(Lucio G.S.
Grafado sem o acento. Erro do cartório e omissão do seu pai Reginaldo, que, ainda na saída da maternidade, insistiu para registrar o garoto sozinho. Colocou esposa e filho em um táxi, jurou que não demoraria. Voltou para casa quando era quase noite do dia seguinte, a certidão dobrada em quatro no bolso. Sorrindo, culpou os amigos que o chamaram para comemorar o nascimento do primogênito. Já tomada pela raiva, a mulher, ao perceber a mancha de cerveja no documento e a falta do acento no nome escolhido por ela, jogou um prato no rosto do marido. Pegou de raspão. Antes de sair novamente, Reginaldo levou a criança para que a sua mãe a conhecesse.
Iracema S.P acabou criando o garoto. Lucio passou para seus cuidados devido ao falecimento dos seus genitores em um acidente de carro. O menino perdeu os pais, Iracema ficou sem o único filho. Moradora de uma casa no subúrbio da capital gaúcha, a costureira aposentada cerrou ainda mais a boca para sorrisos. Mais uma morte, mais uma boca para alimentar. Aceitou a cruz e, desde que o pequeno se entendeu gente, sentava com ele e lhe ensinava sobre o mundo. O diabo morava nos detalhes, faria diferente. Não ia falhar de novo.
Para o menino do seu menino, toda a educação que pudesse. O garoto estudou em escola pública, mas era bom. Levava jeito para os cálculos, tinha rapidez de raciocínio. As medalhas e diplomas passaram a enfeitar as paredes de madeira da residência da costureira, eram promessas de tijolos futuros. Lucio, apelidado de “Rato”, foi bicampeão da olimpíada regional de matemática e saiu no jornal local. Poucos da turma comemoraram a sua pequena fama. Só questionavam se, nas futuras reportagens, iria aparecer o detalhe de que, enquanto calculava, o “gêniozinho” roía as tampas de caneta.
O que não impediu que ele passasse para o curso de economia na universidade federal, onde foi o mais pobre de sua turma e o mais decidido. Conseguiu uma bolsa de estudos. Fez o que foi necessário. O seu orientador lhe indicou para uma vaga em um banco. Conhecia o chefe dos Recursos Humanos de lá e queria ajudar, sabia que Lucio precisava e merecia um apoio.
Ali, ganhou o seu primeiro salário. Dinheiro bom para um começo, a meta era trabalhar para crescer. Mirando alto, colecionou as certificações para subir de cargo. Quando realizou o exame para Gestor Pro, credencial que permitiria a sua atuação na Bolsa, a média geral foi de 64% de acertos. Ele ficou insatisfeito em alcançar 89% de exatidão nas respostas.
Mas, mesmo consciente de que era mais capaz que vários superiores, o rapaz engolia em seco e ficava quieto quando devia. O seu gerente o testou várias vezes e nunca conseguiu dobrar Lucio. Este nunca teve problemas em trabalhar até mais tarde, em realizar favores e manter a cordialidade no rosto. Assim viajou de avião. Tentou demonstrar costume durante o voo, mesmo sofrendo com enjôos. O seu destino era São Paulo capital, passaria uma semana conhecendo a Bolsa de Valores.
Ao contrário dos colegas, não estava entusiasmado para turistar: foi aprender. Era o primeiro a chegar e o último a ir embora. Observava cada gesto dos grandes dali. Como andavam, o que vestiam, os restaurantes que se reuniam… Essa viagem lhe trouxe novos hábitos, passou até a respirar diferente. Se metamorfoseou em alguém importante por observação.
O próximo passo, após conquistar tudo o que era possível no banco, foi o de se libertar, mas de maneira a conservar os laços. Tornou-se um trader, com uma extensa agenda telefônica no celular. O seu sorriso gentil e a oratória de menino inteligente o ajudavam a movimentar fortunas, fazer acordos. Acima de tudo, Lucio parecia confiável. E era eficiente. O detalhe de que, se necessário, ele apagaria os deslizes cometidos por clientes contribuía para a sua fama. Não tinha problemas com isso, para ele, moral era coisa de quem tinha nascido em berço de ouro.
Quando percebeu, era proprietário de um enorme apartamento em um bairro nobre da capital gaúcha e viajava em pontes aéreas frequentes. Para preencher a sua vida amorosa, Giovana do seu lado. Uma beldade loura que decoraria os seus dias. Enriquecer com os números e, quando chegasse em casa, ter alguém o esperando era tudo o que sempre quis.
O tapete felpudo do quarto.)
I – Lugar nenhum
(Passou a tarde toda sentindo um aperto no peito. Chegou do trabalho, foi tomar um banho, descansar. A dona da pensão bateu na porta, tinha um homem querendo vê-la. Avisou que era um cara bem vestido e que não quis dizer o nome… Giovana hesitou. Ficou com medo do que poderia acontecer, mas acabou permitindo que ele subisse. Precisavam ter uma última conversa. Sentada e encarando a janela do quarto que dava para um muro, aguardou que o ex noivo entrasse.)
–
Lucio acordou sozinho no acostamento, com o gosto de sangue e grama nas gengivas. Tendo o sol como testemunha, levantou zonzo, lutando contra o peso das pernas. Como chegou ali? Marcos? Procurou o funcionário, (tinha certeza que o deixou cuidando do seu carro). Chamou e ninguém respondeu.
Quando conseguiu mais ou menos se situar, deu-se conta de que não tinha a mínima ideia de onde estava metido. Estranhou aquela paisagem desagradável, um renque de plantas diante dele. Deserto de milho? Soja? (Seja o que fosse, pouco lhe importava). Desprezava a fantasia da vida simples no campo. (Para ele, quem dizia ser feliz nascendo e morrendo no mesmo lugar mentia). Vacas e mosquitos, tédio e a sensação de que perdeu uma grande chance…
Um marasmo que nunca superaria a colméia urbana, (cheia de barulho e da claridade que o ajudava a dormir. Além disso, os confortos da cidade eram insuperáveis. Só nela é que se conquistava os carros certos, máquinas nas quais o couro dos animais adquiria o devido uso. Enfim, não queria perder mais tempo divagando com comparações entre grama e dinheiro). Cuspiu o resto de sangue entre os dentes e deu um passo para a frente.
(Quilômetros de ausência). Nada de casas ao redor, celeiros e currais ou placas de sinalização. Tentou lembrar dos eventos que o levaram até onde estava, mas a dor na nuca pulsava. Alguma festa selvagem? Parou de beber desde a última vez que prometeu a ela e fazia tempo que tinha cheirado pó demais. Vivia um período de quase sobriedade, apenas uma carreirinha, de vez em quando, para desenrolar os negócios. (Era um homem limpo e saudável, que se divertia de vez em quando…) Nunca se rebaixaria às drogas menores, sabia se controlar.
O céu sem nuvens. Azul em cima da cabeça, verde ao seu redor. O calor o obrigava a franzir as carnes do rosto. Contudo, por mais que apertasse os olhos, o único vestígio de outros seres humanos era a estrada que atravessava a sua vista. Lambida de asfalto infinita e silenciosa, que pouco prometia além de uma longa caminhada. (Queria sair dali rápido, mas não conseguiria com as roupas que vestia. Ainda assim, seguiu para ver se achava algo ou alguém.) Gotas de suor começavam a brotar em sua testa, até que reparou no chumaço de cabelo grudado no sapato. Fios unidos por fragmentos de pele e matéria viscosa, contrastando com o couro marrom do calçado.
Não desviou o olhar, se abaixou e pinçou aquilo com os dedos. Examinou os fios compridos e embolados. Eram loiros, dela. Ou não, as últimas horas (talvez dias) apagaram-se da sua memória. Pode ter pisado na sujeira e levado consigo os cabelos de outra pessoa. Esperançoso, cheirou com certa vontade de que fossem sim de Giovana. Não reconheceu nenhum perfume bom no chumaço, apenas um aroma terroso que lembrava sangue. Jogou aquilo fora, balançou os pés e ajeitou o colarinho.
(Precisava raciocinar friamente. Onde quer que estivesse, era imenso. Continuava sozinho e não vendo saída e, desse jeito, só conseguiria ir embora dali a pé. Marcos desapareceu com o seu carro, mas, não acreditava que o jovem assessor o roubara. Mais fácil os dois terem sido emboscados e ele levado por engano… A sua maleta, chaves e carteira também tinham sumido.) O cartão de crédito, documentos… Que transtorno. Tateou-se e, curiosamente, seu telefone ainda estava no bolso. Que tipo de ladrão deixa para trás um celular de última geração?
O aparelho estava sem sinal, mesmo assim, mandou uma mensagem para o seu assessor. (Marcos, onde tu tá com o meu carro? Não tenho noção de onde eu parei, preciso que venha me buscar. Sei lá o que tá acontecendo, não consigo sinal. Me liga urgente”). A notificação de mensagem enviada ficou brilhando, teimosa na incompletude. (Olhou para a tela e a fotografia de Giovana parecia debochar do absurdo ao redor dele. Guardou o aparelho,) perturbado com o sorriso vermelho que enfeitava o papel de parede.
Conexão é item de primeira necessidade e Lucio pagava caro para garantir o recurso. (Prova disso é que) tinha optado por um plano de telefonia que garantia cobertura sem interferências em qualquer lugar do planeta, (ao custo de uma boa taxa extra). Considerou inaceitável o aparelho permanecer fora de área. (Oras, se gastava e cumpria com as suas obrigações, queria um serviço prestado com eficiência. Se essa falha de sinal lhe render uma indenização, não hesitará em processá-los:)
— Bah, Marcos, onde tu te meteu? Aparece e vem logo me tirar daqui…
(O jovem, recém graduado em administração, o admirava. Foi a principal razão para contratá-lo. Queria alguém que se inspirasse em seus esforços, que também fosse ambicioso. Assinou a carteira, bancava um salário acima do mercado. Do que adiantou? Agora precisava do funcionário e estava ali, sozinho e perdido. Pensou que, se fosse ele o empregado, já tinha resgatado o seu chefe. Bem, nem todo mundo é competente… Mas, ainda assim, sentiu-se enganado. Como pode ter acreditado que Marcos seria capaz de aprender?)
(A falta de nuvens no céu fazia do sol uma companhia inclemente. A sede começou a ganhar espaço em sua garganta), contudo, não quis arriscar desviar-se do caminho. (O seu único ponto de referência era a estrada.) Para além dela, as plantas, divididas pelo asfalto, repetiam-se no horizonte. Chutou uma pedra em direção a elas, que foi silenciosamente engolida pelo verde. O vestido favorito dela também era verde, lembrou. Verde e vermelho no tapete felpudo do quarto. Não teve tempo para desfiar memórias, pois avistou algo novo no horizonte. O resgate dependia de chegar até aquele ponto preto no final da estrada.
(Apressou o passo e começou a imaginar) um local repleto de agricultores, (que, acostumados a não verem ninguém, se espantariam com a sua chegada. Repartiriam a água, o alimentariam e se ofereceriam para levá-lo para casa. Sim, quem ele escolhesse como o seu salvador tiraria a sorte grande.) Retornar ao que é seu. Digitar a chave do apartamento, tomar um banho demorado, ligar o ar e deitar nu. Pedir para a empregada lhe preparar um suculento filé. E, enquanto Martinha trabalhasse, contaria por onde andou. (Os detalhes de sua aventura, como resistiu bravamente.) Lembrou-se de tirar algumas selfies para desarmar quem o chamasse de mentiroso. (Impressionaria os colegas da B3…)
Tinha certeza de que os parceiros iam se remoer de inveja do quanto tinha sido corajoso. De repente, esse episódio o levaria até a ser convidado para ir em algum podcast. Não negava que queria reatar. Só que precisava se preservar, mostrar quem manda. O que Giovana deveria estar fazendo? Torcia para que ela se arrependesse, depois de saber que ele reapareceu e viralizou como o cara que sobreviveu. Então ligaria para ela quase de madrugada. Afoita, atenderia no primeiro toque. Seguro, um homem firme. Decidiria o horário e que ela usasse aquele vestido, o floreado. Então a levaria para comprar… O plano se desfez no tapa automático que desferiu no próprio rosto. Não tem noiva, não tem compras. Agora, perdido e suado, havia apenas um caminho cercado de mato.
(Longe demais, como uma estrela negra, pairava o possível resgate. Avançava menos do que tinha calculado inicialmente, talvez pela dor nos pés que fazia vacilar o ritmo da marcha. Não havia sinal de água, torceu para que o tempo mudasse e chovesse. Novamente lembrou de Giovana.) Visualizou-a rindo e isso o irritou. Era sempre nos momentos mais inconvenientes, Lucio nunca sabia se era com ele ou dele que a sua mulher gargalhava. (Alto demais, o rosto bonito ficando vermelho, as mãos batendo nas pernas como se fosse qualquer… Tinha ânsias de que ela diminuísse aquelas risadas, do jeito que fosse. Ali, não podia fazer nada. Em outro lugar, aquela que o fez se ajoelhar e ganhou um anel dele poderia estar o desonrando. E gargalhando como uma…) Tropeçou com a memória e, frustrado, cedeu ao próprio peso, caindo no acostamento.
Sentou, as pernas cruzadas como fazia quando era pequeno e se preparava para assistir televisão. (Não tinha a mínima noção de onde estava e essa ignorância começava a pesar como uma mochila com livros demais. Quem poderia odiá-lo a ponto de o largar desacordado, no meio do nada? O que ele teria cometido de tão grave para sofrer aquilo? A sensação de injustiça fez com que uma parte sua quisesse desistir ali mesmo), talvez em posição fetal, até se tornar um esqueleto. Quem sabe fosse bom descansar em paz. (Ei, isso não era do seu feitio. Onde tinha ido parar o cara que sempre resolvia os seus problemas, do jeito que fosse? Enquanto decidia a postura que adotaria, Lucio) reparou que as plantas do lugar não possuíam insetos ao redor. Não havia o menor vestígio de cigarras nem de outros bichos de campo.
Além dele, a única vida no local era aquela matéria verde, expurgada de outras espécies. Constatou a simetria dos milhares de caules, que expunham no ar a mesma quantidade de folhas. Deveriam existir diferenças, estágios variados de crescimento, algum apodrecimento ou deformidade. Um único e mísero erro. Contudo, o horizonte era assustadoramente exato e limpo. (Sentiu-se confrontado por uma equação insolúvel. Deixando suas aflições para mais tarde, retomou a caminhada. Estranhar o ambiente lhe deu um novo fôlego, parou de reclamar de dor e ficar com pena de si mesmo.)
O tempo correu e a paisagem não mudou, como se conspirasse para bagunçar as suas noções de espaço e tempo. (E Lucio não tinha nada para marcar o caminho, já que não achou mais britas e as folhas poderiam ser carregadas ao menor dos ventos. A estrada só lhe oferecia a rigidez cinza do asfalto. Já não tinha mais noção do quanto percorreu e, de acordo com o horário do celular, era para ser noite e não tinha nem sinal de pôr do sol. Cada vez mais difícil,) as panturrilhas também começaram a latejar e, em seu ouvido, o silêncio parecia murmurar xingamentos. Homenzinho pequeno, pagando por tudo…
(Não! Abatimento não constava em seu dicionário. Sempre foi um cara que batalhou, melhor, era um colecionador de vitórias em cenários adversos.) Reforçou para si que tudo é uma questão de treinar a mente para enfrentar a situação. (Estava deixando se levar por coisas incompreensíveis, sentimentos que não deveriam estar em seu peito. Se não entende, então não existe…) Era um leão da selva, como aprendeu no podcast do seu ídolo. (Figura que, assim como ele, saiu do nada e venceu.) Conquistaria o mundo também. Na tentativa de se encorajar, entoou o “lema dos leões”:
— Ame problemas, para amar as recompensas! Ame problemas, para amar as recompensas! Ame problemas, para amar as recompensas! Ame…
Um queixume o interrompeu. Olhou para trás, mas o ambiente seguia inerte. Tinha certeza de que escutou algo, como uma pessoa ou animal gemendo. A possibilidade de que começava a alucinar o assustou. Retomou a ladainha.
Logo teve de interromper o mantra novamente, por causa da sequidão na garganta e aspereza da língua. A sede aumentava, naquele instante trocaria (um malote de dinheiro) por uma garrafa de água. Passou os dentes nos lábios e foi como rasgar papel. A inclemência do sol o obrigou a tirar a camisa de linho e a amarrá-la na cabeça. Quase dois mil reais, transformado em um arremedo de chapéu. (Olhou para o seu peito e gostou do que viu.) Se achou bonito, como um aventureiro de filme.
Sim, tinha certeza de que faltava pouco para chegar ao borrão preto. (Então, lhe ocorreu que talvez estivesse morto.) Viu-se cadáver, deitado como um dia o seu pai esteve… (Reginaldo. Quem era Reginaldo? Uma lápide? O peito encolheu, reagindo à lembrança daquele desconhecido. Pelo menos a sua provável morte não deixaria nenhuma criança sozinha para se virar. Começou a devanear sobre o seu enterro, quem iria comparecer, se sairia alguma nota em um jornal. Qual seria o paraíso correto para ele?)
Não era muçulmano, mas, se fosse o caso, bem que o tal borrão poderia ser o Jardim, com vinhos e jovens virgens lhe esperando. Leite e mel, (setenta e duas beldades, corpos e olhos, cheiros e mãos. Toda essa beleza que imploraria para servi-lo, tocá-lo…) Mas diria não, seria cruel. Talvez, na eternidade, fosse a chance de se vingar das… Deixou escapar um “vagabundas” automático e histérico, que o fez sentir uma pontada de vergonha. (Tinha superado essa fase, era um adulto. A sua noiva era linda. Ainda sua noiva sim…)
O gemido novamente, agora mais alto. Lucio explodiu em risadas de alívio quando, dessa vez, avistou uma silhueta na estrada. Uma outra pessoa. Real. Dane-se tudo, começou a acenar loucamente, na expectativa de que, quem quer que fosse, tivesse um veículo para sair dali. Inebriado pela libertação de não precisar mais caminhar, merecia descansar as pernas. Decidiu que colocaria fora os sapatos que calçava. Melhor, queimaria o calçado e as roupas que usava. (Pretendia mesmo trocar logo de celular.)
Imerso em seus planos, não atinou quando a figura começou a correr em sua direção. Um trote rápido e forte, como de um predador que vai encurralar sua presa. Subitamente, aquilo parou a poucos metros de Lucio e se acocorou no asfalto. Ainda entusiasmado pelas possibilidades da companhia, se aproximou para fazer contato. Poderia ser outra pessoa na mesma situação e que não aguentava mais de cansaço. Não tinha mais volta no instante em que entendeu. Havia chegado perto demais do horror. O ar empesteou-se com o cheiro de carne rançosa.
Deparou-se com um ser encolhido e nu, (a pele amarelada das costas cravejada pela coluna bem marcada. Crostas de sebo manchavam a aparição que arfava,) como se fosse um saco enchendo e esvaziando. (Lucio não teve coragem de tocá-la, o que não foi necessário. A criatura sentiu a sua respiração perto e atacou.) A primeira coisa que virou foi o pescoço para cima, que ressoou feito um galho se partindo. Então o procurou com a cabeça, revelando poucos fios de cabelo e cavidades oculares vazias.
A boca aberta e sem dentes rasgava a face da besta de um canto ao outro. Dela surgia uma extensa língua cinza, tubular. O órgão estava coberto por frases sentimentais e desenhos que se mexiam. Atordoado, quase que por reflexo, apertou o celular para conferir se o aparelho ainda estava com ele. Ao olhar para aquela tripa, teve a impressão de que todas as suas conversas com Giovana pendiam expostas nela. (O vermelho invadiu as suas bochechas. Gritou, tentando espantar aquilo:
— Vá de retro, demônio!)
A criatura levantou-se em um segundo, sustentando a sua encarada cega. (Lucio desviou o olhar quando percebeu a fenda que ia até o umbigo, embaraçado com a nudez que foi obrigado a ver. O sol iluminava todos os detalhes da presença, e, tudo o que tinha nela, era indigesto de olhar. Como os seus membros, que terminavam em dezenas de fios arroxeados e finos.) Esses contorciam-se aleatoriamente, minhocas prontas para cavucar a terra.
