EntreContos

Detox Literário.

Bala de Prata – Conto (Antonio Stegues Batista)

Depois de atender a uma parturiente em um sítio próximo ao povoado, o doutor Duarte volta para casa, dirigindo sua charrete pela estrada de terra batida. A lua cheia estende um manto leitoso sobre a paisagem. Sopra um vento frio, e o médico pensa em chegar logo, acender a lareira, abrir uma garrafa de bom vinho, pegar um livro e desfrutar do merecido descanso.

De repente, o cavalo estaca. Relincha, nervoso, virando a cabeça em direção à mata. Um vulto pula das sombras e, diante do olhar assombrado do médico, o monstro rasga o pescoço do animal com um único golpe de suas garras. O cavalo cai de joelhos. O doutor Duarte tenta fugir, mas é alcançado no campo.

A grama tinge-se de vermelho. Um vapor quente brota dos intestinos caídos ao lado do corpo, no rosto, há um corte profundo que exibe um sorriso estranho. O monstro trota, satisfeito, e retorna para a mata. O silêncio retorna e a lua continua seu caminho noite adentro até o amanhecer, quando os espíritos amaldiçoados finalmente se recolhem em estado de letargia.

****

Uma cidade pequena, sem grandes atrativos, pacata e parada no tempo. Casas de alvenaria, a maioria antiga, com a porta da frente abrindo diretamente na calçada. Na rua central, apenas uma farmácia, um açougue e um armazém.

Ao anoitecer, todos se recolhem cedo. As ruas ficam vazias, a temperatura cai. As lâmpadas dos postes acendem-se, lançando uma luz amarelada sobre o pavimento de pedras. Um nevoeiro úmido sobe dos brejos ao redor, espalha-se entre as casas e toca as vidraças com dedos gélidos. Lá dentro, permanece um silêncio sinistro.

Vestindo um casacão vermelho, uma mulher surge das sombras da estação ferroviária. As pisadas firmes de seus sapatos na calçada soam como o tique-taque de um relógio marcando o tempo implacável. Determinada, ela segue em direção a uma das casas.

Dentro da moradia, um homem, vestindo apenas uma calça de linho branco, está deitado em uma cama sobre cobertas velhas e encardidas. Ele não dorme, não tem sono. Espera, tenso, pela lua cheia da meia-noite, o momento em que perderá a consciência. Na manhã seguinte, não se lembrará daquela noite, por onde andou ou o que fez. Sabia que precisava acabar com aquela maldição, mas faltava-lhe coragem; acreditava que ainda acharia uma solução.

Entre uma fase lunar e outra, era um homem comum: tinha um bom emprego, possuía uma casa confortável na capital e estava casado com uma mulher linda e bondosa. Ângela era o seu anjo, como costumava dizer. Para deixá-la em segurança, durante a fase de lua cheia, mentia que viajaria a trabalho, ausentando-se por uma semana.

Batidas na porta interrompem seus pensamentos. Quem será? Logo agora, a poucos minutos da meia-noite! Levanta-se e vai até a entrada. Olha pelo olho-mágico e surpreende-se ao ver Ângela. Como ela chegara até ali? Como descobriu o seu esconderijo?

— Milton, abra a porta! Sei que está aí dentro.

Ela torna a bater. Ele continua olhando, esperando que ela desista e vá embora. A respiração da esposa provoca uma pequena nuvem de vapor entre os lábios entreabertos. Milton fica apreensivo. Ela corre perigo, há outro monstro na região.

A voz dela soa firme, persistente:

— Eu não vou embora! Vou ficar aqui até você abrir essa porta!

Milton baixa a cabeça e se afasta. Sente uma dormência nas solas dos pés; a sensação de formigamento sobe pelas pernas. Influências selênicas, radiações telúricas e emanações lupinas tomam seu ser. A transformação está para começar, e a lucidez aos poucos se esvai.

Atônito, ele vê Ângela surgir sob a luz mortiça do quarto. Como ela entrou? Pela janela? A porta não estava trancada? As perguntas perdem o sentido. Ele pensa em fugir para evitar que o monstro em seu interior a mate, mas não há mais tempo, sua natureza humana dissipa-se, dando lugar à essência selvagem da criatura.

Ele se contorce quando uma dor insuportável toma conta de seu corpo. Os pés transformam-se em patas, o tronco se curva, a mandíbula projeta-se para a frente e os caninos se alongam. Ele se transforma em um lobo. Um lobisomem!

A fera vê a mulher como uma presa. Seu único desejo é matá-la, estraçalhar aquele pescoço delicado e frágil. Com a visão meio embaçada, o monstro hesita por alguns segundos, tempo suficiente para Angela sacar uma pistola Luger da bolsa, apontar e apertar o gatilho. Três balas de prata acabam com a criatura. Uma só bastaria.

O lobisomem tomba no assoalho de madeira enquanto Milton retorna à forma humana. No pouco tempo que lhe resta de vida, ele não tenta entender como ela o descobriu; apenas retribui o olhar, agradecendo mentalmente pela salvação, e expira.

Ângela debruça-se sobre ele e chora um pranto de dor e resignação. Ela também tem pouco tempo. Encosta o cano da arma debaixo do próprio queixo e aperta o gatilho.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 15 de junho de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .

Navegação