EntreContos

Detox Literário.

(In)visível (Alexandre Moraes)

Eu segurava as paredes frágeis do cenário. Era o caçula invisível de um drama familiar em cartaz. Minha mãe dirigia com régua: marcava posições e esbravejava. Meu pai pagava a temporada e sumia. Meu irmão ganhava monólogos. Eu, nos bastidores, ajustava figurinos, recolhia falas no chão. Minha irmã, escalada para antagonista, um dia parou no centro do palco e engoliu o texto. Saiu de cena e caiu no mundo. Minha mãe fechou as cortinas. Naquela noite, no espelho partido do almoxarifado, vi um par de asas rasgar minha pele. Sorri. Atravessei o teatro sem pedir aplauso. Apenas fui.

50 comentários em “(In)visível (Alexandre Moraes)

  1. leandrobarreiros
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de leandrobarreiros

    Gostei muito.

    Nosso narrador se sente pressionado a organizar e tentar manter a sua família funcionando da melhor maneira que pode. Não se vê como protagonista, mas como alguém cuja única função é segurar as pontas do teatro, provavelmente com medo das pessoas se machucarem.

    Com a saída da irmã, algo acontece com a mãe… Seria morte? Achei que fechar as cortinas poderia significar também desistir de tocar o show que era a vida da família. E, com isso, o narrador se vê finalmente livre do espetáculo para poder tentar ser ele mesmo.

    Eu gostei. Me identifiquei com algumas coisas e curti as metáforas que não exigiram dez releituras para entender. Ou para não entender. Talvez entre na lista… tenho que ver o tamanho que ta essa lista.

  2. Sarah Nascimento
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Sarah Nascimento

    Olá! Ah, que historia linda e triste! Eu adorei essa analogia da vida como uma peça, cenário, teatro, monólogo, antagonista, caramba, parece mesmo que cada um tinha um papel específico. Ficou perfeito. Final muito triste, mas foi uma história que a gente sente no coração, sofre junto, parabéns.

  3. Fernanda Caleffi Barbetta
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernanda Caleffi Barbetta

    Olá, Contrarregra

    Gostei muito do seu microconto.

    Adorei a ideia dos personagens de um drama para representar o papel de cada um dentro de uma família.

    Gostei bastante de “recolhia falas no chão”, mas acho que seria “do chão”. A não ser que queira dizer que ele estava no chão recolhendo falas.

    A asa como metamorfose e símbolo de libertação funcionou, mas é bastante batida. Não que precise surpreender, mas parece que foi pela escolha mais óbvia, mais fácil.

    No final, tiraria o “Apenas fui”, é desnecessário, diminui a graça do desfecho. Poderia para antes.  

    Parabéns pelo texto!

  4. maquiammateussilveira
    16 de fevereiro de 2026
    Avatar de maquiammateussilveira

    A metáfora central desse conto é muito boa e muito bem elaborada: a família como uma companhia de teatro, onde cada um cumpre sua função e vive o personagem. É um texto bem imagético, o que torna a leitura prazerosa. Dá pra entender claramente como é cada um dos membros da família e as relações entre eles. A escrita é concisa e ao mesmo tempo cheia de nuances. Pena que a metamorfose, tema proposto pelo desafio, ficou um tanto apagada. Criar asas é uma ideia meio batida, ainda mais quando comparada ao jogo de teatro que serve de base para o texto. Se a metamorfose se desse com algum elemento que também envolvesse a ideia de teatro, como máscaras, ou maquiagem, ou figuras teatrais típicas como o bufão ou o pierrô, etc. Ou mesmo se as asas fizessem parte de um figurino que o protagonista, de repente, não consegue mais tirar… Enfim, resumindo: é um texto criativo e bem escrito, mas que infelizmente enfraquece no desfecho.

    • Contrarregra
      16 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Olá, Mateus. Obrigado pelo comentário.

      Não temos seres alados, anjos e até contrarregras como personagens de teatro? As asas aqui não são necessariamente físicas ou literais, depende de como vc interpreta, se é teatro ou uma encenação simbólica do lar desta família. Mas entendi sua sugestão como uma alternativa lúdica menos convencional. De toda forma, obrigado pela leitura e comentário. Boa sorte no desafio.

  5. Asstrongo
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Asstrongo

    É um texto ancorado nos elementos de teatro que parece ditar as regras da vivência em uma família complicada, atualmente chamada de disfuncional. Há os personagens e cada um com sua característica mais esperada, como a irmã, que antagonizada e tal. Ao fim, fica metamorfo com asas simbolizando o início de uma liberdade, mas essa liberdade sempre presa ao passado. Me pareceu aqueles jogos de bonecos com cordas.

  6. Alexandre Costa Moraes
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Costa Moraes

    Oi, Contrarregra!

    Curti muito seu microconto (fiquei sem saber se é sobre uma família disfarçada de teatro ou sobre teatro disfarçado de família). O interessante está justamente em não deixar claro se estamos diante de um teatro real ou de uma metáfora da casa familiar, e essa ambiguidade enriquece a leitura, pois o “palco” pode ser tanto literal quanto o cotidiano doméstico encenado diariamente.