Seguindo um ritual, ela passou a saltar em círculos e emitir barulhos incompreensíveis. Ele não se moveu. Ficou congelado assistindo o espetáculo, enquanto a urina escorria pelas suas pernas. (Se corresse, poderia ser laçado. Reagir era loucura. Aquela aberração era claramente mais alta e forte do que qualquer homem.) Não tinha discurso, postura, nada preparado para aquele pesadelo. Fechou os olhos, na esperança de que estivesse em sua cama. Giovana o acordaria, o sobrevivente de um sonho ruim, e ficariam juntos. Enjoou com a possibilidade de morrer nas mãos daquilo e o seu cadáver apodrecer no mato.
Queria gritar pela sua avó, a única capaz de expulsar os demônios. Indiferente ao desespero, a fêmea preparava-se para o próximo ato. Inflou as bochechas como balões e enrolou a gigantesca língua para dentro do rasgo que lhe servia de boca. Não demorou para que a despejasse para fora, tesa e serpenteando para diferentes direções. A monstra dominava o órgão, que agia como um animal adestrado. Ao mesmo tempo, do corte na sua barriga respingava um líquido escuro e grosso, que evaporava assim que caía no asfalto.
A língua prendeu a mão do homem. Era impossível não sentir aquilo enrolando e pressionando, as juntas estalando e a mão contorcendo. Toque gelatinoso e quente, sufocando cada poro da sua pele. Perdeu o comando do seu corpo, foi obrigado a se ajoelhar de dor. A condenação coube em poucos segundos.
Abriu os olhos apenas quando os dedos se afrouxaram. Permanecia longe de casa, perdido. Nada tinha mudado, exceto que a criatura havia virado fumaça.
Foi só isso?
Não, ela deixou um presente. Quando Lucio olhou para a sua mão, percebeu que ela foi tomada pelas mesmas estampas e palavras que adornavam a língua da monstra. Das unhas até o pulso, sem um centímetro livre. (O estado da própria pele o enjoou.) Vislumbrou que morrer talvez não fosse o pior dos destinos.
(Vomitou uma gosma escura e caiu entre o asfalto e a plantação, desmaiado.)
II – O garoto da vovó
Andar consiste em colocar um pé na frente do outro. Lucio aprendeu rápido, antes dos outros bebês. Desde cedo usou músculos e ossos como ferramentas a serviço das suas vontades. (Queria bolachas, escalava o armário. Nenhum brinquedo era inalcançável para suas perninhas e mãos ágeis… Cresceu e se tornou um péssimo jogador de futebol, mas corria tão rápido que os colegas passavam dias sem zombar dele. Só não seguiu no atletismo. Depois de pesquisar sobre carreiras, concluiu que ninguém enriquecia correndo no Brasil.)
Porém, não era a criança perfeita de quem a sua avó, Dona Iracema, gostava de se gabar. No que se tratava de emoções, o menino tinha dificuldade para se controlar. Frequentemente, o pequeno era invadido por uma raiva inexplicável, ou pior, uma tristeza profunda. Normalmente, as suas explosões ocorriam quando ele, enquanto fazia algo, era inundado por lembranças: um caixão cercado de velas, um recorte de jornal sobre uma colisão de carro, ele chorando sozinho em um berço… A avó então o chamava de volta e dizia que cabeça vazia era a oficina do diabo. (Mandava o neto parar de drama e estudar. Alertava-o de que os dois tinham muitos problemas para resolver.)
— Giovana… Droga, desmaiei de novo. Ainda é dia, quanto tempo apaguei dessa vez? Ai minha cabeça, parece que tô de ressaca e não lembro de ter bebido. Deixa eu ver, não tem sangue escorrendo, acho que tô inteiro. Checar na câmera do celular. Nossa, que estrago. Como consegui esse galo na testa? Rosto todo vermelho, a calça manchada. Por que eu amarrei a camisa na minha cabeça?
Tá, continuo no meio do nada. Marcos? Alguém? Socorro! É, só o meu eco… Preciso sair daqui. Economizar a bateria do telefone. Se ela morrer, perco o espelho, relógio… E vá que ainda ache algum sinal. Dar um jeito de disfarçar pelo menos esse cheiro. Imagina a humilhação de aparecer todo mijado… Porra, o que é isso? Foi de verdade! A minha mão… Sai, sai, saaaiiii!
Por que essa provação? Deus, é um teste? Tudo bem, eu aceito os teus planos, mas tinha necessidade dessa doença, feridas, sei lá. Não sou um pecador, um cara mau. Eu trato bem meus funcionários, faço caridade, nunca atrasei o dízimo. (Tento mesmo ser legal, cumprimento todo mundo. Isso deveria acontecer com quem é ruim de verdade. Eu tenho fé, o Pai não seria tão injusto…)
(Cara, eu tô ferrado, não posso voltar assim… Capaz de ter sido ela. Giovana, isso é vingança? Tu teve coragem de fazer isso comigo? Com quem mais te amou no mundo? A gente brigou, mas me jogar aqui foi exagero… Não, eu não vou me culpar!) Pois saiba que quem merecia estar aqui era tu. Se eu fiz qualquer coisa de errado, foi porque a senhora, Miss Porto Alegre, me deixou sem alternativas. Sempre fui da paz, (tu que incomodava até me tirar do sério… Mas se é assim, tu quer guerra? Olha que pode conseguir, hein.)
Era a tua mão que devia apodrecer e cair! Não a minha. Te dei aliança de compromisso, te tratei que nem rainha. Paguei o vestido do desfile, teu título rolou graças a mim. (Raciocina, Lucio, raciocina…) Aposto que o Marcos é cúmplice desse circo, ele e a Giovana se juntaram para me sequestrar e largar aqui nesse fim de mundo. Apareçam, traidores! Será que o imbecil é um dos casos dela? (Os olhares que trocavam… Nah… Esquece, bobagem.) Ele podia até querer, mas nunca iria acontecer. Giovana é uma mulher que custa caro, duvido que ia dar moral pra um assalariado. (Mais fácil ter se aproveitado dele pra se livrar de mim. E o babaca caiu na dela e ajudou…)
Lucio, Lucio. Larga os dois de mão e te orienta! (Tu é um gênio dos negócios, pode tirar isso aqui de letra também. Ama o problema para amar a recompensa, cara… Primeiro) alcança o resgate. Aliás, desgraça de mancha preta. Ando e ando e, quando parece que está mais perto, aquilo foge e se afasta. (Mas desistir tá fora de questão…) Eu só não posso aparecer assim na frente dos outros. Chegar todo troncho seria dar um puta atestado de fraqueza. Quero que a notícia seja o cara que sobreviveu a uma situação horrível, não o bunda mole que apanhou de um campinho.
Será que, se eu esfregar a mão em uma folha ou colocar terra, isso sai? Nossa, que planta fria. Parece plástico, a folha tá estranha. Que coisa é essa saindo de dentro? Cacete, a seiva dessa merda é azul… Bom, vamos para o plano B. Acho que cavei o suficiente, vamos enterrar o braço. Essas marcas tão pulsando, tomara que não se espalhem mais. Prometo que, se conseguir ir embora e tudo der certo, faço uma boa ação das grandes. (Falo com o pastor Waldecir, ele me orienta no que abençoar e eu ajudo quem ele escolher. Vamos conferir! Bah, não deu…
Eu tava no carro, tela preta e, do nada, aqui. O que aconteceu, eu tô enlouquecendo?!) Aquela criatura, como aquilo podia ser real? (Gente não tem minhoca no lugar das mãos.) Dá agonia só de lembrar. (Deus nunca iria criar um troço daqueles. Senhor, não permita que a maldição das trevas se espalhe em mim.) Me tira tudo, mas não deixa eu acabar como um bicho que assusta as crianças. Leproso e estragado. Não quero passar o resto dos meus dias na porta da igreja, pedindo um prato de comida e me escondendo do mundo. Me livra de terminar que nem a Fabiana que a vó ajudava, com o corpo coberto de verrugas. Todo mundo chutava ela, com medo que fosse contagioso…
Vovó. Ela dizia que um homem de valor começa no terno que veste. Dona Iracema, nunca deixei de seguir seus ensinamentos, viu? Não se preocupe, eu vou dar um jeito de voltar e ajeitar essa mão. O seu neto não vai ser alvo de risadas, (ninguém vai me tirar nada não…) O Marcos adoraria me ver humilhado… Tá vacilando, Lucio. Esquece esse inútil… (Os perigosos de verdade são os que dão as cartas no jogo do dinheiro. Se te chutam, porta que fecha é impossível abrir de novo.)
Que saudades, vó. Me dá a bênção? A senhora teria me poupado sofrimento. Sabia reconhecer de longe quem servia. Abria meus olhos, seus conselhos preciosos… Queria tanto que estivesse comigo, vendo o quanto eu tô prosperando. Ai, tô morrendo de fome e não tenho o teu bolinho de milho. Sim, eu sei, a senhora fazia por não ter coisa melhor. E que somos o que comemos, por isso devemos nos alimentar como gente bem de vida. Faço questão de que só tenha o melhor na minha mesa, vó. (Peço para me prepararem vitela toda a semana, a senhora ia adorar.) Mas assistir desenhos, devorando aqueles farelos amarelos nos dedos, sempre vai ser uma das minhas melhores lembranças.
Nós conversávamos tanto. Lembro de ti na cadeira do pátio, dizendo que, quando eu virasse homem, teria de lhe comprar roupas e doces. A levar para passear de carro… Pena que não deu tempo. Sabia que eu te tirei daquela sepultura miserável e cremei o teu corpo, Dona Iracema? As tuas cinzas agora estão guardadas em um belo vaso dourado, protegidas em uma cristaleira na sala. Uma urna de rainha. Nunca permiti que qualquer uma chegasse perto. Demiti uma faxineira que se meteu a querer limpar ali, inclusive. A família é sagrada e aquela funcionária era muito da metida.
(Nosso sangue não vai desaparecer, vó. Eu vou te dar os bisnetos que tanto me pedia. Um casal de gêmeos. O garoto forte e esperto, que levará o nosso nome para a frente. Vai ser batizado como Arcelino, que nem a senhora sugeria. Desde pequeno vou ensinar ele a negociar, será mais rico do que eu…) A guriazinha será linda. Loirinha, vó, loirinha… Vou mimar tanto a princesinha. Comprar as melhores roupas, bonecas, tudo o que ela quiser. Antes, vou ter que ir atrás de uma boa mãe para eles. (Não a pilantra da Giovana… Todo homem precisa de uma esposa decente para completar a sua vida.
Uma mulher bonita, mas elegante. Alguém que fique do meu lado e chame todos os olhares, sabe? Que tenha bom sobrenome. E também entenda o papel de uma esposa: o de manter o lar de pé e levantar o marido quando ele precisar. Óbvio, não só isso. Vai ter que me amar e ajudar, não só cobrar e questionar as minhas decisões… E, se não for pedir muito, quero que me deseje mais que tudo. Entende as minhas necessidades de homem, né? Mas não se preocupa:) jamais vou te esquecer. Quando tirarmos as nossas fotos familiares, a senhora estará sempre presente. Colocarei a sua urna no centro de tudo.
Não tem nada para beber, nem sinal de água… Meu reino por um gole de whisky? Uma garrafa, virava tudo de uma vez só… Ô estômago, que não para de roncar e a garganta arranhando. Quem sabe eu mastigo uma dessas folhas? É o que tem, né. Tiro a gosma e enfio a planta na boca. Engano o desespero até sair daqui. E, se for venenosa, não tem problema, é bem possível que eu já esteja no inferno mesmo… Deus me livre, cala a boca. É que morrer de inanição, coisa de perdedor. Afinal de contas, o que é esse ponto preto lá na frente? E se eu caminho tudo isso e não tem nada? Tá no fim do mundo, ô desgraça?
Martinha, saudades da tua comida. Vou pedir que asse um boi inteiro quando voltar. Sem cozinheira, (é o que tem: pedaços de folha que eu nem sei o que são.) Que nojo, parece pus azul… Isso brilha? Quando tiver internet de novo, eu vou descobrir o que é essa porcaria. Não pode ser saudável, nada daqui pode ser bom. Capaz de me candidatar a prefeito só para destruir essa merda de plantação. Volto aqui de trator e arranco tudo. (Ainda queimava a terra e jogava sal. Nunca mais nascia nada.) E se esse fim de mundo não for na cidade? Onde é que eu tô? Força, Lucião, engole. Nossa, quando mastiga também parece plástico, um chiclete sem gosto. Certo, não morri, nem estou babando no chão…
Sentado de novo, no meio do nada. Cadê a polícia quando um cidadão de bem precisa dela? Uma mísera viatura, ficaria contente até com uma carroça. Nem formigas passam por aqui. Só eu nessa estrada. Estranho, que bobeira, sono mesmo. Do nada. Até que mereço tirar um cochilo, tô andando faz tanto tempo.
Se eu não descansar, é mais fácil acabar caindo morto nesse inferno. Onde Judas perdeu as botas… Melhor ir me esconder na plantação. Do jeito que tô azarado, é possível que algum carro apareça justo quando eu dormir. E me atropele. Mas também não é inteligente me embrenhar, vai saber se a desgraçada não tá lá no fundo. Esperando pra terminar o serviço… Aqui, na beira, consigo vigiar, dá pra fugir. Dobrar a camisa e, olha só, tenho até um travesseiro. Deitar no chão é menos desconfortável do que parece. E que céu bonito, não tinha reparado nesse azul de mar. Eu vou só fechar os…
III – Noite
(Sonhou que havia retornado. A sua mão estava limpa e se sentia mais vigoroso do que nunca. Entrou no apartamento, inundado por uma luz amigável. Ouviu a voz de Giovana conversando com Martinha na cozinha, foi ver o que elas estavam aprontando. Ao chegar ali, encontrou um corpo com duas cabeças. Os rostos de Marta e Giovana brotavam dos mesmos ombros e, felizes, realizavam os seus afazeres domésticos. Lucio passou por elas, quis espiar o que cheirava tão bem na panela. Deparou-se com uma sopa azul. Nela, boiava um único olho. Parecia pertencer a sua avó. Acordou antes de beijar a esposa e acariciar a face da empregada.)
–
A folha o saciou. Lucio, quase esquecido de onde estava, abriu novamente os olhos e foi engolido pela noite. O sol, observador da sua jornada até então, tinha sumido e o céu não trouxe uma mísera estrela para lhe oferecer. Ao seu redor, um negrume denso. Parecia ser possível agarrar a escuridão com as mãos, o que intensificava o silêncio sem vida do lugar. Conseguiu ouvir nitidamente o sangue correndo pelo seu corpo, os seus ossos estalando, a pele latejando… Assustado, pegou o telefone. Queria conferir se tinham respondido a sua mensagem, a data, qualquer coisa…
Apontou o celular para os lados e percebeu que a paisagem estava nua. O mar de plantas desapareceu. (Como se uma colheita tivesse sido feita por camponeses fantasmas que trabalharam sem ninguém perceber…) Era a única alma que restou na gigantesca mancha marrom, ainda ignorante do que o levara até ali. (Um homem de 1,75m, que dizia ser mais alto do que era e que a única pessoa pela qual podia gritar já tinha morrido.) A última vez que se sentiu assim, tão sozinho, foi quando voltou do enterro de sua avó.
A nudez da terra o deixava exposto. Se aquela criatura, ou alguma coisa pior, surgisse, não teria qualquer chance de se esconder. (Então gritou por ajuda e ninguém respondeu. Ponderou que o silêncio era um bom sinal. Se fosse ser caçado, o teriam pego enquanto dormia. Mas, melhor não arriscar…) A lanterna do aparelho lhe garantiu um círculo de claridade, onde tentou se manter. Tremendo, se apressou em retornar para a estrada. Não havia tomadas na terra, como ele carregaria o telefone? Naquele momento, contava com vinte e cinco por cento de carga e só. Calculou que restava cerca de uma hora de luz, provável que fosse menos. Sentiu a chicotada da pressa no rosto.
Não, nunca ia admitir que o desconforto era mais profundo. (Odiava o escuro e, sim, ainda morria de medo dele. Escuro significava conta de luz vencida. Comida estragando. A avó chorando e com raiva. Ele chorando junto. Além disso, a mulher que lhe deu à luz. Não conseguia lembrar do rosto dela. Gelava quando a avó o chamava para a hora de “descartar o lixo”. As fotos foram todas queimadas. Ele rasgava, ela incendiava… Logo, quando pensava nos seus pais, só via um buraco negro no lugar da mãe. Era melhor assim…) Durante o começo do namoro, falava para Giovana que as luzes sempre acesas eram para dar um clima de romance. Depois, mandava que ficasse tudo iluminado e ponto.
Lucio tentou diminuir os sons que emitia. Por mais que acreditasse estar seguro por hora, não queria o próprio corpo o entregando para sabe-se lá o que… Mais do que nunca, precisava alcançar o resgate. O ponto preto fundiu-se com o breu, a sua localização era um mistério. Nada garantia que ele também não tivesse evaporado. Mas era a sua única chance, ainda que mínima. O cara que vivia de riscos apostou em uma direção e foi.
(Os pés ardiam ao bater contra o couro dos sapatos. Tentou pensar em outra coisa, se distrair da dor. Lembrou do conforto do seu último carro, a luz do painel e a maciez dos bancos. Dos colegas comemorando com ele, quando venceu a aposta e conseguiu sair com a recepcionista que parecia uma miss… A avó no portão, falando dos vizinhos.) Para ela, expressões como “uma agulha no palheiro” eram bobagens que a gente do bairro dizia. Atestado de miséria. Ai dele se o pegasse usando esse tipo de gíria! Teria as suas orelhas puxadas, ser pobre e grosso era inaceitável. Arfando e cuidando para não deixar o último fio de luminosidade apagar, se deu conta de que estava procurando uma agulha no palheiro. Só não teve coragem de dizer a constatação em voz alta.
Dezessete por cento, apressou a marcha. Negrume atrás e na sua frente. A estrada foi reduzida ao brilho do celular. Nada mais que a perspectiva de um passo. As pernas falharam e Lucio caiu no chão. O celular saltou longe, a lanterna jogada para baixo tingiu o chão de amarelo. Desesperado, se arrastou para resgatar o telefone. Abraçou o aparelho, que aqueceu as suas mãos. A tela rachou, o sorriso vermelho desdobrou-se em vários. Sem tempo para sofrer. Quatorze por cento. Ignorando o alerta de bateria fraca, partiu para onde quer que fosse.
(Não se afastou da estrada. A dureza do asfalto era a sua guia.) Maratona dolorosamente reta, sem curvas, declives ou subidas. (Um relevo prensado por uma divindade que não admitia falhas…) Queria parecer uma flecha voando, (como nas competições escolares. Mas não estava mais no colégio) e sentia-se um rato de laboratório sendo testado. Oito por cento. Não ia deixar de seguir por nada, chegaria em algum lugar. Mesmo que o final fosse um abismo… Pensou cedo demais, foi obrigado a parar. Na sua frente, um facho de luz esverdeada lhe ofertou Giovana.
Linda, brilhava como uma esmeralda. Seis por cento. Lucio escolheu não questionar o ocorrido, finalmente algo bom. Tinha a sua mulher junto dele e ela o queria de novo. Agora, a corrida era para abraçá-la. A pele colada na sua, o cheiro do cabelo macio. Apalpou as suas carnes, certificando-se da solidez da presença. Notou-a um tanto esquisita, mais mecânica e silenciosa. O que ficava normal nesse inferno? Não queria discutir a relação, só rodopiar ela no ar. (Ela foi até ele por vontade própria. O amava, podia fazer qualquer coisa que ela ainda iria amá-lo.
