Capítulo Um: Dos Fundamentos
I
Naqueles tempos saudosos (quando) os revolucionários tentavam derrubar o governo, os habitantes da ilha de São Pierre viviam uma contradição. Ora, embora estivessem em tempos de guerra, com mercenários ocupando o porto, preenchendo a cidade e os jovens à espera de um telefonema para a convocação de um combate, a infância vibrava pelas ruas, com os pés sujos de areia, salpicando os capachos do que poderiam ser grãos de esperança, numa vibração alegre e marrom, que ocuparia a lembrança dos insulanos até o resfriar de seus corpos. Claro, os combates estavam sempre distantes o suficiente para parecerem uma narrativa impessoal, mas ainda próximos quando se tratava dos núcleos familiares desfeitos com as convocações repentinas.
Edgar L. S. tinha, como toda alma que nasce em ilha, a consciência de que os limites do mundo eram desconhecidos, embora alcançáveis com a determinação de um navegador. (O sujeito alto, de sardas sarapintadas nas bochechas, jamais) conseguiu localizar, com a precisão clínica que alguns homens reivindicam ao narrar as próprias ruínas, o instante inaugural de sua queda. Há aqueles que apontam datas, que gravam na memória o dia em que tudo se partiu, como se a existência obedecesse a uma lógica de fratura única, audível, definitiva. Edgar não teve esse privilégio. São Pierre era desse tipo de lugar que o continente ignora com a altivez dos que nunca precisaram olhar para o mar com seriedade. Os meninos cresciam ali sabendo, mesmo antes de aprenderem a ler, que as coisas sérias da vida vinham e iam pela água, e que o vento que virava de sul era presságio de algo, embora ninguém soubesse precisar de quê. Edgar soube antes dos outros. Tinha em si uma disposição para os presságios que os mais velhos chamavam de mau agouro e os mais jovens, simplesmente, de esquisitice.
Por isso, não por bravura masculinácea, mas por uma vontade de pertencer a uma narrativa maior que a das redes lançadas ao mar, foi ao continente para se alistar. E serviu, a contragosto de seu avô, único tutor que tivera em toda sua vida, ao exército.
“Você não é tão burro quanto seu irmão”, dizia. “Deveria buscar estudo em vez de rifles”
Mas foi-se como combatente, fingindo ser um herói improvável, como se algum bravo guerreiro um dia pudesse vir de São Pierre e frustrou-se nos momentos iniciais, quando percebeu que havia mais silêncio e espera nos combates que tiros disparados. As batalhas pareciam ocorrer dentro dos crânios dos soldados do pelotão de Edgar, revelando, sem querer, a realidade sobre quem de fato eram aqueles meninos. Embora, de maneira frustrante, Edgar não tenha conseguido captar a própria revelação de si nos momentos de apreensão.
Foi nesse compasso que conheceu Heleno de Farias. Encontraram-se no primeiro dia em que os mercenários franceses fizeram uma emboscada, de modo que o pelotão se dissipou e os dois se isolaram num armazém de palha e cimento mal misturado, a noroeste de uma vila cujo nome ninguém soube guardar e cujo nome, provavelmente, nunca havia importado para ninguém além de seus próprios habitantes. O armazém tinha sido, antes da guerra, um depósito de grãos. Havia ainda sacos empilhados num canto, alguns deles abertos, com o conteúdo apodrecido espalhado pelo chão de terra batida, contribuindo para um cheiro de mofo fermentado que, com o calor da tarde, subia em ondas e se instalava na parte de trás da garganta como algo que não é bem gosto nem cheiro, mas a interseção desagradável dos dois. As paredes eram grossas, o que era a única vantagem daquele lugar. As janelas eram estreitas e altas, do tipo projetado para ventilação e não para visão, de modo que o que entrava por elas era luz em ângulo e fragmentos de céu, não qualquer vista útil do que acontecia lá fora. Ambos permaneceram encurralados.
O que acontecia lá fora era incerto. Isso era o pior. Não o perigo concreto, não os tiros que chegavam de quando em quando com o som seco de quem bate numa madeira oca, mas a impossibilidade de saber com precisão a natureza do perigo. “Não confio nos franceses”, disse Heleno. “Vão nos matar. Não fazem reféns, os desgraçados”
A incerteza tinha uma textura própria, como aquele cheiro de mofo: não era aguda o suficiente para provocar pânico, mas persistente o suficiente para impedir qualquer descanso verdadeiro. Naquele cativeiro, o tempo surpreendeu ao se apressar. Logo a noite caiu e os tiros cessaram, mas o som dos motores um pouco distantes davam a certeza de que deveriam permanecer lá dentro, quietos.
A manhã veio para Edgar antes que para Heleno. O louro dormia confortavelmente, como se estivesse em seu acampamento, o que causou estranheza.
“Quantos carregadores você tem?”, perguntou Edgar.
O homem acordou varrendo os olhos pelo local, voltando pouco-a-pouco à lembrança do contexto em que estavam, que se manifestava nas expressões de seu rosto.
“Dois. E você?”
“Três”
Poderia ser pior, pensaram juntos. Passaram o restante do segundo dia jogando um baralho que não possuía o sete de espadas, retirado de um dos bolsos de Heleno, ouvindo ainda motores e eventuais gritos que julgavam ser em francês, tendo a certeza de que a qualquer momento alguém irromperia pela porta do casebre e eles teriam que descarregar o rifle no peito do sujeito. Naquela noite, Edgar foi quem dormiu e logo despertou, junto com o sol, e bebeu o último gole de seu cantil.
Heleno estava sentado a uns três metros, num canto ligeiramente mais escuro, com um bloco de notas descansando no colo. A caneta corria o papel com velocidade.
“Está escrevendo um diário para registrar nossa morte?”
Heleno ergueu os olhos. Tinha feições suaves, quase femininas na composição, com uma boca larga que parecia feita para expressões generosas. “Estou escrevendo um poema. Sou poeta. Quero dizer, meu sonho é ser poeta”, disse suavemente.
“Poeta”, disse Edgar.
“Poeta”, confirmou sem erguer os olhos novamente.
O silêncio claustrofóbico começou a agitar Edgar. Tinha que se concentrar para tentar ouvir qualquer coisa que não fosse o rabisco da caneta. Minutos depois, um estrondo mais distante. Parecia que o combate estava se afastando.
“Você escreve poemas durante uma guerra”
“Escrevo em qualquer lugar. A guerra não é exceção ao mundo. É uma versão concentrada dele”
“Versão concentrada?”, indagou Edgar. “Eu diria que é uma versão diluída. Tudo demorado, tudo incerto, sem conclusão à vista. Parece menos com guerra e mais com burocracia armada”
Heleno finalmente fechou o caderno, mas o manteve no colo, com a palma da mão pousada sobre ele. “Estamos aqui há três dias e acabo de perceber que não sei seu nome”
“Edgar”
“O meu é Heleno”
“Eu sei”
“De onde você é?”
“Ilha. São Pierre”
“Isso explica muita coisa…”
“O que, exatamente?”
“A forma como você olha para as paredes. Como se fossem provisórias”
Edgar deu (meia-risada) e sacudiu a cabeça.
“Não olho para as paredes de nenhuma forma especial”
“Olha…”, retrucou, com arrogância. “Quem nasce em ilha tem uma relação diferente com o confinamento. Para quem nasce em continente, uma parede é uma parede. Para quem nasce em ilha, uma parede é sempre um pouco a linha do horizonte vista de dentro”
“Mas que caralhos… É. Você realmente faz poesia em qualquer contexto. Mas sabe o contexto em que eu não gosto de poesia? No que estamos agora”
Heleno mal ouviu. Bebeu o último gole de seu cantil também. E aguardou.
Os próximos dias foram do mesmo modo. Bebiam, agora, o resto das águas acumuladas pela chuva e comiam os grãos que pareciam menos apodrecidos. Quando se invadiam de coragem para saírem, ouviam tiros e explosões. Tinham a certeza de que estavam sendo vigiados. Quando a exaustão, a fome e a sede chegaram no ápice, perceberam que em breve os franceses lançariam uma bomba fatal ou ateariam fogo no casebre, de modo que cogitaram mudamente que era melhor morrer com um tiro na testa que definhando de fome e sede, ou, pior, carbonizados pelo inimigo.
Quando Edgar despertou ofegante, em uma madrugada, após ter o pesadelo recorrente que o assombrava desde a infância, decidiu que era o momento de arriscar e sair. Ele encontrou o rosto de Heleno o observando, à meia-luz de um facho estranho, que vinha de fora, de fonte desconhecida, que iluminava as feições do louro com um banho azulado.
Era o mesmo sonho de sempre. Despertava e se via deitado numa mesa dura, completamente nu, sendo banhado por um homem de meia-idade, que passava um pano úmido por toda sua pele. Ao questionar, o homem explicava que era um lavador de defuntos e que o estava preparando para o velório logo mais. Ele protestava, tentava se desvencilhar das mãos do homem, mas sentia no fim de tudo que era mesmo um cadáver. “Não acredita? Vá lá fora e pergunte aos outros se não está morto”, dizia o lavador. E ele saía do quarto em que se encontrava e sacudia as pessoas, gritava, mas era ignorado. Ao passo que, com resiliência, voltava para ser banhado novamente, sentindo um cheiro forte de azeite, ao qual passou inevitavelmente a associar à morte se aproximando.
“Prepare-se, Heleno. Você escreverá um poema épico sobre nós. Dois soldados inexperientes, que nunca haviam pegado num rifle antes, em terreno inimigo, encurralados, conseguiram escapar e voltaram com as glórias da sobrevivência”
“Foda-se a poesia”, respondeu.
Edgar conferia as munições e se equipava. “Como assim? Não era seu sonho?”
“Não é mais”
“Bom. Meu sonho passou a ser ‘voltar vivo a São Pierre’. Entendo que as coisas tenham mudado”
“Não é isso. Estive refletindo. Um dia encontrei uma pessoa, um amigo que fiz, que me disse que quando o Homem finalmente pisou na lua e percebeu que era apenas um pedaço de rocha flutuante, toda poesia morreu”
“É. Aqui percebi que não sou o que pensava que era também. Mas para o caralho com os franceses”
Finalmente saíram do casebre, em progressão de patrulha, com falhas técnicas pelo desconhecimento e pela exaustão, driblando o que poderiam ser postos do inimigo, até que viram o farol brilhante de um automóvel e procuraram abrigo, prontos para disparar, quando perceberam que se tratava do exército aliado, que havia tomado a região na última madrugada. Foram resgatados e voltaram com menos heroísmo do que haviam previsto, mas, após esse evento, Edgar decidiu que jamais teria uma vida normal novamente.
II
São Pierre recebeu Edgar como se ele nunca houvesse partido. O mar estava do mesmo cinza aborrecido, as mesmas redes estendidas entre os postes, os mesmos feirantes enlouquecidos com as novidades do porto, o mesmo cheiro de peixe defumado e maresia vencida que impregnava até os lençóis. Havia uma pertinácia naquele lugar que beirava a insolência: a ilha simplesmente não registrava ausências. Era como se o tempo, ali, operasse numa lógica diferente da do continente, menos linear e mais circular, sempre voltando ao mesmo ponto com a mesma expressão desinteressada. Os mesmos gatos nas janelas. Os mesmos pescadores com os mesmos semblantes de quem está sempre esperando por um peixe ou por um comunicado ruim, e não tem preferência pela ordem em que chegam.
Kaspar o esperava na soleira com uma expressão que não era exatamente alegria, mas era a versão mais próxima que um homem daquela estirpe conseguia produzir. O velho avô tinha os braços tostados até os cotovelos, as mãos cobertas por uma cartografia de calos e veias salientes, e os olhos de uma cor opaca. Tinha envelhecido de um modo que só os homens que passaram a vida de costas para o vento envelhecem: com uma solidez comprimida, como madeira que seca por dentro sem perder a casca. “Emagreceu”, disse, e voltou para dentro de casa. Era, no vocabulário de Kaspar, uma declaração de saudade.
Os primeiros dias foram de silencioso reajuste. Edgar dormia até tarde, acordava desorientado, esperando ouvir os estalos da guerra e se surpreendendo com o barulho morno das ondas que chegavam à praia com a pontualidade indiferente de quem não sabe que existe outra coisa além de si. Havia voltado com menos do que levara: o entusiasmo patriota se dissipara, e em seu lugar restara uma espécie de ressentimento difuso, sem alvo preferível, que se espalhava por igual por tudo que encontrava à frente. Era, também, uma fadiga moral, o cansaço de quem esperava encontrar alguma revelação sobre si mesmo na guerra e encontrou apenas lama, espera e o cheiro insistente do armazém de palha e cimento. O avô não fez perguntas.
Edgar passava as tardes no cais. Às vezes, o avô aparecia ao seu lado e ficavam assim, pareados, contemplando as possibilidades que se afogavam nas ondas. Kaspar nunca perguntou sobre a guerra. Uma vez, e apenas uma, disse: “Heleno de Farias escreveu para cá”. Edgar não respondeu imediatamente, e o velho não esperou, que era o modo de Kaspar deixar as coisas no ar onde podiam ser apanhadas quando o outro estivesse pronto.
Foi na terceira semana que o velho revelou o barco. Conduziu Edgar pelo cais, ao entardecer, pelo trecho onde as embarcações de pesca mais humildes cediam lugar a uma estrutura maior, amarrada com a solenidade de algo que custara mais do que devia. O casco era escuro, quase negro pelo alcatrão fresco, com o nome pintado a branco nas duas bordas da proa. “O Austral”, disse o velho, sinalizando com o queixo, sem olhar para o neto, os olhos fixos no barco como se este fosse a resposta a uma pergunta que nunca fizera em voz alta. Havia no modo como ele pronunciou o nome, com uma brevidade desproporcionalmente orgulhosa, algo que Edgar jamais havia visto no avô: antecipação. Kaspar L. S. era um homem que havia aprendido com o mar que a alegria prematura afoga antes do naufrágio. Por isso mesmo, o orgulho que transbordava daquela brevidade constrangeu Edgar de um jeito que a guerra não havia conseguido. Ele pôs a mão na madeira do casco e sentiu o frio, a história, as cracas e o cheiro de baleia.
O plano era simples: os leões-marinhos se concentravam em abundância nas ilhas sub-antárticas, especialmente no inverno, quando as colônias se avolumam nos recantos de pedra como uma cidade intumescida de desempregados preguiçosos. O óleo extraído era cobiçado pela indústria de lubrificante e pelas curtidoras do continente, e as licenças de caça ainda existiam, embora já sob pressão crescente de quem achava que existiam coisas no mundo que não deveriam ser derretidas. “Ninguém vai querer o óleo para sempre”, dizia Kaspar, enquanto apontava no mapa a rota que havia traçado. “Mas enquanto querem, nós temos. E quando não quiserem, vamos para as lagostas enlatadas ou qualquer outra merda dessas”
Edgar escreveu para Heleno de Farias. Não era uma carta de amizade, embora contivesse os ingredientes superficiais de uma: perguntas sobre a saúde, menção ao tempo passado no casebre, uma ou duas observações sobre a ilha que soavam genuínas, mas cumpriam uma função estratégica. Era, na verdade, uma proposta velada. Heleno respondeu em menos de duas semanas, com uma carta mais curta do que Edgar esperava e mais direta do que o Heleno que ele conhecera no casebre de palha e cimento seria capaz de escrever. Havia abandonado a poesia, conforme anunciara, e estava agora numa obscura função administrativa em Curvelo do Sul que o entediava com uma eficiência notavelmente superior à da guerra. Por isso, aceitou o convite de Edgar para ser um dos tripulantes d’O Austral, onde ficaria por seis meses ilhado no cheiro desagradável dos mamíferos aquáticos.
Krikor também iria. O irmão três anos mais velho de Edgar. Era ligeiramente mais baixo, mais largo nos ombros, com um bigode denso que cultivava com muita dedicação. Mas havia algo no semblante do jovem, alguma verdade intrínseca que se manifestava a quem fosse mais sensível. Kaspar sempre desconfiou do neto, mas uma desconfiança até então nada fundamentada, emudecida.
Partiram em junho. O Austral era um barco adequado, nem belo nem feio, com a honestidade estética que seria necessária para motivar os trabalhadores que iam desbravar terreno desconhecido. Poucos possuíam experiência em caça de leões-marinhos, mas todos estavam dispostos a aprender com a mão na massa.
A ilha de destino não tinha nome nos mapas que possuíam. Nos exemplares mais antigos, havia uma notação em português arcaico que Heleno, único dos três com latim suficiente para interpretar o contexto, traduziu como algo próximo de “onde o vento termina”. Era uma descrição geograficamente imprecisa, mas emocionalmente exata. Chegaram no começo do inverno, quando o dia durava poucas horas e o vento gelado da Antártica fazia ranger imenso casco do navio. Os seis meses que se seguiram foram de uma rotina que só os mares do extremo sul conseguem impor: dias de trabalho duro interrompidos por tempestades que faziam O Austral gemer, além de noites enclausuradas em que os quatro jogavam com um baralho que não possuía o sete de espadas, por uma obstinada coincidência que Heleno insistia em chamar de destino e que Krikor dizia ser simples descuido de quem havia vendido o baralho.
Havia na ilha uma comunidade pequena, talvez quarenta almas distribuídas em casas que pareciam ter crescido do solo por conta própria, como cogumelos. Subsistiam de pesca e de uma resignação que só se desenvolve em quem nunca teve a opção de ir embora. Falavam um português que havia dado a volta em si mesmo várias vezes e chegado a um dialeto que só fazia sentido no raio de meia hora de caminhada. Eram desconfiados com a cordialidade contida de quem já recebeu visitantes antes e sabe que eles invariavelmente querem alguma coisa e invariavelmente vão embora deixando algum rastro de complicação. Os quatro foram bem recebidos, assim como os outros vinte e cinco tripulantes que aceitaram a aventura por conta da promessa de um bom salário.
A caça correu bem nos primeiros meses. As colônias eram numerosas e os animais, quando o vento estava contra, aproximavam-se com uma ingenuidade que tornava o trabalho eficiente e desconfortável em igual medida. Heleno cumpria sua função como se fosse experiente, embora nunca houvesse pisado numa embarcação antes. Krikor trabalhava bem, sendo o mais forte de toda a tripulação. Mas as mulheres curiosas do vilarejo que vinham observar o trabalho dos forasteiros, fez com que Kaspar desse uma ordem de observação ao outro neto. “Fique de olho nele. Não o deixe estragar tudo”. À noite, o barco cheirava a gordura aquecida e a sal, e os quatro dormiam surpreendentemente bem. Era, curiosamente, o período mais tranquilo que Edgar havia vivido desde antes de se alistar.
Em uma noite, Krikor entrou no navio com cheiro forte de cachaça. “Estava bebendo com os pescadores da Ilha Verde e eles me contaram o que mudará nossas vidas para sempre”. O avô se sentou e olhou para Edgar, desconfiado.
“Bem que o senhor falou das lagostas, vovô”, continuou Krikor. “Sabe a empresa japonesa que te disse uns dias atrás? Estão completamente irregulares e cinco tripulantes morreram de escorbuto. E o melhor de tudo, estão apenas no terceiro mês de pesca”
A ideia era engenhosa, como era de se esperar de alguém cuja criatividade só se ativava diante de uma oportunidade. A empresa japonesa que detinha licença numa área adjacente estava operando há meses com irregularidades documentais sérias, além do escândalo da morte dos profissionais que a empresa havia deixado na ilha, a fim de fazer a manutenção das máquinas de enlatar e tomar conta das coisas, durante seis meses, sem suporte algum. Isso era fato verificável pelos pescadores da região. A proposta era simples: acionar, por meio de contatos no continente, uma denúncia formal que resultasse no cancelamento da licença deles, apreensão da mercadoria e espaço aberto para que O Austral explorasse o mercado de lagostas que, àquela altura, era deveras mais lucrativo que o óleo de leão-marinho.
“Krikor, não podemos mudar a operação no meio”
“Por que não, vovô? Já armazenamos óleo o suficiente e temos comerciantes à espera de lagostas que nunca chegarão”
“Mas teríamos que denunciar. Isso não seria nos expor?”, perguntou Heleno. “E se houver alguma retaliação?”
“Confio nos meus contatos do continente”
Os contatos existiam, eram homens experientes nesse tipo de manobra burocrática, e Krikor confiou neles de maneira despreocupada. “É o que fazem”, disse, como se isso fosse uma forma de garantia. Edgar ouviu o plano numa noite em que a tempestade tornava qualquer objeção menos audível do que deveria ser, e concordou, guardando para si a sensação velha conhecida de que havia tomado uma decisão errada no único momento em que poderia ter tomado outra. O avô não se opôs, tratou-se como voto vencido.
O que ninguém previu, nem Krikor, nem Edgar, certamente não os contatos que assinavam papéis alheios com indiferença, foi que os documentos produzidos extrapolaram o pedido. Quem os redigiu, com a liberdade criativa, incluiu o nome de Kaspar L. S. como co-sócio das irregularidades da concorrente, talvez para dar peso jurídico à denúncia, talvez por simples desleixo de quem confunde completude com exatidão. Krikor soube disso ao mesmo tempo que Edgar, quando a notícia chegou pelo rádio d’O Austral num tom que não deixava dúvida. Ficaram os dois em silêncio por um tempo que nenhum dos dois soube medir. “Não era pra ser assim”, disse Krikor, e Edgar acreditou nele, e nunca deixou de acreditar, o que de certa forma tornava tudo pior. O erro havia sido seu, afinal, por ter concordado, por ter sugerido ao avô que levasse o irmão, embora não lembrasse mesmo se (tivera) sido sugestão sua, por ter saído de São Pierre e trazido Heleno de Farias para uma aventura arriscada com um irresponsável à bordo. Quando a inspeção chegou, real, convocada pelos próprios japoneses que haviam farejado o ardil, era o nome do velho que constava nas primeiras linhas do processo. Kaspar perdeu a licença sem jamais ter feito nada que justificasse perdê-la, mas conseguiu negociar mais um mês de trabalho e que levasse a mercadoria para vender e desse uma porcentagem aos burocratas ainda no porto, minimizando o prejuízo.