    O ponto alto do texto é a perspectiva da narrativa. O contrarregra é aquele que vê tudo mas permanece invisível, o filho esquecido que sustenta a performance alheia sem reconhecimento. A progressão dramática é precisa, da estagnação aos bastidores até o momento de ruptura catalisado pela coragem da irmã, que “engoliu o texto” e recusou seu papel. O clímax, porém, não é romantizado. As asas que rasgam a pele do narrador evocam dor. A libertação aqui tem custo, sangra, marca o corpo.

    Tem uma parte que fiquei pensando: quando a mãe “fecha as cortinas” é o fim da peça ou descontrole final? Quando o contrarregra sai é fuga ou recomeço incerto?

    Por fim, acho que esse texto explora relações tóxicas emolduradas de forma simbólica e seu grande mérito está em manter-se hermético o suficiente para exigir do leitor uma participação ativa na construção de sentidos, sem explicar nada.

    Gostei muito do seu microconto, vai pra lista com certeza.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  7. Alexandre Parisi
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Alexandre Parisi

    Oi, Contrarregra! Teu conto é um espetáculo de sensibilidade. Usar a metáfora do teatro para retratar uma família disfuncional foi certeiro: a mãe rígida, o pai ausente e o irmão protagonista criam um cenário de abandono palpável. A tua posição de “caçula invisível” cuidando dos bastidores me causou uma melancolia profunda.

    A metamorfose das asas é um símbolo recorrente no desafio, mas a imagem delas “rasgando a pele” diante de um espelho partido trouxe o peso visceral que o tema pede. O desfecho silencioso, saindo sem pedir aplauso, é a melhor parte: pura afirmação de identidade e libertação.

    Como ponto de melhoria, achei a enumeração inicial um pouco explicativa demais. Além disso, “recolhia falas no chão” soa estranho; “do chão” daria mais fluidez. No geral, é uma obra madura que revela novas camadas a cada leitura.

  8. Mariana
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Mariana

    Um micro sobre dinâmica familiar disfuncional e a metamorfose que alguém preso nesse quadro precisa sofrer… Necessita para se libertar, quebrar ciclos… Os papéis e tarefas do teatro reforçam a ideia de farsa familiar, aquelas que são “perfeitas” só na frente dos outros. Atende ao tema do desafio e está bem escrito. Parabéns e boa sorte.

  9. Fabio D'Oliveira
    15 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabio D'Oliveira

    Relatável.

    Todo leitor que veio de uma família disfuncional vai entender os sentimentos do protagonista deste microconto. O caçula, acostumado a ser invisível, se sente inspirado pela rebeldia da irmã, antagonista da família. Cansado da submissão, da invisibilidade, ele, finalmente, assume o palco. Ele vai enfrentar a mãe? Ele vai ganhar o mundo também? Não sabemos. Ele vai decidir por conta própria, agora, dono do palco de sua vida.

    Entendo bem o sentimento dele. Esse conto é forte, tem uma mensagem bonita. Mãe narcisista, pai ausente, irmão domesticado, irmã rebelde. É a composição de muitas famílias brasileiras.

    Parabéns pelo texto. Me impactou.

  10. Bia Machado
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Bia Machado

    O conto trabalha a metamorfose de modo simbólico e coerente: o teatro funciona como metáfora da família, e cada personagem ocupa um papel que revela sua dinâmica afetiva. O narrador, relegado aos bastidores, sustenta o cenário sem jamais ser visto, o que reforça sua condição de invisibilidade. A linguagem é precisa, com imagens fortes como “engoliu o texto” e “espelho partido”, que ampliam a sensação de ruptura. A metamorfose final, o surgimento das asas, não é fuga, mas afirmação de identidade. O desfecho, seco e silencioso, transforma o apagamento em libertação.

  11. danielreis1973
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de danielreis1973

    Prezado(a) Microcontista (aviso comum em todo os contos):

    Por conta do sistema de comentários (abertos) e do sistema de votação (escolha dos dez favoritos), estou adotando também um critério de análise mais simples para todos, procurando refletir mais como me senti com leitor do seu texto do que como analista/crítico e atribuidor de notas. Por isso, desculpo-me de antemão pela concisão, e reforço que o que comento aqui é sobre como me senti ao ler seu conto, não sobre o quão bom ele ou você é, ok?

    Vamos à análise:

    Gostei bastante da metáfora do teatro como retrato das relações familiares, já que cada dia é um drama para eles. Porém, a inclusão das asas como símbolo de mutação é um pouco comum, inclusive aparecendo aqui em outros contos. Mas não posso deixar de recomendar uma história do Laerte, que saiu em livro recentemente mas tinha lido na Chicleta com Banana. É sobre um cara que começa sentir penas crescendo no braço e vai procurar o chefe para contar. Se puder, procure, é bem bacana. Abs!

