EntreContos

Detox Literário.

[EM] 12:44 – A Hora do Fim (Dante Lacosta)

Astrônomos do observatório astronômico Athena, descobriram um meteoro escapando da orbita solar e se dirigindo em colisão com a Terra. Calcularam o tamanho, a rota, o horário e o local da queda. O bólido de 9 quilômetros de diâmetro, cairia na região do Amazonas no dia 21 de fevereiro, às 12 horas e 44 minutos. Dali a 10 meses.

Um vídeo de autoria anônima, apareceu nas redes sociais mostrando a trajetória e o estrago que o meteoro faria no planeta. O pronunciamento do presidente da República, anunciando o fato, alertou o mundo todo. Providencias foram tomadas para preservar o maior número de vidas. Populações do Amazonas, incluindo indígenas, começaram a serem evacuadas.

Pessoas no mundo todo se prepararam para tentar sobreviver à catástrofe, construindo abrigos subterrâneos, estocando alimentos e passando a morar no fundo de cavernas a espera do impacto. Outros se desesperaram. Em alguns países a taxa de suicido aumentou 70%.

A maioria da população seguiu a vida normalmente, não acreditando nas previsões nefastas.

****

Dez meses depois…

52 HORAS PARA O IMPACTO

Salvador, Bahia.

Era sexta-feira. Jonas estava em casa colocando umas peças de roupa na mala para viajar na manhã seguinte, quando o telefone tocou.

─ Alô?

─ Jonas?

─ Sim.

─ Aqui é o Carlos. A Elvira me pediu pra avisar que tua mãe faleceu. O enterro é amanhã as quinze horas. O velório é na capela do cemitério do município. Meus pêsames.

─ Obrigado.

Desligando o celular, ficou parado, pasmo. Sentiu remorso mais do que tristeza. Não via a mãe há quase dois anos. Precisava ir ao enterro.

A mãe morreu. Sentiu magoa por não ter ficado com ela o tempo todo. Saiu de Serrinha, cidade do interior da Bahia, para trabalhar em Salvador num banco do estado. Ganhava bem, conseguiu alugar uma casa e comprar um carro usado, mas em boas condições.

Um pensamento o deixou aflito. Havia prometido se encontrar com a esposa em Aracajú, para discutir a reconciliação. Eles haviam brigado e ela o abandonou, indo para a casa dos pais. Naquela semana, Selma concordou em conversar, entrar num acordo. Ele precisava mostrar que estava disposto a mudar, prometer cumprir as regras de um bom casamento. Cancelar alguns hábitos nocivos, evitar atitudes inconvenientes. Enfim juraria diante dela que mudaria suas atitudes e hábitos nocivos a um bom relacionamento.

Precisava telefonar para dizer que não poderia ir a Aracajú.

Acessou um número. Do outro lado, uma voz de homem se fez ouvir. O pai de Selma.

─ Residência dos Figueira. Quem é?

─ Sou eu, Jonas. Queria falar com Selma, por favor.

Procurou ser educado, pois sabia que o velho não o tinha em boa conta. Ainda mais depois da separação.

 65 segundos depois; ─ Alô? Jonas? Vai vir ou não?

─ A mãe faleceu. Não vou poder ir esse fim de semana.

─ Não acredito que você inventou essa desculpa prá não vir conversar comigo cara a cara!

 ─ De forma alguma eu ia mentir uma coisa dessas, Selma! Vou ter que ir no enterro. Fica mal eu não ir.

─ Eu não vou poder ir.  Pela lei trabalhista você tem direito a sete dias de folga. Vou te esperar semana que vem, segunda-feira. Se não vier, não venha mais. Chega de desculpas para não cumprir com tuas obrigações, Jonas. Aliás, nem sei se estaremos vivos segunda-feira com essa história do meteoro. Então é isso, Jonas, se tu não vieres segunda-feira, vou considerar que é uma separação definitiva, que você não gosta mais de mim. Aliás, eu também nem sei se gosto de você pois não sinto a tua falta. Tchau!

Jonas ficou chateado. Selma nem se importou com a morte da sogra. Não podia culpá-la, as duas não se davam bem. Assim como ele não se dava bem com o sogro.

