causava uma sensação incômoda ao extremo. A Gabi, antigamente, fazia isso de puxar a bengala da gente e ir batendo forte no chão mandando a gente ir recuperar a  bengala correndo atrás dela. Eu passei um tempão dos meus dias no instituto aos catorze indo atrás da Gabi, xingando ela e mandando ela devolver. Foi numa dessas que Gabi desviou do balde com água e desinfetante, pois ela tinha baixa visão e eu não tive a mesma sorte. Afinal, como ia desviar se tava sem a bengala para me mostrar onde tava o balde? Afastei o restante da lembrança, não queria pensar em acidentes dolorosos dda minha adolescência.

— Tô aqui, Laurinha — falou Pâmela em algum ponto à  esquerda me trazendo de volta ao presente.

— Vou te deixar aqui do lado desse pedaço de mau caminho — declarou a professora me fazendo corar. Parecia minha mãe quando achava um homem bonito.

— Psora, suas palavras me deixam desconfortável — o cara respondeu com tom de humor.

O desconhecido, de primeira, me fez pensar em narradores de audiolivros. De novo tive a sensação de reencontrar alguém do passado. Seria muito mais simples se eu reconhecesse cada um como foi com Iury. O fato do Iury falar ao microfone teria ajudado? Reconheci a voz dele mais rápido por isso? Eu não fazia a menor ideia.

— Olhar não tira pedaço, cuida aqui da minha querida jornalista importada.

Gláucia se afastou de nós e a contagem do Iury terminou.

— Importada? English ou  então hablas espanhol?

Eu ri alto.

— São Paulo

— Já sei, você faz aniversário em noveimbro?

— Estou ofendida com seu péssimo porém verdadeiro sotaque paulista.

— Obrigado, vou bastante para Sampa.

— Ninguém que mora lá chama São Paulo desse jeito, só vocês estrangeiros. A propósito, sou a Laura.

Ele respondeu dizendo o nome dele, o som de microfonia que soou encobriu cada sílaba e não escutei nada do que ele falou. Resolvi perguntar de novo depois.

Iury voltou a falar no microfone, estávamos bem perto da caixa de som, a voz do meu antigo colega tomando conta do ambiente. Ele pediu desculpas pelas pequenas falhas técnicas e começou a fazer um pequeno discurso.

— Escuta, porque ele tá fazendo discurso? Isso é normal?

— História longa, melhor eu deixar ele te contar.

Iury falou sobre o bem que o instituto fazia nas  vidas das crianças e adolescentes que estudavam lá. Fiquei impressionada ao descobrir que além e braile, atividades da vida diária, violão e mobilidade, o instituto oferecia aula de teatro, dança e culinária.

O lugar em si devia ter crescido, com mais salas de aula, refeitório maior, ainda bem que eu descobriria cada detalhe em breve.

Iury então chamou os alunos que iam se formar nas aulas de violão, flauta e teclado para o palco.

Fizeram uma apresentação com uma dupla de alunos cantando acompanhados pela percussão da banda da prefeitura e os instrumentos deles próprios demonstrando a música.

— Quem canta essa no original, você sabe? — perguntei ao homem do meu lado.

— Se bem me lembro são Ana Vitória e Tiago Inhoque.

Eu ri alto.

— Você não quis dizer Tiago Iorc?

— Eu quis dizer o que eu disse, jornalista importada.

Eu ri outra vez. Gostei daquele cara, cujo nome ainda era um mistério. Se ele narrasse um áudiolivro de nove horas eu ouviria sem reclamar.

Eu comecei a me  mover no ritmo das batidas suaves da canção. Eu não sabia cantar Trevo da dupla que ele falou, mas conhecia o bastante para cantarolar.

O homem encostou a mão na minha quando eu me movi e encostei no braço dele. Segurei a mão dele e entrelaçamos nossos dedos.

— E você trabalha com o quê?

— Sou massoterapeuta em uma empresa aqui da cidade.

— Meu Deus, somos os clichês dos cegos. Um massoterapeuta e uma jornalista.

— Para ser mais clichê um de nós deveria ser advogado.

— Quase fui, então você não tá errado, meu querido.

— Já sou seu querido? Ótimo, minha linda.

Não falamos mais nada depois disso.

A música doce e leve me fez seguir a vontade que tive de dançar. Não fazia mal curtir a feira daquela forma também. Experiências e experiências. O meu parceiro perguntou se eu queria dançar e eu aceitei. Ficamos de frente um para o outro e peguei na outra mão dele.

— Você é cego ou baixa visão? — perguntei enquanto me movia fora do ritmo por um momento.

— Cego total e você?

— Idem.

Antes do que eu queria a música terminou

A banda retomou os instrumentos e iniciaram uma música mais antiga. No início eu não reconheci os acordes, o que foi um absurdo. Mas eu devia estar distraída demais com o meu amigo dançarino de mãos quentinhas.

— Vamos mais uma? — ele perguntou com tom persuasivo.

Não consegui dizer não.

— Laura?

— Depois, Mel. Depois dessa música a gente continua o trabalho.

— Eu tô aqui pertinho então.

Comecei a prestar atenção na música tentando recordar o nome.

— Sua amiga?

— Sim, amiga e colega de trabalho — expliquei. — Ei, estranho, você sabe como chama essa música de agora?

— Essa é Tropicana. A forma de dançar ela é diferente. Posso?

Eu permiti, sabia o que ele queria dizer, o ritmo exigia mais proximidade, meu coração acelerou.

Ele segurou de leve na minha cintura e eu apoiei minha mão no ombro dele. Esse contato já me deixou perceber a altura do meu querido desconhecido. O problema era que eu queria fazer uma pergunta muito específica sobre relacionamento. Ele ia me achar atirada. Não sabia como chegar nele. Pensando bem, eu nem devia chegar em ninguém, levando em conta as consequências do outro envolvimento sem pensar. Só quando começaram a cantar eu percebi qual música era e eu a conhecia de fato!

— Minha mãe adora essa música, vivia pedindo pra meu pai dançar com ela — comentei enquanto nos movíamos no básico dois pra lá dois pra cá.

— Nesse ritmo meio de forró é até bem bom de dançar, fica facinho.

Eu concordei, o perfume dele era delicioso demais. Quase perguntei o nome.

Entrelaçamos os dedos, qual a mão que eu segurava? Ele de frente para mim então a esquerda, onde fica aliança de casamento. Não senti o círculo de metal. Isso não garantia falta de compromisso, ele ainda podia ser dos que guardam a aliança no bolso.

Eu só podia trabalhar com evidências, e diante de mim só  parecia ser um cara cheiroso, alto e que tinha uma mão que envolvia a minha com firmeza.

Meu coração batia depressa, eu sentia o calor no meu rosto, o balanço dos nossos corpos fazia a gente se esbarrar.

A vibração da música entrava no corpo e me fazia sentir bem, ele perguntou se podia colocar a mão nas minhas costas.

— De boa — respondi com a voz um pouco rouca.

Não conseguia resistir. Minha mente viajando por outros tipos de interações com aquele cara aleatório. Qual era o meu problema?  Um mês desde o término com certo traste e eu já tava disposta a beijar um estranho na rua?

— Canta comigo — ele pediu com aquele tom de voz grave falando pertinho. — Da manga rosa quero o gosto e o sumo…

— Eu não lembro a letra inteira, só o refrão, mas pode continuar, ta lindo.

— Essa música é toda sensual, né? — ele perguntou com tom sugestivo.

A respiração dele ficou mais ofegante por causa da dança. Ai, que delícia. Ele tinha perguntado sobre músicas sensuais.

— As melhores músicas são assim. Mas fala aí, não é criativa? Frutas fazendo alusão as partes do corpo feminino.

O contato físico excitante, uma dança onde a gente se aproximava, depois ajustava, se afastava e se aproximava de novo. Ele respondeu meu comentário:

— Sim, é a maior prova de que não é preciso ser Explícito para ser sensual. Cada palavra atiça a imaginação.

O refrão chegou e cantarolamos juntos.Nossas vozes ecoando em harmonia com as vozes misturadas e alegres do grupo de pessoas se movendo ao nosso redor.

A mão dele na parte inferior das minhas costas, a palma quente pressionando de leve, os dedos abertos espalmados. Nossos corpos roçando as vezes e minha mente viajando.

— E aí senhorita jornalista, devo esperar que algum cara musculoso e mau encarado venha da cidade para quebrar minha cara por dançar coladinho com a namorada dele?

— Para sua sorte, não mais.

Ele riu.

— Que alívio, porque eu sou covarde, se ele viesse eu ia dizer que me chamo  Iury, que truquinho sujo não é?

— Só se esse não for seu nome.

— Essa é a estratégia.

O momento perfeito para eu perguntar o nome dele de novo. Não perguntei, porque um nome ia trazer mais significado. Tornaria ele uma história real no futuro, quando eu falasse dele para Dylan e Marisa, ou Marjory. Eu não queria tornar tudo real demais. Um encontro com um misterioso  de mãos grandes soava mil vezes melhor.

O que diziam de homens de mão grande? A proporção da mão para outra parte do corpo. Fiquei vermelha, meu rosto esquentou na hora. Como é que eu ficava pensando tantas coisas sexuais!

— Tô adorando este festival, mas talvez eu não conte sobre nossa dança na minha reportagem.

— Eu posso ser uma atração para as moças visitantes, escreve sim, por favor, to precisando de uma namorada — ele pediu me puxando pra pertinho. — Conta pra mim, você é uma morena tropicana?

— Até que sou — respondi refreando as próximas palavras que eu pretendia dizer.

Não tive coragem, mas ele completou parando de dançar e falando no meu ouvido, o hálito quente me fazendo arrepiar.

— Então eu posso te desfrutar, morena tropicana?

Prendi a respiração, ele soltou minha mão,  os dedos deslizaram pelo meu braço, um rastro que me fez arrepiar de novo. A mão dele tocou minha bochecha de leve e direcionando para nossos lábios se encontrarem.

Nos beijamos, a música ao nosso redor preenchendo o ar e mergulhando o momento naquele sentimento gostoso e preguiçoso, onde moram os beijos sem compromisso. Esses beijos não deixam de ser deliciosos por isso.

A  boca dele pressionou a minha, os lábios cobrindo os meus, a respiração de nós dois ficou ainda mais ofegante, não só pela dança.

Nos afastamos e a música mudou de ritmo, ficou mais rápida. Seguramos as mãos um do outro e ouvi pâmela ali perto dizendo alto para se sobrepor a música.

— Pula, Laurinha!

Eu e meu parceiro gostoso que beijava tão bem que me fez querer passar o resto da tarde beijando ele, começamos a pular junto com o pessoal gritando de alegria.

— Agora essa música vai ser especial, vou lembrar de você, linda moça da cidade.

— Idem, eu adorei ficar contigo — confessei falando ainda com o coração batendo forte. — Fiquei até sem palavras. E sou jornalista, se tem alguém que não pode ficar sem palavras sou eu.

Ele riu dizendo que concordava. A música terminou, soltamos as mãos. Pâmela chegou perto de mim dando risadinhas e falando toda cheia de chamego com um rapaz.

Meu parceiro de dança foi puxado por outra moça ali do grupinho ao nosso redor e com ela ele foi embora.

Seguimos passeando pelo festival, fazendo perguntas aqui e ali e ficamos mais um pouco na praça como ela queria.

Retornamos para o hotel por volta das quatro. Fui tomar um banho e tirar uma horinha para descansar antes de começar a escrita.

Me joguei na cama, fiquei toda largada e confortável. Cama de hotel é um deleite, o colchão é sempre mais denso que o que temos em casa, os lençóis são macios e meio grossos, tão fresquinhos depois do meu banho frio…

Pâmela começou a trocar mensagens com Jonathan, assim se chamava o rapaz que estava com ela quando Pâmela veio me encontrar após minha interação deliciosa com aquele desconhecido. O tal Jonathan intitulado como “ficante do campo”.

No meu caso, como seria o título de um ficante de um beijo só? Talvez ficante relâmpago. Não, parecia muito com assalto. Funcionaria se o beijo fosse roubado. Eu sorri ao recordar da voz dele, o tom malicioso ao perguntar se eu era uma morena tropicana. Que boca deliciosa.

— Mel? Como era fisicamente o cara que dançou comigo lá no festival?

— Era normal. Tipo, um bonito comum. Não chama muito a atenção.

— Detalhes, estagiária.

— Tá, deixa eu pensar.

Ela ficou estalando a língua. Imediatamente veio na minha mente a musiquinha da Anna do Frozen um, quando mostra ela crescendo. O som parecia de um reloginho.

A resposta da Pâmela me trouxe de volta dos meus pensamentos aleatórios.

— Então, ele tinha uma barba feita, assim bem ralinha… umas sobrancelhas fininhas, um nariz mais arredondado e uns lábios grandes.

— Isso eu percebi, querida.

— Que top! Nós duas temos ficantes do campo.

Meu celular despertou, me levantei da cama aconchegante e me espreguicei.

Fui até a mesa com duas cadeiras, promovida a espaço home-office, organizei o que precisava em cima dela: notebook, a garrafa de água e o celular.

As sete Marjory mandou o link do Meeting para nossa sessão. Loguei pelo notebook e pedi pra Pâmela sair para eu poder conversar com minha terapeuta.

— Vou aproveitar e encontrar o Jonathan, eu curti ele muito.

— Tô achando que o Rodolfo, rodou.

— A gente nem tava ficando sério, tchau!

Eu suspirei e cliquei em pedir para participar da chamada. Pâmela passou perfume, bateu a porta e desapareceu no corredor do hotel.

— Oi Marjory, boa noite.

— Oi Laura, como vão as coisas? Estou vendo que estamos num ambiente diferenciado hoje.

— Sim, como eu te falei, aqui é a cidade onde eu nasci, estou no hotel e já comecei a escrever sobre o festival da laranja.

— Vila da Prata que produz laranja? — ouvi a risada suave dela.

— É que eles mineravam prata no início dos anos mil novecentos e bolinha, depois que a prata acabou começaram com o cultivo de laranja — expliquei.

— Entendo.

Tamborilei os dedos na mesa à minha frente.

— Como se sente com esse projeto acontecendo na sua cidade natal?

Levantei a mão, enganchei os dedos nas mexas do meu cabelo castanho trazendo-as para a frente, depois deslizei os dedos em movimentos repetitivos enquanto pensava na resposta.

— Eu só andei pelo centro, não deu para sentir diferença nenhuma ainda. Estou animada com essas matérias porque quero que a minha chefe perceba que eu sou criativa, competente e eficiente.

— Perfeito, e quanto as pessoas? Foram acolhedoras?

— Gente do interior geralmente é assim, conversam, perguntam tudo, contam sobre a vida delas. É diferente da cidade onde a gente é mais focado nos amigos próximos e não ficamos de papo com qualquer um.

— Isso é verdade. E você conheceu alguém que te chamou a atenção, ou está focada inteiramente no trabalho pra redação?

Se qualquer pessoa perguntasse sobre esse assunto eu me irritaria, mas a voz da Marjory mantinha um tom calmo, uma voz suave que me fazia sentir acolhida. De qualquer forma eu não sabia como explicar o que havia acontecido no festival.

Fechei os dedos apertando as mexas contra a palma da mão.

— Não conheci ninguém interessante não — virei o rosto para longe da direção do notebook.

— Certeza?

— Até que teve um cara — voltei a posicionar o rosto de forma que minha terapeuta me visse bem na câmera. — Ele dançou comigo. Ele era cego também e tal.

— Como ele se chama?

— Sei lá, não perguntei.

— Por que ele chamou sua atenção?

— Não foi bem ele, foi por causa dele. Eu meio que senti um pouco, ah, sabe, meio nervosa quando ele pegou minha mão. Sentir o toque dele, o perfume masculino e que perfume, eu… eu acho que senti… me senti excitada.

Meu rosto ficou vermelho. Falar em voz alta parecia ainda mais idiota.