Sentiu desejo de levá-la para a terra e tê-la ali mesmo. Era a mulher dele e, com ela ao seu lado, virava um herói completo… A mocinha da sua aventura. Boca carnuda e feminina se oferecendo em um beijo. Nunca mais deixaria que fosse embora.) Giovana envolveu-o com seus braços delicados, o inebriando com um calor doce. (A pele pálida, em contraste com a escuridão, destacava a árvore de veias que crescia dentro dela.) Três por cento. (O apertou vigorosamente, como se a saudade a motivasse a usar uma força que não tinha.) Então, chegou perto da sua orelha, mordeu o lóbulo com vontade demais e soltou um grunhido.
Um som gutural fulminou a escuridão. (Lucio entendeu que cometera um erro grosseiro. Calculou com a emoção e se expôs ao risco.) Não era ela, nunca foi. (O feitiço foi desmanchado, a presença começou a mudar. O cabelo caiu, os olhos sumiram, as veias revelaram-se dedos…) . Quem o agarrava era a monstra. A luz do celular se extinguiu e Lucio não pôde gritar, pois a aparição enrolava a língua em seu pescoço.
Durante a noite tinha fome, por isso saiu para caçar.
IV- Pedaços
(Acidente de trânsito mata três pessoas na Freeway, sentido Porto Alegre. Um carro perdeu o controle, invadiu a pista contrária e bateu em um caminhão. Ninguém sobreviveu. O casal do veículo deixou um filho de três anos e o caminhoneiro era pai de três meninas de quatro, cinco e oito anos.)
–
Apagou as luzes para rolar na cama, pensando nas formas de Eduarda. A colega que ele conhecia cada pinta e que nunca se deu conta de que Lucio existia. Fantasiava puxar aquela trança para perto de si, desfazê-la e se enredar naqueles cabelos dourados… Iracema entrou no quarto sem bater à porta, os passos silenciosos para surpreender o neto. Lucio, ao perceber os olhos julgadores da avó o mirando, se escondeu debaixo do edredom. Ela ficou de pé, esperando o garoto se recompor. Ninguém falou sobre o momento de intimidade, o rosto da mulher era uma máscara indecifrável:
— A bença, vó. Posso ajudar a senhora em algo?
— A bença, meu filho. Vim te dar boa noite.
— Durma bem, vózinha.
Iracema fez menção de sair, mas não se moveu. Parecia repassar mentalmente todas as instruções que queria dar ao neto. Lucio, em silêncio, ficou esperando o sermão da avó:
— Filho, eu não te condeno por isso. É errado, mas tu tá na idade. Você tá virando homem, é normal. O teu pai era assim também, aquele me deu trabalho. O meu Reginaldo, ainda por cima, era bonito que nem o Diabo. Vocês são tão parecidos… Eu só tenho medo é que tu termine que nem ele.
— Vó, por favor…
(— Deixa eu terminar, guri, não me interrompe. Promete pra tua avó que nunca vai colocar um gole de álcool nessa tua boca. Perdi o Arcelino pra cachaça e o teu pai se afundou nela também. Um terceiro bêbado eu não aguento.
— Prometo, vó. Nem parece bom…
— Não é bom até tu crescer e ver o que é a vida. Eu faço das tripas coração pra te criar, Lucinho. Meu joelho não aguenta mais costurar, mal consigo nos sustentar direito. Quando tu tiver que pagar as contas, vai sentir o gosto da pendura na boca.
— Eu quero logo trabalhar, para ajudar a senhora.
— Não, vai estudar. Se formar, ter diploma. Ninguém pode te tirar o estudo. O primeiro da família… Faz isso por mim.
— Eu vou fazer faculdade de matemática e trabalhar num banco. Daí vou comprar tudo o que a senhora quiser, dona Iracema. Te levar no salão de beleza e no shopping. Um monte de doces…
— Hehehehe, ô meu filho. Meu menino, te amo. Duvido que vai carregar essa velha junto, pra morar na tua mansão.
— Ai vó, não diz isso.
— Mas é verdade. Bem, desde que tu escolha melhor que teu pai. Aquele cabeça de vento, deu no que deu. Lembro que era madrugada de frio, ele no portão com aquele pacotinho nas mãos. A primeira vez que te vi. Eu te aceitei nos meus braços, Lucinho, e te nanei até tu dormir… Eu quero que case, tudo o que tem direito. Se Deus quiser eu vou estar na igreja e cuidar dos meus bisnetinhos. Mas escolhe melhor do que ele.
— Prometo, vó.
— Certo, agora sim. Dorme com os anjos, meu filho. Se eu morrer essa noite, vou em paz.
A imagem de Eduarda foi sugada por um buraco negro. Sozinho no quarto, Lucio passou a madrugada encarando o teto carcomido por cupins.)
*
Os olhos de Giovana pesavam, mas ela se manteve assistindo à série. Não sabia quando teria outra chance de aproveitar a televisão sozinha. Ainda assim, não conseguia se acomodar completamente no sofá. Queria também ter apagado as luzes do apartamento, mas achou melhor não arriscar. (O enorme problema que seria, ele chegar e dar de cara com tudo escuro…) O corpo começava a ceder ao sono quando a chave virou na porta. Um arrepio percorreu a sua espinha e ela se ajeitou imediatamente.
Não reclamou do horário para Lucio. Nem de que ele não tinha avisado que sairia ou do cheiro de perfume feminino e bebida que empesteou o ar. O olhar embriagado e cheio de raiva a alertou que era melhor ficar quieta. Pensou que, se saísse correndo dali na madrugada adentro, não tinha dinheiro nem para chamar um carro:
(— Vai me dar oi não? Tava me matando pra bancar essa tua vida boa.
— Oi Lucio, boa noite.
— Lucio? Não vai me chamar de amor? Eu tava trabalhando, sua louca!
— Amor, desculpa. Eu…
— Desculpa nada. Ainda por cima tá assistindo a minha série? No meu sofá? Quem te deixou ligar a TV? Eu não vi esse episódio ainda. Volta o episódio. Interesseira.
Giovana desligou a televisão:
— Amor, quer comer alguma coisa? Chamo a Martinha, posso preparar também e…
— Não sabe fritar um ovo, tá maluca. Engraçado, mexendo nas minhas coisas e agora se fazendo de santa. Pelo menos é gostosa, senão já tinha enxotado…
— Me respeita, Lucio.
— Que respeito o quê, eu sei as coisas que tu fazia. Só que agora tu tem um macho só.
— Lucio, eu tava sozinha e só quis me distrair, tu sabe que eu assisto essa série também.
— Responde, quem é o teu macho?
— Tu.
— Eu comprei essa televisão. Ninguém assiste nada antes de mim não.)
Lucio, cambaleando, foi até o armário das bebidas. Pegou um copo e encheu de conhaque. Entornou e ficou encarando o vidro vazio… Imobilizou Giovana sem esforço, com uma mão fechou o seu pescoço e a empurrou contra a parede:
— Eu podia esmagar esse copo aqui, agora, nas tuas costas. Quebrar ele, é só empurrar. Daí tu aprendia a me respeitar…
Giovana sentiu o vidro percorrendo a linha da sua coluna e a respiração furiosa em seus cabelos. Implorou que não a machucasse, tentando se mexer o menos possível. Ele a soltou:
— Quando que eu te machuquei, sua louca? Tá ficando maluca, ó?
Desenhou um círculo com o dedo ao lado da orelha. O sorriso debochado fez Giovana enjoar, mas outra parte duvidou de si. De repente, ela realmente possuía algum transtorno. Afinal de contas, continuava ali:
— E a senhora vai dormir na cama, Miss de Coisa Nenhuma. Só que tu me deita com a cabeça pra baixo, não suporto o teu bafo na minha cara.
Pela manhã, Giovana se trancou no banheiro de Martinha. Sentou na privada, a crosta de sangue seco debaixo do nariz. Repetindo para si, sem chorar e até acreditar, que alguma veia devia ter estourado sem querer. (Odiava Lucio, mas, mais uma vez, não foi embora. Ainda lembrava do príncipe que foi quando se conheceram.)
Não tinha um lugar, dinheiro suficiente. Precisaria arranjar um emprego de novo, juntar algo, achar um canto… A cabeça doía, a água fria aliviou o inchaço do nariz.
*
(O móvel cheirava a pinho, abriu as narinas o máximo que conseguiu para desfrutar daquele perfume de vitória. Tinha conquistado o seu lugar no banco, uma cadeira e mesa própria. O seu nome em uma placa de letras douradas. Anúncio de que não ia demorar para ser o funcionário que mais venderia os produtos da instituição. Bolou um plano eficaz: focaria no atendimento a aposentados e pessoas mais pobres. Usaria apenas camisas simples, nada de terno e gravata. Um cafézinho para recebê-los, tomaria junto no copo de plástico. Enquanto ouvisse as queixas e as opiniões deles sobre a novela e o futebol, passaria a sugerir os produtos do banco. Tinha a certeza de que daria certo. Era cálculo emocional. Estava destinado a ocupar mesas maiores. Teria o seu próprio escritório, pela graça de Deus.
Naquele dia, passou o expediente planejando onde iria levar sua avó. Queria que fosse em um restaurante, mas o seu salário ainda não bancava tamanha estrepulia. No final, decidiu pelo shopping. Passeio, um sorvete pra cada e, como grande fechamento, comeriam o lanche do fast-food caro. Ligou para casa e avisou que ela deveria esperá-lo arrumada. Iracema disse que se recusava a jantar essas bobagens de hambúrguer, mas que adoraria ir tomar um sorvete com o seu menino. Entusiasmado, Lucio mudou seus planos. Como não teria o lanche final, impressionaria a avó a levando na sorveteria italiana que eles nunca entraram. Seria o primeiro sorvete de muitos…)
V – Interlúdio
Lucio e Giovana foram fazer uma aula de esqui. Vestiram as roupas, colocaram o equipamento e se aventuraram no esporte estrangeiro. Ela conseguiu esquiar, ele caiu. A namorada começou a rir e Lucio fechou a cara. Por um segundo, os seus dedos cerraram-se. Criança, o que ela estava pensando… Mas não queria estragar o passeio, tudo corria tão bem. O beijo que ela deu em seu rosto e as cócegas que o cabelo longo causou perto do seu nariz o acalmaram. Levantou-se com a ajuda dela, limpou a neve da roupa e tentou de novo.
–
Ela nunca tinha viajado de avião. Só tinha conseguido trabalhos regionais e, para economizar, andava sempre de ônibus. Foi Lucio quem organizou o seu passaporte, toda aquela burocracia ainda desconhecida. Sua tarefa era a de se preparar para a viagem, ele pediu que se mantivesse linda para aqueles dias mágicos. Não conseguia conter a expectativa.
Finalmente iria desfrutar das belezas do mundo. Conheceria o Chile, terra de um monte de coisas magníficas. Não fazia ideia do quanto o lugar era interessante até pesquisar no celular, achou as lhamas tão adoráveis… Não era o seu destino dos sonhos. Longe dela reclamar, adorou a proposta. Mas fantasiava com Paris desde criança. Quem sabe um dia eles viajassem para lá e ela veria a Torre Eiffel de perto?
Por enquanto, ia poder estrear a sua adorada mala, sem falar nos casacos e botas que ganhou dele. Lucio tinha planejado todos os passeios, restaurantes e atividades que ocupariam a viagem. Quando oferecia ajuda ou algum palpite, ele dizia que ela deveria relaxar e sorrir. Que, se fosse a sua boa garota, iria ensiná-la a tomar vinho e comer lagosta. Enfim, era agradável não ter que se preocupar e fazer contas, melhor ainda não ter que pagá-las. E ele era um carinha gentil e até bem bonitinho. Estava sinceramente se apaixonando. Torcia para que desse certo.
Seriam quatro dias e três noites, ida e volta de classe executiva. Não estava com medo de voar, queria provar as refeições de bordo e as poltronas para dormir. Desde sempre, conseguia adormecer em qualquer lugar…
Deveria chegar ao aeroporto três horas antes do embarque. Lucio não a pegaria em casa, por precisar resolver coisas do trabalho. Ela sabia se virar, disse para o namorado. Arrumou a sua mala com muito cuidado e chamou um carro antes do necessário. Foi conversando com o motorista, contando tudo sobre a viagem e o relacionamento que começava. Ao final, retribuiu os desejos de felicidade do senhor que não guardou o nome.
Chegando ao destino, Giovana foi inundada pela luz branca. Tudo muito grande e elegante, cheio de telas e alto-falantes. Pessoas ocupadas com coisas importantes seguiam para lá e pra cá. Ela, graças à Lucio, agora também iria para algum lugar. Contou quanto tinha na carteira e resolveu tomar um café. Achou a bebida aguada demais para o preço, mas não importava. O instante naquela mesa permitiu que encenasse uma pequena peça para si mesma, a de que tinha conseguido ser o que queria.
Lá fora, as aeronaves partiam uma atrás da outra para alcançarem diferentes destinos. O talvez futuro marido logo chegaria, mas ela desejou que ele demorasse mais um pouco. Inebriada pela solitude, percebia o quanto podia ser feliz. Era só dizer sim.
VI – Começo de novo
Dezesseis mil em uma única tarde.
Ao contrário das pessoas, os números eram interessantes e fáceis de lidar. Sempre gostou deles, a ponto de torná-los o seu sustento. E a matemática também o moldou: tornou-se mais valor do que homem.
Dezesseis, antes de vinte, antes de 1 bilhão… Os dígitos infinitos, por que não? Uma dezena e seis unidades de milhar pulsando para se fundirem com outros algarismos e criarem novos valores. Reprodução que ocorria entre painéis e extratos de contas… Sempre para cima, nunca para baixo.
Terminou o expediente e foi direto para o hotel. A escolha pela impessoalidade da hospedagem era uma forma de adiar a compra de um lugar em São Paulo. Quando se mudasse definitivamente, seria em grande estilo. Área nobre, aliança no dedo. Além disso, manter o apartamento no Sul era uma forma de preservar uma parte de Dona Iracema ainda viva.
O quarto em que dormiria tinha jeito de lugar nenhum. Uma cama bonita, cortina blecaute neutra, ar condicionado. Frigobar, a vodka boiando na garrafa, uma água capaz de causar incêndios. Lucio bebeu dela sem copo. Até apagar.
Não pretendia gastar essa comissão com compras ou festas. Planejou nas últimas semanas e agora tinha tudo o que precisava. Era o jeito de encontrá-la.
–
Lucio abriu os olhos. Acordou com a cara no asfalto, o gosto de sangue na boca. Percebeu que voltou ao mesmo lugar do início, como se a fita tivesse rebobinado. Encarando o sol, questionou a própria sanidade. Quem sabe estivesse preso em uma maca, delirando com paisagens fora de ordem e uma namorada que nunca existiu. Culpa da mãe. Dona Iracema, quando explodia com ele, desfiava rosários sobre as maldições da louca que lhe roubou o filho. O transtorno que, se Lucio carregasse, acabaria com a família… Talvez a escuridão em forma de mulher também tenha caminhado em campos incompreensíveis?
Ergueu-se e tentou se aprumar. Passou a mão pelos cabelos e uma quantidade enorme de fios ficou presa entre os seus dedos. Da área próxima do queixo, caíram pequenas cascas em seu peito. Olhando para aqueles restos, lhe ressurgiu a possibilidade de que tenha morrido. Reduzido a um pedaço de carne apodrecendo, antes de conquistar tudo o que desejava… Quase era tão ou mais frustrante do que o fracasso completo.
Talvez os pagamentos para evitar o inferno não foram suficientes e Deus tenha se ressentido em não receber mais moedas. Irado, o condenou a ficar ali, suportando eternamente a estrada. Mergulhado no tédio de um caminho vazio e, ao mesmo tempo, constantemente apavorado. Homem monstro. A sua língua inchada demais para caber na boca, um louco coberto por símbolos bizarros. Não sobraria nada do seu antigo eu, soterrado pelas deformidades que se espalhariam…
Porém, perceber que a paisagem havia voltado foi uma pequena vitória. Deu-se conta de que as plantas tinham voltado maiores, mais verdes e brilhantes, saídas de alguma publicidade que ninguém compraria. Um lugar tão mentiroso quanto ele. Buscou ignorar esses detalhes para não morrer de fome. Teria algo para mastigar, melhor do que definhar e sumir. Era só aproveitar a oportunidade, no meio de tantos contratempos.
A mão tinha piorado. O membro latejava, bastante inchado, como se estivesse coberto por uma luva vermelha e estampada. Mas o que estava lhe causando ânsias de verdade era o seu pescoço. Sentia as marcas correndo nele, mas não conseguia ver. Quais eram? Eram as mesmas da mão? Se pudesse quantificá-las e analisá-las… Não tinha mais o celular, que ficou para trás na escuridão. Nem papel e caneta, nada. Lucio entendeu-se cego, balançando em uma forca invisível, trançada pelas figuras que o tomaram.
Olhou novamente para seus braços e percebeu o quanto as suas unhas estavam sujas. Imaginou Giovana com nojo das suas mãos e foi como uma agulhada em sua garganta. Consolou-se com a fantasia de visitar a brancura asséptica de um hospital. Passar por câmaras de desinfecção, tratamentos, uma bateria de cirurgias estéticas. Se fosse possível, mandaria queimar até os neurônios que guardassem todas as lembranças indesejáveis. Recomeçaria a vida cuidando somente do seu patrimônio. Sem memórias o prendendo, faria diferente. Seria menos sentimental.
Queria comprar uma saída e, ao redor, não tinha nada pelo qual pudesse pagar, entender ou escapar. Tomado pela frustração, chutou o chão e ameaçou enforcar a si próprio. Quis coçar os braços e o peito com força, até arrancar a própria pele. Que restasse somente o vermelho da carne e, depois, o branco dos ossos… Por que ele? Por que logo com ele?
A seara imóvel recusava responder às suas perguntas. O mutismo das plantas o lembrou do galpão da casa da avó. Local que evitava por medo de que, ali dentro, se escondesse alguma espécie de bandido que o sequestraria. Desaparecido para sempre. Mesmo assim, decidiu que se misturar à massa verde era o próximo passo. Quem sabe, dentro dela, a sorte lhe sorrisse. Ainda que cheia de possibilidades ameaçadoras. Murmurando para si que não era mais guri, nem medroso, ele hesitou antes de se embrenhar e, para disfarçar, começou a arrancar as folhas de uma das plantas.
Quando pequeno, a avó não o deixava sair com os colegas para caçar formigas. Sabia que os garotos guardavam-nas em potes e arrancavam as patas das maiores. Puxar os pedaços com calma, até que não sobrasse nada. O seu riso murchou quando terminou de pelar o tronco. Mal tinha tirado a última folha e todas elas já brotavam novamente.
O que aconteceria se amputasse a própria mão, ela retornaria limpa? Visualizou-se extirpando o membro adoecido. A dor excruciante, o sangue no chão. O mais difícil de tudo seria o osso, se quebrasse na articulação do pulso. Não precisaria dar os pontos, as peculiaridades do lugar dariam conta da cicatrização. Então, do toco do braço, surgiriam pequenos dedos, que virariam uma mão. Agarraria tudo com ela. Encarou a palma coberta de desenhos e passou a ter certeza que eles rastejavam na sua pele. O ursinho no dedo anelar estava acenando para ele? Esfregou os olhos com o braço limpo.
Não podia mais adiar. Escolheu um vão e penetrou na plantação. Nada o pegou. Sentir tédio com o quadro interminável e os ombros pinicando eram indicações de que ainda vivia. A luz do dia mal chegava aos seus ombros e andar ali era se espremer entre a vegetação verdejante até demais. Seguiu, pressionado pelo peso daquele batalhão imóvel sobre si, um tanto intimidador. Tirou os sapatos e as meias, em uma tentativa de compreender melhor a terra que pisava, mas não ocorreu nenhuma conexão com o solo. Estéril. De onde estava, o borrão preto ainda se destacava, como se flutuasse acima de tudo.
