EntreContos

Detox Literário.

ER 2 – Saber Perder (Elisa Ribeiro)

 

Capítulo I – Um, dois, três / Três a zero

1

[a primeira vez]

 

A primeira vez que pensei em morte, minha avó ainda estava viva.

Tinha nove anos, dez incompletos, era talvez junho, havíamos acabado de nos mudar para o outro lado da estação de trem.

Eu já sabia o caminho da escola, nova desde o início das aulas em março.

Eu, muito independente; minha mãe muito ocupada — e despreocupada; minha avó, nem para comprar um alho que faltasse saía de casa. Meu pai sustentava-nos — e obrigava-nos a ir à missa aos domingos — mas não se ocupava de assuntos comezinhos de crianças e escolas.  Meus irmãos mais velhos tinham seus próprios horários, colégios, compromissos com que lidar, assim como eu, por conta própria.  De modo que, depois dos primeiros dias em que minha mãe me acompanhou para me ensinar o trajeto, eu ia para a escola nova caminhando sozinha, distraída com os desenhos da calçada.

Antes de nos mudarmos para o outro lado da estação, o percurso requeria atravessar uma única rua praticamente sem trânsito. No novo endereço, entre minha casa e a escola, havia três avenidas. Minha mãe deve ter dito para eu prestar atenção ao atravessá-las, sobretudo a Ana Neri por causa da mão dupla. Eu prestei: aguardei o sinal verde para cruzar a Marechal Rondon e a Vinte e Quatro de Maio. Mas do outro lado da estação, a cabeça amiga da distração cansada, ignorei o sinal, olhei só para um dos lados, aquele de onde não vinham carros.

A sensação foi de que uma mão havia me segurado, talvez meu anjo da guarda.  O ônibus passou, só o vento às minhas costas e, por dentro, o sangue acelerado inaugurando um vazio entre a garganta e o tórax.

Foi assim que a morte, que nessa idade não era sequer uma abstração, ganhou a concretude de um medo: das avenidas de mão dupla.

 

2

[inocência]

 

Foi minha experiência inaugural tanto de medo como de morte. Depois dela, colecionei poucos medos e muitas mais mortes do que gostaria.

O episódio fundou no meu cérebro uma estrutura cognitiva adicional que me obriga desde então, não a aguardar mandatoriamente sinais para atravessar ruas, mas a olhar repetidamente, várias vezes, para os dois lados nas vias de sentido duplo. Ou quaisquer vias por onde nunca passei, ou não lembro de ter passado. Imagino que seja engraçado para quem me olha.

Fundou também uma certeza premonitória: de que vou morrer atropelada numa via de mão dupla. Talvez por isso eu não colecione medos, seja leviana com outros possíveis riscos de vida: como vou morrer atropelada, ofereço-me sem reservas a outros riscos.

Como a criança destemida que fui antes dos nove.

Que não sabia perder.

Que transformou a perda da inocência na certeza de adiar a Grande Perda movendo a cabeça freneticamente de um lado para o outro ao atravessar uma rua.

 

3.

[o quarto mais arejado da casa]

 

Eu quis protegê-la. Minha avó.

E protegi, a meu modo.

Estávamos voltando de um fim de semana na casa de praia, quando notei o que achei ser uma lágrima em seus olhos. Provavelmente era apenas a síndrome dos olhos secos ou uma mera obstrução do canal lacrimal, mas eu interpretei como sofrimento. O meu, talvez, em vê-la tão frágil, doente, tendo de se deslocar semana após semana em uma viagem de duas horas, em um carro cheio, porque não era conveniente que ela ficasse sozinha no apartamento durante os finais de semana. Respirei fundo para conter as lágrimas que eu não gostaria de ter de explicar.

Dias depois, falei com a minha mãe que não queria mais viajar todos os finais de semana com a família para a casa de praia. Podia ficar com a vovó, no apartamento da cidade. Para estudar, o exame de admissão à escola onde eu queria ingressar no ensino médio me demandava demais, devo ter alegado. Minha mãe entendeu minha bondade, ou não, e negociou o acordo com meu pai, que exigia a família inteira sempre grudada. Minha avó também entendeu, ou não, e aceitou agradecida. Nenhuma das duas demonstrou reconhecer minha atitude como gratuita generosidade, mas como força de caráter, prefiro acreditar.

Minha avó tinha uma doença nunca diagnosticada nas vias urinárias que a fazia gemer com sua voz quase inexistente o dia inteiro. O que não a impedia de seguir cozinhando para a família, no princípio, mas desde sempre a constrangera a não sair de casa. Não lembro de alguma vez tê-la visto caminhando pela rua, indo às compras, frequentando aniversários.

Pela segunda vez, a morte me atingiu com sua concretude feita de nada. Minha avó morreu em casa.

Antes, esteve em coma em uma cama hospitalar instalada no quarto mais iluminado e arejado da casa. Era o único quarto que tinha vista para a rua, larga, arborizada por oitis nas duas calçadas. Amplo, com espaço de sobra para minha mãe circular pelos dois lados da cama, a cabeça branca da minha avó de costas para a janela.

Desejei em silêncio que ela partisse logo; lido mal com estados terminais, tempos depois entendi. O sofrimento, sua falta de propósito, uma vez que, ao fim, a morte sempre ganha a última batalha, me comovem de um jeito que eu, que só costumo formular desejos negativos, desejo que a morte termine sem demora o seu trabalho.

A morte da minha avó foi uma libertação. Um alívio para ela própria. Para minha mãe, que emagreceu uns dez quilos em menos de quinze dias depois do óbito. Para mim, que parei de me angustiar em culpas por desejar que aquele sofrimento acabasse logo.

Não chorei quando minha mãe deu a notícia, nem depois, nem no velório. Também não quis ver o rosto da minha avó depois de morta: uma vaga sensação de desrespeito em ver o corpo nu da pessoa que antes estava dentro dele. Sem a autorização de sua alma — só fui entender esse sentimento muitos anos depois.

 

4.

[desejo negativo]

 

Fui uma menina definida por nãos.

Não queria casar.

Não queria ser mãe.

Não queria ser gorda.

Não queria usar vestidos.

Não queria ser magra, o que eu queria era não ser gorda. Assim eu me expressava, assim eu me sentia.

Um desejo negativo é um desejo que se formula com um não no início.

Não gostava de feijão preto, nem de qualquer comida ensopada; não dizia que preferia pizza de mozzarella, mas que não queria a de frango desfiado

que meus irmãos gostavam.

Não quis ganhar brinquedo no aniversário de onze, mas roupa: algo útil, que ia ao encontro das necessidades dos meus pais, às voltas com um orçamento apertado.

Pensar antes nos outros: por muito tempo eu me supus magnânima. Mas na verdade, na falta de um desejo próprio, eu embarcava no dos outros.

Era um mecanismo similar ao que fazia com que eu me definisse pelo que me desgostava no meu entorno. Não queria ter a vida da minha mãe, completamente absorvida pelo cuidado dos filhos, marido, casa, roupas, compras. Nem das minhas tias, vizinhas, professoras da escola. Tampouco as mulheres solteiras que me cercavam eram inspiradoras: uma professora feiosa da escola, uma vizinha idosa que cuidava dos irmãos deficientes. Não sabia que tipo de vida eu desejava, só sabia que não me agradavam as opções.

Desvelar-se pelas fronteiras, pelos nãos que a delimitam, é também uma forma de definir-se. Afinal, é pelos contornos que se define uma forma.

 

5.

[pretextos]

 

Comecei a namorar cedo. Entre os onze e os doze, arrisco dizer.

Toda vez que tento ancorar uma lembrança em uma data, me arrependo de nunca ter tido a ideia de manter um diário. O mesmo tipo de arrependimento de não ter arguido certas coisas dos meus maiores. Da minha avó, por exemplo, o porquê da boneca de corda que ela mantinha perfeitinha no fundo do guarda-roupa de mogno, o móvel mais elegante da casa, onde ela guardava todas as suas coisas

Então penso em começar um diário, e começo, mas paro, antes de se completarem duas semanas.

O primeiro namoradinho — protejo seu nome dizendo que se chamava Fred — tinha a pele clara, o cabelo louro, olhos azuis. Era mais velho que eu, talvez três anos, e mais alto uns vinte centímetros. Eu não tinha maturidade para namorar, nem para entender o que significava gostar de alguém, mesmo assim aceitei o vínculo que ele me propôs.

Nos conhecemos na praia onde veraneávamos, por isso calculei minha idade entre os onze anos e os doze anos. Porque foi aos treze que parei de viajar com a família para ficar com a vovó no apartamento da cidade, o que, afinal, foi um alívio para todos. Minha avó poupava-se, além do desgaste com a viagem, de estar mal acomodada em uma casa onde cabiam oito, mas recebia dezoito. A família se desonerava de levá-la, e a sua vulnerabilidade, nos finais de semana. E eu, a pretexto de estudar, livre de vigilância, podia fazer o que queria.

Namorar dois ao mesmo tempo, por exemplo.

Inaugurei essa prática com o Fred.

Foi minha avó quem sem querer me entregou. Quando ele apareceu sem avisar, ela disse que eu estava na casa dos primos. Ele foi até lá e descobriu nosso logro.

Era um bom menino o Fred, fiquei triste, não pelo fim do namoro, não sentia por ele mais que um afeto ligeiro: não tinha maturidade, repito, para entender o significado de um compromisso.  Fiquei triste por decepcioná-lo, traumatizá-lo com uma deslealdade tão gratuita em sua primeira tentativa de amor.

Gratuita, sim, porque não gostava do menino com quem estive naquele fim de tarde e talvez duas ou três vezes em seguida. Era mais feio, mais chato, mais velho e mais desinteressante.

Os namoros para mim eram cenários para o exercício, nem de afetos, mas de movimentos do corpo: beijar, abraçar, ser beijada, caminhar de mãos dadas, ser abraçada. Mal comparando, trocar de namorado seria o mesmo que trocar de personal trainer, por exemplo, nos dias de hoje.

 

6.

[um salto]

 

Depois do Fred, não namorei mais dois ao mesmo tempo. Não de imediato. O aprendizado com a experiência me faria repeti-la muitas vezes, com melhor performance, anos mais tarde e pela vida afora.

Segui flertando, a me esquivar dos compromissos. Mantinha uma espécie de séquito, um harém masculino, a me cortejar e eu alimentando, faceira. Houve dois Marcos na escola, um Helinho e um Luiz na vizinhança e dois primos, um mais velho que eu, o outro mais novo.

Até chegar ao ensino médio.

A escola nova me absorveu. Horário integral, bem mais distante de casa, muitos alunos, eu, umazinha entre mil. Era a época das festas de quinze anos. Eu voltava zerada para casa porque só os garotos mais sem graça – franzinos, baixinhos, esquisitos – se interessavam por mim.

Até que numa dessas festas, o Adamastor me convidou para dançar.

Sim, chamava-se Adamastor, posso dizer seu nome sem risco de expô-lo.

O Ada era africano, mais alto que eu, dois anos à frente na escola, roliço e firme como um brigadeiro guardado por dois dias na geladeira, mas sem a aspereza do granulado por cima. Não foi um desejo negativo dessa vez, embora tenha surgido também como um contorno: do corpo dele contra o meu.

Ele me apertava me forçando a acompanhá-lo nos passos, eu seguia como se minhas pernas fossem dele. Transpirávamos, o salão estava cheio, nossos suores se misturavam, mas eu não sentia nojo, até gostava, embora ele não cheirasse assim tão bem. Dançamos a noite inteira.

Apaixonei-me e passei a persegui-lo na escola. De cortejada a perseguidora foi um salto na minha trajetória afetiva.

As salas do primeiro ano ficavam no térreo, as do terceiro, no segundo andar, minha presença por lá era uma tremenda bandeira. Eu também dava um jeito de ir até o ginásio na hora da educação física dele. Ele era bem popular, quase sempre acompanhado, me cumprimentava de longe com um sorriso de dentes grandes e brancos e eu acreditava tínhamos um futuro à frente.

A perseguição durou uns dois meses. Eu era insistente. Até que aconteceu de um dia ele estar sozinho na saída do ginásio e vir falar comigo. Segurou no meu rosto, achei que ia rolar um beijo e senti o mesmo vazio de morte, entre o pulmão e a garganta — o medo de ser atropelada e morrer.

E morri mesmo.

O Ada me disse que tinha namorada.

Alguma coisa, entretanto, me dizia que ele estava mentindo. A forma delicada como ele tocou no meu rosto, o tom de voz muito brando, a escolha cuidadosa das palavras. Estava me dispensado, sim, mas de uma forma elegante. Eu era importante para ele, mas havia um obstáculo entre nós: eu era branca, ele preto, inventei.

Talvez por pena, ele deu um selinho na minha boca entreaberta de frustração e surpresa. E eu confiei com força na minha narrativa besta.

 

7.

[o superpoder]

 

Na mesma noite tive um pesadelo. O Ada estava com uma garota loura, o cabelo liso dividido ao meio, o rosto de boneca, rosado, com um vestido curto azul marinho com uma estampa muito discreta em verde. Estávamos numa festa, os dois afastados da pista, ele debruçado sobre ela, encostada na parede, ele acariciava o rosto dela e a beijava na testa, nas laterais do rosto, por baixo do cabelo.

A sensação do sonho era tão verdadeira. E a raiva — nem sei se raiva, se ciúme —  fazia meu corpo arder, como uma febre. Não consegui voltar a dormir. Eram quatro da madrugada e meus olhos abertos como se dez da manhã fossem.

A cena era tão real a ponto de me fazer acreditar que não havia sido um sonho, mas a manifestação de um superpoder: de saber o que não estava dado.

Eu acreditei.

Que o Ada tinha uma namorada mais bonita do que eu. Era isso. Minha ficção de amor impossível dissolveu-se num choro violento. E silencioso. Eu dividia o quarto com minha irmã.

Coberta até a cabeça com o lençol, agora transpirando por causa do choro, levei o dedo — o polegar da mão esquerda — à boca.

Foi assim que voltei a chupar o dedo. Escondida ou quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto. Aos quinze, de novo, como havia feito até os onze.

 

8.

[a terceira vez]

 

Fui um bebê que chupava o dedo. Comecei antes de me oferecerem a chupeta. É o que contam.

Só lembro de quando comecei a ter vergonha de chupar o dedo na frente das pessoas Foi depois do nascimento da minha irmã. Como ela é cinco anos mais nova do que eu, eu tinha entre cinco e seis anos. Minha irmã também pegou o dedo: mimese entre crianças. E foi por isso que as pessoas começaram a me reprimir: você já é uma mocinha, isso é coisa de bebê, veja só a sua irmã, vai ficar beiçuda que nem você.

Comecei me escondendo só dos que não eram de casa, depois deles também. Chupava o dedo no banheiro, debaixo dos lençóis, quando não havia mais ninguém no mesmo cômodo ou virada para a parede quando me deitava na cama. Só não me preocupava em me esconder da minha avó.

Voltei mesmo a chupar o dedo a partir daquela noite. O polegar na boca em lugar do Ada, que, a mim, preferia a loura, que se chamava Isabela, o nome me ocorreu dois dias depois do sonho.

Voltei a perseguir o Ada mas então com outro propósito: confirmar o poder visionário do meu sonho.

Havia uma menina da minha classe que morava na mesma rua que ele, tratei de fazer amizade. Logo estava frequentando a casa dela, mais preocupada com o que acontecia do lado de fora das portas e janelas do que em conviver com, embora eu disfarçasse bem.

Avistei o Ada duas vezes e ele não estava acompanhado da loura.

Minha loucura temporária demorou a passar, mas abrandou depois de um tempo, embora eu não lembre nem por quê, nem quando.

Estava no segundo ano, o Ada já na faculdade, quando soube que ele havia sofrido um acidente gravíssimo. Mesmo já estando fora do colégio, ele seguia sendo muito popular, muitos estudantes iam visitá-lo e eu decidi fazer o mesmo.