  12. Leandro Vasconcelos
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leandro Vasconcelos

    Opa! Caro autor, entendi seu conto como uma alegoria de um ambiente familiar disfuncional (qual família é realmente funcional?) – aqui, comparado a uma peça fracassada de teatro, cuja diretora era a mãe. O pai pagava as contas, mas era ausente. O irmão era um mimado tagarela (daí os monólogos). A irmã, supostamente uma brigona (antagonista) abandonou o barco. Então, a mãe foi obrigada a fechar as cortinas (Divórcio? Afastamento?). Nesse cenário, o que restou ao protagonista? A função de contrarregra. Um subalterno de bastidor. Mas aí, algo aconteceu. Ele decidiu tomar as rédeas da própria vida. Transformou-se. Ganhou asas e partiu. Assim compreendi a estória. Bacana. Foi uma forma original de abordar o tema metamorfose, embora o conto não tenha me cativado. O problema? Bem, a alegoria do teatro é legal, mas não houve uma peça de fato, houve uma mera sugestão abortada, de modo que o papel de cada personagem se perdeu, assim como a força da metáfora. No fim, não serviu muito à proposta. Também achei o texto bem explicativo. Há uma enumeração inicial que empobreceu a narrativa. Faltou sutileza.

    • Contrarregra
      14 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Oi, Leandro. Obrigado pelo comentário.

      Você acha que seria necessário ter uma “peça de fato” para contar a história em questão? O que você quer dizer com “mera sugestão abortada”? “O papel de cada personagem se perdeu, assim como a força da metáfora”? Você tem todo o direito de não gostar do microconto, mas deslegitimar o que foi escrito dessa forma foi deselegante da sua parte.

      • Leandro Vasconcelos
        16 de fevereiro de 2026
        Avatar de Leandro Vasconcelos

        Caro autor: peço desculpas se a crítica soou muito dura. Às vezes me excedo. Mas “deslegitimar” é uma palavra inadequada. Uma crítica deslegitimadora, destrutiva, não iria apontar os pontos positivos da obra, como eu fiz. Ademais, não fiz apontamentos genéricos, mas fundamentados, indicando os pontos que achei que careciam de melhoria. Então, vamos com calma.

        Para esclarecer: a meu ver, a alegoria não funcionou, porque foi feita uma enumeração dos personagens, sem que eles tivessem atuado de fato. A peça ficou só como sugestão, como eu disse, não chegou a nascer para a trama. Isso empobreceu a narrativa e, sobretudo, a metáfora. Se a pretensão era equiparar a família a um elenco de teatro, por que eles não atuaram? Se eles estivessem contracenando, mesmo que de forma imperfeita, a mensagem de família disfuncional seria melhor transmitida por meio da comparação metafórica. 

        Não é demais destacar que esta é apenas uma dentre tantas interpretações da obra. Vejo, no comentário dos colegas, maior aceitação da proposta, que foi bastante elogiada. Então, perceba que o terreno da literatura não é feito de certezas. Cada qual, com sua perspectiva, pode contribuir de alguma forma na construção desse edifício; pretendi fazê-lo por meio da crítica sincera, e não destrutiva, de modo a estabelecer uma fundação mais segura. Se ela não foi assim assimilada, paciência. De todo modo, espero ter passado a limpo a questão.

        Um abraço!

    • Contrarregra
      17 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Leandro, obrigado pela resposta.

      Você tem razão em contestar o uso de “deslegitimar”. Acho que não foi essa sua intenção. É que alguns termos que você utilizou no seu comentário soaram pejorativos e passaram essa ideia de desqualificação, entre eles: “uma peça fracassada de teatro, cuja diretora era a mãe.” “O irmão era um mimado tagarela” “A irmã, supostamente uma brigona” “A função de contrarregra. Um subalterno de bastidor.” “não houve uma peça de fato, houve uma mera sugestão abortada”… Acho que esse conjunto de expressões, no conjunto, soou mais forte do que as suas sugestões.

      Agora, sobre o argumento central: entendo melhor o que você quis dizer, mas discordo em parte. A ausência de atuação foi uma escolha estrutural da narrativa, que buscou focar na família com essa dinâmica. Ali ninguém age de fato, todos apenas ocupam posições fixas, não é necessariamente um teatro, é uma alegoria. O contrarregra não assiste a uma peça, assiste ao caos da família na frente dele. Que essa intenção precisa ser mais evidente no texto, isso sim é uma questão legítima e concordo com você.

      A observação sobre a enumeração inicial também procede. Essa você está correto. No mais, peço desculpas pela minha reação e aceito suas críticas e sugestões de forma construtiva.

      Obrigado,
      Um abraço

  13. Renata Rothstein
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Renata Rothstein

    Contrarregra, seu microconto é sensível e poético, com uma metamorfose simbólica muito bem construída. O narrador passa de espectador invisível do drama familiar a alguém que descobre sua própria liberdade e identidade, representada pelas asas.

    O que funciona: as imagens são fortes e visuais — o palco, os bastidores, o espelho partido e o surgimento das asas. O texto cria uma tensão emocional consistente e a transição para a metamorfose final é delicada e impactante.

    O que poderia melhorar: algumas frases longas podem ser levemente condensadas para aumentar a fluidez da leitura e reforçar o impacto da transformação final. Mas, mesmo assim, o efeito poético é potente.