Não suficiente, uma criança havia ficado doente quatro dias antes de tudo isso, num momento em que o caos administrativo já consumia toda a atenção disponível e não havia sobra para mais nada. Era filho do pescador que os havia hospedado na primeira semana na ilha, um menino de talvez seis anos com febre alta e uma respiração que chiava como madeira verde queimando. Os pais vieram até O Austral porque Krikor, numa das suas criações úteis, havia comentado, sem pensar, ou talvez pensando demais, que o irmão era médico. O rumor havia viajado pelos quarenta habitantes da ilha. Edgar ouviu o próprio nome sendo dito em alguns contextos. “Não sou médico”, disse, já tarde, quando os pais estavam na beira do barco com o menino enrolado num cobertor. Os dois não acreditaram. Deram a entender com o olhar que Edgar parecia (fugir) de sua responsabilidade. Vendo a aflição do casal, entrou no barco para pegar a bolsa.
Fez o que podia. Tinha um estoico manual de primeiros socorros do exército e o bom senso de não fingir mais do que sabia. A febre cedeu na primeira noite, o que o fez dormir com leveza. Mas voltou na segunda, mais alta, e a respiração piorou com uma velocidade que o manual não havia previsto. A criança morreu na madrugada seguinte. Edgar acordou com o som do choro, que atravessou a madeira do Austral e veio pousar no seu peito. Heleno sentiu. “Seu irmão… Nunca mais me chame para nada que ele esteja envolvido. Entendeu?”
Edgar só pôde assentir.
“Dizer que você é médico. Onde ele estava com a cabeça?”
Krikor disse que não era culpa de ninguém, que era a ilha, o clima, a distância, que não havia médico real que pudesse ter chegado a tempo, que desejava dar esperança à família. Uma defesa improdutiva que não apaziguou os ânimos, até porque Kaspar adoeceu também.
Trabalharam as semanas que (restaram). Trabalharam em silêncio, os três saudáveis, enquanto o velho descansava na embarcação. O pescador não voltou ao Austral. Ninguém na ilha voltou ao Austral, a não ser para trazer mantimentos com a pontualidade mecânica dos que cumprem um acordo e não desejam mais do que isso. Edgar sonhou com o lavador de defuntos duas vezes naquelas semanas, e numa delas o defunto na mesa tinha a respiração chiada de madeira verde queimando.
Kaspar morreu seis semanas depois de receber a notícia da licença. Não de doença, porque os homens da sua estirpe raramente morrem de doença. Morreu do jeito como os velhos de ilha morrem quando o mar lhes tira o último motivo de acordá-los: calado, sentado em uma cadeira no convés, com os olhos na direção do horizonte, como se estivesse esperando por uma embarcação que sabia que não viria mais, mas que lhe parecia descortês não aguardar. Quando Edgar chegou, o avô já tinha a temperatura do entardecer. Não havia surpresa naquela morte.
Tiveram que vender o Austral para cobrir as dívidas que o processo havia gerado. Edgar observou o barco ser levado pelo cais por um homem que não sabia o nome da embarcação e não perguntou, e pensou que Kaspar havia comprado o navio com todo o dinheiro que tinha. Venderam toda a mercadoria, fizeram o pagamento dos tripulantes, repartiram com os burocratas e ainda ficaram devendo uma boa parte.
Há uma classe de credores que não aparece nos contratos. Eram esses os que Edgar precisava evitar agora. Homens que o processo havia envolvido indiretamente, que tinham interesse na licença perdida por razões que nenhum papel registrava, que sabiam o que Krikor havia feito e entendiam que Edgar sabia também, e que portanto o incluíam, por associação de sangue, na conta. Edgar fugiu para o continente. Krikor também, mas na direção oposta, o que era a única decisão sensata que tomara em todo aquele período, pois os credores sem contrato preferem ir ao encontro de quem têm maior chance de render alguma coisa, e Krikor não tinha nada que não tivesse comprado com o dinheiro dos outros.
Foi numa cidade do interior, chamada Madalena, onde a água mais próxima ficava nas nuvens, que Edgar conheceu Úrsula Haidar. Ele foi a trabalho a mando de Heleno de Farias, que o recomendou a um primo que tinha um roçado. Úrsula, por sua vez, estava na primeira fila da missa da única capela que existia na cidade. Era uma mulher de costas retas, com aquele tipo de imobilidade nos ombros que sugere ou muita paz interior ou muito esforço contínuo para aparentá-la, e Edgar, que havia aprendido a distinguir as duas coisas no exército, não soube, naquele primeiro encontro, de qual se tratava. Sentou no último banco, observou a nuca durante toda a homilia e saiu antes do amém, mas voltou na semana seguinte.
O interior o sufocava com um silêncio de qualidade diferente da que conhecia. O silêncio do mar é um silêncio em movimento, que nunca é o mesmo por dois segundos consecutivos e que, por isso, consola. O silêncio da terra é resolvido e definitivo, como uma sentença que não admite recurso, e por isso oprime. Edgar acordava naquele quarto com a sensação de que o ar não circulava, de que os horizontes haviam sido revogados e substituídos por paredes de barro e cercado. Sonhava com O Austral. Sonhava com Kaspar na cadeira da soleira com os olhos vazios. Sonhava com a criança e com o manual de primeiros socorros que não havia ajudado, sonhava até mesmo com seu confinamento no casebre e Heleno iluminado à meia-luz. E uma ou duas vezes por semana, acordava ofegante com o lavador de defuntos passando o pano úmido por toda a sua pele, que cheirava a azeite, mas que agora possuía um olho de vidro que ficava sempre fixo em Edgar.
III
O primeiro grande contrato que Edgar L. S. fez, em sua desditosa vida, foi com Úrsula Haidar. Nada se comparava àquilo, nem mesmo o contrato que firmara com o exército, tampouco com os caçadores de leões-marinhos. Ambos, Úrsula e Edgar, se encontravam face a face, diante de um pároco alquebrado, suspensos num altar com certa pompa. Os despojados enfeites prateados decoravam por inteiro o desolado espaço da Chácara dos Diamantes. Era um contraste inquietante, pois o brilhar prateado não ofuscava a soturna penumbra daquela propriedade. Até nos dias ensolarados, o negrume e o pesar de seus proprietários faziam com que aquele local peculiar parecesse enevoado, como se os lamentos e os desgostos estivessem sendo soprados, como num fluido, ao solo em um fluxo contínuo.
Mas nada o fez hesitar naquele dia: nem mesmo os olhares ansiosos das duas famílias, poucas pessoas salpicadas entre cadeiras de madeira; tampouco a rouquidão trovejante de Sua Reverendíssima Excelência. Edgar estava desavisado sobre seu próprio destino.
“Eu aceito”, disse com convicção.
É bem verdade que Edgar só haveria de entender a seriedade deste aceite anos mais tarde. Havia, naquele dia, uma ansiedade, como um presságio, que o desconectara das relações causais, que (lhe tirava) o peso do presente, dando uma urgência a um futuro desconhecido, que alarmava sabe-se lá sobre o quê. Por conta do transe pré-nupcial, ignorou as palavras do sogro que foram ditas mais com assertividade do que com altivez.
“Preste atenção, Edgar. Um projeto de homem precisa apenas de três coisas para se fazer homem de fato: um ofício, um propósito e uma mulher. Eu te dei um ofício, não pretendo saber de seus propósitos, mas imagino que eles existam e, agora, por fim, te entrego minha filha. Você é um homem completo, entende? E não está assumindo uma responsabilidade apenas com ela, mas com toda a família. E, mais importante ainda, comigo”
A família Haidar, de origem libanesa, já havia se convertido ao cristianismo algumas gerações acima de Úrsula e abandonado as tradições árabes. Não haveria festa tradicional, nem celebração secular. O que houve foi apenas um marco.
Edgar mal sabia que, onze anos depois de seu casamento, João Antônio Haidar, seu sogro, se tornaria prefeito de Madalena e um dos políticos mais influentes da região. Mal sabia também que, em meio a tantos contratos formais e informais, notáveis ou corriqueiros, se depararia inevitavelmente com O Contrato, este que era derradeiro. O que mudaria a vida de todos os partícipes.
IV
A grande sala de estar da propriedade dos Haidar, cedida a Edgar e Úrsula, parecia pequena naquela reunião. O enclausuramento era percebido por todos, embora fosse uma percepção mais extrassensorial do que um retrato fiel da realidade. Era dia, mas o cômodo se negava aos fatos, dando apenas a concessão de um filete de luz vazante de uma janela ao epicentro da reunião, onde as cinco cadeiras formavam um círculo ao redor de uma mesinha de centro.
Gutierrez tinha cinquenta e sete anos, mas aparentava mais. Havia algo no olhar que lhe emprestava um cansaço, compondo uma expressão natural de desgosto. Era parrudo e esparramava-se por onde quer que fosse repousar, embora graúdo e (bem-vestido). Pediu permissão, mesmo sabendo que não esperaria a resposta, para acender um cohiba com uma folha de cedro.
“O Doutor aceita beber um conhaque?”
Ao fim da pergunta, Edgar rabodeolhou Úrsula, como quem fosse confirmar que realmente possuíam a bebida em seus aposentos.
Edgar olhava para uma versão (treze) anos mais velha da mulher, mais pálida e esquelética, com uma vitalidade pouco resiliente que parecia ter se esvaído pouco a pouco através dos anos, indo se esconder nos cantos, a fim de compor as trevas daquela residência.
“Um copo d’água já me bastaria”
O marido de Úrsula, (de aparência castigada pelo tempo e pela maresia,) fez um sinal para a mulher, que àquela altura se sentava ao seu lado. Úrsula se levantou para buscar copos de água não somente para Gutierrez, mas também para seus dois acompanhantes que o ladeavam, sentados nas cadeiras, e também para os dois seguranças que se mantinham em pé na porta de entrada do aposento.
Edgar suspirou, tentando esconder algum resquício de nervosismo.
“Depois de longas semanas de conversas com seu Engenheiro, cá está o doutor. Deu uma chance para os negócios”. O homem permaneceu a observar a ponta em brasa do charuto. Percebendo que não haveria espaços para elucubrações ou informalidades desúteis, Edgar se apressou para ser o mais direto possível. “O doutor deseja ver (o terreno) ou quer ir direto aos termos?”
Enquanto Úrsula baratinava por entre as vistas dos negociantes, segurando uma jarra com água, os homens que guardavam a entrada tentavam, sem muito sucesso, descobrir alguma curva atrativa em seu corpo. Gutierrez permanecia imóvel, somente a fumaça serpenteava à sua frente.
“Já que estamos devidamente acomodados, podemos começar pelos termos”
“Pois bem”. Edgar se ajeitou na cadeira. “Vou ser o mais direto possível, doutor. Não tenho desejo algum de ficar em uma folha de pagamento de sua empresa, tampouco de ficar a par de qualquer logística, lucro, participação ou questão burocrática. Meu desejo maior é dar saúde, educação e bem estar para Úrsula e meus dois filhos. Estou decidido. Por isso mesmo é que, sabendo de sua ansiedade para que tudo comece logo, assim que nosso negócio for feito, pretendo já estar bem longe (desta terra) com minha família. Particularmente, em algum país que me dê condição de dar uma criação adequada a eles. Úrsula tem familiares (na Salméria.) Já estamos ajeitando tudo para que lá seja nosso destino. Só Deus sabe o meu desejo de ir para bem longe de Madalena”
“Certo…”
“Então, para sua alegria, presumo”, Edgar continuou, “não tenho interesse em royalties, nem numa quantia que realmente fosse justa pela riqueza que há nessa terra. Aceito uma quantia menor, vendo o terreno para o doutor e deixo que fique com cem por cento da exploração”
“Isso não me parece muito inteligente de sua parte. Ademais, para que diabos eu iria querer ter a propriedade de uma chácara em Madalena? Que fique contigo a propriedade, meu desejo é apenas a exploração”
“Não vejo sentido em continuar com a propriedade. Após o início da operação, será impensável morar aqui. Além disso, já pretendo estar longe, (na Salméria.) Mantendo a propriedade da chácara, terei direito a royalties e, portanto, o valor que você me pagará pela operação será menor. Não é esse o meu interesse. Prefiro perder no longo prazo”
Gutierrez se moveu pela primeira vez desde o início das tratativas. O gorducho se ajeitou e olhou à sua esquerda para o sujeito exageradamente barbado. Os olhos miúdos, apertados atrás de óculos redondos, retribuíram o olhar.
“Há algum imbróglio na compra da chácara?”, perguntou ao advogado.
O velho pigarreou, repousou o copo na mesinha de centro, num raro momento em que saiu da escuridão e se revelou no resistente facho de luz. Limpou a barba exagerada enquanto virava os olhos para cima, numa tentativa de expressar uma reflexão sobre a pergunta.
“Não, senhor”. Disse, por fim. “Claro que teríamos que esperar todo o processo licitatório. Após isso, nada na legislação o impede de comprar o terreno”
Gutierrez, instintivamente, olhou para sua direita. Mas não esperando qualquer resposta do outro homem que o acompanhava. Sem olhar para Edgar, perguntou:
“E como descobriu tamanho tesouro?”
V
A estimada descoberta que mudaria os rumos da família Haidar se deu por um simples contrato entre pai e filho. A Chácara dos Diamantes era um local acinzentado mesmo nos dias de sol. Sentia-se o peso da existência em cada gramínea que lá fora plantada. Era uma propriedade modesta, cerca de quatrocentos e cinquenta hectares. Um terço da área útil do plantio era para o cultivo de cana, enquanto o restante se estendia numa plantação de abacaxis.
Dentre os demais sítios da região, era o menor. Uma casa de alvenaria, três andares, pintada de branco e azul desbotado, pousava no centro da chácara. Havia, nos arredores da casa, resquícios do que antes fora um viveiro de peixes. Circundava em toda a propriedade uma cerca de arame farpado, a fim de delimitar e impedir invasores, embora os próprios proprietários soubessem, em seu íntimo, que ali não havia atratividade alguma e que, por si só, a própria aura mística do local já se tratava de repelir quem quer que fosse.
Rubens, o filho mais velho do casal, já tinha idade de quase-homem, embora a mente ainda fosse conservada de menino. Não se sabia o porquê e sequer investigaram o motivo do evidente retardo. Mas o menino, único que demonstrava alguma energia naquela família, vivia explorando o além-chácara, passando com certa habilidade pelos arames e se adentrando mato afora. Voltava, para casa, sempre ferido, com arranhões e picadas de insetos. Nunca sabia explicar a causa de seus ferimentos com exatidão.
“Prometa que não vai mais brincar além dos limites de nossa terra”, pediu o pai. “É perigoso. Olhe bem para como está machucado! E se pisar numa cobra? Meu filho, se aventure na chácara. Pode brincar no viveiro, teu pai o deixa dessa vez! Promete que ficará por aqui?”
“Prome-meto”, gaguejou o rapaz de cabelos bagunçados.
Dias depois, o menino desbravante deu a volta no curral e se aventurou para lá da plantação. Perto do córrego, quase nos limites da propriedade, encontrou a caverninha que, por medo do escuro, nunca havia adentrado mais do que seis passos. Era preciso ter certo contorcionismo e coragem. Assim teve.
Retornou à casa, alguns minutos depois, com os pés, as mãos e as ancas (sujos) de preto, num líquido viscoso.
VI
“A partir daí, meu ajudante e eu fomos averiguar a caverninha e seus arredores. Pegamos a escavadeira, fizemos um buraco e o petróleo simplesmente brotou do solo, como se estivessem espremendo a terra”. Edgar já não mais conseguia esconder o sorriso. “De prontidão, chamei um amigo antigo da família, o senhor Heleno de Farias, lá de (Curvelo do Sul). Ele é geólogo, bastante letrado, trabalhou com petróleo a vida toda. Primeiro, ele trouxe um aparelho com uma antena, passou por quase todo o terreno, empurrando-o num carrinho e demorando quase o dia todo. Não sendo totalmente suficiente, mas dizendo que eu já poderia me animar, trouxe, uma semana depois, outro aparelho, este mais difícil de descrever”
O homem que estava à direita de Gutierrez pigarreou, quebrando um silêncio que persistia desde o início da conversa.
“Seria este segundo aparelho uma espécie de maleta com fios que se conectam ao solo?”, perguntou, ainda encoberto pelas sombras da sala. Após Edgar assentir com a cabeça, o homem loiro, aparentando ter quarenta anos, de barba cerrada e queixo robusto, se virou para Gutierrez. “Um scanner sísmico portátil. O primeiro aparelho, provavelmente, é o que chamamos de GPR. Uma espécie de radar de alta frequência que consegue penetrar o solo a fim de mapeá-lo”
Gutierrez agora fumava lentamente, aproveitando cada molécula de nicotina que a mucosa de sua boca era capaz de absorver. Era uma espécie de ritual. A nicotina o estiava, tornando-o em maré mansa. De certo modo, sua intuição o injetava uma adrenalina que precisava ser domada. Havia algo de estranho em toda aquela situação. Os longos anos de experiência fizeram com que aprendesse a domar a onda destruidora que era sua personalidade impulsiva.
“Certo, Edgar…” Os quase-tragos eram cada vez mais longos. “Seu filho encontrou petróleo aqui, neste fim de mundo”
“Difícil de acreditar, hã? Marina, traga Rubens aqui!”
O grito de Edgar foi em direção à cozinha. Não tardando, a menina de (treze) anos trouxe, como quem traz um velho incapaz, o menino apenas um ano mais novo.
A expressão abobalhada do rapaz causou certa repulsa em Gutierrez. Nem mesmo o homem era capaz de justificar o sentimento de aversão que surgiu ao contemplamento daquele casal: Marina, uma menina tão esquelética quanto a mãe, fantasiada num vestido infantilóide recheado de rosídeas, que claramente contrastava com o humor cadavérico que se refletia em suas expressões faciais, ou talvez na inexistência delas; e Rubens, o menino de um metro e noventa, vestido com roupas dois números menores e sinais de uma puberdade precoce que já o preparava para uma juventude que sua mente não correspondia.
“Cumprimente o Doutor Gutierrez e seus dois amigos”, ordenou o pai.
“Praz-z-zer”, o menino acenou com timidez. “Encontrei pretólio”
Os dois funcionários do gorducho cumprimentaram, em silêncio, com um movimento de cabeça. Gutierrez o ignorou.
“O que é isso, Edgar?”, perguntou, não conseguindo conter a onda que viria a quebrar à beira-mar. “Seu filho é alguma espécie de idiota?”
Marina se retirou com o irmão para a cozinha, como se já houvesse sido adestrada a evitar qualquer tipo de constrangimento ao garoto.
“Sim, doutor. São as consequências de morar no campo. Não pude nem mesmo dar um tratamento digno ao meu único menino. Nunca nos faltou alimento, mas a distância dos grandes centros nos custou caro em muitos aspectos”
“Não há motivos para espetacularização ou coitadismo, Edgar”. Gutierrez mantinha-se firme, parte encoberto pela fumaça densa de seu cohiba. “Você me parece um homem eloquente, de alguma inteligência. De antemão aviso que não sou de ter o coração amolecido. Vamos evitar as inutilidades e focar no negócio. O seu amigo de (Curvelo do Sul) lhe indicou quanto há de petróleo em sua propriedade?”
“Ele me deu uma estimativa, sim, ainda mais precisa com o segundo aparelho. De sete a dez milhões de barris de petróleo”
Gutierrez se ajeitou na cadeira. Repousou, sem se importar com a ausência de um cinzeiro, o charuto na mesinha de centro de madeira.
“Está me dizendo que há, em terra, neste fim de mundo, cerca de dez milhões de barris, numa propriedade que estimo ter…”, o homem pendulou a cabeça enquanto fazia uma expressão de indiferença. “Quatrocentos hectares…”
“Quatrocentos e cinquenta”, Edgar o corrigiu.
“É uma previsão bem otimista…”, o engenheiro loiro inclinou o tronco para frente. “Na costa, não é nada improvável. Em terra, aqui, me parece algo difícil, mas não impossível”
Gutierrez se surpreendeu e desmanchou aos poucos o sorriso irônico que ostentava. O gorducho esperava que seu funcionário fizesse coro a sua indignação e instaurasse a pilhéria com o anêmico fazendeiro que se encontrava a sua frente. Essa quebra de expectativa amansou o coração do petroleiro.
“Certo…”, o homem cerrou os olhos. “E por qual motivo me chamou, Edgar? Por que eu?”
Como se a pergunta finalmente aguardada houvesse sido feita, Edgar estranhamente se animou ao falar discurso pouco condizente com sua mudança de humor:
“Sei da condição de sua petroleira, doutor. Fiz minuciosa pesquisa. Sei que está à beira da recuperação judicial e que aguarda uma oportunidade de ouro para reverter a situação. Sei também que o doutor confiará na qualidade dos meus termos, pelo simples fato de serem amplamente vantajosos para todas as partes. Eu vim para lhe oferecer a propriedade e também a licitação para explorá-la”
Gutierrez levantou as sobrancelhas.
“A licitação?”
“Sim. Meu sogro é amigo de Rodolfo (Feijó,) Diretor-Geral da Agência Nacional de (Exploração e Recursos.) São aliados políticos de longa data. Meu sogro certamente nos ajudaria em toda essa transação, sabendo que Úrsula seria muito bem recompensada. Não se preocupe, já tratei disso com ele”
“Perdão”, o advogado pareceu se interessar pelo assunto. Acariciava a própria barba enquanto falava. “Seu sogro lhe disse como conseguiria a licitação?”
“É simples. Na definição de blocos de licitação, vamos priorizar o terreno. Depois, vamos fraudar os dados para afastar as grandes petrolíferas, de modo que se mostre pouco rentável e pouco atrativo. Por fim, vamos estudar o melhor modo de favorecer a (Extracta de Altemburgo) no edital. E aí está, o doutor poderá, na fase de leilão, ter todos os privilégios possíveis. Caso haja ainda algum outro player interessado, o que acho difícil, posso te vazar a proposta dele e, assim sendo, o doutor vence em qualquer cenário”
Os três homens se entreolharam com certa tensão muda. O silêncio se instaurou por alguns segundos, enquanto as mentes maquinavam em sincronia, só sendo rompido pelo ranger de alguma janela distante. A eloquência de Edgar surpreendia os homens que esperavam negociar com um matuto ignorante.
“Que tipo de dados poderiam ser fraudados?”, o advogado barbudo afrouxou a gravata enquanto perguntou, em um sussurro que, na verdade, foi audível a todos.
“Acho que poderíamos atacar na viabilidade técnica”, respondeu o engenheiro loiro. “Temos que baixar essa estimativa de barris, alterando o gráfico do radar sísmico. Mas não só isso, podemos também aumentar a dificuldade de extração mudando os dados de porosidade e permeabilidade das rochas”
“Conseguimos aumentar o custo do projeto adulterando a profundidade do petróleo?”, Gutierrez perguntou.