Foi minha segunda experiência com um doente, não digo terminal, mas bem mal. UTI, vários aparelhos ligados, ele parcialmente consciente. A mãe estava no box, a primeira coisa desajeitada que fiz foi cumprimenta-la com um desastroso “tudo bem?”. Me identifiquei, trocamos palavras sobre prognósticos e eu comecei a me sentir mal, enjoada, me despedi atordoada e desabei do lado de fora. Literalmente. Perdi a força nas pernas, escorreguei pela parede até cair sentada no chão, uma enfermeira perguntou se eu estava bem, balancei não com a cabeça, ela me trouxe um copo d’água e eu aos poucos recuperei a força e a cor.

O Ada acabou morrendo, quer dizer, se matando. Aproveitou-se de um momento em que estava sozinho no quarto para desligar os aparelhos que o sustentavam. Havia um prognóstico de que ele não voltaria a andar. Embora essa não tenha sido a versão oficial, nem da família, nem da escola, foi a que circulou pelos corredores.

Pela terceira vez, a Morte me atingiu em sua concretude oca. Em uma nova modalidade: autoimposta e por escolha.

Foi uma comoção na escola. Alunos, professores, funcionários, até os calouros movidos pela tragédia, fomos em peso ao velório.

Foi então que eu vi a loura.

Alisava o cabelo do Ada, murmurava qualquer coisa, os lábios quase tocando-lhe o rosto. Era Isabela o seu nome.

 

Capítulo II – Empate

 

10 .

[a biblioteca]

 

Alguma coisa aconteceu comigo depois que o Ada se foi. A Morte ganhou um espaço – vazio — dentro de mim.

Comecei a ler tudo que encontrava sobre suicídio. A escola tinha uma biblioteca parruda; os livros, eu os tomava de lá e dava um jeito de ler meio escondida. Tanto da família quanto dos colegas. Só uma das funcionárias da biblioteca se deu conta da minha fixação no tema e ficava me arguindo se estava tudo bem comigo. Então passei a frequentar a biblioteca no horário da tarde, depois que ela já havia ido embora.

Não lembro todos que li. Na época não tinha o hábito, nem do diário, que sigo não tendo, nem de anotar os livros que lia. Mas lembro de alguns:  O Mito de Sísifo, do Camus; O Suicídio, de Émile Durkheim; Os Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe; Cartas de amor aos mortos, As virgens suicidas.

Outra coisa que mudou foi  minha percepção e meu sentimento em relação à morte da minha avó. Já havia se passado um ano, mas foi só depois de perder o Ada que eu comecei a sentir falta dela. Era com ela que eu queria falar sobre os livros que eu estava lendo, sobre como eu estava me sentindo, de pedir perdão pela minha frieza, por não lhe ter feito um carinho quando ela estava em coma, por não lhe ter desejado o melhor na outra vida, por não ter me aproximado do seu corpo no velório, não ter tocado nas suas mãos pela última vez.

Comecei a sentir o cheiro dela. Em casa, na escola, na rua, dentro da sala de aula. Às vezes era o cheiro da doença; outras vezes, o cheiro das prateleiras do armário de mogno; às vezes, o da pele, à talco, depois do banho. Como se ela estivesse por perto. Comecei a falar com ela, em silêncio, claro, dentro da minha cabeça.

Só que ela não respondia e eu precisava de respostas.

Minha mãe não era alguém com quem eu pudesse conversar. Ela também parecia ter inaugurado uma Morte dentro de si depois que minha avó partiu. Falar de temas fúnebres com ela não era uma hipótese.

Meu pai talvez até pudesse ter sido um bom ouvinte, um bom aconselhador, mas ele não conversava, sempre ocupado com suas leituras, seus carteados noturnos com os amigos do bairro, seus programas de televisão.

Minha irmã era uma pirralha, meus amigos iam achar que eu era maluca, meus irmãos mais velhos, idem. Só me restavam os ouvidos fantasmáticos da minha avó, sempre disponíveis aos meus temas metafísicos de culpa, perda, saudade, suicídio como possibilidade.

E ainda havia o superpoder de ver o que ainda não existia.

 

11.

[relicário]

 

Desde bem pequena sempre fui uma menina com certa inclinação religiosa.

Quando mudamos para o apartamento do outro lado da estação, senti-me muito acolhida pelo padre da paróquia. Cheguei a frequentar um grupo de jovens por um tempo, embora logo tenha me aborrecido ao perceber que as pessoas só estavam lá para namorar, a conexão com o padre Josef persistiu. Ele sabia meu nome, conhecia minha família, cumprimentava-me quando me via na igreja – às vezes eu ia à missa sozinha durante a semana. Ele me enxergava. Quando fiz quinze anos, me deu uma cruz de presente, segurou minhas mãos entre as suas, brancas e cálidas, fez uma oração em voz baixa, demorada, e eu tive que segurar as lágrimas. Adoraria lembrar o que ele disse — a falta que faz um diário. A cruz, guardo até hoje. Meu relicário.

Devo ter me confessado algumas vezes com ele, mas poucas. Confessar é algo que sempre me constrangeu, não pela humilhação, mas porque eu me colocava no lugar do padre e achava embaraçoso ter que ficar ouvindo toda aquela exposição da intimidade.

Foi o padre Josef que procurei para conversar.

Foi com ele que compreendi, não naquele momento, mas refletindo mais tarde, e até hoje, que a culpa é um sentimento improdutivo. Talvez por isso sejamos sempre perdoados, não importa a gravidade do pecado, mediante um ato de contrição e uma penitência simbólica. O catolicismo com sua sabedoria antiga, quer a reconheçamos ou não, nos impregna.

Padre Josef me conduziu à sacristia, sentou-se à minha frente, ouviu-me com os olhos cerrados por quase todo o tempo, a cabeça levemente inclinada para cima. Hoje eu o consideraria um homem bonito.

Não abri completamente meu coração na conversa. Não revelei meus pensamentos mais mesquinhos, ser consciente deles já era por demais desgostoso, ouvi-los seria insuportável.

Ele me falava com calma e pausadamente, com seu sotaque estrangeiro e a voz nem aguda nem grave. Claro que não lembro de tudo que ele disse, mas lembro bem do efeito das suas palavras.

Comparou minhas leituras, meu interesse em entender a atitude do Ada, com uma espécie de oração por ele. E quando eu falei sobre sentir o cheiro da minha avó, ele deu um sorrisinho muito discreto, segurou as minhas mãos, olhou bem nos meus olhos e disse que aquilo era uma sorte.

Quando enfim eu estava preparada para falar do meu superpoder, já estávamos havia mais de uma hora juntos, ele disse que tinha outros compromissos, me abençoou, beijou minha testa, minha mão, mandou um abraço para os meus pais, disse que eu fosse em paz e voltasse sempre que precisasse conversar porque ele tinha gostado muito de me ouvir.

 

12.

[“Charlotte”]

 

Num dos livros que li durante meu mergulho na temática do suicídio, havia uma família marcada por uma trágica sucessão de suicídios: a irmã da protagonista, a tia, a mãe e, por último, a avó. Um segredo só revelado pelo avô à personagem após a morte da avó, a última do livro.

Como se o suicídio fosse uma condição transmitida geneticamente entre gerações. Como a miopia, uma cardiopatia, a diabetes ou a hipertensão.

No livro, a motivação do suicídio da avó era a de não deixar a cargo da Morte a decisão sobre o momento do seu fim. A avó está doente e acha uma humilhação sujeitar sua vida ao ritmo imprevisível de uma degradação inevitável. Não lembro como ela se mata, mas lembro que, durante a leitura, me pareceu muito razoável sua justificativa. Como tomar um comprimido para aliviar a dor ou baixar a febre. Um artifício deliberado para contornar um mal-estar que o corpo, ou a mente, não consegue, ou não está disposto, a suportar.

Foi o que o Ada fez.

E o que eu poderia fazer, se porventura me acontecesse um mal incontornável.

Bastava não olhar para os dois lados ao atravessar a rua. Eu sabia de antemão — meu superpoder — o que não estava dado: que eu morreria atropelada.

Esse pensamento me tranquilizou. E me tranquiliza até hoje.

 

13.

[a esteira]

 

Era época de pensar em vestibular. Só se falava disso na escola. Precisávamos decidir antecipadamente, porque no último ano do ensino médio, a escola focalizava as disciplinas conforme a área que os estudantes iam prestar.

O caminho natural era fazer medicina, seguir a carreira do meu pai. E da minha mãe também. Ela era enfermeira antes de se tornar dona de casa em tempo integral.

Meu irmão mais velho, desde sempre apaixonado por aviação, já no ensino médio entrou para a aeronáutica e seguia feliz na AFA. O mais novo, desde pequeno um desenhista fantástico, me matava de inveja como as histórias em quadrinhos que criava, resolveu fazer arquitetura. Eu era a última esperança do meu pai e como não tinha nenhuma vocação outra como os meus irmãos, não havia como me desviar.

Eu tinha claramente um problema com a medicina. Eu era covarde, a experiência com o Ada, minha visita a ele na UTI, confirmou. Um horror ante estados graves ou terminais. Antes do Ada, eu já havia experimentado esse horror certa vez em que minha mãe me arrastou com ela ao visitar uma conhecida, que nem estava tão mal, mas o acesso no pescoço, a magreza, a palidez, um cheiro estranho, acho que a senhora era diabética. Vomitei no meio do quarto. Fiquei traumatizada por um bom tempo, a imagem da senhora com acesso no pescoço me fantasmagorizando quando eu fechava os olhos.

Com o Ada foi o vexame de não saber o que dizer, de ter que fugir para não desabar.

Conversei sobre isso com a orientadora vocacional e depois com meu pai. Ambos pareceram ter combinado o discurso. Que como médico era outro o contexto, que o médico se acostuma, que era um desperdício eu, com minhas notas excelentes no colégio e com as portas abertas para a carreira, não seguir uma profissão tão nobre e generosa.

Eu não tinha vontade de ser nada. Nem astronauta, nem aeromoça, nem veterinária. Nem desejo negativo eu tinha: ia bem em todas as disciplinas, não era daquelas que tinha pavor de geografia ou matemática.

Na falta de um desejo próprio, marquei biológicas na preparação para o vestibular: embarquei na esteira da família, no desejo do meu pai.

 

14.

[lenda familiar]

 

Minha mãe parou de trabalhar quando eu nasci.

Meu irmão mais velho tem dois anos a mais que eu; o segundo, um. Três crianças pequenas seriam demais para minha avó sozinha dar conta. Por isso minha mãe teve de deixar o trabalho. A velha história: contratar uma babá sairia mais caro que o salário que ela ganhava. Meu pai ainda era um jovem médico sobrevivendo de plantões nem sempre bem pagos.

O impacto da decisão foi meio forte para ela. Não sei se foi só isso. Acho que o fato de eu ser uma menina também pesou.

O meu superpoder de saber o que não está dado.

Minha mãe teve uma depressão puerperal. Na época não se falava tanto disso, não havia nem CID para classificá-la. Mas foi isso. Hoje ela teria sido mais bem compreendida e assistida, quem sabe.

Parou de me amamentar antes de eu completar um mês. A lenda familiar conta que o leite secou. Eu desconfio de que ela parou deliberadamente, porque não suportava me ter ao colo nem minha sofreguidão em sugá-la.

Na prática, minha avó teve de cuidar de nós três — crianças-bebês, que não paravam de demandar — e da minha mãe, completamente surtada.

Tenho a teoria de que comecei a chupar o dedo nesse contexto. Meus irmãos verbalizando aos berros suas demandas, minha mãe preocupando todo mundo por causa da depressão e eu, a bebê, a menor, no tamanho e na voz, a última na fila em ser atendida em suas necessidades.

O que a bebê, eu, fez? Deu seu jeito. Supriu sua necessidade de colo, de um bico de peito para sugar; descobriu o próprio dedo e o poder da autossuficiência em chupá-lo.

Sim, porque eu nunca suguei o dedo, eu o deixava estar na boca, algo mais passivo. O conforto de ter matéria entre os lábios, entre o palato e a língua. Nunca foi de comida minha falta — disso minha avó sempre deu conta — mas de toque, de pele, de um corpo em contato.

 

Capítulo III – Segundo tempo

 

15.

[a quarta vez]

 

As aulas com cadáveres me intimidavam menos do que à maioria dos meus colegas. Assim eu gosto de pensar.

Começaram cedo. Na terceira semana, se bem me lembro, entramos pela primeira vez no laboratório de anatomia. Não foi uma novidade para mim, já havia estado ali levada pelo colégio junto com outros estudantes que, como eu, iam prestar vestibular para área biomédica.

Como nessa visita prévia, na nossa primeira incursão no Lab só havia peças osteológicas e o cheiro de formol não era tão forte. Que eu me lembre, não houve ninguém vomitando nessa primeira aula. No meu caso, o problema maior nunca foi o formol, mas a luz branca fluorescente que, passado um tempo, começava a me enjoar e eu precisava sair para tomar um pouco de ar.

A corda apertou mesmo na primeira aula com um cadáver inteiro. Embora o professor tenha nos preparado bem para o evento, quando ele descobriu o braço do morto e eu vi a mão acinzentada, as unhas perfeitinhas, senti um vazio no estômago, as pernas tremeram. Para meu azar, eu estava na primeira bancada, a menos de dois metros do morto. Tive que sair da sala para me recompor. Eu e mais meia dúzia de colegas. O professor perguntou se precisávamos de Dramin com sarcasmo e interrompeu a aula. Cinco minutos para tomar uma água, quem precisar, disse, e não se atrasem.

Distribui o Dramin que trazia na mochila; uma outra colega, também filha de médico, tinha Plasil na bolsa; não foi suficiente para os colegas nauseados. Esfreguei um pouco mais de Vick no nariz, embora meu problema não fosse exatamente o cheiro, mas o conjunto da obra.

Mas o pior ainda estava por vir na continuação da aula. O rosto do cadáver. O professor não precisava tê-lo mostrado, mas ele o fez, fingindo descuido, com um risinho forçado, sádico diante das contorções em nossas caras.

As rugas, os vincos, as covas, os dentes, a expressão serena, o cabelo, a mandíbula projetada. Até hoje, me lembro da imagem.

Eu até gostei bem das aulas de anatomia depois, de ver o corpo por dentro, esquecia o formol, a luz branca, conseguia abstrair o fato de que houvera uma vida antes, totalmente absorvida pelo privilégio do conhecimento, não o dos livros, mas o da mão na massa.

Mas aquele primeiro rosto me assombra até hoje. Um rosto sem voz. Uma história interrompida que nunca mais seria contada, devorada pelos vermes, tornada cinza, com sorte um corpo a serviço da formação de estudantes, com sorte vocacionados para a prolongamento de outras vidas que um dia seriam, com sorte, apenas saudade.

 

16.

[desejo negativo II]

 

Eu e grande parte dos calouros circulávamos vestidos em nossos jalecos brancos ou com eles jogados às costas, mesmo quando não tínhamos Lab.

O jaleco não dava apenas status, alavancava também o sex appeal. Não sei se o de todo mundo, mas o meu com certeza. Colecionei um harém de admiradores já no primeiro semestre. Voltei à velha forma. Fiquei com poucos, não sobrava tempo pra nada, mal dava para flertar nos intervalos das aulas. Tinha estudado muito para entrar e seguia me matando para dar conta da carga horária, do volume de conteúdo para estudar em casa.

Só fui namorar já no segundo ano. Um colega de turma. E novamente fiz uma lambança. Comecei a flertar com outro, da engenharia, formando, quatro anos mais velho. Na verdade, ele começou a flertar comigo, para ser exata. Éramos colegas numa classe de estatística aplicada, eu tinha gostado muito da disciplina de bioestatística – as matemáticas sempre foram meu forte — e fiquei com vontade de aprofundar. Ele sentava ao meu lado, puxava conversa, pagava meu café, eu dava corda, sem dar. Até que um dia ele me convidou para uma cerveja. Meu namorado tinha viajado com a família, enforcado uns dias de faculdade no meio de um feriado, e não tinha nem cogitado me chamar. Aceitei tomar a cerveja e aí aconteceu um beijo; fiquei com cara de besta, mas me deixei beijar.