    No geral, é um microconto intenso, imaginativo e emocional, que trabalha metamorfose simbólica de forma elegante e memorável.

    Desejo boa sorte no Desafio.Beijos

    • Contrarregra
      14 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Olá, Renata. Obrigado pelo comentário.

      Uma dúvida: a que frases longas você se refere?

      • Renata Rothstein
        17 de fevereiro de 2026
        Avatar de Renata Rothstein

        Oi, Contrarregra

        Na verdade eu quis dizer outra coisa – mea culpa .

        Muitas frases curtas que poderiam compor uma mais longa.

        Mas nada relevante, seu microconto é ótimo.

        Abraços

  14. Leila Patrícia
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Leila Patrícia

    Olá, Contraregra. Tudo bem?

    Eu gostei muito da família como teatro organizando o conto inteiro. A mãe diretora, o pai que financia e some, o irmão dos monólogos e o narrador como contrarregra invisível. Tudo funciona como metáfora contínua, bem sustentada. Não como enfeite, como estrutura.

    A irmã que “engole o texto” e sai de cena cria uma boa ruptura, como se a peça familiar se quebrasse ali. Achei a imagem final, das asas no espelho partido, forte, com ideia de libertação.

    Talvez o único ponto que eu questionaria é que a transformação vem muito limpa, quase heróica. “Sorri. Atravessei o teatro sem pedir aplauso. Apenas fui.” É bonito, mas um pouco idealizado. Fico me perguntando se um mínimo de ambivalência (medo, culpa, hesitação) deixaria esse voo ainda mais humano. No geral, é um conto coeso e bem conduzido. Boa sorte no desafio.

  15. Gustavo Araujo
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Gustavo Araujo

    Um conto interessante, que se utiliza de um cenário teatral — do que seria o enredo de uma peça de teatro — para retratar uma família disfuncional.

    As metáforas caíram muito bem nesse contexto, revelando que cada componente, pai, mãe, irmã, além do próprio protagonista que, ao fim, morre e se vai.

    O problema, a meu ver, está na imagem, que de plano revela o que vai acontecer. Um spoiler gigante que, para dizer a verdade, retira todo o impacto que a parte final do conto poderia ter. Sabendo o que vai rolar, não se tem tempo para qualquer identificação com os personagens, não dá para nos afeiçoarmos a eles. Com isso, a morte do menino fica aparecendo apenas como mais um dado, mais um dia, mais um ato na vida dessa triste família. Bem, espero que outras pessoas tenham uma impressão diferente da minha nesse aspecto.

    De qualquer maneira, é um conto escrito de forma competente e segura, o que não é pouco. Parabéns e boa sorte no desafio.

  16. Luis Guilherme Banzi Florido
    14 de fevereiro de 2026
    Avatar de Luis Guilherme Banzi Florido

    Oi, contrarregra! tudo bem? Um triste drama familiar representado/dramatizado metaforicamente como uma peça de teatro onde cada personagem é um arquétipo da relação tóxica e quebrada daquela família. Uma representação dolorosa, contada do ponto de vista do filho, que carrega o sofrimento até se libertar, criando asas, a representação metafórica clássica da libertação. Fica em aberto se o menino morre ou simplesmente sai de casa. É um texto impactante e bastante real, ainda que use a ficção como base narrativa. As metáforas, no entanto, são um pouco batidas, o que tira um pouco o impacto final do conto. Ainda assim, um bom trabalho! Parabens!

  17. Priscila Pereira
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Priscila Pereira

    Olá, Contrarregra! Tudo bem?

    Gostei do conto ser baseado na linguagem teatral, é uma camada a mais para o conto. Tem bastante subtexto, dá pra imaginar toda uma história, triste, mas de certa forma libertadora para o protagonista e sua irmã. Conseguiram se libertar de um ambiente não acolhedor para eles… famílias tóxicas não deveriam ser prisões para ninguém. Gostei do conto! Parabéns!

    Boa sorte no desafio!

    Até mais!

  18. Thiago Amaral
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Thiago Amaral

    Muito bom conto. Adoro histórias sobre arte e também metafóricas, e aqui temos as duas coisas.

    As conexões com o mundo do teatro se encaixam perfeitamente com o objetivo de apresentar as personagens. Se podemos dizer que os papéis são um pouco batidos, ao mesmo tempo aqui funcionam pela originalidade que são mostrados. O final com o menino finalmente se colocando sozinho no palco, sem se importar, é um ótimo final.

    A linguagem acaba sendo poética, pelo menos pra mim, pela riqueza de metáforas, mas com zero pretensão, o que brilha ainda mais.

    Só não entendi exatamente o que quer dizer com “a mãe fechou as cortinas”. Pensei em suicídio, ou apenas que se fechou no quarto diante da frustração. Mas entendo que é a deixa para o menino se libertar. É um detalhe pequeno para uma história que gostei bastante.