“Sim. Dá para adicionar algumas falhas geológicas também”
“Acho que conseguimos fazer alguma coisa com questões ambientais. Podemos sugerir a presença de algumas camadas de aquíferos frágeis…”, o advogado voltou a acariciar a própria barba. “Aqui tem mata fechada bem próxima, podemos forçar um pouco a barra…”
Novamente o silêncio… De repente, Edgar percebeu o quão quente estava aquele dia. O olhar alternava entre os três homens à sua frente, pensativos. Eventualmente, olhava também para Úrsula que, àquela altura, já havia se sentado mais uma vez ao seu lado.
“Certo, Edgar…”, o petroleiro pegou novamente o cohiba que havia se apagado na mesinha de centro. “Vamos supor que existam, realmente, cerca de oito milhões de barris de petróleo aqui. É claro que preciso de garantias e que teremos muitas outras reuniões, inclusive com seu sogro, para adiantarmos a tratativa da licitação”. Ele interrompeu a fala para acender novamente o charuto. “Com as garantias e sentindo confiança que seu sogro conseguirá o que prometeu, eu te faria uma proposta de dois milhões de cruzeiros pela propriedade e pela licitação”
Edgar riu, ato contínuo, olhou para sua esposa que não retribuiu o olhar. Manteve-se firme, imóvel. Voltando-se para os três homens, disse:
“Não me subestime, doutor. O doutor havia, quase agora, reconhecido que havia alguma inteligência em mim. Só esta propriedade custa (um milhão e setecentos mil cruzeiros,) aproximadamente. Como bem sabe seu competente advogado”, Edgar apontou para o barbudo, “eu teria direito a cerca de (seiscentos a setecentos mil) somente em royalties. Além disso, tenho que pagar o risco que meu sogro correrá, além de ter que pagar os favores de Rodolfo (Feijó. Dois) milhões de (cruzeiros) é uma proposta impensável. Eu estava cogitando algo em torno de (quatro) milhões…”
“Hê…”, Gutierrez interrompeu com uma interjeição irônica. (“Quatro) milhões de (cruzeiros…)”
“De dólares, doutor”
O peso da proposta trouxe novamente seriedade àquela conversa, naquele cômodo claustrofóbico e ensombreado. Pelo modo como o homem o observava, Edgar sentiu que havia fisgado algo no íntimo do empresário.
“Aceito contrapropostas, doutor. Desde que não me subestimem”
O conflito interno de Gutierrez se dava por conta da dualidade da assertividade da oferta de Edgar. Embora isso lhe desse segurança, por saber que estava tratando de um negócio sólido com um negociador sólido, nunca esteve confortável quando acuado. De certa maneira, a forma como Edgar expunha um conhecimento não-condizente com sua situação o irritava.
“Se abaixo de nós estiverem oito milhões de barris de petróleo, Edgar, eu te faço uma proposta próxima ao que você estipulou. Mas preciso de garantias. Não é uma movimentação financeira simples. Tampouco será fácil conseguir levantar uma quantia assim”
“Não se preocupe com as garantias, doutor. Você me pagará em quatro parcelas, à medida que o projeto avance de fase. A primeira parcela, o doutor me dará quando mobilizarmos a (ANER) para fraudar os dados do bloco; a segunda será quando a (Extracta de Altemburgo) ganhar o processo licitatório; a terceira, o doutor pagará quando assinar o contrato de venda da propriedade; enquanto a quarta, e última, será paga quando for aprovado o plano de desenvolvimento e todas as licenças forem dadas, ou seja, quando a primeira gota de petróleo for extraída pela sua empresa”
O advogado se recostou novamente nas costas da cadeira, fazendo com que seu rosto fosse novamente encoberto pelas sombras.
Com o silêncio dos três homens, Edgar continuou:
“Nessa região não há nenhum dado no Banco de Dados da (ANER,) isso já foi confirmado por Rodolfo. O doutor pode ficar tranquilo quanto a isso. Serão feitos dois relatórios, o real e o fraudado. O doutor só me pagará a primeira parcela após ter acesso aos dados reais da (ANER…)”
“É você quem me subestima agora, Edgar. Em seu delírio, acha mesmo que te darei cerca de (um milhão de) dólares, confiando em um relatório de uma empresa fraudulenta, a mando do seu sogro? Acha que sou burro como sua mulher ou idiota como seu filho?”
Gutierrez precisava escalar o tom, precisava colocar aquele maltrapilho em seu devido lugar. Agora, já não havia como conter as ondas.
Ele tentaria sua cartada final, um misto de intimidação com um sentimento crescente legítimo. O advogado e o engenheiro não se manifestaram em reações, pareciam estar acostumados com as abruptas escaladas do chefe. Gutierrez retirou, do coldre escondido em seu colete, um Magnum calibre quarenta e quatro com empunhadura cor de mogno, seis projéteis no tambor, e repousou o poderoso revólver no colo, apontado, despretensiosamente, a Edgar.
Úrsula arregalou os olhos ressecados, mas não se atreveu a se mover. Edgar permaneceu na mesma postura.
“Eu vou te dizer como faremos…”
“Acredito que o doutor não queira apontar um revólver para o genro de João Antônio Haidar…”
“Cale a boca, filho da puta. Faremos da seguinte forma: eu virei com meu engenheiro e com meus técnicos para fazer a análise do seu terreno. Depois, a (ANER) pode fazer o relatório fraudulento. Entendeu?”
“Certo…”
“E, obviamente, você terá que recusar qualquer outra empresa que queira coletar qualquer tipo de informação geológica deste fim de mundo”
“Certo…”
“E por fim, Edgar, tenho que te dizer como faço meus tratos. Eu sou honrado e farei de tudo para cumprir com minha parte. Já a parte de sua família e da honra manchada de seu sogro… Não sei. Mas o meu trato é contigo e o dinheiro será dado a você. E tenho que te dizer: se faltar com a palavra em um mínimo detalhe, seu frangalho de merda, não hesitarei em enfiar uma bala na sua cabeça e na cabeça do retardado do seu filho. Nada que eu já não tenha feito antes, Edgar. Seu sogro não me intimida. Fui claro?”
Uma injeção de adrenalina subiu pelas vértebras de Edgar. Ele acenou lentamente com a cabeça, enquanto observava a boca trêmula de Gutierrez. (De repente, o homem lhe pareceu vestir uma máscara, ocultando o que havia sido nos minutos anteriores.)
“Nada mais justo.”
Capítulo Dois: Dos Vícios Ocultos
I
O assento metálico era duro e frio. O tempo sentido também assim o era. A reflexão perdida nos ventos em contramão fazia com que Krikor revisitasse sua história enquanto chacoalhava naquele ônibus sujo. Estava praticamente vazio. O ranger metálico da dura suspensão competia com o motor; competia também com os pensamentos distantes, com a mácula enevoada do novo local, com o cinza opressor das nuvens e do próprio pedacinho de céu não enevoado, com a paisagem rural pouco convincente de que um futuro o esperava por ali.
Bem-vindo a Serralta, dizia a placa. Já havia ouvido falar do local, já até o havia visitado enquanto criança, embora não se lembrasse bem da experiência. Kaspar contara para ele muitos anos atrás. Eram histórias da juventude do marujo, ambientadas onde ele percebia agora serem verdadeiros os fatos que acreditava serem exageros de fábula. Não havia outono naquele local, Krikor sentia no ar. Era uma cidade entregue aos gafanhotos, ao cheiro de serra e à chuva incessante que não parecia revigorar a terra, mas sim castigá-la. Bem-vindo a Serralta, poderia ter dito o inseto preso no vidro do ônibus que Krikor recostava a cabeça.
Seus pés estavam úmidos. Sentia frio, mas não havia mais nenhum casaco em sua mochila rasgada. Teria de suportar, como suportara a viagem inteira, o fardo de seu passado. Olhou para o relógio de pulso. Estava parado às sete horas. Presumiu que já deveriam ser nove. Olhou no relógio acima da cabeça do motorista. Nove e quinze.
O ônibus silvou ao frear. O som sibilante o despertou dos devaneios proibidos, fazendo-o observar que já se encontrava na humilde rodoviária da cidade. Seu tio estava lá, como o próprio Krikor havia sugerido em sua carta. Surpreendeu-se, porém. Não esperava que fosse recebido. Não havia otimismo quando se tratava de revisitar o passado.
O homem era até mesmo mais magro que Edgar. Os cabelos eram ralos. Os braços eram desproporcionais, dando um aspecto simiesco à silhueta. Vestia uma camisa aberta e abriu um sorriso com alguns dentes faltantes. De certa maneira, seu corpo inspirava certa fragilidade, com o contraste inquietante do olhar seguro de Capitão Corisco.
“Tio Levon…”, Krikor não escondeu a surpresa na voz enquanto caminhava na direção do tio. “O senhor não mudou absolutamente nada”
O tio tragou o cigarro e dispensou a fumaça com naturalidade.
“Está com fome, moleque?”
“Bastante”
Soltou uma risada e segurou no cotovelo do sobrinho, a fim de guiá-lo pelo caminho. Era um percurso esburacado, enlameado pela fina chuva que persistia. Caminharam em silêncio. Krikor observou as poucas casas da cidade. Eram feias, pois não possuíam as cores vibrantes de São Pierre. No centro de tudo, como de costume, uma igrejinha. Oito e quarenta e cinco, marcava o relógio. Questionou-se se estava observando as horas errado, confundindo-se com os ponteiros e ficou com vergonha de perguntar ao tio. Mas ficaria atento, pois desbravava terra nova, atentaria-se, portanto, às possíveis confusões dos galos, ou das missas com procissões de entrada apressadas, do badalar vacilante dos sinos da igreja, mas pensou, também, que talvez fosse sinal do descompromisso da cidade ou, quem sabe, do desarranjo entre o corriqueiro e o sagrado, ou de outros aspectos peculiares do local que o acolhia com frio, lama e chuva.
Finalmente chegaram em casa. Um terreno particularmente instável, com uma cerca parte tombada, parte erguida resistentemente e uma casa bem pintada, que surpreendia, ao centro, contrastando com o cenário ao redor. Um cão ergueu a cabeça com a presença de Krikor, mas o ignorou quando este passou ao seu lado para adentrar na residência.
Entrava-se pela cozinha, o que o jovem estranhou. Já estivera nessa casa quando criança, mas não lembrava desse detalhe. O cômodo tinha uma mesa de madeira comprida e bancos que mais serviriam para a área externa. Krikor se sentou.
“Meu pai”, disse Levon, sentando-se à frente de Krikor e servindo café para os dois. “Ele morreu, não é?”
Krikor recebeu o saco de pão que o tio lançou para perto.
“Sim. Vovô morreu há quinze dias”
“Eu imaginei quando li sua carta. Algo que gostaria de me contar pessoalmente… O que mais seria?”, o olhar duro do homem pareceu se aquietar num momento de reflexão. Ele fungou alto. “Grande homem… Uma pena que se foi antes de nos acertarmos. Mas para quem estou dizendo isto? Ele certamente foi mais pai para você do que para mim”
O jovem assentiu enquanto comia.
“Foi uma morte tranquila?”
“Morreu fazendo o que amava”
Levon bateu na mesa, num breve momento inadequado de comemoração.
“E Edgar?”
“Também saiu de São Pierre. Foi ao sul. Curvelo do Sul. Está trabalhando na casa de um amigo”
O homem não respondeu. Pousou o olhar em sua xícara por muitos segundos. A calmaria das ausências, seja de palavras ou sentimentos, materializava-se em vento cansado, que adentrava pelo basculhante, mas desviava dos dois, indo repousar por debaixo da mesa e dançar por entre as pernas dos ocupantes.
“Você se lembra?”, Levon perguntou. Girou o dedo em riste, dando a entender que a pergunta se tratava da casa em que estavam.
“Na verdade, muito pouco, tio. Estou com sentimentos estranhos. Sinto que nada por aqui mudou, mas, ao mesmo tempo, sinto que não me lembro de como era”
“Algumas coisas mudaram, Krikor. Sua tia Esmeralda se foi. Também está morta, como meu pai”
O jovem demonstrou surpresa. Mas antes que pudesse lamentar, sua atenção foi chamada para o corredor ao lado da cabeça do tio, onde uma criança de aproximadamente três anos o observava timidamente, dando a impressão de que tentara se esconder, mas que não resistira ao ímpeto de entender quem estava conversando na cozinha. Percebendo o olhar do sobrinho, Levon virou a cabeça por sobre os ombros.
“Este é meu filho que você não conheceu”. O garoto se aproximou. “Damião, este é seu primo que mora longe”. O garoto com o nariz sujo, escorrendo até o buço, o cumprimentou timidamente.
“Prazer, primo. Eu me chamo Krikor”
O silêncio se pôs, deitou-se sobre a mesa.
“Aparentemente…”, Krikor quebrou o momento reflexivo. “Essa família só é capaz de produzir homens”
Levon riu de verdade, pela primeira vez.
“Sua mãe foi a única mulher da família. Talvez, por isso, ela tenha sido tão mimada pelo velho”, o tio fechou a expressão. “E seus filhos também”, olhou fixamente para o sobrinho que desviou o olhar.
De certa forma, aquela foi a deixa para que o silêncio retornasse. Krikor observou melhor o seu primo. Sentiu vontade de pentear-lhe os cabelos, sem saber de onde surgiu esse impulso, num primeiro momento. Depois refletiu. Viu-se no menino. Lembrou-se de Kaspar, com suas calças vermelhas e seu pente de bolso, aproximando-se de si, quando era tão frágil quanto Damião, ajeitando as golas da camisa, conferindo os botões e penteando seu cabelo que insistia em arrepiar. A criança, que um dia sabia que fora, erguia os olhos e via o avô de baixo para cima, com a expressão fixa, o cachimbo no canto da boca, os alertas para que mantivesse o pescoço firme enquanto o pente percorria os fios.
“Meu pai foi o melhor homem que conheci, de certa maneira. Lamento que ele não tenha conseguido reconhecer os méritos em mim. Eu sou produto dele tanto quanto minha irmã. Em muitos momentos, me pego agindo como ele. Coisa que tentei não fazer em toda a minha juventude. E agora estou aqui, sentindo saudades, mesmo depois de todos esses anos de hostilidade velada”
“Como ele nunca me contou o que houve entre vocês, presumo que o senhor também não me contará, certo, tio?”
Levon tirou os olhos da xícara. A expressão se fechou. Krikor sentiu que pisava em terreno perigoso.
“Quem sabe um dia? É passado. Odeio o passado. Sou um homem do agora, Krikor. Sou um homem que nunca entra na mesma história duas vezes. Mas o que você quer? O que faz aqui?”
Krikor se ajeitou na cadeira.
“Tive alguns problemas em São Pierre, tio. Não tenho para onde ir. Eu tive que…”
O homem o interrompeu, balançando as mãos.
“Não quero justificativas, Krikor. Eu não gosto do passado. O que você arranjou por lá, ficou por lá. Não quero saber. Você precisa de um lugar para morar? É isso? Aqui está sua família. Você é bem-vindo”
Krikor suspirou. Sentiu um alívio que não sentia havia séculos. De repente, com a resposta positiva, o peso de suas decisões escorreu de seus ombros, pousando duramente num chão que não mais se abriria em abismo. Antes que pudesse agradecer, a porta de entrada abriu atrás de si. Um homem pouco mais velho que Krikor adentrou, retirando o chapéu surrado, vestindo um casaco salpicado de lama. Ele se surpreendeu ao ver o jovem sentado à frente de seu pai.
“Krikor?”
Assentiu. Tratava-se de Baltazar, filho mais velho de Levon.
“Quanto tempo, Baltazar. Quanto tempo…”
O homem juntou-se à mesa com os dois.
“Baltazar está noivo. Casa-se daqui dois meses”, disse o tio. “Quando se for, você poderá ficar com o quarto dele”
“Então Krikor vai morar aqui?”
Levon sorriu ironicamente.
“Sim. O vovô morreu e ele arranjou confusão. Agora precisa do titio”
Krikor também riu.
“Então o velho morreu? Que pena, que pena… Certo, primo, seja bem-vindo. Meus sentimentos pela morte de Kaspar. Ele era muito mais seu avô que meu, mas lamento mesmo assim”
Nesta mesma mesa comprida, entre xícaras de café e o silêncio habitual das interações em família, Krikor e Baltazar relembraram momentos da infância, nos dias que se seguiram, momentos muito mais vívidos na memória do primo mais velho. Foi lá também que conheceu Leonor, a nova esposa do tio, poucos anos a mais que Baltazar e com uma beleza surpreendente, incompatível com o castigo temporal sofrido por Levon.
O primo trabalhava em Porto Negro, cidade cerca de duas horas de distância de Serralta. Estava se mudando para lá, esperando apenas o casório para confirmar a mudança. Havia conseguido comprar uma casa, fato esse que o destacava da média de cidadãos da região. “Devo tudo ao meu pai”, dizia. O ofício de soldador naval o fizera conseguir alcançar certo sucesso financeiro. Pareceu a Krikor que o primo havia se tornado um homem ambicioso, mas com a cautela acertada dos que vivem a vida com pouco risco.
A apresentação de Edmundo aconteceu alguns dias depois, na beira do cais de Baía das Garças, cerca de quarenta minutos de Serralta, onde Baltazar costumava encontrar o amigo antes de partir para Porto Negro. “Este aqui é meu primo de São Pierre”, disse, sinalizando Krikor, que usava um sobretudo castanho-avermelhado, emprestado pelo tio, e acendia um cigarro. O outro homem certamente era mais velho que o forasteiro, mas também aparentava ser mais novo que Levon. Tinha um dos ombros descaído, vício que provavelmente adquiriu ao mal distribuir o peso de seus trabalhos braçais. O cabelo era ralo, acinzentado precocemente. Tinha uma franqueza no olhar que Krikor reconheceu, lembrou-lhe o olhar adolescente de Edgar, mas um tipo de franqueza que mais se assemelhava à inocência dos homens que vivem de um ofício desde sempre e que, por conta disso, não tiveram a oportunidade de desbravar as múltiplas possibilidades da existência.
“Ele é de ‘São’ o quê?”, perguntou, com a voz rouca.
“São Pierre”, Krikor respondeu.
Edmundo esticou a tarrafa por sobre a embarcação, parecia procurar por pontos de necessidade de remendo.
“Nunca ouvi falar”
Baltazar ficou, naquela manhã alaranjada, mais tempo do que devia. Era nítido que se animava com o fato novo, com a presença do primo que, embora não soubesse distinguir de onde vinha esse sentimento, parecia que traria novas histórias à região pacata. Quando percebeu que perderia o último ônibus da manhã que partiria para Porto Negro, apressou-se a se despedir.
“Vou-me indo. Mas reforço, Edmundo, este aí é filho do mar. Krikor tem muita experiência na pesca. Homem de ilha, sabe? Esses dias, me contou que já fez até expedição para caça de leões-marinhos. Vai ser melhor que todos os ajudantes que você já teve. Dou a minha palavra”
E virou-se para ir, mas não sem antes retirar um cigarro do bolso da camisa do pescador.
Os dois ficaram diante da paisagem monótona da baía. As redes suspensas entre os postes de madeira, os barcos que balançavam com paciência no entre-marolas e o cheiro peculiar de lamaçal que impregnava até o ferro dos corrimãos. Edmundo ficou parado por um momento com os pés na beira da água. Krikor o imitou. E ambos passaram um tempo no cais, olhando mais para o mar do que um para o outro. O insulano pensou que era uma maneira honesta de conhecer alguém.
“Vocês não utilizam rede de arrasto por aqui?”
Edmundo suspirou antes de responder:
“Alguns poucos vão pro mar aberto. Eu pesco de tarrafa, não tenho estrutura para um arrasto. Ainda”
“Certo. E esse barco é seu? Está precisando de uns remendos”
Edmundo se virou para observá-lo.
“Não. Eu alugo de um pescador local”
“Certo… E uma parte da pesca fica com ele?”
“Não. Eu pago adiantado pelo barco. Tudo que pesco é meu”
“Certo… E onde vende?”
“Tenho dois ou três contatos que vêm dia sim, dia não, e compram comigo”
“Atravessadores?”
“O quê?”
“Nada”, Krikor balançou a cabeça. “Quando começo?”
“Eu não sei se preciso de um ajudante mais, Igor”
“É Krikor. E, acredite, você precisa. O que mais dá aqui?”
O homem voltou a observar o infinito. Respirou fundo.
“Siri. Muito siri. Camarão, mas não são dos maiores. Corvina, aqui tem muita corvina…”, Edmundo coçou o queixo. “Com sorte, você pega alguns robalos e arrebenta na venda”
“Certo… E onde estão os seus puçás?”
“Puçás? Eu não pesco siri. Como diabos vou ficar de olho em puçá e jogar tarrafa ao mesmo tempo?”
“Você precisa mesmo de um ajudante”
Quando Edmundo foi embora, no fim daquela tarde, Krikor ficou ainda um pouco no cais, olhando para o horizonte raso da Baía das Garças, que não tinha a imensidão de São Pierre, mas tinha a mesma impessoalidade. O mar que não se importa com quem o olha. Já estava decidido. Amanhã, iria com o tio no mercado popular de Serralta a fim de comprar alguns puçás para Edmundo.
Com o olhar curioso através da janela da Rural Willys empoeirada de Levon, no dia seguinte, Krikor captou a essência carismática do povo serraltense. Estavam quase sempre descalços, com andares apressados e roupas salpicadas de lama, como Baltazar chegara naquele dia. A chuva fina apertou e um vento frio penetrou no interior do automóvel, de modo que Levon fungou e assoprou as mãos num breve momento em que as retirou do volante. Embora houvesse muita gente andando pelas ruas apertadas e esburacadas, a atmosfera pesada e silenciosa parecia suprimir os ruídos.
“Quanto dinheiro você tem?”, o tio perguntou, chacoalhando após fazer o veículo verde-musgo passar por um buraco.
“O suficiente para comprar alguns puçás”, Krikor respondeu sem tirar os olhos da janela.
“E vale o investimento? Enxergou algo em Edmundo?”
O sobrinho assentiu.
“Enxerguei um homem que trabalha muito e lucra pouco”
O tio riu. Krikor não conseguiu identificar o motivo.
“Cuidado com os homens daqui, Krikor. Eles trabalham muito e lucram pouco porque é da natureza deles. Entende o que quero dizer?”