Eu não gostava de nenhum dos dois, mas optei pela novidade. Tentei terminar com o namorado oficial, sem entrar em detalhes sobre a minha pulada de cerca, óbvio, mas ele não aceitava. Então fiz o que eu já sabia fazer, fui levando o romance com os dois até um ponto em que a situação ficou insustentável. A universidade não era assim tão grande e aquele jogo me cansava.

Segui namorando o engenheiro, digamos que se chamasse Roberto. Ele era mais velho, tinha mais repertório do que eu, que na falta de desejos próprios, tomava emprestados os dele, como antes tomara os do meu pai. Mas tomar como seus os desejos alheios, acaba gerando muita frustração. E raiva. E a raiva desgasta. Os colegas e até minha mãe, tão desatenta usualmente, percebiam que alguma coisa não ia bem naquele namoro.

Um dia, num hotel, não sei se antes ou depois de transarmos, compreendi o que faz uma pessoa cometer um crime passional. Não consigo lembrar o que ele falou, ou fez, ou me induziu a fazer, talvez tenha sido apenas o acúmulo de um dobrar-me ao que ele me convocava, talvez o horror de me perceber capaz de um ato tão extremo como tirar a vida de uma pessoa tenha apagado minha memória. Dei graças a Deus por não ter meu bisturi à mão. Teria sido muito fácil rasgar sua carótida.

 

17.

[nunca lhe daria alta]

 

Sentir vontade de matar uma pessoa não é o mesmo que ser um assassino. Mas é quase.

Tenho uma teoria sobre a minha mãe. Acho que ela pensou em me abortar quando se descobriu grávida.

Certamente não fui uma filha planejada. Minha mãe engravidou de mim quando ainda amamentava meu irmão. Imagino a tristeza ao se dar conta de que teria que abandonar o trabalho e se tornar dona de casa em tempo integral. Depois de estudar, se formar, trabalhar, ter um bom emprego, ser reconhecida pelos pares, requisitada pelos médicos, estimada pelos pacientes. Ela costumava dizer “meu paciente” quando contava algum episódio vivido por sua “eu” antes de se tornar uma trivial dona de casa.

Meu pai uma vez me contou que, antes mesmo da minha mãe confirmar a gravidez, ele estava certo de que era uma menina que ela preparava. Sua mãe ficou feia, ele disse e eu não perguntei mais nada.

É claro que minha mãe se percebia mais feia a cada dia; que sabia ser a vida a tomar forma dentro de si a causa; que arrefecia a atração do marido; que a obrigaria a deixar o emprego, que tornaria sua vida um gravitar em torno de filhos e fraldas e tarefas sem fim dentro de uma casa que, por mais que ela se esforçasse, nunca lhe daria alta.

É claro que minha mãe desejou que a gravidez não vingasse. É claro que pensou em sustá-la.

Certa vez uma tia, na verdade, mulher do meu tio, disse, não lembro o contexto, que eu era para ter sido abortada. Depois desmentiu quando percebeu que tinha falado demais.

Conhecendo minha mãe, acredito que ela tenha tentado.

Meu superpoder é uma máquina de criar evidências sobre o que não está dado.

Meu pai era muito religioso, jamais concordaria. Mas minha mãe sabia bem como um corpo funcionava, sabia como tratá-lo caso alguma coisa desse errado. E deu. Então ela levou minha gravidez com desgosto. Por isso a depressão pós parto, a rejeição, o remorso manifestado no apego desmedido quando minha irmã nasceu quatro anos mais tarde e a culpa quando eu me envolvia com tipos como o Roberto ou quando eu dizia ser indiferente à maternidade.

Sentir vontade de interromper uma gravidez, ou tentar, não é cometer um aborto. Mas é quase.

 

18.

[coragem]

 

Passado o impacto inicial, me acostumei com os cadáveres. Minha contagem de mortos acelerou-se vertiginosamente.

Minha curiosidade fazia as aulas de anatomia passarem voando, eu completamente entretida e concentrada e maravilhada em ver e tocar cada órgão-músculo-tendão, totalmente abstraída da vida que antecedeu aquele corpo seco, sua paleta em cinzas, castanhos e amarelados, por dentro. Não havia dor nem sangue, só o meu interesse em aproveitar o privilégio de confirmar o que sabia dos livros com a ponta do bisturi, os dedos protegidos por luvas, os olhos por trás das lentes dos óculos.

Os corpos reais surgiram no quinto semestre com o início da clínica.

Corpos que sentiam dor, que falavam sobre ela. De idosos, de crianças, desnutridos, obesos, que às vezes não cheiravam bem, com feridas abertas, com medo, que queriam saber se tinham cura, que às vezes eram incapazes de ler o que eu prescrevia no papel.

Eu atendia no ambulatório, mas precisava cruzar a enfermaria. Doentes depositados em macas pelos corredores, idosos descarnados alucinando, acidentados imobilizados aguardando atendimento, faces contorcidas de dor ou desespero com a espera. Cumpria meu trajeto olhando o bico dos sapatos, não suportava os olhares esperançosos de alguma atenção quando eu passava com meu jaleco de médica, a vergonha pela minha impotência pesando nas minhas costas.

Você vai se acostumar, meu pai dizia. Eu nem queria acreditar. A hipótese de me acostumar com o horror era tão insatisfatória quanto ter de suportá-lo.

Eu não era a única da turma a sofrer com dúvidas sobre ter escolhido a profissão certa. Não conversávamos muito abertamente sobre isso, salvo depois de uma ou muitas cervejas no barzinho onde batíamos ponto perto da Universidade. Ali, com os jalecos amassados dentro das mochilas, alguém sempre comentava sobre o desgosto com as lâmpadas fluorescentes brancas do hospital, com a capacidade de atendimento sempre aquém da demanda, com o cheiro a desinfetante e água sanitária.

A morte planando — um abutre — sem sombra, acima da luz branca que nunca apaga, o cheiro que exala dos corpos doentes sob os vapores do álcool e da água sanitária. Eu pensava, não ousava falar.

Apenas uma estudante abandonou o curso declaradamente por se perceber não vocacionada — a Mariângela — éramos muito próximas. Foi uma comoção na turma. Uns a julgaram fraca; eu a achei corajosa.

 

19.

[inveja]

 

A Mariângela foi para a biologia. Já bem ambientada no novo curso, nos encontramos para um brunch no sábado.

Ela me conta que aproveitou muitas disciplinas e, por conta disso colapsou sua grade e seu horário. Tem aulas espaçadas ao longo do dia, pela manhã e à tarde, com muitos horários livres e por disso, diz toda empolgada, começou a participar de uma pesquisa que envolve a polinização artificial de flores de maracujá. Fala, demonstrando com as mãos de dedos longos e delicados, da paciência que o processo requer: recolher o pólen de uma flor com um pincel finíssimo — ela prefere ao uso de um cotonete — e transferi-lo para o estigma de outra flor, de outra variedade. O professor não exige a emasculação, mas considera mais seguro que seja feita, ela conta, e explica que remove com uma pinça – o polegar e o indicador da mão direita simulando o movimento — as cinco anteras da flor receptora.

Sinto cheiro de maracujá, embora esteja bebendo limonada.

Ela diz que o professor ficou impressionado com sua habilidade e ficou de interceder por uma bolsa de iniciação científica, faz questão de mantê-la no projeto. Ela ri e me diz abaixando a voz que adquiriu a delicadeza cortando cadáveres.

Eu fico feliz por ela. Um sentimento parente bom da inveja.

 

20.

[Burns]

 

A Mariângela adorava biologia no ensino médio. Talvez tenha sido isso que a empurrou para a medicina. Muito estudiosa, notas boas; fazer biologia para ser professora seria um desperdício, podendo ser médica. Além do desafio de passar para o curso mais concorrido, do status, do jaleco branco, etc.

Já eu, no ensino médio, não tinha preferência por nenhuma disciplina. Estudava tudo e qualquer coisa com a mesma dedicação e nenhum entusiasmo: cumpria o que estava dado, tanto me fazia ser engenheira ou geógrafa. Só lembro de um livro na escola que me capturou: um livro de história, História da Riqueza do Homem, do Edward Burns. Li com gosto e com surpresa, lembro sobretudo do capítulo que associava o nascimento do romantismo com as circunstâncias históricas da época. Acho que a interdisciplinariedade me seduziu. Costumava preferir ficar lendo o Burns a trocar saliva com meus namoradinhos bobocas da época.

Ouvindo a Mariângela falar sobre as aulas de morfologia e sistemática vegetal, em que ela desenha com lápis de cor as curvas, a pele de flores e, depois de dissecá-las com pinças e bisturis, as suas entranhas, me imagino manuseando arquivos antigos, as mãos protegidas por luvas, como no Lab ou, às vezes, no atendimento dos pacientes, decifrando textos do século dezessete.

Não, não seria uma hipótese.

Abandonar a medicina no meu caso não seria uma escolha, seria apenas uma derrota.

 

21.

[os shots]

 

Conheci o Rodolpho e o Sílvio na metade do meu primeiro ano de residência. Eles eram mais velhos, haviam estudado nos Estados Unidos e eram ricos. O Rodolpho, muito, muito mais do que o Sílvio. O pai dele era embaixador, o do Sílvio, funcionário menos graduado da embaixada. Mas a riqueza do Rodolpho não vinha do pai, mas dos avós, talvez dos bisavós.

Acho que só por causa deles consegui suportar a residência até o final.

Os conheci depois de perdermos uma paciente que havia dado entrada pela emergência com uma sepse puerperal com embolia, resultado de uma infecção certamente adquirida no parto.  Lembro quando ela entrou, acompanhada pelo marido, a menina com menos de quinze dias no colo. Não havia vaga na enfermaria, tentei conseguir um quarto, por causa da bebê, mas não consegui. Fiz tudo para convencê-lo a voltar para casa, que voltasse mais tarde sem a bebê, não tenho com quem deixar a bebê, ele disse com uma cara de desespero, e eu antecipei que na próxima fala ele entregaria a bebê aos meus cuidados.

Dei um jeito de arranjar um espaço mais seguro para os três passarem a noite, fraldas e higienizadores para a bebê. Sentei-me ao lado deles por um tempo, a bebê adormecida, eu sem encontrar palavras, ele sem me perguntar nada. Quando o homem se acalmou, já madrugada alta, me contaram que ele e a bebê acabaram indo embora.

A mulher passou um dia e meio na emergência antes de subir para a enfermaria. O marido a visitava todos os dias, por horas, um terço na mão, o sofrimento na cara contrastando com a lividez tranquila dela, desacordada.

Assisti um parto natural logo nos primeiros dias de residência. Por mais que eu soubesse, a experiência superou em muito o horror construído na imaginação a partir de leituras e imagens. E eu confirmei meu superpoder: saber de antemão o que não estava dado. A falastranice rebelde da infância — não quero ter filhos! — não era uma bravata, era um saber antecipado.

A brutalidade e o risco. E o desejo negativo de evitá-los.

A paciente da infecção puerperal faleceu depois de oito dias entre a vida e a morte, duas paradas cardíacas, uma delas após uma hemorragia, consequência de anticoagulantes, sangrando por onde o corpo encontrava saída, a cama encharcada, a enfermeira no corredor exclamando: Meu Deus! Quanto sangue!

Duas semanas depois, conheci os rapazes e os shots que eles dividiam comigo, não queria saber o que eles misturavam, só me interessava o efeito: um amortecimento mental, espécie de abrandamento do vínculo entre o corpo e as emoções, que me permitia agir sem que as pernas bambeassem, o estômago se contraísse, as pálpebras, num reflexo, quisessem se fechar.

 

PARTE II

Capítulo III

 

22.

[Laura]

 

Eu já não contava mais mortes há muito tempo quando minha mãe morreu.

Também já não sofria com o sentimento de rejeição que havia me atormentado quando jovem. Não por ter me tornado mãe e entendido na carne as contradições da maternagem; não por ter rejeitado a princípio a minha própria gravidez e pensado seriamente em interrompê-la; não por ter me interrogado tantas vezes — e seguir me interrogando — se minha vida não seria melhor sem o fardo de um filho — um lastro a me obrigar sempre às escolhas sensatas.

Simplesmente parei de falar sobre os meus traumas com minha mãe. E, em não falar, os ressentimentos foram se apagando e abrindo espaço para emoções mais produtivas, digamos, em relação a ela.

Foi o Rodolpho que operou em mim essa transformação. Entre tantas outras. Ante meus choramingos ressentidos sobre minha mãe, certa vez ele disse:

“Coisa mais cafona ficar resmungando sobre a mãe.”

Não sei se cafona seria a palavra mais adequada, mas convenhamos que resmungar sobre a própria mãe é o que todo mundo faz. As mães são sempre culpadas.

Só sei que por causa dele, do Rodolpho, parei de falar mal da minha mãe, de atribuir minhas falhas às suas faltas. E, como uma magia invertida, não falar sobre meus ressentimentos dissipou minha mágoa. E no lugar dela foi surgindo uma compreensão daquela mulher — por acaso Laura, por acaso minha mãe — que com sua humanidade precária fazia o que estava a seu alcance para dar conta de um marido, quatro filhos, uma casa, minha avó e de si própria. Traumas, frustrações, injustiças, abandonos, rejeições, tudo isso perdeu importância.

A pouco menos de um mês de ela enfartar, percebi por antecipação que seu fim estava próximo. E não fiz absolutamente nada para adiá-lo.

Assim que ela abriu a porta, fazia uns seis meses que eu não a via, me veio uma sensação instantânea no estômago, de queda, e, em seguida, por alguns segundos, uma espécie de enjoo já conhecido, que com duas ou três respirações mais profundas passava.

Meu superpoder em ação.

Ela me pareceu ter envelhecido uns dez anos desde nosso último encontro. E além disso, reparei certa vermelhidão nas bochechas, os olhos muito saltados e a irritação de sempre mais acentuada. Confirmei quando a cafeteira italiana antiga e toda oxidada explodiu pó de café na parede, no exaustor e no fogão. Certamente um bom motivo para irritação, mas não na modulação que ela imprimiu à raiva. Gritos direcionados à cafeteira, como se ela fosse humana e uma brutalidade desnecessária ao esfregar a lambança com o pano de pia, como se fosse graxa antiga ao invés de pó de café.

Há quanto tempo a senhora não vai ao seu cardiologista, indaguei. Mas deveria ter insistido, prescrito os exames, alertado com mais ênfase minha irmã, que morava a poucas quadras de distância e certamente não havia se dado conta dessas mudanças, nem poderia, justamente por causa da frequência com que se encontravam.

Perguntei se ela havia notado a mamãe mais cansada, algum desconforto gástrico e sobretudo mais irritada. Reclamando mais do que nunca do papai, ela disse, mas isso não tinha nada de extraordinário.

Laura ruminava as traições do meu pai, Oscar, de mais de quarenta anos atrás como se tivessem acontecido ontem. Não foi diferente nessa minha última visita a ela. Para não irritá-la ainda mais, evitei repetir minha ladainha de que o passado podia ser ressignificado, de que o  homem que a traíra era o mesmo que permitia que ela tivesse uma vida confortável, com todas as contas pagas, num apartamento de noventa metros quadrados com vista para o mar.

O fato é que evitei estressá-la, mas não tomei nenhuma das providências concretas tão ao meu alcance para evitar o desastre anunciado.

Ter a consciência de que a culpa não é um sentimento produtivo não impede que ela se instale nem que faça eventuais estragos.

 

23.

[a primeira Laura]

A primeira paciente que perdi se chamava Laura e tinha uma filha da minha idade. Se o primeiro óbito é uma experiência marcante para um médico, a coincidência amplificou meu trauma.

Eu era interna, estava na minha segunda rotação, eventualmente era acionada para atuar na emergência. Tinha vinte e um anos, a paciente, trinta e nove. O caso era relativamente tranquilo por isso o residente responsável me passou a paciente com um suposto diagnóstico de gases.