  19. toniluismc
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de toniluismc

    A família é usada como palco perfeito pra uma alegoria afiada: o caçula invisível nos bastidores, ajustando figurinos e recolhendo falas, brota asas no espelho partido e voa livre, abandonando o drama familiar tóxico. A metamorfose é potente, apesar de não tão clara assim — do ajudante apagado pro ser alado que atravessa sem pedir licença, simbolizando libertação de papéis impostos e busca por autenticidade.

    É gramaticalmente sólido e emocionalmente tocante, com a irmã engolindo o texto como catalisador perfeito pro êxodo. O apelo vem da identificação com quem sempre fica atrás da cortina.

    Pra elevar, sugiro intensificar o rasgar das asas (um som de tecido ou dor aguda) e talvez um último olhar pros pais petrificados, pra fechar o ciclo com mais peso. Fica entre os mais bem amarrados, equilibrando sutileza e simbolismo sem forçar a barra.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte!

  20. Antonio Stegues Batista
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Antonio Stegues Batista

    O conto me pareceu a descrição de uma família disfuncional, simbolizando o teatro, palco, cena, texto, personagens. Faltou a plateia, que deve ser o próprio mundo. O caçula resolveu abandonar o elenco e foi embora. Achei a ideia muito boa, mas para um texto mais longo, onde você pode experimentar outros recursos artísticos e continuar contando a história do rapaz.

  21. Kelly Hatanaka
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Kelly Hatanaka

    O filho caçula de uma família disfuncional parte após a morte da mãe controladora.

    Um conto interessante cheio de metáforas teatrais. Acho que todas as metáforas funcionaram muito bem até o fim. Porém, no momento da transformação do caçula, me pareceram perder a força. Afinal, o que aconteceu com o caçula? Ele simplesmente saiu de casa? Ou foi algo mais? O que representam as asas? Ele era financeiramente dependente e agora não mais? Ele conquistou autoconfiança? Ou foi simplesmente a morte da mãe?

  22. Rodrigo Ortiz Vinholo
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Rodrigo Ortiz Vinholo

    Gostei! O uso da linguagem e dos elementos de teatro conversa bem com o teatro dramático da vida. Mesmo sem descrever literalmente o que foi dito, entendemos bem os caminhos. Na narração e metáfora, porém, a aparição das asas parece combinar um outro universo temático, então ainda que seja um bom final, sinto que esse caminho dá uma leve derrapada. Ainda assim, está bem legal! Parabéns!

  23. Fabiano Dexter
    13 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fabiano Dexter

    Ola Contrarregra,

    Achei excelente o micro. A forma como a familia do protagonista é retratada como se a vida fosse uma peça é muito interessante, não apenas deixando claro o papel de cada um ali (mãe manipuladora, pai ausente…) como mostra a forma que o protagonista encontrou de racionalizar tudo aquilo. Como se não fosse real.

    Então ele aproveita uma oportunidade dada após uma crise da mãe com a irmã e também consegue sair dali, daquela prisão. Daquele inferno.

    Parabéns!

  24. claudiaangst
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de claudiaangst

    Olá, autor(a), tudo bem?

    O tema proposto pelo desafio foi abordado com sucesso. Há inclusive uma metamorfose “física” com o surgimento das asas.

    O protagonista é o caçula de uma família disfuncional, que se faz invisível talvez para se proteger do ambiente doméstico tão tóxico. O pai foi embora, talvez volte de tempos em tempos, passando uma temporada. A mãe era a grande manipuladora, controlava tudo e todos. O irmão só tinha monólogos, falava sozinho. A irmã, antagonista da mãe, foi embora, caindo no mundo. Até que, enfim, dhegou a vez dele, era hora de ganhar asas e sair dali.

    O texto está muito bem escrito, só alteraria como Lucas apontou: […] recolhia falas no chão por […] recolhia falas do chão.

    Parabéns pela participação e boa sorte.

  25. Pedro Paulo
    11 de fevereiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    Gostei deste porque múltiplos personagens são cuidadosamente colocados e atribuídos de modo a cada um compor este cenário sem perdermos de vista a perspectiva do protagonista, que é justo a de uma pessoa esquecida em um lar quebrado. A escolha de palavras também é acertada, marcando o contexto teatral que ajuda a alocar os personagens e seus papéis. Assim, a desolação é sentida no breve espaço do micro e a catarse é alcançada pela transformação literal que o leva à liberdade, numa imagem bem bonita que a boa escrita permite enxergar, do negligenciado abrindo voo por meio das cortinas e sobre um teatro vazio. Parabéns!

  26. André Lima
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de André Lima

    Gostei muito do seu conto. A poética está na dose certa, tudo aglutinado num único parágrafo dá uma estética legal. É um conto de poucas palavras, mas que forma boas imagens no tempo em que se dispõe.

    Mas o conto mergulha demais no simbolismo, deixando a metamorfose num conceito de corda muito esticada.

    Gosto da técnica, não gosto tanto da escolha narrativa para esse desafio específico. Quando tudo fica simbólico demais, o distanciamento da obra é inevitável.

    Provavelmente será um dos meus preferidos, mesmo com esses apontamentos.

    Boa sorte!