O percurso pode ter durado segundos ou horas, até que se deparou com uma pequena clareira. O chão fumegava, como se fogo tivesse cessado a pouco. Não havia cheiro algum, nem vestígios de cinzas. No centro daquele círculo, apenas um monte de pedras iluminadas pelo sol. Empilhadas em formato de pirâmide, de tamanhos e cores distintas. O que as unia era o fato de terem sido limpas e gravadas com uma carinha sorridente. Alguém, antes dele, passou por ali e decidiu construir um monumento tosco no meio do nada? A única coisa que sabia é que era a sua vez de sofrer, então que os passantes anteriores fossem tragados pelo esquecimento. Ajoelhou-se para desmontar a obra, até que foi surpreendido com vida.
Um sapo entre as rochas. O bicho esmagado rente ao solo, se alongando com as quatro patas bem abertas. Gordo, a pele rugosa crivada com listras esverdeadas, coroado por dois olhos sem brilho. Um pequeno rabo, falha evolutiva, pendia das costas e concluía aquela criatura. Lucio sentou e ficou encarando a presença. Achou graça da feiúra apática na sua frente; do quanto era mole e cheio de protuberâncias e marcas. Instintivamente, escondeu a mão para trás. Catou o bicho e o abrigou dentro de um dos seus sapatos. No outro, guardou algumas pedras felizes. Ficou aquele rascunho de cabeça para fora, o encarando de um jeito estúpido.
O sapo não resistiu a sua captura, não fez qualquer menção de revelar como escapar, nem de que fosse um ser mágico. Desprovido de veneno, incapaz de fornecer uma boa viagem psicodélica. Bem, aquilo respirava e tinha dois olhos. Além de Lúcio, parecia ser o único outro ser vivo condenado naquele lugar. Um colega de cela. Decidiu batizá-lo de Marcos, quem sabe o contratasse como seu novo assessor. Provável que fosse mais eficiente que o puxa saco que o rodeava até ser necessário e daí desapareceu. De que jeito um anfíbio conseguia sobreviver em um espaço sem insetos? Não era problema dele, que só queria fugir daquela loucura.
Depois da clareira, outra etapa os esperava. A partir dali, as plantas exibiam-se de forma ainda mais ameaçadora. Tinham uma tonalidade escurecida, porém, das suas nervuras pulsava uma luminosidade arroxeada. Além disso, desenvolveram-se grudadas, apontando para dentro de si. Uma neblina densa, acima da vegetação, arrematava a novidade. Lucio nunca gostou do mar. Tinha lido histórias demais sobre polvos gigantes que quebravam barcos ao meio… Naquele círculo do inferno que não percorrera, o que impediria de um monstro marinho surgir entre as plantas? Começou a voltar, caminhando sem ter coragem de se virar.
A exploração já tinha lhe dado uma companhia, algo para lhe entreter no restante do percurso. Obviamente, quando chegassem na saída, ele descartaria o bicho. Seria ridículo adotar um sapo como um animal de estimação, um ser que come moscas. Mas, naquele momento, era a única presença que poderia lhe ouvir:
— Marquinhos, não sei como acabei aqui. Posso não ser perfeito, mas outros não te salvariam né? Difícil ser bom nesse mundo, cara. Querer amar e ser amado, sabe? Se eu contasse as coisas que passei pelo meu último relacionamento, o que ela fez comigo. E é por isso que eu digo que não presta, mulher não presta. Minha vó foi a última. Guardo ela, a minha preciosidade… As rãs são decentes ? Ou também abandonam, vão embora sem olhar pra trás?
Depois de tudo que fiz por nós… Custava, o que fosse, um bilhete? Pedaço de papel, dizendo algo se despedindo… Mal agradecida… Comprei, comprei e comprei pra ela. Você é ingrato, Marquinhos? Alguma princesa já te beijou, meu camaradinha? Ou só malucas? Foi uma dessas doidas que riscou as pedras com carinhas felizes? Eu nunca cruzei com uma princesinha, só com essa diaba que me arruinou. Feiticeira, salamanca… Era difícil de entender, custava pra ela fazer o que eu dizia?
O animal, acomodado no sapato de Lucio, seguia em paz. Já o homem, tremia mais a cada palavra que vomitava. Flashs do derradeiro encontro com Giovana, da última conversa deles antes de parar ali. O que ela respondeu, o que ele fez. Ah, tão linda para aquele quarto de pensão tão barata. Saiu daquele bairro pobre, parecido demais com a sua infância, sem olhar para trás… Emudeceu, em uma tentativa de acalmar o seu peito.
Quando os dois chegaram à estrada, teve a sensação de que a rodovia tinha afinado em sua ausência. Apertou a fronte, tentando medir mentalmente a largura da mesma. Só que não lembrava mais como fazer. O Lucio de antigamente calcularia com um pé nas costas. Era outra versão, mais velha e perdida… Sem muito motivo, anunciou para o nada que tudo permanecia igual.
Também soltou o sapo, esperando que o seu companheiro começasse a saltar freneticamente. Que, assustado pelo novo ambiente, tentasse atravessar a estrada e um carro passasse em cima dele bem na hora. Sorriu com a cena dele dando um tchauzinho para a mancha esverdeada no asfalto, enquanto ia embora no veículo que atropelou o animal. Subiriam os créditos do desenho, mais uma fatia de bolo de milho… Ninguém entrou em cena e Marquinhos ficou coaxando. A língua dele teria marcas como a da criatura?
O ponto preto o aguardava, mas Lucio foi capturado pelas memórias que recuperou. Queria se livrar do rosto de Giovana o encarando, da queda dela em direção ao chão. O estampido seco… Precisava que tudo aquilo saísse da sua cabeça. Tinha um confidente perfeito, incapaz de espalhar os seus segredos.
Acomodou-se e derramou as mágoas sobre o guarda-roupa que destruiu a socos. A madeira lhe comunicando que a mulher tinha ido embora… Que não dormiu nas noites seguintes; contou também que a rastreou, as pessoas que subornou para achá-la. Embalado pelo alívio de compartilhar seu segredo, deixou escapar que ela foi castigada, que fez o que qualquer homem ferido faria… Só não foi capaz de descrever os seus atos. Engasgou, enjoado. Inerte, verde e vermelho no tapete felpudo do quarto.
A vergonha doeu em sua têmpora esquerda. O corpo fatigado, como se as lembranças desenterradas pesassem toneladas. E a partir daquele instante grudadas em sua consciência, como as imagens que foram gravadas na carne dele. O bolo desapareceu. Via-se preso no berço, gelado com o pijaminha molhado. Pedaços de pesadelos que não conseguia controlar e o desesperavam. Chamou pela avó, não houve resposta… Aos seus pés, o anfíbio mantinha a mesma expressão serena. Lucio sentiu-se humilhado pela tranquilidade do animal. Não, não invejaria um sapo. Gritou, ordenando que ele fosse embora.
O sapo não obedeceu. Ofendeu-se pela petulância daquele ser tão minúsculo. Enraivecido, foi até o seu calçado e catou algumas pedras. Primeiro, jogou uma de raspão no animal, achando que seria o suficiente para espantá-lo. Queria vê-lo fugindo, dando pulinhos para sobreviver. Fracassou. Então, Lucio pegou o maior dos pedregulhos, segurou o bicho e começou a golpeá-lo. Matou contando o número de batidas. Como nos jogos da meninice, parou quando chegou na décima terceira pancada.
O som da pedra impactando o pequeno corpo lembrou o de uma gelatina se partindo e o sangue que espirrou dele era verde. O seu cadáver sujou o chão e se espalhou, ficou quase impossível de ser identificado. Aquela rara espécie morreu sem emitir lamento. Apenas uma das pernas do animal permaneceu intacta e o seu algoz a recolheu. Restaurantes cobravam fortunas por rãs e ele estava com fome.
Seguiu, palitando os dentes com o pequeno osso.
VII – Deus dos justos
O prato escolhido pelo cliente foi steak tartare, eles pediram o mesmo. O “rei da soja” comia a refeição, mas engolia Giovana com os olhos. Sim, ela estava linda. Os brincos combinavam com o colar e o seu sorriso a fazia brilhar mais ainda. Enquanto isso, a carne crua era partida, mastigada e engolida pelo trio. Objetivos alcançados, o acordo assinado ali mesmo.
Chegaram em casa, ela foi desmanchar o penteado e trocar a roupa. Por baixo, vestia um conjunto de seda vermelho, que adornava o seu colo com flores. Desfilou até ele e o abraçou. Lucio, jogado na poltrona e bebendo um conhaque, sentiu calor. Mas ainda conservava o gelado da carne na boca, ela não precisava ter mostrado tanto os dentes… Tentou se desvencilhar, Giovana o agarrou com mais volúpia. Então a empurrou e, com raiva, disse:
— Não consegue se controlar?
–
Lucio permaneceu caminhando. Possivelmente por dias, talvez semanas. Era para ter morrido de desidratação, mas ainda estava inexplicavelmente de pé. Não conseguia sentir fome, pois as plantas o saciavam por longos períodos:
“Homem seja forte, Continua a tua batalha, Deus premia os justos, que viverão em sua glória…”
— Ou é paz? Droga, esqueci. Quanto tempo que eu tô aqui? Minha memória tá falhando, eu tô sendo apagado? Eu exijo que a internet volte! Que eu volte! Meus emails, pode ser só ouvir os meus podcasts e louvores mesmo. Daí eu não sumiria, o meu astral estaria melhor. A mensagem seria enviada, me resgatariam, eu alugaria um helicóptero para voltar… Sem dados, sem bateria, sem chances de…
Não aguento continuar andando. Queria dormir pra sempre. Mas tendo o superpoder de nunca mais sonhar. Ei, sonhos ruins são só sonhos. Nada aconteceu, não tenho a mínima ideia de como vim parar no inferno. Do que acho que fiz… Repetir isso até virar verdade. Tentar não ser tão pessimista, afinal, as folhas não voltaram para me alimentar?
Ri, Lucio, ri. Pra não chorar… Mesmo que eu não tenha sido o melhor dos caras, meus erros foram repletos de boas intenções. Só queria sobreviver. É culpado quem não mede esforços pra sair da merda? Então eu sou! Mas as minhas decisões me deram um apartamento com ar condicionado em todos os cômodos. Sem arrependimentos! Sem… E vou prosperar ainda mais! Não sei ainda como, que confusão, a estrada tá derretendo?! O primeiro pecado foi culpa dela… Por que deixou aquela lá pegar a direção do carro, pai?
O sol tá brilhando demais. O sol é Deus? Quem sabe ele me jogou aqui para me transformar em um exemplo. Sempre fui resiliente como Jó! Posso ser a nova estrela da fé? O pastor Waldecir vai falar de mim, as crianças vão aprender a minha história e brincar de Lucio por aí. Eu nasci para o extraordinário, trabalhei pra não ser esquecido. Eu vou vencer! Pago pelos meus pecados, compro o perdão, eu pago. Mereço chegar no fim.
Lucio começou a girar no mesmo lugar, levantou os braços e falou com o céu. As mãos dele tapavam o seu rosto, que ardia com queimaduras de insolação:
— É, eu tô vendo. Todos me esperando, dona Iracema com orgulho de mim. Gostou do conjunto que escolhi para a senhora, vó? Ali, a Giovana de verdade, vestida de noiva como um presente. Se guardando para mim, o único que ela quer. Tô tonto. Abrindo a boca pra me dizer sim. Lua de mel em Aspen e, na volta, um convite para me tornar CEO… A língua, por que isso tá aparecendo agora? O meu casal de filhos… Deus do céu, essa monstruosidade de novo. Como odeio essas infantilidades. Quem se comunica com isso? Não, não tem aquela criatura debaixo do véu. Não tem, sai daí desgraçada! Eu não vou chorar, não quero, homem não chora. Guriazinha! Molenga! Toma um tapa nas fuças para aprender.
Ele bateu no próprio rosto. Todo o seu corpo ondulou, menos o membro marcado. Aquela parte de si permaneceu parada, como se fosse um organismo próprio comandando um espetáculo de ventríloquo:
— Tu vai sair daqui e aproveitar o resto dos teus dias. Mulher é só gasto e incomodação. Tu te basta… Leão da selva, porra! Te basta, né? Ai, Giovana… Paixão emburrece, te joga de quatro no chão. Que nem cachorro…Se a minha mente tivesse limpa desse mal, já tinha bolado um jeito de escapar daqui. Como dizem os caras: antes de qualquer coisa, tenho que largar de mão essa vadia. Jesus não casou… Obrigado, Senhor. Mas… Giovana, por que tinha de ser tão birrenta? Olha onde tu me meteu, o que tu fez com nós dois…
Maldita, o pior é como eu te amo. Ainda te quero, mesmo nessa situação. Chega a doer tanto desejo, a tua pele lisa. Sim, eu escolhia as tuas roupas. Era pro teu bem, uma mulher tão linda não podia andar vestida de qualquer jeito. É abuso cuidar de quem se ama? Até da tua família eu me dispus a tomar conta. A tua mãe é que se afastou de nós, não parava com aquelas ideias tortas. Velha desgraçada, nunca engoli o que ela fez contigo. Péssima, negligente com a filha. Ofereci tudo o que eu tinha e o que vocês chamavam de ciúmes era cuidado. Tentava te preservar da maldade que ninguém mais notava… Eu ia ajeitando as arestas ao nosso redor.
Admito que falhei e que precisei procurar outras. Mas fazia isso por desespero, Gio. A tua mania de me humilhar, de ferir a minha masculinidade. E sim, eu não aceitava que tu tivesse outros homens. É errado querer que a mulher seja exclusivamente sua? A ciência mostra que vocês são para um único parceiro. E o dever masculino é o de espalhar a semente. É o que diz na Bíblia, Salomão teve mil esposas. Mil, todas felizes… Eu quero ser que nem Salomão.
Não reclama, nós dois juntos foi maravilhoso desde a primeira vez. Não adianta me renegar agora, no quarto a gente pegava fogo. E tu sempre foi a minha preferida, as tuas costas lindas. Os três sinais, um atrás do outro, eu amava passar meu dedo naquela constelação. Ainda amo e vou continuar passando. Ah o teu cabelo loiro, de menina bonita. Giovana, Giovana, Duda… Faz aquela trança e serei para sempre teu! Tu gostava quando eu te chamava de minha bonequinha, né?
A tua beleza é meu patrimônio, Gio. Quem diz que não trata melhor as pessoas bonitas, tá mentindo! Inclusive, lembra das vezes que te carreguei comigo nos jantares de negócios? Eu engolia o orgulho, pois o teu sorriso seria a diferença entre um “talvez” e “vou fechar contigo”. Tá, não te faz de sonsa, tu sabia que era o decote… Por isso que eu me irritava depois. Prometo que vou ser um marido melhor, a culpa não era toda tua não… Mas era tua obrigação ter paciência, esperar eu me acalmar. Custava preparar um banho pra mim sem cara de choro? Edificar o teu lar? Nem sabia fritar um ovo direito… E eu te aceitei mesmo assim. Volta, eu ainda pago a Martinha para resolver qualquer problema doméstico.
Tô te ensinando a realidade, sua boba. Eu sei porque também sou homem. A nossa raça não presta, somos difíceis mesmo. Às vezes estouramos… Aliás, pequei pela ira não faz muito. A gente trata melhor o que é mais bonito, bonequinha. Ninguém fere as borboletas. Agora, pensa, se as baratas fossem cheirosas, se aquele sapo fosse agradável de olhar… Mas não, um troço nojento. Valia nada, tava soterrado e nem se mexia. Quando eu fiz aquilo, pelo menos… Sei lá, me acalmou.
Já brincou contando até treze? Ninguém espera um número ímpar, sempre é uma ótima estratégia. Um, dois, três… E agora vou levar o ossinho dele comigo, meu novo amuleto da sorte. Que bonito, Marquinhos não morreu, virou um talismã. Dei utilidade pra um bicho que ia acabar esquecido, servia pra nada até me encontrar. Contabiliza aí Senhor, mereço esse pontinho!
Cacete, tô andando, mas pra onde? Se eu for na direção contrária dessa mancha, será que me aproximo dela? Por que não tem uma sinaleira nessa merda de estrada? Essas feridas tão se espalhando pelo meu braço e acho que no rosto também. Ó, tão inchadas e dói tocar nelas. Tô fervendo, nem tenho mais água no corpo pra suar.
O pior é perder o meu cabelo, que paguei tão caro. É, Giovana, nem todo mundo nasceu com sorte. Eu comprei o rosto que tu conheceu. Apaguei os defeitos, mandei esculpir. Abri a carteira para me tornar a minha melhor versão. Cobram caro por beleza. Argh, tua cara é que devia tá coberta de desenhos, para aprender como dói rejeição. O que tu me disse lá, eu quis te…
Lucio, a cruza de um bêbado e uma louca. O órfão da vovó. Nariz grande, meio torto. Magro demais, como é que me chamavam? Ei, Rato, tá se escondendo da gente… Vai, joga ele na lata do lixo, na lata do lixo… Eu queria acabar com cada um deles, mas só conseguia me esconder atrás dos livros. Ninguém reparava em mim, as malditas tão lindas naqueles uniformes… A minha boca murcha, calvície precoce… Duda gritando que não me beijaria nem que pagassem, amassando o meu coração e jogando ele pela janela.
Dei a volta por cima. Ah, como eu queria encontrar aqueles idiotas hoje, humilhar até que se atirassem de algum prédio. Obrigado, Deus. Obrigado, Iracema, que me ensinou o caminho das pedras. Vó, tu me achava realmente lindo? Se não fosse por ela, tava condenado a nunca deixar de ser um coitado. Tinha mais chance de me tornar um louco ou um bêbado? Eu me fiz nobre. Cara foda, escolhido de Deus.
E vou escapar daqui. Dar o meu testemunho pro mundo. Vão fazer um filme sobre a minha jornada. Óbvio que vão. Será que vou poder escolher quem vai me interpretar? Uma trajetória de milagre e sobrevivência! Eu no rosto de outro. Deus precisa de mim. Eu preciso ter servido para alguma coisa… Para inspirar as pessoas, não dá para parecer um imbecil, motivo de risada. Eu necessito de poder para cumprir a minha tarefa, Gio. Tu do meu lado. Qualquer coisa que eu fiz foi parte de um plano maior, Dele. Releva, perdoa.
Deus é homem que nem eu, compreende essas coisas. Manda um sinal, prova que somos um time.
Um vento forte soprou na direção das plantas:
— Caramba! Viu?! Eu disse, Ele me ouviu, me escolheu! Eu recebo a tua benção! É uma das coisas mais bonitas que já vi.
“Deus premia os justos, Deus premia os bons, guerreiros dos teus campos…”
–
Lucio caiu no chão de joelhos. Limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto. Na sua frente, flores vermelhas se abriram como chagas pelo campo verde. Com os braços erguidos, trocou a canção que entoava:
“Mamãe foi, papai passeia… Carro, o carro buumm… Mamãe no hospício, foi, não vai, vadia… Vovó, vovó vou me… Gio, Duda, Gio… Minha, Duda, minha… Não ri, Giovana… Tu é… Meu, só meu… O que eu fiz? Não, não fui eu…”
Uma baba escura escorreu pelos cantos da sua boca.
VIII – Silêncio
Contou na mesa, tentando puxar conversa: queria ser a primeira astronauta brasileira. A mãe e Wesley, o seu novo marido, caíram na gargalhada. O homem a olhou de cima a baixo, medindo os seios que começavam a apontar na blusa. Então, afirmou que, bonitinha como estava ficando, era melhor focar em uma carreira de modelo. Que, se ela quisesse, ele a ajudaria. Era o seu novo papai… Giovana engoliu o resto da comida em silêncio. Foi para o seu quarto improvisado, junto da máquina de lavar, e trancou a porta. Sentiu medo de dormir naquela noite.
–
O que decidiu levar consigo foi uma única mala. A vermelha de acrílico e rodinhas, a que era sua. Tinha-a cobiçado por tanto tempo. Adquiriu a tão sonhada mala quando, depois de um extra como modelo, sobrou algum dinheiro. E comemorou dando a si mesma a permissão de tomar uma garrafa de refrigerante inteira. Achava tão elegantes aquelas bagagens, fantasiou conhecer os aeroportos do mundo carregando uma coleção delas. Houve um tempo em que acreditava que seria uma revelação das passarelas, que viraria uma top model internacional. Ali, mais de meia década depois, não sobrou um pingo de esperança. Seis anos da sua vida cabendo em uma única valise.