“Eu não acredito em natureza, tio. Acredito em escolhas. E também na vontade de fazer as coisas darem certo”
Levon balançou a cabeça enquanto mordia o lábio inferior. O olhar parecia perdido, através do pára-brisa, naquela aquarela bicolor de lama marrom e céu acinzentado.
II
As semanas seguintes não se alongaram. De alguma maneira, Krikor se habituou, com estranha velocidade, ao novo modo de viver dos moradores de Serralta. Naquele lugar onde a chuva fina tinha sempre um espaço reservado no dia, o rapaz sentiu-se acolhido por aquela casa apertada, de paredes sujas e chão de cerâmica quebrada. Conseguiu chamá-la de lar muito antes do que esperava. O que antes via como destino provisório, agora enxergava como o pano de fundo de um futuro, onde se encontraria integrado de corpo e alma com os gafanhotos e a brisa cansada que mal fazia farfalhar as copas das árvores sem outono.
Krikor chegava ao cais da Baía das Garças antes do amanhecer. Aprendera os bons costumes com o povo de São Pierre. O trabalho deve começar antes do dia. Seu avô costumava dizer que o sol deveria lhe banhar a nuca, em sua primeira aparição, e que, antes mesmo das dez, já deveria reclamar do cansaço, pois era o cansaço e a reclamação que forjavam a alma masculina.
O sol era sempre tímido na baía, escondia-se nos cobertores de nuvem para se espreguiçar somente após as oito. E era nessa hora que Edmundo chegava, com a caixa de ferramentas e a rede enrolada no antebraço. Nos primeiros dias, Krikor o apresentou aos novos instrumentos que utilizariam. Isopor cortado em blocos pequenos, bambus aparados num ângulo oblíquo, linha, anzóis e uma faca de cabo de osso que comprara no mercado popular de Serralta. E se viam sozinhos na imensidão púrpura do estranho brilho matinal do mar calado, dividindo o espaço com as garças que os ignoravam e afundavam as pernas finas na areia molhada. A disposição dos puçás era ritmada num ritual quase sacralizado por Krikor. Sentia prazer em observar as distâncias, determinar os pontos ideais e repousar o instrumento como se fossem minas aquáticas. Enquanto isso, em contrapartida, Edmundo agitava-se com ímpeto, começando os lançamentos de tarrafa na beira, desejando enchê-las de camarões, e vez ou outra puxando consigo algum objeto esquecido no fundo do lamaçal. À medida que avançava passos em direção ao oceano, também penetrava as canelas mais e mais na lama espessa. E assim ficava pintado o quadro das manhãs de trabalho, no mesmo silêncio que inicialmente era opressor para Krikor, mas que agora parecia pertencer a si, fazendo-o questionar se não era sua própria alma que o produzia. Depois, quando Edmundo já havia avançado o suficiente, e se frustrado pela má qualidade dos camarões, embarcava, trazendo consigo Krikor, e ia mais longe, muito mais longe, a fim de demonstrar sua habilidade de giro de pulso e o faro específico para leitura da maneira como o cardume perturba a superfície da água. Aquele ambiente, de modo geral, entretanto, era imperturbável e, mesmo que outros pescadores acabassem dividindo o espaço com a dupla lá pelas dez horas, sentiam-se sempre que estavam sozinhos, jogando as tarrafas de maneira síncrona, sentindo o frio que descia das nuvens e repousava no chão do barco.
Na quarta semana, concordaram que talvez devessem inverter os papéis, ocasionalmente, para suprir eventuais ausências. Foi assim que Krikor ensinou a Edmundo como se pescava siri em São Pierre. A lógica operacional era engenhosa, mas paradoxalmente transbordava a simplicidade criativa dos insulanos. Os cubos de isopor eram amarrados aos puçás, fazendo-os flutuar. Mas não estavam lá apenas por isso; as boias improvisadas também indicavam quando o siri adentrava na rede e a movia enquanto se alimentava da isca. Quando a boia dançava na superfície do mar, vibrando de um modo distinto, devia-se encaixar o bastão de bambu, cortado como um garfo, abaixo do isopor, e içar o puçá com a técnica correta.
“O siri sente a vibração. Sente quando estamos nos aproximando”, explicou Krikor. “Por isso o bambu tem que ser bem extenso. E você tem que encaixar e puxar rápido. Se for devagar, o siri escapa. Se for rápido demais, mas no momento errado, ele também pode ser jogado para fora”, completou.
Edmundo se habituou rápido ao método, mais rápido que o próprio Krikor que, àquela altura, não estava tão acostumado à pesca com tarrafa. E, quando percebiam, estavam já sob a luz do luar, compartilhando as histórias de seus passados, com a barriga gemendo a fome do trabalho braçal.
Os comerciantes que vinham até a Baía das Garças comprar os peixes de Edmundo, Krikor conheceu nos primeiros dias. Eram dois ou três homens que chegavam em caminhonetes velhas com caixas de isopor cheias de gelo picado, e eventualmente demonstravam certa afeição ao pescador. Embora, é bem verdade, muitas vezes priorizassem a compra da produção dos outros pescadores que competiam por quem bajulava mais os homens que vinham de fora. A cordialidade se estendeu a Krikor apenas nos primeiros momentos. De súbito, perceberam, talvez num instinto primário de presa farejando o predador, que as tratativas com o forasteiro teriam uma camada de seriedade maior. Naqueles tempos de instabilidade econômica, todo o comércio na região, quando se tratava com gente de fora, era feito em dólar e os próprios comerciantes que vinham se portavam também como doleiros. “Eles ganham em cima de nós duas vezes”, constatou Krikor, numa noite enevoada que emprestava estranha beleza à maré.
O casamento de Baltazar com Cármen aconteceu numa tarde de setembro, quase três meses após a chegada de Krikor. Ao contrário de Serralta, Porto Negro podia gozar de dias ensolarados que potencializavam as cores vibrantes da cidade. O odor de tuberosas vinha em ondas, preenchendo o peito de quem o sentisse, surpreendendo a cada onda até mesmo aos nativos da região. O chão era firme e rochoso, mas as plantas resistiam e se espremiam por entre as frestas da cidade, povoando-a com seus caules e dando um aspecto ornamental que certamente refletia no olhar encorajado dos habitantes. Não havia nuvens, mas o céu era manchado, e Krikor se perguntou se seria sempre assim.
A capela de São Benedito, em qualquer outro canto deste mundo, se ergueria com a aparência de um ato de resistência e contraste do contexto geral, mas não em Porto Negro. De alguma maneira, as paredes brancas, as torres rombas e o chão avermelhado compunham a atmosfera etérea que se espremia entre as pessoas.
Cármen usava um vestido simples, de algodão branco, sem bordados, que escorria liso sobre o corpo, sem vincos fora do lugar; e carregava consigo um pequeno buquê de flores silvestres colhidas naquela mesma manhã. Entrou de braços dados com o pai, sujeito um palmo mais baixo que ostentava uma expressão de admiração pela cerimônia. Baltazar, de fraque cinza que pertencera ao casamento do pai com Leonor, aguardou a jovem Cármen de costas para o público, de frente para um padre que pareceu a Krikor ser mais jovem que o próprio noivo. “Com que autoridade esse sujeito une alguém?”, comentou, arrancando um sorriso unilateral de Edmundo.
Levon também estava próximo ao altar, assim como o casal de padrinhos. Pareceu ao sobrinho que era um homem cansado, mais envelhecido que os anos que viveu. Em contrapartida, a postura lhe dava uma presença de espírito de quem controlava as ações do que ocorria à sua volta, havendo majestade em alguma coisa que se escondia, mas que transbordava em si. Leonor permanecia ao seu lado, ofuscada, quase deslizante pela sarjeta.
Krikor, na maior parte do tempo, fixou o olhar no tio, obcecado pela forma que se movia, pela maneira que firmava o pescoço e balançava a cabeça, os braços para trás, com autoridade, mesmo tendo um corpo mais magro que o de Edgar.
Edgar…
A lembrança surgiu sem aviso. Perguntou-se onde o irmão estaria naquele instante. Se estaria vivo. Se, nesses três meses que se separaram, também havia encontrado uma mulher. Se também entrara numa igreja qualquer para prometer alguma coisa diante de Deus, visto que Edgar era dos que provavelmente casaria de maneira apressada. E questionou-se se deveria tê-lo escrito para avisar sobre o casamento do primo, embora soubesse que o irmão jamais compareceria. Ou que Heleno sequer se daria o trabalho de entregar a sua carta.
A lembrança desapareceu. Embora o peso daquele pensamento houvesse de ficar eternamente pairando naquele ar etéreo de Porto Negro. Quando Baltazar e Cármen se beijaram, os bancos rangeram sob o peso dos aplausos. Krikor bateu palmas atrasado. Depois, enfiou as mãos nos bolsos da calça e encontrou alguns dólares amassados. Nada mais que isso.
A festa ocorreu de maneira ainda mais intimista, com poucos convidados, no terreno da casa recém-construída que Baltazar tanto se dedicou a idealizar. Tudo estava impecavelmente limpo e belo. Quando a noite chegou, Krikor sentiu, no vento, que ainda era dia. O ar trazia o frescor das flores que não pertenciam a Porto Negro, que vinham distantes, do interior do continente. Acenderam lâmpadas amarelas presas entre postes improvisados e também as penduraram em cordas espalhadas pelas árvores, e a luz transformou o terreno num teatro de sombras coloridas.
As poucas crianças corriam entre as mesas, mas Damião permanecia sentado, os olhos parados no sanfoneiro, os ombros cansados, mas sem um colo para descansar. Quando Krikor pensou em se aproximar, Levon irrompeu, caminhando em sua direção, um toscano pousado na boca, e os braços para trás, acompanhado pelo padrinho do casamento.
“Sevag”, disse o tio, batendo no ombro do homem de cabelos sebosos e maxilar entortado. “Este aqui é meu sobrinho, Krikor, que veio de São Pierre. E esse é Edmundo, que acho que você já conhece”, concluiu, retirando o charuto da boca.
Sevag apertou firme as mãos de Edmundo e Krikor. Coçou o queixo e disse:
“Ô, capitão. Acho que nos conhecemos na segunda vez que fui a Serralta, aniversário de Esmeralda, não é?”
Edmundo apertou os olhos.
“Talvez”, respondeu com sua voz rouca.
“Sevag trabalhou no mar por muitos e muitos anos”, continuou Levon. “É grande amigo da família, sujeito de palavra. Mas se aposentou da rede e hoje faz uns serviços comigo”, o tio bateu nas costas do homem.
“Seu tio me contou que você veio de ilha. Homem de ilha é bom pescador. Já trabalhei com alguns. Não de São Pierre, claro”
Krikor olhou para os próprios pés.
“Acho que poucos nessa vida conhecem alguém que veio de São Pierre”, disse, tornando a levantar o olhar. “Mas o mar cobra seu preço, não é? Largou o ofício?”
“Larguei, larguei…”, o homem agora parecia observar as lamparinas espalhadas. “Muita coisa aconteceu. Fui muito feliz no mar, fiz muitas amizades, mas a vida é dura para quem navega. Como diria meu pai, não há nada no mundo entre o homem e o mar, quando o homem está no mar. Hoje, não consigo mais enxergar a beleza que eu enxergava antes, entende?”
“Talvez porque não haja beleza alguma”, disse Edmundo. Pigarreou. “É só um trabalho como outro qualquer”, concluiu.
“Talvez… Mas eu, certamente, já fui mais feliz. Hoje sou mecânico, tenho uma pequena oficina e alguns automóveis. Nada que me faça ter o ímpeto que eu tinha ao dar partida num barco”
A conversa se estendeu por pouco tempo. Quando Levon se afastou para cumprimentar outros convidados e Edmundo se sentou para descansar, Krikor caminhou ao encontro de Sevag, que àquela altura se encontrava debaixo de uma árvore frondosa, fumando um cigarro de filtro vermelho.
“Ô, capitão. Você fuma?”, perguntou a Krikor.
“Você, por um acaso, vende veículos também?”, perguntou, ignorando o convite.
“Depende de quem quer comprar”, respondeu, cerrando os dentes e deixando mais claro o desnível do maxilar.
“Tem algum à venda? Algum que consiga me ajudar a fazer a distribuição de pescado pelas cidades?”
Sevag tragou. O olhar analisando Krikor.
“Tenho uma kombi… Não é nova, não, entende? Não é nova. Mas anda bem. Vai te ajudar. Era de um açougueiro, entende? Um açougueiro amigo meu. O cheiro é ruim. O cheiro é bem ruim”
“Cheiro de quê?”
“Cadáver, capitão. Sangue de boi. Tripa de boi. Mas você não vai carregar flores, não é?”
Krikor riu.
“E quanto quer nela?”
“O motor está bom, entende? Está muito bom. Por mil dólares você leva. Vai te ajudar muito”
Krikor desviou o olhar e suspirou.
Quando o sanfoneiro terminou a exibição, os convidados começaram a se despedir. E Krikor encontrou o tio ajeitando a gravata, em pé, olhando-se no espelho pendurado ao lado do banheiro.
“Sevag tem uma kombi”, disse, assustando brevemente o tio que não havia percebido sua aproximação. “Ele me ofereceu-a por mil dólares. Acho que vou comprar. É praticamente tudo que tenho, mas vale a pena…”
O tio se virou para encarar o sobrinho.
“Você disse para ele que ia comprar?”
“Não. Ainda não. Quero baixar um pouco esse preço”
“Escute uma coisa, Krikor. Não quero você fazendo negócios com Sevag”
“Por que, tio? É amigo da família. Achei que seria confiável”
“Ele é um homem de quem a família gosta”, respondeu Levon. “Não é a mesma coisa que ser confiável. Já foi preso, sabia?”
“Como iria saber? O conheci hoje”
Levon sorriu e bateu no ombro do sobrinho.
“A ideia é boa, Krikor. Se bem conheço o que se passa na sua cabeça, a ideia é boa. Mas você não trata diretamente com Sevag em nada, estamos entendidos?”, o tio fez questão de dar o peso adequado às últimas palavras. Krikor assentiu, fazendo uma expressão de dúvida ao mesmo tempo. “Deixe que eu resolva com ele. Eu compro a kombi. Você me paga aos poucos, quando der”
Krikor abraçou o tio. Mas antes que este se retirasse completamente do local onde estavam, disse: “posso te pedir algo, tio? Podemos deixar isso, por enquanto, somente entre nós dois?”
O homem acenou, dando pouca importância ao pedido.
Voltaram para Serralta naquela mesma madrugada. A Rural Willys chacoalhante carregava Leonor ao lado do marido. Damião, Edmundo e Krikor na parte de trás. Krikor não conseguiu dormir.
A pesca estava dando certo. Era um dado concreto que a dupla conseguia contemplar. Os puçás trabalhavam bem e aumentavam consideravelmente o peso dos bolsos. As redes lançadas pelos dois pareciam coordenar melhor. E algumas semanas depois, ao retornar do ofício, Levon interceptou o sobrinho na cozinha de casa.
“Pode buscar a kombi. Está tudo acertado com Sevag”
No dia seguinte, Krikor pegou o primeiro ônibus para Porto Negro, seguindo as instruções do tio para encontrar o vendedor. A oficina de Sevag era pequena, apertada, mas fácil de encontrar por conta das quase duas dezenas de carros velhos estacionados ao redor.
A kombi aguardava diante da oficina. Era bege e surpreendia com uma pintura bem conservada. Apenas um pouco de ferrugem discreta na soleira da porta traseira. Quando a abriu, o cheiro o atingiu com força.
“Cacete”
Sevag riu.
“O cheiro é forte, capitão?”
Krikor não respondeu. Apenas coçou os olhos e, por um momento, lembrou-se das noites profundas n’O Austral, onde o cheiro de gordura também penetrava por todos os centímetros de sua pele. De certa maneira, essa lembrança fortaleceu nele a ideia de levar o veículo até Serralta.
Sevag entregou as chaves, explicou algumas manias da embreagem e desejou sorte. “Mande lembranças ao Levon. E ao seu parceiro também”. Depois observou, tentando esconder a apreensão que Krikor percebeu, enquanto este ligava o motor pela primeira vez. O veículo tossiu duas vezes antes de iniciar um ronco oscilante.
Quando chegou à Baía das Garças, o sol iniciava a descida em direção aos mangues. Edmundo limpava a tarrafa próximo ao barranco e levantou os olhos ao ouvir o motor. Permaneceu observando a Kombi até que Krikor a estacionasse.
“Então foi por isso que você não apareceu hoje?”, perguntou. A rouquidão na voz ainda mais exagerada. “Que merda é essa?”, encostou a mão na lataria.
“É nossa”
Edmundo olhou através dos vidros, esticando o pescoço.
“Chega de atravessadores”, completou Krikor.
Os meses seguintes foram de maior esforço para ambos. A kombi percorria todo o litoral entre a Baía das Garças e Porto Negro, depois avançava pelo interior até chegar nas nobres ruas de Altemburgo, já com pouquíssima mercadoria. Pelo caminho, alguns restaurantes e mercados eram abastecidos, especialmente por Krikor. Claro, os doleiros que chegavam à baía perceberam o movimento e temeram que a ideia se espalhasse pelos outros pescadores, mas Edmundo não deu ouvidos.
Como vivia na estrada, Krikor encontrava-se cada vez menos com o tio que, coincidentemente, também aumentou sua frequência de viagens a trabalho. Edmundo decidiu que precisavam de um ajudante enquanto Krikor percorria o itinerário de abastecimento comercial, para que a produção não fosse afetada, por conta disso, surgiu, numa quinta-feira enevoada, acompanhado de um garoto magro, de pele bronzeada, vestindo uma camisa grande demais para os ombros. Vicente se apresentou com timidez, os olhos voltados ao chão, os sorrisos constrangidos escondendo a vontade de ver o outro calado.
“Este garoto é bom de trabalho?”, Krikor perguntou enquanto carregava a kombi com caixas lotadas de camarão.
“O falecido pai era. Trabalhou comigo. Mas deixe que eu o treino”
Krikor enxugou a testa com as costas da mão.
“Ei, garoto!”, gritou em direção ao mar. “É Vicente, certo?”, perguntou baixo para Edmundo, que assentiu. “Quantos anos você tem, Vicente!?”
O garoto se aproximou calmamente, desenrolando um puçá enquanto caminhava.
“Tenho treze anos, senhor Krikor”
Krikor riu para Edmundo. “Senhor? Senhor Krikor?”, perguntou ao amigo.
Edmundo afastou-se, sacudindo a cabeça.
“Sabe pescar de puçá?”, Krikor perguntou.
“Não, senhor. Mas o senhor Edmundo vai me ensinar direitinho”
De fato, o ensinamento se deu de maneira fluida. E o garoto, que demonstrava certa admiração heróica por Edmundo, aprendeu rápido. O tempo atravessou os meses sem grandes acontecimentos, mas deixando marcas sutis. A kombi tornou-se presença constante nas estradas da região e os barcos começaram a se multiplicar. Com as caixas cada vez mais pesadas, Krikor decidiu comprar o segundo barco. Depois, o terceiro. E em menos de um ano, a dupla dominava metade da produção da baía. Antes do amanhecer, horário não habitual na região que Krikor estabeleceu para o início do trabalho, as embarcações espalhavam-se pela Baía das Garças; quando o sol subia, retornavam carregadas e logo Edmundo se admirou ao ver a quantidade de homens que pagavam tributo a eles. Os atravessadores desapareceram aos poucos. Mas havia um conservadorismo em Krikor que o impedia de comemorar a prosperidade como Edmundo desejava.
“Meu velho dizia que o mar só cede ao pescador que não acha que o mar lhe deve alguma coisa”, disse em um fim de tarde abafado, com o cotovelo encostado na kombi. “E meu velho era muito sábio”, completou para Edmundo e Vicente ouvirem.
Levon, neste tempo, continuava se ausentando com frequência cada vez maior. E o mistério de seu ofício, que Krikor antes não se permitia explorar, agora parecia aguçar a curiosidade do sobrinho. Saía sempre pela madrugada, pouco antes do próprio Krikor se aprontar para o trabalho, seguindo o mesmo ritual. Penteava o cabelo de frente para o espelho quebrado, bebia café em um único gole e carregava uma bolsa comprida de mão e uma mochila, fazendo o Rural Willys romper o silêncio da madrugada. Em uma dessas ocasiões, o jovem teve a certeza de ter visto o cano de um rifle escapar por uma fresta da bolsa de mão. Mas não comentou o assunto. A porta permaneceu fechada e ambos pareciam satisfeitos em deixá-la assim. Mas, desde então, Levon parecia não se importar mais com tanta discrição e, antes de se despedir, nas vezes seguintes, passou a ostentar um belíssimo revólver pendurado na cintura. E criou um novo hábito, passou a fazer questão de deixar claro, desde então, que seu ofício estava ligado de alguma maneira à caça de animais nas grandes planícies além de Altemburgo, com comentários sortidos que pareciam mais delírios que retratos da realidade.
Krikor conheceu Celeste num Domingo de Ramos em que Edmundo o convidou para almoçar em sua casa, pela primeira vez, quase três anos após o início da parceria. A mulher estava na cozinha quando chegaram, mas logo surgiu à sala de jantar, carregando uma panela suspensa com um pano de prato, e colocou a comida sobre a mesa, ignorando sutilmente a presença do rapaz. Naquele dia, Celeste não chamou sua atenção de maneira especial. Era a irmã muitos anos mais nova de Edmundo, com as mesmas maçãs do rosto altas do irmão, mas sem o ombro descaído. A casa era simples, mas bem construída. E, nas semanas seguintes em que retornou, Krikor começou a notar pequenas permanências. A chaleira pousava sempre na mesma boca sobre o fogão, assim como o vaso de manjericão permanecia equilibrado, no limite de ser defenestrado pelo vento, junto à janela. As toalhas dispostas eram sempre das mesmas cores. A casa guardava os objetos nos lugares onde haviam sido deixados e havia algo reconfortante naquela repetição silenciosa.