Resolveu chegar no velório pouco antes do sepultamento, às 15 horas. Assim, não precisaria permanecer muito tempo na cidade. Sabia que os parentes o tinham como um desclassificado. Um tio o chamou de vagabundo por estar vivendo à custa da mãe, no tempo em que vivia com ela.

 A causa era a sua má conduta nos empregos. Se o patrão xingava, mesmo tendo razão, ele retrucava e logo era despedido. Acreditava, sem razão, que era má sorte. Estava enganado. Era sua índole impulsiva, explosiva.

Na cidade grande foi obrigado a aprender controlar seus impulsos, sua rebeldia, seu espírito selvagem.

****

45 HORAS PARA O IMPACTO

Serrinha, Bahia.

Chegou ao velório às 14hrs e 30 min.

Sem olhar para os lados, foi direto ao caixão. A mãe estava com um lenço branco sobre o rosto. Mentalmente fez uma prece. Pediu desculpas por não ter vindo antes. Desejou que ela encontrasse a Luz, que ficasse livre de todos os vínculos terrestres, de todas as mazelas do mundo material.

Estremeceu ao sentir uma mão em seu braço. Era sua irmã, Elvira. Ela retirou o lenço do rosto da defunta para ele ver. A mãe estava sorrindo, um riso sardônico. O rosto carrancudo havia se amenizado, embora tivesse uma cor cinzenta, parecia rir da própria morte.

Ele lembrou que ela sempre foi durona, queria tudo certinho, casa sempre arrumada. Muitas vezes apanhou de chinelo por entrar em casa com os pés enlameados. Agora aquilo tudo parecia ter sido inútil.

Ele se sentiu indisposto, ali, à vista de todos.

─ Vou sair um pouco.

A irmã o acompanhou. Ficaram afastados da entrada.

─ Quer um chá?

─ Tem café?

─ Não, só chá. Quer? Eu vou buscar um copo.

─ Não gosto de chá. Me diga, do que a mãe morreu?

Elvira ficou ainda mais séria. Os olhos fundos ficaram cheios de lágrimas. Ela enxugou com o lenço.

─ Mamãe já não estava boa da cabeça. Ficou pior quando soube da história do meteoro. Você sabe que ela sempre foi religiosa. De uns tempos para cá, começou a ter alucinações. Qualquer coisa fora da rotina, do normal, dizia que era obra do diabo. O Mateus queria interná-la numa clínica, mas eu decidi que não. A levamos no médico e o diagnóstico foi demência senil. Mamãe já não tinha capacidade de raciocinar com clareza. Quando soube pela televisão sobre o meteoro, achou que nós iriamos morrer esmagados pela pedra. Ontem de manhã, levantou cedo e fez café. Quando acordamos a encontramos na cozinha, com o café pronto e as xícaras sobre a mesa. Disse que havia colocado veneno para nos tomarmos. Que era melhor morrermos envenenados do que esmagados pela pedra. Claro que nós não tomamos o café, mas infelizmente ela sim, já havia tomado uns goles.

─ Morreu sorrindo.

─ Por causa do veneno. O médico disse que os músculos da face ficam repuxados.

─ Você deveria ter me telefonado antes.

─ A gente fez tudo o que podia por ela. E a Selma, não veio com você?

─ Estamos separados. – Jonas ia dizer mais alguma coisa, quando alguém apareceu por trás dele. Levou alguns segundos para reconhecer Gloria Assunção, Glorinha. Eles se conheciam desde os tempos do ensino primário. Foram amigos inseparáveis até o dia em que ele partiu da cidade, há nove anos. Ele sabia que a garota o amou naquele tempo, mas nunca conseguiu sentir a mesma coisa por ela. Gostava dela por sua cumplicidade. Glorinha era inteligente, sempre lhe deu bons conselhos na época. Boa e humilde, era o que ela era. Às vezes, ingênua.

Glorinha o abraçou dando os pêsames, fez o mesmo com Elvira.

─ Lamento o que aconteceu com dona Candinha. Fiquei com muita pena dela. Desejo que ela descanse em paz.

─ Obrigado. – respondeu Elvira. – E você, como está?