— Por que isso te incomoda, Laura?

— Ah Marjorie, o cara só encostou em mim e eu já fiquei excitada, isso é tão… errado e ridículo.

Respirei fundo e peguei a garrafinha para beber água.

— O toque pode causar sensações independente da pessoa ser conhecida ou não. Você não acha que foi só uma resposta natural do seu corpo?

— Sim, meu corpo não devia ficar dando respostas para perguntas que ninguém fez!

Eu precisava mencionar a dança, a proximidade, o beijo. Que rolê explicar sobre essa parte. Marjory ia me encher com mais um trilhão de perguntas.

— Eu dancei com ele, tava tocando uma música gostosa. Nós conversamos, ficamos assim pertinho e eu me deixei levar — contei respirando fundo antes de finalizar. — A gente se beijou.

— E como foi essa experiência?

— Foi uma delícia, eu adorei, na verdade isso me assustou um pouco, não achei que ia ter tanta facilidade pra beijar alguém.

Ela deu uma risada breve, o tom suave de sempre ao falar:

— Se você soubesse o nome desse homem, tentaria conhecer ele melhor?

— Mas nem pensar, da última vez que me joguei num relacionamento sem conhecer direito a pessoa, acabei com um ex que não para de me ligar.

— Por que não considera mudar de chip?

— Não quero, uma trabalheira pra mudar meu número em tudo quanto é aplicativo, Whatsapp, e-mail, banco e por aí vai.

Voltei a bater os dedos distraída na superfície  da mesa.

— Pensando bem, o desquerido não me ligou ainda. Talvez tenha finalmente desistido!

Conversamos mais um pouco e a sessão terminou. Pensei no cara do festival, eu bem que podia ter perguntado o nome dele.

Não, nada disso, eu não podia deixar ninguém me distrair das minhas responsabilidades, o festival e as outras pesquisas já iam ser distrações o suficiente. Bem, distrações mais ou menos porque eu teria de escrever sobre cada detalhe. Um cara só ia me atrapalhar, eu poderia esquecer tópicos e assim eu não ia conseguir impressionar a Qézia.

 

Capítulo 4: recado para meu horóscopo: melhore.

 

Equilíbrio, essa foi a palavra que ouvi no vídeo de TikTok no celular da Pâmela. Horóscopo fazendo promessas de político de novo: maturidade emocional, equilíbrio, observação. Blá-blá-blá. Eu consegui resistir ao impulso de perguntar do massoterapeuta cego para o Flávio quando passamos pela recepção. Laura um, Universo zero!

NO dia anterior fomos ao festival da laranja, então parecia um déjà vu caminhar com a mão no ombro da Pâmela na rua cheia de barraquinhas. Estávamos numa rua lateral perto da Praça. O sol da manhã ainda morninho no rosto. O cheiro de flores soprando em cima de nós vindo da praça. Gabi sabia o nome das flores, talvez madressilvas. Eu tentava lembrar.

Paramos na primeira barraquinha, Pâmela pediu licença para o vendedor. Explicou que éramos de um jornal de São Paulo e estávamos fazendo matérias sobre os pontos altos da cidade.

— E veio na minha banquinha, moça? Eu só tenho relógios.

— Posso ver? — perguntei curiosa.

— Aqui tem um bem bonito — disse Pâmela pegando minha mão e colocando no estojo de veludo onde repousava o relógio. Contornei o mostrador redondo e liso, agradável ao toque, percorri com os dedos a extensão da correia de metal.

— Este é todo prateado até aí nessa parte que você tá tateando — descreveu Pâmela.

— Esse é diferente, moça — falou o vendedor encostando a mão fria dele na minha mão e colocando sobre ela outro objeto de metal.

O mostrador do segundo relógio possuía uma estrutura mais robusta, uma espessura grossa em comparação ao primeiro, os botões nas laterais eram mais pronunciados. Tracei a pulseira de couro que o vendedor descreveu sendo preta. Encontrei a fivela resistente, também prateada, deixando o relógio mais elegante.

— Pode me contar como fabrica eles? — perguntei ao vendedor.

Ao falar do trabalho ele pareceu mais empolgado.

Pâmela tirou foto de mim segurando cada relógio e depois eu gravei enquanto ele contava sobre o processo de obtenção da prata com fornecedores e a confecção dos relógios. Um negócio de família. Ele vendia para o shopping da cidade vizinha e também tinha a barraca ali na feirinha.

Quase comprei o relógio maior, de pulseira preta para o meu pai. Depois mudei de ideia. Porque eu deveria dar o primeiro passo? Ele que se afastou de mim. Então ele que viesse com presentinhos.

Ao nosso redor, ouvi outras pessoas caminhando entre as barraquinhas, pegava trechos de conversas e comentários, graças a Deus até o momento nenhuma criança havia esbarrado em mim. Pensando bem, não podia reclamar, minha atividade favorita quando eu era adolescente consistia em apostar corrida da praça até a igreja com meus outros amigos cegos… bons tempos.

Seguimos para a barraquinha do lado.

— Laura, a gente pode usar o cartão da empresa e comprar coisas aqui?

— Minha filha, vai ser mó rolê explicar depois que eram itens de experiência turística — eu falei e Pâmela fez um som de desapontamento.

— Não tenho muito dinheiro — ela lamentou.

— Vou te ajudar, mas não acostuma não. Aliás, essa barraquinha é do quê?

— Aqui tem colar, pulseira, anel, brinco.

— Posso ajudar vocês? Sou Ravena, desculpa não falar antes, eu tava vendo uma coisa aqui no celular, os colares estão com desconto — Ravena disse animada. — Aproveitem!

—Licença, vou mostrar aqui para ela — Pâmela avisou para a vendedora. — Me dá sua mão, os colares estão pendurados aqui, tem de coração, pimenta, meia lua.

Pâmela descrevia e aproximava minha mão dos colares para eu sentir as formas dos pingentes.

O sol aquecia de leve às minhas costas, o vento trazia um cheiro de pão assado. Adoro colares e brincos. Aprendi com dona Cláudia a amar esses conjuntinhos. Minha mãe vive dizendo que eu fico charmosa com brincos pequenos e delicados. Não sei se acredito tanto nela, as mães sempre acham os filhos uma lindeza.

— Tem brinco formando conjunto — falou Ravena pegando a minha mão e colocando os dedos sobre os brincos do estojo.

— Esses são os tradicionais de argola e tem estes que são especiais porque têm os símbolos dos signos, qual é o seu, moça?

— Sou de câncer, nasci no dia dezoito de julho.

— E você, moça? — Ravena perguntou para Pâmela.

— Libra, a rainha dos indecisos.

— Normal, sou de libra também. Somos muito injustiçadas, amiga! Não é? — a moça devia ter mais ou menos a idade da Pâmela, pelo menos ao julgar só pela voz vibrante e simpática. — Aqui tem os brincos para quem nasceu em julho e estes são os de quem nasceu em outubro.

O pingente era um quadradinho com pontas arredondadas e o símbolo em alto relevo dentro. Senti as curvinhas do símbolo de Câncer. Pedi a ela um modelo com pingente maior.

— Quanto custa o meu colar junto com o dela de Libra?

Pâmela ficou agradecendo a cada segundo pelo presente. Eu sabia que não devia gastar tanto, a experiência de turista ia ser verdadeira. Eu ia chegar dessa viagem de trabalho devendo o dinheiro que eu nem tinha. Nós duas tiramos foto das joias delicadas e resolvi levar um colar com a letra inicial do meu nome.

— L de Laura — disse Pâmela derrubando a câmera no chão.

Respirei fundo para reprimir o palavrão que pretendia falar. Não queria mostrar meu lado irritado para Ravena.

Pâmela recolheu a câmera e acomodou no case, garantindo que não havia quebrado, amassado ou riscado.

— L também é de linda, ou legal, você é tão legal, Laurinha.

— Não adianta me bajular não, dona desastrada. Vamos continuar, obrigada viu, Ravena, boas vendas, tchau!

As próximas horas passaram depressa. Nós paramos numa barraquinha com velas aromáticas. Eu senti o cheiro sofisticado e feminino do jasmim, meu aroma favorito no mundo inteiro! Não que eu tenha sentido absolutamente todas as essências que existem… o mais certo seria dizer  que jasmim é o meu cheiro favorito no mundo, dentre os aromas que eu já senti até agora.

— Vai levar uma vela de jasmim, moça? O castiçal com detalhes de prata tá saindo pela metade do preço — a vendedora comentou com tom persuasivo.

— Eu adoraria comprar, mas do jeito que sou vou acabar esbarrando na vela e botando fogo no meu apartamento, brigada.

Pâmela tirou várias fotos dos tapetes de crochê em uma barraquinha na ponta da rua, onde uma aglomeração se formou antes da gente incomodar os clientes para tirar as tais fotos.

Três ou quatro vendedores depois, ainda na área dos tecidos, me apaixonei por um xale com franjinha nas bordas da peça.

— É tão macio, hummm— eu falei enfiando minha cara no tecido.

— Para com isso, Laura, agora vai ter de comprar esse aí, mas até que é bonitinho, é um rosa bem clarinho, tipo assim um rosa bebê.

— Nome esquisito pra cor, rosa bebê. É um rosa que ainda não cresceu?

— Sim! E o rosa crescido é o pink, porque é super chamativo — Pâmela respondeu dando risadinhas.

Foi a primeira compra por impulso que fiz durante a viagem. Ou a primeira daquela quarta-feira.

Um xale rosa com franjinha curta nas bordas, isso não era meu estilo. Ainda assim não consegui resistir e gastei minha grana nele. Eu ia ficar falida. Só me faltava ter de pedir um dinheiro emprestado para meu pai. Afinal o meu aluguel passava dos oitocentos reais. O doutor Marcelo adoraria isso.

Eu tentei não me concentrar em boletos futuros, pois um som característico chamou minha atenção.

Pâmela e eu encontramos uma barraquinha cujo vendedor exibia sinos dos ventos. Toquei nos tubinhos de metal que tilintavam. O som fazia a gente sorrir por uns minutos, depois a repetição dava vontade de arrancar tubinho por tubinho pendurado nas cordinhas e jogar o mais longe possível.

Seguimos para a próxima barraquinha. Os artesanatos com prata ali eram mais, digamos, antigos.

Dispostas lado a lado, eram mostradas várias caixas de prata, com pétalas desenhadas nas laterais. Eu contei pelo menos cinco em uma fileira, quando paramos perto da barraquinha. Ainda bem que avisei Pâmela, quando nos conhecemos, que os cegos param perto de prateleiras e nossas mãos são automaticamente atraídas para o que estiver exposto, é irresistível. Ah, quanto produto eu já derrubei assim… Felizmente as caixas ali não corriam perigo, pois a bancada de madeira possuía bordas mais altas, provavelmente para nenhum objeto ser levado pelo vento forte. Eu acho, ou só era estética. Vai saber. As caixas de prata eram do tamanho da minha mão. Eu não sabia se elas serviam para guardar joias, ou as próprias caixas serviam como objeto decorativo. Os espelhos que pâmela me ajudou a alcançar eram finos com molduras entalhadas com relevo nas bordas. Adorei este detalhe, ia citar isso na matéria. Ali também havia sininhos que eram um charme.

— Dizem que na mina aqui da cidade o fantasma tinha um desse no bolso — comentou o vendedor. — Sou Tarcísio, prazer em conhecer vocês, tão passeando aqui na cidade, é?

— Trabalhando, nós escrevemos para um jornal, meu nome é Laura e essa é a Pâmela minha amiga.

— Prazer, senhor, o festival ontem foi muito divertido.

— Que bom que gostaram, nós adoramos o festival, chega muita gente de outras cidades. Então menina, esse sininho na sua mão é da lenda do fantasma da mina.

— Eu morei aqui quando era criança, já ouvi falar desse fantasma. Só não lembro de ter ouvido nada sobre o sininho.

— Era um fantasma que  anunciava a chegada dele usando o sino? — perguntou Pâmela curiosa.

A voz do senhor Tarcísio ficou séria e misteriosa.

— Não, menina. Quando estava vivo, o trabalhador comprou para a mulher. Daí os outros ouviam o sininho ecoando nas paredes de pedra antes de algum lugar desmoronar.

— Isso pode ter sido só coincidência — argumentou Pâmela com tom de dúvida.

— Depois de quatro ou cinco coincidências não parece que virou um costume? — Tarcísio perguntou sério.

Me coloquei na situação, quatro colegas perdidos em circunstâncias parecidas? Do jeito que eu sou, já ia achar que era uma maldição depois do segundo acidente. Não muito longe ouvi Ravena discutindo com uma senhora que queria levar três conjuntos de brincos e colares pelo preço de um.

Só sei que a lenda parecia muito mais interessante com os detalhes extras. O senhor Tarcísio retomou a fala, a voz tornando-se misteriosa, cheia de conspiração e o tom me deixou ainda mais ansiosa para saber a continuação.

— Isso do sino tocar acontecia mesmo?

— Juro pra você, menina. Meu avô trabalhou lá e me contava quando eu era criança — ele explicou parecendo contente com a atenção que eu dispensava a ele.

— Como acontecia? Me conta mais detalhes, por favor?

— Era assim menina. Eles faziam túneis e quebravam as pedras grandes, imagina a poeira, os pedacinho de pedra no ar.

— Devia ser tão barulhento — comentei pensativa.

— Eles já usavam protetores auriculares? — quis saber Pâmela.

— Nada, naquela época as coisas eram feitas bem diferente, menina. Não é com cuidado igual hoje em dia não.

O sininho ainda estava na minha mão. Eu só peguei um sino tão pequeno como aquele quando fui decorar árvore de Natal com meus pais. Na época eu fazia mais bagunça que outra coisa. Meu pai deixava a caixa com os enfeites do meu lado e minha mãe me ajudava a pendurar cada um dos enfeites. Mas é claro que depois eu começava a tocar a estrutura da árvore para sentir como estava bonito e derrubava os que a gente já tinha colocado. Eu adorava sentir o tamborzinho, não entendia o formato meio estilizado dele, achava que alguém teria criado o enfeite de bola e foi lá e deixou o enfeite todo tortinho. Crianças… cada uma que a gente pensa.

Voltando à feira e a lenda, o sininho de metal na minha mão devia ter uns cinco centímetros de altura, eu encaixei meu indicador na base dele. Um chapéu de dedo! O senhor Tarcísio começou a falar de novo e achei melhor não compartilhar minha gracinha com ele e Pâmela.

— Lá na mina, eles as vezes usavam bomba, porque cê sabe, as pedra são dura e difícil de tirar a prata de dentro.

— E como esse trabalhador da lenda morreu?

— Parece que ele brigou com a mulher e tava bêbado, tinha ido trabalhá virado, menina. Já imagina o fim.

— Parece bem seguro, um homem que não dormiu a noite inteira ir manusear explosivos e equipamentos pesados. Nada vai dar errado — comentei com ironia.

— Que perigo — comentou Pâmela pegando o sininho da minha mão. — Deixa eu ver?

Lembrei da dica que aprendi de virar o rosto na direção que a outra pessoa está falando e tentei me posicionar melhor para ficar de frente para o senhor Tarcísio.

— Fecharam a mina quando ele morreu? Que ano foi? O senhor sabe?

— Foi bem no final da vida da própria mina, acho que em quarenta e cinco, a mina fechou em quarenta e nove. Os marmanjo tudo se tremia quando ia trabalhar mais pra noite.

— E como era quando o fantasma aparecia?

— Teve um amigo do meu vô que teve um acidente, menina, ele escorregou no óleo que vazou do maquinário. Caiu lá para baixo do túnel, o coitado. Daí foram tentar pegar ele, mas ouviram o sino.

— Não vai me dizer que largaram o moço lá? — perguntou Pâmela aflita.

— É, tentaram resgatar ele, seu Tarcísio?

— Tentaram, mas daí o túnel despencou em cima do infeliz. Terceiro acidente no ano, menina.