Levou algum tempo até que entendesse o que o havia aproximado dela. Não foi imediato. O que havia nele, acumulado desde São Pierre, desde O Austral, desde os credores que o perseguiam em sonho, era uma sensação particular: a de que devia, a alguém que não sabia nomear, uma versão mais coerente de si mesmo. Uma narrativa mais organizada, menos fragmentada, em que os eventos se encadeassem com a mesma lógica litúrgica daquela casa. Havia passado por tudo aquilo carregando esse peso, essa dívida invisível de não ser suficientemente explicável. Celeste não cobrava essa versão. Não porque fosse incapaz de formulá-la, mas porque verdadeiramente parecia não ter interesse por ela. Falava do que estava na frente, pensava no que precisava pensar, e havia nisso uma leveza que o homem reconheceu como a antítese do desgaste laboral que acumulara em Serralta e, na verdade, em todos os anos de sua existência. O que lhe atraía não era qualidade visível nenhuma, não era a beleza, embora Celeste fosse bela, ao contrário do irmão. Era a característica que percebeu que mais valorizava: ela não exigia explicações. E essa ausência de porquês o reconfortou, fazendo-o se sentir pertencente de uma maneira tão poderosa que resgatou os sentimentos de sua infância com o irmão e o avô.
Os dois se casaram em um fim de tarde de março, de maneira abrupta, pegando de surpresa Levon e Edmundo, numa cerimônia pequena na única igreja de Serralta, um templo pequeno de paredes caiadas e bancos de madeira escurecida. Foram pouco mais de vinte pessoas. Levon estava lá, menos imponente que no casamento do filho. Damião, que agora já possuía sete anos, ficou ao lado da madrasta durante toda a cerimônia. Vicente também estava presente, assim como os demais trabalhadores vinculados à dupla. Com a mesma timidez de dois anos atrás, o jovem era o único que observava a cerimônia com real admiração. Baltazar e Cármen foram os padrinhos.
Quando o padre declarou encerrada a cerimônia, o sol atravessava as janelas estreitas em faixas douradas que se espalhavam pelos bancos e pelo piso. Durante muitos anos, quando pensava naquele dia, era daquela luz que Krikor se lembrava como símbolo do acontecimento.
Compraram uma casa em Serralta, equidistante das casas de Edmundo e Levon. Não era grande. Tinha dois quartos, uma varanda estreita e um quintal onde Celeste plantou ervas logo nas primeiras semanas. A mulher administrava o ambiente com a mesma eficiência seca com que fazia tudo. Sem alardes, sem a necessidade de que o esforço fosse visto. Com o tempo, Krikor passou a notar pequenas permanências que se repetiam tal como havia notado na casa de Edmundo: a chaleira sobre o fogão, o vaso de manjericão junto à janela, as toalhas secando sempre no mesmo trecho do varal. Não havia nada de extraordinário naquelas coisas. Ainda assim, descobriu que gostava delas. Depois de tantos anos vivendo sem saber a qual lugar pertencia, começava a compreender o valor silencioso dos objetos que permaneciam onde foram deixados.
Pouco antes do casamento, sentiu que o peso dos anos que se passaram havia afetado o tio com mais rigor que os outros. As viagens a trabalho ficaram menos frequentes e mais intensas, com retornos embriagados e um isolamento que se seguia nas semanas posteriores. Neste mesmo período, Krikor se aproximou cada vez mais de Damião. Identificava-se com o menino, via nele uma fragilidade que escondera dentro de si, em terreno quase impossível de reencontrar. E as agressões constantes de Levon ao filho o preocupavam, pois cresciam em intensidade dia após dia. Mas o que mais o perturbava não era apenas a violência, mas a maneira como o menino parecia absorvê-la, não só através da ausência do choro, mas de uma organização que encaixava o golpe em algum lugar interno.
Desde então, notou a ironia cruel que se mostrava diante de si. Havia ascendido a um local de acolhimento real para ver ruir o ambiente que o acolhera primariamente. Isto gerou em seu interior um afastamento. Krikor não tinha coragem de confrontar Levon. Havia nele, ainda, o peso do que o tio havia feito: o abrigo, a kombi, os anos de aceitação sem perguntas. Havia uma dívida que não estava nos cadernos e que, por não estar, tinha maior peso. Havia também o reconhecimento de que o tio era um homem de outra ordem dentro daquele universo, com uma violência contida que ele havia aprendido a não testar. Leonor quase sempre estava presente, mas realizando qualquer tarefa doméstica que já serviria também como álibi necessário para não intervir em nível algum. Krikor passou anos tentando decidir o que sentia a seu respeito. Leonor não era má mulher; o rapaz havia chegado a essa conclusão ao longo desse tempo de reflexão. Ela não participava das agressões do marido, embora também não as interrompesse, e havia nessa não-interrupção uma decisão que vinha de muito antes de Krikor ter chegado àquela família. Era uma mulher que havia aprendido a sobreviver por ausência. Escolha essa que, talvez, nem ela mesma soubesse explicar.
Numa manhã de inverno, quando o céu tinha a cor de estanho e a maré baixa deixava exposta a lama escura da Baía das Garças, uma névoa fina confundia os contornos dos barcos, mas Krikor não se confundiu. Chegou ao cais antes de todos e o avistou, parado diante de si, bruxuleante, imaginado, sentido como se fosse vívido, mas pairado em espectro. O velho estava de costas para ele, com suas calças vermelhas, os braços cruzados sobre o peito. Krikor se aproximou com passos infantis, indo ao encontro de séculos vazios que se impunham entre os dois, ao resplendor monocromático daquela aparição, que o invadia no peito com um sentimento nomeável apenas por um coração de criança. E permitiu-se se fazer infante para se pôr ao lado do avô, contemplando a linha do infinito que, naquela madrugada, havia dado a oportunidade de ser vista, afastando a névoa, as nuvens e as imperfeições da junção do mar e céu de Serralta.
O velho acendeu o cachimbo com dificuldade. A brisa do mar o desafiava. Ele não se virou para o neto, mas Krikor sabia que havia notado sua presença. Mas não era real… Embora a experiência vivida sim, ah, esta foi real. No mesmo silêncio que se instaurou na mesa de Levon anos atrás, encontravam-se os dois. Krikor apenas aproveitou. Até o mar havia se calado. O único som audível era, vez ou outra, o das baforadas do cachimbo. O menino conhecia esse silêncio de cor… Havia crescido dentro dele, no cais de São Pierre, na proa do Austral, nos entardeceres em que o avô ficava de costas para a casa e de frente para o mar… Dos momentos em que não se olhavam, mas se sentia visto.
Sentiu os olhos aquecerem. Havia tanto a ser dito através daquela contemplação… Questionou-se se havia tempo para narrar tudo. As lágrimas vieram devagar, rastejantes, como súplica, formando rios sinuosos no solo árido de sua face. Mais doces que o mar aos seus pés. E como veio, se foi, como tudo há de ir, seja em São Pierre, seja em Serralta, seja no interior d’algum lugar, sentiu que tudo iria, mesmo que algumas coisas fingissem que ficavam. Com os pés gelados de mar, pensou na inevitabilidade da vida. Na inevitabilidade de si mesmo. E o avô se decompôs aos poucos, como fumaça do próprio cachimbo, espalhando a si mesmo sobre o mar, sem dizer adeus, sendo ele mesmo o gesto da despedida, sem o fazer, mas sendo-o. E o que ficou foi uma criança, um menino com uma certeza: haveria de ir de si um dia.
III
Edmundo possuía a fibra necessária para sustentar a operação em termos de trabalho braçal, mas o que mais surpreendeu Krikor foi que o homem também conseguiu desenvolver um trato para lidar com um tipo específico de trabalhadores que, naquele momento de expansão, estavam sob seu guarda-chuva. Os momentos de debate acerca das estratégias eram mais preenchidos pelos pensamentos de Krikor, o que resultava numa combinação de faculdades que acabavam por potencializar o crescimento dos dois. E foi assim que os meses se sucederam, com a ampliação sistemática do domínio da Baía das Garças, negociando barcos de pescadores desesperados, até o ponto em que conseguiram comprar a primeira embarcação que poderia pescar por meio de rede de arrasto. Com o sucesso da pesca, compraram também a segunda kombi para fazer as entregas em mais pontos da região. As visitas à casa de tio Levon eram sempre acompanhadas por Celeste e uma caixa grande, lotada de espécies diferentes, a fim de cumprir os gostos variados do tio e, principalmente, de Leonor. Eram visitas acolhedoras em certo ponto, pois o sobrinho havia notado que Levon adotava uma expressão cada vez mais solitária, de olhos que se pudessem se voltariam para dentro, ou de costas curvas e respiração desgastada. Por isso, acompanhava o homem em suas excursões pela feira de Serralta, tal como pelas cidadelas vizinhas, onde conseguia comprar alimentos variados e negociar passarinhos. “Papai tinha um trinca-ferro que até hoje ouço o canto, vez ou outra, nas madrugadas”, dizia para o sobrinho. “Há cantos muito mais belos na natureza, mas o trinca-ferro de papai me trazia alguma lembrança de outra vida”. E, por isso, algumas semanas depois, trouxe um Canário Belga de presente para Krikor que, astutamente, percebeu, nesse movimento do tio, que sua presença acabava por ocupar o espaço deixado por Baltazar, casado e morando em outra cidade. Das viagens a trabalho, o tio sempre surpreendia com o humor de sua volta, seja por vezes feliz e rejuvenescido, como se tudo que houvesse vivido nas semanas anteriores fosse uma máscara, seja cansado, melancólico, violento ou com marcas evidentes de diabetes nas pernas. Foi nesse ínterim, dessa nova fase da relação entre tio e sobrinho, que a Rural Willys, agora emitindo um ruído que mais se assemelhava com o tiquetaquear de uma locomotiva, além de ter ganhado um amassado novo na lataria, próximo da porta do carona, parou diante do portão de madeira que separava o mundo de uma fazenda decorada por carquejos, no interior profundo de Porto Negro. A poeira levantada pelos pneus subia em cortinas alaranjadas que o vento fraco daquela manhã não se dava ao trabalho de dispersar. Uma criança descalça, pés encobertos por uma crosta de barro, abriu o portão, esfregou os olhos golpeados de sol e acenou sem muito entusiasmo. Dessa vez, Baltazar estava presente. E conversa com o pai, demonstrando uma animação que acabou contagiando Krikor. Falavam como quem estivesse prestes a revisitar uma época feliz, uma lembrança azulada dos tempos de antes da chegada do sobrinho. Edmundo também estava presente, aguardando com olhar descompromissado que atravessava o vidro traseiro do carro; o jovem Vicente ao seu lado, servindo como uma espécie de escudeiro. Alguns carros os seguiam durante o percurso da estradinha de terra, dentro da propriedade, que conduzia à construção central, agora já rodeada por ipês e figueiras, uma casa com arquitetura colonial, charmosa, de aspecto, e talvez realidade, de casa-grande, de paredes caiadas e telhado de quatro águas coberto por telhas de barro escurecido, com um alpendre sustentado por grossos pilares de madeira. Na frente dela, havia estacionados automóveis de luxo, alguns cavalos amarrados ao mourão e veículos tão antigos quanto a Rural Willys do tio. Esse contraste combinava com o próprio contraste da construção, que embora fosse imponente, apresentava marcas de reboco descascado, enquanto janelas de guilhotina, pintadas de um azul opaco, permaneciam abertas para receber a brisa que subia do vale. À esquerda, escondidas pelo capim alto e por uma fileira de mangueiras centenárias, ainda resistiam as ruínas do que poderia ser um velho engenho; uma roda d’água imóvel, parte da moenda tomada pelo mato e o que restara de um prédio que, Krikor poderia presumir, fora a senzala.
Ao desembarcarem do veículo, os cinco foram ao encontro de uma pequena fila de pessoas de todos os caráteres, aguardando as anotações de um velho caolho que sentava em uma mesinha de madeira ao lado de uma portinhola.
“Nome”, o velho anunciou ao chegar da vez dos cinco.
“Levon, Balta…”
“Não seja ridículo, Levon”, o homem o interrompeu. Logo em seguida, fez um sinal com a cabeça indicando os dois que interessavam. O tio sorriu e bateu nos ombros do velho.
“Krikor, meu sobrinho. E o menino é Vicente, também de Serralta, capacho de Edmundo”
O velho sorriu sarcasticamente e fez sinal de que entrassem após anotar os nomes no caderno amassado. O que se viu foi um ambiente que fascinou Krikor pelas peças quase antagônicas que compunham aquele imenso tabuleiro social. Mesas simples de ferro, pintadas grotescamente de branco, espalhadas pelo gramado, com pessoas de todas as estirpes bebendo uísque, cachaça ou cerveja, sentadas confortavelmente ou de pé, gesticulando de maneira exagerada ou conversando próximos demais. No centro de tudo, um homem negro, de pele manchada pelo tempo, vestindo um terno bege que não o vestia bem. “É Adão. Dono da fazenda. E ao lado, sua esposa. E as meninas servindo são suas filhas”, disse Baltazar para Krikor e Vicente.
Levon realmente possuía o aspecto observado por Krikor no casamento de Baltazar. Parecia-lhe um rei destronado que, de alguma maneira, não havia perdido a majestade. Caminhava por entre as mesas, sempre com os braços para trás, apresentando o filho recém-casado para os poucos que ainda não o conheciam, cumprimentando e sendo cumprimentado, saudado com entusiasmo por todos que se aproximavam ansiosos, sem aguardar que ele caminhasse até suas mesas. E Edmundo o seguia, mais tímido, recebido com menos vibração, mas transparecendo que não se importava com as convenções estabelecidas naquele local como Levon. E Krikor reparou, com perspicácia, a diferença de tratamento que ambos recebiam. Adão não se levantou para cumprimentar Edmundo, mas fez questão de fazê-lo quando Levon se aproximou. Bateu em suas costas e disse com um sorriso dourado: “Ainda vivo?”
“Por enquanto”, respondeu o tio.
Na lateral da casa-grande, um buraco na parede para um balcão improvisado, de onde vinham as bebidas. No centro do campo, um forno feito de pedras e lenha, assando um leitão inteiro que vez ou outra alguém se dispunha a girar o espeto. Espalhados pelo gramado, homens feito caubóis conversavam com senhores vestidos de empresários, de chapéu-coco e anéis dourados. Ouvia-se, também, no meio das palavras trocadas, um rapaz de bom peito, cantando um rancho, acompanhando a melodia com seu violão de cordas de aço. As crianças misturavam-se aos adultos, chutando bola ou montando cavalos. Edmundo, após a sessão de cumprimentos, tratou de se sentar em uma mesa afastada, sozinho. Parecia degustar o cigarro e despido de uma armadura que o trabalho o impunha. “Vão olhar o criadouro”, disse para Krikor e Vicente, abanando a mão direita.
Ambos caminharam até a senzala, alguns bons metros de distância da casa-grande. Lá, viram um emaranhado de estacas formando pequenos canteiros, separando cerca de trinta galos em quadrados individuais. O cheiro desagradável fez Vicente levantar as narinas. O local era mais silencioso do que Krikor poderia supor. O que mais se ouvia era o bater de algumas asas ao fundo ou o cuspir eventual dos dois homens que dividiam o espaço com eles. Um deles, mais próximo da entrada, chamou a atenção. Era um sujeito de difícil dedução de idade, pois tinha pernas jovens, mas o rosto flácido, com bochechas que derretiam. Ironicamente, Krikor percebeu que, com o rabo de cavalo curto, que vazava abaixo do quepe surrado e o queixo pouco proeminente, o homem também tinha aspecto galináceo e o pensamento de que talvez tenha ganhado essa feição por conta dos anos lidando com os animais passou pela mente. Ele debruçava-se sobre um caixote, que abrigava um galo cinzento, e parecia conferir as penas do animal, uma a uma.
“Olhe, senhor Krikor. Aquele ali não tem uma asa”, Vicente soou como uma criança.
Krikor não olhou. Interessava-se mais por observar o trabalho minucioso do homem sentado num banquinho de madeira, que o percebeu pelo canto do olho, mas decidiu ignorá-lo. Depois de alguns olhares trocados e a insistência de Krikor em encarar o processo, o homem respirou de forma mais impaciente.
“Quantos são seus?”
“Cinco”, o homem respondeu sem tirar os olhos da ave.
“Bom, bom…”, Krikor respondeu. “Este aí está doente?”
“Como?”, o homem cerrou os olhos.
“Está procurando carrapatos?”
O homem soltou o galo e deu meia-risada. Olhou para trás, à procura do outro sujeito, mas este não devolveu o olhar.
“Este é Gengis Khan. Meu melhor galo”, o homem tirou e recolocou o quepe para ajeitar os cabelos, um cacoete que Krikor identificou. “Já venceu mais de trinta combates. Em quinze deles, matou o galo inimigo e comeu os olhos, por puro sadismo. Tive aversão nos primeiros sete, depois acostumei. É bom de briga porque não teme nada. É mais forte que um cão. Eu te daria toda a linhagem dele, se quisesse. É bisneto de Calígula, neto de Salomão e filho do meu saudoso Júlio César que, certamente, se você frequenta aqui por muito tempo, já ouviu falar. Numa briga entre ele e seu irmãozinho…”, o homem apontou para Vicente, “ganha quem apostar nele”
“Não duvido, senhor”, Vicente respondeu, sendo o único a sorrir. “Brigar nunca foi o meu forte”
“Os outros não são tão bons?”, Krikor perguntou.
“Tão bons…”, o homem tirou e colocou o quepe. “Ei, Gordo! Diga para ele se algum galo aqui é melhor que Gengis”
Gordo, que fazia jus ao apelido, apenas balançou negativamente a cabeça enquanto conferia as asas de um caipira.
“Bom saber, então”, concluiu Krikor, “Já sei em qual galo apostar hoje”
“Não sei…”, o homem coçou o queixo, “Não vou colocar Gengis para lutar”
“Por quê? Está doente?”
O homem sustentou o olhar.
“Mas que porra que acabei de te dizer? Está de sacanagem comigo?”
“Não”
Krikor riu. Vicente olhou com tensão de um para o outro, por fim, também riu para acompanhar o patrão.
“Desculpe”, o homem se levantou e limpou as mãos na própria calça. “Ando um pouco impaciente. Quem são os senhores?”
“Sou sobrinho de Levon e sócio de Edmundo. Este aqui é Vicente, trabalha para nós”
“Certo. Sou Anselmo”, estendeu a mão, sendo cumprimentado pelos dois, “Gosto muito de Levon e de Edmundo. Mas entendo o que está fazendo, sobrinho de Levon, não pense que é uma estratégia inovadora. Toda vez aparece um. Do mesmo modo que você, tenho que dizer. Te falta criatividade… É sempre desta forma… Se aproxima de mim, ou do meu irmão, Gordo, faz perguntas e tenta ganhar a minha simpatia para descobrir em qual galo apostar. Te digo que é perda de tempo. Você poderia simplesmente me perguntar diretamente e eu te diria para apostar em Marcha-Firme, evitando toda conversa-fiada”
“Então eu quem devo me desculpar, Anselmo. Mas há uma diferença no meu plano que você não captou. Eu nunca apostei em galos antes. É a primeira vez que meu tio me traz aqui. Eu não estou atrás da informação de quem é o melhor galo, isso qualquer um poderia me dizer, mas quero apostar sabendo quem é o melhor criador. Entende a diferença? Por isso a conversa-fiada, embora eu estivesse realmente interessado em saber os seus métodos”
Anselmo limpou os dentes com o dedo. Lia Krikor enquanto o ouvia. Eram poucos os momentos em que identificava peculiaridades interessantes nos frequentadores de lá.
E foi após essa experiência, em sua primeira rinha de galos, que Krikor teve a ideia que impulsionaria mais ainda sua história em Serralta. Passou a viagem de volta inteira pensando no que havia encontrado. E, quando chegou em casa, sentiu-se só, mesmo acompanhado de Celeste.
“De alguma maneira, sinto gratidão por Serralta ter me acolhido. Mas essa cidade é melancólica demais…”, disse para a esposa. “Você já visitou outros lugares? Já morou em outra cidade?”
“Não, meu amor”, ela respondeu. “Só fui a Porto Negro algumas vezes. Sou daqui. Não percebo essa melancolia. Talvez se eu passasse um tempo em outro lugar, poderia comparar”
Krikor beijou-a. Sentia que a amava, mas que a mulher não era suficiente para preencher o vazio dos laços familiares que se instaurou em sua alma.
“Quando não estou trabalhando, estou lamentando por não trabalhar. É que quando não estou trabalhando, estou percebendo como tudo aqui funciona. É esquisito. As pessoas são estranhas, o clima é ruim. Você não percebe? Não vê que não temos festas, que as ruas não são agitadas, que as crianças não brincam na lama?”
“Não…”
“É totalmente diferente de São Pierre. Lá a vida emerge das distâncias… Mas as distâncias são só o que vem do além-mar. O que está ao nosso lado é muito próximo. Muito. As crianças são crianças, mais do que em qualquer outro lugar que eu estive”
“Deve ser um lugar lindo. Por que não vamos para lá? Não podemos comprar alguns barcos em São Pierre?”
Krikor não respondeu. A mente se esvaziou e permaneceu apenas um sentimento nostálgico.
“Sinto falta do meu irmão”
“Por que não escreve para ele? Ou telefone para o tal amigo dele. Podemos usar o telefone do meu irmão”
“Não posso”
“Por que não pode, meu amor?”
“Você não entenderia”
Celeste se calou. Sentiu que adentrava num terreno que não lhe era permitido desbravar.
“Acho que temos que expandir a operação até Porto Negro”, Krikor retomou. “Mas não sei se seu irmão aceitaria. Ele não tem ambição”
“Acho que você é capaz de fazê-lo aceitar”
Krikor assentiu.
“Você tinha que ver o que vi, meu amor. O dinheiro está em Porto Negro. Há pessoas simples, de pensamento simples, mas endinheiradas, quase aristocráticas. E isso é o melhor cenário possível. Com barcos em Porto Negro, a operação fica mais prática. Poderemos vender muito mais por toda a região”
Foram estes os argumentos que Krikor apresentou à Edmundo, na manhã seguinte, escura, de brisa fria, da baía das Garças.
“Não sei, Krikor. Não sei…”, Edmundo esfregou o rosto. A voz rouca vacilou. “Você está sempre querendo mais e mais riscos. Quando vamos gastar o que estamos gerando?”
“Quando não tivermos outra opção”
“Você sabe que isso não existe para você”
Krikor concordou. Deu um tapa nos ombros do parceiro.
“Você tem razão. Mas, até agora, tudo deu certo. Vamos à Porto Negro só nós dois. Vamos conversar com os pescadores da região. Vamos negociar. Temos caixa para comprar um ou dois barcos. Se Porto Negro der certo, prometo que o próximo passo será ditado por você”
“E se meu próximo passo for não dar um próximo passo?”
Krikor espalmou as mãos.