  27. Fernando Cyrino
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Fernando Cyrino

    Olá, Contrarregra, por uma dessas coincidências da vida, nesse último sábado fui levar minha neta pré-adolescente num programa para a sua idade. Um musical chamado “Fala sério, mãe”. Um grupo de adolescentes e suas complexas relações com as mães enquanto montam uma peça de teatro. E enquanto quase todos queriam brilhar no palco, um dos garotos carregava o sonho de ser contrarregra. E agora temos essa família teatral na qual todos partem. Só fica a mãe e o nosso protagonista é o último a ir embora… O pai só pagou e partiu, a irmã engoliu o texto e foi embora, ele que enfim cria asas e parte… Fica a pobre mãe fechando as cortinas. Um belo conto. Gostei dele. Gostei da maneira como você abordou o encontro da liberdade do caçula. Meu abraço e sucesso no desafio.

  28. Nilo Paraná
    10 de fevereiro de 2026
    Avatar de Nilo Paraná

    Oi Contrarregra,

    muito interessante tua metáfora da família e do palco. Embora você tenha falado que o filho invisível não teria que ser angelical, me pareceu o personagem mais sensato da família. E a transmutação, ou criação de asas não acontece certamente num momento, mas na somatória de momentos e sempre é sofrida, dolorosa, mas necessária. Gostei muito do desenvolvimento, conta uma história de crises e antagonismos, e uma saída quase inocente, não agressiva, mas quase conformista. Parabéns pelo conto e boa sorte na competição

  29. Lucas Santos
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Lucas Santos

    Parabéns pela participação, Contrarregra!

    O protagonista tentava preservar a estrutura familiar que já estava comprometida, não somente pela ausência paterna, mas também pelos conflitos internos — provavelmente mais graves entre mãe e irmã, esta que, farta de sua rigidez, ao final, acabou saindo de cena, em tom de protesto e de modo antológico. No caso do irmão, que só ganhava solilóquios, o conflito era consigo — possivelmente introspecção, solidão, melancolia, depressão, enfim, qualquer questão de ordem psicológica desencadeada pelo ambiente disfuncional e que ele não partilhava com ninguém. Além da estrutura familiar, ele buscava manter a fachada, a aparência, ajustando figurinos, pois seus entes eram expostos ao grande público, que julga e condena. No entanto, ele falhou. Sua irmã, um pilar da família, desabou. E o pior: diante da plateia. Sua mãe, então, fechou as cortinas, encerrando o espetáculo escandaloso. Após isso, houve uma ruptura: a metamorfose. Ao nascer de suas asas — símbolos da liberdade —, ele finalmente abandonou o caos dos bastidores e, convicto, começou sua própria trajetória, à vista do público, mas sem exigir sua validação.

    Apesar da fórmula batida, como o colega Martin acentuou, o título condensa, ao mesmo tempo, parte do drama e a metamorfose. O microconto tem períodos breves, agilizando a leitura. A analogia entre teatro e família está bem elaborada. As identidades das personagens estão bem definidas. Por exemplo: o elemento “régua” foi precisamente escolhido, visto que é representante da rigidez materna; no caso da irmã, engolir o texto no centro do palco é um gesto emblemático e tem bastante poder imagético; no fim, o espelho partido simboliza a cisão familiar e, concomitantemente, reflete a transformação, a liberdade.

    Em “recolhia falas no chão”, eu substituiria“no” por do. A personagem está retirando algo (falas) de algum lugar (chão). Ademais, alteraria a ordem de “Atravessei o teatro sem pedir aplauso” para Sem pedir aplauso, atravessei o teatro. Assim, uma ação viria imediatamente após a outra.

    • Contrarregra
      10 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Olá, Lucas!

      Muito obrigado pela leitura atenta e minuciosa do meu microconto! Sua análise foi incrível, de verdade.

      Você captou os principais pontos do drama familiar e os conectou de forma brilhante. Teve a sensibilidade de imaginar as relações e os papéis de cada um, encontrou sentido nas palavras, metáforas e subtexto. Entendeu (e até perdoou) a fórmula clichê usada no título e reconheceu bem os aspectos da metamorfose do personagem e o subtexto do conjunto.

      Agradeço muito a sua análise técnica, crítica e as recomendações.

      Muito obrigado!

  30. Givago Domingues Thimoti
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de Givago Domingues Thimoti

    Olá, Contrarregra!

    Tudo bem?

    Você nos apresentou um microconto metafórico. A visão lúdica de um filho sobre a sua (disruptiva… enfim, qual não é?) família. Já fui contrarregra em algumas peças (faço de tudo para fugir dos palcos) e penso que a escolha foi ideal, nessa representação. Por isso, penso que em termos de ideias, o micro está bastante satisfatório.

    Em termos de escrita mais técnica, penso que ele é um tanto repetitivo. O que nunca é um bom sinal dentro do contexto de um microconto. Temos aqui a ordem direta em quase todas as frases. Eu, minha, mãe, pai… Creio que com um pouco de refinamento, retrabalhar melhor algumas frases e colocações, esse texto brilhará mais ainda.