O sol agora esquentava meu braço, não vinha mais pelas costas. Eu pensei sobre esse tipo de morte. Era como já ser interrado. Não gostava de pensar na morte. O acontecimento em si me soava abrupto e sentia medo. Então não sabia o que era pior, uma morte rápida ou lenta. Dor súbita ou lentidão.

Minha mãe havia comentado sobre meu pai não estar bem de saúde, eu devia ligar para ele, não podia dar chance para o azar. Enquanto o doutor Marcelo Gomes ainda estava vivo era meu dever pelo menos tentar me aproximar dele. Afinal, meu pai e eu nunca brigamos de fato, só nos afastamos. Se ele não estava doente ainda, logo ficaria por conta de todo o tempo que passava enfiado no escritório, segundo minha mãe.

Eu ia ligar, assim que voltasse daquela viagem. Sem falta. Tentei me concentrar na conversa outra vez.

— E os trabalhadores como ficaram com tantos acidentes próximos?

— Se revoltaram. Pediram condições mais cuidadosas, e meu vô falou, menina, que o sino tocou assim — ele pegou um sininho e chacoalhou rápido e com força. Depois foi diminuindo até o balanço ficar fraco.

— Parece até um coração parando.

— É isso que eu pensava também, menina.

— La-Laurinha, a gente devia ir almoçar, já é meio-dia sabia? — disse Pâmela com a voz cheia de medo.

— Quanto custa esse sino, seu Tarcísio?

— Leva esse de presente, menina. Só torce pra ele não tocar nunca viu?

Eu agradeci por ele não cobrar e fui com pâmela almoçar na padaria Pão Doce.

O sol já estava mais alto no céu, o calor me fazendo suar e pensei em voltar para o hotel, tomar um banho refrescante depois de almoçar. Ia ser perfeito, banho e notebook para escrever sobre a feirinha e o que encontrei por lá. A matéria sobre o fantasma precisava ser à parte. Eu ia visitar a mina, sentir a vibe de mistério. Balançar o sininho e ouvir ele ecoando pelas paredes antigas. Que matéria foda!

Entramos na padaria e nos acomodamos numa mesinha na entrada. Pâmela pegou o cardápio e leu os pratos do dia para o almoço.

— Vou querer a linguiça toscana e suco de limão.

— Cansou de laranja? — Pâmela perguntou com um sorriso. — Acho que vou pegar esse com almôndega, vou pegar refri. Não quer não?

— Vou de suco hoje — falei suspirando, minha barriga me lembrando da fome. O cheiro delicioso de alho se espalhava pela padaria.

Ela foi fazer os pedidos e retornou.

— Sinistra a história do senhorzinho lá, fiquei toda arrepiada.

— Tem medo de fantasma, Mel? Buuuuu.

— Não brinca com isso não! O espírito do moço pode tá lá e teve outros acidentes, vai ver eles fazem uma reunião na mina.

— Sim, o fantasma do sino fala, vamos lá dar um oi para a moça da cidade, ela ainda não nos conhece.

— Para Lauraaaa.

— Se você sentir um friozinho de repente, pode ser ele vindo te cumprimentar. Cuidado viu? Se você acordar as três da manhã pode ser ele sussurrando no seu ouvido, boa noite.

— Laura, para, vai.

— Mel, calma, eu tô brincando. Não deve ter nada lá, mas a gente tem que visitar a mina.

— Tem nada, a câmera não vai funcionar e o celular vai ficar sem sinal. Aí, se aparecer um fantasma e a gente não conseguir pedir ajuda?

— Se te deixar mais tranquila, podemos pedir a alguém da cidade para ir junto.

O almoço chegou e comemos em silêncio por um tempo. O suco gelado de limão tava azedinho no ponto certo.

Pedimos um sorvete de sobremesa, Pâmela recebeu uma ligação do Rodolfo e ela saiu para falar com ele.

Peguei o celular e olhei o grupo dos Maus Elementos. Dylan tava puto.

Eu li a primeira mensagem dele.

“Ágata tá a duas horas falando de orquídeas, eu já vi o preço dessa droga de flor, não podemos gastar tanto com isso! Meninas, me ajudem, pelo amor de Deus, eu preciso de argumentos!”.

Marisa respondeu:

“você só vai casar uma vez, compra as flores da mulher”, ou seja ela não ajudou muito.

Eu cliquei na mensagem dele, selecionei e cliquei em responder: amigo, porque não compra só uma orquídea para cada arranjo da mesa? Assim vocês dois vão ter o que querem.

As mensagens deles eram da noite anterior e ainda não havia mais nada até  aquela manhã.

Pensei sobre o assunto. Flores no casamento.  Claro que eu ia gostar de me casar e flores combinavam muito com a ocasião, mas os gastos me faziam pensar duas vezes. E se eu tivesse ficado em Vila da Prata poderia estar casada com Thomás. Ou será que íamos ser dos casais que moram junto e não fazem festa?

Pâmela entrou na padaria minutos depois. Resolvemos ficar na praça e escrever a matéria. Depois de pagar a conta, fomos caminhando juntas até lá.

Ouvi alguém varrendo e pegando o lixo que deve ter ficado do festival do dia anterior. Pâmela falou que o Rodolfo tava bravo porque ela postou uma foto com Jonathan na tarde anterior.

— Por que ele tá com ciúme, vocês não tão só ficando?

— Sim, mas ele tá agindo como meu namorado e tipo, minha foto só era eu abraçando o Jonathan assim, com o braço nos ombros, não foi nada demais não.

Nós duas chegamos na praça e nos sentamos embaixo de uma árvore. O banco áspero de pedra igualzinho na minha lembrança.

Pâmela tirou a mochila, apoiou entre nós duas no banco e retirou o notebook. O vento fresco jogou meu cabelo para frente, Pâmela me deu o fone de um lado só e comecei a trabalhar ouvindo o leitor de tela.

Digitei sobre a manhã na feirinha, mencionando os itens de cada barraquinha que encontramos.

Pâmela carregou as fotos, adicionou no arquivo e fez os ajustes finais.

— Mel, eu acho que nunca te perguntei, porque você gosta que te chamem de Mel e não de Pam?

— É que quando eu era pequena, o meu primo ficava fazendo aquela música clássica do pan-pan-panpan sabe?

— Não, qual música?

— Deixa eu pesquisar aqui no Youtube e te mostrar — ela disse digitando depressa.

— Tá, então era só pela música?

— Ele me irritava com isso, e depois começou a me chamar de pão de queijo, pão de leite, pão de milho.

— Seu primo era um pentelho.

— Sim, daí minha mãe começou a me chamar de Mel pra ver se os outros me chamavam assim, tipo os da família sabe? E funcionou. Mas as vezes as pessoas pensam que meu nome é Melissa.

— Faz sentido, é como eu pedir que me chamem de rá. Iam pensar que eu chamo Raquel, sei lá.

Pâmela clicou na música no Youtube e reconheci a quinta sinfonia de Beethoven.

— Ai amiga, pior que combina tão bem!

— Não canta, não canta!

— Pan-pan-pan-pan!

— Sua vaca.

Eu ri alto e abracei a Pâmela. Ela ficou resmungando.

— Desculpa gata, é que quando você fala pra eu não fazer uma coisa é aí que quero fazer.

Peguei o notebook de volta e enviei a matéria para a Quézia. Poderíamos ficar com a tarde livre.

Acima de nós, os passarinhos cantavam daquele jeito confuso e lindo, como se cada um executasse uma canção diferente e ainda soasse perfeito. Pâmela guardou o notebook na mochila e me entregou minha bengala que eu deixei dobrada sobre o banco entre nós duas.

Me levantei e abri a bengala, o som metálico e familiar das partes se encaixando umas nas outras me fez lembrar de quando assustei um motorista do Uber. Ele me contou depois que eu fui a primeira pessoa cega que ele levou na vida dele. Coitado, eu não queria distrair o moço. Ainda mais porque ele dirigia e tal. Esse negócio de se distrair acontecia facilmente comigo. Pensando bem, quem eu era para repreender a Pâmela? Eu entendia essa habilidade de devanear. Tanto que fiquei absorta nessas reflexões enquanto andávamos pela praça. Eu deslizava a Ponteira Roller pela calçada plana. Nenhum desnível, jeito bonito que papai chama os degraus pelo trajeto. Ouvi uma mulher dando bronca na filha pequena, pois aparentemente a menininha tentava dar o picles do próprio lanche para os pombos.

Nos encaminhávamos na direção do hotel, minutos depois, o vento refrescando o calor da pele, enquanto eu  imaginava se gostaria de um dia ter um filho ou dois. Quais nomes eu daria a eles?

No instante em que senti o degrau para descer, ouvi uma porta de carro batendo e então Pâmela parou de andar.

Ouvi vozes masculinas agradecendo não muito longe de nós duas e o carro arrancou com pressa. Ouvi passos e uma bengala sendo aberta. Um perfume chegou até mim e reconheci sorrindo e sentindo, como diria Sebastian Yatra: “mariposas no estômago”.

— É ele, ai meu Deus, cadê meu batom? Onde eu coloquei… — Pâmela perguntou desesperada abrindo um zíper curto, acho que da nécessaire.

— Quem? Seu gatinho do campo?

— Isso, o Jonathan, ai, onde tá o batom?

Como era de se esperar, a moça apaixonada e atrapalhada deixou cair a nécessaire, ouvi o som dos cosméticos de plástico batendo no chão. Com certeza um deles não sobreviveria à queda.

— Oi Mel!

— Responde pra mim, Laurinha, por favor, to pegando as coisas que caíram, merda, quebrou o estojo de sombra.

— Oi Jonathan, a Pâmela tá meio ocupada no momento — respondi me esforçando para não rir da situação.

Ouvi o Jonathan e o amigo dele, que devia ser cego também, se aproximarem.

— Você é a Laura? Prazer — Jonathan falou ao chegar do nosso lado. — Mel, eu te ajudo.

Ele se agachou para recolher as maquiagens junto e os dois caíram na risada quando o celular do Jonathan foi parar no chão, pois ele o colocara no bolso de trás da calça, pelo que escutei dele explicando. Aquele relacionamento ia longe. Imagina no casamento ele perdendo a aliança e ela derrubando o buquê?

— Laura? A jornalista e dançarina?

Meu coração acelerou. Eu reconheci a voz do meu ficante relâmpago. Que apelido ridículo, eu devia escolher outro ou perguntar o nome dele logo.

— E aí estranho? Tá me perseguindo?

— Você quem está na minha cidade, então é você quem está me perseguindo.

— Bom ponto. E aí? Você e o Jonathan são amigos?

— Para a sorte dele.

— Quanta modéstia.

— Fazer o quê, eu sou incrível — ele riu e eu fiz o mesmo. — Tô andando demais com o Iury, já fui contaminado com a autoconfiança exagerada.

Eu sorri.

— Ah, Iury, eu vi ele ontem no festival. O cão guia dele chama Madruguinha de verdade?

— Pior que sim, ele pegou aquele cachorro já fazem uns cinco anos e foi o único que se adaptou ao Iury, que fica correndo pra lá e pra cá.

— E você por que não tem um cão guia? Eles são muito úteis, além de serem lindos.

Pâmela e Jonathan terminaram de recolher a maquiagem do chão, ela segurou no meu braço e nós quatro retornamos para o banco na sombra da árvore.

Sentei de novo ao lado do meu colega de beijos. E que beijo… ele começou a falar de novo e tratei de prestar atenção em cada palavra que saía daqueles lábios gostosos. Cacete, Laura, para com isso!

— Eu até queria ter um cão guia, mas eles dão bastante gasto. Tem que estar preparado.

— Verdade, esqueci desse ponto, ração, veterinário e tudo o mais né?

— Gente, já voltamos tá? — a Pâmela disse e se afastou com Jonathan.

— Por que é que eles não podem se beijar aqui? Não é como se a gente fosse ver de qualquer jeito — eu reclamei.

Ele riu e foi desencaixando os gomos da bengala e dobrando.

— E aí, resolvendo pipinos? Ou tava aproveitando o dia de folga?

— Fui levar meu filho no psicólogo da cidade vizinha. Acabou demorando mais do que eu imaginava.

— Você tem um filho? Que legal, quantos anos ele tem?

— Onze, ele tem TDAH, então preciso levar ele em consultas o tempo todo.

Meu Deus do céu, o cara que eu beijei tinha um filho, então era possível que aquele estranho fosse realmente casado! O que foi que eu fiz?

— O Jonathan te acompanhou na consulta lá?

— Não, a irmã dele convidou a gente para um café da tarde depois.

— Então foram só você e o seu filho?

— Sempre só nós dois, desde que a mãe dele foi embora. Uma coisa que ninguém acredita quando eu conto, porque o normal é o pai ir embora, não a mãe.

— Tá aí uma realidade.

O perfume maravilhoso dele fez minha mente viajar nas possibilidades de novo, beijos, toques, como soaria a voz dele mais baixa. Se falando normal já era tão sensual… como seria se ele tentasse ser sensual de propósito?

Estendi a mão ali sobre o banco e toquei na dele. Seguramos um na mão do outro. Eu sorri.

— Talvez fosse bom pegarmos o contato um do outro, ou vamos continuar nos encontrando só por acaso?

— Mas se você é a perseguidora aqui, nos encontraremos em breve, não?

Nós rimos.

— É sério, vou colocar seu nome no contato como Estranho da Silva?

— Não gostei desse nome, que tal, Estranho beijador.

— Hummm, podia ser Stranger Kiss — imitei em seguida a voz dos documentários da Discovery. — Confira como serão os beijos nos próximos capítulos.

Ele apertou minha mão, se aproximou de mim ali no banco e se inclinou para perto.

— Essa série é boa mesmo? Porque Stranger Kiss em português seria “beijo estranho”.

— Tem razão, teria de ser beijo em um estranho.

— Vou te mostrar, Laura, como seria o beijo invertido.

— Me mostra, me mostra…

Ele levantou a mão que segurava a minha e beijou as costas da própria mão.

— Você é impossível.

— Você é linda.

— Quem te contou?

— O Jonathan te descreveu. E você? Não perguntou para sua amiga o quanto eu sou gostoso?

— Convencido.

Ele soltou minha mão e tocou meu rosto.

Fez carinho na minha bochecha e me senti corando.

Íamos nos beijar de novo, por favor, que nos beijássemos mais uma vez…

Ouvi o som dos tênis do Jonathan. O casal já retornava? O gesto do meu querido parceiro de beijos parou. É fogo… Jonathan saía quando não precisava e voltava quando eu não queria!

— Bóra lá, Tutú?

— Você não pode me chamar assim, ainda não chegou ao nível de intimidade do Iury.

Ele se afastou, mas não sem antes tocar meus lábios com as pontas dos dedos.

Não consegui evitar de dar um suspiro. Outro beijo ia ser tudo de bom!

— Tchau, linda — ele disse mais baixinho, só para mim.

Bem que o Jonathan podia ter demorado mais uns dois minutos, dois minutinhos e outro beijo teria rolado. Espera…

Ele tinha o apelido de Tutú. Apelido de Arthur… O frio na barriga foi diferente, nada de mariposas, agora foi mais pânico paralisante. Eu estava me precipitando, não havia problema, descobri numa pesquisa que em São Paulo mais de cento e trinta e cinco mil caras levavam esse nome. Ou seja, vários caras chamados  Arthur. Não podia ser o mesmo Arthur que eu conheci, nem a pau!

Os dois homens se afastaram ainda discutindo sobre Jonathan poder ou não usar o apelido do xará do meu fantasma do passado. Eu apertei a bengala e a Pâmela começou o falatório.

— O Jon fica elogiando meu sorriso e  tal. Espero que ele não fique apaixonadinho.

— É, seria terrível.

Pâmela  e eu atravessamos a rua lateral da praça e ela foi pedir o Uber para o hotel. Peguei meu próprio celular e perguntei para a assistente virtual quantos caras chamados Arthur poderiam existir numa cidade como Vila da Prata, que comportava trinta e cinco mil habitantes.