“Respeitarei até que milagrosamente mude de ideia”
E logo se viram negociando com os pescadores mais sofisticados que os pescadores de Serralta, com um mar de camarões maiores, garoupas, linguados e cações. Um barco chamou-lhes a atenção. Era uma traineira de quinze metros, de vinhático e motor a diesel, cabine quadrada, proa alta e um casco bem cuidado. Pertencia a um sujeito chamado Estêvão, que pescava com uma tripulação composta por sua esposa e outros três ajudantes.
“Por que quer vender?”, Edmundo perguntou.
Estêvão observou o barco. Os olhos de saudade em antecipação.
“Estou com dívidas. Muitas dívidas. O barco está bom. O motor é um Yanmar que nunca deu trabalho”
“Sete mil dólares, portanto”, anunciou Krikor.
“Jamais. Esse barco vale muito mais do que isso. O motor é novo, como eu disse”
“Você não tira os olhos do barco”, disse Krikor. “Não quer realmente vender. Se quisesse, olharia para mim”
Estêvão o olhou.
“Há um valor sentimental. Esse barco foi o meu sustento”
“É preciso se desapegar das coisas. Eu vou te pagar à vista. Dinheiro na mão. Agora, inclusive”
O homem engoliu as palavras. Olhou novamente para a embarcação.
“Oito mil dólares. Pelo sentimento”, ofertou Edmundo.
“Feito. Feito…”
Estêvão apertou a mão de ambos.
“E depois de pagar as dívidas? Vai trabalhar com o quê? Sabe investir?”, perguntou Edmundo.
“Não sei bem. Devo ir para a cidade dos meus sogros. Há sempre trabalho no campo”
“Não. Você vai ficar”, Krikor anunciou, tocando o braço de Estêvão. “Vai trabalhar para mim. Pode manter a sua tripulação. Eu vou te enviar um pescador meu para te fiscalizar. Uma parte do apurado, descontando o custo, é do barco. Cinco partes vocês dividem entre si, incluindo o tripulante que será meu. Depois que eu recuperar os oito mil, a gente renegocia a divisão”
Estêvão observou Edmundo contando o dinheiro.
“Ah, esqueci de um detalhe”, Krikor prosseguiu. “Vamos dividir a manutenção. Metade, metade”
O pescador passou a mão na amurada. Conhecia cada tábua daquele casco. E a mesma negociação aconteceu com a baleeira de Dirceu, nos mesmos termos.
Voltaram na kombi cadavérica, cansados das negociações. Edmundo estava pensativo a maior parte do tempo. Até que quebrou o silêncio, já perto da serra.
“Você fez um empréstimo”
“O que disse?”
“Você fez um empréstimo para Estêvão e Dirceu. Só que o barco fica pra nós, no final”
Krikor sorriu. Não soube ler as intenções de Edmundo.
“E ainda os fiz dividir a manutenção”
“É”
Edmundo batucava com os dedos na lataria da kombi. Concentrado na estrada.
“É. Fez”
O crescimento se deu da mesma maneira orgânica que antes, trazendo os dólares salgados do mar de Porto Negro, quando se viram Edmundo e Krikor como piratas a rastrear os tesouros que se escondiam nos recifes da região. Era notório que a cidade trazia também uma nova atmosfera ao negócio, que se via cada vez mais afundado no clima soturno de Serralta, mas que agora tinha a vivacidade floral das terras de onde o vento rodopia e traz consigo as estações de mundos distantes. Por isso, em poucos meses, já possuíam o terceiro barco, mais uma traineira, fazendo com que a produção de arrasto dobrasse na região e despertasse a inveja, ainda velada, dos outros pescadores e negociantes. Krikor não era só responsável por percorrer os caminhos com sua kombi lotada de pescados, mas também tinha que se fazer presente nos mares de Porto Negro, a fim de entender como se sucediam os trabalhos dos homens que, naquele momento, laboravam nos próprios barcos que haviam vendido. O vai-e-vem da kombi trouxe alguma ineficiência à atividade da dupla. Era necessário presença para entender os pormenores da pesca, avaliar as necessidades de manutenção e, claro, entender se não estavam sendo roubados pelos pescadores e, em último caso, até mesmo para os tripulantes de suposta confiança que haviam colocado para fiscalizar, mas que, por uma questão lógica, acabavam por possuir o mesmo interesse dos pescadores locais, o que fez Edmundo perceber a ameaça ao sistema que Krikor julgava perfeito.
“Gênio, você pensou que podemos ser roubados a qualquer momento? E que talvez estejamos sendo?”, Edmundo ironizou. “Quem determina as partes são os pescadores. Os fiscais estão lá para fiscalizar as partes, mas eles também recebem uma parte. Ou seja…”
Krikor refletiu. Estava lavando o interior da kombi, esfregando o chão impregnado de sangue bovino de anos e anos atrás.
“É só colocarmos Vicente lá. O menino é confiável e te idolatra”
“Não”, Edmundo foi firme. “É jovem demais. É mais valioso aqui, comigo. Precisamos de alguém que fique responsável apenas por fiscalizar, contabilizar os ganhos. E que não receba proporcionalmente a isso”
Krikor secou a testa.
“Ora, vejam só quem está assumindo riscos agora. Quer dizer que vamos pagar um salário a alguém que não está ligado ao lucro que gera?”
Edmundo acendeu um cigarro.
“É a única forma que vejo. Já que nem você, nem eu podemos ficar presentes em Porto Negro o tempo inteiro”, disse.
“Certo. Vou falar com Baltazar”
“Baltazar não tem perfil. E tem sua vida, seu trabalho. Pensei em falarmos com Sevag”
“Não. Meu tio não quer que eu me envolva com ele”
“Como sabia que provavelmente diria isso, pensei também em Anselmo”
Krikor desvalorizou com um movimento de cabeça.
“Um criador de galos?”
“Sim. É honrado. Conheço-o há anos. Sabe administrar e tem fibra para lidar com os pescadores”
Krikor concordou, muito mais pelo que lembrou da curta interação que tivera com o homem meses atrás do que pela testemunha de honra que Edmundo deu. Havia identificado alguns aspectos no sujeito que carimbavam a recomendação do parceiro. E Anselmo, embora apaixonado pela criação de galos assassinos, enxergou a nova oportunidade como uma expansão de sua influência na região, sem abandonar totalmente o que amava, mas tendo que deixar para Gordo que assumisse mais de perto o trato dos animais. O salário acordado era muito maior do que os irmãos conseguiam no submundo das rinhas, o que acabou por seduzi-los de imediato.
“Essa decisão conta como a sua decisão de risco que acordamos?”, perguntou Krikor, após a visita ao criador de aves.
“Não. Essa foi em conjunto”
E quando percebeu, já completava dois anos de casado com Celeste, comemorados em sua própria casa, numa festa simples, com as famílias de Edmundo e Levon, que ainda vivia no mesmo estado de incerteza dos retornos de suas viagens, e cinco anos desde que chegara a Serralta, buscado pelo tio, trazendo consigo as incertezas que a ruína d’O Austral inauguraram em sua história. E Vicente havia se tornado um bom soldado de Edmundo e, portanto, um aliado valiosíssimo que o homem confiava para operar a distribuição com a segunda kombi, enquanto a terceira, que compraram pouco depois, ficou ao encargo de Dirceu, pescador de Porto Negro que acabou adquirindo a confiança de Anselmo. Com isso, os dois originais, e até mesmo Vicente, já não punham as mãos em redes, puçás ou qualquer artifício de pesca, tratando apenas de questões administrativas ou de distribuição. Vendo que acumulavam diversas funções, pensaram em Celeste para controlar todas as contas, compras, gastos e ganhos do negócio que, àquela altura, já estava muito mais bem estruturado do que poderiam imaginar algum dia. Damião, que agora possuía nove anos, também fora incorporado gradualmente ao trabalho, a fim de forçar uma aproximação maior com o primo, primeiro como garoto de recados, depois levando refeição aos pescadores da Baía das Garças, mas, principalmente, acompanhando Krikor nas longas viagens, continente adentro, passeando pelas ruas obscuras que dividiam Serralta do resto do mundo, adentrando cada vez mais no interior profundo, passando por bares, restaurantes e mercados, abastecendo os compradores fidelizados por esses anos de trabalho duro. As viagens eram prazerosas também para Krikor, que via no primo não somente uma espécie de filho, mas algo ainda mais profundo: um reflexo cada vez mais potencializado de si, desde a primeira vez que o viu, associou-se ao primo por meio do olhar singelo e das expressões faltantes, que demonstravam uma vida marcada por ausências. E longas conversas aconteciam, onde o menino revelava uma inteligência semelhante à de Edgar, mas ainda conservada em uma inocência que nem mesmo Krikor possuía nessa idade.
Nas matas densas de Vargenta, na estrada torta que levava até Serralta, após longas entregas, na noite de lua cheia, a madrugada veio rápido para ambos, o menino e o primo, cansados do trabalho do dia e voltando satisfeitos com o silêncio da mata que os rodeava. Quando logo avistaram os gafanhotos, cruzando o para-brisa ou até mesmo se lançando para o colo de Damião, perceberam que já estavam próximos de casa. O menino fingia dormir, mas cansou-se. Então olhou para o teto do veículo e questionou-se se um dia poderia ver todas as estrelas no céu de Serralta.
“Está triste?”, Kirkor perguntou.
O menino fez que sim.
“Por quê? Gostou de ficar até tarde trabalhando e não quer parar?”
“Sim”, Damião abriu um sorriso.
“Ou não quer voltar para casa?”
Hesitou, por um instante, mas assentiu.
“Sabe o que é mais irônico?”, Krikor perguntou. “Bom, você não deve saber o que significa irônico. Mas o mais engraçado é que eu não vejo a hora de voltar para casa”
“Por que, primo?”
Krikor coçou a cabeça.
“Um dia te levarei lá. Na minha verdadeira casa. No lugar de onde vim. Você vai entender o porquê”
“Lá, você também pescava?”
“Eu fazia de tudo. De tudo que me era possível. Até mesmo as coisas mais erradas”
“E seu pai não brigava? Não te castigava?”
Krikor apertou os olhos. Estava exausto, sonolento.
“Você quer dizer o meu avô. Nosso avô”
“Isso”
“Às vezes. Talvez menos do que deveria. Brigava mais com meu irmão. Acho que identificava que brigar com ele seria mais produtivo”
Damião refletiu. O cheiro da lama da Baía das Garças começava a eclodir nos arredores de onde passavam.
“Por que não quer voltar para casa?”, Krikor perguntou.
O menino pensou, antes de responder:
“Porque meu pai não gosta de mim. E ele chegou de viagem”
Krikor se virou para encará-lo. Por alguns segundos, os olhos escaparam da estrada.
“É claro que seu pai gosta de você”
“Não, primo. Não gosta. Ele só gosta do Baltazar. Na verdade, ele me odeia”
Krikor demorou a responder. Dessa vez, queria escolher as palavras corretas.
“Bem… Seu pai é uma boa pessoa. Ele me acolheu quando mais precisei. Não só isso, me ajudou. Muito. Acho que ele tem um jeito mais duro, não é tanto de demonstrar… Talvez porque não tenha tido a melhor das relações com nosso avô”
“Meu pai… Meu pai não é bom. Meu pai é ruim”
O veículo percorreu alguns minutos na sinuosa subida da serra. Damião costumava enjoar-se nessa parte. Os pensamentos de ambos se cruzavam em alguns pontos, nos devaneios internos que misturavam o passado ao presente. Quando adentraram finalmente em Serralta, na estrada principal que desembocaria na residência de Levon, Krikor quebrou o silêncio:
“Então você não gosta dele?”
O menino fechou o rosto, quase ofendido.
“Claro que gosto!”
“Entendo. Bom, vamos ver se essa semana você fica lá em casa. Quer?”
Damião se animou.
Ao entrarem na propriedade de Levon, os faróis lançaram sua cor sobre a Rural Willys, suja, enlameada, mas, estacionada ao seu lado, uma caminhonete Ford, imponente, também foi iluminada. Krikor se perguntou de quem seria o veículo que claramente contrastava com a região que o envolvia. Vendo também que Damião não sabia quem seria o proprietário, consumiu-se de curiosidade e decidiu adentrar a casa com o primo. Talvez, este tenha sido o momento mais importante de toda a estadia de Krikor em Serralta; daqueles momentos ímpares que desencadeiam um emaranhado de consequências, tal como o instante em que decidira aplicar um golpe nos pescadores japoneses, ou quando divulgou aos habitantes da pequena ilha onde O Austral estava estacionado que seu irmão era médico muito conceituado nas terras distantes. Desta vez, portanto, o acaso pareceu levá-lo mais do que qualquer escolha ativa, diferente do que acontecia em sua existência até então. Krikor observou, na mesma mesa em que se sentava para conversar com Baltazar, na mesma mesa em que se sentou e fora recebido pelo tio anos atrás, Levon, de aspecto cansado, olheiras profundas, respiração lenta, conversando com um homem de rosto quadrado e olhar curto, presentes no instante em que se olhava, nunca ao longe no futuro ou no passado, e botas de couro. Foi o olhar do homem, quando irrompeu pela porta com Damião, que o fez perceber que não era comum, que não seria mero coadjuvante num diálogo com o tio. O olhar o chamou a atenção, mesmo vindo de uma simplicidade que em nada se comparava ao próprio olhar de Levon. E sabia, sem saber como, que de alguma maneira aquele homem mudaria os rumos dos acontecimentos. Restava descobrir para que sentido da estrada-vida ele o dirigiria.
IV
O dono das botas de couro, de barba por fazer e relógio prateado permaneceu um mistério, por ora. Krikor percebeu que o tio evitou que o assunto que tratavam fosse falado enquanto o sobrinho estivesse na cozinha. O homem também não fez questão de cumprimentá-lo. Após avisar que voltaria cedo, no dia seguinte, para buscar Damião, Krikor recebeu os cumprimentos de Levon e sentiu que deveria se retirar. Na manhã seguinte, chegou trinta minutos mais cedo, a fim de, quem sabe, encontrar o imponente Ford ainda estacionado na frente da residência. Mas não estava mais lá. Por sorte, encontrou Levon, vestido como sempre, mochila em apenas um dos ombros, bolsa comprida na mão direita, revólver na cintura e um copo de café apoiado no teto da Rural Willys. Em meio aos tragos do cigarro, disse, com desconfiança aparente no tom: “Chegou cedo, Krikor”. E o rapaz se envergonhou, tendo a sensação de ter tido a curiosidade descoberta. “Damião deve estar dormindo ainda. Vá acordá-lo”. E quando os primos saíram de casa, Levon já havia partido. E o menino contou que já havia visto o homem em outras ocasiões, sempre pelo fim da noite ou madrugada adentro, conversando com seu pai na mesa da cozinha ou fumando no quintal. Mas que nunca conseguiu captar o teor das conversas, pois não lhe era permitido entender. E Krikor pediu para que tentasse descobrir, mas sem se colocar em risco.
Em um dos dias seguintes, nos raros momentos de calor e vento forte em Serralta, Krikor abastecia a Kombi quando o filho de Cícero, dono da fábrica de vassouras próxima ao mar, avisou à Edmundo que havia alguém no telefone para ele. Krikor aguardou o retorno do amigo, que veio coçando a cabeça, com uma expressão de que havia recebido uma má notícia.
“Aconteceu algo?”, Krikor perguntou.
“Era Anselmo. Parece que está tendo problemas com um dos pescadores. Estêvão. Está atrasando o pagamento”
“Por quê?”
“Não sei. Reclamando da taxa ou sei lá o quê. O que interessa é que Anselmo me perguntou se poderia enfiar a porrada nele. E eu disse que sim”
“Está falando sério?”
Edmundo cerrou os olhos.
“Está com pena do pescador, Krikor?”
“Não. Quero dizer, eu acho um erro. Um erro deixarmos isso para Anselmo resolver. Não podemos permitir que ele cresça dessa maneira. Isso é uma tarefa para nós solucionarmos, pessoalmente”
O parceiro cogitou. Viu razão nas palavras de Krikor. Ora, os cabeças da operação deviam ter presença em vez de terceirizar assuntos mais delicados. Por isso, delegaram as entregas para Vicente e partiram para Porto Negro, após avisarem Anselmo pelo telefone de Cícero. Quando chegaram na praia de Porto Negro, encontraram o sujeito de rosto galináceo, roendo as unhas, encostado em uma embarcação.
“Decidimos que era para resolvermos pessoalmente. Você entende, certo?”, perguntou Krikor.
“Claro, claro. Vocês estão certos”, Anselmo respondeu, virando-se para conduzir os dois.
“E tentaremos resolver sem violência. Serei diplomático”, Krikor anunciou e percebeu, pela visão periférica, uma troca de olhares entre os dois.
O barco de Estêvão estava atracado na areia. A maré baixa de Porto Negro revelava diversos instrumentos de pesca que se enterraram ocasionalmente e agora se mostravam de forma parcial. Os barcos eram muitos, salpicados de maneira colorida na imensidão de azul-turquesa. Era praia de areia clara, diferente de Serralta. E, antes que se aproximassem, puderam contemplar as embarcações que estavam sob domínio, operando numa rede emaranhada que ambos se orgulharam de dar vida.
“Estêvão. O que houve?”, Edmundo perguntou. A voz controlada. “Problemas com Anselmo?”
O pescador sustentava uma expressão de exasperação contida. Sendo observado por seus tripulantes, disse com firmeza:
“Problema nenhum. Só o comuniquei que, nesse mês, não poderei repassar a parte do apurado. Estou apertado, Edmundo. As vendas não foram tão boas, estou sem dinheiro. Minha mulher está trabalhando dobrado”, apontou para a esposa.
“Trato é trato. Que se foda que está apertado. Te demos um dinheiro pelo barco e você já torrou tudo?”, Edmundo levantou a voz.
Krikor teve de intervir para evitar a escalada. Com o tom mais ameno, disse que se preocupava com as questões financeiras que atrapalhavam o cumprimento do contrato, pois queria poder contar sempre com trabalhadores motivados. Anselmo permaneceu calado durante toda a conversa. A mesma expressão analítica de quando observava as penas de Gengis Khan. O diálogo amansou, tal como a maré baixa de Porto Negro e Krikor conseguiu conduzir as tratativas para um final que, via-se pela expressão, não havia agradado tanto Edmundo.
“Façamos o seguinte. Vamos dividir o apurado em uma parte a mais. E você fica com ela. Assim, a gente dilui um pouco a taxa. Fique essa semana sem pagar. Mas, na próxima, você paga por ela. É justo?”
Uma simples confirmação teria evitado o desfecho que surpreendeu Krikor e inaugurou uma nova fase de sua relação com Edmundo. O homem balançou a cabeça, concordou por concordar, mas disse, com desprezo acumulado: “justo, nunca será. Este barco é meu”, o que causou o estopim na contenção de Edmundo, que o golpeou com um cruzado de esquerda, do seu ombro descaído, direto na boca, fazendo afrouxar alguns dentes e sangrar as gengivas do desesperado. Naquele momento de fúria, Edmundo revelava uma face que parecia ter habitado em sombra, projetado por vezes em uma parede que Krikor poderia ter percebido tempos atrás. E golpeou o pescador com chutes, quando este já estava caído. Krikor fez menção de intervir, mas Anselmo o sinalizou, com um breve movimento de mão, que comunicou com uma exatidão que palavra alguma poderia ter, que deveria não se intrometer. Assim foi feito. E em meio aos golpes, a mulher de Estêvão, aos gritos de desespero, tentou separar o diabo enfurecido que se apoderara de Edmundo, mas também foi golpeada, primeiro no fígado, depois com um chute que a fez recuar, ouvindo que era uma prostituta que deveria utilizar o que havia entre as pernas para levantar o dinheiro necessário. Os pescadores locais observaram a cena. Os que estavam sob domínio da dupla também observaram, mas nada fizeram. Ao fim de tudo, com o casal arrebentado, jogado na areia de Porto Negro, os três se retiraram, ouvindo apenas a respiração forte de Edmundo enquanto caminhavam, naquela tarde ensolarada.
“Não queria que você tirasse a autoridade dele, por isso disse para não intervir”, Anselmo explicou, quando chegaram na kombi. “Os pescadores não podem achar que a relação de vocês é fragmentada. Isso seria uma demonstração de fraqueza que poderia nos causar problemas”
Krikor concordou, ainda processando tudo que ocorreu.
“Bom, acho que vocês precisam conversar”, Anselmo se retirou.
Os dois entraram no carro. Edmundo conferia o pulso.
“Está resolvido”, disse, por fim.
“Não sei se está. Você perdeu o controle, isso não pode acontecer”
Edmundo acendeu um cigarro, as mãos ainda trêmulas.
“Precisamos ser respeitados. É bom que tenham medo de mim”, disse.
“Há uma diferença entre terem medo e te desprezarem, e terem medo enquanto te admiram. Você acha que os nossos pescadores vão te respeitar após ver o amigo, de anos de pesca, ser humilhado? E, pior… Você bateu em uma mulher”
“A vagabunda não devia ter se intrometido. Eu sei, eu sei, merda, pare de falar. Eu sei que errei nisso”
Nada mais falaram até verem as curvas de Serralta. Quando Edmundo disse, com a voz mais calma:
“Senti que ele te respeitava mais do que a mim. Ele não me olhava. Tudo que eu falava não tinha peso”
Krikor riu. De repente, enxergou Edmundo frágil, como criança contrariada.
“Talvez por você ser um imberbe”, disse ironicamente.
Por conta disso, embora tentasse transparecer que não, Edmundo passou a ostentar uma barba rala, nas semanas seguintes. A notícia do que acontecera rapidamente se espalhou e, na Baía das Garças, todos os pescadores cochichavam sobre o dia de fúria que levara Edmundo a quase cometer dois homicídios. Naquele local de relações tão singelas e minimalistas, o sentimento de justiça já havia se esvaído na correnteza de retorno, o que implicava a normalização do ato, até certo ponto, como algo que não seria imputável como crime, mas que tivesse consequências morais muito maiores, tão grandes que a honra de Edmundo se abalou. Muitos pescadores de Porto Negro abandonaram o serviço; alguns poucos de Serralta também. Claro, nunca diziam diretamente o motivo, mas Krikor sabia. Anselmo também. Até mesmo Vicente parecia ter sua visão sobre Edmundo modificada, pois, de certo modo, havia enfrentado a queda de um ícone, de uma referência, no momento em que ouviu que o punho do homem acertou em cheio o fígado da mulher. Mas a operação deveria continuar. E, assim, continuou. Reposição de trabalho braçal não era um problema na região, mas a reputação abalada, sim. Por isso, os meses seguintes foram de maior cautela. Krikor assumiu o trato direto com os pescadores, deixando Edmundo nos bastidores, mais concentrado na distribuição e auxiliando sua irmã na administração dos valores e compras de insumos.
