EntreContos

Detox Literário.

[EM] O Poema de Kalidasa (Aurora)

“Cuida deste dia!

Ele é a vida, a própria essência da vida.

Em seu breve curso

Estão todas as verdades e realidades da tua existência:

A bênção do crescimento,

A glória da ação,

O esplendor da realização,

Pois o dia de ontem não é senão um sonho

E o amanhã somente uma visão.

Mas o dia de hoje bem vivido,

Transforma os dias de ontem

Num sonho de ventura.

E os dias de amanhã numa visão de esperança.

Cuide bem, pois do dia de hoje!

Eis a saudação à alvorada!”

1. Nascimento

Kalidasa era um planeta intrigante. A cada cinquenta anos, suas duas luas se alinhavam em frente ao sol, trazendo um longo período de sombra e escuridão, fenômeno cujo apelido demonstrava seus efeitos devastadores. O Eclipse Sepulcral devia ser temido. O mais curioso, apesar de tudo, era que todos naquela civilização (sem exceção) sabiam quando iriam morrer. Seu ciclo de vida se baseava na regra dos cinquenta, o que tornava projetos a longo prazo um tanto inconsequentes; em compensação, cada momento era único.

Algumas famílias insistiam em quebrar essa regra, como o caso da família Aasha, que beirava seus quarenta anos. Haveria pouco tempo para educarem sua filha que recém comemorava a quinta parte de sua vida. Do interior do domo florido, ouvia-se vozes.

— Sitaara, vem cá! Você já tem dez anos. Seu pai e eu decidimos que você deve cursar a Escola de Cosmocálculo. – Disse Chaandanee, preocupada.

— Mas não queremos forçá-la a fazer essa escolha. Só pareceu… Óbvia. – Disse Ravi, sabendo do fascínio da filha pelas estrelas.

Iniciar uma faculdade tão cedo era padrão para uma sociedade que corria contra o tempo.

Sitaara, uma jovem introvertida, morena, de longas mechas castanhas e de poucas palavras, assentiu. Buscou a mochila na mesma hora, arrumou suas coisas e segurou a prancheta transparente com um sorriso. Não havia tempo a perder. Despediu-se de seus pais com um longo e forte abraço e caiu na estrada. Era seu aniversário, mas já haviam deixado para trás o conceito religioso ligado à data (embora seu pai a tivesse dado um laço vermelho de presente). O que mais importava era o que fariam dali em diante com o pouco tempo que lhes restava.

A jovem podia pegar o trem supersônico em direção ao campus, utilizar o veículo de seus pais ou pedir uma carona ao vizinho. Decidiu ir a pé. Sentir a grama sedosa daquela planície infinita sempre trazia uma sensação agradável. As grandes montanhas ao redor a abraçavam, com seus picos de gelo reluzindo sobre a passagem estreita, criando um efeito sublime no Vale do Amanhecer – um vale cercado por escarpas pontiagudas, mas que tinha seu charme. E quando encontrava girassóis-laranja, flores tão grandes quanto uma árvore centenária, sentava em suas raízes e provava o doce mel das sementes amadurecidas. Bhoomi, seu vizinho magro, alto, de cabelos bagunçados e um pouco pálido, teve a mesma ideia.

— Oi, Sitaara! Seus pais também já decidiram seu Objetivo? – Disse ele, sentando ao seu lado.

— Já! Vou ser uma cosmocalculista. E você?

— Um herege, ou melhor, um tecnohistoriador. – “Herege” parecia um apelido muito forte para quem decidia seguir um projeto de longo prazo.

— Legal! Podemos trabalharmos juntos. – Disse ela, esperançosa.

— Como você sabe?

— Ora, estudar as estrelas faz parte de nossa história, de como chegamos aqui. Não quer saber o que tem atrás do sol?

— Talvez…

— Resumindo, eu vou apontar e você vai escrever.

— “Muito” engraçado. Mas seu cargo é melhor que o meu. – Encerrou ele, pensativo.

— Já imaginou quantas civilizações mortas tem lá em cima?