Dor no abdômen alto, distensão compatível com gases à palpação, pedras na vesícula  confirmadas no ultrassom. O diagnóstico era uma barbada. Percebi um cheiro a tabaco ao examiná-la, perguntei se fumava, ela disse que não revirando os olhos para cima, à direita, registrei, mas não dei bola. A pressão estava levemente alterada, registrei também, mas assumi ser consequência da dor, era uma boa hipótese. A enfermeira que me acompanhava sugeriu ECG e exame de sangue para descartar infarto. Acatei sem consultar minha supervisora, embora achando improvável.

Expliquei à Laura as causas, sintomas e tratamentos para as pedras na vesícula, evitando chamá-la pelo nome porque me causava um estranhamento, como se eu estivesse falando com a minha mãe do lugar de autoridade em que meu jaleco e meu estetoscópio no pescoço me colocavam, embora a minha pouca idade. Os nomes próprios deviam ser únicos, como os nomes de usuários nos servidores de hoje, lembro até do pensamento intrusivo que me ocorreu na hora.

Deixei Laura medicada para as dores e os gases num box e quando voltei, talvez uma meia hora mais tarde, para checar se a dor havia passado, ela estava sem pulso. Ainda não havia os meninos nem os shots que me estabilizavam. Gritei por ajuda e no mesmo instante o box se encheu de gente, de máquinas, eu, meio paralisada, até que o doutor Robinson, o médico plantonista, me convocou com rispidez a assumir a massagem cardíaca e eu entrei numa espécie de transe, só parei quando ele me afastou da paciente com firmeza, me segurou pelos ombros e disse que bastava.

Doutor Robinson passou o resto do plantão mais ocupado comigo do que com os pacientes, essa foi a minha impressão. Levanta a cabeça, nossa missão aqui é salvar vidas e não ficar lamentando as que não podemos salvar, ele me disse quando o indaguei pela segunda vez o que eu poderia ter feito diferente para não ter fechado um diagnóstico tão equivocado.

Não ter descartado o odor a tabaco, nem a pressão ligeiramente alterada. Não descartar nenhuma intuição sobre o paciente, foi essa a lição que concluí sem que ninguém me ensinasse. Talvez não tivesse conseguido salvar a mulher nesse caso, nem minha mãe muitos anos mais tarde, porque o coração é uma máquina que tem ritmo e vontade própria.

Nesse dia no plantão foram quatro óbitos, entre eles uma menina de onze anos afogada. Não lembro o nome dela.

 

24.

[Rodolpho]

 

Nunca soube que substâncias exatamente o Rodolpho misturava para produzir a bebida que ele mantinha, e periodicamente renovava, em uma garrafa cor de abóbora no fundo de seu armário no hospital.

“Toma aqui sua mamadeirinha, pequena.”

Entregava na minha mão um copinho de café, a consistência de xarope, o cheiro à gengibre, uma aspereza no esófago e em menos de cinco minutos eu era uma pessoa, digamos, menos emocionada.

Eu confiava nele, assim como ele e o Sylvio haviam confiado em mim ao me tornar parte daquela perversão.

Eles diziam que nos Estados Unidos era comum os estudantes usarem coisas desde a graduação, não só na medicina, em todos os cursos. Para dormir, para acordar; para esquecer, para memorizar. Só faltava servirem no refeitório, troçavam.

Eles não compartilhavam a bebida da garrafa laranja com mais ninguém no hospital, só comigo. Quando perguntei porque eu, o Sylvio disse que era porque eu era confiável, porque eles gostavam de mim e porque eu precisava.

Os dois tinham bastante dinheiro de família, saíam muito, não raro me convidavam para almoçar ou jantar e não me deixavam pagar. Foi com eles que aprendi a comer sushi, a amar o sabor da trufa e a detestar ostras e foie gras.

O Sylvio morava em um apartamento dos pais em Ipanema. O Rodolpho, a princípio, em hotéis e apartamentos de temporada. Mudava quando se cansava, eu nunca havia imaginado que uma vida poderia ser vivida do jeito que ele a levava. Nessa época, ele não lavava, mas descartava as camisetas usadas e as substituía por novas. Camisetas simples e baratas, mas de qualquer forma era um desperdício, e eu o perturbava dizendo que aquele era um comportamento absolutamente não sustentável.

“Você lava pra mim, pequena?”

Eu dizia que só se ele me desse um beijinho, ele retrucava que eu era muito barata, e no dia seguinte aparecia vestido com uma camiseta com cheiro de nova.

Passado um tempo, ele foi morar em um apartamento na Barra da Tijuca, um triplex, que os pais haviam comprado em final de construção, enfim habitável. Eventualmente, contudo, hospedava-se em algum hotel na zona sul, porque a Barra era muito longe, ele dizia e, naquela época era verdade.

Os primeiros tempos de convívio com eles foram, por coincidência, o período mais sexualmente ativo e livre, digamos, da minha vida, embora eu já namorasse o Jefferson. Não sei se por causa das drogas, mas certamente pela pressão absurda imposta pelo segundo ano de internato. O fato é que se eu era promíscua, todos a minha volta também eram, porque era com eles que eu me envolvia. Não sobrava tempo para flertar com ninguém que não habitasse os corredores do hospital universitário.

 

25.

[a bruxa]

 

Minhas experiências na emergência me fizeram enxergar a medicina com outros olhos. A adrenalina, a energia do trabalho em equipe, o empenho em cancelar a morte e o sucesso, ainda que provisório, na grande maioria dos casos, me empolgavam. Éramos — médicos, estudantes e enfermeiros — tremendos. Nosso poder nos embriagava.

As drogas cancelavam temporariamente meu horror ao sofrimento alheio e minha apatia ante a inevitabilidade da morte. Qual o sentido de lutar contra a morte ao custo de sofrimento se no fim ela sairia vencedora, era o meu leitmotiv quando não estava drogada. Quando estava, eu era intuição, habilidade e coragem dando suporte ao meu desejo genuíno de conhecimento e minha curiosidade.

Cheguei a pensar em fazer minha residência em clínica geral e fazer carreira como plantonista em emergência hospitalar, turbinada pela adrenalina que o pronto socorro jogava no meu sistema nervoso central.

É claro que o Rodolpho e o Sylvio me influenciavam, embora eles não me encorajassem. O Rodolpho era residente em cirurgia; o Sylvio, em clínica geral.

Tampouco meu pai me encorajou quando comentei essa hipótese. Minha filha, você não precisa fazer esse caminho, ele disse. Resolver problemas e salvar vidas era viciante, ele sabia, — eu também já havia entendido na carne — mas em pouco tempo o desgaste massacra, ele havia experimentado.

Contou que na sua época de clínico, no começo da carreira de muitos plantões em hospitais variados, tinha que tomar uns goles antes de voltar para casa, para desacelerar. Mas não era só na rua que ele bebia. Em criança, me lembro de vê-lo quase sempre tomar uma ou mais doses de whisky quando chegava em casa.

Disse que às vezes sonhava com essa época dos plantões, com alguns pacientes, que alguns casos se mantinham indeléveis no seu inconsciente por mais que se esforçasse em apagá-los.

Felizmente não comentou nada sobre suas infidelidades.

Meu pai sabia do que estava falando. Havia trabalhado por oito anos como plantonista em hospitais até ter condições financeiras e ser aprovado na residência em neurocirurgia que ele sonhava. Meu pai não gostava de coisas fáceis. Houve períodos em que ele nem voltava para casa.

Quando decidi fazer medicina, percebi que ele gostaria que eu seguisse a especialidade dele. Seria um caminho seguro, eu poderia herdar seu legado de respeitabilidade. Mas nessa altura, ele já entrando na meia idade, certamente se questionava se não teria sido melhor ele próprio ter seguido um caminho menos árduo. Então, quando eu tentava conversar com ele sobre a residência, ele se dispunha a se empenhar em me ajudar a conseguir uma vaga onde eu quisesse, mas não opinava sobre a especialidade.

Não era só o desgaste físico de ficar dez horas praticamente o tempo todo de pé, de às vezes não conseguir almoçar, de esquecer de beber água, de fazer as necessidades. Era também o risco de contaminação, o alto nível de estresse, a possibilidade de um erro custar uma vida, como no caso da Laura.

O contraponto era meu desempenho. Eu era boa. Gostava de aprender, de ver na prática as situações que havia estudado nos livros. Minha habilidade em executar procedimentos que nem nos cadáveres eu havia praticado era frequentemente reconhecida. Porque a medicina requer, sim, muita habilidade com as mãos: precisão no corte, na pressão, força na medida certa na pega, sensibilidade na ponta dos dedos para perceber a aproximação de um órgão, de um tendão. É uma espécie de dom de que eu era depositária. Nem todos os estudantes de medicina são, nem todos os médicos já formados se tornam.

Havia também minha capacidade de intuir diagnósticos a partir de indícios observados no exame clínico e de extrair informações dos pacientes com imensa perspicácia.

O doutor Robinson me chamava de bruxa e me convocava frequentemente, estivesse eu onde estivesse. De vez em quando me perguntava se eu já havia decidido por alguma área, dizia que eu me daria bem em qualquer especialidade, que era a melhor interna que ele já havia acompanhado.

Eu só sabia que não queria a pediatria. Nem a ginecologia. Nem crianças, nem partos. Se não indicavam caminhos, ao menos meus desejos negativos apontavam com assertividade os percursos a serem evitados.

O Rodolpho foi o catalisador da minha escolha.

Estávamos comendo e bebendo alguma coisa depois do plantão, o Sylvio não estava. Eu comentava eufórica os mistérios que havia resolvido no dia: o diagnóstico de sífilis de uma jovem, pouco mais velha que eu, em visita ao PS pela terceira vez com queixas de dores articulares e nenhum diagnóstico dos médicos; um velhote com queixas de desorientação e tonturas por causa da sinergia entre medicamentos receitados por especialistas de diferentes áreas que eu tive a perspicácia de arguir enquanto o examinava.

Que atender na clínica era tedioso, que no PS eu me sentia viva e útil e capacitada, eu dizia. Ele me ouvia no modo queixo projetado para frente com os lábios entreabertos e quando acabou meu assunto segurou minhas mãos e me perguntou muito sério.

“Você tem consciência que só dá conta da adrenalina, dos riscos de errar, do sangue, pus, urina, baba, por causa das anfetaminas que eu deposito na sua garganta toda vez que você desce pra emergência médica?”

Foi a única vez que ele nomeou o que havia na garrafa cor de abóbora.

“Você não precisa disso, Pequena. Você vai se dar bem em qualquer área. É sério. Posso te ajudar a arranjar um lugar na clínica de cardiologia. Pensa bem, na cardiologia você vai acompanhar os pacientes, prevenir infartos e AVCs, evitar que as pessoas cheguem no estado que você trataria na emergência. Antes da catástrofe. Combina muito mais com o seu perfil, pequenita. Eu mesmo estou pensando em mudar de área.”

Ele tinha razão. Na verdade, ele apenas repetiu o que eu havia dito mais de uma vez a ele, de diferentes formas, logo que nos conhecemos. A minha ambivalência essencial em relação à medicina. O gosto genuíno pelo conhecimento do funcionamento do corpo em contraste com a crença muito íntima de que a vida não valia certas categorias de esforços para preservá-la. Que lutar pela vida em certas situações sujeitava o doente, em algumas circunstâncias, a indignidades. Além da gana meio neurótica, quase um pânico, de fugir diante da percepção do sofrimento alheio, quando não estava amortizada pelas drogas.

Nesse dia, o Rodolpho também sugeriu a geriatria não só por causa da minha assertividade do dia no diagnóstico do velhote over medicado, que havia rendido um elogio público do Dr. Robinson no final do plantão, mas pela paciência que ele observava em mim no atendimento aos idosos. A geriatria era uma área nova e promissora na época. Mas não era para mim. Eu ia querer abreviar a esquiva da morte de todos.

Minha atenção aos velhinhos era mais uma forma de prestar tributo à minha avozinha, Alguns lutos nunca se encerram.

 

26.

[Jefferson]

 

Comecei a namorar o Jefferson no primeiro ano do internato.

Ele estudava direito, nessa altura estava no último ano, perto de se formar. Desde que se entendia por gente queria ser juiz — e não demorou a se tornar.

Acho que o que me pegou quando nos revimos numa festa de cinco anos de formados da turma do ensino médio, foi essa convicção, esse desejo tão próprio, tão autoral, e tão direcionador. O pai dele era jornalista, a mãe professora, direito na época não era uma profissão tão prestigiosa, talvez até fosse, mas não entre nós estudantes de um colégio de ensino médio de elite à época, divididos majoritariamente entre a medicina e as engenharias.

Ele era como os meus irmãos, tão diferente de mim, uma espécie de identidade concebida na infância construindo um projeto de futuro, sem distrações, sem hesitações.

 

Na ocasião do nosso reencontro, eu estava mergulhada na minha “crise da maioridade”: seguir ou não a medicina? Ou melhor, como seguir na medicina dado o meu horror ao sofrimento e a sua falta de sentido ante a inexorabilidade da morte? Porque eu sabia, mesmo sem saber, que não teria coragem de desistir da medicina, então a minha questão era como dar conta dessa contradição íntima, indizível à época, sequer compreensível com a clareza de agora.

O fato é que opostos se atraem. Nossa química foi instantânea, quero dizer, a do Jeff, a princípio. Mas tenho que admitir que acolhi seu interesse com um entusiasmo crescente, as pequenas delicadezas, do tipo aparecer no clube onde eu nadava para assistir às minhas braçadas da mini arquibancada, me encontrar no intervalo das aulas levando sanduiches que ele mesmo havia preparado. Ao final de algumas semanas adornadas por esses mimos, éramos namorados.

Estar com o Jeff, sair com ele, com os amigos dele, também estudantes de direito, era muito bom para mim. Alienar-me da medicina, eventualmente à noite, durante os finais de semana, na praia, no cinema, em viagens curtas, arejava minha rotina massacrante, das aulas, dos pacientes, da luz branca e do cheiro a éter e desinfetante dos corredores do hospital universitário.

O Jeff era corredor e me introduziu no mundo maravilhoso da corrida de rua. Troquei a natação, mais trabalhosa — banho antes e depois, maiô, creme no cabelo, touca, óculos, prancha, pé de pato, sabonete, toalha — pelas corridas — só o tênis e um short. Às vezes voltava do hospital para casa correndo, um pouco mais de cinco quilômetros, o jaleco na mochila às costas, a tensão do dia craquelando ao impacto das passadas no asfalto ou no concreto das calçadas.

A corrida era uma espécie de shot.

27.

[Jefferson II]

 

Quando conheci o Rodolpho, o Jefferson já estava formado, trabalhava em um escritório de advocacia e estudava para ser juiz. Não sobrava muito tempo para o namoro, além das noites de sábado e, uma vez ou outra, aos domingos, uma ida ao cinema ou à praia ou um almoço em família.

Ele conheceu o Rodolpho e o Sylvio em um desses nossos domingos de praia e passou a encorajar ainda mais nossa amizade. Na verdade, ele encorajava todas as minhas amizades, assim como qualquer pessoa ou coisa de que eu gostasse, ou me interessasse, ou que me fizesse bem, ou me distraísse. Qualquer coisa que me ocupasse no pouco tempo que eu tinha disponível, que ainda assim era maior que o dele, totalmente preenchido com seu projeto de se tornar juiz e ter a vida resolvida antes dos trinta.

Na residência e, antes, no internato, meus plantões terminavam às cinco, embora sempre se estendessem um pouco — ou muito — com as atualizações dos prontuários e a passagem para o plantão seguinte. Os horários dos plantões eram planejados para roubar-nos a todos pelo menos uma hora a mais de trabalho por dia.