Quando soube, através de Damião, em um dos dias que entregavam pela região de Altemburgo, que era aniversário de Levon, Krikor percebeu que, em todos esses anos, nunca havia comemorado o aniversário do tio de maneira adequada. Pensou que seria interessante lhe dar uma festa como forma de retribuição por todo o apoio e acolhimento. “Ele está ferido. Não quer comemorar, nem receber visitas”, disse Damião. Sabendo disso, Krikor foi à casa do tio mesmo à contra-indicações do primo. Quando subiu as escadas rangentes, de madeira mal lustrada, ouviu as tossidas do tio à distância. Ao abrir a porta do quarto, encontrou Levon deitado, com o tronco enfaixado e uma expressão de dor.
“Merda”, o tio disse, “tossir faz doer mais do que se imagina”
O sobrinho se aproximou do pé da cama e sentou-se, observando as expressões do tio.
“Que jeito de comemorar o aniversário, hein?”, disse.
O tio concordou. Tentou alcançar um copo d’água no criado-mudo, mas as expressões comoveram Krikor, que se levantou e alcançou o copo para ele.
“O que aconteceu, tio?”
“Acidente. Acidente de trabalho”
“Foi atropelado? Quebrou algumas costelas?”
“Não”
O olhar de Levon estava fixo em Krikor. Mesmo em um momento de fragilidade, ainda sustentava o peso inexplicável que transcendia os braços e pernas frágeis do tio.
“Você sabe o que eu faço para viver, Krikor. Você sabe”
Krikor olhou para as próprias mãos. Não queria encarar o tio.
“Caça?”
Os dois riram.
“Estou cansado, Krikor. Cansado. Mas é a única coisa que sei fazer na vida. Sabe o que isso significa? Que sei que não fui feito para mais nada. E isso é terrível, ainda mais para um homem da minha idade”
“Eu entendo”
“Não, Krikor, não entende. Há dias que tenho prazer, mas há dias que me questiono. E não é um simples questionamento de ofício. É um questionamento sobre quem sou, isso é o que me mata”
Krikor observava a faixa que envolvia o tórax do tio. Havia partes com sangramento aparente.
“Quer ver?”, o tio ofereceu.
Após o sobrinho concordar, Levon desenfaixou lentamente o peito, mostrando um ferimento enegrecido, na direção das costelas esquerdas.
“A bala ainda está aqui, alojada. Fria. Muito fria, Krikor. Deve ter esfarelado uma das minhas costelas. Tive sorte, melhor a costela que o coração. Mas o filho da puta, Krikor, o filho da puta teve o rosto explodido, perdeu um tampo da têmpora e todo o olho direito. Estourei a cara dele, Krikor, um tirambaço com o rifle. Ah, Krikor, ali tive prazer, como não sentia em anos, você tinha que ver a expressão de felicidade que ele estava, por ter me acertado, por achar que estava ganhando o combate… Ele morreu feliz, Krikor, morreu acreditando que venceria. Nada me dá mais prazer que isso. Mas, hoje… Hoje me questiono. Não quero passar por isso mais. Não quero. Não está compensando mais para mim”
“E isso foi aqui perto? Mais gente viu?”
“Não, não. Claro que não. Não trabalho por aqui. Jamais. Não se suja a mesa onde se come. Tenha isso em mente”
Krikor demonstrou preocupação com o ferimento. Estava horrível, com um aspecto tenebroso que Krikor jamais identificara em outros contextos.
“Tem algo a ver com aquele homem que vi?”, Krikor perguntou.
“Constantino? Sim, sim. É um bom amigo. Trabalho para ele há alguns anos. Mas não trabalharei mais, Krikor. Esse foi meu último serviço para ele”
“São os serviços mais complicados?”
“Talvez”
“Com o que ele trabalha?”
“Ele é um fazendeiro, mas recebe cigarro na fronteira e distribui. Ganha muito com isso, muito. Mas o mundo do contrabando é perigoso. Muitos inimigos. Está enfrentando dificuldades com os caminhões. Está tendo a carga roubada pelos rivais. E a polícia também já mapeou suas rotas… Muitos problemas, muitos problemas…”
(Continua…)
Oi! Vou fazer meu comentário no último dia possível. Que decepção viu? Eu não tenho jeito. Mas antes nunca do que tarde. Kkkk. Interessante a ambientação ali na ilha. Gostei de como você descreveu o perigo e a proximidade das batalhas como uma realidade presente, porém ainda fácil de ignorar de alguma maneira. Outros trechos do texto deixam essa dualidade clara, como o cheiro que não era de fato nem gosto nem cheiro; ou o perigo iminente ali no armazém, que não dava descanso, mas ainda não parecia uma coisa imediata, sabe? Ficou legal. Dá uma tensão leve que faz a gente se perguntar o tempo inteiro se alguém vai pular das sombras para matar Edgar e Heleno. A reflexão sobre a guerra como um modo de representar o mundo foi muito inteligente. Achei engraçada essa parte do Edgar dando uma “meia risada”. Nunca tinha visto essa forma de dizer, gostei. É uma outra maneira de falar “risada breve”. Porque uma risada inteira deveria ser uma gargalhada, certo? Enfim, eu aqui viajando nas ideias, risos. O sonho do pobre Edgar teve um detalhe que eu curti: o homem dizendo para ele ir lá fora perguntar para as pessoas se estava morto ou não. Kkkk. E ele foi, é isso aí. Contra provas não há argumentos, mesmo num sonho! Seus personagens são marcantes. O Kaspar, o próprio Heleno, até o irmão do Edgar, todos têm presença, sabe? Mesmo que a descrição física seja pouca, ela é suficiente. Dá para visualizar e entender quem eles são. Fiquei triste por Heleno não escrever mais poesia. Mas quem pode culpar o cara? A guerra e depois o trabalho entediante devem ter acabado com a mente e o coração dele. Estou curiosa para descobrir do que exatamente Kaspar desconfiava em relação ao neto. Acho que agora entendi: o irmão do Edgar é despreocupado, mas do pior tipo, aquele que causa problemas para os outros sem maldade. Tadinho do garotinho que partiu por causa da febre. Que dó. Cara, realmente tudo dá errado o tempo todo para esse Edgar, hein? Sem avô, sem barco, agora sem irmão, porque ambos fugiram para lados opostos. Ah, sim, e sem dinheiro. Rs. Está complicada a vida do moço. Será que essa Úrsula vai trazer um pouco de vida, alegria e amor para esse coração quebrado? Temos que falar para o sogro do Edgar que existem outras coisas que também definem um homem: ele tem de ser feio, forte e formal. Não sei se Edgar é bonito; já foi citado que o cara forte era o irmão dele, e talvez, por ter ido para o exército, Edgar seja formal. Portanto, não lhe falta muito para ser homem. Kkkkkk. Me desculpe, não estou zombando do seu texto, tá? Risos. Só me lembrei dessa frase do Chaves porque o sogro falou três itens para definir um homem, e os dele são muito mais importantes e sérios. Rapaz, o cara mais azarado do mundo encontrou petróleo na chácara dele! Isso é surpreendente. Agora entendi a questão da exploração: vão explorar o petróleo. Legal! Gostei de Heleno ter retornado, mesmo que de forma breve. Rs. Geólogo, hein? Isso aí, Edgar! Dá um soco na mesa e grita: “Sete milhões o caralho, eu quero o dobro!”. Risos. Acho que ele pediu um número bem razoável, considerando a quantidade de petróleo que nosso querido Heleno estimou existir nas profundezas daquela chácara. Muito bem, este trecho terminou em grande estilo! Agora vamos aos comentários gerais: seu texto é bem escrito. Seus personagens, como já falei acima, são marcantes e têm presença. Com pouca descrição, você os insere na história e na nossa mente. Isso é fantástico. Quanto à técnica, não tenho nada a apontar. Sua escrita é excelente, as descrições são muito bem feitas e conseguimos entender perfeitamente o que está acontecendo. Mas eu não gostei da história e não me importei muito com os personagens, talvez apenas um pouco com o Heleno. Acho que a forma como tudo é mostrado — e lembrando que isso não é um defeito — é real demais. Eu tenho a tendência de não gostar de histórias que mostram a dureza da vida, a dor, o tédio e a falta de opções. Isso é angustiante para mim. Dá vontade de ler rápido para não continuar sofrendo junto com os personagens. Lembrando que não digo “sofrendo” no sentido de a história ser mal escrita, nem nada disso. Sofrendo no sentido de que eles passam por situações angustiantes, e eu não curto muito esse tipo de narrativa. Por favor, não leve a mal, ok? Ainda que a morte da criança e depois a morte do Kaspar tenham sido acontecimentos duros, é como se os personagens olhassem para aquilo e dissessem: “Fazer o quê? Vida que segue.” Entende? E, na minha opinião, isso combina perfeitamente com o contexto da história e com a forma como aquelas pessoas vivem suas vidas. Tudo isso faz sentido. Eu apenas não gosto. Enquanto lia sua história, me lembrei de um livro que precisei ler aos 17 ou 16 anos para a aula de filosofia: O Estrangeiro, de Albert Camus. Senti uma vibe parecida aqui: atmosfera de pessoas reais, desilusão, desgaste, sofrimento e coisas do tipo. As histórias são bem diferentes, claro, mas a sensação que tive ao ler foi semelhante à daquela época. Pelo menos o Edgar parece mais simpático. Seu desfecho com essa cena final foi o ponto mais emocionante da história para mim. Uma ação, um perigo, um risco. Eu queria continuar lendo justamente por causa dessa sensação de perigo. O Edgar parece muito mais esperto do que os caras que estavam negociando com ele, então é uma pena que já tenha acabado. Também estou curiosa para ver se algum personagem vai me conquistar nessa história. Acho que não. Fato é que fiquei com vontade de dar um socão nesse Gutierrez folgado falando da mulher e do filho do Edgar. Também estou curiosa para saber se o diabo é realmente uma criatura ou apenas uma pessoa que é chamada assim. Enfim, aguardando a continuação da história.
Com um texto rebuscado, André nos apresenta a história de Edgar, através de pactos formais e infelizes. Onde e quando acontecem, aparentemente não importam muito. O tempo e a localização existem, mas não explicitamente descritos. Eu particularmente não vejo qualquer problema. A leitura nos permite imaginar muito bem!
Um pesadelo recorrente com um lavador de defuntos atazana o protagonista. Há uma densidade psicológica nele, balanceada entre confinamento e tentação.
Ele evolui de um reles marinheiro para um negociante, práticas menos éticas. Talvez já houvesse a semente, as adversidades e/ou Krigor podem ter acelerado a mudança.
Krigor, Úrsula e Gutierrez estão bem definidos. Os próximos capítulos demandarão novos personagens e tramas para prender a atenção dos leitores,
Boa sorte!
Olá, André, tudo bem?
Finalmente comentarei o seu romancinho, que de “inho” não tem nada.
Sei que o título é provisório, mas cabe rever a escolha imaginando como ficaria em uma capa. Sim, já estou dando como certa a publicação, portanto, elabore melhor as possibilidades gráficas.
Vou analisar os nomes dos personagens só porque gosto mesmo.
Interessante também escolher Madalena como nome da cidade. A figura bíblica de Madalena carrega um forte simbolismo de redenção, arrependimento, fé e liderança. “Só Deus sabe o meu desejo de ir para bem longe de Madalena” > Edgar pretende fugir da própria redenção, escapar do arrependimento?
A ilha de São Pierre não deveria ser San Pierre? São Pedro = O Santo Protetor dos Pescadores e Guardião do Céu, vem para encerrar junho e traz com ele: fé, esperança e devoção. Que ele siga guiando nossos passos, molhando nossa terra e firmando nossa esperança. O Evangelho segundo Mateus afirma que Pedro negou Jesus “na frente de todos”, tendo assim feito do público testemunhas. Edgar nasceu e cresceu em negação?
Enquanto isolados, Edgar e Heleno compartilharam de uma intimidade, o pragmático e o poeta. A guerra lhes tira a inocência e a poesia. Voltam-se à terra, à riqueza do solo. Heleno se torna geólogo e Edgar proprietário de terras. Mas somente um inocente (que ainda possuía a poesia no olhar), Rubens, consegue descobrir o petróleo (o tesouro).
Também achei interessante a metáfora do sonho de Edgar: seu corpo sendo lavado como se fosse de um defunto. Ele já estaria morto? Sua alma já havia sido entregue ao diabo?
A narrativa prende, embora alguns trechos sejam demasiadamente densos e exijam maior concentração do(a) leitor(a). Há uma instabilidade quanto ao foco narrativo, mas nada que atrapalhe o entendimento.
Você tem um estilo de escrita próprio, isso está claro. Descrições elaboradas, muitas metáforas e adjetivos, prosa poética para todos os lados, mas quem sou eu para criticar isso? Gostamos dessa pegada mais densa, não é mesmo?
Tome cuidado com os períodos frasais muito longos, pois o risco de se perder tanto na escrita quanto na leitura é grande. Eu mesma tive de reler alguns trechos para retomar o raciocínio.
Apontarei alguns pontos que observei, mas claro que outros me escaparam, pois estava entretida com a narrativa.
Tenho certeza de que, com a ajuda dos comentários recebidos, você conseguirá dar prosseguimento a uma narrativa de peso. Não abra mão do seu estilo, mergulhe na densidade de seu próprio tormento: sofra como um escritor. (Que conselho maravilhoso de tia, não?)
Parabéns pelo trabalho realizado até então, e boa sorte ao longo da longa aventura que nos aguarda.
Abraço.
Esse texto me lembrou muito Fausto, principalmente pela ideia do pacto com o Diabo como algo ligado ao desejo e à ruína do próprio personagem. Mas aqui senti uma coisa mais melancólica e pesada, quase como se Edgar já estivesse perdido antes mesmo de assinar qualquer contrato.
A presença do Diabo no texto não parece só uma figura sobrenatural. Em vários momentos senti que ele funciona como uma sombra acompanhando Edgar o tempo inteiro, igual acontece nas obras de William Blake, onde o infernal e o humano acabam se misturando.
Também gostei de como o texto trabalha essa ideia de decadência lenta. Não é um horror baseado em susto, mas numa destruição interna acontecendo aos poucos. Edgar vai parecendo cada vez mais consumido pelas próprias escolhas e pela atmosfera ao redor dele.
Senti que o texto mistura algo muito literário com uma atmosfera quase bíblica e fantasmagórica.
Olá, André! Tudo bem?
Finalmente li todo o começo do seu romancinhoooo 😆
Pra falar a verdade, não é uma história que me interesse muito ler, não leria se achasse numa biblioteca, e não compraria, mas também não leria o meu próprio romance, então…
Gostei bastante do primeiro capítulo, da parte da guerra, da descrição mais imediata, do que estava realmente acontecendo, logo depois, quando ele volta e toda a história do barco, do irmão e do avô ficou meio genérico demais, tudo narrado meio distante, por cima, até chegar na parte da negociação, aí volta ao tipo de narrativa que eu gosto… confesso que nesse meio tempo, quase desisti da leitura, mas continuei e quando chegou nessa parte da negociação o texto me puxou de volta…
Não sei se estou certa, mas acho que a história do petróleo é uma farsa, um golpe do Edgar com o Heleno… um grande golpe, que de certo tem o dedo do Krikor também. E a história vai seguir mostrando como o golpe vai funcionar ou não… se for isso é bem interessante. Amava um livro do Sidney Sheldon que era sobre uma golpista… e os golpes eram ótimos! Esqueci o nome do livro…
Bem, eu entendo que não dá pra narrar tudo que acontece “em tempo real” mas achei que toda a parte do Edgar conhecer a Ursula, casar e ter os filhos, muito corrida, como se não fosse nem um pouco relevante para a história. Os filhos dão uma sensação de que talvez fossem fantasmas, talvez pela descrição deles… por que são tão magros e desnutridos?
Pra resumir, gostei mais do começo e do final, o meio quase me perdeu. Mas fiquei curiosa pra ver onde você vai levar a história e isso é um ótimo sinal!
A escrita está muito boa, como sempre!
Parabéns por encarar esse desafio!
Até a próxima etapa!
Olá, André.
Impressões gerais.
É um texto muito agradável de se ler. Especialmente do início na guerra até a morte do pai do Edgar e da fuga dos credores. Nesse segmento o texto caminha com vagar, com um olhar contemplativo e é muito imagético, muito atmosférico. Eu percebia bem o ambiente e os personagens. Passou-me muita melancolia, uma certa frieza na alma, feito paisagens nevoentas. Do casamento de Edgar até o final senti uma quebra: o texto está mais condensado, Edgar parece mais pragmático e amargo, não sei se foi a intenção. Durante boa parte da leitura percebi certo deslocamento geográfico e temporal meu, como leitor, pois demorei para notar que o seu worldbuilding era puramente ficcional. Eu sou de exatas e mesmo em mundos fictícios eu tento encontrar um “manual de instruções”. E eu teimava em tentar amarrar: guerra com franceses, pesca de focas e lagostas na Antártida, Brasil, os nomes estranhos de alguns personagens e não conseguia gerar um quadro claro na minha cabeça.
Enfim, é um texto de muita qualidade e muito bem escrito, mas passou-me uma impressão de quebra de estilo na parte mais ao final. Teria sido escrito em períodos de tempo diferentes? No meu “Quarto Capítulo” todo o segmento antes do “tour de force” já estava escrito há tempos, e notei um pouco de quebra no segmento restante, pois o escrevi para o desafio.
Achei um pecado você só ter aparecido com a descrição física do Edgar já perto do final. Não sou fã de fichas visuais em textos, mas alguma base é bom para gerarmos imagens mentais.
Qualidade da escrita
Ortografia, pontuação, etc. O texto está muito bem escrito. Não vi nada que me saltasse aos olhos, acho que só vi uma troca de preposição que agora nem consigo apontar onde foi.
Diálogos
Os diálogos são muito bons e soam como falas reais. Não são expositivos e nem “empolados”. Prefiro notação com travessão, mas não ligo pro formato inglês com aspas duplas.
Personagens
Gostei do Edgar, odiei o irmão mais velho dele (o que significa que ficou bom), o pai do Edgar me lembrou meu falecido Tio Eraldo, que era um marinheiro durão, que cortava as unhas com canivete. Gostei do amigo poeta também, mas acho que ele poderia ter tido mais participação depois da guerra. Achei que todos esses foram bem construídos. A Úrsula me pareceu ainda muito “enevoada”, assim como os filhos do Edgar e demais personagens.
Abraço!
Este começo é intrigante e desenha uma história promissora.
De cara, o texto tem seu estilo, a linguagem poética e cheia de imagens fortes e algumas palavras que eu penso que são neologismos, mas sem muita certeza, tipo rabodeolhou, insulano ou masculinácea. Adouro! Acho que já disse isso, mas ler um texto seu é como contemplar uma linda igreja barroca.
Aqui, você conta a história de Edgar e o faz através dos contratos que ele assina ao longo da vida. A ida à guerra, a caça aos leões marinhos, o casamento, a venda de sua propriedade. Ao menos é que parece nesse começo de romance. Veremos nos próximos capítulos.
Na ida à guerra, ficamos conhecendo Heleno, uma figura misteriosa e com a qual Edgar não parece ter muita afinidade, mas que acaba por se tornar amigo. Depois, de volta à ilha, temos Kaspar, o avô experiente e Krikor, o irmão insensato. Eles se lançam ao mar para caçar leões marinhos e, de início, tudo vai bem, até serem frustrados pela ganância de Krikor, que põe tudo a perder, suja o nome de Kaspar e ainda mente dizendo que Edgar é médico e colocando sobre suas costas o peso da morte de uma criança.
Ficam no prejuízo e ainda são perseguidos por credores. Fogem, cada um para um lado.
Edgar vai para uma cidade chamada Madalena, por indicação de Heleno. Ele se casa com Úrsula e tem dois filhos, Rubens e Marina. Rubens descobre acidentalmente petróleo no terreno da família. Rubens tenta vender o sítio com petróleo e tudo para se mudar para os Estados Unidos.
Há muitos pontos interessantes.
Após a fuga de São Pierre, o tom da narrativa muda bruscamente, como se a iluminação das cenas mudasse de cor. A voz do narrador parece mudar. Será impressão minha? É de propósito?
Também após a fuga, Heleno parece dotado de poder. Ele envia Edgar a Madalena. Ele também parece perder escrúpulos. Antes da fuga, ele estava indignado porque Krikor mentiu sobre Edgar ser médico, mas, após a fuga, ele se faz passar por geólogo. Estranhíssimo.
Edgar também parece diferente após a fuga. Parece um tanto manipulador e é descrito fisicamente pela primeira vez, como um sujeito baixinho e com sardas. Os momentos passados a bordo no Austral mostraram bastante da personalidade dos homens. E, em seguida, após a fuga, eles estão se comportando de forma bem diferente do esperado.
Isso me fez pensar se Edgar depois da fuga é mesmo Edgar, ou se Krikor está se fazendo passar por ele. Até porque toda a ideia do negócio, da venda da chácara, é bem suspeita. Por que ele iria querer vender a chácara ao invés de explorar o petróleo? Por que ele quer tanto sair do país? Por que ele escolheu um comprador desesperado? Isso tudo tem uma cara de trambique…
E Úrsula? Quem é ela? Ela ama Edgar? Por que tive a impressão de que ela estava acuada/assustada na cena da negociação? Para mim, Ursula sempre remete à matriarca de Cem Anos de Solidão.
E como o pai dela se tornou importante e influente? Saberemos nos próximos capítulos?
O fato é que poucos detalhes nos são dados. Madalena é distante e seca. A Chácara dos Diamantes, apesar do nome é triste e desolado. Mas é só isso. O resto é um grande mistério.
Sobre a primeira parte da história, antes da fuga, também há mistérios.
Onde e quando se passa a história?
No começo, achei que São Pierre estivesse na Europa, por conta dos franceses, em algum momento da Primeira Guerra Mundial. Daí, Heleno menciona a chegada à lua. Opa, então estamos em algum momento após 1969. Depois, Kaspar chama o barco de Austral, então não devem estar na Europa, senão o barco seria Boreal. Penso no Uruguai. Mas o que os franceses estavam fazendo por aqui? E então, no momento da negociação, Edgar diz que quer deixar o Brasil.