E um breve silêncio se fez. Aquele era um assunto delicado, afinal, deviam investir todas as suas energias no campus, onde uma estrutura sem precedentes estava sendo mantida há séculos pelos tais “hereges”. Algum dia ainda descobririam a fórmula da vida eterna.

Para Sitaara, se pudesse estender um pouco mais a vida dos cidadãos, já poderia morrer em paz. Só tinham dez anos, mas seu desenvolvimento precoce os empurrava direto à maturidade – infância era um luxo, um tempo desperdiçado, embora seus pais nunca se convencessem disso.

A jovem alisou as mechas ao sentir o vento e ajeitou o laço vermelho de seda, presente de seu pai. O trem supersônico voltava da breve escala da manhã, uma simples linha reta entre o vale e a enorme clareira circular do observatório. Uma hora em dez minutos, se não decidissem ir a pé.

2. Infância

O campus. Uma estrutura única em forma de relógio solar, com suas entradas simbolizando as casas do tempo. Bem ali, no meio do círculo, um telescópio gigante marcava as horas girando em torno do domo central – um observatório que continha toda a estrutura necessária para abrigar o inestimável projeto dos tecnohistoriadores: um supercomputador mnemônico, de nome tão imponente quanto sua forma perfeita.

— “Memento Mori”. – Leu Sitaara em voz alta ao entrar no espaçoso salão central.

— É para lembrarmos de que somos mortais. – Disse Bhoomi, demonstrando seu conhecimento obscuro numa língua extinta.

Queria impressioná-la. Nutria certa afeição desde que a conhecera. Era certo que ela seria alocada ao andar de cima, o posto mais alto reservado à sua função. Seu trabalho também era importante, mas consistia em apenas alimentar a máquina com dados relevantes, enquanto ela faria descobertas incríveis.

— Muito bem, novatos! Seus pais já apresentaram os Objetivos. Portanto, sem demora, vou levá-los direto aos seus quartos! – Exclamou o diretor, de manto extravagante, iridescente, com cara de poucos amigos.

Bhoomi baixou a cabeça e observou seu afeto uma última vez. Sitaara correu e o beijou no rosto, antes de seguir para o andar de cima. Vermelho e envergonhado, silenciou as piadinhas alheias com um gesto imaturo. Dali em diante, sua vida seria dedicada às estrelas.

Cada aluno possuía um quarto próprio, mas quando Sitaara viu a pilha de livros, uma dezena de telas transparentes e a janela panorâmica estranhamente opressora, sentiu falta de casa pela primeira vez. Lá no fundo, ainda era uma criança. Ajeitou-se na cama retrátil, bem confortável apesar de retangular, e dormiu profundamente.

Naquela semana aproveitou para conhecer os demais colegas. Como esperado, havia os amigáveis, os sérios, os neutros e os que estavam ali apenas para atrapalhar ou se divertir. Em meio às conversas animadas, descobriu que cada um deles teria a chance de utilizar o telescópio uma hora por dia, segundo uma escala prévia bastante rígida. Anotou com cuidado o período disponível.

A observação se daria naquela mesma tarde. Registrou seu nome no sistema central e subiu correndo as escadas de mármore polido. Ajeitou suas mechas em frente ao espelho, conferiu seu laço e desamassou o uniforme. Por sorte, as faixas lilás do manto branco combinavam bem com a fita de seda. Conferiu suas anotações, passou a mão numa das pranchetas e desceu as escadas com pressa. Esbarrou numa colega de quarto.

— Ei! Olha por onde anda!

— Desculpe. É que não posso perder o horário. – Explicou.

— E isso te dá o direito de me derrubar, novata?

— Não… É que… Lamento. Não foi minha intenção.

— Tô de olho em você!

Abaixou a cabeça e seguiu em silêncio. Infelizmente, sua vizinha se encaixava no grupo dos que “estavam ali apenas para atrapalhar”.

