Eu segurava as paredes frágeis do cenário. Era o caçula invisível de um drama familiar em cartaz. Minha mãe dirigia com régua: marcava posições e esbravejava. Meu pai pagava a temporada e sumia. Meu irmão ganhava monólogos. Eu, nos bastidores, ajustava figurinos, recolhia falas no chão. Minha irmã, escalada para antagonista, um dia parou no centro do palco e engoliu o texto. Saiu de cena e caiu no mundo. Minha mãe fechou as cortinas. Naquela noite, no espelho partido do almoxarifado, vi um par de asas rasgar minha pele. Sorri. Atravessei o teatro sem pedir aplauso. Apenas fui.
É sobre uma dinâmica familiar doentia (ou, ao menos, não muito saudável). Me deparei com construções bastante originais e bonitas, mas o desfecho me soou demasiado absurdo e vago. A imagem de asas sugere natureza angelical do caçula, mas soa nada angelical abandonar o lar e uma mãe, sobretudo de maneira tão abrupta (no mesmo dia em que a irmã deixa a casa, detalhe que tornou a ação do protagonista intempestiva, precipitada e literariamente inverossímil).
Fica um mistério: morreu ou libertou-se? Mas então lembro que libertação vem com morte do que não nos serve mais. Maravilhoso. Obrigada por compartilhar.
Incrível como este texto transmite crescimento e liberdade sem precisar explicar. Fiquei tocado; senti a liberdade silenciosa e a força discreta de alguém que finalmente se afirma.