Tive dificuldades em situar a história no tempo e no espaço e, portanto, em imaginar os lugares. Quer dizer, imaginei facilmente, porque você tem um dom para invocar imagens. Só que as imagens seguintes não combinam com as anteriores, como se a história saísse da Alemanha em 1915 direto para o Uruguai em 1970 e daí para o sertão nordestino também nos anos 70 (estou levando em consideração que os GPRs se tornaram disponíveis comercialmente nos anos 70).
Minha dúvida é: isso tudo é proposital? Porque o resultado é interessante, misterioso, intrigante.
Gostei muito da leitura. Estou devidamente interessada na continuação que, na minha opinião, promete
Corrigindo: “Rubens tenta vender o sítio com petróleo…”. Quem tenta vender o sítio (ou chácara) é Edgar.
O Contrato que Edgar assinou, tendo como testemunha o Diabo] | Autor(a): André Lima
Fase de Leitura: [Ex: Capítulos I a VI]
Data: 14/05/2026
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
“O Contrato que Edgar assinou, tendo como testemunha o Diabo” é um romance meio difícil de encaixar numa caixinha. A escrita descritiva e verborrágica flerta com um realismo fantástico. Por outro lado, existe um forte aspecto histórico (ou aura , para os mais jovens). E, sinceramente, me encantei com esse lado (que eu posso ter inadvertidamente ter inventado [me apaixonei pelo que inventei de você, saudades Marília Mendonça]).
Acho que precisa ser melhor trabalhada essa questão, a fim de afinar a ambientação.
Impacto: muito positivo.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
André, uma das coisas que mais admiro em seu estilo é que ele é algo inegociável. Pelo menos desde que eu lembro de ter lido seus textos (desde 2024), é algo constante em sua produção literária. Ou seja, entre elogios e críticas, acertos e erros, você manteve-se firme e seguiu lapidando. E, em termos técnicos/estilo de literatura, foi o trabalho que eu mais gostei.
Isso é algo extremamente positivo e digno de nota. Parabéns!
Em “O Contrato que Edgar assinou, com o Diabo como testemunha”, você manteve seu estilo verborrágico. Aqui, pelo menos nesse trecho inicial, você encontrou o ponto de equilíbrio entre descrições repletas de detalhes (adjetivos e advérbios) e um sentido lógico belo. Nesse ponto de equilíbrio, você providenciou ao leitor uma visão de mundo única, em determinados momentos. Alguns pontos de destaque:
“Havia uma pertinácia naquele lugar que beirava a insolência: a ilha simplesmente não registrava ausências.”
“Era um contraste inquietante, pois o brilhar prateado não ofuscava a soturna penumbra daquela propriedade. Até nos dias ensolarados, o negrume e o pesar de seus proprietários faziam com que aquele local peculiar parecesse enevoado, como se os lamentos e os desgostos estivessem sendo soprados, como num fluido, ao solo em um fluxo contínuo.”
Acho que é necessário manter essa pegada.
O Diabo, testemunha do Edgar, mora nos detalhes. Gostei muito da história, mas alguns detalhezinhos me deixaram encucados.
Bom, eu diria que a ambientação não está tão boa. Superficialmente, parece tudo muito certo. Mas, um pouco naquela lógica de que, a partir de que um texto é publicado, ele se torna do leitor, eu penso que essa diversidade de versões pode não ser o ideal.
Veja bem, seu trecho tem um forte aspecto histórico e por isso faço esses apontamentos, pois acho que vai enriquecer.
Por um momento, talvez meio levado pela imagem e pelas primeiras menções a guerras e etc, fui levado a imaginar algo sobre a Primeira Guerra Mundial. Para aumentar mais ainda minha ficção, encontrei uma tal de São Pierre. Uma ilhota isolada perto do Canadá, que faz parte do território ultramar. Para os brasileiros mais íntimos, São Pedro e Miquelão. Para aqueles com intimidade com o francês Saint-Pierre-et-Miquelon. Pelo detalhe histórico, você já teria me fisgado.
Bom, não sei esse romance seria uma ficção histórica ou algo do gênero, mas penso que alinhar esse romance mais a fatos tornaria a ambientação peculiar e interessante, especialmente no primeiro capítulo. Aqui é só uma sugestão, claro, fica a seu critério. A sensação que tenho é ou Primeira Guerra Mundial ou a Segunda Guerra Mundial. Sendo a Primeira Guerra Mundial, eu sugiro fazer referências ao período da Belle Époque e do Nacionalismo que as potências europeias experimentam. O início do seu romance me leva diretamente a isso e eu acho extremamente enriquecedor, do ponto de vista histórico e cultural.
Já, se o seu personagem estiver indo para a Segunda Guerra Mundial, sugiro fazer uma pesquisa que retome a figura do Soldado Desconhecido e o sentimento de revanchismo existente entre os países. Aqui, eu acho que é interessante, inclusive, mencionar ou fazer alusão à questão da memória.
Agora, se a gente estiver falando só de um município insular do Brasil… Bom, seria um pequeno banho de água fria. Penso, portanto, que seria amarrar melhor essa questão. Afinal, estamos aonde? Que período histórico? O homem pisou na Lua? O Nando Reis já conseguiu o endereço da Cássia Eller? Coisas básicas assim.
Mais alguns detalhes que eu penso que são importantes, se quiser deixar a história verossímil. A empresa lá do tal do Gutierrez não pode estar passando por recuperação judicial, já que esse instituto só passou a existir em 2005 (eu sei, sou chato)
Talvez o aspecto que eu mais gostei desse trecho é desse início de romance é o aspecto histórico. Esse tipo de literatura histórica me fascina e acaba me conquistando como doce bem feito. Depois que eu experimento, eu vou consumindo e consumindo e consumindo até acabar.
Além disso, a escrita está excelente. Pessoalmente, acho que está no ponto perfeito do seu estilo pleno de adjetivos e construções de ideias.
Talvez, ao adicionar aqueles elementos históricos que citei e afinar alguns pontos que me pareceram ou muito corridos ou muito descritos, essa narrativa ficará nos trinques! De qualquer jeito, tô esperando o livro para deixar aqui na estante
Olá novamente,
Li a seção II e vou compartilhar a minha experiência de leitura agora.
A sensação que tive foi de uma história escrita com duas mentes. Enquanto na primeira parte, essa diferença só ficava mais evidente bem no início, aqui isso acontece no trecho inteiro.
Ainda não desisti da sua história por consideração a você, mas está sendo uma prova de resistência. Você pesa a mão no uso de palavras difíceis e logo depois utiliza estruturas frasais clichês, então por isso fica a sensação que mencionei acima.
Também não consegui captar ainda qual é a sua proposta, mas o enredo fluiu um pouco melhor nessa segunda parte. Aparentemente é um tema com o qual não tenho tanta afinidade e interesse, o que acaba prejudicando ainda mais minha experiência de leitura.
Vou ler a próxima seção para ver o resultado, então por enquanto não dê tanta importância aos comentários. São apenas impressões iniciais.
Até mais, abraço!
Impressões sobre os capítulos V e VI
Olá, André. Boa noite.
Antes de qualquer coisa, sua prosa é agradável à leitura. Há dicção própria, boas imagens e uma construção segura do protagonista e do mundo que ele habita.
Entretanto há um problema estrutural nesse primeiro fragmento do seu romance. A boa notícia é que me parece relativamente fácil corrigi-lo.
No começo da narrativa, temos um narrador onisciente, mais literário, com construções elegantes e foco narrativo no protagonista. Entretanto, a partir do capítulo IV, esse narrador se transforma. Se afasta do protagonista e perde suas qualidades mais elegantes e literárias, se tornando mais, eu diria cínico, talvez. Falta coesão de estilo entre eles.
Minha impressão enquanto leitora, foi de que a questão central do romance é contrato, que comparece no título e surge na narrativa a partir do capítulo IV, e que os capítulos iniciais foram construídos, talvez a posteriori, com o intuito de dar uma biografia para o protagonista.
Dito isso, minha sugestão seria começar o romance no capítulo IV, inserindo as informações sobre a biografia, a ilha, a guerra, o avô, o irmão, etc, como flashbacks no desenvolvimento do enredo. Preservando-se a característica mais literária da narrativa nessas rememorações, poder-se-ia produzir um efeito interessante talvez no romance, me parece. A ver.
Eu realmente senti esse estranhamento e como comentarista, entendendo que estamos todos aqui a tentar produzir o melhor romance possível para o momento, entendo ser meu papel apontá-lo como oportunidade de melhoria para o seu trabalho.
No mais, foi um prazer te ler. Um abraço.
Impressões sobre os capítulos III e IV
Vamos as impressões do capítulo II:
André! Aí vão minhas primeiras impressões sobre O Contrato.
Bom, de cara devo dizer que me atrai o universo ficcional que você aborda. Sou simpático à decadência, talvez porque eu mesmo pertença a uma família decadente, mas também porque acredito que toda boa literatura, pelo menos de alguns séculos para cá, é uma arte que flerta com a decadência e o fracasso. Alguma coisa está errada no ponto de partida do personagem Edgar no mundo, e quaisquer que sejam os desdobramentos de suas aventuras – mesmo que ganhe muito dinheiro com o negócio com Gutierrez e resolva sua questão familiar, por exemplo – nada disso será devidamente reparado. Edgar é um sujeito moderno por excelência. Algo me leva a crer que sua trajetória na vida (ou seja, no romance) será marcada por um desajuste, um desencanto, que aqui toma a forma concreta do fiasco financeiro, que vive à espreita. Quero dizer que Edgar está alinhado a uma grande tradição de romances, a tradição dos heróis que, tateando a manifestação concreta de uma vida cheia de problemas familiares e econômicos, representam o movimento em vão de busca de ajuste de um espírito num mundo em que o ajuste não é mais possível.
Agora, que mundo é esse, exatamente? Algo sobre o estatuto histórico desse relato parece criar ruído. Isso não é bom ou ruim, ainda. É um ruído. Em vista da referência à viagem à Lua, logo no começo, estamos no mínimo depois de 1969. Só que a caça aos leões marinhos – quase uma piscadela a Moby Dick, eu diria –, assim como a guerra, descrita nos termos da Primeira ou Segunda Guerra, além do acontecimento central que é a descoberta do petróleo na fazenda, faz pensar em um outro tempo histórico. Eu penso nos anos 30. Os nomes dos personagens são antigos. A guerra da qual ele retorna parece a Primeira Guerra (falarei mais desse retorno, mais adiante). Talvez estejamos ainda mais no passado, se levamos em conta a referência ao escorbuto. Imagino que você tenha colocado todos esses elementos com alguma consciência, pois o efeito obtido é de flagrante anacronismo: as questões dos personagens, as relações familiares e de negócios, a cena do mercado mundial e da política, tudo converge para um tempo que não se verifica em nenhum momento real da História, ou melhor, para um tempo onde distintos tempos convivem. Isso é muito interessante, mas não sei até que ponto está sob seu controle. Em Cem Anos de Solidão, lembremos, o tempo remotíssimo da alquimia, dos saberes pré-científicos, se dá em concomitância com o das guerrilhas latino-americanas típicas do século XX. Essa concomitância, bem usada, pode produzir a sensação de estarmos habitando um outro tempo, muito fértil do ponto de vista literário: o tempo do mito. Não sei se é isso que você pretende, mas os ingredientes estão aí.
A possibilidade de mitificação histórica, vale lembrar, se alia ao fator geográfico. Onde estamos, afinal? Porque raios a ilha não se chama Saint Pierre, ou meramente São Pedro, mas sim a convergência insólita de São Pierre? E onde fica o Brasil nessa história? Madalena e São Pierre ficam no Brasil (confesso que aqui me confundi, mas pode ser má leitura minha)? Parece que não estamos falando do Brasil real, mas de um país imaginário, entre o mito e a História, que teria se desenvolvido com mil semelhanças e diferenças em algum universo paralelo. Isso também dá margem para muita coisa interessante, mas mais uma vez não consigo saber, ainda, se essa ideia está sob seu controle, ou sequer se é uma ideia e não meramente uma falta de contextualização, involuntária. Eu tenho a esperança de que você vai fazer um bom uso desses elementos, mais adiante.
Gostaria de comentar algo sobre o estilo. Não vou aqui fazer especulações acerca de como o público – essa entidade de existência duvidosa – vai receber o seu livro. Não sou ninguém para mediar essa recepção, e devo dizer que não acho que seja esse o papel da crítica. Falo como leitor e crítico, mas também como escritor, pois disso eu não consigo escapar, sobretudo nessa situação de intercâmbio que nos oferece o desafio.
Sua prosa, neste romance, tem um estilo bem definido e bastante afim à matéria narrada. O período longo é um estilema sem o qual sua poética, pelo menos como ela se apresenta aqui, correria o risco de desaparecer. Nem sempre o equilíbrio é a melhor sugestão. Quero dizer que apoio as decisões rítmicas, o alongado da explicação psicológica. Mas algumas vezes você dá ensejo a elipses que viriam muito bem, porém não as aproveita. O afã de deixar tudo contado pesa, em detrimento de certa incompreensão benéfica. Pensemos na cena do sonho. O sonho é muito bom. Mas se fosse narrado sem a explicação de que é um sonho geraria um efeito muito maior. O absurdo dos fatos, muito mais do que o enunciado, já explica o contexto de maneira muito mais econômica e orgânica para com o pacto ficcional. O que aconteceria se esse trecho fosse narrado sem usar a palavra sonho, sem sequer anunciar que o protagonista está dormindo? Afinal, é assim que sonhamos, não é?
Vou analisar alguns outros exemplos, mais centrados no estilo:
“Edgar não respondeu imediatamente, e o velho não esperou, que era o modo de Kaspar deixar as coisas no ar onde podiam ser apanhadas quando o outro estivesse pronto.”. A explicação psicológica se alonga demais. Digo isso com conhecimento de causa, porque é o grande problema da minha escrita. O que acontece se você não explicar o significado da não espera, ou, pelo menos, abreviá-la ao máximo, preservando um quê de enigma no gesto do velho? É diferente da explicação produtiva, como esta: “’Emagreceu’, disse, e voltou para dentro de casa. Era, no vocabulário de Kaspar, uma declaração de saudade.”. Esta desloca algo, é sintética. “Declaração de saudade” preserva uma incompletude. Gostei muito disso.
“O Austral era um barco adequado, nem belo nem feio, com a honestidade estética que seria necessária para motivar os trabalhadores que iam desbravar terreno desconhecido.” Longo demais, de novo. Algum dos irmãos Campos explica que em alemão a palavra para criar poesia é dichten. O verbo significa, também, condensar. Quer dizer que o poético mora na concentração de sentidos, na miniaturização. Se você conseguir reduzir essa ideia da estética do barco, que é muito boa, em pouquíssimas palavras, seu texto ganha em poesia (e a poesia flui por baixo de toda prosa literária de boa qualidade).
“Havia na ilha uma comunidade pequena, talvez quarenta almas distribuídas em casas que pareciam ter crescido do solo por conta própria, como cogumelos. Subsistiam de pesca e de uma resignação que só se desenvolve em quem nunca teve a opção de ir embora. Falavam um português que havia dado a volta em si mesmo várias vezes e chegado a um dialeto que só fazia sentido no raio de meia hora de caminhada. Eram desconfiados com a cordialidade contida de quem já recebeu visitantes antes e sabe que eles invariavelmente querem alguma coisa e invariavelmente vão embora deixando algum rastro de complicação”. Jesus! É nesse parágrafo que culmina o problema das explicações.No whatsapp você comentou que estaria abandonando o estilo cheio de adjetivos. Eu digo que isso não é verdade (embora não conheça o estilo adjetivado a que você se refere). Não importa que não haja adjetivos, pois há uma hipertrofia do predicado. Entendo que haja uma enumeração, e ela pode ser muito elegante. Mas quem sabe se você variasse o ritmo, não sei… Entende o que me incomoda aqui?
“Em uma noite, Krikor entrou no navio com cheiro forte de cachaça. “Estava bebendo com os pescadores da Ilha Verde e eles me contaram o que mudará nossas vidas para sempre”. O avô se sentou e olhou para Edgar, desconfiado.“Bem que o senhor falou das lagostas, vovô”, continuou Krikor. “Sabe a empresa japonesa que te disse uns dias atrás? Estão completamente irregulares e cinco tripulantes morreram de escorbuto. E o melhor de tudo, estão apenas no terceiro mês de pesca.
“A ideia era engenhosa, como era de se esperar de alguém cuja criatividade só se ativava diante de uma oportunidade. A empresa japonesa que detinha licença numa área adjacente estava operando há meses com irregularidades documentais sérias, além do escândalo da morte dos profissionais que a empresa havia deixado na ilha, a fim de fazer a manutenção das máquinas de enlatar e tomar conta das coisas, durante seis meses, sem suporte algum. Isso era fato verificável pelos pescadores da região. A proposta era simples: acionar, por meio de contatos no continente, uma denúncia formal que resultasse no cancelamento da licença deles, apreensão da mercadoria e espaço aberto para que O Austral explorasse o mercado de lagostas que, àquela altura, era deveras mais lucrativo que o óleo de leão-marinho.” Nesse trecho você abre margem para que o leitor depreenda o ardil por conta própria, referindo-se a uma “ideia engenhosa”. Ao ler essa expressão, eu passei imediatamente a tentar captar que ideia seria essa. E acredito que captaria, pelo menos parcialmente, como acontecesse nos melhores filmes de gângster. Mas você impediu esse meu prazer, ao explicar tudo tim-tim por tim-tim, logo em seguida (a partir de “A proposta era simples”). Trata-se de outra manifestação do problema já apontado, referente ao excesso de explicações.
“[…] Edgar se apressou para ser o mais direto possível. “O doutor deseja ver a mercadoria ou quer ir direto aos termos?”. O itálico telegrafa demais, o que contradiz o esforço de ocultamento. É como se você enchesse o texto de flechas para que o leitor compreendesse a posição dessa tal mercadoria na hierarquia da prosa, como se ele não pudesse fazer isso por conta própria. Veja, eu faço isso também, mas só quando a falta de itálico coloca em risco a compreensão. Aqui não é o caso.
Algumas últimas pentelhações:
Tantos leões-marinhos juntos no inverno? Eles não fogem do frio?
“O marido de Úrsula, sujeito baixinho com sardas sarapintadas nas bochechas magricelas”. Parece que você está falando de um personagem novo, não de Edgar.
“Masculinácea”? For real?
Qual é a da falta de pontos nos períodos?
Como é que Edgar arruma um casamento bom chegando ao continente com uma mão na frente outra atrás após os fiascos anteriores e a morte do avô? Ele não tem dinheiro pra tratar o filho, mas o sogro é amigo de um fodão da ANP? Algo não se encaixa na definição social de Edgar.
“É simples. Na definição de blocos de licitação, vamos priorizar o terreno. Depois, vamos fraudar os dados para afastar as grandes petrolíferas, de modo que se mostre pouco rentável e pouco atrativo. Por fim, vamos estudar o melhor modo de favorecer a PetroQuiRio no edital. E aí está, o doutor poderá, na fase de leilão, ter todos os privilégios possíveis.” Olha, eu não convivo com golpistas, lobistas e outros istas dessa laia, mas… não creio que falem em termos assim, tão a céu aberto, tão descaradamente. Parecem vilões do Capitão Planeta, sei lá. Acho que entre bandidos muita coisa fica subentendida, há muita malandragem. Esse é o segredo dos filmes de máfia: estamos sempre testemunhando conluios sem que saibamos exatamente quais são os tratos, o que nos faz experenciar como espectadores aquilo que os bandidos fazem com a sociedade: o engano.
Por fim, um elogio: ”Kaspar morreu seis semanas depois de receber a notícia da licença. Não de doença, porque os homens da sua estirpe raramente morrem de doença. Morreu do jeito como os velhos de ilha morrem quando o mar lhes tira o último motivo de acordá-los: calado, sentado em uma cadeira no convés, com os olhos na direção do horizonte, como se estivesse esperando por uma embarcação que sabia que não viria mais, mas que lhe parecia descortês não aguardar. Quando Edgar chegou, o avô já tinha a temperatura do entardecer. Não havia surpresa naquela morte.” Isso está lindo. Lindo mesmo. A comparação é completamente orgânica em relação ao personagem, e fala de uma espera amplificada, universal, embora vaga. “A temperatura do entardecer” é genial para a descrição de um morto, porque reelabora, ao nível da percepção tátil, uma metáfora mil vezes trilhada (o crepúsculo como morte).
Ah, antes que eu me esqueça: “Havia voltado com menos do que levara: o entusiasmo patriota se dissipara, e em seu lugar restara uma espécie de ressentimento difuso, sem alvo preferível, que se espalhava por igual por tudo que encontrava à frente. Era, também, uma fadiga moral, o cansaço de quem esperava encontrar alguma revelação sobre si mesmo na guerra e encontrou apenas lama, espera e o cheiro insistente do armazém de palha e cimento”. Isso me faz lembrar muito o Benjamin de um texto que você com certeza conhece, “O narrador” (se não conhece, leia-o imediatamente): “No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável. E o que se difundiu dez anos depois, na enxurrada de livros sobre a guerra, nada tinha em comum com uma experiência transmitida de boca em boca. Não havia nada de anormal nisso. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e a experiência ética pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos se encontrou ao ar livre numa paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano.”
Certo, vamos lá. Vou fazer como os colegas e colocar as impressões que tive lendo a primeira parte:
Enfim, senti que faltava mais. Melhor, eu queria saber mais sobre os dois, a ilha e a revolução. Volto quando ler a segunda parte.
Olá, André!
Li apenas a seção I e estas são as impressões:
O texto sofre de dualidade de estilo. Pelo menos neste trecho, a primeira metade está bem aquém daquilo que você costuma escrever, depois pega o jeito.
O título gera uma certa expectativa do que vai acontecer (fico imaginando como seria uma capa com um título deste tamanho, coitado de quem for catalogar, mas enfim rs), mas mesmo com os spoilers no grupo, nada foi entregue nesse primeiro trecho. Conhecemos o tal Edgar e o tal Heleno em um contexto de guerra, mas tirando as frases de efeito mais cariocas do que europeias, aparentemente nada de relevante acontece.
Caso haja tempo e disponibilidade, virei pra continuar a leitura e os comentários.
De todo modo, parabéns pelo trabalho e sucesso nessa empreitada!!!