EntreContos

Detox Literário.

(In)visível (Contrarregra)

Eu segurava as paredes frágeis do cenário. Era o caçula invisível de um drama familiar em cartaz. Minha mãe dirigia com régua: marcava posições e esbravejava. Meu pai pagava a temporada e sumia. Meu irmão ganhava monólogos. Eu, nos bastidores, ajustava figurinos, recolhia falas no chão. Minha irmã, escalada para antagonista, um dia parou no centro do palco e engoliu o texto. Saiu de cena e caiu no mundo. Minha mãe fechou as cortinas. Naquela noite, no espelho partido do almoxarifado, vi um par de asas rasgar minha pele. Sorri. Atravessei o teatro sem pedir aplauso. Apenas fui.

4 comentários em “(In)visível (Contrarregra)

  1. Martim Butcher
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Martim Butcher

    A ilustração me deixou bastante indisposto com seu conto. É cafona demais, e digo isso sem receio de te magoar, porque certamente não é da sua autoria. Dá pra melhorar esses prompt aí, ou pelo menos sugerir algo não tão ao pé da letra. Depois, o título: sinto que esse expediente meio à moda irmãos Campos ficou um pouco datado de uns anos pra cá. Abusaram de uma invenção, que assim perdeu seu frescor. Com essas duas disposições negativas me pus a ler o conto e não achei ruim. É bem consistente na construção por alegoria. O que me deixa em dúvida é a pertinência dessa alegoria em relação ao desenvolvimento da história. Há uma relação muito interessante (quase uma estrutura cruzada, eu diria) entre realidade e ficção. Por um lado, a realidade é narrada conforme a alegoria ficcional-teatral. Por outro, quando enfim o protagonista se liberta dessa prisão ficcional, irrompe um elemento antirrealista. Talvez valeria a pena investir mais nessa relação complementar, pois é a coisa mais interessante do conto e a justificativa para a alegoria, que depende dessa relação para esquivar-se da arbitrariedade.

  2. andersondopradosilva
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de andersondopradosilva

    É sobre uma dinâmica familiar doentia (ou, ao menos, não muito saudável). Me deparei com construções bastante originais e bonitas, mas o desfecho me soou demasiado absurdo e vago. A imagem de asas sugere natureza angelical do caçula, mas soa nada angelical abandonar o lar e uma mãe, sobretudo de maneira tão abrupta (no mesmo dia em que a irmã deixa a casa, detalhe que tornou a ação do protagonista intempestiva, precipitada e literariamente inverossímil). 

  3. Ana Paula Benini
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Ana Paula Benini

    Fica um mistério: morreu ou libertou-se? Mas então lembro que libertação vem com morte do que não nos serve mais. Maravilhoso. Obrigada por compartilhar.

  4. Wilian Cândido Corrêa
    8 de fevereiro de 2026
    Avatar de Wilian Cândido Corrêa

    Incrível como este texto transmite crescimento e liberdade sem precisar explicar. Fiquei tocado; senti a liberdade silenciosa e a força discreta de alguém que finalmente se afirma.

Deixar mensagem para Martim Butcher Cancelar resposta

Informação

Publicado em 8 de fevereiro de 2026 por em Microcontos 2026.