— O Uber vai chegar em dois minutos, ai eu adoro o nome Arthur, é o nome que eu escolhi junto com o Rodolfo para darmos ao nosso primeiro filho se a gente se casar.

— Pera aí Mel, deixa eu ouvir.

A resposta que escutei foi que o nome era utilizado 0,35 por cento das vezes. Só que o cálculo era sobre a metade do número de habitantes, porque, segundo a assistente virtual, metade da população de Vila da Prata seriam homens. Convertendo para estes números ela me disse que pelo menos sessenta caras por aí se chamavam Arthur.

— Um minuto o Uber chega — avisou Pâmela. — Por que de repente ficou obcecada com esse nome lindo?

— Nada, loucura — respondi guardando o celular no bolso.

Entramos no Uber pouco tempo depois, coloquei o cinto de segurança e pensei no outro detalhe: as estatísticas mostravam probabilidades gerais. Não dados específicos sobre pessoas com deficiência visual. O número podia ser menor. Mas não, não era o Arthur que eu conheci! Nem a pau! Não era aquele arrogante, ridículo, trouxa. Eu precisava de uma ofensa com H. Qualquer uma! Porcaria de H, sempre atrapalhando a minha vida! Hipócrita, utópico. Droga, meu cérebro nem tava mais criando xingamentos rápidos e simples direito! Arrogante, ridículo, trouxa, hipócrita, utópico e rude.

— Laurinha, tá passando mal? Você tá pálida.

— Estou ótima, acho que só preciso de um cochilo, dormir é bom.

— Tá estranha.

Estranha como stranger kiss. Eu não beijei o Arthur. Este que beijei era o Arthur do bem. Eu jamais encostaria meus lábios nos lábios do Arthur do mal.

Chegamos no hotel e eu tava louca para tomar um banho refrescante e depois tirar um cochilo gostoso.  Tudo faria sentido depois de um banho e um cochilo.

Ouvi a fonte com o som relaxante das águas, subimos os degraus e entramos na recepção.

— Não vai tropeçar no tapete de novo — alertei, mas era tarde demais.

Pâmela enroscou a sandália, virou o pé, eu sei lá o que ela fez mas o resultado foi o mesmo da nossa chegada. Agora porém, com mais pessoas para testemunhar o desequilíbrio da moça.

— Porra, esse tapete é muito grosso — ela reclamou envergonhada.

Eu ia fazer uma brincadeira dizendo que o tapete não tinha modos, mas achei melhor guardar para quando ela não estivesse tão encabulada.

Demos alguns passos ali na recepção, o cheiro que impregnava o hotel era de café. O Arthur do bem foi tomar café com uma amiga. Ou o possível Arthur do bem. Não! Ele decididamente era um Arthur diferente, divertido e sensual. Eu queria parar de pensar nele. Uma distração seria bem vinda.

— Moça… Laura né? Tem um presente te esperando. Aqui um buquê de flor bonitão.

A voz alegre e simpática do senhor Flávio me tirou dos meus questionamentos incertos.

Eu recebi as flores, pelo cheiro deduzi que eram rosas. E sorri.

— Laura, fica calma, respira — pediu Pâmela num sussurro de alerta.

Não entendi porque ela tava tão nervosa.

— Quem mandou isso, seu Flávio?

— Fui eu que mandei, meu amor — respondeu uma voz masculina que eu não esperava. — Tava com saudade?

Por um instante senti um arrepio e não dos bons. Era só o que me faltava. Eu não podia ter um dia de paz? Tudo bem que o dia anterior fora realmente tranquilo, divertido, leve, mas por que o Universo não me deixava ter mais dias como aquele? Eu deveria ter imaginado que Nadir ia aprontar uma dessas, vir atrás de mim já que eu não atendia ele.

— Puta que pariu — senti a raiva e a incredulidade ao mesmo tempo. — Nadir, o que é que tá fazendo aqui?

— Licença, brigada, seu Flávio — Pâmela falou pegando o buquê da minha mão.

Nadir andou até o balcão na minha direção. O perfume enjoativo e picante me trouxe lembranças demais.

O toque mínimo da bengala produziu um som baixo quando ele encontrou o balcão.

— Bella mia, a gente precisa conversar. Não tava conseguindo falar com você pelo celular. Te amo tanto, piccola.

— Fala baixo — respirei fundo, não podia fazer escândalo ali na recepção. — Pâmela, traz ele junto — pedi falando entre dentes.

Ela pegou a mão dele e depois pousou minha mão no ombro dela. Toda desajeitada e ainda abraçando o buquê de flores, demos passos na direção do quarto.

Como foi que meu horóscopo não avisou uma tragédia dessa magnitude? Eu já acreditava que Nadir tivesse compreendido o meu silêncio. Não sabia que ele era do tipo se a montanha não atende as ligações de Nadir, ele vai encher o saco da montanha.

Entramos no quarto.

— Tentem não se matar, tchau — disse Pâmela caindo fora e batendo a porta. Ela deve ter levado as flores junto.

Eu estendi a mão e segurei no braço de Nadir.

— O que é que tá fazendo aqui? Quem te disse que eu vinha para cá? — perguntei irritada. — Nadir, chega dessa palhaçada!

— Ei amore, eu só queria te ver, você não me atendia, então eu vim te falar  que eu te amo…

Eu bufei cansada da ladainha. Mordi o lábio esperando ele terminar de falar.

— Vim perguntar se já pensou melhor.

— Não, Nadir, não pensei melhor, a gente terminou. Ter-mi-nou.

— Mas bela mia, por que não conversamos um pouquinho? O que foi que aconteceu que você não quer mais namorar comigo? — O tom de inocente não me enganava nem por um segundo. — Me explica, piccola.

Marjory me disse para respirar fundo, contar até três mentalmente e não despejar as palavras que queria dizer num primeiro momento. Não era fácil se acalmar e repetir o que eu já havia dito por ligação, por mensagem de texto, por áudio e na última vez que nos encontramos, ia ser uma droga, mas já que Nadir precisava ouvir de novo, eu ia falar de novo:

— Nós dois queremos coisas diferentes. Eu curto ficar em casa, você ama ir pra rolê todo fim de semana, não dá.

— Eu fico em casa com você, prometo.

— Não, você não tem que mudar quem é só pra agradar outra pessoa. A gente  tentou, lembra? Eu ia na balada contigo e não gostei, você me arrastando pra sair de dia de semana — lembrei a ele de nossas tentativas indo em barzinho em plena terça-feira.

— Eu faço diferente, amore. Não sente minha falta?

Nadir, num movimento inesperado, segurou meu rosto e tentou me beijar. Virei o rosto a tempo. Ele beijou minha bochecha.

Dei um passo atrás e segurei o braço dele mais forte.

— Presta atenção, o que a gente teve foi foda, mas acabou. Não somos compatíveis.

— Amore, mas eu posso  ser diferente, to sentindo saudade demais — ele falou com o tom carente que antes me  quebrava e fazia eu me esforçar para fazer ele voltar a ficar feliz.

Eu não acreditava ainda que ele tinha vindo atrás de mim numa cidade desconhecida.

— Nadir, por favor, supera. Segue a vida, eu sei que dói. Mas a gente é adulto, não precisa de tudo isso.

— Eu ia te levar para conhecer meus avós na Itália. Você queria tanto ir, fez até o roteiro da viagem.

Suspirei cansada.

— A gente tinha planos. Mas, não vai rolar mais.

— Não vou desistir de você, bela mia. Eu te amo e vou amar para toda a minha vida.

Mordi o lábio para não xingar de novo, não ia resolver.

— Vai embora, eu to trabalhando aqui na cidade, não estou de férias. A última coisa que preciso é um cara atrás de mim.

— Eu trouxe suas rosas, você adora elas, não adora? Lembra quando eu te dei um buquê  assim?

— Nadir, desculpa mas era sufocante. Quem comemora semanas de namoro? Semanas!

— É para você ver o quanto me faz feliz, piccola. Eu não podia passar em branco o dia que você aceitou namorar comigo!

Ele passou a mão no meu cabelo e se aproximou de novo.

— Eu não acredito que você já tá namorando com outro, tá? Tá nada, né?

— Não, só que isso não significa que quero voltar contigo.

— Significa que não me esqueceu, bela mia. Pensa com carinho, a gente começa do zero.

— Vai… pra… sua… casa.

— Não vou desistir amore.

— Se você não for embora, eu vou.

— Piccola, para de ser teimosa. Pensa na minha proposta.

Apoiei a mão no ombro dele e forcei empurrando de leve.

— Eu viajei para cá — ele disse com tom mais duro. — Eu te trouxe flores, eu não to vendo ninguém mais correndo atrás de você.

— Sempre jogando tudo que faz na minha cara né? Esse é outro motivo que me faz não querer ficar contigo. Tchau, sai fora.

Ele foi dando passos lentos na direção da porta do quarto. Fui empurrando e abri a porta.

— E para de ficar fazendo escândalo gritando que me ama, eu não vou voltar pra você assim.

— Então se eu for discreto você volta, bela mia?

A esperança, porra, a esperança na voz dele me irritou, por que ele tinha de distorcer tudo que eu falava?

— Não, não vou voltar de jeito nenhum, sai.

Fechei a porta atrás dele. Ouvi a bengala tocando o chão de forma rítmica e ele chegou no balcão.

Eu abri a porta e escutei Nadir falando com Flávio perguntando se havia quarto disponível. Cacete, era só o que me faltava! Eu não podia ficar tranquila com aquele idiota no mesmo hotel, o que é que eu podia fazer?

Peguei o celular e liguei para Pâmela.

— Pode voltar para me buscar? A gente precisa sair daqui um pouco ou eu vou matar ele. Esganar, estrangular, sei lá.

Retornei para minha cama e me sentei tentando respirar mais devagar. Nadir parecia uma pessoa diferente agora. Não achava mais charmoso o sotaque italiano, não queria sentir o perfume sofisticado que antes eu achava o máximo, o que eu encarava como determinação parecia mais amolação.

Comecei a brincar com as mmechas dos meus cabelos, enrolando no dedo e soltando. Ainda bem que eu terminei a matéria de tarde, não ia ter ânimo para trabalhar depois daquela surpresa desagradável.

Os minutos foram passando, resolvi ouvir música no celular até ela chegar.

Fechei os olhos e me estiquei na cama, deitada meio na diagonal.

Eu devia ter transferido a sessão com minha terapeuta para aquela tarde, em vez da tarde anterior. As vozes de Ana e Vitória no fone de ouvido me acalmavam aos pouquinhos.

Cinco músicas começaram e terminaram antes de Pâmela voltar. Ela entrou no quarto, fiz um resumo do que aconteceu entre Nadir e eu e saímos juntas para a recepção. Eu parei para falar com o funcionário do hotel.

— Seu Flávio, meu amigo ficou hospedado aqui, não ficou?

Ele nem fingiu que não sabia do que eu estava falando:

— Moça, descurpa, mas é que aqui é um hotér, não posso recusá as pessoa.

— Eu sei — suspirei frustrada. — Não é culpa do senhor. Ele é insistente. Bom, até mais.

Saímos para a entrada, desci os dez degraus já meus conhecidos e seguimos na direção da padaria que almoçamos.

— Coloquei o trajeto no celular, vamos a pé, assim você acalma esses pensamentos assassinos — Pâmela disse e não protestei.

Caminhamos duas ou três ruas em silêncio. Consultei o celular e ouvi o TalkBack dizendo que eram quatro e quinze ainda.

— Eu fiquei chocada quando vi ele lá com o blazer cinza, camisa branca, parecia cena de filme — descreveu Pâmela.

— Pera aí — falei clicando com o TalkBack no contato da minha mãe.

Minha mão no ombro da minha amiga, enquanto caminhávamos mais devagar no meio fio.

O celular chamou três vezes antes dela atender.

— Alô? Dona Cláudia, a senhora por acaso falou para o Nadir onde eu tava?

— Boa tarde para você também, onde tá sua educação, Laura Gomes?

Respirei fundo.

— Desculpe, a senhora falou com ele ou não?

— Filha, é claro que não, você disse para eu bloquear esse rapaz. Por quê? O que aconteceu?

— Ele veio atrás de mim aqui, mãe! Com flores e pedindo pra gente voltar. Eu não consigo enfiar na cabeça dele que acabou.

— Esse rapaz precisa largar o osso.

— Concordo, mas não sei mais o que fazer. Parece que o que eu falo entra por um ouvido e sai pelo outro.

— O que você vai fazer, meu amor?

— Tô pensando em ir para outro hotel. Tem um na cidade aqui perto, mas ia ser mó rolê pra ficar indo de uma para a outra. Ai mãe, se eu soubesse que o Nadir era maluco desse jeito.

Perguntei a ela sobre meu pai e mandei um beijo aos dois, desligando logo depois. Eu não tava com cabeça para falar com o doutor Marcelo.

O cheiro de pão assado parece que emana das padarias seja a hora que for. Entramos no estabelecimento. Pelo som das vozes ao redor não devia estar cheio.

— Pede uma bebida pra mim, Mel?

Nos sentamos juntas e Pâmela pediu cerveja. Eu bebi a primeira em goladas até a metade.

— Não foi minha mãe, quem pode ter sido então? Alguém tem de ter avisado ele, será que ele ligou lá no trabalho?

— O Dylan não contaria, nem a Mari, não é? Ou será que foi um deles?

— Eu vou descobrir isso. Agora, vamos ter de ir pra outro hotel.

— Vai dar mais gasto — ela observou corretamente.

— Na cidade aqui próxima tem um hotel com os quartos bem em conta. O rolê vai ser ficar indo para lá só para dormir.

Bebi gole a gole da cerveja gelada. Respirei mais devagar.

Ia ficar tudo bem, eu precisava relaxar. Mudar de hotel ia ser a solução, pois o meu ex não ia poder me seguir para sempre.

Terminei a cerveja e mandei Pâmela pedir outra.

— Laurinha, ele chegou, não surta, não surta, se segura.

Ouvi a voz de Nadir vindo lá da entrada e engoli em goles grandes a segunda cerveja.

— Eu vou pegar mais uma — Pâmela disse desesperada. — Quer saber, não vou não.

Ela fez um som de frustração.

— Se prepara, tão trazendo ele pra nossa mesa.

— Tem uma amiga sua aqui, pode sentar, vou puxar a cadeira para o senhor — disse um funcionário ali da padaria com tom simpático.

Inferno, mania estúpida de achar que todos os cegos do mundo são amiguinhos, porra!

Fiquei frustrada enquanto ele sentava ali ao meu lado.

— Oi bela mia, que  coincidência achar você aqui! Já falei que adoro seu perfume?

— Oi praga.

Ele fechou a bengala, pediu um espumante e Pâmela pediu para trazerem minha outra cerveja.

— Vai adorar o hotel, eu vou conhecer o da cidade vizinha.

— Piccola, não sai de perto de mim não — ele implorou cheio de drama. — Eu vim pra ficar pertinho de você.

— Oi meus queridos, querem pedir alguma coisa pra acompanhar a cervejinha? E o senhor? Vai comer algo?

— Eu gostaria de um pedaço de bolo de prestígio, dona Rosa — falei reconhecendo a voz dela da barraquinha do festival.

— Eu queria um pedaço de pizza de calabresa — pediu Pâmela cautelosa. Ela devia tá com medo de eu surtar ali na companhia do Nadir.

— Eu não quero nada por enquanto, não senhora — Nadir falou todo educadinho. Sonso, sonso, sonso!

Minutos depois, dona Rosa trouxe o bolo e a pizza.

— Aqui na cidade não tem outro hotel além do paraíso não, né? Dona Rosa?

Eu comecei a saborear o bolo de coco, molhadinho, geladinho e doce.

— Tem não, querida. Você não gostou de lá?

— Não é bem isso — eu terminei a terceira latinha de cerveja e vi que o negócio já tava batendo. Minha mente já tava meio confusa e eu senti a tontura quando levantei.