    Atenciosamente,

    • Contrarregra
      10 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Olá, Givago!

      Obrigado pela leitura atenta do microconto! Fiquei surpreso de você ter sido contrarregra, e isso ajuda a entender bem a função de bastidor do protagonista e até a importância de sua “invisibilidade” no drama familiar. Fico feliz que você tenha compreendido essa dinâmica.

      Sobre a técnica, optei pela narração em primeira pessoa para a narrativa ficar mais parecida com um relato e não quis nomear os personagens para economizar explicações de seus papéis familiares e a na peça. Com isso, foi inevitável o uso dos pronomes possessivos (aqui encaixa bem essa classificação) meu/minha. Tive o trabalho de contar, das 99 palavras do texto, a que mais se repete é MINHA = 4 vezes (4,04%). Tirando as preposições, MÃE aparece 2 vezes e EU também aparece outras 2. Não notei a repetição que você menciona.

      Após o desafio vou reunir as sugestões e tentar refinar mais o microconto.

      Muito obrigado pelo seu comentário.

  31. cyro eduardo fernandes
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de cyro eduardo fernandes

    Conto passa bem a necessidade de espaço do protagonista. Explorou bem a metamorfose para a liberdade. Sucesso na disputa!

  32. LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR
    9 de fevereiro de 2026
    Avatar de LEO AUGUSTO TARILONTE JUNIOR

    Gostei muito do seu microconto. O tema da metamorfose aparece no final da narrativa quando o protagonista ganha asas simbolizando sua liberdade.. o texto parece um pouco com a temática do realismo mágico. E trata de assuntos atuais das famílias onde cada personagem tem um papel como se fosse realmente uma representação teatral. Fala das máscaras que usamos e da tentativa de busca de autenticidade.

  33. Martim Butcher
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    A ilustração me deixou bastante indisposto com seu conto. É cafona demais, e digo isso sem receio de te magoar, porque certamente não é da sua autoria. Dá pra melhorar esses prompt aí, ou pelo menos sugerir algo não tão ao pé da letra. Depois, o título: sinto que esse expediente meio à moda irmãos Campos ficou um pouco datado de uns anos pra cá. Abusaram de uma invenção, que assim perdeu seu frescor. Com essas duas disposições negativas me pus a ler o conto e não achei ruim. É bem consistente na construção por alegoria. O que me deixa em dúvida é a pertinência dessa alegoria em relação ao desenvolvimento da história. Há uma relação muito interessante (quase uma estrutura cruzada, eu diria) entre realidade e ficção. Por um lado, a realidade é narrada conforme a alegoria ficcional-teatral. Por outro, quando enfim o protagonista se liberta dessa prisão ficcional, irrompe um elemento antirrealista. Talvez valeria a pena investir mais nessa relação complementar, pois é a coisa mais interessante do conto e a justificativa para a alegoria, que depende dessa relação para esquivar-se da arbitrariedade.

    • Contrarregra
      9 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Martim,

      Obrigado pela leitura e comentário.

      Concordo com você que a imagem é “cafona” e provoca uma certa rejeição à primeira vista. Mas, se por um lado atrapalha, por outro ajuda pois promove essa surpresa, essa quebra de expectativa ruim e crava o tema de forma indelével. Sobre o título, é uma técnica que anda batida, também concordo, mas aqui funcionou pra reforçar a metamorfose (de invisível pra vísivel) e acabou compondo com o conjunto. Em outras palavras, a breguice teve um porquê. Sobre o enredo, trata-se de uma família disfuncional, com uma mãe tóxica (narcisista) e toda a dinâmica ao redor dela (o pai ausente, o filho preferido, a filha preterida e o caçula invisível). Cada um assume um papel metafórico no drama familiar. Nesse caso, tudo se mistura, tudo se afirma e ganha contexto. As asas são simbólicas (e não literais) e o título ajuda a reforçar essa contradição (o par de asas é visível ou invisível? Tudo ali é um teatro ou vida real). Você decide. Espero que tenha gostado.

      Obrigado.

  34. andersondopradosilva
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de andersondopradosilva

    É sobre uma dinâmica familiar doentia (ou, ao menos, não muito saudável). Me deparei com construções bastante originais e bonitas, mas o desfecho me soou demasiado absurdo e vago. A imagem de asas sugere natureza angelical do caçula, mas soa nada angelical abandonar o lar e uma mãe, sobretudo de maneira tão abrupta (no mesmo dia em que a irmã deixa a casa, detalhe que tornou a ação do protagonista intempestiva, precipitada e literariamente inverossímil). 

    • Contrarregra
      9 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Anderson,

      Se você percebeu que a dinâmica desta família é doentia, por que diabos o filho “invisível” deveria ser “angelical” e permanecer sob o controle da mãe que esbraveja e do pai omisso? (o oprimido deve se submeter ao opressor só porque são seus genitores?)

      Você acha inverossímil ele ser empático com a irmã (antagonista declarada da mãe) e buscar sua liberdade, sem querer chamar atenção?