─ Tudo bem. Aliás, mais ou menos. Estou apreensiva com essa história do meteoro e o fim o do mundo.

─ Acho que é mentira. Não vai acontecer nada.− afirmou Elvira.

─ Você acha? Nós estamos preparando tudo para ir para a mina abandonada. Papai disse que é o melhor lugar pra gente ficar. Ele não tem certeza mas acha que é melhor nos prevenir. Vocês não querem vir conosco?

─ Vou precisar convencer o Mateus.− respondeu Elvira.

─ Eu quero me despedir de dona Candinha. Você me acompanha?

─ Claro!

As duas mulheres entraram na capela mortuária. Jonas puxou a carteira de cigarros do bolso e acendeu um cigarro. Aquela história de fim do mundo, a decisão insana da mãe, o deixava letárgico, sem condições de tomar uma atitude para a sobrevivência, tanto do corpo quanto da razão.

   Às 15 horas, Dona Cândida foi enterrada. Na saída do cemitério, Jonas se despediu da irmã e do cunhado.

─ Não quer dormir lá em casa e viajar manhã? Tem algum compromisso urgente?

─ Não, nenhum compromisso.

Glorinha aproximou-se.

─ Já vai embora? Não quer ficar na mina? Nós vamos para lá amanhã.

─ Nós já vamos.− disse Elvira. ─ Se mudar de ideia, sabe onde moramos.

Ela e o marido se afastaram, deixando os dois a sós para conversarem. Jonas estava hesitante, indeciso. Não havia decidido o que fazer. Selma havia posto um fim no casamento deles dizendo que não sentia falta dele. O seu mundo tinha acabado. Agora parecia flutuar a esmo num mar revolto.

─ Estou com medo− confessou Glorinha. ─ Gostaria muito que você ficasse do meu lado quando o meteoro cair.

Ele observou o rosto dela e achou que Glorinha estava sendo sincera, como sempre foi. Parecia frágil, indefesa. Considerou a possibilidade de ficar. Não tinha nenhum compromisso. Tudo ficaria em suspenso até a hora final.

─ Ok. Aceito o convite.

O rosto de Glorinha se iluminou com um largo sorriso.

Ela entrou no carro dele e eles partiram para o sítio. Os pais de Glorinha o receberam com cordialidade. Ficaram satisfeito de verem os dois juntos. Jonas os ajudou a carregar os mantimentos para a caminhonete e outros objetos que seriam uteis durante o confinamento. Um gerador de energia já tinha sido instalado para garantir eletricidade. Eles partiriam para a mina na manhã seguinte.

─ Já levamos muitas outras coisas pra lá. ─ disse o pai de Glorinha. ─ Outras duas famílias vão estar conosco. Eles já prepararam tudo para a gente ficar lá pelo menos uns quarenta dias, sem precisar sair.

─ Eu não tenho acompanhado as notícias. Disseram onde o meteoro vai cair?

 ─ Perto de Roraima.

Os noticiários da televisão mostraram as longas filas de carros deixando a região do Amazonas. Imagens do México e Estados Unidos exibiam os preparativos da população para enfrentar a catástrofe. O mesmo acontecia na Venezuela, Guiana e Suriname. Governos da Europa avisavam a população sobre as alterações climáticas que iria ocorrer após o impacto.

Dona Lurdes, mãe de Glorinha, queria que a filha cedesse o quarto dela para Jonas dormir, mas ele recusou, disse que ficaria bem no sofá da sala.

Como estava em casa estranha, demorou para pegar no sono. Mal tinha adormecido quando sentiu alguém deitar ao seu lado. Na obscuridade da sala, percebeu que era Glorinha. Ela não esperou ele despertar completamente. Fazia anos que desejava aquilo. Jonas não conseguiu resistir, afinal, não era de ferro e o mundo iria acabar dentro de algumas horas.

Após a explosão dos sentidos e emoções, Glorinha ainda ficou alguns instantes sobre ele, murmurando juras de amor. Depois voltou para o quarto, tão leve e sorrateira como uma gata na escuridão da noite.

Jonas não conseguiu mais dormir. Para Glorinha, aquele ato seria como uma corrente que os ligaria para sempre. Mas ele não queria nenhum compromisso com ela. Nos primeiros clarões do dia, se vestiu, saiu, pegou o carro e foi embora. Precisava conversar com Selma. Achava que ainda havia chances de salvar seu casamento.