Raramente eu voltava direto para casa. Os cinco quilômetros correndo nem sempre eram uma opção, porque na maior parte dos plantões eu ficava muito tempo de pé e ao fim do dia as pernas precisavam descansar. Às vezes ia direto para o clube, nadava dois mil ou três, a cabeça contando as bordas e o ritmo das braçadas, o cheiro do cloro expulsando o fedor do hospital do corpo, chegava em casa depois que a família já havia jantado, comia sozinha um pratão da comida boa da Joana, nossa empregada, convivia um pouco com meu pai, minha mãe, minha irmã, meus irmãos, quando estavam, e subia para o meu quarto. Nessa época, nós vivíamos em uma casa de quatro quartos: enfim, aos vinte e dois, eu tinha meu próprio quarto e alguma privacidade.

Se não tinha disposição nem para nadar nem para correr, saia direto do plantão para um dos botecos ao redor do hospital, com ou sem os rapazes, para um esquenta antes de algo já combinado, ou algum programa improvisado, ou simplesmente conversar fiado e descarregar a adrenalina, ou o tédio, do dia. Com o passar do tempo essa terceira opção foi ficando cada vez mais frequente.

Não sei se era o rebote do shot que eu tomava praticamente todos os dias, ou a liberdade que o Jeff me dava — ou a falta que sua ausência fazia — ou o contato com o corpo dos pacientes, sua escatologia, os fluidos, as vísceras, a dor, o desamparo. Só sei que o sofrimento de que eu, anestesiada, me protegia, se acumulava no meu corpo e eu precisava de algum modo liberá-lo. Como a um músculo estressado após um treino pesado.

O fato é que o que haviam sido beijos descompromissados e amassos na adolescência iam muito além nessa época. Nem sempre, não que eu aceitasse qualquer coisa, mas eu não tinha muitos critérios, me deixava ir com quem se mostrava interessado por mim.  Experimentei muitas coisas nessa época e não me orgulho nem um pouco disso.

Não por ter traído o Jeff, não me sentia o traindo. Era de fato só o meu corpo, um corpo como os que eu cortava nas aulas de anatomia ou auscultava mecanicamente na clínica. Mas sempre me protegia, a pele como um invólucro do que eu sentia. O Jeff ficava em outro lugar, dizer que no coração seria uma metáfora boba, eu sabia bem, e cada vez mais, o que um coração era.

Um músculo que bombeia o sangue não importa o que a gente sinta.

Eu tinha um sentimento de família com o Jeff, sentimento de “para sempre”. A mesma coisa, quase, que eu sentia com o Rodolfo e o Sylvio.

Se não me orgulho dos meus excessos, me orgulho muito de ter mantido minha amizade com eles livre da contaminação, às vezes fatal, que o sexo inocula no relacionamento entre amigos. Uma vez fui eu quem recusei uma insinuação muito leve do Sylvio de que eu me juntasse a eles numa farra no apartamento de um amigo comum. De outra vez foi o Rodolpho que me mandou embora para casa suspendendo com rispidez o único beijo que houve entre nós.

Até hoje passo os dedos nos lábios quando penso no que poderia ter sido se aquele beijo tivesse prosperado.

 

28.

[Bernadete]

Conheci-a no metrô. Aparentava ter a mesma idade que eu, cabelos curtos, enrolados, óculos escuros no rosto. A pele lisa, diferente da minha, marcada pela acne, que uma vez por mês explodia ora no queixo, ora no nariz, às vezes apenas na testa, outras no rosto todo, me chamou atenção. Encostada a uma das portas, eu, na diagonal, encostada na outra, nos encarávamos: ela protegida pelos óculos; eu em desvantagem. Descemos na estação Afonso Pena pela mesma porta, ela às minhas costas.

Se eu estava indo para o hospital, ela perguntou com uma voz rouca sussurrada, o sotaque nordestino aveludado, atrás de mim, na escada rolante.  Virei-me de lado: falou comigo, perguntei.  Ela sorriu de leve por baixo dos óculos, os incisivos, grandes, e os caninos muito perfeitamente alinhados.

Seguimos conversando até o hospital. Ela me contou que tinha vindo do Recife para um estágio de capacitação em HIV. O hospital tinha um programa, financiado pelo Ministério da Saúde, cuja finalidade era capacitar médicos e estudantes para criação de centros de tratamento nos estados. Ela era ginecologista e obstetra e seu interesse e missão tinham a ver com os protocolos de prevenção da transmissão vertical do vírus.

Era o segundo dia dela no hospital, o terceiro no Rio, e, antes de nos despedirmos, ela sugeriu nos encontrarmos no fim do dia para eu lhe dar umas dicas do hospital, da cidade, das pessoas. Eu disse que sim, mais por educação, indiquei a direção do boteco onde eu costumava ir, ela disse que não bebia, sugeriu uma Casa do Pão de Queijo ao lado da estação e eu quase me arrependi de ter aceitado encontrá-la.

Mais que seus olhos azeitonados, fundos, grandes e emoldurados por magníficas sobrancelhas negras, o fato de ela ser uma médica vocacionada desde muito pequena fez crescer o meu interesse por ela naquele começo de noite úmido e quente, entre tediosos pães de queijo e Coca-Cola.

Foi tudo muito rápido. Em determinado momento da conversa, porque eu me contorcia na cadeira e ela me perguntou o motivo, comentei sobre umas contraturas na cervical e no trapézio que havia uns meses me atormentavam. Ela disse que era massoterapeuta além de médica e me convocou a acompanhá-la ao apartamento da tia solteirona em Vila Isabel, onde ela estava hospedada. Compramos uma pizza no caminho. A tia estava viajando, um cruzeiro pelo Caribe, se não confundo as memórias, três gatos circulavam pela sala. Ela perguntou se eu me importava em tirar a blusa, pediu que eu abrisse o botão e o fecho da calça e mandou que eu me deitasse de bruços no sofá. Tive uma crise de espirros instantânea por causa do pelo dos gatos e ela achou melhor irmos para o quarto.

No quarto, ela pediu licença para desabotoar meu sutiã e deslizou pelos meus braços as alças. Óleo ou creme, perguntou; respondi óleo. Ela recolheu meu cabelo com delicadeza e o prendeu com um elástico e eu pensei na minha mãe, no meu ressentimento em criança por ela nunca ter feito em mim um penteado, como os que fazia nos longos cabelos dourados da filha a nossa vizinha de baixo.

Eu nunca havia recebido uma massagem. As mãos firmes e quentes deslizando nas minhas costas, subindo até a nuca, descendo pela coluna em direção ao cóccix, eu ia nominando os músculos na minha cabeça, ela avançava pela lateral do meu corpo, pelos glúteos, tudo é interligado, repeli a hipótese de que houvesse a intenção de algo além de uma inocente massagem. Quando ela pediu que eu virasse de frente, obedeci, mal cobrindo os seios com o braço por recato. Ela pegou uma toalhinha minúscula, de mão, para me cobrir, para você ficar mais à vontade, disse, e seguiu deslizando as mãos pelos peitorais, braços, abdômen pelve, e de novo, por baixo da toalhinha, apalpando meus mamilos, até que eu não pude mais simular a inocência de quem recebia como simples terapia o que obviamente era vontade.

Descerrei os olhos, os lábios entreabertos dela brilhavam; tornei a fechá-los. Interromper seria mais custoso do que deixar rolar. Não era desagradável, nem extraordinário. Era só o meu corpo, ou melhor, minha pele, cujas células iriam resistir por até vinte e quatro horas depois de o meu coração parar de contrair e relaxar.

Nos dias seguintes, evitei como pude cruzar com ela pelos corredores do hospital. Sua tia já havia voltado de viagem quando ela me procurou com dois convites para um show do The Cure no Hollywood Rock. Eu hesitei, menos pelo The Cure do que pelo modo suplicante com que ela me fitava, as sobrancelhas muito grossas e despenteadas me causando uma espécie de asco, em contraste com o impulso de protegê-la em seu desamparo. Que ia em uma festa com meu namorado, eu disse antes que a compaixão me fizesse voltar atrás.

Ela insistiu mais algumas vezes. Eu sempre dava um jeito de escapar.  Se tivesse certeza que seria só pele, talvez me deixasse capturar.

29.

[Junior]

Estava no meio de uma reunião no hospital quando minha irmã ligou. Recusei a ligação uma vez, duas, só na terceira chamada me dei conta de que devia ser algo urgente porque minha irmã nunca me ligava durante o dia; mesmo à noite, suas ligações eram raras. Pedi licença e fui atender no corredor, do lado de fora da sala. Até que enfim você atendeu, ela disse. A mãe morreu, emendou sem pausa. Senti um enjoo instantâneo seguido de uma fraqueza nas pernas. Encostei-me à parede temendo uma queda, ouvindo a voz da minha irmã, distante, contar que a mãe havia se queixado de dores no abdômen na véspera e que a Joana estranhou que ela ainda estivesse na cama ao chegar às oito para trabalhar e que o médico do SAMU não soube estimar a hora do óbito. Passavam alguns minutos das dez.

Minha mãe tinha oitenta e três anos, a morte sempre surpreende ainda que chegue com brandura e na hora certa.

Retornei à reunião apenas para informar que não estava me sentindo bem. Avisei minha assistente e o chefe. Em casa, comprei bilhetes para voarmos os três para o Rio à noite. Não faltei ao cabeleireiro e à manicure que estavam marcados. Cada um nega o horror da morte a seu modo.

Quando entrei em casa, com as unhas feitas e o cabelo escovado, o Jeff estava na cozinha preparando um macarrão. Serviu-me uma dose de whisky e disse que minha mãe ia fazer muita falta, emprestando à minha relação com minha mãe atributos da relação dele com a sua, minha sogra. Abracei-o chorando as primeiras lágrimas pela minha mãe, que desde sempre me fizera falta.

Não comentei com ele os sinais que notara na última vez em que estive com ela. Seria constrangedor e inútil comentar agora. Profecia em retrospecto, como se eu fosse uma criança com habilidades mágicas, como sempre ele pensaria, embora dessa vez talvez não dissesse.

Vestida de azul, o semblante da minha mãe, tão serena, me lembrou o da minha avó, e eu nem achava que as duas se parecessem tanto. Seu corpo, livre da alma raivosa que o animava, assumiu sua verdadeira forma. Fiquei olhando seu rosto, um luto se sobrepondo ao outro e as lágrimas vieram. Ainda bem. Era a primeira perda que o Junior, meu filho, experimentava, era bom que ele soubesse que nossos corpos merecem se aliviar em lágrimas pelos nossos mortos. Para que a raiva não se acumule nos músculos, enrijecendo a coluna, sulcando em rugas os nossos rostos.

 

22 comentários em “ER 2 – Saber Perder (Elisa Ribeiro)

  1. gkolisch
    30 de maio de 2026
    Avatar de gkolisch

    Gostei demais da sua escrita, achei muito bonita e bem arranjada. Também achei que os capítulos curtos funcionaram muito bem, com você criando um arco que se fechava ao final deles. E acho que gerou um ritmo de ficar difícil parar de ler por ser tão dinâmico e com encerramentos com impacto. 

    Gostei muito também dos arremates que você dá com trechos que planta antes. Acho que você acerta bem nos tempos disso. Como por exemplo o de “querer matar não é matar, mas quase” e depois com o aborto

    Uma das frases que me pegou:

    “Pela segunda vez, a morte me atingiu com sua concretude feita de nada”

    Gostei do começo, o capítulo um começa com sensação de rotina e só descrições e termina com um belo baque que já fisga para ler o seguinte.[

    No ritmo geral do texto, achei que flui muito bem, mas lendo até agora eu não consegui ter uma ideia de para onde a história vai, sobre o que é exatamente (pra além de ser sobre ela). Mas não tenho clareza do conflito central da história.

    Como um todo eu gostei muito e achei até difícil de comentar mais pontos do texto. Parabéns por esse começo.

  2. André Lima
    27 de maio de 2026
    Avatar de André Lima

    CRÍTICA APÓS LEITURA DA PRIMEIRA ETAPA

    Acho que esse foi um dos romances do desafio que mais me prendeu, se não foi o que mais conseguiu isso. A voz narrativa é o maior trunfo do texto, e é uma voz que chegou pronta, com uma maturidade de dicção que não precisa se provar a cada parágrafo. A narradora fala com a segurança de quem já processou muito do que está contando, mas sem a distância fria de quem se protege demais. Há uma intimidade precisa aqui que é muito difícil de alcançar. Eus implesmente adorei.

    A estrutura em fragmentos numerados e subtitulados funciona muito bem para o que o romance propõe. A vida não é narrada em ordem cronológica, mas em camadas de sentido, onde um episódio da infância ilumina algo da faculdade, onde o suicídio do Ada ecoa na mort da avó, onde o dedo chupado aos cinco anos reaparece aos quinze depois da desilusão amorosa. Você confia na inteligência do leitor para fazer essas conexões sem que o texto as explicite! Isso é um show de não-exposição.

    O fragmento da tentativa de atropelamento que abre o romance é um dos melhores inícios do desafio, sério. A morte ganhando concretude antes de ser abstração, o ônibus passando com só o vento nas costas, o vazio entre a garganta e o tórax, tudo isso estabelece imediatamente o tom e o território do romance. E a conclusão de que vai morrer atropelada numa via de mão dupla, que se tornará tanto fatalismo quanto estranha proteção contra outros medos, é uma imagem extremamente original. Aliás, tudo aqui é original.

    A relação com a avó é o coração emocional da primeira parte. Você a construiu com contenção absoluta, nunca sentimentalizando, e isso a torna devastadora, justamente porque não cai no piegas. A narradora que fica em casa para proteger a avó dos fins de semana na praia, que racionalizou o gesto como conveniente para todos, mas que anos depois vai precisar imaginar conversas com a morta porque nunca conseguiu tê-las com a viva. O detalhe da boneca de corda guardada no armário de mogno, pergunta que nunca foi feita e agora nunca terá resposta, são imagens muito bem construídas.

    A teoria sobre a mãe e o aborto tentado é o trecho mais arriscado do romance até aqui.

    A passagem pelo Ada e pela biblioteca de suicídio é conduzida com muito cuidado. Você conecta a leitura obsessiva sobre o tema à culpa da avó e cria uma teia emocional que é boa, mas senti falta de um tiquinho mais da sua habilidade poética já demonstrada. Queria mais peso poético nessa parte, ela merecia!! A narradora não está em crise, está pensando. E pensar sobre a morte como possibilidade que tranquiliza, como saída que existe e portanto não precisa ser exercida agora, é um clichê do gênero (Ainda mais dado todo o sentido do texto até aqui) que acho que você acabou abordando de maneira original, sem aquela dramatização excessiva.

    Os fragmentos da medicina chegam com outra textura, mais externa, mais corporal, mais técnica, e isso funciona como contraste necessário depois da intensidade introspectiva dos capítulos anteriores. Essa ruptura foi bem-vinda, ironicamente trouxe leveza para mim.

    O romance por ora existe quase inteiramente dentro da narradora. Isso é uma escolha legítima e coerente com o gênero, há outros romances desse desafiuo que arriscam com o mesmo, Acredito que, na segunda etapa, você vá precisar de alguma presença que ofereça resistência real a essa voz, por enquanto, em termos narrativos está tudo dentro do ensaio. Os homens da vida dela, o Roberto, o namorado oficial, o Rodolpho e o Sílvio que aparecem no último fragmento, chegam e vão sem muito peso individual. O Ada é o único que ficou, e ficou porque morreu kk. Talvez valha pensar em quem mais pode existir no romance com presença própria, não apenas como gatilho emocional da narradora. Entende? Todos por enquanto estão parecendo aspectos de uma personagem (A narradora) e não personagens próprios. Se for proposital, acho que você até construiu isso muito bem e num espaço que a estrutura narrativa ainda suporta, mas fica aqui como dica para a próxima etapa que TALVEZ estejamos atingindo o limite disso.