O vasto salão central não só continha o supercomputador esférico, como também o imenso telescópio de estudos. Sitaara sentiu-se pequena perto da lente objetiva. Do tamanho de uma pessoa, exigia o uso de um capacete especial que retransmitia a imagem da lente ocular. Redondo e um tanto desajeitado, lembrava de que o foco ali, mecânico e literalmente, seriam os estudos. Conferiu a prancheta e respirou fundo.

O diretor a aguardava em meio à fila. Sua vizinha também estava ali, discutindo com outros colegas e desdenhando de sua aparência. Procurou se afastar.

— Ora, se não é a jovem Sitaara. Seus pais falaram muito bem de você. Tenho certeza de que será uma de nossas melhores alunas! – Disse ele, num raro lampejo de bom humor.

Queria que ele não tivesse dito aquilo em voz alta. A fila a encarou com certo interesse. Alguns por empatia, outros, por inveja. Deu um passo à frente.

Os eletrodos faziam cócegas e o aparato dos ombros pesava bastante. Os óculos especiais vinham por último. Quando estava prestes a colocá-los, notou que um certo tumulto se formava, logo atrás. O diretor a deixou sozinha por cinco minutos… Tempo suficiente para que alguém tropeçasse nos fios, intencionalmente ou não, e a empurrasse com toda a força contra o maquinário. Os óculos escaparam do suporte e sua cabeça recebeu a maior parte do golpe.

— Ei! Não, não, não… Fiquem aí! Estão todos suspensos! – Gritou o diretor, correndo em sua direção.

A confusão durou uma hora.

Sitaara ainda estava deitada quando se deu conta de que o borrão, acima de sua cabeça, dizia “Enfermaria”, em letras grandes. Resultado: duas semanas de repouso e um olho inchado, além, é claro, de um “magnífico” hematoma na testa. Estava proibida de fazer qualquer tipo de observação, por pelo menos um mês. “Que belo começo de carreira”, pensou.

Com o auxílio de outros colegas, chegou ao seu quarto, desnorteada. Sentou-se na cama. A janela panorâmica parecia oprimi-la com o retrato da imensidão (a qual não poderia estudar tão cedo). Seus olhos doíam. Com raiva, chutou a pilha de livros.

“Um estudo da cosmologia antiga – por Puraana Din” era o título da brochura sem capa jogada aos seus pés. Amarelada e consumida pela ação do tempo, parecia atiçar sua curiosidade. Tateou o chão e a ergueu diante de si.

Aquela língua arcaica a lembrava de seus antepassados. Não que ela tivesse contato com eles, mas seus pais, com frequência, retransmitiam os ensinamentos. Podia garantir que ninguém mais conhecia aqueles escritos. Sem poder observar o firmamento (mal conseguia ver suas mãos), resolveu empenhar-se nos livros.

Puraana reafirmava o que todos sabiam: havia um sem-número de estrelas escondidas pelo brilho do sol. Somente quando o Eclipse Sepulcral ocorria era possível observá-las com cuidado. Mas o mais curioso disso tudo era que, segundo anos de observação, uma delas sempre trocava de lugar – algo impossível para uma estrela de tamanha magnitude.  

Intrigada, pegou os livros e os devorou em uma semana. Rabiscou, anotou, registrou. Nada se comparava ao enigma de Puraana. Não mexeu mais em suas mechas. A aparência não era mais tão importante.

Havia algo lá em cima. E, definitivamente, não era uma estrela…

3. Adolescência

Em meio aos estudos e convivência isolada, Sitaara se desenvolveu. De uma criança prodígio no alto de seus dez anos, tornou-se uma bela e renomada professora nos anos seguintes.

O gosto por flores havia desaparecido, embora girassóis-laranja ainda chamassem sua atenção – ainda mais agora em que justamente as flores que um dia amou recobriam o caixão luminar de seus pais, bem em sua frente.

Cinquenta anos cada. Ela, vinte. O cortejo fúnebre já se afastava quando Bhoomi chegou.

— Sinto muito, Sitaara. – Disse ele, quase irreconhecível de barba, óculos escuros e um manto preto de faixas amarelas, dos ombros aos pés.