30 HORAS PARA O IMPACTO

Aracajú, Sergipe.

Chegando na cidade, Jonas foi direto para a casa dos pais de Selma. Apertou a campainha, bateu na porta, mas ninguém atendeu.

─ Eles foram embora.− disse a vizinha, na janela da casa ao lado. ─ Se mudaram de manhã cedo.

─ Sabe pra onde?

─ Bariloche. Acharam que é o melhor lugar pra escapar do meteoro. Acho isso tudo uma bobagem. Não vai cair meteoro nenhum. Quantas vezes disseram que o mundo ia acabar e não aconteceu nada? Eu vou ficar por aqui. Não quer entrar um pouco?

─ Não. Obrigado.

Jonas voltou ao carro e partiu. Almoçou num restaurante. Tentou dormir no carro, mas não conseguiu. Partiu em seguida.

20 HORAS PARA O IMPACTO

Salvador, Bahia.

A primeira coisa que fez ao chegar em casa, foi tomar banho e fazer a barba. Como o café acabou, resolveu ir ao mercadinho comprar. A rua estava deserta e silenciosa. O mercadinho, estava fechado. Decidiu pegar o carro e ir ao Centro.

Quanto ia entrar no veículo, uma voz o chamou. ─ Jonas! Hei!

Era o seu vizinho, Sergio Galvão. Sergio era solteiro, um bom homem. Sempre disposto a ajudar as pessoas. Era fanático por Ficção Científica. Certa vez ele mostrou a sua coleção de livros. Coleção Argonauta com 530 volumes, com os maiores escritores de Ficção Científica, Philip K. Dick, Ray Bradbury, Isaac Asimov e muitos outros. Nas paredes do quarto tinha pôsteres de filmes antigos, Planeta dos Macacos, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Guerra dos Mundos.

Ele estava parado na porta da casa, com uma latinha de cerveja na mão.

Vestia uniforme militar de combate.

─ Te chamei ontem. Não respondeu. Pensei que tinha ido embora para o sul, se esconder do meteoro. Não está assistindo à televisão?

─ Está estragada. Não tive tempo de levar na oficina eletrônica.

─ Vem pra cá. Vem ver. A CNN está transmitindo a chegada do meteoro.

Jonas abriu o portão e foi até ele. Tocaram-se com os punhos e entraram. A sala estava uma bagunça, roupas atiradas sobre uma cadeira, revistas num canto, mochila, prato sujo de comida no braço do sofá, cascas de banana sobre a mesinha de centro. Quanto ele entrou, Sergio fechou a porta, trancando com uma barra de ferro. As janelas estavam tampadas com tábuas. Havia uma espingarda encostada na parede.

─ Estou me preparando para a invasão dos alienígenas. O meteoro é apenas o início.

Jonas sacudiu a cabeça como que concordando com a previsões do amigo. Sempre achou que Sergio era esquisito e ali estava a prova.  

A televisão mostrava a mata amazônica, além de reportagens sobre a fuga das pessoas da região da queda. Sergio foi até a cozinha e voltou trazendo uma lata de cerveja. ─ Eu não tenho visto a Selma. – disse ele, entregando a bebida para Jonas.

Jonas pegou, quebrou o lacre e bebeu um gole. ─ A gente se separou. Ela foi morar com os pais.

 ─ Que pena, cara! Vocês pareciam um casal tão apaixonado!

─ Tudo acaba um dia.− Jonas não queria falar da esposa. Tinha que esquecer dela. Procurou mudar de assunto. ─ Acho que o estrago não vai ser tão grande.− disse, olhando na televisão, a imagem de um meteoro em chamas caindo sobre o planeta, uma demonstração de como seria a queda. Faltavam poucas horas para o impacto real.

─ Também acho que não vai dar em nada.

─ Você tem café?

─ Não, não tomo café. Tem Nescafé, comprei para as visitas. Quer?

─ Café instantâneo tem gosto de mijo de vaca.

─ Como você sabe? Já bebeu mijo de vaca?