Resolveu deixar todos os vestidos e sapatos. Não eram mais seus problemas, aquelas peças de alta costura não cabiam em seu futuro. Como a psicóloga disse: devia construir algo dela, mesmo que fosse vestindo jeans e camisetas baratas. Só queria distância. Assistir uma série, comer o que tinha vontade, sem medo da porta abrir… Dormir uma única noite com a luz apagada de novo. Conviveu com o companheiro o suficiente; sairia tentando irritá-lo o mínimo possível. Diminuir os danos. Quanto mais transtorno ela causar, mais cruel será a reação dele.
Tanto estudou Lucio que passou a entendê-lo como se fosse matéria de prova. E, para o seu próprio bem, tinha de admitir que ele nunca a amou. O que ele queria era a conquistar, ter ela até que estivesse destruída. Um brinquedo só dele, que podia quebrar se ficasse irritado. Aprendeu da pior forma o quanto ele não admitia ser contrariado. Tentava esquecer a noite da corda, mas ainda tinha as marcas nas pernas. Como se arrependia de ter rido… Torcia para que ele vendesse as suas coisas rapidamente. Ou que as aproveitasse para presentear uma próxima coitada. Assim eram maiores as chances de que a esquecesse.
As luzes brancas, claras demais. O quarto era todo coberto por espelhos, multiplicando intimidades. Encarou de volta o reflexo que a espiava. Deparou-se com olheiras ao redor dos seus olhos verdes, um corpo magro e pálido. Parecia bem mais velha do que a menina que entrou ali, fascinada com a mobília elegante e as luzes sedutoras. Agora a cama e tudo ao seu redor só lhe causavam desgosto. Dobrar as coisas era difícil com as mãos tremendo. Os pulsos marcados pelo lilás desbotado e cortes juvenis. Precisava ser rápida e evaporar antes que ele voltasse. Se ficasse, não duvidava que acabaria em um caixão de vidro, exposta na sala, do lado da bendita urna da avó.
Não conseguia deixar de sentir culpa por escolher sobreviver. Como se fosse uma aproveitadora. Sabia qual fama carregaria dali em diante, às vezes acreditava que a mereceria. Lembrou de quando se conheceram. Encarava mais uma noite como recepcionista de eventos, dessa vez na comemoração de aniversário de um banco. Outra festa cheia de empresários velhos e homens casados, com propostas indecorosas e envelopes repletos de promessas. A sua primeira impressão de Lucio foi a de que ele era mais um. Porém, aquele indivíduo não a convidou para motel ou alguma transação financeira. Muito polido, a abordou e disse que ela era a mulher mais bonita que já tinha visto. Que seria uma honra levá-la para almoçar. No dia seguinte, Giovana saboreava o bife do restaurante mais exclusivo da capital. Além do prato, o olhar apaixonado que recebeu durante todo o encontro a encantou.
Ao longo do primeiro ano, foi presenteada com um buquê de doze rosas toda a semana. Dois colares de pérolas verdadeiros, bolsas de marcas que valiam meses de trabalho. Passeios de barco, viagens para lugares que nunca tinha sonhado. A emoção de quando passou a frequentar o apartamento dele, a surpresa de ganhar um closet só seu… O luxo a conquistou, o apoio para que concorresse a Miss fisgou-a de vez. O seu segundo maior sonho, desde pequena. Ele estava lá, fazendo tudo para que ela tivesse a coroa. Era tratada como mulher de valor e não mais a menina do evento, disponível para diversão. A noite da vitória foi também quando oficializaram o noivado com um anel de diamante. Passaram a morar juntos, beijos quentes resfriados pelo ar condicionado. Nunca mais dividiria um kitnet.
A intimidade revelou, aos poucos, um Lucio diferente. As primeiras vezes que chegou tarde do trabalho; atrasos desculpados por seu noivo ser alguém muito ocupado. Comentários inocentes sobre quem sustentava os dois. Ele passando a decidir sempre a organização dos móveis, o cardápio… Se tentava participar, era advertida sobre a sua deselegância, a sua ignorância para o básico. A mão de homem apertando o seu pulso com força, seguida de súplicas de perdão e de um vestido novo. O momento em que, abraçados, ele a encarou e a acusou de traição. Insultos como estúpida, vulgar e louca em uma frequência cada vez mais incômoda. O tapa na cara, por ela ter rido de uma piada. O beliscão no rosto por causa de uma maquiagem inadequada…
Relevou no começo; dizia a si mesma que era o álcool falando, não o homem que a amava. Desejou ajudá-lo a superar o alcoolismo, comovida com o que soube da infância difícil dele. Uma crise, casais brigam. Quando se deu conta, o tempo passou e tinha cortado todos os seus laços. Deixou a agência, não falava mais com as antigas colegas, rompeu definitivamente com a mãe. Não comprava um esmalte sem o dinheiro dele. E ele passou a maltratá-la sóbrio. O tempo todo. Remoía onde errava, o que tinha feito agora? Cuidava das roupas que vestia, os movimentos que fazia, talvez fosse burra mesmo… Não, jurava que nunca o traiu. Foi sendo engolida pelo medo. Se fizesse barulho com o garfo no prato, a sua comida seria jogada longe outra vez?
Tentou convencer a si mesma de que, apesar de tudo, ainda tinham um bom relacionamento. Depois, de que não era capaz de terminar, das dificuldades de seguir sozinha. Até que aceitou: fugia ou, cedo ou tarde, acabaria morta. E, mesmo com tudo embaralhado, o seu instinto de sobrevivência sempre foi forte. Saiu da casa da mãe e resistiu. Conseguiria de novo. Amadureceu a separação aos poucos. Faltava ao salão, fazia suas próprias unhas. Comprava bolsas mais baratas, guardava o troco das compras do mercado. Não demorou para juntar uma pequena reserva. Precisaria ir para longe e arranjar um emprego. Martinha quis ajudar, indicá-la para antigos patrões de uma fazenda. Recusou, com medo de que Lucio se virasse contra a funcionária.
Era mais seguro que ninguém soubesse do seu destino. Trocaria de nome, de estilo, de vida. Vânia ou Laís? Escolheria a sua nova alcunha quando chegasse. A mãe era a sua única parente viva e mesmo assim não se despediria dela. A mágoa com a genitora era anterior. Ainda doía que ela tivesse acreditado nele, insinuando que era mentira o que o padrasto tentou fazer. Até tentou se reaproximar, mas a mulher tinha preferido o novo marido, que vivesse com aquele traste. No fim, não faria diferença.
Brigava para ficar em paz com o fato de não ter tido filhos com Lucio. Não foi pecado a decisão que tomou, o que cometeu. Ainda assim, sempre rezava pelo menino que não deixou nascer. Se tivesse levado adiante, seriam dois reféns e nem salvar a si mesma ela conseguia direito. Queria ter sido mãe num contexto de amor, tranquilidade, com um pai amoroso e pacífico. Ali, a criança só sofreria… Impediu que as lágrimas escorressem pelo seu rosto.
Terminou a mala e pegou seus documentos. A passagem escondida entre as maquiagens. Na rodoviária era mais fácil de se camuflar do que no aeroporto. Colocou um moletom, roupa que raramente usava. O rabo de cavalo escondido no boné, óculos escuros e, principalmente, sem maquiagem e jóias. Despiu-se da sua armadura de Miss. Achou-se feia e isso a deixou mais segura. Fazia tempo da última vez que andou de ônibus. Deixou o celular que ganhou dele dentro do armário do closet.
Martinha a esperava no corredor. A mulher, miúda e ágil como uma formiga, batia os pés de preocupação:
— Pronta, minha filha? Menina, que Deus te ilumine e todos os anjos te protejam. Vai dar tudo certo e manda notícias. Dá uma tristeza te ver sair fugida. Prometo que fico de bico fechado. Olha, eu ajeitei uma merendinha para a viagem…
— Martinha, minha amiga. Obrigada por tudo, tu sempre foi uma santa comigo. Mas é melhor tu não saber de nada, eu tenho medo que ele estoure em ti. A merenda eu vou levar, saudade que vou ter dessa tua comida de mãe…
— Aquele diabo… Só fiquei aqui pra te cuidar. Me subia uma raiva com o que eu via ele fazendo, covardia.
— Marta, não me arranja problema. Já tô morrendo de preocupação contigo, te deixar aqui… Com tudo…
— Sabe que eu sou velha, sei me virar. É ele tentar crescer pra cima de mim e eu peço as contas, volto pro meu barraco.
— Vamos fazer o seguinte: pega essa lista de compras. Se ele te perguntar, diz que mandei que tu fosse no mercado logo cedo. Mostra o papel, me acusa de ter brigado contigo. E é melhor que não saiba mais nada. Te prometo, vou ficar bem. Eu te adoro, Marta, obrigada de novo.
As duas se abraçaram, a funcionária engoliu as lágrimas e esperou Giovana ir embora. Tranquilamente foi fazer as compras da lista, ensaiar a reação de surpresa. O final do expediente prometia… Mas não conseguiu conter o riso, imaginou o show que o patrão daria quando descobrisse.
–
Giovana entrou no ônibus, sentou no fundo para que não pudesse ser vista. A partida do veículo a salvaria, mas não conseguia se acalmar. A bexiga cheia doía, só que não quis arriscar ir até o banheiro. Apavorou-se com Lucio aparecendo e a levando de volta, com os castigos que ele poderia lhe infligir.
Ninguém ocupou o assento ao seu lado. A partida ocorreu sem atrasos. Depois dos primeiros quilômetros, Giovana espiou a paisagem e relaxou. Pediu para o motorista parar no próximo ponto, já que precisava urinar e não tinha mais vergonha disso.
Aliviou-se em uma privada suja de um estacionamento de caminhões. Olhando para os casebres na estrada, construções coloridas e de madeira. Imaginou-se vivendo em uma casa pequena, só sua. Como iria decorá-la, qual chaveiro escolheria para não perder as chaves. Eram várias as decisões que precisaria tomar. Mas a principal delas tinha sido feita, nunca mais voltar. Olhou para o espelho e, enquanto lavava as mãos na pia barata, tentou não ser tão dura consigo. Voltou para o ônibus sem pressa e colocou seus fones quando sentou novamente. Escolheu o seu sertanejo preferido e passou o restante da viagem cantarolando.
Acabei de ler o capítulo VII e será mais um que precisarei de tempo para processar. Há um conteúdo interessante, só não sei se a forma como foi trabalhado faz sentido com o conjunto. A impressão é de trabalho em construção, mas levando em consideração que a maior parte do trecho são pensamentos de uma mente doentia, é compreensível a falta de linearidade.
Confesso que continuo incomodado com o excesso de foco no Lucio, mas isso é apenas preciosismo da minha parte. Acontece que o fato da história ser contada em 3ª pessoa, entendo haver a “necessidade” de variar esse foco. Então, do modo como o texto foi escrito até aqui você tem a escolha de abdicar o eu-onisciente da narrativa e deixar tudo nas mãos do Lucio, já que a maior parte tem sido de monólogos dele. A outra opção é fazer esse esforço para mostrar mais a perspectiva das demais personagens, assim como você começou a fazer na parte editada dos capítulos iniciais.
Não vejo nenhum problema em escolher a primeira opção, pois aparentemente você se sente mais confortável em tratar dessa questão sob a perspectiva do protagonista-antagonista da sua própria história. O questionamento que estou trazendo é mais uma questão de honestidade intelectual com o potencial leitor desse tipo de enredo, pois ou você assume que está construindo uma obra artística sem pretensão de dar o seu ponto de vista sobre o tema ou você se compromete com ele e passa a narrar todos os agentes envolvidos. Neste momento, este projeto está no meio do caminho e isso é algo que pode prejudicar o alcance que ele pode vir a ter no caso de entregar um conteúdo mais consistente.
Espero conseguir melhorar a minha contribuição quando trouxer a análise técnica. De todo modo, a experiência de leitura continua sendo positiva.
Até a próxima!
Mais uma vez fiz a leitura de dois capítulos em sequência. Talvez porque o V seja curto ou só a empolgação de saber o que viria depois. O fato é que o impacto do VI fez eu parar e vir aqui para comentar a experiência de leitura e deixar para continuar outro dia.
O capítulo V entendi ser curto por ser apenas um interlúdio. De todo modo, há também ali conteúdo suficiente para expansão. Por mais que você tenha melhorado a inserção da Giovana no enredo com as edições dos capítulos da primeira parte, ainda é uma personagem incógnita, até o momento parece ser uma “simples” vítima do machismo e da sociedade misógina em que vivemos. Entendo que o foco está no Lucio, mas eu senti que você conseguiu explorar melhor a personagem da vó dele do que da companheira. Como coadjuvante, a Iracema está bem representada até aqui e talvez eu esteja sentindo falta de algo que ainda está por vir. A minha chamada de atenção acontece pelo fato do Lucio já estar muito bem colocado, mas o enredo pede uma contraposição para não perder a força do argumento.
A simbologia que você construiu com a cena do sapo no capítulo VI é digna de congratulações. A qualidade é nítida, mas leva um tempo para absorver a mensagem que está sendo transmitida. Terei que reler e talvez faça mais sentido após ler o conjunto.
Isto é o que tenho para o momento. Até a próxima!
Acredito que terminei de ler as partes que foram editadas. Não consegui me conter e já li logo os capítulos III e IV.
Diferentes dos capítulos precedentes, acredito que ainda haja espaço para ajustes nesta seção, pois além das subdivisões que você colocou, há uma questão de tonalidade da voz narrativa que precisa ser ajustada a fim de deixar o texto mais coeso e coerente. Na análise técnica eu explicarei melhor, mas basicamente você pesou a mão pra mostrar a crueldade do Lucio logo em seguida a uma descrição que até sugere uma “justificativa” para o comportamento dele.
Entendo que este seja um trabalho complexo, quero dizer, apresentar a sutileza da linha que separa personalidade/caráter de comportamento. O uso da simbologia que você faz é uma escolha sábia para fazer esse serviço, contudo, você está percebendo que o resultado não sai da melhor forma logo de primeira.
Mais uma vez, confirmo que considero felizes as edições realizadas até o capítulo II. Já os demais ainda têm material para expansão e aperfeiçoamento. Não consigo avaliar a viabilidade disso ainda na questão de limite de palavras, mas depois de ler os novos capítulos, talvez eu consiga contribuir mais.
Até a próxima!
Reli o capítulo II e, assim como o anterior, está ainda melhor com as modificações. Agora que sei do contexto, dá pra ter uma noção melhor da mente doentia do Lucio. Os acréscimos reforçaram a visão machista dele inclusive. Parabéns pelo feito até aqui! Espero retornar em breve, abraços!
CRÍTICA APÓS LEITURA DA SEGUNDA ETAPA
Primeira coisa que preciso registrar: o capítulo se chama “Silêncio”, mas é o primeiro em que a Giovana deixa de ser silêncio e passa a ser voz. kkk
Pedi mais Giovana e você não me deu um parágrafo, me deu um capítulo inteiro de contraponto (Provavelmente já estava no seu planejamento, mas gosto de me enganar pensando que foi por conta do meu comentário anterior, ok? Não quebre a magia).
A abertura genealógica foi um acréscimo muito bom. Achei especialmente forte a frase sobre o diabo morar nos detalhes, que a Iracema repete pra si mesma como promessa. Funciona quase como epígrafe da vida inteira do neto e ela mesma não percebe que tá formando outro Reginaldo, só que bem-sucedido. Você amarrou a obsessão numérica dele com a cena da rã. Ele mata contando as pancadas e para na décima terceira (Dá-lhe Zagallo!), do jeito que fazia quando garoto brincando de formiga. A violência dele é sempre quantificada, contabilizada, como se existisse uma planilha moral em algum lugar. Gostei. Deu “consistência” ao personagem.
O capítulo IV, “Pedaços”, também merece elogio só pelo título fazer jus ao formato: vinhetas soltas, quase cacos. A notinha de jornal sobre o acidente que mata três pessoas, tratada com aquela frieza impessoal, é o tipo de risco que funciona porque você não explica a conexão com a morte dos pais dele. Fica pairando. Gostaria de saber se essa ligação é proposital ou se é eco involuntário. Funciona nos dois casos, mas fico curioso kk.
A cena da avó pegando o neto se masturbando é arriscada e você segura bem a régua: nem constrangimento gratuito, nem pudor requentado. A fala da Iracema sobre o pai “bonito que nem o Diabo” reforça de novo a tese do romance sem grifar. E o capítulo V, o Interlúdio, é um respiro bem calculado. Os flashes de felicidade fazem o trabalho de contraste que o texto precisava, intercalados entre o monólogo do purgatório e a violência doméstica explícita.
Falando nela: a cena do copo de cohnaque e do estrangulamento contra a parede é a mais crua do romance até agora. E estranhamente funciona, mesmo sem floreios, sendo quase protocolar.
Agora, a virada estrutural do capítulo VI é o momento mais forte da etapa pra mim: ele acorda de novo no mesmo lugar, como se a fita tivesse rebobinado. Isso muda o registro do livro inteiro. De repente não é mais só delírio de desidratação, é loop, é purgatório, é possibilidade de castigo circular. Isso recontextualiza tudo que veio antes e acabou criando uma pergunta ótima: quantas vezes ele já andou essa estrada?
O capítulo VII é o mais difícil de ler e acho que é proposital: o monólogo de autojustificativa é quase um manifesto de agressor, ponto por ponto, sem nenhum comentário autoral por cima. A queda final num cântico infantil que mistura trauma de infância com Giovana, com a baba escura escorrendo, é um fechamento de capítulo excelente, mas um pouquinho clichê. Acho que você trabalhou tão bem que o fato de ser um “clichê” ficou em segundo plano. Eu não alteraria nada.
E chegamos no VIII. Giovana ganha proporção, ganha voz, ganha uma infância própria e ganha uma saída que não é heroica. A decisão sobre a gravidez que ela não levou adiante é tratada com o mesmo pudor que elogiei na etapa passada: sem melodrama, sem explicação além do necessário. A despedida da Martinha tem calor humano genuíno num livro que, até aqui, quase não permitia isso. E o final dela cantarolando sertanejo no ônibus é a nota certa: não é redenção barata, é só um respiro.
Pontos de atenção que eu separei:
O monólogo do capítulo VII é poderoso, mas corre o risco de repetir em registro religioso a mesma lógica de autojustificativa do capítulo II e nas cenas domésticas. Não é que esteja errado, é que talvez precise de um corte fino pra não parecer redundante. A não ser que essa redundância, essa repetição sistemática, sejam propositais e se justifiquem como ESTILO daqui em diante.
Também fiquei pensando no contraste de registros: o capítulo do Lucio é alucinatório, mítico, quase realismo mágico. O da Giovana é seco e realista. Isso pode ser proposital. E se for, talvez valha a pena deixar essa assimetria mais explícita em algum momento, ou confiar que o leitor vai captar sozinho (o que também é válido).
APANHADO GERAL
Essa etapa faz exatamente o que uma boa revisão deveria fazer: pega a fragilidade apontada e transforma na coisa mais forte do texto. Giovana deixou de ser função e virou personagem, sem perder a Giovana-símbolo que ela também é dentro da cabeça dele. A genealogia do Lucio ficou mais rica, a costura entre os números e a violência foi uma adição excelente, e a virada do loop temporal abre um segundo andar pro livro que ainda não sei prever onde vai desembocar. E gosto de não saber kk. Por fim, eu só sugeriria calibrar a extensão de alguns monólogos autojustificativos, mas isso é ajuste fino, não problema estrutural.
Etapa forte, com sobra!
Oi, Mariana. Cá estou para passar a você minhas impressões sobre seu texto. Vou dizendo logo que reli tudo haha É que percebi (logo ao postar) que você teve a preocupação de reescrever boa parte do texto inicialmente postado, então deduzi que era necessário revisitar o romance como um todo.