Seu primeiro reencontro em dez anos. Sitaara, com o costumeiro manto branco de faixas lilás, virou-se.

— Por que fazemos isso, Bhoomi? – Perguntou, angustiada.

— Para preservar a memória de um mundo. – Respondeu, de forma mecânica.

— Pra quê? – Insistiu.

— Para termos respostas às perguntas que ainda não fizemos. – Encerrou ele, mais emotivo.

Bonito, tinha de admitir, mas não a consolava em nada. De vez em quando recebia poemas de seu amigo de infância, aprendidos com a tecnohistória. Mas o que ela precisava agora não era de palavras. De forma tardia, percebeu. E a mão no ombro a envolveu num abraço apertado, caloroso.

— Meu pai sempre dizia que ele tinha todo o tempo do mundo pra mim. Essa fita em meu cabelo é uma prova disso… – Beijou seu pescoço. — Talvez você esteja certo. Memórias devem ser preservadas.

Acompanharam os caixões luminares em direção ao “Arquivo”.

Sitaara segurou sua mão e o levou ao velho girassol-laranja onde haviam conversado dez anos atrás. Aquela planta curiosa resistia aos efeitos do tempo. Sempre era agradável relembrar o toque de seda da grama macia e as formas distorcidas pela ação da penumbra. Viviam num ambiente esterilizado, retilíneo e cansativo. Estar lá fora era uma benção aos olhos e à mente.

— O Eclipse Sepulcral está chegando. Acha que vamos sobreviver? – Perguntou ela, espremendo uma semente sem motivo.

— Ei! Cadê a cientista que ia mudar o mundo? – Incentivou.

— Desculpe. Estou confusa. Como professora, estou doida para catalogar as novas estrelas e, quem sabe, resolver o enigma de Puraana. Como a criança que já fui, ainda tenho medo da escuridão. E agora, sem o apoio dos meus pais… Como os antigos sobreviveram a esse período?

— Agora você entrou na minha área! Há um buraco quando nos referimos ao eclipse.

— Um buraco?

— Sim, um termo simples para “falta de dados”. Desde que Memento Mori foi construído (e nos faltam dados sobre isso também) não há registro nenhum desses momentos da história.

— Você também tem seu próprio enigma, pelo visto.

— É como se fosse proibido fazer isso. Cheguei a indagar meus superiores, mas a resposta foi tão evasiva quanto.

— Bem, segundo meus cálculos e pela posição das luas…

— Diga.

— Temos somente dez anos pela frente.

Bhoomi não queria admitir, mas também estava com medo. Contudo, aquele abraço aconchegante, com significado bastante distinto de quando eram crianças, trazia uma sensação que não sentia há muito tempo – que as luas dançassem, que o sol dormisse, que as sombras os atingissem. Contanto que permanecessem juntos, daquele jeito, o fim do mundo poderia vir, a qualquer hora, a qualquer momento.

4. Maturidade

Sitaara e Bhoomi tinham apenas trinta anos quando assumiram a diretoria do campus. O diretor já havia falecido e não havia mais ninguém qualificado para o serviço. Treinar a nova geração era tanto um fardo quanto um privilégio, ainda mais agora que, contrariando os dados do destino, uma pequena vida estava a caminho, em seu segundo mês de formação.

Apesar do conhecimento ter avançado exponencialmente e o supercomputador conter mais dados do que nunca, a escuridão começava a encobrir o planeta. Não podiam fazer nada contra as forças da natureza. O que podiam fazer era garantir que os painéis solares do observatório guardassem energia suficiente para aquecê-los.

Quando as luas se alinhassem, a energia benéfica do sol se extinguiria e o solo estaria por conta. Dentro de um ano, fortes vendavais atingiriam as montanhas, o vale e o observatório, percorrendo o campus com fome voraz. A temperatura cairia bruscamente e uma nova era do gelo tomaria conta do planeta. Quem não conseguisse abrigo, morreria congelado no mesmo instante. O Eclipse Sepulcral não tinha esse nome à toa.