    O fragmento sobre querer matar o Roberto no hotel é o único momento em que senti o texto perder um pouco o equilíbrio. Não pela crueza do pensamento, que é válido e honesto, mas pela rapidez com que passa. A narradora menciona que entendeu o que faz uma pessoa cometer um crime passional, que seria fácil rasgar a carótida, e segue em frente. É uma fissura enorme que o texto trata quase como parêntese. Pode ser que isso seja proposital, que a narradora também não queira ficar nisso. Mas se for, vale que o texto sinalize a fuga de forma mais consciente. Mas ainda gostaria de ver essa parte mais bem elaborada, então gostaria de sugerir que você usasse algumas palavras da segunda etapa pra dar mais corpo a essa passagem!

    APANHADO GERAL

    É um romance com uma voz literária madura, formada. A narradora existe com completude. A forma fragmentada que você escolheu, com seus títulos entre colchetes funcionando quase como títulos de capítulos de um álbum, cria uma estrutura que tem ritmo próprio.

    O que o romance tem de mais valioso é a inteligência emocional sem sentimentalismo. A narradora sofre, erra, fantasia, mas nunca pede ao leitor que a salve ou que a condene. Ela se observa com uma ironia que é genuinamente literária, sem cair no piegas.

    A segunda etapa vai precisar decidir para onde o romance quer ir do ponto de vista narrativo. Até aqui é uma arqueologia da formação de uma mulher, rica e precisa. Mas o leitor começa a querer saber o que está em jogo agora, no presente da narradora adulta. Vejo alguma urgência em termos de estrutura narrativa.

    Parabéns, Elisa! Excelente trabalho até aqui!

  3. cyro eduardo fernandes
    26 de maio de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    A narradora tem uma voz analítica e irônica. O texto soa natural, com detalhes que indicam que pode ser uma obra de autoficção.

    A trama é bem desenvolvida, com um dilema filosófico sobre o que não se quer em detrimento aos desejos. Os primeiros namoros são descobertas planejadas, o afeto é secundário. Demonstra uma maturidade da protagonista.

    O embate entre a vida e a morte é exposto tanto com a frieza da medicina, como o quase atropelamento, a perda da avó e a tentativa de aborto.

    É um texto que descreve bem várias imagens … serão estas aproveitadas nos próximos capítulos ou apenas apagadas?  Vamos aguardar.

    Boa sorte, Elisa!

  4. Canibalismo Cultural
    25 de maio de 2026
    Avatar de Canibalismo Cultural

    A relação da narradora com a morte me lembrou muito Os sofrimentos do jovem Werther, que inclusive aparece citado no próprio texto, principalmente nessa ideia de transformar sofrimento emocional em obsessão quase filosófica. 

    Interessante como o texto trabalha o “desejo negativo”. A personagem parece existir sempre pela recusa: não quer casar, não quer filhos, não quer repetir a vida da mãe. Isso lembra muito certas personagens da Clarice Lispector, principalmente nessa tentativa de se definir pelos vazios e pelas inquietações internas, mas sem copiar o estilo dela. Tem uma identidade própria, mais seca e direta.

    A parte do Ada foi uma das mais fortes pra mim. O sonho da menina loura e depois a confirmação no velório cria uma sensação de presságio, quase sobrenatural, mas ao mesmo tempo parece só a mente da narradora tentando organizar a dor. Gostei porque o livro nunca entrega totalmente se esse “superpoder” existe ou se é apenas uma construção psicológica dela.

  5. Priscila Pereira
    22 de maio de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Elisa! Tudo bem?

    Gostei demais do começo do seu romance!! Ia ler só alguns capítulos e quando vi já tinha terminado! Nada como achar o seu público alvo, heim?!

    A história é muito interessante! Eu amei a forma como você escolheu pra contá-la. Essa colcha de retalhos que vai se juntando, esse quebra cabeça que vai revelando bem aos poucos a protagonista.

    Sobre a protagonista, não sabemos quase nada de concreto sobre ela, além do fato dela ser meio doidinha… gostei bastante da personalidade ambígua dela, nem totalmente boa, nem má, completamente humana. Mil em uma!

    Gostei especialmente do fato de não ter ainda ideia sobre o que é o seu romance! Genial isso! E a escrita está tão boa, tão autoral, com tanta personalidade que eu seguiria lendo o romance inteiro sem precisar saber do que exatamente se tratava.

    Fiquei com vontade de roubar uma de suas frases para o meu livro, ficaria perfeita! ” Sentir vontade de matar uma pessoa não é o mesmo que ser um assassino. Mas é quase.” Posso???? 😁

    Como sugestão, se você quiser dar mais potência ao início, prender a atenção do leitor mais desavisado, mais chatão… poderia começar com o número 17… acho que ele foi a essência desse seu começo.

    Com certeza vou seguir lendo o seu livro nas próximas etapas!

    Parabéns por ter encarado esse desafio!

    Até a próxima!

  6. toniluismc
    19 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, bons dias!

    Conforme eu havia indicado, venho trazer a análise técnica do texto. As frases ficam na terceira pessoa, pois são resultado de uma construção ao longo do processo de leitura. Espero que seja útil.

    O texto tem qualidade verbal. A prosa é limpa, bem revisada, madura, com bom controle de ritmo e imagens. O problema não é redação. O problema é pacto narrativo.

    A obra começa com uma narradora adulta reorganizando a própria vida por blocos de memória: morte, avó, desejo negativo, namoro, Ada, suicídio, culpa, medicina, corpo, vocação, maternidade, aborto, violência íntima, hospital. Há uma espinha temática clara. A autora não está escrevendo aleatoriamente. O problema é que, nos dois primeiros capítulos, a narrativa entrega muita reflexão e pouca cena em tensão presente.

    Para uma primeira entrega de romance, o texto demora a criar desejo narrativo. Ele cria atmosfera, inteligência, densidade íntima, mas não cria com a mesma força uma pergunta dramática que empurre o leitor. O leitor entende que a narradora é complexa; demora mais para entender qual é o conflito romanesco.

    Capítulo I — intensidade, mas excesso de interioridade

    O capítulo é denso e tem material forte: o quase atropelamento, a avó moribunda, a morte como experiência concreta, o “desejo negativo”, os namoros precoces, a paixão por Ada, o sonho com Isabela, o retorno ao ato de chupar o dedo e a morte/suicídio de Ada. O capítulo não é vazio. Pelo contrário: é cheio demais.

    A estrutura em fragmentos numerados ajuda a organizar essa avalanche, mas também reforça a sensação de que cada trecho é um pequeno ensaio autobiográfico. Cada bloco tem começo, formulação e fechamento próprios. Isso dá acabamento, mas dificulta o acúmulo dramático. O capítulo parece menos uma sequência de ações que se pressionam e mais uma coleção de memórias interpretadas pela narradora adulta.

    O melhor eixo do capítulo é a relação entre morte e controle. A quase morte na avenida produz a certeza premonitória de que ela morrerá atropelada; a morte da avó inaugura culpa e alívio; Ada desloca a morte para o campo do desejo, da perda amorosa e do suicídio; o “superpoder” de saber o que não está dado surge como forma de organizar o caos. Isso é forte. O problema é que o texto explica muito bem esse sistema, às vezes bem demais.

    A narração é associativa, retrospectiva e não linear. Sobre a ausência de nome da protagonista. O nome não é obrigatório. Mas é legítimo dizer que a narradora demora a se ancorar como figura romanesca. Sabemos muito sobre suas ideias, culpas, memórias e padrões afetivos; sabemos menos sobre sua presença concreta no mundo.

    Capítulo II — mais orgânico, mas ainda sem atrito dramático suficiente

    Aqui há uma correção importante ao meu comentário: eu disse que talvez fosse necessário inserir a perspectiva do adulto. Mas depois percebi que a perspectiva adulta já está presente o tempo todo. A narradora está reinterpretando a adolescência a partir de uma consciência posterior. Ela sabe nomear culpa, desejo negativo, improdutividade da culpa, vazio, vocação, depressão puerperal, ausência de desejo próprio.

    O problema não é falta de perspectiva adulta. O problema é que essa perspectiva adulta às vezes domina demais e deixa pouca margem para conflito vivo.

    O Capítulo II é mais orgânico porque as partes se conectam melhor: Ada morre; ela passa a ler sobre suicídio; procura Padre Josef; começa a pensar no suicídio como possibilidade; depois entra na escolha da medicina e na teoria sobre a mãe. A progressão temática existe: morte → culpa → religião → suicídio como controle → ausência de vocação → medicina como desejo herdado → origem familiar do desamparo.

    A cena com Padre Josef é uma das melhores porque finalmente há outro corpo, outra presença, outra voz interferindo no mundo interno da narradora. Mesmo assim, a cena ainda é mediada por muita interpretação posterior. O padre não se torna exatamente um personagem em conflito com ela; ele é mais uma figura que valida, acolhe e intensifica sua interioridade.

    O capítulo trata de experiências intensas, mas a forma de narrá-las tende ao resumo reflexivo, não à dramatização. A narradora explica o que aquilo significou para sua formação, mas raramente deixa a cena se desenvolver com resistência, diálogo, ambiguidade ou consequências imediatas.

    Capítulo III — o texto finalmente ganha corpo romanesco

    O Capítulo III tem mais potencial de romance. Isso acontece porque a narrativa sai um pouco do circuito mental adolescência-morte-avó-Ada e passa a colocar a protagonista em ambientes mais concretos: laboratório de anatomia, faculdade, namoro, hospital, residência, relação com colegas, Mariângela, Rodolpho e Sílvio.

    Aqui o texto ganha mundo. O cadáver, a luz fluorescente, o formol, o professor sádico, o jaleco, o namoro com Roberto, a hipótese de violência, a mãe, a paciente com sepse puerperal, a residência, os “shots”: tudo isso dá material dramático. A narradora deixa de apenas refletir sobre a morte e passa a conviver profissionalmente com corpos, pacientes, falência física e horror institucional.

    Por isso a minha sugestão de inverter a ordem. Não necessariamente começar pelo Capítulo III inteiro, mas talvez começar com uma cena de maior concretude — cadáver, hospital, residência, paciente, plantão — e depois recuar para infância e adolescência. O romance ganharia uma promessa mais clara: quem é essa médica? Por que a morte a organiza tanto? Por que ela suporta cadáveres, mas não suporta corpos vivos sofrendo?

    O Capítulo III também mostra melhor a contradição central da protagonista: ela se diz feita de desejos negativos, mas vive sendo conduzida por desejos alheios. O pai deseja medicina; Roberto impõe repertório; a mãe aparece como hipótese de rejeição original; Mariângela vira espelho de uma coragem que ela não tem. Aqui a personagem deixa de ser apenas “uma adolescente intensa” e se torna uma mulher em conflito com a própria vida escolhida por inércia.

    Resumindo: O texto tem alta qualidade de frase e um projeto temático consistente, mas os dois primeiros capítulos priorizam retrospecto, tese íntima e organização de memória em detrimento de cena, conflito e promessa narrativa. O Capítulo III funciona melhor porque encarna os temas em situações dramáticas concretas.

    A minha sugestão não é “escreva algo mais comercial”. Estou dizendo: o material romanesco aparece tarde.

    Obviamente a narradora não precisa escrever o romance que o leitor quer, mas este também não tem obrigação de fingir engajamento onde a narrativa não o produziu.

    Espero que eu tenha conseguido ser mais claro desta vez. Um abraço e até a próxima!

  7. Kelly Hatanaka
    19 de maio de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    Li esta sua primeira parte um tanto irritada porque tive que interromper a leitura para ir à aula de teatro. Não queria interromper. Tive receio de espantar a protagonista, como se eu a estivesse vigiando em segredo.

    Seu romance parece ser, e digo parece ser porque tudo pode mudar nas próximas partes, mas até agora, são os pensamentos verdadeiros e livres de pudor da protagonista sem nome. Despudor, que palavra linda!

    Seu texto teve sobre mim o mesmo efeito do Caderno Proibido, da Alba de Cespede. Vou lendo e encontrando pedaços de mim, me identificando com as coisas mais estranhas e me surpreendendo com estes momentos.

    Poderia ser que um texto assim, um fluxo de pensamento, fosse difícil de manter por um romance inteiro, mas esta história tem pontos extremamente complexos. Muita coisa a explorar. A relação com a mãe e o sentimento de não ter sido desejada, a culpa com relação às escolhas da mãe, a ausência da avó, a morte e o suicídio, o superpoder de adivinhar o que ainda não se deu, o amor e o sexo vivenciados de forma tão caótica e, por fim, as drogas.

    Em partes, seu texto me lembrou também A Pediatra, de Andrea del Fuego, mais pela liberdade dos pensamentos. Mas, ao contrário de Cecília, que não tem nenhuma empatia ou consideração pelo próximo, aqui a protagonista parece sofrer de um excesso de empatia. Sente as dores da avó, sente as dores da mãe, parece ser um grande radar de sentimentos, o que, talvez, explique seu superpoder.

    Penso que talvez seu texto dialogue melhor com mulheres. Não sei. Foi o que pensei com o Caderno Proibido. Gostaria muito de conversar com um homem que o tivesse lido para saber como foi a experiência. Porque aqui, no seu texto, senti uma forte identificação, como olhar para um mundo estranho e achar a casa do meu vizinho. Será que é assim com todos? Ou melhor, com todas?

    Não acredito em “literatura feminina” ou “literatura masculina”, mas acho que alguns textos e temas falam mais fortemente com o universo masculino ou feminino. E tudo bem, não é uma crítica. Só um achismo. Meu texto neste desafio também, creio que conversa melhor com mulheres.  

    Gostei demais do seu texto. É denso e forte e, ao mesmo tempo fluido e íntimo.

    Ah, só uma correção meio besta. A História da Riqueza do Homem foi escrita por Leo Huberman. Edward Burns escreveu História da Civilização Ocidental.

    • Canibalismo Cultural
      19 de maio de 2026
      Avatar de Canibalismo Cultural

      Kelly amo seus comentários e análises literárias. Eu também lembrei do livro A Pediatra da andrea, adoro ela.

      Mudando um pouco o assunto te acho uma diva, muito queen. Amei seus óculos 🫶🏼

      • Kelly Hatanaka
        19 de maio de 2026
        Avatar de Kelly Hatanaka

        Ah, obrigada!!!! ❤️

        Você está no grupo de Whatsapp? Entra lá!

      • Thales Soares
        19 de maio de 2026
        Avatar de Thales Soares

        Ei, Canibal da Cultura. Eu convoco você para fazer uma visita lá no meu texto, Dicotomia do Dragão. Aprecio muito seus comentários. E pode me chamar de King, se lhe convir 😜

      • Canibalismo Cultural
        19 de maio de 2026
        Avatar de Canibalismo Cultural

        Vou ler divo ❤

  8. GIVAGO DOMINGUES THIMOTI
    11 de maio de 2026
    Avatar de GIVAGO DOMINGUES THIMOTI

    Saber Perder | Autor(a): Elisa Ribeiro

    Fase de Leitura: [Ex: Capítulos 1 a 3 / 21]

    Data: 11/05/2026

    I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS

    Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.

    Saber Perder” é um romance intimista, escrito em primeira pessoa (acho que foi a primeira vez entre esses romances que li uma história assim… curioso né?) sobre uma mulher que, de certa forma, repassa sua trajetória de vida e sua dificuldade com perdas, com o desejo (tanto em desejar quanto ser desejada) e com o peso de suas escolhas.

    É uma leitura muito boa. Um romance direto (talvez até demais), intimista e me deixou com uma baita vontade de escrever. Sim, ler também, mas principalmente escrever. Algo parecido, mas que fosse meu. 

    II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)

    Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.

    1. Arquitetura do Enredo e Ritmo

    • ✨ Pontos Fortes: [O que já funciona na estrutura da trama? O gancho inicial é forte?]
      • Penso que a estrutura de capítulos curtos e focados no pensamentos intimistas da personagem está muito boa. Dá uma roupagem muito única a esse trecho. Torna a leitura dinâmica e direta…
      • Embora não possua nenhum cliff hanging, do ponto onde você parou, me senti cativado a continuar a leitura
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Onde a história perde tração ou parece apressada?]
      • Ainda que a estrutura de capítulos curtos funcione, penso que em algum momento será necessário parar e aprofundar certos pontos. A história, por vezes, está direta demais, tirando um pouco da interpretação do leitor (e consequentemente, a surpresa dele. Por exemplo:
        • Trecho 5 [pretextos] “Namorar dois ao mesmo tempo, por exemplo.(Dois, três parágrafos depois…) Era um bom menino o Fred, fiquei triste, não pelo fim do namoro, não sentia por ele mais que um afeto ligeiro: não tinha maturidade, repito, para entender o significado de um compromisso. Fiquei triste por decepcioná-lo, traumatizá-lo com uma deslealdade tão gratuita em sua primeira tentativa de amor.”