─ É sentido figurado. − colocou a latinha sobre a mesinha de centro. ─ Vou no supermercado da esquina comprar café.

Sergio tirou a tranca, abriu a porta.

─ Vem pra cá depois. Pra gente ver o meteoro chegando.

Jonas sacudiu a cabeça e seguiu pela rua deserta. Atrás dos prédios o céu estava vermelho. O Sol se punha no horizonte. Todas as casas estavam com portas e janelas trancadas. Os moradores foram embora, ou estavam escondidos dentro de casa. A noite caia, silenciosa e triste. O único barulho era o ruído dos seus passos na calçada. Logo descobriu que o supermercado também estava fechado. Mas uma porta lateral estava entreaberta. Alguém havia arrombado. Havia poucos produtos nas prateleiras. Nenhum pacote de café. Tinha latas de café instantâneo, coisa que ele detestava.

Saindo, avistou um homem deitado num dos bancos da praça. Era um mendigo, um sem-teto, enrolando-se num cobertor para passar a noite. Ao lado estava dois sacos de plástico com os seus parcos pertences.

─ Por acaso, você tem café?

O homem abriu os olhos, coçou a barba, olhou de um lado para outro e voltou a fixar os olhos em Jonas.

─ Você tem pó de café? – repetiu.

O sujeito sacudiu a cabeça, negando.

─ Tenho Nescau.

 Jonas resolveu voltar para casa. Concluiu que precisava era dormir. Passando pela farmácia, arrombou a porta e pegou alguns frascos de ansiolíticos.

*****

Acordou com o corpo dolorido. A cabeça parecia inchada. A sensação era de uma tremenda ressaca. O relógio de cabeceira marcava 9 hrs31min.AM. Nenhuma claridade do dia entrava pelas frestas da veneziana. Se lembrou que havia tomado alguns comprimidos para dormir. Se era de manhã do dia seguinte, o meteoro ainda não havia caído. Pensando em telefonar para a irmã, pegou o celular. A hora no aparelho era a mesma, mas o dia era 24. Ele havia dormido três dias seguidos? Um sono tão pesado como se tivesse ficado em coma por 3 dias!  O meteoro já havia caído. Tentou ligar para a irmã, mas não havia sinal de telefone, tampouco de internet. Coisa estranha.

Foi para a cozinha fazer café, mas se lembrou que não tinha. Bebeu um copo de leite com biscoito amanteigado e depois saiu. Na porta, acendeu um cigarro. Embora fosse de manhã, o dia estava escuro como a noite. Nuvens amarronzadas rolavam para o sul. Uma fina poeira cobria a rua. Por um instante observou a penumbra e o silêncio sepulcral.

46 HORAS DEPOIS DO IMPACTO.

As casas continuavam fechadas e desertas. Havia luz numa das janelas da casa de Sergio. Foi até a porta e bateu.

─ Sergio!

Sem resposta, torceu a maçaneta e abriu a porta. Sergio havia esquecido de trancar, ou deixou aberta para que ele entrasse. A sala continuava bagunçada, a televisão ligada, mas a tela exibia apenas chuvisqueiro. Sergio estava deitado no sofá, virado para o encosto. Jonas bateu no ombro dele.

─ Hei, cara, acorde! Você viu a queda do meteoro? Como foi?

Sergio se virou lentamente. Jonas ficou assustado com o aspecto dele. Sergio tinha aparência de alguém que morreu há alguns dias e que acabou de sair do túmulo, inclusive fedia como um defunto. O rosto antes rosado, estava cadavérico, os olhos fundos rodeado de roxo, a pupila branca, a pele manchada por chagas pretas, enrugada nos cantos da boca mostrando dentes longos e amarelados. Sergio parecia um morto-vivo.

Ergueu as duas mãos, colocou sobre os ombros de Jonas e o puxou para morder. Os dentes batendo um no outro. Clac! Clac! Jonas recuou, batendo contra a parede. Escorregou e caiu sentado. Sergio não desgrudou dele, tinha muita fome. Jonas viu a espingarda ao seu lado, a única chance para se salvar.