Por mais que a tecnologia tivesse avançado trinta anos, só podiam aguardar. Suas memórias estariam preservadas para sempre dentro do supercomputador. Mas o que mais a preocupava era em que tipo de mundo sua filha nasceria. Para dois estudiosos formados em áreas científicas, somente um “milagre” podia os salvar. Sitaara amaldiçoou Kalidasa em pensamento. Arrependeu-se depois.

De mãos dadas na entrada do campus, junto à equipe completa de tecnohistoriadores, cosmocalculistas, macroengenheiros e outros títulos sem fim, observaram o início do eclipse total. A segunda lua posicionou-se perfeitamente em frente ao sol. Seguindo os passos de sua irmã menor, a outra lua completou o movimento. As sombras desceram lentamente pelas montanhas, chegaram à planície, acompanharam o trem supersônico e, finalmente, atingiram o observatório.

A partir daquele momento não havia mais dia.

As estrelas brilharam em harmonia, iluminando o céu num espetáculo jamais visto. Milhares de pontinhos brancos disputavam espaço com uma nebulosa carmesim. Nem em seus sonhos mais lúcidos Sitaara havia presenciado tamanha beleza (quase dava para esquecer o que viria a seguir). Seus alunos correram ao observatório.

Bem no meio do céu visível havia uma estrela maior, um farol-guia para viajantes perdidos. Parecia estudá-los.

— O enigma de Puraana. – Lembrou-se Sitaara.

5. Velhice

Uma semana se passou até que o ar se tornasse pesado de repente. Ventou forte. E a estrela de Puraana dobrou de tamanho em questão de horas. Como diretora formal do campus, sabia que aquilo não era possível. Não precisou esperar muito. A resposta chegou junto ao som rasgado de metal contra atmosfera. Correram para fora.

Um obelisco cintilante descia entre as nuvens maciças e aterrissava no solo, semelhante à uma aranha esticando as patas. Kalidasa ganhava um novo monumento.

O compartimento externo ressoou em uníssono. Sua áurea luminosa emanava tensão. Sem dizer uma palavra, aguardaram em riste. Em meio à fumaça e gases desconhecidos, uma porta de altura considerável martelou o solo macio. Sitaara fez um sinal (podiam selar a instalação com uma rapidez digna de louvor) enquanto Bhoomi preparou a luneta.

Eram pessoas. Vestidas de forma excêntrica, mesmo assim, pessoas.

O líder se aproximou. Vestindo uma armadura sintética, onde somente o rosto era parcialmente visível, levantou as mãos em um sinal pacífico. Sitaara se adiantou.

— Quem são vocês? E o que desejam? – Gritou ela, antes que a figura se aproximasse ainda mais.

— Meu nome é Puraana. Vim resgatá-los. – Gritou em resposta.

Deu um passo atrás. Seria mesmo possível?

— Eu conheço os estudos de Puraana. E sua brochura foi datada com mais de cinquenta anos. – Testou.

— Eu sei. Se vierem comigo, explicarei tudo.

— Sem chance! Tudo isso é muito suspeito. – Como diretora, precisava ter certeza. — Do nada uma estrela cai do céu e de repente ganhamos uma passagem para o firmamento? – Indagou ela, autoritária.

Vendo que não havia saída, Puraana acenou para seus colegas e sentou-se no chão.

— Quer a versão completa ou a resumida? – Indagou ele, notando seu devido interesse.

— A resumida. Mas ainda vou precisar da completa.

— Certo. Você me lembra o diretor da minha época. Mas, tem razão. Preciso explicar algumas coisas.

Sitaara se aproximou; Bhoomi logo atrás. Toda a equipe continuava preparada.

— Se você encontrou meus estudos, sabe que existe uma estrela móvel no período do eclipse. Acontece que, se você for tão esperta quanto eu acho que é, sabe que aquilo não é uma estrela… É uma “steshan”, uma estação espacial, escondida sob a vista de todos.

Seus olhos se arregalaram.

— Viemos aqui embaixo para levá-los até lá em cima. – Apontou. Não podia ser mais didático. — Ninguém sobrevive ao eclipse, ou melhor, à era do gelo que ele provoca. São vários anos e até lá, todos estarão…

— Sim, eu entendi. Parece legítimo. O que tem lá em cima?  – Interrompeu.