    2. Modelagem de Personagens

    • ✨ Pontos Fortes: [As vozes são distintas? As motivações estão claras?]
      • Eu diria que esse é um grande ponto positivo: X, a protagonista (que não tem nome), tem um quê de pessoa real. Gente que existe por aí mesmo, não uma idealização utópica e distópica. 
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Há inconsistências ou falta de profundidade em algum personagem?]
      • Talvez por ser um traço da personagem, a história está bem autocentrada. Por enquanto, não tivemos qualquer personagem desenvolvido com muita relevância (exceto a avó Dona Inês [sim, eu criei o nome para ela, já que não tem], que agora é morta risos). Penso que será necessário surgir (e permanecer) algum personagem ou conflito para sustentar o restante da narrativa.
      • Falta de nomes para irmãos, pais, avó…
      • “Ada” me incomodou. Desde o fato dele ser “africano” (quer dizer, ela ficou tão obcecada por ele e não se dignificou a saber da onde da África? Como veio parar aqui? Enfim, convém melhorar esse aspecto, está um tanto genérico demais) até a morte dele, um suicídio muito estranho, que não me pareceu verossímil (quer dizer, ele sofre um acidente gravíssimo, vai para a UTI, ouve que vai ficar paraplégico e se mata desligando os proprios aparelhos, mesmo paralisado da cintura para baixo?)

    3. Estilo e Domínio da Linguagem

    • ✨ Pontos Fortes: [Uso de metáforas, clareza do texto, tom adequado ao gênero.]
      • Elisa, você escreve muito bem! Por vezes, sua prosa se aproxima da poesia de um jeito muito agradável. Você articula muito bem a escolha das palavras, usando bem as figuras de linguagem.  Parabéns!
        • Destaque: [desejo negativo] Fui uma menina definida por nãos.Não queria casar. Não queria ser mãe. Não queria ser gorda. Não queria usar vestidos. Não queria ser magra, o que eu queria era não ser gorda. Assim eu me expressava, assim eu me sentia. (…)
    • ⚠️ Pontos de Ajuste: [Repetições de palavras, problemas de pontuação ou ritmo de frase.]
      • Alguns trechos estão repetitivos
        • “Só lembro de quando comecei a ter vergonha de chupar o dedo na frente das pessoas(.) Foi depois do nascimento da minha irmã. Como ela é cinco anos mais nova do que eu, eu tinha entre cinco e seis anos. Minha irmã também pegou o dedo: mimese entre crianças. E foi por isso que as pessoas começaram a me reprimir: você já é uma mocinha, isso é coisa de bebê, veja só a sua irmã, vai ficar beiçuda que nem você
      • Um alívio para ela própria. Para minha mãe, que emagreceu uns dez quilos em menos de quinze dias depois do óbito. Para mim, que parei de me angustiar em culpas por desejar que aquele sofrimento acabasse logo. => esse trecho aqui foi meio confuso para mim. É um alívio a perda de peso?  

    III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)

    O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.

    • 🗣️ A Força da Voz Autoral: [O autor possui uma identidade própria de escrita?]

    Confesso que não conheço tanto seus textos, Elisa. Entretanto, da leitura desse trecho que você nos apresentou, percebi muito cuidado e muita habilidade com as palavras. Muito me agradou o jeito que você vai costurando as memórias da personagem e articulando a narrativa. É uma escrita que dialoga com o leitor, trazendo-o para dentro da intimidade da personagem

    Por outro lado, penso que você (ou sua personagem) foi muito direta em certos momentos. Não é, de todo, algo ruim. Mas para um romance, convém um pouco de calma para contar as coisas.  

    • 🌍 Poder de Imersão e Ambientação: [O universo do romance é crível? O leitor consegue se transportar para o cenário?]

    Sem querer me repetir, mas o seu jeito de contar a história torna essa narrativa o diário que a personagem começa, mas nunca termina. Essa conexão, mesmo que não seja 100% do tempo, entre personagem e leitor é uma coisa muito cara a todos nós que escrevemos, sendo sempre algo digno de nota quando acontece. 

    Por outro lado, sinto que há espaço para melhorar a ambientação. Como disse anteriormente, acho que em certos momentos a narrativa correu, especialmente no início, sem revelar detalhes que poderiam ser importantes: em um trecho (no terceiro segmento), a vó (sem nome) tem uma doença não diagnosticada que aflige seu sistema urinário. No parágrafo seguinte, ela morre. Antes, ficou em coma (Por quanto tempo? Como isso alterou a dinâmica da família?). A passagem dela foi um alívio em que sentido para a mãe? 

    Perdão também pela pergunta besta, mas a personagem realmente não nos apresentou seu nome? Sei que é besteira (e pode até ser invasivo, de certa forma, perguntar porque isso e porque não aquilo outro), mas penso que é muito importante o nome do protagonista. Mesmo a falta de um nome precisa ser algo intencional. Enfim, por mais nomes na literatura!

    • ❤️ Engajamento Emocional: [O texto desperta curiosidade, tensão ou empatia? O que faz o leitor querer continuar?]

    Eu gostei desse trecho inicial de romance. É um romance intimista, com uma personagem francamente honesta sobre os seus sentimentos, suas virtudes e seus vícios. Aliado a isso, temos uma leitura muito boa, muito completa, que se utiliza das figuras de linguagem com muita propriedade, aproximando a prosa da poesia em determinados momentos. 

    Portanto, com os apontamentos dos demais colegas e o talento que você possui, confesso que possuo expectativas altas para a próxima etapa do Entre Romances para ver os próximos deslindes das histórias.

  9. Martim Butcher
    10 de maio de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    Elisa,

    Vim aqui xeretar um pouco o romance da minha colega de grupo…

    Então, como apreciação geral, eu acho que o romance pode dar em algo muito interessante, mas não posso dizer que esteja completamente envolvido. Como explicar isso?

    Por um lado, sinto como um vento refrescante sua estratégia, que entendo deliberada, de não atiçar o tempo todo o interesse mediante acontecimentos de acento forte. Entendo que uma narrativa tradicional quase sempre submete o fluxo da realidade a ênfases que, na progressão real da vida, não existem de fato. A vida é muito mais monótona do que a ficção nos quer fazer crer, e ao dar forma a essa monotonia, sua ficção dá um passo a mais em direção ao realismo (termo, de resto, amplamente discutível e disputado). Não sei se me expresso bem, mas concordo com o Gustavo quando ele diz o seguinte: ” É que hoje parece imperar o imediatismo, o sangue na parede no segundo parágrafo, a aceleração desmedida. E isso me cansa, já que parece seguir uma fórmula tendente a tratar o leitor como um imbecil.” Você não trata o leitor como um imbecil, evita o truque. Isso é bem corajoso e, num mundo repleto de convenções, bem arriscado.

    A sucessão de acontecimentos dá uma impressão de que sua narrativa está à deriva – e talvez esteja mesmo. Mas isso não é necessariamente um problema se você tiver plena consciência disso e quiser usar essa tendência a favor de uma representação da vida pouco afim à deformação da realidade que faz convergir os fatos de maneira artificial. Acho que, se é isso mesmo que você procura fazer, valeria a pena pensar em uma alternância de motivos, mais do que em uma forma do tipo “rapsódica”, em que nada retorna. Quero dizer que, até agora, os encontros com personagens ou determinadas questões sucedem uns aos outros, como se o romance (e a vida) fosse uma linha: primeiro vem a avó, depois Adamastor, depois o padre Josef, depois Mariângela, depois Rodolpho e Rodrigo, e assim por diante. Eu acho que o romance pode ganhar muito se você esquivar um pouco a linha e ir mais em direção ao círculo ou à espiral. Isso implica trabalhar a aparição, o desaparecimento e a reaparição desses personagens (e também dos motivos temáticos). Digo isso porque a própria fragmentação em pequenos capítulos comportaria muito bem essa alternância. Imagino algo como um mosaico em que cada tema é uma cor. O tema “Mariângela”, originalmente um bloco vermelho, ficaria então quebrado em vários pedacinhos vermelhos. Entre cada um deles apareceriam pedaços azuis, verdes, brancos, pretos etc., cada qual correspondente a um motivo, tema ou personagem. Se, como você vem fazendo até agora, um episódio com um personagem é fragmentado em vários capítulos mas não há inserções entre os capítulos, a fragmentação perde justificativa. A chegada de Mariângela é o melhor exemplo disso. Faz sentido para você o que estou dizendo?

    Intuo que, se você mantiver a sucessão linear, pode ser que a longo prazo a narrativa aborreça. Não tenho como cravar um veredito agora, mas essa é minha intuição. Fico pensando também que ainda não foram desenhados arcos narrativos de grande alcance, ou pelo menos seu contorno ainda se definiu para mim. Há muito tempo para fazer isso, e pode ser que você já esteja traçando algo “nos subterrâneos” do texto e que tais arcos só venham a se revelar mais adiante. Mas isso só poderei avaliar mesmo lá na frente.

    É isso, por enquanto.

    Boa sorte na continuidade!

  10. toniluismc
    8 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá novamente,

    Terminei de ler o terceiro e último capítulo da sua primeira entrega. Farei os comentários sobre a experiência de leitura mais uma vez. A análise mais detalhada da obra virá em comentário posterior.

    Devido ao fluxo dos últimos dias, não consegui vir aqui pra redigir logo após a leitura, então esse relato é uma experiência do que ficou na memória de um exercício realizado há 3 dias.

    Diferente dos capítulos anteriores, achei este capítulo mais coerente e finalmente vejo algum potencial nesse enredo. Ainda não está claro pra qual caminho você levará a história, mas pelo menos temos uma construção de personagem que vai além das suas próprias reflexões.

    Talvez fosse o caso de inverter a ordem dos capítulos, já que a sua narrativa não é linear. Pelo menos você capturaria a atenção do leitor antes de dopá-lo com tantas reflexões.

    Mais uma vez, não estou aqui dizendo qual história você deve contar, só que é necessário ter consciência de qual é a sua intenção e os recursos que você está utilizando pra atingir esse objetivo. Se for apenas um exercício criativo sem pretensões de atingir um público maior, está tudo certo. A redação está praticamente perfeita. Entretanto, se quiser conquistar leitores diversos, é necessário lembrar que fazer tantas reflexões logo no início vai reduzir o público àqueles que se identificam com o que está sendo dito, visto que nem curiosidade foi provocada ali.

    Meu próximo passo é reler o texto completo e fazer a análise detalhada, possivelmente indicando os trechos. Daí sim virão críticas, pois o que eu trouxe até agora foi opinião e conselhos.

    Até a próxima. Abraço!

  11. Thales Soares
    7 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Bem, estou voltando aqui para fazer minha última contribuição em relação a esta primeira parte do seu romance. Já vou avisando aqui aqui serei um pouco mais duro. Portanto, leia apenas se você estiver com a cabeça fria e aberta a críticas. É minha obrigação ler e comentar este romance, mas não é sua obrigação ler meu comentário.

    15. Agora na faculdade de medicina, a protagonista enfrenta sua quarta experiência com a morte ao ver um cadáver nas aulas de anatomia.

    16. Na faculdade, ela volta a ser uma galinha e, do nada (talvez por ter sido mal comida, ou algo do tipo), percebe que seria capaz de matar o namorado.

    17. Ela cria a teoria de que a mãe queria ter feito aborto quando estava grávida dela.

    18. Ao iniciar a clínica médica, ela descobre que seu horror não estava nos cadáveres, mas nos vivos. Uma de suas colegas dá uma de bunda mole e abandona o curso aqui, mas é vista como corajosa pela protagonista.

    19. A amiga bunda mole agora está feliz na biologia, e faz uma longa descrição chata sobre o que tem que enfrentar em seu novo curso. A protagonista fica com invejinha.

    20. A protagonista imagina uma vida ligada à história e aos arquivos, mas descarta desistir de medicina, porque ela sabe que isso seria bunda molice.

    21. Durante a residência, após a morte de uma paciente, a protagonista conhece uns caras que começam a dar uma bebida batizada pra ela, e isso ajuda a suportar o horror cotidiano da medicina.

    Enfim, isso é o que eu entendi desse terceiro capítulo. Agora vamos à parte desagradável… a minha opinião sincera!

    Primeiramente, eu devo dizer que é aqui que eu, como leitor, fecharia este livro e não o abriria mais. A leitura já me perdeu completamente. Porém, continuarei lendo, devido às regras deste desafio. E aliás… sinto muito por eu e o ToniLuis termos caído no grupo que vai avaliar você, pois ambos temos opiniões semelhantes a respeito deste romance, e acredito que não conseguiremos contribuir tanto quanto você gostaria. Mas não é culpa nossa, nem sua (nem mesmo do Gustavo, que fez o sorteio)… mas é que eu simplesmente não sou seu público alvo. Eu estou lendo na maior boa vontade, mas por obrigação. Desculpe. Acredito que esta obra vai agradar totalmente a certo nicho de pessoas… mas eu não estou entre elas. Então vamos lá:

    Por que eu estava gostando da história no capítulo 1, e agora, no capítulo 3, não estou mais? Simples. Eu, como leitor, me frustrei. A trama tomou um caminho que, para mim, foi sem graça, e todas as expectativas que eu construí não foram atendidas. Mas, mais uma vez devo dizer, isso não é culpa sua, escritora, e sim minha, por querer ler algo diferente. Eu sei que você está escrevendo para você, e não para mim… mas não há como eu deixar de me sentir frustrado com isso. É claro que cada leitor quer se sentir importante com uma sensação de que aquela obra foi feita para ele… mas agora fica evidente, para mim, que não é o caso aqui.

    Todas as minhas teorias, tudo o que eu supus que a história estava seguindo, foram pelo ralo neste terceiro capítulo. Parece que a questão do superpoder é apenas uma lorota que a protagonista repete para ela mesma, e na realidade ela não é uma meta humana com o poder de enxergar o futuro. Então essa história é apenas uma biografia um pouco sem sal, sobre uma personagem que, na minha opinião, é chata, daquelas pessoas que eu não gostaria de ver por perto. Ela é infiel, traumatizada, depressiva, invejosa, frustrada e tem uma vida nada interessante. Nos relatos dela, não vemos nada de bom (mas também nada de muito ruim)… apenas situações normais e reações sem graça por parte da protagonista.

    Agora, ao final de toda essa parte introdutória do romance, não ficou nenhum gancho para o que está por vir. Não sei mais por onde a história vai seguir. Não há segredos, mistérios, e nem promessas a serem cumpridas. Há apenas vários fragmentos de memória, que parece que não vão culminar em nada de interessante.

    Entretanto, mais uma vez devo avisar que esta visão tão negativa vem de alguém que NÃO é seu público alvo. Sou apenas um leitor qualquer, o qual você não deve levar tão a sério. Foque no Gustavo, Claudia, Priscila… nessas pessoas que estão à procura de algo mais cotidiano, lírico, e cheio de subtexto. Eu sou o cara que só quer se divertir lendo… e não estou me divertindo aqui.

  12. Gustavo Araujo
    6 de maio de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Olá, Elisa. Cá estou a analisar a parte inicial de seu romance. O lado interessante de sabermos de antemão quem escreveu o quê (ao contrário do que acontece nos nossos desafios regulares) é que nos preparamos para o estilo, além de ter em mente a bagagem da pessoa que escreveu. Como te acompanho há tempos, não só aqui, mas também no universo das Contistas, sabendo também que sua maneira de escrever te rendeu prêmios aqui e acolá, posso dizer que esse início me surpreendeu pela ousadia.