Aquele já não era mais o seu amigo, era outra criatura. Jonas encolheu as pernas, colocou no peito dele e o empurrou para longe de si. Sergio caiu, batendo as costas na mesinha. Voltou a se erguer e avançou agachado. Jonas pegou a espingarda, mirou e apertou o gatilho. A cabeça de Sergio explodiu.

Jonas permaneceu sentado, atordoado, confuso. O amigo havia contraído alguma doença agressiva. Se fosse contagiosa, ele também sofreria a mesma transformação em poucas horas, ou minutos. Olhou para as mãos e não viu nada de anormal. Foi ao banheiro, lavou as mãos e o rosto. Olhou os olhos. Talvez os sintomas aparecessem nas próximas horas.

Decidiu que precisava avisar a polícia sobre a morte de Sergio e depois ir a um hospital, fazer exames. Pegou o carro e se dirigiu para o centro da cidade. Pouco depois chegou na delegacia. A porta estava aberta. Havia dois policiais estirados no chão, o pescoço e peito dilacerados, sangue por toda parte. Assustado, voltou a sair.

Viu um grupo de pessoas na esquina em frente a um posto de gasolina, duas mulheres e três homens, um deles usava uniforme do exército. Eles estavam parados, oscilando de um lado para outro, como se estivessem embriagados. Chegando mais perto, Jonas viu o rosto deles, as mãos deles, os braços manchados, olhos fundos, a íris branca. Os mesmos sintomas de Sergio. Quando o grupo o avistou, se dirigiram para ele, caminhando apressados, arrastando os pés, soltando rosnados como feras selvagens.

Jonas correu o mais que pode, entrou no carro e dirigiu a toda velocidade para casa. Ao chegar, entrou na casa de Sergio. Precisava ficar com a espingarda para se defender. Ao ver o corpo do amigo, resolveu enterrá-lo. Procurou uma pá na garagem. Ficou surpreso ao ver que Sergio guardava, além do Land Rover, armas. Num armário havia escopeta, rifle com mira telescópica, pistolas e granadas. As armas que Sergio iria usar contra a hipotética invasão alienígena.

Acabando de enterrar o cadáver, sentiu uma vontade imensa de tomar café. Resolveu procurar nas moradias vizinhas. Pegou um machado e arrombou a porta da casa do lado. A despensa estava vazia, não havia nenhum café, nada. Voltou a sair. Se dirigia para a casa seguinte, quando viu um vulto surgir no fim da rua. O dia continuava nebuloso e aquelas não pareciam serem nuvens, mas poeira causada pelo impacto do meteoro.

Jonas ficou parado, com o machado na mão, esperando pela pessoa. Achou que seria um morador da rua. Aproveitaria para pedir uma xicara de pó de café emprestado. Aos poucos notou que era uma mulher. Usava um vestido estampado, sujo de terra. Ela se aproximou num andar claudicante, a cabeça inclinada, olhando para o chão. Chegando próximo dele, ergueu o rosto cheirando o ar. Jonas ficou surpreso ao ver que a mulher era Glorinha. Os cabelos louros dela, estavam embaraçados, a pele escura, coberta de chagas, os olhos fundos, a íris branca.

Glorinha avançou, arreganhando os dentes para morder o seu amado. Emitiu um rosnado gorgolejante. Jonas não esperou pelo abraço fatal, ergueu o machado e a golpeou na cabeça. Com o crânio partida em dois pedaços, Glorinha desabou como um saco vazio.

Jonas voltou a entrar na garagem de Sergio, pegou algumas armas, munição e colocou no carro. Enfiou duas pistolas na cintura, pego as chaves, ligou a Land Rover e partiu. Ao avistar o grupo de zumbis na outra rua, investiu contra eles. Corpos foram jogados para o alto, esmagados sob as rodas.

Jonas acelerou e seguiu em alta velocidade.

─ Café! Eu quero café!

8 comentários em “[EM] 12:44 – A Hora do Fim (Dante Lacosta)

  1. Ana Lúcia
    10 de maio de 2021

    Ambientação: achei bom. Gosto de história do fim do mundo que se passam no Brasil. É bom pra quebrará aquela ideia de que “tudo acontece nos Estados Unidos”
    Enredo: Gostei bastante da história, o final em aberto ficou legal e eu adoraria ler uma história falando mais sobre esse mundo.
    Escrita:fluida e gostosa. Não foi cansativa, porém achei alguns dos diálogos meio não naturais.
    Considerações gerais: Adorei muito o conto.