— Um abrigo. E toda uma nova área de estudo. A engenharia biomédica envolve…

— Sei, sei. Isso não vem ao caso… E quanto à brochura?

— Ah, meu erro. Não devia ter deixado isso pra trás. Tenho noventa anos… E um coração artificial.

Ao dizer isso, a maioria sorriu. Negação era o primeiro estágio.

— Vejo que não acreditam em mim. Pois saibam que fui resgatado da mesma maneira que vocês. Quanto ao eclipse, não podemos fazer nada. Isso é um fato. Mas quanto ao ciclo de cinquenta anos, estamos trabalhando nisso.

Sitaara não se conteve com aqueles absurdos.

— Não é justo! Se o que fala é verdade, por que não vieram antes? Meus pais… Meus amigos… Morreram por nada? Por causa de um capricho de… Sei lá o que você é.

“Um velho”, sussurrou. Bhoomi a abraçou.

— Desculpe. Seu nome é…

— Ela é Sitaara. Eu sou Bhoomi.

— Sitaara. Bhoomi. Sinto muito. Mesmo. Também perdi familiares e amigos bem próximos. Mas vocês devem entender. Nosso corpo é frágil. Temos apenas cinquenta anos de vida. Precisamos da luz do sol e deste solo para sobreviver. Deste solo. Algum de vocês é tecnohistoriador?

— Eu sou! – Disse ele, afagando a esposa.

— Ótimo. Então deve ter notado que há vários buracos na memória do supercomputador.

— “Memento Mori”.

Há anos não ouvia aquele nome. As lembranças começavam a se fundir.

— Bem, esses buracos correspondem ao período em que estivemos lá em cima. A máquina trabalha sozinha. Ninguém desce enquanto não for seguro. Ninguém fica pra trás. Ninguém registra.

— Isso explica muita coisa. – Disse Bhoomi, espantado com as novas informações.

Assimilar tudo era um processo demorado, mas com tamanha plateia, Puraana prosseguiu.

— Sei bem o que estão pensando. Por que vivemos escondidos entre as estrelas? Por que não deixamos um aviso à próxima geração?

— Estou mais preocupada em saber em que mundo minha filha vai nascer. – Disse ela.

— Você está… Oh, que dádiva! Desculpe, eu não sabia… Teria falado com mais tato. – Disse Puraana.

— Ainda não confio em você. Termine!

Sitaara mantinha o pulso firme. Seu antigo diretor estaria orgulhoso.

— Pois bem. Já ouviram falar do “Poema de Kalidasa”?

— Não. – Responderam os dois.

— Dizem que foi escrito pelo criador da máquina. Está intrinsecamente ligado aos circuitos de memória do supercomputador, como se fosse uma diretiva primordial: as primeiras frases, o primeiro registro. Ou seja, as primeiras linhas de nossa história.

Retirou um aparelho do bolso e o entregou à mão estendida. Diante ao público febril, sedentos por conhecimento, leram em voz alta aquele escrito atemporal:

“Cuida deste dia! Ele é a vida, a própria essência da vida. Em seu breve curso estão todas as verdades e realidades da tua existência (…)”.

Por um instante, abriram seus corações. Puraana aproveitou.

— Se não tivesse ninguém aqui embaixo estudando e desenvolvendo novas tecnologias, jamais teríamos conseguido construir aquela estação, e estaríamos fadados à lembrança, diminuídos à uma simples memória de um computador esférico.

Sem interrupções, prosseguiu.

—  Se revelássemos a todos que a cada cinquenta anos haveria uma chance, você acha que estaríamos tão próximos de estender a vida? Conhecendo bem as pessoas, elas realmente gastariam seu tempo desenvolvendo novos campos de estudo, sabendo que seriam “levadas” ao fim do ciclo?

Bhoomi franziu o cenho.