— A senhora me leva no banheiro, por favor? — perguntei e ela disse que sim.

— Eu te levo — Pâmela disse de boca cheia se levantando e deixando o garfo cair na mesa.

Pelo som que fez depois deduzi que o garfo dela foi parar no chão.

— Eu levo ela, querida, aproveito e peço para o Bruno te trazer outro garfo.

— Brigada — Pâmela disse toda envergonhada voltando a se sentar.

Peguei no braço da senhora e nos afastamos da mesa. Foi só aí que tentei explicar a ela o que exatamente estava acontecendo.

— Eu quero ir pra outro hotel por causa daquele moço que tava ali comigo, ele é meu ex namorado.

— Nossa querida, vocês terminaram agora foi?

— Não, já terminamos faz um mês e eu namorei ele por umas quatro semanas, ele não para de tentar voltar. Eu não quero mais.

Nós duas passamos por um corredor estreito. Dona Rosa me conduziu por entre duas pilhas de caixas empilhadas. Minha mão esbarrou em uma delas e senti o plástico rígido.

— Você já tentou conversar com ele?

— Foi o que eu mais fiz, dona Rosa, eu te garanto.

— Bom, se ele não respeita sua decisão, é melhor se afastar sim, querida.

Ela colocou minha mão no batente da porta. Perguntou se queria que mostrasse a disposição de tudo lá dentro.

— Não, tudo bem, eu vou devagar, e a bengala ajuda.

Mas ela não se sentiu segura, talvez por eu estar bastante bêbada.

Dona Rosa entrou comigo e segurou com a mão por cima da minha, movendo a bengala e mostrando onde se localizava o vaso sanitário, depois ela esticou o movimento para o lado mostrando a pia.

— O sabão tá do lado direito da torneira e a toalhinha tá pendurada na parede do lado esquerdo, tá bom? Te espero ali fora. Fica à vontade.

Ela soltou a bengala e saiu fechando a porta.

Encostei na superfície gelada da parede do banheiro, o frio atravessando o tecido da blusa.

— Não vou deixar isso me abalar. Eu ainda tenho que fazer meu trabalho. Vai dar tudo certo.

Eu usei o banheiro, lavei as mãos e depois o rosto. Não ia deixar Nadir me desestabilizar.

Se ele me atrapalhasse, me distraísse, eu podia perder a matéria do dia, não conseguiria visitar os lugares, falar com as pessoas. Meu pai ia mais uma vez perguntar como ia o trabalho na redação. O tom de desdém e as indiretas sobre faculdades de direito e como nunca era tarde para seguir na profissão mais promissora.

Meus olhos se encheram de lágrimas, eu não podia ir mal no meu trabalho. Nadir não ia ter o poder de estragar tudo. Não podia. Mas até que eu senti saudade dele. Só um pouco.

— Foco, Laura, é o álcool falando — falei após secar as mãos e pegar a bengala para sair do banheiro.

Uma ideia veio à minha mente, talvez ali no interior eu encontrasse casas alugadas pelo Airbnb. O valor das diárias talvez fossem do mesmo valor do hotel, talvez mais baratas, eu podia dar uma pesquisada e descobrir. Não ia ter como Nadir descobrir onde eu tava com outra pessoa.

Saí esperando já ter apagado os vestígios do choro.

— Que foi, querida? Oh, meu Deus, vem cá.

Dona Rosa me abraçou forte e eu me deixei ali um segundo, era um abraço de mãe, que acolhe.

— Respira, tá tudo bem, não fica assim, querida.

— Ele não podia ter vindo pra cá agora, e pior que deu uma saudade dele. Não vou cair nessa de novo não, ou ele nunca mais vai me deixar em paz.

— Calma, não chora não.

Retornamos para a mesa, Pâmela felizmente já terminara a pizza. Fui com ela pagar a conta e deixamos Nadir lá sozinho.

— Escuta, Mel, você tem o aplicativo do Airbnb?

— Não tenho, mas eu posso baixar. Vamos pra outro lugar por causa do seu ex perseguidor?

— Sim porque eu não sou a Beck, não quero ser a Beck — repeti lembrando da série You. A coitada da moça só se lascou naquela história.

— Ninguém quer ser a Beck — Mel concordou.

Tivemos que procurar uma  casa modesta no Airbnb. O valor era de oitenta reais por dia.

Pâmela estava meio aflita com isso de ficarmos em outro lugar que não no hotel.

Retornamos para lá, jantamos no restaurante do hotel. Eu tomei um banho antes de dormir e fiquei ouvindo Ana Vitória até cair no sono. Ia ser ótimo voltar para a instituição. Quem sabe o Raul ainda dava aula lá? Eu ia descobrir em breve.

39 comentários em “ER 2 – Amor não é clickbait (Sarah Nascimento)

  1. Martim Butcher
    30 de maio de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Sarah,

    Comecei a ler seu romance faz mais de uma semana e hoje voltei para terminar. Gostei do desafio que você se propôs, que é contar a história da perspectiva de uma pessoa com baixa visão (pelo que entendi, ela enxerga algumas coisas, mas outras não, correto?). Isso propicia a construção perceptiva do mundo a partir de um lugar bastante inusual para a ficção, e aí reside uma originalidade do texto. Fico intrigado, querendo saber como isso incide sobre a subjetividade da narradora, que, apesar dessa dificuldade, atua no mundo com o maior alto astral. Acho importante não abandonar essa peculiaridade perceptiva da narradora conforme o enredo vá se desenvolvendo.

    Esse alto astral, se por um lado dá uma leveza ao texto e uma facilidade para seguir adiante na leitura, também gera, na minha opinião, certos problemas. É que ainda não me parece que a protagonista vá enfrentar grandes problemas. No fim, parece que a vida de Laura é um mar de rosas! Será que isso se sustenta ao longo das muitas páginas que um romance exige? Ou será que daqui a pouco vão pintar grandes problemas que eu ainda não sei?

    Também achei que faltou um ajuste na hierarquia dos acontecimentos. Acho que isso tem a ver com ritmo em um sentido amplo. A impressão que me dá é que você foi escrevendo no calor da inspiração, mas não voltou ao texto para os ajustes finos em relação à pontuação, ao tamanho das frases, dos parágrafos, das cenas. Acho que para um texto como o seu valeria muito a pena a leitura em voz alta. É claro que não é assim que a gente lê na maior parte do tempo, mas entendo que a leitura em voz alta deixa explícito o ritmo de uma maneira que pode ser muito proveitosa para aprimorar o andamento das coisas.

    É isso, por enquanto. Boa sorte na continuidade do trabalho!

    • Sarah S Nascimento
      14 de julho de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá, Martim! Agradeço muito por todas as suas observações. Na verdade a Laura é cega total, talvez eu não tenha deixado isso claro. Tem momentos que eu escrevo muito focada em livros que eu já li, com um monte de situações e gestos visuais e eu posso ter colocado essas coisas demais sem querer. Vou tentar deixar mais claro nas próximas partes o quanto de visão que os outros personagens tem. Quanto a voltar no texto para revisar e tal, eu fiz isso! rs. A questão é que minha escrita ainda não é das melhores, então estou tentando não deixar para escrever apenas quando eu for realmente boa nisso. kkk, pode demorar muito! risos. Um ponto que você citou me chamou a atenção: tudo ser muito fácil para ela, um mar de rosas… eu não tinha percebido isso, mas acho que tem razão. Eu não sei criar tensão sabe? E sem isso, bem, quem ia ficar vidrado numa história né? Enfins, muito obrigada novamente pelos seus apontamentos! Até mais!

  2. Gabriel Kolisch
    28 de maio de 2026
    Avatar de Gabriel Kolisch

    Oi, sinto muito pela demora!

    Eu achei muito interessante como você deixou para revelar a questão da falta de visão mais para frente. Gostei de como você vai revelando somente conforme precisa, sem sobrecarregar a escrita. 

    No cap 1 acho que você fez um bom trabalho de mostrar como ela estava atenta aos ultimos momentos dela na cidade, reparando em tudo. Senti que a leitura fluiu bem mesmo com a sensação de que as coisas não estavam “avançando” mto.

    No começo do cap 1 eu me perdi um pouco com quem estava falando o que, por conta das descrições. Pode ter sido eu.

    Opinião pessoal, mas alguns diminutivos na narrativa soaram desnecessários e repetitivos. “fofo” foi muito repetido. Entendo o apelo da linguagem jovem, os “tipos” por exemplo estão bem colocados. Mas o resto me cansou.

    Eu estranhei um pouco ela reagir com tanta normalidade sobre a cobertura da vila da Prata, pra quem cresceu na cidade e não visitou em uma década, pareceu bem sem impacto.

    Enquanto ela escolhe entre Dylan e Pamela, as informações sobre a Ágata/falência parecem vir um pouco do nada e sem contexto. Parece que ficou faltando uma ou duas frases do meio.

    O cap 2 tem uma sensação muito maior de fluxo de consciência, que acho que você sustenta bem e funciona, mas alguns momentos quebraram esse ritmo para mim. Um deles foi na explicação do nome Estrela Cadente ao falar da voz do último filme. Pareceu um gancho do nada, e parei para tentar lembrar se tinha falado disso ou não. Algumas informações as vezes me geraram mais a quebra da leitura do que esse preenchimento do mundo.

    Espero que ajude. E deixando claro que tentei te falar como as coisas chegaram para mim, então veja o que vale absorver disso!

    • Sarah S Nascimento
      14 de julho de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oi Gabriel! Primeiro quero agradecer por ler meu texto. Quanto a demora… bem, veja só quando eu estou te respondendo! kkkk, já indo para a parte dois do desafio! Então, de boas! Cara, acho que encarar este texto como uma primeira versão vai ser bom, pois com todas as observações e impressões que a galera aqui tá relatando eu vou poder ajustar e melhorar isso depois. A voz que a Laura citou ali na parte do nome da instituição, era uma voz de audiodescrição que ela ouviu em um filme. Era tipo uma imaginação da cabeça da Laura. “como a voz de audiodescrição descreveria um fenômeno como uma estrela cadente”, tipo isso sabe? Mas eu podia ter deixado isso mais evidente. Vou me atentar a isso das próximas vezes. Sobre repetir palavras ou ideias, esse é um dos meus maiores problemas. Mas, seguimos aí tentando aprimorar. Novamente agradeço por ler viu? Até a próxima!

  3. claudiaangst
    27 de maio de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Oi, Sarah, tudo bem?

    Antes de mais nada, parabéns por enfrentar este desafio.

    Realmente, os coleguinhas têm razão: o seu texto é uma delícia de ler. Literatura voltada para um público jovem, mas que pode agradar a todos. A leveza e a naturalidade estão presentes na  narrativa, o que facilita muito a leitura.

    A princípio não tinha me dado conta de que a protagonista não enxerga, isso devido a sua habilidade de introduzir o tema à trama. Os personagens são verossímeis, imagino que a sua própria experiência tenha ajudado a criá-los. A história do primeiro amor ficou linda e traz um clima de intimidade que atrai o(a) leitor(a). Achei a passagem fofa demais, menina!

    Você foi atenta a detalhes que escapariam a um outro escritor que não tivesse a sua vivência com a deficiência visual. E o melhor é que trouxe à narrativa o tema sem pesar a mão, de forma divertida e com um tom de novelinha teen, tipo Malhação. Eu gostei muito.

    Quanto a possíveis falhas de revisão, considerei que este é um texto descontraído, em forma de diário e, portanto, a linguagem coloquial é esperada. Mesmo assim, apontarei alguns pontos que podem ser modificados.

    • Eu as vezes > Eu às vezes (crase)
    • ele tinha vinte e dois > ele tinha vinte e dois anos
    • som de violão vindo do corredor por onde eu tinha vindo > evitar a repetição de “vindo” > som de violão ecoando do corredor por onde eu tinha vindo
    • Gabi guiava > Gabi guiava quem?
    • Optar por uma só grafia de braile/Braille
    • Sei que, coloquialmente, falamos tava, mas no texto escrito (sem ser fala de um personagem, claro), é preferível usar “estava”
    • dar uma pra todo mundo — só eu ganhava uma > a repetição de “uma” deve ser evitada > negar o doce pra todo mundo ?
    • comentar momentos que eu não estive. > comentar momentos em que eu não estive presente
    • um segundo ou terceiro empregos > um segundo ou terceiro emprego
    • cadê a minha > cadê a minha?
    • Voltar na minha cidade > voltar à minha cidade
    • mau-humorada > mal-humorada
    • A pressão era enorme quando você era uma estagiária que começou há um mês apenas. > A pressão era enorme para alguém que começara a estagiar havia apenas um mês.
    • Fazer o quê. > Fazer o quê?

    Estou empolgada para ler o resto do seu romance, Sarah. Pena que vai demorar um pouco, né?

    • Sarah S Nascimento
      14 de julho de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oi, mamãe da Laura! risooos. Perdão a brincadeirinhaaa. risos. Agradeço demais pelas suas palavras e por meu texto ter agradado tanto assim. Fico muito feliz. Este desafio me fez tomar uma decisão importante: ainda que eu não saiba escrever tão bem, não posso esperar pra ficar boa nisso para só aí escrever. Então, quando alguém diz o quanto gostou da história, isso me motiva demais a continuar aprendendo. Eu tenho um longo caminho pela frente e agradeço muito por cada observação que leio aqui dos meus colegas. E olha que eu nunca escrevi história nenhuma com personagem cega antes, o que é engraçado se for parar pra pensar. Enfins, a parte dois ta vindo aí logo logo e espero que goste também! Eu tô amando escrever. Até o próximo comentário então, Cláudia!

  4. cyro eduardo fernandes
    26 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    O texto se destaca pela espontaneidade. As palavras soam naturais, coloquiais. É sempre um risco, mas aqui deu bem certo. Os diálogos na escola, o bullying com a dicção do Arthur, compõem um cenário bem ilustrado.

    Aprendi bastante com os primeiros capítulos. Achei interessante o cubaritmo, observei que ele teve o seu papel, mas hoje é parecido com a régua de cálculo para os engenheiros. A tecnologia os substituiu.

    O romance juvenil e a partida da escola foram entrelaçados. Os ganhos e perdas da mudança foram bem explorados.

    No capítulo 2 avançamos um pouco mais de uma década. A descrição da segunda-feira e da rotina no escritório traz os percalços das pessoas com baixa visão.

    Laura está empregada na cidade grande. E o romance? Com quem será que ela vai se envolver? Aguardamos os próximos capítulos.

    • Sarah S Nascimento
      14 de julho de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá, Cyro! Obrigada pelo seu comentário! Eu só queria dizer que eu fiquei chocada quando perguntei para uns amigos meus que são cegos sobre o cubaritmo e eles não conheciam! kkkk. Isso aí tá mais ultrapassado que fichas para ligar no orelhão. Me senti uma senhora quando os três descreveram objetos pra aprender matemática que vieram depois! kkk. Enfins, muito obrigada novamente por ler e por suas observações, até logo!

  5. Priscila Pereira
    21 de maio de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Oi, Sarah! Tudo bem?

    Que fofo o começo do romance! Amei demais!

    Gostei muito da protagonista! Ela é uma mulher forte, decidida, independente e inteligente, mas que sonha e busca um amor verdadeiro.

    Tava faltando um romance romântico no desafio, e com certeza vou acompanhar o seu até o fim! Amei saber como é o dia a dia de uma pessoa com deficiência visual, e você descreve tudo de uma forma tão interessante de acompanhar!

    Quero muito saber se a Laura vai reencontrar o namoradinho ou se vai ser o Arthur… será que vai ser um enemies to lovers? Não sei o que prefiro… Os dois casos serão bem legais!

    Em algumas partes você chama a Pâmela de Mel, não sei se foi eu que perdi alguma coisa… não reparei que era algum apelido?

    Não tenho o que te ajudar a melhorar, pra mim tá ótimo! Continue!

    Parabéns por ter encarado esse desafio!