  2. opedropaulo
    8 de maio de 2021

    AMBIENTAÇÃO: É o nosso mundo retratado às vésperas do seu fim, achei que a estrutura do texto construiu uma tensão apropriada para esse momento, chamando atenção para as reações diversas, da incredulidade ao desespero. Mais próximo para o final, o novo contexto também foi apresentado de forma verossímil, com a ruína das instituições e a proliferação dos mortos-vivos pelas ruas, num cenário verdadeiramente pós-apocalítico, com direito ao “kit-fim-do-mundo”: carro e armas. Só faltou o café.

    ENREDO: Alguns colegas chamaram a atenção para a mistura de gêneros que competem pelo espaço do texto, o que acredito ser um dos pontos positivos. Não é que uma história de amor concorra com uma história de apocalipse, é apenas que, enquanto o mundo acaba, a vida de todo mundo não deixa de ter suas situações particulares. Aqui, o protagonista lida simultaneamente com a morte de sua mãe e com o fim do seu casamento, enquanto as horas avançam para a chegada do meteoro. Foi a melhor escolha. Com a decisão de fazer cada seção do texto avançar para mais próximo do impacto, era necessário que nos preocupássemos com outras coisas para além disso e, ainda mais, acrescenta uma tensão a mais que outros dramas ameacem de ficarem inacabados devido à interrupção desse meteoro. Com tanto para atentar, achei a introdução de zumbis no final uma reviravolta bem calculada, que não pude antecipar. Credito a autoria por ter conseguido brincar com as expectativas desse jeito.

    ESCRITA: Achei bem pragmática, por vezes um pouco explicativa demais. Os diálogos parecem despropositados, mas nisso imaginei que de certa forma espelham a vida real. As conversas cotidianas geralmente não servem para a literatura, mas pareceram caber aqui devido à intenção de mostrar como a vida continua mesmo à margem do fim do mundo.

    CONSIDERAÇÕES GERAIS: Atende ao tema, constrói uma história em as subtramas se comunicam bem e servem à construção de um clímax impactante. Talvez eu seja o único aracajuano lendo o texto e, portanto, preciso chamar a atenção para um detalhe muito importante.

    Aracaju não tem acento.

  3. Tolbert Dzowo
    7 de maio de 2021

    Ambientação : Boa, pude me sentir nesse, tendo só 10 meses para preparar tudo, uns com certeza ficariam naquela de que é mais uma trapaça do governo, outros enlouqueceria.
    Erendo : O princípio foi comovente, tadinho do Jonas, não sei o que ele fez no passado por isso, por isso me sinto no direito de sentir pena dele e raiva da ex, eu no lugar dele não a procurava mais.
    Escrita : Boa e fluente.
    Considerações :Tadinho do Jonas, a ex práticamente ignorou a morte da mãe dele, só se importava com as coisas dela, que insensível, morte é morte.
    Isso é verdade nem todo mundo suporta desaforos, por isso muitos optámos por trabalho a conta própria.
    Que morte triste ela estava tão desesperada que desistiu da vida, mas ela sendo uma cristã acredito que ela valorizaria mais a vida até o último segundo, quem ama Deus não comete suicídio. Tadinha da Glorinha, mas também ela acabou sendo um pouco precipitada, entende se pelo facto de ser um fim do mundo.
    Até aí está bom, já essa história de zumbis meio que estragou o errendo, gostaria de saber como ele não se transformou? Mesmo após ter sido mordido? A história de zumbis foi meio para terminar o errendo as pressas. Gostei do princípio já o fim não foi lá tão bom, poderia ter um desfecho melhor.

  4. antoniosbatista
    6 de maio de 2021

    Ambientação= Ambiente em suspense à espera do fim do mundo.

    Enredo= História com meteoro caindo na Terra não é novidade. Muitos livros filmes, me lembro de Impacto Profundo e o caos em seguida.

    Escrita= Simples, sem grandes floreios. Alguns errinhos que passaram na revisão. Algumas ideias são boas outras nem tanto.