— Nosso objetivo ainda não acabou, se é isso que estão pensando. Eu vou morrer aos cem. Ainda tenho dores horríveis aqui dentro e minha mente já começa a se dispersar. Mas se puder estender um pouco mais a vida dos cidadãos, já posso morrer em paz. – Encerrou ele, de vez.

Sitaara estremeceu. Aquele também era seu objetivo, quando criança. Trinta anos já haviam se passado! Onde estava todo aquele fogo e ímpeto que possuía? Estaria tão perdida quanto aquela alma centenária?

Aproximou-se da armadura sintética de Puraana.

— É cruel. É odioso. E como “pessoa”, não aprovo, em nenhuma circunstância. Mas como diretora do campus, entendo as implicações científicas. Diga, o que acontece depois dos cinquenta anos? – Indagou ela, ansiosa.

— Os que sobrevivem ao tratamento descem novamente e continuam o processo. Dão o pontapé inicial à nova geração. E se encarregam de alimentar o supercomputador. ELE é a única certeza em meio ao mar de variáveis. Uma lembrança inesquecível de todos que já se foram e colaboraram com o projeto.

— Então, quer dizer que meu pais…

— Sim, provavelmente eram crianças “de cima” quando se estabeleceram aqui.

Aquela conversa se estendeu por horas; o vento gélido, impenitente, os açoitou sem piedade.

Sitaara nunca imaginou que um dia teria de tomar aquela decisão – uma decisão que não afetaria somente seu marido, seus amigos, seus companheiros e colaboradores, mas uma inteira geração. Bhoomi acariciou seus punhos e assentiu. Puraana, mesmo embaixo da máscara, hesitou por um segundo.

— Kalidasa é nossa terra… Quero que minha filha veja o “novo mundo” com seus próprios olhos.

Encarou os olhos enternecidos. O silêncio só foi cortado pelo ruído do maquinário distante: meio-dia em ponto (ou seria meia-noite?). Fez os cálculos. Sentiu o rosto congelar.

— Pessoal, está decidido!

6. Morte

A grama verde e sedosa tornou-se branca e quebradiça. Os girassóis apodreceram. O Vale do Amanhecer tornou-se um vale sombrio. O campus, antes lotado de pessoas e cheio de energia, adormeceu sob uma camada descomunal de gelo e poeira solar. Nada sobreviveria em cinquenta anos. O Eclipse Sepulcral cobrava seu tributo, enquanto lá em cima, uma estrela em forma de pirâmide refletia a esperança de novos tempos.

Lá embaixo, no interior da grande estrutura, um estranho coração metálico ainda batia: a máquina responsável por guardar e enviar os dados à estação, bem como ao espaço profundo. Os painéis solares continuavam a todo vapor. Memento Mori transmitia a memória de um povo por meio de simples linhas de códigos que formavam um belo poema de alguém que queria apenas viver mais…

O fim daquele mundo chegou. E Kalidasa, por fim, descansou.

5 comentários em “[EM] O Poema de Kalidasa (Aurora)

  1. Ana Caroline de Arimatéa
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Achei que você construiu bem todo este cenário, embora algumas linhas a mais descrevendo este planeta desconhecido para o leitor fossem bem vidas

    Enredo: O enredo é lindo, acompanhamos a vida da personagem do começo ao fim, mas eu acabei um pouco perdida em algumas questões, não entendi muito bem o ciclo do planeta e a relação com o eclipse nem o que exatamente queriam os visitantes, essa parte ficou um pouco confusa

    Escrita: Maravilhosa, muito fluida e bem dividida, dá pra notar que houve cui8dado ao redigir e varias revisões, ta de parabéns.

    Considerações gerais: Seu conto é lindo, acho que pra melhorar só acrescentando mais linhas de descrição, explicar melhor os acontecimentos pra que o leitor chegue ao fim entendendo exatamente o que aconteceu, mas é notável seu cuidado com a história, tenho certeza que é uma personagem especial pra você e foi um prazer conhece-la.

  2. Anderson Prado
    4 de maio de 2021

    Ambientação: A ambientação é boa: estive nesse planeta à beira do eclipse juntamente com os personagens do conto.