      No conto, as asas não nascem no jovem por atestado de bondade, ele não virou anjo, ele percebeu a família tóxica e se libertou (e isso também doeu = “um par de asas rasgou sua pele”).

      Leia atentamente! Me parece que você, sim, foi precipitado e intempestivo no seu comentário.

      beijos

      • andersondopradosilva
        10 de fevereiro de 2026
        Avatar de andersondopradosilva

        Olá, autor. Peço desculpas pela leitura. Não sou mesmo um leitor muito bom. E sou um comentador péssimo. Não estou entendendo diversos contos (Outro olhar, No escalarte do beijo molhado, Metamorfose não é mutação). E ainda sou um péssimo comentador.

        Mas voltei aqui e reli seu conto. Entendi meu erro. Coisas pequenas às vezes me levam ao deslize. Desafio de micros passado, um autor usou a expressão “virou mocinha “, salvo engano. Pronto, interpretei como “teve a primeira menstruação” e estraguei a leitura. O certo era cresceu e não fez mais xixi na cama.

        No caso do seu conto, foram duas coisas. Primeiro, a imagem. Julguei essas asas delicadas e angelicais. Não fico julgando imagem nem pseudônimo, mas é inevitável às vezes não passar os olhos. Depois, teve o “Eu, nos bastidores, ajustava figurinos, recolhia falas no chão.”. Julguei que o protagonista fosse bonzinho, voluntarioso, aquele que tentava se corrigir e corrigir a família, um anjo portanto. No final, acabou ganhando asas e partindo. E, se era bonzinho, se ganhou asas e permitiu, se virou anjo, por que foi de maneira tão intempestiva, e logo no mesmo dia que a irmã partiu? Para um anjo, essa partida intempestiva soou muito maldosa, algo a não se fazer com uma mãe, apesar de tudo. Que partisse um dia talvez, mas impingindo menos dor.

        Mas reli o seu conto sob essa outra perspectiva que você me trouxe, a de asas como símbolo de liberdade. E seu conto é mesmo muito legal. Bastante metafórico nessa coisa de atuação e de teatro e de retrato da disfuncionalidade da família.

        Abraço. Boa sorte no desafio.

  35. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Fica um mistério: morreu ou libertou-se? Mas então lembro que libertação vem com morte do que não nos serve mais. Maravilhoso. Obrigada por compartilhar.

    • Contrarregra
      9 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Ana Paula.

      Obrigado pela leitura e comentário.

      Sobre o mistério, o filho invisível tomou coragem e se libertou do drama familiar em que vivia. Bateu asas no sentido de buscar sua felicidade (se encarnado ou não, o(a) leitor(a) decide). Obrigado!

  36. Wilian Cândido Corrêa
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Incrível como este texto transmite crescimento e liberdade sem precisar explicar. Fiquei tocado; senti a liberdade silenciosa e a força discreta de alguém que finalmente se afirma.

    • Contrarregra
      9 de fevereiro de 2026
      Avatar de Contrarregra

      Wilian,

      Obrigado pela leitura atenta. O texto fala sobre se enxergar, despertar e buscar algo que seja uma representação mais verdadeira de si, ao invés de seguir imposições da família.

      Gratidão pelo comentário.

      • Wilian Cândido Corrêa
        13 de fevereiro de 2026
        Avatar de Wilian Cândido Corrêa

        Olá, Contrarregra.
        Quando comentei seu texto pela primeira vez, fui breve demais. Minha impressão foi sincera, mas pouco desenvolvida. E a sua resposta ao meu comentário inicial foi decisiva. Você ampliou pontos que eu havia apenas tocado de maneira superficial e me fez perceber camadas que eu não tinha explicitado na leitura.
        Isso me levou de volta ao texto.
        Na releitura, ficou ainda mais evidente como o microconto é cuidadosamente estruturado. O título (In)visível já instala uma tensão conceitual. Percebo que não se trata apenas de não ser visto, mas de existir num entre-lugar (presença que não é reconhecida). Esse jogo não é estético apenas; ele organiza toda a narrativa.
        A escolha do ambiente teatral também se revelou mais sofisticada do que minha primeira leitura deixou transparecer. O lugar de bastidor não é acidental. MInha impressão é que ele espelha a posição do narrador na dinâmica familiar. Há uma coerência simbólica entre forma e conteúdo. O palco, a luz, os papéis (tudo reforça a ideia de protagonismo negado).
        O que considero mais forte, tecnicamente, é que a metamorfose final não surge como ruptura repentina. Ela é construída por acúmulo. A imagem das asas rompendo a pele funciona porque o texto preparou esse gesto internamente. Há progressão dramática, mesmo em espaço mínimo.
        Se este microconto permanece na minha lista, é porque ele não depende apenas de impacto imediato. Ele sustenta releitura. E um texto breve que cresce quando revisitamos é, para mim, sinal de maturidade narrativa.
        Minha primeira leitura foi rápida; a segunda confirmou a escolha.
        Parabéns pela construção e também pela interlocução. Ela fez diferença na minha percepção do texto.

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Informação

Publicado às 8 de fevereiro de 2026 por em Microcontos 2026 e marcado .