    Considerações Gerais= A história começa com o suspense gerado pela queda do meteoro, as horas vão marcando o tempo que resta para o impacto. Quando o protagonista acorda, descobre que a humanidade se transformou em zumbi. É uma reviravolta meio cômica, o cara saindo gritando que quer café. O final não me surpreendeu.

  5. Anderson Prado
    4 de maio de 2021

    Ambientação: Este é mais um conto ambientado na nossa realidade atual. Dentre desse contexto, considero o conto bem ambientado.

    Enredo: Os mesmos motivos que tornam o enredo engraçado, tornam-no deficitário: é divertido observar o rumo despropositado que a história toma. Ora pareceu uma história de amor; ora uma história de fim de mundo; ora uma história de zumbi. Uma verdadeira miscelânea.

    Escrita: Infelizmente, é o ponto fraco do conto, pois o autor foi descuidado na revisão: há muitos erros aparentemente cometidos por causa de uma escrita apressada.

    Considerações gerais: O conto parece trabalho de um escritor em formação, mas muito promissor. Nota 9,6.

  6. thiagocastrosouza
    4 de maio de 2021

    Ambientação: Começa bem, descrevendo as informações de maneira breve logo no início do texto, inserindo a ameaça e, logo depois, introduzindo os personagens. Pontuar hora e local dos acontecimentos também localizou esse leitor no conto.

    Enredo: Um pouco sem rumo, achei. O que seria um conto de catástrofe natural descamba para um conto de zumbis sem muita naturalidade, e todo o clima arquitetado no início do conto termina numa série de ações em sequência do protagonista nessa nova configuração mundial. Além disso, há problemas na forma como o personagem é construído, me pareceu, pois o autor ou autora se esforçou para que tivéssemos por ele quase nenhuma empatia. A forma como ele lida com a morte da mãe, como dialoga com os outros personagens e interage com esse mundo na iminência de terminar é apática e mecânica. Não há remorso, ressentimento, não há muita coisa, na verdade. Como você mesmo escreveu, ele é pura letargia. Há algumas coisas propositais no enredo que também me chamaram a atenção, como o fato do protagonista ser vizinho de um amigo que, para justificar o seu futuro acesso às armas de fogo, é fã de ficção científica e um adepto de teorias da conspiração.

    Escrita: Boa, apesar de um ou outro erro de digitação. Teve acertos na divisão das partes e acho que poderia deixar os diálogos mais fluídos e naturais. A reação de Selma com a morte da sogra foi difícil de engolir.

    Considerações Gerais: Estava indo por um caminho interessante, instigando esse leitor, e terminou num conto de ação mais despropositado. Como disse, toda a construção criada no início do conto foi por água abaixo. Porém, tem méritos na forma como encadeou as cenas, pelo menos até a queda do meteoro.

  7. Ana Caroline de Arimathea
    3 de maio de 2021

    Ambientação: Boa, da pra imaginar bem este mundo tanto antes como após a colisão

    Enredo: Legal, mas acho que poderia melhorar com um foco maior, muita coisa acontece antes do meteoro, a mãe morreu, a relação dele é citada, mas quando o mundo acaba estes fatos não retornam com alguma relevância o que acaba fazendo com que fiquem esquecidos

    Escrita: Muito boa, nenhuma critica quanto a isso

    Considerações gerais: É um conto legal, tem uma escrita fluida acho que você fez um bom trabalho

  8. Lucas Julião
    2 de maio de 2021

    Ambientação: Tá legal. As descrições tão razoáveis
    Enredo: As coisas parecem ter ido rápido demais. O roteiro não se decide entre uma comédia e um drama. Apesar de pontos muito altos, e desenvolver uma afinidade com o personagem, tudo se perde quando ele muda rapidamente de tom. Ainda sim é divertido…Sem contar que quando se torna uma história de zumbis o escritor aproveitou o plot do “the walking dead”
    Escrita; Não achei nada de errado.
    Considerações gerais: Está bem escrito, até que é legal mas quando deságua em comédia ele perde o que fazia dele realmente interessante. Se o texto soubesse como passar de drama para comédia ou fosse sempre cômico ia ser melhor. Por hora é 6,0/10

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Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.