    Até a próxima etapa!

    • Kelly Hatanaka
      27 de maio de 2026
      Avatar de Kelly Hatanaka

      Ah, acho que é PaMELa, né não?

      • Priscila Pereira
        27 de maio de 2026
        Avatar de Priscila Pereira

        🤔 Não é muito comum, mas…

      • Sarah S Nascimento
        14 de julho de 2026
        Avatar de Sarah S Nascimento

        Oi Kelly! É isso aí, a Mel é a Pâmela. Nas falas a Laura chama ela de Mel e na narração chama de Pâmela. Eu expliquei nessa próxima parte que virá o motivo disso. rs. Era para eu ter respondido sobre isso no comentário da Pri, desculpa Pri! Eu esqueci! kkkk. Até logo Kelly, até logo Pri!

    • Sarah S Nascimento
      14 de julho de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oie Pri! Fico feliz que tenha gostado desse início de história! Eu to amando escrever, mas to meio brava porque o meu planejamento era para cenas, mas viraram foi capítulos. kkkk, isso é preocupante. O livro vai ficar gigante. Mas eu posso revisar e cortar o que for possível depois. Ou reformular também. Enfins, logo vem a próxima parte e suas perguntas serão respondidas. kkk. Novamente obrigada por ler!

  6. Gustavo Araujo
    20 de maio de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Olá, Sarah, aqui estou para comentar a primeira parte do seu romance. E vou fazê-lo contando uma história pessoal.

    Quando eu era criança, quer dizer, não tão criança assim, uns 12 ou 13 anos, eu tinha um amigo em Curitiba cuja casa era vizinha ao Instituto de Cegos do Paraná. A janela do quarto dele dava para a janela do que parecia ser um alojamento do instituto. Por causa dessa proximidade, esse meu amigo fez contato com os meninos que frequentavam o instituto e eles acabaram ficando amigos. Eu mesmo acabei conhecendo eles e isso me ajudou a entender um pouco do mundo deles, para além dos estereótipos, para além dos clichês.

    De certa forma, o seu texto faz isso também. Ele nos permite perceber que as pessoas com deficiências na visão, em especial os jovens, passam pelos mesmos dilemas que acometem os adolescentes em geral. Têm os mesmos anseios, as mesmas dúvidas, as mesmas inseguranças. E o mais legal é que você demonstra isso de uma maneira muito leve, com uma normalidade cativante. E tudo isso, como se diz em literatura, mostrando, nunca contando.

    A história da Laura, pelo menos o início, é a história de muitas adolescentes que se veem obrigadas, por diversos motivos, a romper com o mundo em que vivem, mudando-se de cidade, dizendo tchau aos amigos, ao namorado, às pessoas que fazem parte da vida.

    Depois a narração dá um salto temporal de onze anos e reencontramos a Laura bem inserida no mercado de trabalho. Vive em São Paulo e atua na área de comunicação. Logo é escalada para fazer uma matéria sobre a cidade onde nasceu, o que gera expectativa tanto por parte dela como por parte do leitor, que quer saber como será o reencontro dela com os amigos, com o antigo namorado e por aí vai…

    Esse retorno ao local em se viveu não chega a ser incomum na literatura. Vários romances trataram disso, além de contos conhecidos ou não. No EC tivemos algumas histórias que partem dessa premissa em desafios passados, a maioria escrita com bastante competência. Também me vem à mente o sensacional “O Menino Perdido”, do Thomas Wolfe, que está na seção de clássicos – esse tem uma pegada mais melancólica, mas, enfim, também é uma espécie de reencontro com o eu anterior do protagonista.

    O diferencial da sua história, Sarah, pelo memos até o momento, é tratar desse resgate de modo aparentemente descompromissado, numa trama que se desenvolve sem grandes traumas, sem grandes problemas, a despeito das dificuldades que os deficientes visuais enfrentam dia a dia.

    De fato, as rotinas e as conversas são descritas de maneira fluida, jamais destacando percalços, funcionando assim como um convite para que o leitor conheça esse mundo que é ao mesmo tempo próximo e distante.

    A bengala, os aplicativos, a confiança que se estabelece com estranhos dispostos a ajudar, tudo isso enriquece o texto e, o que mais curioso e interessante, nunca inflacionando uma possível fragilidade da protagonista ou de qualquer outro personagem com a mesma condição, só para que o leitor sinta pena deles. Você não cai nessa armadilha.

    No fim, percebo, a história de Laura não é necessariamente a história de uma menina cega que volta à cidade em que cresceu, mas a história de uma menina que volta à cidade em que cresceu. Até este ponto, a deficiência visual não é um trampolim ou um fator decisivo para o desenrolar da trama. Ponto para você.

    Contudo, apesar de todas essas qualidades, algo me incomodou no texto, mais especificamente a falta de turbulência. Até agora tudo funcionou bem para a Laura. Bem demais até… Não vimos ela se descabelar por deixar a cidade em que nasceu, por ter que dizer adeus aos amigos e ao namorado de quem tanto gostava – aos quinze anos! Ou seja, acho que ela aceitou bem demais essa ruptura, ao contrário do que um adolescente normalmente sentiria. Claro que isso é totalmente possível, mas, enfim, essa complacência dela me soou um tanto artificial, conveniente até. É possível que haja explicação para isso depois, mas, de todo modo, ficou essa pulga atrás da minha orelha. Nem um choro, nem um pedido de adiamento…

    A relação dela com o pessoal do jornal segue a mesma linha. Não há conflitos, não há desconfianças. O convívio entre todos se assemelha a um passeio de amigos na Disney ou um piquenique no bosque, em que todos se compreendem, todos se ajudam. É lindo, mas não é real.

    Não sei se você compreende o que quero dizer… Sua narração é fofa, adorável, mas para mim, e aqui reforço o aspecto pessoal da leitura, a ausência de embates tende a tornar a experiência enfadonha.

    Imagino, na verdade espero, que o regresso de Laura à cidade natal acenda velhos dilemas, problemas que permitam ao leitor enxergar outras camadas da personalidade dela. Acho que isso enriqueceria ainda mais a trama, mesmo considerando-se que no geral a história se destine ao público infanto-juvenil.

    Acredito que o seu romance tem potencial para atingir muita gente. Na verdade, ao tratar de questões que caracterizam a vida de muitas pessoas, pelas lentes de alguém com deficiências visuais, você prova que somos todos iguais. Você, assim, presta serviço a uma causa sem jamais parecer exagerada ou apelativa. A história de Laura, no fim, é a história de muita gente, portadora ou não de qualquer deficiência.

    Enfim, Sarah, esta foi uma experiência bastante agradável de leitura, um voo em céu de brigadeiro, mas confesso desejar um pouco de turbulência nas próximas etapas.

    • Sarah S Nascimento
      14 de julho de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá, Gustavo! Eu nem sei por onde começar. kkk. Bom, sobre o que você falou no início do seu comentário, acho que é ótimo quando podemos ter contato com pessoas diferentes de nós. Eu cresci cercada de pessoas que enxergam e sobre deficiência, acho que só conheço bem a minha mesmo. Porém, no ano passado, trabalhei com algumas pessoas surdas e pude aprender um pouquinho de como as coisas funcionam para elas. Então é muito legal quando a gente compreende alguém com vivências diferentes e tem um contato, seja lendo, ou pessoalmente. Claro que pessoalmente é muito melhor, mas eu acho que aprendi muito sobre pessoas com autismo através de uma série maravilhosa que mostra tanto as partes difíceis, quanto os desafios e as partes onde a deficiência é só um pano de fundo ali sabe? Quanto ao meu texto. Gustavo do céu! Você usou exatamente as mesmas palavras do meu professor de escrita. kkkkk: “a história precisa de conflito, sem conflito vira só um passeio”. Tô triste agora. kkkk. Brincadeira. Eu concordo contigo, criar tensão, problemas, dilemas é um negócio difícil para mim. Um dos pontos que tenho que trabalhar e agradeço demais por todas as suas observações sobre isso viu? Na próxima parte vou aprofundar um pouco mais algumas questões da Laura e terá um acontecimento desagradável. Mas, não sei se terá sua turbulência ainda não viu? kkkk. Obrigada novamente e até logo!

  7. Kelly Hatanaka
    19 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Oi Sarah.

    Nesta primeira parte, acompanhamos a história de Laura em dois momentos: na infância, quando está de mudança da cidade natal e já adulta, voltando à cidade por motivos profissionais.

    De início, achei estranho o fato dos livros não poderem ser empilhados. Mas, aos poucos, vai fazendo sentido. Laura é uma pessoa com deficiência visual e os livros são publicações em braile. E você descreve as cenas e sensações pela perspectiva de Laura. Achei isso brilhante, nos coloca na pele dela e nos apresenta de forma direta ao mundo da personagem.

    Os cheiros, texturas e toques chegam primeiro. Não há descrições de personagens ou lugares. O que fica para o leitor é a essência de cada um deles. Arthur, implicante, Raul, um querido, Glaucia, chaaaaata, Thomas, o último romântico, Gabi, vaidosa, Bia, afetuosa.

    E esse é o mundo de sua infância. Bons amigos e a tristeza da despedida, quando Laura antecipa o que um adulto bem sabe que vai acontecer: o distanciamento gradual do passado.

    No capítulo 2, passaram-se onze anos e Laura virou jornalista, mora sozinha, tem bons amigos, um bom emprego e um “stalker” que telefona o tempo todo, o final zero cinco. E vai voltar a Vila da Prata para fazer uma matéria sobre a cidade.

    Algo me diz que este é um enemies to lovers porque Arthur vive pipocando nas lembranças de Laura.

    Gostei muito desse começo do seu romance. Promete ser uma história leve e divertida, com uma protagonista fácil de gostar e de torcer.

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oi Kelly! Muito obrigada pelas suas observações. Apesar da minha deficiência visual, essa é a primeira vez que eu faço personagens cegos como eu. É um exercício desafiador colocar certos detalhes que para mim fazem parte do meu dia a dia, colocar eles de forma interessante sabe? Essa parte sensorial precisa ficar muito mais forte e tal. Fico feliz que tenha gostado da galera! Novamente eu agradeço!

  8. Canibalismo Cultural
    11 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Sarah, sobre o segundo capítulo:

    • Canibalismo Cultural
      11 de maio de 2026
      Avatar de Canibalismo Cultural

      Eu acho que o mais bonito é como você deixa a cabeça dela funcionar livremente. Ela não pensa de forma organizada; ela vai associando uma coisa na outra, lembrando de gente, viajando em ideias bobas, se distraindo com cheiro, música, detalhes pequenos. Isso deixou tudo muito humano pra mim. Parece realmente uma pessoa existindo, e não uma personagem montada só pra mover a história.

      Gosto também da forma como você escreve amizade. Tem carinho, mas um carinho cotidiano, cheio de implicância e humor. O Dylan sendo dramático por causa das trufas, a Marisa observando tudo, a Pâmela tentando não chorar no banheiro. Parece ambiente de trabalho de verdade, onde as pessoas vão criando intimidade sem perceber, quase como um mecanismo de sobrevivência.

      A parte da Pâmela repetindo “eu sou forte, eu sou competente” me deu um aperto sincero. Porque ela claramente não acredita naquilo enquanto fala. E acho bonito a Laura reconhecer isso imediatamente, porque ela também parece carregar inseguranças parecidas, mesmo sendo mais experiente. Tem uma delicadeza silenciosa na decisão dela de levar a Pâmela pra viagem.

      E o retorno pra Vila da Prata ficou muito bom porque ele começa antes da viagem física. A cidade invade ela aos poucos. No sonho, nas músicas, no nome do motorista, nas lembranças do Arthur enchendo o saco. Achei isso muito verdadeiro. Quando a gente volta pra um lugar importante da infância, parece que alguma coisa acorda antes da gente chegar lá.

      Também gosto muito de como a Laura adulta ainda carrega traços da menina do primeiro capítulo. Ela continua engraçada, dramática, emotiva, meio irônica. Só que agora existe cansaço junto. Existe trabalho, responsabilidade, solidão. E isso dá uma sensação meio agridoce, porque parece que ela cresceu sem deixar totalmente de ser aquela garota que chorava na praça pensando que os amigos iam esquecê-la.

      No fim do capítulo, quando ela coloca Luan Santana e dorme no ônibus, eu fiquei com aquela sensação muito específica de nostalgia antecipada. Como se ela já soubesse que voltar pra Vila da Prata vai mexer em coisas que ela passou anos tentando deixar quietas. Esse foi sem dúvidas meu texto favorito ❤

      • Sarah S Nascimento
        19 de maio de 2026
        Avatar de Sarah S Nascimento

        Oi! O blog não salvou meu comentário anterior, vou tentar falar tudo novamente. rs. Você disse que meu texto foi o seu favorito? Eu estou feliz e surpresa ao mesmo tempo! kkk, muito obrigada! Fico contente que eu tenha acertado em tantos aspectos, pois eume considero uma escritora iniciante ainda. É engraçado pensar que tipo, apesar de eu ser uma pessoa com deficiência visual igual a Laura, é a primeira vez que coloco tantos personagens cegos numa história só. Eu agradeço novamente por cada palavra e espero que goste das próximas partes!

  9. Canibalismo Cultural
    11 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    Amiiii você arrasou, eu amei. Enquanto uma pessoa com deficiência mesmo que diferente da protagonista me deixou muito contente ver um texto mais infanto-juvenil com alguém que da mesma comunidade rsrs esse texto me lembrou muito aqueles romances de formação mais íntimos, quase confessionais, onde o crescimento acontece através das pequenas perdas. Algo nele que me faz pensar numa mistura muito brasileira entre a delicadeza emocional de Caio Fernando Abreu e esse universo juvenil afetivo que lembra os livros da Paula Pimenta, mas com uma camada sensorial muito própria. O texto não tenta transformar a deficiência visual da Laura em algo “poético” de forma artificial. Pelo contrário: tudo é extremamente concreto. O mundo dela existe através do calor do banco de pedra, do som do tênis rangendo, do cheiro do cabelo da amiga, da textura da toalha na mesa. Isso dá uma humanidade muito forte pra narrativa.

    O que mais me chamou atenção foi como você trabalhou despedida sem cair numa tragédia exagerada. Ele entende uma coisa muito verdadeira: crescer também é perceber que algumas relações não acabam de uma vez, elas vão se desfazendo devagar. A Laura não está sofrendo só por mudar de cidade; ela já sofre antecipando o futuro, imaginando as amigas criando piadas internas sem ela, as conversas diminuindo, os silêncios aparecendo. Me lembrou aqueles romances adolescentes dos anos 2000 onde o drama parecia pequeno pros adultos, mas era gigantesco pra quem estava vivendo.

    Também gosto muito de como o humor atravessa tudo. O Arthur zoando, o professor Raul fazendo piada idiota, a implicância com a professora Gláucia. Isso impede que o texto fique melodramático demais. A vida continua engraçada mesmo quando está acabando uma fase importante dela. Acho que é isso que deixa os personagens vivos.

    E sinceramente, o trecho do Thomás cantando “Sinais” tem uma coisa muito específica da adolescência brasileira que funciona demais. Não é um romance sofisticado e europeu; é uma coisa simples, meio brega, emocional, intensa, exatamente como os primeiros amores costumam ser. E justamente por isso funciona. O texto entende que adolescente vive tudo no máximo: o primeiro beijo vira um acontecimento cósmico, (por mais que o meu tenha sido aos 23 anos rsrs) uma música sertaneja vira trilha sonora de fim do mundo, uma mudança de cidade parece uma tragédia definitiva.

    Acho bonito também como a narração não tenta soar madura demais. Ela mantém essa espontaneidade da Laura falando “puta”, “merda”, “tipo”, e isso aproxima muito a personagem. Parece realmente uma menina narrando, não um adulto tentando escrever como adolescente. Isso é difícil de fazer sem ficar artificial.

    isso conversa muito com aquela ideia de memória afetiva que aparece em vários romances de juventude, essa percepção dolorosa de que, enquanto estamos vivendo um momento, ele já está virando lembrança.