Nessa releitura, entendi sua intenção em tornar não só a história como um todo mais densa, mas também deixá-la literariamente mais rica. Capricho estético é sempre uma preocupação válida e, do meu ponto de vista, funcionou muito bem na maior parte das vezes, reforçando as características do Lucio, da avó e de Giovana, tão essenciais para o desenvolvimento da trama.
Dessa parte da revisão, só não gostei do início, ou melhor da parte inicial, em que você apresenta ao leitor a história pregressa do Lucio, desde o nascimento. Tá bem escrito, claro, mas acho que isso, esse perfil que você traça do seu protagonista logo no início tira muito da força do que vem depois.
Vou tentar explicar melhor: na primeira fase do nosso desafio, você já fez o Lucio acordar no meio da estrada, no meio daquele ambiente onírico, estranho, perigoso e desconhecido. Isso, para leitores como eu, funciona que é uma beleza, pois faz a gente ficar imaginando quem é esse sujeito, por que ele está ali, o que ele faz, etc — aspectos que você veio explorando aos poucos, a conta gotas, isto é, revelando o histórico do sujeito à medida que a caminhada dele avança. Com o perfil inicial, essas dúvidas meio que se dissipam. Já sabemos de antemão quem é o cara, já não gostamos dele, já conhecemos a história dele, sabemos que ele é um cara detestável… Enfim, acho — só acho — que do jeito que estava antes, com a história de Lucio se descortinando aos poucos, enquanto ele percorre a estrada, estava melhor sob o ponto de vista literário. Mas, em todo caso, essa é só a minha opinião. Sobre esse aspecto, outros leitores poderão opinar e, no fim, você poderá tomar a decisão que achar mais adequada, mantendo ou suprimindo essa parte.
Bem, sobre o que há de novo, creio que texto tem passagens excelentes. Seguindo a premissa inicial, Lucio ainda está perdido, confuso e um tanto indignado, o que serve de gatilho para que ele recorde os episódios mais recentes da vida dele, sobretudo com Giovana. Numa dessas viagens mentais, ele se depara com um sapo e simplesmente destrói o bicho. É aqui que seu texto mais impacta o leitor, pois dá para sentir a raiva que Lucio tem dentro de si. O assassinato do sapo é uma metáfora, que pode ser entendida como a maneira como ele trata as mulheres também. Como poderia ter tratado Giovana. É gore, é nojento, mas é também assustador, quando visto por esse prisma.
Aliás, o capítulo sobe Giovana, o arco em que ficamos sabendo um pouco mais sobre ela é, para mim, o trecho mais interessante o que realmente me prendeu nesta fase da leitura. Fiquei tenso, de verdade, torcendo para ela escapar. Não conseguia parar de ler haha
Enfim, o romance está ótimo até aqui. Isso não me impede, porém, de dizer que em alguns trechos a leitura me cansou um pouco. Refiro-me às divagações de Lucio enquanto ele caminhava, que volta e meia fazem alusão ao cansaço, à sede, ao celular, ao Marcos… Talvez estejam um pouco repetitivas essas alusões. Entendo que é um fluxo de consciência, mas, ainda assim me pareceram um tantinho prolongados. Em todo caso, de novo, trata-se só da minha opinião, que você deve confrontar com a experiência de outros leitores a fim de avaliar se é o caso ou não de rever.
Tô gostando bastante da leitura. Do sotaque porto-alegrense, da maneira informal de narrar, em especial. Mas, gosto, sobretudo, do ambiente que você construiu. Da estrada, de seu mistério, da falta de explicações. É isso que me mantém interessado na história. Você tem explorado esse contexto muito bem e, confesso, estou curioso em saber como isso vai se resolver.
Até a próxima etapa!
Uma semana depois, cá estou novamente. Espero conseguir concluir em tempo de fazer a análise técnica.
As alterações no primeiro capítulo, assim como a inserção da Introdução, foram boas escolhas. Neste caso, acredito que você conseguiu dosar bem os acréscimos, concedendo ao leitor o nível exalto de informação e densidade.
Novamente o efeito é o de continuar a leitura imediatamente, então parabéns outra vez. Na verdade, agora que conheço o contexto do enredo, a narrativa ficou ainda mais interessante. Estou tendo que controlar a ânsia de continuar logo, mas o TDAH vai me ajudar e daqui a pouco estarei distraído com outra coisa rs
Até breve!
Olá, Mariana!
Acho que vou inflar o seu número de comentários rs mas é bom porque você vai ficar em destaque no site. Digo isso, pois como você fez alterações em todos os capítulos desde o início, vou ter que ler tudo e comentar novamente.
obs.: Se fosse outra pessoa ou se eu não tivesse curtido a história, eu não faria isso, pois entendo que a avaliação da parte 2 e do que vier além na sequência de capítulos. Mas polêmicas à parte, vamos à primeira experiência de leitura desta segunda etapa.
Gostei bastante da sua Introdução, tanto que fiquei tentado a continuar lendo, mas só fiz uma leitura dinâmica na sequência. Esse posicionamento metódico pode ser chato, mas eu entendo que é necessário, pois eu preciso avaliar também se a sua divisão dos capítulos está coerente, então, por isso, eu prefiro ler cada um em momentos diferentes.
Voltando à Introdução, a contextualização que você fez era necessária e você foi muito sagaz em perceber isso e ousar fazer o ajuste sacrificando o limite de palavras desta segunda etapa.
Mesmo já tendo uma ideia do seu enredo devido à leitura prévia, busquei encarar como se fosse novamente o primeiro contato e o que posso dizer é que, apesar de maravilhosamente bem redigido, a sequência de eventos é contada de forma muito célere para o tipo textual. Entendo que isso possa ter ocorrido devido ao limite de palavras, mas em uma futura revisão para a publicação em si, talvez seja interessante aumentar um pouco mais esse início, pois há conteúdo suficiente pra isso.
Bem, neste momento é isso o que tenho a dizer, parabéns pelo belo texto e por conseguir cativar o leitor logo de cara.
Até a próxima!
Reli os capítulos I até o IV, com as devidas modificações.
A maioria delas ficou muito boa, agregando bem para a história, e aumentando a imersão do leitor. Gostei de ver mais momentos do passado, com a avó. E também achei que ficaram mais interessantes as novas descrições ao longo da jornada de Lucio desse milharal.
Porém, a única parte que desgostei foi aquilo que você colocou antes do capítulo I. Achei que o texto perdeu muito o ritmo com uma parte descritiva longa a respeito da biografia do protagonista antes de dar início de fato à trama. Eu gostava mais quando as coisas começavam já com o mistério, com Lucio ali no meio do nada, sem saber onde está, e sem o leitor saber quem é ele. Agora você escreveu uma espécie de manual de instruções antes de o leitor começar a ler a trama, e isso é muito cansativo para uma abertura de história. Seria tipo um livro de fantasia que, ao invés de começar mostrando os personagens atuando na aventura, resolvesse explicar toda a mitologia daquele mundo antes de começar, de fato, a narrativa.
O início perfeito, ao meu ver, era este:
“Lucio acordou sozinho no acostamento, com o gosto de sangue e grama nas gengivas. Tendo o sol como testemunha, levantou zonzo, lutando contra o peso das pernas. Como chegou ali? Marcos? Procurou o funcionário, (tinha certeza que o deixou cuidando do seu carro). Chamou e ninguém respondeu.”
Isso chama muita a atenção do leitor, que começa já instigado na leitura. Afinal, que é Lucio? Quem é Marcos? O que está havendo? Esse é o ponto central do suspense, e a forma como você ia dosando, na sequência, gota a gota das explicações e contexto, era, para mim, o maior brilho deste texto.
Não li ainda os capítulos novos. Logo mais mergulharei neles, e farei um novo comentário para registrar minha experiência de leitura.
CRÍTICA APÓS LEITURA DA PRIMEIRA ETAPA
Mais um romance ambicioso nesse desafio. E aqui temos uma característica muito interessante: Lucio é um personagem que o leitor precisa suportar, não amar. Isso é difícil de sustentar. Muito difícil. Estou enfrentando dificuldades para elaborar meu próprio personagem na segunda etapa do desafio que terá essa mesma característica. Mas sinto que você consegue sustentar bem.
O prólogo funciona como declaração de intenções. A voz ensaística, os seres esburacados, a ânsia de possuir carregando destruição, tudo isso instala o tom sem explicar demais o que virá. A ressalva é que esse tipo de abertura cria uma promessa de profundidade filosófica que o restante do texto precisa honrar. As construções líricas estão muito bem dosadas e feitas.
O primeiro capítulo, com Lucio acordando no acostamento sem memória e tendo que se orientar num ambiente hostil e simbolicamente carregado, é uma entrada forte. Você acertou em deixar a situação sem explicação imediata. Estou feliz que nesse desafio os textos não têm sido expositivos. A paisagem matematicamente perfeita, sem insetos, sem deformidades, sem apodrecimento, é a imagem mais perturbadora e mais inteligente do texto. E a criatura com a língua coberta de mensagens, que o leitor pode ler como externação das conversas de Lucio com Giovana, é uma escolha simbólica arriscada que funciona porque o texto não a explica também.
O segundo capítulo, com o monólogo interno de Lucio divagando pela estrada, é onde o romance mais arrisca. A voz do monólogo tem uma energia caótica que combina com o estado mental do personagem, e há momentos genuinamente engraçados, como o plano de viralizar como aventureiro e reatar com Giovana, o podcast do ídolo, o lema dos leões. Você constrói um tipo reconhecível sem torná-lo caricatura, que é o equilíbrio mais difícil quando se escreve um homem assim. Pontaço!
A memória da avó Iracema é onde Lucio mais se aproxima de ser humano, e você fez bem em não romantizar esse afeto. Dona Iracema é amorosa e deformante ao mesmo tempo, passando ao neto o código que o destruirá, e o texto deixa isso visível sem precisar sublinhar. A cena do quarto, com a avó surpreendendo o neto e entregando o discurso sobre mulher direita e bisnetos, é uma das melhores da etapa por ter essa dupla função: origem do amor e origem do veneno.
O flashback de Giovana no quarto capítulo é necessário e bem colocado. Você mostrou a violência sem heroicizar (Existe esse verbo?) nem vitimizar em excesso, e a última cena, com ela no banheiro inventando a história da veia estourada e ainda assim não indo embora, é muito inteligente. A frase sobre o cara que a tratou como princesa antes de qualquer outro diz tudo sobre o mecanismo do ciclo sem precisar explicá-lo.
Ou seja, se alguém me perguntar um dia o que é um texto sem problemas de exposição, eu posso facilmente recomendar este aqui.
O ritmo do monólogo do segundo capítulo é uma quebra. Ele é longo demais para o que entrega, em minha opinião. A voz de Lucio é eficaz em doses, mas quando se estende por páginas sem variação de intensidade, começa a anestesiar o leitor em vez de irritá-lo produtivamente, entende? O personagem gira em círculos pelos mesmos territórios, o que é psicologicamente coerente com quem ele é, mas narrativamente começa a custar atenção do leitor antes que a cena da escuridão e da criatura reapareça. Talvez, como sugestão para a segunda etapa, alguns cortes estratégicos nesse capítulo deixariam tudo mais afiado.
Fico me perguntando se a criatura como elemento sobrenatural precisaroa de uma relação mais clara com o resto da narrativa. Por ora ela funciona como símbolo eficaz, mas quando reaparece na escuridão disfarçada de Giovana, o leitor não tem ancora suficiente para saber como receber aquilo. É punição? É psicose? É literalmente sobrenatural? Talvez eu queira que essas dúvidas permaneçam para sempre kkk é um trunfo.
Uma coisa que gostaria de ver mais bem elaborada na segunda etapa é a Giovana. Ela ainda é mais função do que personagem. Ela existe no texto principalmente como objeto de desejo, medo e controle de Lucio, e o flashback do quarto capítulo começa a mudar isso, mas ainda não chegou longe o suficiente. O romance claramente quer falar sobre ela além da perspectiva dele, e o último parágrafo com ela no banheiro é o começo disso. Quero ver mais!
APANHADO GERAL
É um romance que tem uma proposta corajosa e a executa com seriedade. Escrever um protagonista que o leitor precisa reconhecer sem gostar, que produz desconforto sem virar pantomima, é um dos desafios mais difíceis da ficção.
O que funciona melhor é a camada simbólica construída pela paisagem e pela criatura, que cria um segundo plano de sentido sem ser alegoria forçada. E a genealogia do Lucio, com Iracema transmitindo o código que deforma, é o elemento mais rico do romance e o que tem mais futuro.
O que vai precisar de atenção na segunda etapa, como sugestão minha, é a proporção. O romance por enquanto vive muito dentro de Lucio, que já é sufocante por natureza. Giovana precisa de espaço e voz próprios para que o texto alcance a complexidade que promete. A violência doméstica narrada com inteligência exige que a pessoa que sofre seja tão presente quanto quem viola.
Parabéns pelo fôlego e pela seriedade da proposta.
Leitura agradabilíssima!
Mariana, fez uma história que pede continuação. Há muitas perguntas e pontos que despertam a curiosidade do leitor. Lúcio apresenta uma profundidade abusiva que permite permear todo o romance. Giovana tem bastante potencial de crescer e ser mais explorada nos próximos capítulos. Fundamental será saber o como o sobrenatural vai se comportar. Terá um caráter mais denotativo ou conotativo? Boa dúvida.
É um texto bem trabalhado, com o horror psicológico e o fantástico estruturalmente presentes. Parabéns!
O que mais me chamou atenção nesse texto foi a forma como se constrói o horror psicológico junto da crítica social. O Lucio não é só um personagem perdido numa estrada, ele parece perdido dentro da própria obsessão por poder, dinheiro e controle. Conforme a narrativa avança, o ambiente vai ficando cada vez mais estranho e sufocante, mas o mais assustador acaba sendo a mente dele.
Gostei muito da maneira como o horror corporal aparece ligado à culpa e ao desejo. A criatura não parece existir apenas como um monstro físico, ela funciona quase como uma manifestação de tudo o que ele tenta esconder: misoginia, vaidade, violência e medo de perder o controle. Isso deixa o texto bem mais interessante do que um terror comum.
Também achei forte a relação dele com a avó. Dá pra perceber como muitas ideias tóxicas sobre masculinidade, poder e mulheres foram sendo construídas desde a infância. Isso torna o personagem mais humano, mesmo sendo alguém difícil de gostar.
A atmosfera me lembrou um pouco obras de horror psicológico e surrealista, principalmente pela sensação constante de deslocamento e paranoia. O cenário vazio, repetitivo e quase artificial cria uma angústia muito boa de ler. Tem momentos em que parece até um pesadelo febril.
E achei muito bem escrito o contraste entre a grandiosidade que ele cria sobre si mesmo e a fragilidade real dele diante daquele lugar. Quanto mais ele tenta parecer um “leão”, mais pequeno e desesperado fica.
Um começo de romance enigmático, que não entrega muito do que virá.
Temos Lucio, que parece estar em um pesadelo, ou em algum círculo do inferno, ou vivendo uma alucinação. Ele está em um cenário árido e artificial, sem conseguir visualizar saída. Enquanto anda, pensa e repensa sua vida. Ele é um red pill, legendário, materialista e misógino, que vive um relacionamento abusivo com Giovana. O início da história sugere que ele a matou.
Nesse cenário ele se depara com uma monstra, que parece uma representação simbólica de sua relação com o feminino.
Corta para Giovana, uma cena rápida que mostra as agressões verbais e físicas que ela sofre nas mãos de Lucio.
Mas, sobre o que será a história? O prólogo diz que é sobre alguém que quis demais.
Eu diria que, neste ponto, a história tem cara de conto. De um conto de terror. Mas não dá para saber. Este começo diz muita coisa, mas não aponta para nenhuma direção, o que só aumenta a curiosidade do leitor.
Uma coisa que me chamou a atenção. Lucio é absolutamente ruim. Ele é machista, misógino, abusivo, materialista, arrogante, egocêntrico, se acha a última coca-cola do deserto. O sujeito fácil de odiar. Mas que corre o risco de ficar estereotipado, plano. A avó também é a típica megera. Porém, é o começo. Como eu disse, não dá para saber para onde a história irá e o que mais vamos saber sobre os personagens.
Até aqui, eu estou curiosa.
Dentre as várias dicas de escrita atribuídas a Hemingway, apócrifas ou não, uma se destaca: sempre comece o texto com uma frase verdadeira.
Aqui a gente vê essa máxima aplicada em plenitude, já que nos seis seis parágrafos iniciais há uma espécie de desabafo contundente e que, é provável, servem como preparação para a história em si.
Logo primeiro capítulo aparece o Lúcio, uma espécie de macho-inseguro-aspirante-a-redpill-sobrevivente-dos-legendários. Está desorientado, perdido em uma paisagem um tanto onírica. Quer regressar a seu mundo, mas nada ali se comporta de maneira trivial. A todo tempo ele se lembra de Giovana, sua mulher, a quem talvez tenha agredido ou coisa pior. Uma outra mulher, ou um ser que se parece com uma mulher, surge à beira da estrada e o deixa desconfortável, marcado até, por conta de uma língua enorme que o aterroriza, até desaparecer.
No segundo capítulo, a desorientação se mantém, com o fluxo de pensamento que toma conta de Lúcio. Ele se lembra da avó, do pensamento conservador que herdou dela, critica Giovana por ela não se encaixar no papel destinado às mulheres. Critica Marcos também, que parece ser um assessor ou algo do tipo. Lucio está, enfim, carente do controle a que sempre teve. Quer chegar ao ponto preto. Recuperar-se. Por isso entrega-se ao sono.
No terceiro capítulo a noite chega. E com ela vem a revelação das fragilidades de Lúcio, o medo do escuro. A bateria do celular que se esvai serve como contagem regressiva do terror. Giovana aparece, mas não é ela. É o monstro-mulher com sua língua terrível.
No quarto capítulo a avó Iracema ganha mais cores. É aí que percebemos a influência dela, reacionária (ou realista, para quem preferir), anti-feminista, na educação do neto, como ela ajuda a moldar na cabeça dele, ainda menino, a necessidade de dominar. Quer, enfim, transformar o neto em um cidadão de bem.
O capítulo derradeiro dessa parte dá vida à Giovana, vítima de um relacionamento abusivo e tóxico, do qual ela não consegue se livrar. Ora se culpa, ora tenta se convencer de que precisa dar o fora, mas como acontece normalmente, é difícil levar a cabo qualquer ruptura.
Pois bem.
A prosa em todo o texto é seca. As frases curtas ajudam a criar o clima de desorientação, típico de quem está perdido e avalia a todo momento as chances que tem, os detalhes do terreno, enfim, aquilo que o cerca, tudo em busca de controle. E Lucio, como autêntico representante do universo da pílula vermelha, um self-made-man acostumado a ser obedecido por conta do patrimônio que possui, não admite a humilhação de ver-se fora do protagonismo, mesmo numa realidade etérea e incompreensível.
Vejo que a ambientação cede por vezes espaço à introspecção. Não do tipo contemplativo ou lento, mas da espécie que desafia, que é atirada com a velocidade de uma metralhadora. Isso ajuda a dar força à narração, já que Lucio está, de fato, prisioneiro de um acerto de contas.
De fato, ao menos nessa primeira parte, há uma forte crítica ao ambiente que a machosfera tenta resgatar, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo. Pessoalmente, concordo com todas os apontamentos, com a necessidade de fazer Lucio despertar – ele e tantos outros homens que se mantêm voluntariamente cegos e que buscam resgatar em os dias em que exerciam o poder sem questionamentos – mas é preciso cuidado para não transformar esse contexto em algo panfletário ou repetitivo, assumindo que se trata de um romance que se desdobrará por mais três etapas.
O trecho final, em que Giovana aparece, não me pareceu à altura dos demais. Talvez pela falta do ambiente onírico, talvez pela falta da confusão mental. É um tanto frio, teatral, com diálogos esquemáticos. Não curti muito essa parte. Talvez fosse o caso de reescrevê-la pelas lentes de Lúcio, já que é por intermédio dele que a trama se desenvolve. A opção pelo olhar da Giovana quebrou isso, funcionando como um apêndice estranho. A não ser que esteja se inaugurando aí uma trama paralela, com foco nela, do ponto de vista dela. A conferir.