    Pelo que percebi este não é um texto “elisa ribeiro” padrão. É diferente. Tem um atrevimento, como se desafiasse o leitor acostumado à sua maneira de escrever. Em primeiro lugar por conta da narração que, além de dar vazão à história em si, é interrompida por comentários, devaneios até, da protagonista, que insere pequenos episódios entre parênteses, como uma árvore que no processo de crescimento rumo ao céu vai abrindo galhos e mais galhos.

    Achei essa técnica bem interessante porque dá uma oxigenada na leitura. É como se estivéssemos conversando com você num barzinho ou algo do tipo. Machadão usava essa estratégia, né, de se dirigir ao leitor, de chamar a atenção para algo inusitado ainda que pouco relacionado com o veio principal da história.

    Nesse aspecto, destaco as frases curtas, os capítulos enxutos que concentram o sentimento de vazio e de incompreensão que arrebatam a protagonista… É dessas reticências, que o leitor (pelo menos este leitor) consegue extrair o drama. O que não está escrito é o que se sobressai. A tal técnica do iceberg do Hemingway. De fato, quem presta atenção aos detalhes, consegue enxergar diversas nuances, características que tornam a nossa narradora alguém real, humana em todos os sentidos da expressão – sobre isso me aprofundo mais adiante.

    Em linhas gerais, no capítulo I, acompanhamos a história dessa menina sem nome, desde sua mudança para o outro lado da estação. O que se sobressai, desde esse primeiro momento e segue até o fim do texto, é a relação dela com a morte. Nessa primeira fase, isso se reflete na passagem da avó e segue até o Adamastor, mas o mais interessante é perceber como ela transforma isso numa espécie de superpoder, algo que permite a ela antever situações trágicas, inclusive com ela própria, já que tem certeza de que morrerá atropelada.

    Senti aqui algo de “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende, que tem na personagem Clarita alguém com dons parecidos. Isso dá ao texto, tanto da escritora chilena como ao seu, um ar de realismo mágico, bem-vindo na verdade, para quebrar o tom por vezes soturno que recai sobre a história.

    No capítulo II, o interesse pela morte se acentua e a narradora procura o Padre Josef para se confessar, sem revelar, contudo, seus dons premonitórios. Ela mergulha na temática do suicídio, tentando, talvez, encontrar uma explicação para a morte de Adamastor. Aí vem o vestibular e ela é direcionada para a Medicina.

    Chegamos então ao capítulo III, em que vemos a protagonista nos primeiros anos da faculdade de Medicina. Sua relação com a morte se aprofunda, em especial por conta dos cadáveres que servem como objeto de estudo e mesmo com as pessoas que depois ela se vê obrigada a atender, algo que a faz questionar suas escolhas profissionais, algo que se acentua dolorosamente quando ela encontra uma colega – a Mariângela – que trocou a Medicina pela Biologia. Ainda assim, ela se forma e inicia a residência no que parece ser ginecologia e/ou obstetrícia.

    Também nesse capítulo somos apresentados aos relacionamentos dela, aos namorados, às puladas de cerca, à raiva por submeter-se a situações que a deixam a ponto de querer matar um de seus parceiros – embora não haja um desfecho, ao menos por ora, quanto a isso. Também há menções a novos amigos e à lembrança da mãe – outra quebra na narrativa, sendo essa a mais pungente, já que se fala das frustrações dela, da ideia de que ela tentou abortar a nossa narradora.

    Visto por uma lente estreita, a história da nossa médica com superpoderes parece carecer de um fio condutor mais nítido. Creio que é aí que reside a audácia do texto. Conta-se, aos poucos, a história de uma vida, de uma pessoa, com suas frustrações, desejos, qualidades e defeitos. Nossa médica é alguém de carne e osso (a despeito de qualquer dom sobrenatural que possa ter), que erra, que cede, que insiste, mas que também acerta. Como disse, é alguém de verdade.

    É muito bacana acompanhar a história assim porque as peças vão se encaixando aos poucos. A visão turva do início vai ganhando forma devagarinho – talvez só lá pela terceira etapa a gente tenha completa noção do que está acontecendo – como acontece nos bons romances. Essa lentidão, ao contrário de parecer enfadonha, é a meu ver uma grande qualidade, sobretudo quando comparamos seu texto a outros (não me refiro necessariamente aos textos do E-Romances, até porque só li um além do seu). É que hoje parece imperar o imediatismo, o sangue na parede no segundo parágrafo, a aceleração desmedida. E isso me cansa, já que parece seguir uma fórmula tendente a tratar o leitor como um imbecil. Por sorte, seu texto vai no sentido contrário, cultivando a inteligência de modo paciente, sabendo aonde quer chegar.

    Nesse ponto a proposta parece se aproximar do existencialismo. Nem falo do Sartre, mas do Camus, especialmente de “O Estrangeiro”, onde os fatos se sucedem de modo lento mas, ao mesmo tempo, vão revelando o vazio que toma conta da alma do protagonista. É o que ocorre com a nossa médica superpoderosa.

    Bem, não dá para saber se a história seguirá por uma linha mais concreta, ou se vai adotar a filosofia do tapa na cara que nos faz perceber a náusea existencial. De qualquer forma, é muito bom poder acompanhar essa evolução. Quero muito saber onde isso tudo vai chegar.

    Aproveitando, gostei do estilo que você usou para nomear os capítulos e os subcapítulos, colocando entre colchetes o sentimento despertado. Gostei mais ainda de algumas das frases que encerram essas divisões. Vou citar duas:

    Desvelar-se pelas fronteiras, pelos nãos que a delimitam, é também uma forma de definir-se. Afinal, é pelos contornos que se define uma forma.”

    Sensacional. Dá para ficar pensando horas sobre isso haha

    Outra: “Mas aquele primeiro rosto me assombra até hoje. Um rosto sem voz. Uma história interrompida que nunca mais seria contada, devorada pelos vermes, tornada cinza, com sorte um corpo a serviço da formação de estudantes, com sorte vocacionados para a prolongamento de outras vidas que um dia seriam, com sorte, apenas saudade.

    Putz, quase chorei. Deu vontade de usar no meu texto.

    Valeu, Elisa. Mantenha a audácia!!

  13. toniluismc
    4 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá novamente!

    Primeiramente, tenho que agradecer ao Thales por explicar e organizar o capítulo 1. Se o que ele interpretou estiver equivocado, aconselho que você leve em consideração o que foi dito, sob o risco dessa história ficar ainda mais desinteressante do que já é. Eu mesmo não consegui extrair o que ele entendeu do primeiro capítulo, mas será uma experiência menos frustrante se esse for o caminho escolhido. Digo isso porque após terminar de ler o segundo capítulo, fiquei pensando aonde esse enredo quer chegar, pois até agora parece apenas uma série de relatos de uma adolescente comum. Para quem não convive com esse público pode até soar algo interessante, mas pra mim que continuo ouvindo o que eles têm a dizer, até agora não foi descrito nada extraordinário.

    Que fique bem claro que não estou pedindo pra você mudar sua história para agradar o leitor. Isto seria inconveniente e um desrespeito à sua fonte criativa. O texto está muito bem redigido, o que demonstra que a técnica você domina muito bem, mas se o seu intuito é simplesmente apresentar o relato de uma adolescente “comum”, com seus dilemas pessoais e etc., acredito que no mínimo você precisa inserir a perspectiva do adulto em algum momento nessa narrativa, pois do jeito que está, é como se tudo que ela pensasse e fizesse fosse o mais correto para aquela situação. Nem que seja por alguma lembrança da avó dando ensinamento, é necessário problematizar o que essa garota está dizendo.

    Gostei do capítulo 2 mais do que o 1. O Thales achou que desacelerou e eu achei que entrou num ritmo mais orgânico. A conexão entre as partes faz mais sentido nessa parte do romance. Apenas fica a questão sobre qual é a proposta dele, pois até agora eu só continuo lendo porque faz parte da minha lista obrigatória. Espero que as coisas fiquem mais claras no próximo capítulo.

    Até mais, abraço!

    • Elisa
      4 de maio de 2026
      Avatar de Elisa

      Amadinho, pede pro Gustavo te mudar de grupo, porque eu vou continuar escrevendo, não o romance que você quer, mas o que me interessa.

      • toniluismc
        4 de maio de 2026
        Avatar de toniluismc

        Olha, eu não me importo de ler a sua história água com açúcar, pois isso faz parte do exercício. Agora se você estiver muito incomodada com a crítica honesta, então você pode pedir a mudança, o que eu acho deselegante e tira o intuito da proposta. Não estou criticando apenas o seu romance, vide outras reclamações no grupo, a questão é que no seu caso, além de não me agradar talvez não agrade mais ninguém que não te conheça e fale que está bom apenas pra massagear o seu ego. Detalhe: ainda nem terminei de ler. Vai que o próximo capítulo desperta uma esperança neste leitor frustrado. Se você acredita tanto no que está escrevendo, tenha mais fé!

  14. Thales Soares
    3 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Bom, dando continuidade à minha leitura, agora vou passar minhas impressões do Capítulo 2. Primeiro, vamos analisar o que aconteceu em cada subcapítulo:

    9. Ei… pera ái. Cadê a sessão 9?

    10. A protagonista começa a ler várias coisas sobre suicídio, e começa a sentir falta de conversar com a avó, pois percebe que está sem ninguém para conversar sobre as coisas.

    11. Ela relembra sua ligação afetiva e religiosa com o padre Josef, a quem procura para falar de culpa, morte e saudade.

    12. Ela passa a encarar o suicídio como uma possibilidade racional de controle diante do sofrimento extremo, associando essa ideia à própria convicção de que morrerá atropelada.

    13. Diante da pressão do vestibular, e sem um desejo profissional próprio, ela aceita seguir medicina por influência do pai, apesar de seu horror diante de doenças graves e estados terminais.

    14. Ela reconstrói a própria origem afetiva a partir da depressão puerperal da mãe e da sobrecarga da avó, interpretando o hábito de chupar o dedo como uma forma de autossuficiência e carência.

    Bom… as coisas aqui deram uma desacelerada. Senti que, neste capítulo, a história não avançou muito. Conhecemos um pouco mais sobre a protagonista (que ainda não sabemos o nome) e sobre sua família. Mas o texto limitou-se a ficar auto referenciando temas já apresentados, como o chupar de dedo, o superpoder e o desejo negativo. Mas nenhum desses temas também foi desenvolvido, limitando-se apenas à breves menções.

    Espero que no Capítulo 3 as coisas voltem a andar, mostrando ao leitor para onde esta história planeja seguir.

  15. Thales Soares
    2 de maio de 2026
    Avatar de Thales Soares

    Este romance é uma espécie de biografia da protagonista (pelo menos em seu início). Eu, particularmente, não gosto muito de algo assim… porém, a escrita aqui é tão fluida e bem executada, que a história me manteve preso na leitura.

    Li apenas o Capítulo I por enquanto, então vou comentar sobre ele. Depois eu volto aqui e comento o outro capítulo.

    Primeiramente, vamos organizar tudo, para podermos conversar melhor. Se alguém ainda não leu este romance, e por acaso está lendo meu comentário, pare aqui, pois darei spoilers supremos a respeito de tudo o que ocorre na narração.

    1. A protagonista relembra de quando era criança e quase foi atropelada. Pela primeira vez a morte ela sentiu a morte.
    2. Ela percebe que o quase atropelamento deixou ela meio paranoica com isso, e ela ganhou a certeza de que vai morrer atropelada (interessante isso).
    3. Ela relembra a doença e morte da avó. Aqui ela tem contato com a morte pela segunda vez.
    4. Ela reflete que, desde menina, definia sua identidade mais pelos “nãos” e pelas vidas que rejeitava do que por desejos próprios claramente formulados (esse conceito é interessante também, mas foi bem pouco abordado no decorrer do capítulo).
    5. Ela relembra seu primeiro namoro, e como ela fez de seu namorado um cornão.
    6. Ela lembra que, quando adolescente, era a maior galinha. Mas então ela ficou apaixonada por um cara chamado Adamastor. E no final ele dá um pé na bunda dela.
    7. Após sonhar com Adamastor junto de uma loira gatona, a protagonista interpreta o pesadelo como uma revelação, e volta a chupar o dedo (a questão do superpoder, caso venha a ser real e não apenas uma metáfora, me parece interessante!)
    8. Adamastor morre. E durante o seu velório, ela vê a loira gatona, igualzinha do seu sonho (um gancho ótimo, pois parece que a história vai seguir essa linha de superpoder mesmo!)

    Este é o primeiro capítulo. Separei dessa forma, de forma resumida, sintetizando o que mais achei importante em cada passagem, para que eu possa melhor compreender a intenção do romance.

    Não é uma história complicada. É até simples. Mas a forma como ela guia o leitor, parece um grande quebra-cabeça, onde cada um desses subcapítulos comporta-se como se fosse uma peça.

    Eu diria que o romance em si é bastante ousado! A autora se arriscou ao escrever dessa forma esquisita. E para mim… funcionou! Uma história meio simplória, sem muito brilho, tornou-se chamativa nas mãos de uma autora habilidosa, com essa estética diferenciada. Não acho que “ousar” seja escrever algo denso e chato, como foi discutido hoje no grupo. Escrever algo denso e chato é o que quase todo mundo faz. Mas aqui vemos algo exótico e experimental. Isso sim eu diria que é ousar.

    E o melhor de tudo é que, pelo gancho que foi dado ao final do subcapítulo 8, esta história parece que não vai se limitar a um simples slice of life. Me parece que está sendo introduzido uma questão mais paranormal, no estilo Life is Strange, onde a garota descobre que pode voltar no tempo… mas aqui o poder parece estar ligado a uma vidente! A protagonista (qual é mesmo o nome dela?) parece que sabe como vai morrer! E seus sonhos parecem ter algum significado. Achei esse ponto bem interessante, e me deixou empolgado para continuar a leitura.

    Este romance começou bem! Eu continuaria a ler ele mesmo que ele não estivesse em minha lista de comentários obrigatórios. Agora vamos ver se ele vai ter forças para continuar interessante (torço para que sim). Logo mais eu volto aqui para comentar o Capítulo 2.

  16. toniluismc
    1 de maio de 2026
    Avatar de toniluismc

    Olá, Elisa!

    Farei mais de um comentário ao longo deste mês, pois decidi expressar as minhas reações organicamente durante o processo de leitura. Então, neste momento, esta é a minha primeira impressão.

    Tendo lido apenas o primeiro capítulo, já posso afirmar uma coisa: quanta intensidade!

    Não sei se o seu enredo é autobiográfico, então lembre-se de que toda a minha avaliação é baseada EXCLUSIVAMENTE naquilo que está sendo exposto aqui, já que não te conheço.

    A minha impressão é de que essa garota tem TDAH, pois a conexão de fatos e ideias é feita de um modo neurodivergente, isto é, não-linear.

    Os trechos dentro dos capítulos são verdadeiros universos de conteúdo. Isso faz parecer que existe muito mais do que aquilo que está sendo dito. É tanta informação que acabei nem absorvendo o nome dela (nem lembro se foi citado, pra falar a verdade).

    O que ficou de destaque foi a relação dela com a morte e com a avó, e a paixão pelo Ada, que não é correspondida, mas muito idealizada.

    Certamente este não seria um romance que eu escolheria voluntariamente para ler, pois o tema (ou aquilo que acho que é o tema) não é do meu interesse imediato. Contudo, tenho que lhe parabenizar pelo texto bem redigido/revisado. Isso ajuda bastante a ler com mais boa vontade.

    Para finalizar, posso dizer que o texto me deixou com reações dúbias. Acho que estou tão confuso quanto a protagonista. Se esse era o objetivo, foi atingido com sucesso. Vou continuar a leitura sem reler o primeiro capítulo pra ver se funciona e depois te conto o resultado.

    Abraço!

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 17 de julho de 2026 por em E-Rom G3, Entre Romances e marcado .