    Isso foi só do primeiro capítulo, vou ler o restante mais tarde c: Abraços diva

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá de novo! Estou sem palavras… você falou coisas muito maravilhosas! risos. Eu fico feliz que tenha conseguido conquistar com esses personagens, com os momentos, e acredita que esse primeiro capítulo não tava planejado? Eu ia começar já pelo capítulo dois. Mas aí pensei: como o leitor vai conseguir comparar os personagens e ver como eles mudara? E algumas situações específicas de pessoas cegas são coisas que aconteceram comigo ou com meus amigos deficientes, então tentei misturar tudo, rs. E puxando uma coisa ali do segundo comentário, assim como a Laura, eu tenho algumas inseguranças

      sobre minha escrita, minhas histórias e tal, eu tenho muito a aprender ainda. Nossa muito mesmo, mas seu comentário deu um quentinho no coração. Já agradeci umas oitenta vezes, kkkk, mas novamente obrigada! P.S.: primeiro beijo com 23 anos? Eita que tu bateu o recorde hein! risos.

      • Canibalismo Cultural
        19 de maio de 2026
        Avatar de Canibalismo Cultural

        akakakkaka imagina quando você deacobrir que essa foi a única vez que beijei 😝 é tudo mais lento quando se tem deficiência rsrs pelo menos comigo e com a maioria das pessoas que conheci que também são deficientes intelectuais e autistas como eu

        Eu adoraria ter tido essa fase na adolescência, mas ler já me da um quentinho no coração ❤️ já se passou a amargura rsrs

      • claudiaangst
        26 de maio de 2026
        Avatar de claudiaangst

        Recorde? Meu primeiro beijo (de verdade) foi aos 24. Dali pra cá…bem, isso já é História.

    • Sarah S Nascimento
      20 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oi! Não consegui responder no comentário ali embaixo, mas uma coisa você tem razão, tem certas coisas que demoram para acontecer com a gente que tem deficiência. No caso eu só posso falar de mim com a deficiência visual, mas na época da escola eu ficava super pra baixo porque os garotos que enxergavam nunca queriam ficar comigo, como se tivessem medo de chegar em mim. kkkk. Eu tinha um namorado imaginário! Coisas que fazemos com treze, catorze anos. risos. Então te entendo, rs

      • claudiaangst
        26 de maio de 2026
        Avatar de claudiaangst

        Às vezes, as coisas simplesmente não acontecem. Eu nunca tive problemas de rejeição na época da escola, não levava chá-de- cadeira nos bailinhos, é mesmo assim, nada de namoricos. Meus pais não eram rígidos, mas sensatos. Tive um namoradinho da vizinhança lá pelos 7 anos, trocamos selinhos. Fui pedida em namoro quando tinha 12 anos, pelo irmão mais velho (14 anos) de um colega. Claro que minha mãe não aprovou a ideia. Muitas paqueras rolaram, mas namorar mesmo, beijo de verdade só aos 24. Pode isso? Aconteceu comigo…

  10. toniluismc
    9 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá outra vez,

    Como eu havia prometido, estou voltando para trazer a análise mais técnica e detalhada sobre o seu texto. Está se referindo a você na terceira pessoa porque ficou mais organizado assim na minha cabeça na hora em que eu estava escrevendo. Caso algo não fique claro, pode me perguntar. Vamos lá:

    o primeiro capítulo funciona bem como capítulo de origem. Ele apresenta Laura em um momento de ruptura — a mudança para São Paulo — e usa a despedida como motor emocional. Para uma primeira entrega de romance, isso é positivo porque cria uma base afetiva antes do salto temporal. A autora não começa diretamente com a vida adulta; ela primeiro estabelece o que será perdido. Isso dá peso ao retorno posterior.

    O maior acerto técnico do capítulo é a construção sensorial da protagonista. Como Laura é deficiente visual, a narração não tenta compensar com descrições visuais artificiais. O texto se apoia em sons, texturas, cheiros, temperatura, espacialidade e rotina corporal: o eco do quarto vazio, o fundo da gaveta, o cheiro de coxinha, o copo descartável amassando, a bengala, o calor do banco de pedra, o muro áspero da igreja, o TalkBack depois. Isso dá especificidade e evita que a deficiência seja apenas “tema”; ela organiza a percepção do mundo narrativo.

    Também funciona bem a voz adolescente. A narradora usa “tipo”, “merda”, “porra”, “foda”, “fofo”, “da hora”, e isso cria uma oralidade coerente com uma garota de quatorze/quinze anos em 2015. O risco, porém, é que essa oralidade às vezes fica muito homogênea e pode enfraquecer a variação emocional. Em alguns momentos de despedida, dor ou intimidade, a linguagem poderia ganhar pequenas quebras, silêncios ou imagens mais particulares, para que a emoção não dependa tanto de expressões genéricas como “foi a coisa mais fofa do mundo”, “melhor namorado do mundo inteiro”, “ia ser uma merda”. Para o público infantojuvenil isso pode funcionar comercialmente, mas, em termos literários, há espaço para lapidar.

    Outro ponto forte é a economia da promessa narrativa. O capítulo parece leve, romântico e de despedida, mas deixa sementes importantes: Arthur como antagonismo de infância, Thomás como ideal amoroso, Bianca e Gabi como núcleo afetivo, a instituição Estrela Cadente como lugar fundador, a professora Gláucia como figura ambígua de autoridade, e a mudança para São Paulo como corte biográfico. Isso prepara bem o romance porque o leitor entende que a volta a Vila da Prata não será apenas geográfica; será um confronto com uma versão antiga da protagonista.

    A cena da serenata de Thomás é eficiente dentro da proposta. Ela é brega de propósito, sentimental, adolescente, e isso combina com a memória da Laura. O uso de “Sinais”, do Luan Santana, funciona como marcador geracional e emocional. O único cuidado técnico seria evitar que a cena se prolongue demais na mesma chave de “fofura”. Há um acúmulo de declarações, beijo, choro, música, lembrança do primeiro beijo e nova canção. Como o capítulo já tem muita carga emocional, talvez a autora pudesse escolher um ou dois momentos mais fortes e confiar mais neles.

    A maior fragilidade estrutural do Capítulo 1 está no ritmo. O capítulo tem pelo menos três blocos fortes: a festa de despedida na instituição, o encontro na praça e a partida de carro. Todos são pertinentes, mas a transição entre eles é um pouco acumulativa. A sensação é de que o capítulo quer registrar todos os últimos momentos da Laura em Vila da Prata. Isso reforça a despedida, mas também cria certa repetição emocional: ela chora, se despede, sente que não verá mais os amigos, pensa no quanto será difícil, e isso retorna algumas vezes. Uma revisão poderia preservar a intensidade, mas cortar redundâncias.

    Há também uma questão de tensão dramática. O capítulo é envolvente, mas o conflito principal ainda é mais afetivo do que narrativo. A mudança de cidade é um bom conflito externo; o bullying do Arthur é um bom conflito interpessoal; a separação de Thomás é um bom conflito romântico. Porém, como quase todos os vínculos positivos são muito afetuosos e a despedida é relativamente acolhedora, o capítulo se apoia mais na nostalgia do que em uma tensão crescente. Isso não é exatamente um erro, mas, para um romance competitivo, talvez fosse interessante que a abertura deixasse uma fissura mais forte: algo mal resolvido com Thomás, uma frase mais cruel de Arthur, uma ambiguidade maior sobre a instituição ou uma contradição mais evidente nos pais.

    Sobre personagens, Laura já aparece com boa presença. Ela é engraçada, reativa, sentimental, um pouco impulsiva e muito observadora. Raul também se destaca rapidamente, com humor próprio. Arthur cumpre bem a função de garoto cruel, mas ainda está mais próximo do tipo “bully implicante” do que de uma figura complexa. Para o primeiro capítulo, isso basta; para o romance, seria bom que ele ganhasse camadas depois, porque ele claramente voltará a ter peso. Thomás, por sua vez, é eficaz como “amor idealizado da adolescência”, mas justamente por isso corre o risco de ficar perfeito demais. Como lembrança afetiva, funciona. Como personagem de longo prazo, precisará de contradições.

    • toniluismc
      9 de maio de 2026
      Avatar de toniluismc

      Tecnicamente, o Capítulo 2 é mais forte que o primeiro em termos de promessa de romance. O Capítulo 1 era uma despedida; o Capítulo 2 instala a engrenagem narrativa: Laura trabalha em uma redação, recebe uma pauta em Vila da Prata, precisa voltar à cidade natal, escolhe Pâmela como acompanhante, pensa nos antigos amigos e termina viajando. Ou seja, o capítulo não apenas mostra a protagonista: ele coloca a história em movimento.

      A grande força está na naturalidade da rotina. A autora consegue fazer cenas comuns — pedir Uber, chegar ao prédio, lidar com catraca, conversar com colegas, entrar em reunião, comprar passagem, pedir marmita — parecerem narrativamente vivas. Isso é importante para romance, porque nem tudo pode depender de grandes eventos. Um bom romance precisa sustentar interesse também nas transições, nos hábitos e nas pequenas interações. Aqui, a Laura carrega a cena com humor e pensamento rápido.

      Como eu havia destacado, Laura funciona muito bem na Comunicação. Essa escolha profissional combina com a personagem porque ela observa, interpreta, comenta, associa ideias, transforma qualquer situação em narrativa. Ela não é apenas “uma protagonista cega voltando à cidade natal”; ela é uma jornalista com olhar crítico, ironia, ambição e uma relação complexa com o próprio passado. Isso dá densidade.

      Outro ponto forte do capítulo é o elenco secundário. Marisa, Dylan, Pâmela, Quézia e Henrique entram com vozes distintas. A autora tem boa mão para diálogos de ambiente de trabalho: há piadas, implicâncias, ruídos de convivência, pequenas disputas de poder. A redação parece um espaço habitado, não apenas cenário funcional. Pâmela, em especial, já ganha simpatia porque aparece vulnerável sem virar caricatura. A decisão de Laura de levá-la na viagem também revela caráter: ela é impulsiva, mas generosa; prática, mas afetiva.

      Há ainda um bom uso da memória como tensão. O capítulo não despeja retrospectiva em excesso; ele deixa o passado entrar por gatilhos: o nome Vila da Prata, a instituição Estrela Cadente, o sonho com Arthur, a lembrança de Thomás, Bianca e Gabriela, a música “Sinais”. Isso cria uma expectativa eficiente para a continuação. A pergunta não é só “o que vai acontecer na cidade?”, mas “o que essa volta vai fazer com a Laura?”.

      As fragilidades estão mais ligadas ao excesso de percurso. O capítulo é gostoso de ler, mas algumas passagens poderiam ser mais enxutas. Há muitas ações miúdas em sequência: escovar dentes, vestir roupa, pedir Uber, conversar com motorista, entrar no prédio, catraca, elevador, sala, Teams, reunião, mesa, banheiro, rodoviária, casa, marmita, mala, ligação da mãe, pesquisa, sono, sonho, Uber de novo, rodoviária de novo. Parte disso constrói rotina e acessibilidade, o que é ótimo; mas parte pode diluir o foco dramático. Em uma revisão, a autora poderia perguntar: “esta ação revela personagem, avança enredo ou cria tensão?”. Se não fizer uma dessas três coisas, talvez possa ser condensada.

      Outro ponto: o capítulo tem uma tendência a explicar um pouco demais certos raciocínios da Laura. A narradora é muito sagaz, mas às vezes a inteligência dela aparece em forma de comentário direto sobre quase tudo. Isso é divertido, porém pode gerar saturação. Em alguns momentos, seria interessante deixar a cena falar mais e a personagem comentar menos. O humor dela é bom; justamente por isso, se for usado com mais seletividade, tende a ficar ainda mais forte.

      Há também uma questão de densidade emocional. Quando o nome Vila da Prata surge, o capítulo ganha força imediata. Mas antes disso, a rotina de trabalho se alonga bastante. Como leitora, a gente entende que aquela rotina é importante para apresentar a Laura adulta e seu ambiente, mas talvez a autora pudesse antecipar um pouco a convocação para Vila da Prata ou inserir algum incômodo mais cedo, para que o capítulo tenha uma tensão subterrânea desde o começo.

      Sobre a redação em si, vale separar “problemas de revisão” de “escolhas de voz”. A oralidade continua coerente, mas há momentos em que o texto se aproxima demais da fala espontânea e pode perder acabamento literário. Isso não destrói a leitura, porque a narradora é carismática, mas uma revisão editorial poderia aparar repetições, ajustar pontuação, cortar explicações e calibrar algumas frases para que a fluidez fique mais limpa.

      • Sarah S Nascimento
        19 de maio de 2026
        Avatar de Sarah S Nascimento

        Oi de novo! Isso aqui que você disse é um negócio que já ouvi muito do meu professor de escrita: “esta ação revela personagem, avança enredo ou cria tensão?”. Tá aí uma boa coisa pra eu lapidar melhor depois. Eu agradeço pelos apontamentos sobre a escrita em si, com certeza farei essa revisão depois. Anotando aqui os ajustes. Só não garanto que conseguirei fazer isso já na parte dois, mas vou tentar! Suas observações foram muito construtivas, novamente eu agradeço!

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá! Fico feliz por ter acertado em alguns aspectos do texto! Essa é a primeira vez que coloco o meu mundo em evidência assim, apesar de eu ser deficiente visual como a personagem, todos os livros que eu li até hoje tem a visão descrita em tudo, principalmente em cenários. Então é um desafio colocar descrição de locais usando só os outros sentidos, rs, enfim. Acho que você falou vários pontos que fazem muito sentido. Não é que eu não entendi o que você disse, a questão é que eu não sei se eu saberia fazer todas as mudanças que citou! rs. Mas eu vou tentar, analisar direitinho e lapidar depois. Ainda assim, eu agradeço demais, pois me deu bastante o que pensar. Muito obrigada por ler viu? Até a próxima!

  11. Thales Soares
    6 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Opa, vamos para a segunda parte do meu comentário. Voltei aqui porque agora eu terminei de ler toda essa parte inicial da história, e vou dizer o que exatamente achei.

    Bom, primeiramente, devo dizer que a qualidade de escrita apresentada no Capítulo 1 se mantém no Capítulo 2. Aqui novamente vemos um ambiente divertido, o qual faz com que o leitor sinta uma certa sensação de conforto enquanto lê. Tudo está muito bem descrito, e podemos não só visualizar as cenas, como também senti-las.

    Entretanto, quero destacar alguns pontos que me incomodaram um pouco. O primeiro deles, é algo que eu já havia comentado no capítulo anterior, que é algumas gordurinhas. Toda a narrativa opta por essa técnica de observarmos a protagonista quase que com uma lupa, onde vemos ela fazendo detalhe por detalhe, de forma bastante lenta. Na minha opinião, usar isso em alguns momentos da história, onde você quer que o leitor passe mais tempo (como lembranças da escola, por exemplo), é bastante válido! Mas aqui, todas as cenas são mostradas através dessa lupa, no romance inteiro… e isso, para mim, acabou ficando um pouco cansativo em certos momentos, pois muita coisa que aconteceu eu senti que poderia ter sido um pouco mais resumido. Tipo… essa é uma técnica bem legal, na verdade. Mas eu senti que precisou ser um pouco mais bem dosada, para evitar algumas gorduras desnecessárias, e permitir que a trama da história avance, havendo uma cadência mais bem balanceada entra os momentos da história.