O texto, ao menos do jeito que está, parece prestes a terminar, assemelhando-se a um conto. Isso não é de maneira nenhuma ruim, mas estou um tanto receoso por saber como você, Mariana, irá prolongar esse purgatório dos personagens.
Há muito de Simone de Beauvoir nas linhas e eu espero que você consiga desdobrar esse tema tão necessário numa narrativa igualmente instigante.
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Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pela Autora.
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Esta análise técnica do texto “Parte 1”, de Mariana Carolo, fundamenta-se nas premissas literárias, filosóficas e psicológicas estabelecidas pelas fontes selecionadas, como Harold Bloom, Stephen King, Jean-Paul Sartre, Albert Camus e C.G. Jung. 1. Resumo e Ambientação
O texto introduz Lucio, um homem que desperta desorientado em um “deserto verde”. Ele é um personagem moldado pela “adrenalina urbana” e pelo acúmulo de bens, um “predador da selva de cimento” que vê a paisagem rural com desprezo: “pasto não é dinheiro”. A narrativa alterna entre sua tentativa de sobrevivência nesse cenário matemático e limpo — onde a ausência de insetos e a simetria das plantas sugerem uma realidade absurda — e flashbacks que revelam sua natureza violenta e abusiva no relacionamento com Giovana. O encontro com uma criatura grotesca, que marca sua mão com mensagens indecifráveis, sinaliza uma descida a um inferno pessoal e metafísico. 2. Conexão com o Leitor e Valores Universais
O texto estabelece uma conexão imediata através de uma verdade universal expressa logo na abertura: “Somos seres esburacados. Sedentos”. Esta metáfora da incompletude humana ressoa com a busca de sentido discutida por Camus, onde o homem tenta “unificar” e “reduzir o mundo ao humano” para aplacar sua nostalgia.
A conexão ocorre também pelo reconhecimento da Sombra, termo de Jung para o lado escuro da nossa natureza. Lucio não é um herói, mas um espelho de patologias contemporâneas: o consumismo como substituto do afeto e a possessividade que gera destruição. O leitor é levado a confrontar o “divórcio entre o homem e sua vida”, o sentimento de absurdo que surge quando os cenários habituais desmoronam. 3. Aspectos Psicológicos e Filosóficos
Do ponto de vista filosófico, Lucio vive o que Sartre chama de má-fé, escondendo de si mesmo sua “liberdade total” através de desculpas deterministas ou do foco exclusivo no ente (o objeto, o dinheiro) em vez do ser. A situação de Lucio exemplifica o “sentimento da absurdidade”: ele é um “estrangeiro” em um universo subitamente privado de ilusões.
Psicologicamente, o texto explora a dissociação de personalidade. Lucio é o “neurótico cuja mão direita não sabe o que faz a sua mão esquerda”. Ele se vê como um homem de valor, seguindo os preceitos de sua avó Iracema sobre imagem e sucesso, enquanto sua realidade factual é de um agressor doméstico:
O surgimento da criatura fêmea pode ser interpretado como o encontro traumático com o Self ou com a Anima negativa, que surge para cobrar a conta de uma vida unilateral e voltada apenas para o exterior. 4. Aspectos Técnico-Literários
5. Afinidades com Obras Clássicas
6. Qualidades e Defeitos
Qualidades: O texto possui uma originalidade factícia forte. A autora consegue criar um clima de “insólito” (uncanny) ao transformar elementos familiares, como um celular ou um vestido verde, em fontes de angústia. A prosa é visceral e honesta na representação da violência, evitando a “idealização perigosa”.
Defeitos: Há o risco de o texto se tornar um “romance de tese”, o que Camus considera “odioso” por se inspirar em um pensamento satisfeito que tenta provar uma verdade. Lucio corre o risco de ser uma caricatura da masculinidade tóxica se não houver, nas partes seguintes, uma exploração mais profunda de suas contradições humanas, como a “trágica ambiguidade” que torna personagens como Macbeth interessantes. O excesso de adjetivos em certas descrições da criatura (“repulsiva, nojenta”) pode ferir a regra da parcimônia verbal defendida por Stephen King.
Conclusão: “Parte 1” é um início promissor que utiliza bem a teatralidade e o diálogo para expor a vacuidade do protagonista. A obra se sustenta ao não oferecer “paz envenenada” ou “renúncias mortais” ao leitor, mantendo a tensão entre a lucidez e o horror
Olá mais uma vez,
Conforme prometido, trago agora o resultado da minha análise detalhada. O discurso está em terceira pessoa porque assim fica mais organizado na minha mente. Espero que seja útil.
Aqui há um projeto forte, com boas imagens e uma protagonista ausente que pode vir a ser central (antes da sua resposta ao meu último comentário, eu já imaginava a questão da avó como base e a companheira como um desdobramento posterior, eu apontei mais no sentido de dizer que isso já se faria necessário nos próximos capítulos e não acabar deixando isso muito mais pra frente). O problema maior é que ainda não houve equilíbrio de três coisas: horror alegórico, thriller psicológico e estudo de relação abusiva.
A narrativa tem uma premissa potente: Lucio acorda em um lugar impossível, cercado por uma plantação artificial, sem sinal, sem memória clara, carregando vestígios de violência contra Giovana. O ambiente parece funcionar como punição, purgatório ou materialização do próprio horror interno dele. Isso é bom.
O grande acerto está em fazer o horror externo refletir a podridão moral do personagem. A criatura, a língua marcada por mensagens, a mão contaminada, a paisagem sem insetos, a plantação matematicamente limpa, o ponto preto inalcançável: tudo isso cria uma lógica de pesadelo interessante.
O problema é que o texto revela muito cedo que Lucio é um homem repulsivo. Ele já entra em cena misógino, classista, arrogante, violento, ressentido, obcecado por posse, dinheiro, status e controle. Isso gera nojo, mas reduz a complexidade. Em vez de o leitor ir descobrindo a monstruosidade dele, o texto praticamente anuncia: “este homem é horrível”. Para horror psicológico, isso enfraquece a progressão.
Seção I — a melhor abertura, mas com excesso de tese
A seção I tem força. O acordar no acostamento, o sangue, a grama, o celular sem sinal, o chumaço de cabelo, a estrada vazia e a plantação antinatural criam uma abertura eficiente. Há mistério, atmosfera e uma promessa clara: algo aconteceu com Giovana, Lucio não lembra ou finge não lembrar, e o lugar onde ele está não obedece às regras comuns.
O final da seção, com a criatura, é realmente o ponto alto em termos de asco. A imagem da língua marcada por mensagens e o toque na mão de Lucio funcionam como punição simbólica: aquilo que ele disse, escreveu, fez ou tentou esconder volta para o corpo dele.
A fragilidade está no prólogo e em alguns trechos explicativos. A abertura com “somos seres esburacados”, “comprar é mais fácil do que amar”, “a história a seguir é sobre alguém que quis demais” já entrega a chave moral da obra antes de a cena começar. Isso pode soar elegante, mas também didático. A narrativa ficaria mais forte se confiasse mais na cena e menos na formulação filosófica.
Seção II — o experimento funciona
A seção II, em monólogo interno, é ousada e funciona melhor do que eu esperaria. A voz de Lucio aparece com clareza: paranoica, vulgar, narcisista, religiosa por conveniência, misógina, classista, infantilizada pela avó e obcecada por aparência.
É uma boa seção porque aprofunda o personagem sem sair da situação de sobrevivência. A mão marcada, a fome, a sede, a lembrança da avó, a fantasia dos filhos, a obsessão com Giovana e com a própria imagem vão se misturando. Aqui a autora consegue transformar pensamento em ação psicológica.
O risco é a saturação. Ficar muito tempo dentro da cabeça de um agressor exige muito controle. O leitor entende a perversidade dele, mas pode se cansar se não houver contraste. Ainda assim, entre as quatro seções, essa talvez seja a mais bem-sucedida formalmente.
Seção III — aqui o texto perde precisão
O problema da seção III não é exatamente “falha de redação”; é perda de função dramática.
A noite chega, a plantação desaparece, o celular vira fonte de luz, há contagem regressiva da bateria, Lucio vê uma falsa Giovana e depois percebe que é a criatura. Em termos de thriller, a cena é compreensível. O problema é que ela parece mais convencional do que o restante. A narrativa sai do horror simbólico e entra em perseguição/ataque.
Além disso, a aparição de Giovana como isca sexual é delicada. O texto quer mostrar que Lucio só consegue enxergá-la como corpo, posse e objeto de dominação. Isso faz sentido. Mas, como Giovana ainda não foi desenvolvida por si mesma, a cena corre o risco de reduzi-la à fantasia nojenta dele. O leitor sente repulsa por Lucio, sim, mas ainda não conhece Giovana o bastante para que a violência tenha densidade humana.
Seção IV — boa intenção, execução desequilibrada
A seção IV melhora em clareza, mas confirma o problema: Giovana entra tarde e quase sempre como vítima.
A cena da avó é importante porque mostra a origem da educação moral de Lucio: dinheiro, linhagem, controle feminino, desprezo pela mãe, masculinidade deformada, medo de ser destruído por uma mulher. Isso dá contexto sem absolver o personagem.
Mas o discurso de Iracema é muito explicativo. Ela verbaliza quase toda a tese do romance. Funciona como origem psicológica, mas falta ambiguidade. Seria mais forte se a violência simbólica dela aparecesse em gestos, hábitos, pequenas humilhações e afetos contraditórios, não apenas em discurso.
A cena de Giovana é forte e incômoda. O controle da TV, da luz, do sofá, do corpo e do sono mostra bem a dinâmica abusiva. O detalhe dela repetir para si que o sangue talvez fosse uma veia que estourou “sem querer” é muito bom, porque mostra a autossabotagem psíquica da vítima. Mas ainda é pouco. Para uma narrativa sobre relação abusiva, Giovana precisa existir mais fora da violência de Lucio.
Resumindo: O texto funciona muito bem quando transforma Lucio em horror. Funciona menos quando precisa transformar Giovana em personagem.
Essa é a crítica mais importante.
Se Giovana for apenas o corpo que ele deseja, humilha, agride, persegue e fantasia, a narrativa corre o risco de ficar centrada demais no agressor. Para o tema ter peso, ela precisa ter vontade, contradição, história, inteligência, rede afetiva, medo, cálculo, vergonha, dependência e desejo de saída. Não basta ela sofrer; ela precisa existir.
No fim das contas, estou falando de ajuste do pacto narrativo. O texto está bem escrito e tem grande potencial, só precisa tomar cuidado para não ficar caricatural.
Até a próxima, abraço!
Obra: [Parte 1] | Autor(a): [Mariana Carolo]
Fase de Leitura: [Ex: Capítulos I – IV]
Data: 12/05/2026
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
“XY – Parte um” é trecho inicial de um terror psicológico, que abordará o relacionamento violento de Lúcio e Giovana. Ele começa a partir dasa digressões psicológicas na mente pertubada do antagonista.
É um trecho que solidifica o estilo da Mariana Carolo quando vemos alguns contos dela: A Santa no Altar, Respingos do Negro Desespero, Os Dentes Doem se Você Não Dorme.
É um trecho que carece de alguns refinamentos mas que, quando lapidado, conhecendo o talento da autora, terá tudo para ser um romance contundente. Se um dia vier a ser publicado (e tomara que seja), tem tudo para ter um lugar especial na minha estante.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
A composição de Lúcio me incomodou. Sei que vou caminhar por um trajeto espinhoso (que alguns até consideram ofensivo) que é questionar quem escreve porque seguir um caminho Y e não X. Mas não me leve a mal, Mariana, é só uma impressão que me sinto obrigado a compartilhar.
Ao meu ver, Lúcio está extremamente caricato/estereotipado. Logo de início, vemos que ele é mal: abusa de drogas e álcool, é um retrato de um homem neoliberal e patrimonialista, misógino e por aí vai. Desde o início, percebemos também que, pelo menos, um dos conflitos que o antagonista possui é uma relação tóxica e violenta com sua parceira, a Giovana.
Bom, dito tudo isso, eu penso que a composição do Lúcio está de acordo com o terror desse livro (um homem terrível assombrado por algo terrível), mas de alguma maneira, não bate com o quadro geral social dos homens violentos. Ou, melhor dizendo, embora o Lúcio seja um grande exemplo de homem tóxico e violento, não acho que ele seja o melhor exemplo para antagonizar o perfil porque ele é fora da curva. Talvez, a melhor composição deste personagem fosse um perfil de um homem comum. Por exemplo, nem todo homem machista é endinheirado e poderoso e pisa naqueles que consideram inferiores. Na realidade, alguns são considerados muito dóceis e amigáveis, mascarando completamente perante a sociedade sua misoginia. Creio que no momento que você retrata Lúcio como um homem misógino médio, você torna a problemática apresentada mais fidedigna com a realidade que vivemos, além de tornar o terror mais assustador de fato (porque, até o momento, estou pensando que Lúcio merece).
Por fim, também acho que essa “revelação misógina de Lúcio” está muito cedo dentro da narrativa. Talvez fosse melhor mascarar alguns traços para que o leitor pense “por que ele está passando por isso?” ao invés de “ele merece isso!”.
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Mariana, dos poucos contos seus que li, consegui perceber nesse trecho inicial alguns traços que gosto: uma predileção por histórias mais sociais/políticas, utilizando-se do terror para enquadrá-las, uma escrita arrojada, dura e sem muito floreios (e ainda assim poética), uma ambientação gaúcha.
É interessante (neste caso, até me deu um sorriso no rosto) perceber como alguns dos seus contos desembocaram nesse romance.
Confesso que ser jogado, de cara, dentro do universo surrealista e pertubado do antagonista me incomodou. Isso é positivo, contudo, em alguns momentos, foi um incômodo mais para o lado do “será que eu quero terminar de ler isso?” do que para o lado “preciso compreender melhor o que está acontecendo”. Felizmente, ao inserir uma memória do personagem com a avó e com a Giovana trouxe um pouco mais de terra firme para eu me prender à narrativa,
Penso ser importante trazer um equilíbrio melhor. E repensar um pouco a composição do Lúcio, como destrinchei anteriormente.
É um trecho que desperta muitos sentimentos no leitor. Incomoda, causa estranheza, asco e, de certa forma, até um prazer em perceber o antagonista sofrendo logo de cara. É uma narrativa bem escrita, do ponto de vista técnico.
Por um outro lado, mais subjetivamente, em alguns momentos, especialmente no início, a falta de uma narrativa mais pé no chão me incomodou. Não compreender para onde a narrativa estava indo. Ou, Lúcio. Enfim, tenho uma enorme dificuldade de acompanhar e desfrutar de narrativas assim. Talvez seja algo a se retrabalhar (ou não).
Esse trecho merece atenção nas próximas etapas. Tem muito potencial para ser um ótimo romance.
Terminei de ler essa parte inicial do seu romance. Agora tenho vários apontamentos para fazer, de alguns pontos que desgostei. Porém, quero que você saiba que, como um todo, essa primeira parte me agradou bastante.
Acho que o Lucius deu uma enfraquecida como personagem. Se por um lado, no Capítulo 1, ele estava bastante convincente e interessante, agora ele parece que deu uma saturada. Isso porque a todo momento você apenas fica tentando dizer ao leitor “Ei gente! Olha isso. Olha como meu protagonista é escroto! Ele é um verdadeiro cuzão!”. E isso é mostrado de tantas formas diferentes ao leitor, que fica parecendo que ele não tem nuances. Não tem camadas. A única camada que ele possui é a de “macho escroto”. No capítulo 1 você ainda tentava mostrá-lo como uma pessoa, como uma vítima de um problema misterioso. Mas depois foi usado todos os artifícios possíveis para tentar tirar essa visão humana dele, e deixá-lo apenas como o escrotão, perdendo assim conexão com o público, e transformando-o num personagem raso. O capítulo 2, por exemplo, não acrescenta muita coisa para o desenvolvimento da trama… apenas mostra, na primeira pessoa, o quão escroto são os pensamentos dele. Aí o Capítulo 3 volta a ficar interessante, pois foca no mistério e no terror! Então no Capítulo 4 volta a focar no quão escrotão ele é, com a justificativa barata de “Mas veja bem, ele é criadão com a vó! Foi a avó dele que o educou para ser um merda!”, e terminando com um flashback que me pareceu forçar a barra (mais adiante vou comentar mais sobre isso).
Acho complicado trabalhar com um personagem assim como protagonista. Não porque ele é cuzão. Mas porque se você fizer ele parecer um ser humano, vivo, com camadas, e interessante, você corre o risco de o público gostar dele. Então, a solução que você encontrou, parece ter sido fazê-lo raso como um pires, porque o seu propósito era fazer com que o leitor o odiasse, e no final pensasse “Sofre desgraçado, sofre!! Seja devorado por esse bicho!”. Mas essa satisfação não me veio à cabeça, porque a narração me pareceu manipulada para que eu pensasse dessa forma. Eu gostaria que Lucius fosse um personagem completo, com lado bom e lado ruim, como qualquer pessoa, mostrando que ele também pode ter qualidades admiráveis, apesar de os defeitos se sobressaírem. Vamos pegar um exemplo famoso de personagem cuzão e que é muito bem desenvolvido, a ponto de algumas pessoas amarem: o Capitão Pátria. Ele é o símbolo do macho escroto. E mesmo assim, algumas pessoas o amam. É porque ele tem camadas. E é legal o público ter a escolha de amar ou odiar o seu personagem, e você não ficar impondo isso o tempo inteiro. A não ser que… oh não… o comentário do Martim foi o que mais causou horror e repulsa, só de pensar… a não ser que esta obra seja panfletária, cujo objetivo ideológico é maior do que o simples entretenimento, com a mensagem grifada com marca texto, como seu o leitor fosse burro e não conseguisse chegar a essa conclusão, dizendo “O protagonista é um homem branco sis, rico, e portanto é escroto!”. Esse tipo de discurso para mim é tão pobre, tão desprezível… no entanto, torço para que o Martim esteja enganado, e que a obra não caminhe por essa trilha.
E aliás, não há nada de errado em fazer uma crítica social em sua obra. Mas é necessário ter bastante sutileza, senão fica parecendo algo lacrador, tanto se for de esquerda, quanto se for de direita. Ficar jogando as coisas na cara do leitor o tempo inteiro não me parece o melhor caminho, caso essa seja a intenção. O Thiago Amaral, do Entre Contos, adora fazer críticas sociais contra machistas e red pills, e faz isso em todos os contos dele. E fica até que interessante, pois ele não deixa a crítica dominar a obra, e deixa ela ali, oculta, nas entrelinhas. Isso torna uma crítica mais forte.
No entanto, existe a possibilidade B, que seria: o Martim está errado, e esta obra não possui viés político forte. Você, como escritora, quer apenas criar um personagem detestável, para que o público o odeie, e sinta prazer com o sofrimento dele. Ele pode estar numa espécie de… sei lá… limbo! E aqui ele está pagando por seus pecados, e no final ele vai ter alguma redenção (ou não). Esse caminho me parece mais nobre. Mas se for o caso, ainda faltam as nuances do protagonista, por mais que corra o risco e parte dos leitores gostarem dele. Talvez, com um desenvolvimento mais profundo do protagonista, mostrando suas camadas, o leitor até torcesse por ele… como acontecesse no filme do Coringa. E não há nada de errado nisso. Às vezes queremos torcer por um cuzão filho da puta, porque ele é tão bem desenvolvido que nos conquista mesmo sendo mal, gerando identificação do público.
No capítulo 4, você pareceu forçar a barra. Para mim, a cena de “marido opressor” não funcionou, porque faltou sutileza. Falas como: “Responde, quem é o teu macho?”, me tiraram um pouco da obra. Afinal, que tipo de homem utiliza o termo “macho”? Eu só vejo feministas falando dessa forma (opa! pera… não estou dizendo que você, autora, fala isso… estou criticando apenas a obra, e não você). Acredito que, um homem cuzão de verdade, diria “Responde, quem é o teu homem?”. Uma mudança muito sutil, mas que torna o comportamento tóxico mais convincente. Ou até mesmo um “Responde, quem é o teu mestre?”, caso você queira dar um toque mais “Neil Gaiman”.