    Enredo: O enredo está bem desenvolvido, embora tenha carecido de emoção – como leitor, praticamente limitamo-nos a acompanhar a história de vida de uma personagem.

    Escrita: A escrita beira o impecável, não obstante o artificialismo de alguns diálogos.

    Considerações gerais: Gostei do conto. O autor soube construir um texto fluido, o que tornou a grande extensão do texto um prazer e, não, um obstáculo. O autor contou uma boa história de ficção científica, mas faltou nela alguma grandeza, algo que a tornasse universal e perene, na linha de 1884 ou Admirável mundo novo. Ficou-me parecendo que é só mais uma história de ficção científica. Levará 9,9.

  3. thiagocastrosouza
    4 de maio de 2021

    Ambientação: Olha, talvez uma das mais bem arquitetadas e apresentadas até aqui, pelo menos nos textos de Ficção Científica/Fantasia. Sem pesar a mão, a autora insere os personagens nesse mundo marcado pela brevidade, por meio de uma escrita e descrições que não se alongam explicando tecnologias, geografias, etc. Tudo é sutil e entra naturalmente, conforme os personagens interage com o mundo. Os nomes dos personagens, pelo que me parece, são baseados na mitologia hindu, que foge um pouco dessa fantasia medieval europeia que tanto povoa a literatura de fantasia. Enfim, há harmonia no universo que você criou utilizando, inteligentemente, recursos como o poema e a imagem que abrem o conto. Isso introduz o leitor sem mesmo ter começado a leitura.

    Gostei, de verdade.

    Enredo: A premissa é boa e, da forma como foi levada, funcionou bem. A criança, os enigmas, a luta para prolongar a vida, o eclipse, a forma como estruturou o conto evidenciam que você trabalhou a história, pensou o desenvolvimento dos personagens, enfim, todo esse esforço se faz presente. Apesar de achar os diálogos, quando não infantis, explicativos demais, em contraponto ao bom trabalho que fez na ambientação, o mote do conto, o caminho que ele trilha, é bastante coerente. Não gosto de algumas passagens para chegarmos até esse final, mas quando chegamos, vale a pena.

    Escrita: Acho que não identifiquei erros, nada que me saltou aos olhos, provavelmente pelo mérito do enredo. Minha crítica fica por conta dos diálogos, quando não juvenis, como na cena em que Sitaara tromba numa veterana, ou explicativos demais, já no desfecho do livro.

    Considerações gerais.

    Seu conto é muito genuíno. Há problemas, como disse, mas nada que uma revisão e reconsideração de algumas cenas não possa resolver, pois a estrutura e a ambientação, ao meu ver, são bastante sólidas. Você fez uma história leve, que toca em temas profundos como ciência, memória, relevância histórica e ancestralidade, tudo isso sem pedantismos. O texto tem um ar juvenil, o que não é problema, pois há obras desse gênero que eu admiro e enxergo muitas possibilidades. É um texto que eu indicaria para minha filha, caso ela venha a se interessar pelo gênero quando for mais velha.

    Parabéns e grande abraço!

    • thiagocastrosouza
      4 de maio de 2021

      *as personagens interagem…

  4. Lucas Julião
    2 de maio de 2021

    Ambientação: Gostei bastante do conto. Mas tem um problema: Por que raios as pessoas só vivem 50 anos. Parece uma sociedade mais desenvolvida que a nossa, mais tecnológica e com conhecimentos mais avançados…Então por que só 50 anos? Isso ficou sem explicação.
    Enredo: Bom, muito bom. As coisas se desenvolvem bem, a gente vê a evolução da personagem principal, entende como as coisas mudam… É satisfatório.
    Escrita: Está entre os melhores escritos até agora. Fiquei feliz com isso.
    Consideração geral: Bem, se as coisas acontecem a cada 50 anos e depois voltam ao normal, não existe um fim. É um ciclo! A “morte” do planeta não se diferencia de um longo e duradouro inverno. Isso é um problema já que a temática é o “fim” do mundo.

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Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.