    A segunda coisa que eu percebi, e que me chamou a atenção de forma negativa, é que tipo… os personagens são muito divertidos… mas todos eles me parecem meio iguais. É como se eles tivessem a mesma voz, e o mesmo jeito que a protagonista. Teve uma hora em que a Lucia estava conversando com a chefe dela, e parecia que ela estava conversando com si mesma, porque as duas tinham o mesmo bom humor, as mesmas piadas… e não só elas, como todos os personagens! Senti falta de alguém mais bravo, alguém mais melancólico, alguém mais exagerado, alguém mais vagabundo… sei lá… qualquer tipo de personalidade mais forte, diferente daquela da protagonista, para haver algum tipo de contraste. Agora, a Lucia e a Mel partiram nessa jornada para a cidade natal da protagonista, mas eu não sei se elas dariam uma boa química, porque elas não possuem tanto contraste… na verdade, a Mel tem esse negócio de ser meio insegura… mas sei lá, ainda sinto as duas sendo muito parecidas. Vamos ver como as coisas vão se desenrolar no Capítulo 3, talvez com o desenvolvimento da trama, possamos ver as nuances de cada personagem.

    Uma coisa engraçada que gostaria de compartilhar, é que eu senti que a protagonista parece ser muito rica! Porque veja só… ela pega Uber a torto e a direito, e cada viagem que ela faz dura de 30 a 40 minutos. Na minha cidade, isso daria uns 40 reais por viagem. E ela ainda fica gastando com ifood. Então ela tem de gastos uns 200 reais por dia. Se ela trabalha 5 vezes por semana, daria uns 20 dias de trabalho por mês, ou seja, uns 4 mil reais… isso sem contar com as despesas da casa, como aluguel, conta de luz, agua, comida, etc. Calculo então que a Lucia deve ganhar uns 10 mil por mês, para estar ostentando tanto assim.

    Bom… mas voltando para a história… outra coisa que eu senti, talvez pelo gênero desta história, que é um slice of life, é que as coisas estão ficando um pouquinho sem sal. Fora o carisma dos personagens, que consegue carregar bem as cenas durante as interações dos personagens, já que você apresenta uma habilidade muito boa em construir diálogos (só fique atenta com aquele detalhe de dar uma voz, um jeito de falar e de agir, diferente para cada personagem!), não vi muita coisa acontecendo na história durante essa introdução. Fomos apresentados ao mundo da protagonista, mostrando o passado e o presente dela, e agora ela vai revisitar a cidade que morava no passado. Ok… mas tipo… não há nenhuma situação problema aqui. Não há intrigas. Não há desafios ou superação. Não há qualquer tipo de atrito, é apenas uma história “good vibes”. E tipo… nada de errado com isso… mas às vezes, o que torna as coisas realmente interessantes, é um suspense sutil, um problema com o qual a protagonista deve lidar, algum segredo… sei lá… qualquer coisa que desperte curiosidade por parte do leitor.

    Mas enfim…

    No geral, a primeira parte do seu romance foi bacana. Mas foi apenas “bacana”, e nada além disso, pois está muito bem escrito (a sua melhor contribuição para o EC até hoje), mas ainda tem esses pequenos problemas que eu citei ao longo do meu comentário. Vamos ver como serão os próximos capítulos. Até a próxima!

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá! Primeiro, muito obrigada pelo seu comentário! Então, falando ali da cena da praça, na primeira versão que escrevi ela não existia, mas um dos leitores betas comentou que achou pouco a cena da instituição. Ele disse que não deu para ver interação da Laura com as amigas e com o Thomás, ele disse que ficou muito curta a aparição deles. Por isso que eu coloquei. Mas realmente fica um pouco mais do mesmo. Sobre o seu segundo comentário: você citou um dos meus medos, os personagens se parecerem uns com os outros. Cada um ter uma voz própria é muito importante, ainda mais porque eu as vezes tento não identificar absolutamente todas as vezes quem tá falando. Sem falar que se os personagens falam de forma igual, nenhum deles vai se destacar para o leitor. Não podem ser todos cópia da Laura! kkkk. Então muito obrigada por essa observação. Você citou outro ponto que é melhor eu dar uma mudada, a Laura foi para o trabalho de Uber por causa do atraso de manhã. Ela ficou vendo série e se atrasou. Ela não vai todo dia trabalhar de Uber não. kkkk. Terei de arrumar isso. Outro ponto que você tem razão é que está simples. Eu não sou boa com conflitos, e eles são o coração de uma trama. Muito obrigada por suas observações e fico feliz que tenha encontrado pontos positivos na minha história!

  12. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    5 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Amor não é clickbait | Autor(a): Sarah Nascimento

    Fase de Leitura: Capítulos 1 e 2

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    Bom dia, Sarah! Pelos dois capítulos iniciais que você nos apresentou, “Amor não é clickbait” me parece ser um romance jovem, com uma pegada de haters to lovers. É uma história leve. A escrita é simples, por vezes muito próxima do coloquialismo. 

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]

    O que funciona em termos de estrutura da trama é que você modelou sua narrativa de forma similar aos romances-jovem. O início com uma pegada de diário, a escrita mais leve, mais focada nas ações e no que está acontecendo fora da psiquê da personagem. Está extremamente adequado, nesse ponto. 

    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Onde a história perde tração ou parece apressada?]

    Honestamente, eu achei esses dois primeiros capítulos introdutórios muito arrastados. São muitas informações, muitas cenas comuns do dia a dia (que não agregam tanto assim na história, ao meu ver), muitos personagens sendo introduzidos de forma bem superficial (por exemplo, o motorista do Uber que indica série, a professora Gláucia, os colegas de trabalho do outro departamento…). Isso tudo vai enchendo a narrativa e o leitor vai perdendo o foco. Acho que convém, durante a revisão, filtrar esses dois capítulos e focar no que será essencial para a história.

    Além disso, penso que teria sido interessante focar menos nas cenas do dia a dia e mais em descrever a personagem principal. 

    Pular 10/11 anos na história para apresentar a história também não me caiu bem. Convém alterar um pouco a forma como você mostra essa linha do tempo. Ao invés de seguir a linearidade, experimente começar um pouco mais na frente. costurando o tempo presente e o passado.

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Laura tem um potencial interessantíssimo como protagonista. Precisa ser melhor desenvolvida.
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Há inconsistências ou falta de profundidade em algum personagem?]
      • Para mim, o grande problema desses dois primeiros capítulos: são muitos personagens apresentados. Será que todos esses personagens, de fato, impactarão significativamente na história? Digo isso porque me pareceu que apresentados tantos personagens, faltou espaço para desenvolver outros elementos
      • Talvez seja chatice minha, mas penso que a protagonista não foi tão bem desenvolvida. Claro, ainda tem muito espaço para isso, contudo, nos capítulos iniciais, é fundamental que o leitor tenha acesso, de alguma forma, a uma parte da essência da personagem e que a mostre como ela é. Nesse trecho que você nos apresentou, isso não acontece; sabemos que ela é uma pessoa PCD, com pouca ou nenhuma visão, que saiu de uma cidade pequena na adolescência para a capital, que seguiu o sonho de jornalismo, abandonando o direito. Claro que dizem sobre ela, mas a sensação que tive é que foi pouco. O foco da narrativa me pareceu muito mais sobre a escola e depois o trabalho do que sobre ela.

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Tom adequado ao gênero; leve e simples.
      • Texto claro
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Repetições de palavras, problemas de pontuação ou ritmo de frase.]
      • Embora o coloquialismo seja um traço comum das young novels, eu acho que ficou exagerado em certos pontos
      • Faltou brincar mais com a literatura! Usar metáforas, sinestesias… Poxa vida, a Laura é uma jornalista, ela tem jeito com as palavras! A forma como ela se expressa ao leitor importa, e muito. Passa inclusive pela verossimilhança dela.
      • Há alguns erros gramaticais e de pontuação que precisam ser revistos

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita? O texto traz frescor ao gênero?]

    Eu diria que esse é o grande ponto positivo do seu trabalho até o momento. Eu já li alguns textos seus no EntreContos e pude identificar mais ou menos o seu estilo. Uma escrita jovem, por vezes permeada de fantasia. E esse estilo retorna e se solidifica nesse romance muito bem delimitado. Quem lê e conhece seu trabalho percebe sua marca. Isso é algo sempre desejado.

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

     A ambientação está boa. Impossível não relembrar o ensino médio dos anos 2010;

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Aqui, eu confesso que não sou o público-alvo dessa narrativa, o que dificulta um pouco a minha aderência (essa é uma questão pessoal minha, você não tem nada a ver com isso). Aliado a questão desse inchaço de informações que citei anteriormente, minha leitura foi cansativa. 

    Agora, para quem gosta desse tipo de romance, percebo que tem um prato cheio.

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Olá! Desde já agradeço pelo seu comentário, são vários pontos importantes que você citou e realmente eu preciso cuidar de vários deles com atenção. Eu não queria admitir isso, porque ninguém gosta de falar das suas falhas, mas vamos lá: eu não coloquei mais metáforas, sinestesias e outras coisas dessas porque eu não sei. risos, a Laura é uma jornalista, você tem toda razão, porém essa é uma questão minha ainda. Eu não sei criar subtexto, não sei, como você mesmo disse, “brincar com a literatura”. Mas, to aprendendo e sei que devo tentar me esforçar um pouco mais. Desde já eu agradeço muito pelo seu comentário viu? Embora não seja o seu tipo de texto, espero te ver comentando nas próximas partes da história!

  13. Thales Soares
    3 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Que texto divertido, Sarah! Sua obra, logo de cara, me prendeu pela leveza, e pelo conforto oferecido pelos personagens e estilo de narração.

    E a propósito, isso é algo que eu estou dando bastante importância para este desafio, que é o poder de prender o leitor… afinal, de nada adianta um romance existir, se o leitor vai largá-lo logo nas primeiras páginas. O seu me fez querer continuar presenciando as situações da sua personagem que estava de despedida do pessoal da cidade dela.

    Como você conseguiu cumprir o primeiro requisito de um bom romance, que seria o de conquistar o leitor logo de início, agora vem a segunda tarefa, que é um pouco mais difícil. Manter o leitor interessado na obra. Mas antes de falar sobre isso, vamos ver um pouco a história que você contou.

    Aqui somos apresentados à Laurinha, uma adolescente cega que está se mudando de cidade. O fato de ela ter problema na visão não é um mero detalhe, mas sim algo que enriquece bastante a narrativa, pois como a história é narrada em primeira pessoa, vemos a forma como ela “enxerga” o mundo, mesmo sem os olhos. Então aqui temos uma grande importância de alguns aspectos sonoros, como o passo das pessoas, ou cheiros, e até mesmo tato e paladar. E tudo isso é muito legal, pois é diferente! Geralmente, as histórias se preocupam apenas com o sentido da visão, narrando a forma de todas as coisas para o leitor. Mas aqui temos todos os outros sentidos entrando em ação. Me lembrou um pouco algumas histórias em quadrinhos do Demolidor, que também é um personagem que não enxerga o mundo com os olhos.

    A parte do ambiente escolar é muito interessante! A autora nos conduz através de uma linha narrativa tão satisfatória, que nos sentimos à vontade, como se fizéssemos parte daquele, junto de Gabi, Bianca, Thomás, o professor Raul, e até mesmo o chato do Arthur. Esse momento da festa de despedida é, de certa forma, nostálgico, pois creio eu que todo mundo já vivenciou algo parecido na escola. As brincadeiras dos alunos e do professor também são muito divertidas! Os diálogos são bem convincentes, e dá para imaginar pessoas falando isso, o que torna os personagens ainda mais críveis. Há a presença de alguns palavrões, o que talvez possa incomodar alguns leitores mais puritanos (eu tive que cortar alguns palavrões do meu próprio romance…), mas não é o meu caso.

    Toda essa parte inicial da história eu diria que é muito boa!

    O que vem depois é a Laurinha numa praça, onde ela chama os amigos e… temos outra cena “good vibes” com a turma? Nesse ponto, achei que a história se alongou um pouco demais, deixando ela mais longa do que o necessário. Pois veja bem… a cena da praça é bonita, e é legal ver a galera brincando de apostar corrida… mas será mesmo que precisava criar todo um novo cenário somente para isso, repetindo a mesma mensagem que já havia sido transmitida para o leitor lá na escola? Este trecho soou, para mim, como uma gordurinha, já que não acrescenta quase nada para a trama.

    Depois a Laurinha passa o dia com o namorado. Aí ela se despede, vai embora da cidade, e fica com uma sensação meio pra baixo, pois ela se dá conta de que tinha o melhor namorado do mundo, e amigos incrivelmente divertidos, que não será a mesma coisa quando estiverem se comunicando por mensagens, à distância. E o capítulo 1 se encerra aqui, meio que com um medo dessa mudança toda que está acontecendo na vida da protagonista.

    Eu ainda não li o capítulo 2! Mas decidi já escrever esse comentário para poder adiantar minhas impressões, e separar minha leitura/comentário em fragmentos. Quando eu ler o próximo capítulo vou voltar aqui e comentar o que achei. Por enquanto, estou gostando da história, e meu interesse se mantém. A verdadeira batalha de um romance é em tentar manter o interesse do leitor vivo até o final do livro.

  14. toniluismc
    2 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, novamente rs

    Terminei de ler a sua primeira entrega e agora vou falar sobre o capítulo 2.

    Primeiramente, meus parabéns pela capacidade de envolver o leitor. Você sabe contar histórias muito bem, isso é digno de nota. Futuramente irei trazer os comentários mais técnicos quanto à parte da redação em si, mas em questão de conteúdo, você está à frente da maioria, segundo o meu ponto de vista.

    A Laura é uma personagem autêntica, muito sagaz nos raciocínios. Fiquei feliz que ela foi para a área da Comunicação e não do Direito. Acho que ela não conseguiria explorar esse dinamismo mental que ela tem numa carreira mais burocrática.

    Pena que não tem mais coisa pra ler agora rs estou curioso pra saber o que vai acontecer quando ela voltar à cidade natal. Apesar de ela ter passado uma década distante de todos, parece que ela guarda as memórias de todas as pessoas de forma muito especial. Isso diz muito sobre o tipo de pessoa que ela é.

    Talvez o próximo comentário demore a chegar, pois vou ter que analisar detalhadamente para te apontar o que pode ser melhorado, mas, de toda forma, continuo com a opinião de que seu romance tem um forte apelo comercial entre o público jovem. Quaisquer falhas na parte estrutural da redação podem ser sanadas por um bom editor.

    Até mais. Abraço!

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oi, oi, oi! Muito obrigada pelas suas palavras! Tenho muito a melhorar em questão de escrita, de técnica, de construção de cena e tudo o mais, mas fico muito motivada ao saber que estou indo bem em certos aspectos. Vamos ver se a continuação da história vai atender as espectativas, rs. Até logo!

  15. toniluismc
    1 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Oi, Sarah!

    Farei mais de um comentário ao longo da leitura, então falarei do primeiro capítulo agora:

    achei a história envolvente. Confesso que não é o tipo de conteúdo que busco nas minhas leituras pessoais, mas acredito que a sua proposta teria grande apelo comercial entre o público infantojuvenil.

    Pelo que entendi, apenas a protagonista vai seguir na história, já que ela deixou a cidade onde estavam todos os demais personagens. Assim, isso gerou uma certa curiosidade pra saber o que vai acontecer, o que é positivo neste tipo de narrativa.

    Tirando algumas falhas de revisão, as quais não sei se foram propositais por causa da linguagem entre jovens (isso seria o trabalho de um bom editor, o que não é o meu caso), a proposta de apresentar uma história baseada na perspectiva de alguém com uma vivência como a da Laura parece bastante original.

    Não se o seu enredo é autobiográfico, mas de todo modo, meus parabéns pela iniciativa. Espero trazer mais comentários em breve.

    Abraço!

    • Sarah S Nascimento
      19 de maio de 2026
      Avatar de Sarah S Nascimento

      Oi! Não é exatamente autobiográfico, mas tem situações minhas e dos meus amigos cegos. Estou tentando colocar experiências que já aconteceram com a gente. Achei interessante que você citou bastante que essa história funcionaria com o público jovem. Acho que eu deveria focar nisso. Meu professor de escrita diz que saber para qual público você está escrevendo é o primeiro passo

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 17 de julho de 2026 por em E-Rom G3, Entre Romances e marcado .