E por falar em Neil Gaiman, ele seria um ótimo exemplo de como um ser humano imundo pode ser carismático, cheio de camadas, e até mesmo adorado por muitos. Na vida real, ele parece ser tudo o que você quer que o Lucius seja: um escrotão. Mas ele tem seu lado bom, tem qualidades, e em suas entrevistas até consegue conquistar seus fãs. Mas uma parte dentro dele é maligna, e ele comete abusos sexuais, trai sua mulher e faz com que sua funcionária coma merda (literalmente). Isso é interessante, porque mostra altos e baixos em uma mesma pessoa. Ela tem muitas qualidades boas, mas às vezes, um único comportamento abominável torna-a no mesmo instante um escroto, sobressaindo todas as outras qualidades dela. Imagine um personagem que é carismático, simpático, bem humorado, rico, cheio de lábia… mas ele estuprou a secretária, pois é desses homens que não aceita um “não” como resposta. Acho que isso seria bem mais impactante, pois aí você mostra a camada do “bom moço”, a camada do “homem qualificado, cheio de habilidades”, e a camada do “macho escroto” que vai acabar prevalecendo, pois é impossível de se passar pano para um estupro. Essas diversas camadas faria com que o público tivesse ainda mais asco do protagonista… porque ele pareceria ser bom, mas tem esse segredo aí que faz com que tudo desmorone. O próprio mundo do leitor desmoronaria ao descobrir isso, pois ele pensaria “Como eu estava gostando de um merda desses? Espero que ele morra logo!”. Porém, do jeito que está, mostrando apenas coisas ruins do Lucius, e desde a primeira linha até a última você ficar tentando dizer pro leitor que ele é escrotão, a sensação que causa do monstro atacando ele é indiferente. Não há impacto.
Outra coisa que poderia ser interessante para desenvolver essas nuances na personalidade de Lucius, seria você colocar ali no limbo outro sobrevivente humano. Uma interação com outro personagem masculino poderia mostrar mais facetas do protagonista. De repente, por um minuto, o leitor pode realmente pensar que ele é gente boa, pois ele tem lábia, tem carisma. Mas então, de repente a situação aperta… o monstro surge! Os dois começam a correr. O outro homem corre mais rápido que Lúcius… mas se Lúcius ficar para trás, ele vai ser devorado. Então Lúcius agarra o homem pelo braço, jogando-o no chão, e deixando ele como sacrifício ali para o monstro devorar, e assim poder salvar sua própria pele. Isso sim seria muito interessante, e não precisaria você ficar afirmando que o Lucius é um cuzão, pois o protagonista estaria VENDO isso. Mostrar é bem mais forte do que falar.
Enfim, espero que você entenda o que estou tentando dizer. Acho que acabei sendo um pouco longo em meu comentário, e me expressei de forma um tanto confusa. Como ficou grande demais, nem sequer revisei esse meu comentário… mas espero que tenha sido útil. Espero realmente que o Martim esteja errado. E estou muito ansioso para ver a próxima parte deste romance, pois, apesar dos deslizes que eu citei, eu ainda possuo genuíno interesse por essa obra. E a propósito, os capítulos que eu mais amei foram o 1 e o 3. Porque neles o foco é o mistério, o suspense, o terror. Se a história focasse mais nesse mundo louco, mostrando uma luta por sobrevivência, e parasse de ficar tachando o protagonista como “macho escroto” o tempo inteiro, as coisas se tornariam bem mais interessantes. Espero que siga por esse caminho daqui em diante.
Boa sorte! Espero ser surpreendido no próximo capítulo!
Olá, Mariana,
Vim aqui dar uma olhada no seu romance…
A premissa é muito eficiente. O sujeito que acorda sem saber onde está, em uma situação repleta de elementos inusitados, já garante que o romance sustente o interesse por muitas páginas. Há, claro, o risco de que a explicação posterior seja forçada (sobre algum outro romance do desafio li que alguém apontou um risco de acabar como Lost). Não acho que isso vá acontecer com seu romance, pois o elemento mais bizarro até agora – o monstro – já apresenta características que, embora inexplicáveis, mantém uma relação de continuidade com as questões psicológicas do protagonista. Como ele é misógino, seu monstro é uma espécie de corporificação da sua fobia. Quero dizer, com isso, que o meu receio é maior em relação a uma possível explicação racional para a presença do monstro do que a uma falta de explicação. Se no fim houver uma explicação por demais ancorada na causalidade, pode ser que o romance abra mão da potência da imagem em prol de garantir que as coisas sejam justificadas como “realismo”.
O capítulo de abertura é não apenas eficiente, mas muito bem construído do ponto de vista da técnica. Gosto também da maneira como você vai intercalando pontos de vista e momentos no tempo, nos capítulos posteriores. Já deu para entender que há uma estrutura propícia para o desenvolvimento de distintos núcleos narrativos, e isso pode ser muito favorável para que você consiga expandir a narrativa sem ter que revelar as coisas tão rapidamente.
Agora vou dar de advogado do diabo…
Fico aqui pensando na construção do Lucio e nas implicações que ela tem sobre a obra como discurso, em sua dimensão política. Tenho receio de que ele, pintado assim a tintas grossas, seja meramente suporte de uma crítica que antecede a feitura da sua obra literária. Lucio reúne todos os componentes de um tipo bastante problemático em nossa sociedade. É um típico machista, misógino, provavelmente segue influencers red pill, bate na mulher e se ampara no pastor, acha que seu dinheiro dá conta de tudo, é classista etc. etc. O risco de dar protagonismo a um personagem tão típico como esse é de submeter sua obra à funcionalidade quase panfletária. Meu medo é de que, restringindo Lucio a um tipo, você subordine seu romance a uma função quase informativa, em detrimento da poética.
Talvez, é claro, eu esteja me precipitando, afinal o que você mostrou de Lucio é apenas o ponto de partida. A transformação pela qual ele passará determinará se seu romance toma um conteúdo social e o submete à imaginação (que é, a meu ver, o que marca a singularidade da ficção em relação a outros tipos de discurso) ou se, pelo contrário, deixará a ficção submissa a conteúdos que já são plenamente preenchidos por outras linguagens. Quando isso acontece, a ficção perde sua especificidade (e, para mim, sua razão de ser).
Faz sentido isso para você?
Parabéns pelo trabalho até aqui, e espero poder saber como segue essa história.
🌻 Mariana, tudo bem? Perdoe-me pelo comentário caótico que farei. Espero que ajude de alguma maneira.
Não consegui ser técnica na minha leitura, pois Lúcio me deu asco 🤮 e me fez lembrar de tantas histórias tão parecidas que ouvimos, lemos, testemunhamos enquanto mulheres.
Vou me ater agora à escolha dos nomes dos personagens:
Lúcio seria a grafia de acordo com as regras de acentuação, mas…
(fala a Claudia que não recebeu o acento devido no seu nome ao ser registrada, pois segundo a IA: “O acento agudo no “a” (Cláudia) é uma característica da língua portuguesa (e às vezes espanhola), devido às regras de acentuação de paroxítonas terminadas em ditongo crescente. Inglês, Italiano, Alemão, Espanhol: A grafia comum é Claudia (sem acento).” Isso tudo para dizer: é melhor tacar um acento aí no nome Lúcio só para agradar os revisores chatos de plantão.
Observação: Giovana é o nome da minha filha, e estou sofrendo com o destino da sua personagem. 🥺
Lúcio é um elemento movido aos preceitos da cultura red pill. Exala a tal masculinidade dominante, que defende que os homens perderam espaço e devem reassumir sua condição de ser dominador. Há muito de misoginia em suas atitudes, ódio 👺 e aversão às mulheres, pois as trata como seres inferiores, interesseiros e manipuladores. São tantas as falas e pensamentos tóxicos, horríveis que ele tem, que fica difícil citar todos os disparates, mas vai aí uma pequena amostra:
O protagonista/vilão revela uma postura violenta, típica de um macho escroto, ao empurrar Giovana contra a parede e ameaçá-la com um copo de vidro. Naturaliza a agressão. E, na manhã seguinte, a jovem percebe sangue coagulado sob o nariz 🤕.
A coisa, a monstra 👹, talvez seja a representação do que Lúcio sente em relação às mulheres. No fundo, ele tem medo de ser engolido pelo poder feminino. É como o bicho-papão escondido no armário querendo pegar a criancinha. “deparou-se com alguém mais forte do que ele” > Agora não tem mais a vovó 👵 por perto para salvá-lo das meninas más.
Pareceu-me que Lúcio foi abandonado na estrada 🛣️🥺, talvez pelos seus companheiros lá da Montanha Mágica dos Machos. Espera por um salvador, alguém que o leve de volta ao seu mundo, à sua realidade-bolha.
Lembra-se de Giovana 🙅♀️, sua ex-mulher, mas parece que algo aconteceu com ela, pois em um momento ele pensa: “Se eu fiz qualquer coisa de errado…/ Não tem ela, não tem compras/ reparou no chumaço de cabelo grudado no sapato. Fios unidos por fragmentos de pele e matéria viscosa.”
Imagino que Lucinho-bicho-ruim se empolgou na sua demonstração de força e acabou matando a sua ex. Talvez ela tenha finalmente rompido o relacionamento e o macho alpha não aceitou isso 🤜🏼👊🏽. Pelo fato de haver cabelo e sangue no sapato do idiota, presumo que ele chutou a cabeça da Giovana. 🦵👞🙆♂️
Pelo final da parte 1 do seu romance, ela sabia que precisava fugir, mas não tinha condições, faltava dinheiro 💰 e acolhimento 🤗. No entanto, pelo que entendi, esse foi um recorte do passado, uma cena mostrando o quanto o relacionamento era tóxico, doente. Deduzo que depois Giovana, sem saída, criou coragem e pediu o divórcio.
A planta gosmenta seria babosa? Serve para tratar feridas e queimaduras, dizem que melhora a saúde digestiva.
Pitacos quanto à revisão/coesão de texto ✔️❌:
Enfim, o seu romance está muito bem construído, com um toque de caos (fluxo de consciência, flashes do passado, cenários estranhos, etc.) que muito me agrada. O ser humano é caótico por natureza, não é mesmo?
Sua narrativa prende muito a atenção, apresenta uma fluidez que facilita a leitura. Quero saber mais do que aconteceu com esse Lucinho malvadeza, o que ele fez com Giovana, e que castigo receberá.
Este não é um texto gostosinho, para se divertir, muito pelo contrário, leva à reflexão, ao sentimento de identificação, de reconhecimento da realidade que nos cerca.
Sei lá, vou precisar descansar a mente com alguma bobagem bem leve, para fazer a higiene dos pensamentos 🧼🧠 e do sentir 💔 ❤️🩹.
Parabéns, Mariana, você é uma baita de uma escritora ✍️.
Claudia, você foi a primeira mulher a ler o texto e agradeço tuas reações. O teu entendimento… E o elogio, vindo de ti, é multiplicado por mil. Muito obrigada mesmo…
Vamos ao comentário da impressão de leitura da última seção:
Este trecho está melhor escrito do que o anterior, mas confesso que fiquei confuso. No início do romance achei que viria alguma história com realismo mágico indo pro lado do terror, mas agora vejo um enredo de Thriller psicológico e não consigo afirmar que tenha me agradado.
Independente da questão da minha frustração, pois é um componente subjetivo, acho que o romance perdeu em qualidade nas duas últimas seções em relação às primeiras. Os detalhes da análise virão em comentário posterior.
O que posso adiantar é que se o enredo vai tratar de relação abusiva, talvez seja necessário desenvolver melhor a personagem Giovana. Às vezes tenho a impressão de que conheço mais a Iracema do que ela.
Se o objetivo era deixar o leitor com nojo de Lucio, foi atingido com sucesso. Agora no final muito mais do que antes.
Para completar a parte da impressão de leitor, preciso dizer que a sua narrativa prende lá no início, mas essa segunda metade que relatei ter falhas acho que já abre margem para pensar abandonar a leitura. E não é porque ficou mais visceral, acho que é a questão de estar confuso mesmo. Quando se trata de um assunto tão delicado como o que você tá ousando trazer, é necessário ter consciência de cada palavra que está sendo utilizada, sob o risco de você afastar quem poderia se beneficiar dessa mensagem e agradar apenas àqueles que já sentem prazer com práticas perversas como as descritas.
No próximo comentário vou buscar ser mais detalhista na análise para que você possa fazer os ajustes que considerar cabíveis.
De todo modo, parabéns pelo trabalho!
Até mais, abraço!
Luis, agradeço teus comentários e concordo com eles.
Olá novamente,
Acabei de ler a seção III e a sensação que ficou foi ruim. As falhas na redação acabaram tornando a experiência de não ter entendido a função deste trecho ainda pior.
Que Lucio é um animal selvagem, isso já ficou claro, mas daí o tratamento de Giovana no meio disso ficou raso. Acho que você poderia ter escrito mais para trazer mais nuances, pois o choque foi muito grande e, ao mesmo tempo, tão rápido. A sensação é de flatulência que se esvai sem saber exatamente qual a origem do odor.
Espero que na próxima seção as coisas voltem a fazer sentido.
Até mais!
Gostei como a experiência foi se desenrolando de forma imprevisível. Começa parecendo um mistério/crime, toma uma outra dimensão de tamanho, começa a parecer uma coisa fora da realidade e vira um horror.
Gostei muito da escrita, e como você construiu só com elementos curtos, o contexto do Lucio. “A inclemência do sol obrigou que tirasse a camisa e a amarrasse na cabeça. Quase dois mil reais, transformado em um arremedo de chapéu… “
Achei que você conseguiu deixar bem vivo os sentimentos dele, as raivas súbitas, a vergonha e incerteza constantes, e mesmo com o cenário “mudando” (ou talvez por isso) ficou bem dinâmico tentando entender o que estava acontecendo.
Senti que o ritmo de leitura deu uma diminuída para mim no trecho entre “–”, do “Andar consiste em colocar…”. Talvez eu tenha achado uma quebra grande no meio do fluxo.
Eu não consegui construir a criatura na minha cabeça muito bem, eu imagino que tenha sido a intenção, mas se não foi, fica minha experiência.
Coisa menor: teve um trecho que ele fala que trocaria ações. E na hora me confundi porque eu entendi que ele faria algo, e não ações de empresa.
A fala inicial chega como uma quebra bem vinda, mas pareceu artificial por ser tão longa. Até pq a narração segue no mesmo formato.
Inclusive se buscar essa quebra, alguns parágrafos poderiam ser intercalados entre a narração dele com falas. Como o que começa com “Lucio, tu é homem de negócios, um leão da selva!” (mas isso tudo só se for algo que você ache que somaria)
Me parece estranho que ele variar entre achar que tá no inferno ou algo fora da realidade, e suspeitar Giovana e Marcos por terem feito aquilo.
“Se te chutam, porta que fecha é impossível de abrir de novo.” não entendi esse trecho.
Nos cap III e IV eu flui que mal percebi pontos para trazer.
No geral, acho que minha maior estranheza é do Lucio variar entre ver algo distante da realidade e ao mesmo tempo naturalizar. O que eu justifico, como leitor, como ele ser meio ruim da cabeça.
Dito isso, gostei muito da prosa, das descrições e do ritmo.
Parabéns pelo personagem que gera asco constantemente!
Olá novamente!
Li a seção II e vou falar sobre ela agora:
Achei a escrita mais fluida e gostei bastante da ousadia de fazer o capítulo inteiro só de diálogo interno.
Não há muito o que pontuar sobre a técnica, pois o excelente conteúdo acaba se sobrepondo e tirando o foco das eventuais falhas. Futuramente pretendo me debruçar mais analiticamente sobre a parte estrutural, mas por enquanto você tem um leitor com muita vontade de saber o que vai acontecer nessa história.
Lucio é um personagem muito bem construído, parabéns!
Abraço e até a próxima!
Uma coisa interessante neste desafio é que já sabemos, antes mesmo de começar a ler, a autoria da obra. E como estamos entre amigos, em um grupo que frequentemente participamos de campeonatos literários juntos, já sabemos o que esperar de cada autor. E quando, em minha lista, apareceu o nome Mariana Carolo, eu logo fiquei contente, e com a mais alta das expectativas!
Meu texto favorito desta autora é aquele de terror e suspense, postado no desafio de viagem e roubo, o Dentes que Rangem. É uma obra envolta em mistério, de uma forma surrealista até. Eu estava torcendo para que este romance, ainda sem nome, fosse algo nesse estilo. E, lendo o capítulo 1, me parece que de fato é!
A história começa com uma vibe meio Twilight Zone, onde o protagonista acorda com um pouco de sangue na boca, e um chumaço de cabelo no sapato, largado sozinho no meio de uma estrada, com umas plantações ao seu redor. Logo de cara a narrativa nos envolve com esse mistério, causando curiosidade e prendendo totalmente a atenção do leitor. E aliás… esse é o primeiro ponto que estou avaliando nos romances: se ele consegue ou não prender a atenção logo de início. O romance que não possui uma boa abertura, costuma ser automaticamente descartado pelo leitor. No caso deste, ele já começa incrível!
E a linha narrativa que guia o leitor é excepcionalmente bem construída, pois sabemos que a autora tem uma habilidade fora do comum para construir uma narrativa interessante. Meio que com um conta gotas, as informações são passadas para o leitor, e vamos conhecendo o protagonista sem pressa. Ele tem uma personalidade bem interessante, pois é um empresário com uma personalidade meio complicada. Gostei bastante dele! E parece que ele tem algum enrosco com uma ex… algo que acredito que vá ser mostrado mais pra frente.
Essa ideia de mostrar um personagem perdido no meio do nada é uma premissa muito interessante. Me lembrou de uma história do The Witcher, onde a Ciri acorda toda estrupiada no meio de um deserto. Eu adoro, nesses casos, ficar observando como o personagem vai lidar com a situação, e quais são os desafios que ele terá que enfrentar. E os desafios aqui são o calor, a caminhada com pouca esperança, delírios, sede. E tudo é muito bem construído, a ponto que o leitor consegue sentir tudo isso.
Ao final do capítulo 1, temos a cena do monstro. Podemos sentir muito bem a sensação de horror neste momento, e ela é bem legal! A minha única ressalva, porém, é que eu tive um pouco de dificuldade de imaginar o monstro através da descrição dada. Ele parece ser uma figura bem abstrata, mas achei um pouquinho confusa a escolha de palavras na hora de mostrá-lo, e não consegui enxergar direito. Talvez tenha sido um problema meu… depois vou tentar ler novamente esse trecho, e então, no meu próximo comentário, confirmo se a sensação permaneceu um pouco embaçada.
Ainda não li o capítulo 2, mas já estou ansioso para prosseguir com a leitura! Voltarei aqui assim que eu tiver concluído a leitura!
Olá, Mariana!
Farei comentários ao longo do mês para expor organicamente a experiência completa com a leitura. A seguir, as primeiras impressões da seção I:
Redação invejável, como sempre. O uso das palavras está muito bom, principalmente no final da seção, na qual você consegue transmitir fielmente a sensação de asco.
Entretanto, está nítido que é uma história em construção, pois alguns trechos são eloquentes demais, mas trazem muita coisa que não fica com o leitor. Pelo menos não na primeira leitura.
Já imaginava que o seu texto seria um dos que eu teria que ler mais de uma vez pra entender, pois quase sempre precisei fazer isso nas outras ocasiões. No caso de contos, isso é tranquilo, mas em romances, eu, particularmente, acho algo negativo, mas isso é o meu relato como leitor e cada pessoa tem seu próprio processo. Então, para ser fiel a uma experiência “original”, vou continuar a próxima seção sem reler a primeira para ver se as coisas ficam mais claras.
De todo modo, o que você escreveu nesse primeiro trecho deu vontade genuína de continuar. Estou curioso para saber o que vai acontecer com o Lucio.
Parabéns mais uma vez.
Abraço!