EntreContos

Detox Literário.

[EM] O fim daquele pequeno mundo lilás (Blueberry)

Abriu os olhos e viu-se cercada por uma suave névoa lilás, em um lugar que não conhecia. Não lembrava do passado e tinha dificuldade de firmar o passo naquele presente meio escorregadio. Parecia que tudo naquele lugar era revestido pela mesma essência que reveste os sonhos.

Teve dificuldade para dar os primeiros passos, pois era como se ela estivesse fixada onde estava. Mas após a dificuldade inicial conseguiu se mover sem problemas e depois  de passar a confusão que sentia devido ao impacto de acordar naquele lugar ela conseguiu analisar o entorno de onde estava com mais atenção.

Com um olhar mais apurado, ela notou que parecia estar em um tipo de floresta, com árvores de tamanhos e cores variadas. Andou para frente, visando achar a saída do local.

Depois de andar um pouco, chegou ao que parecia o limite da floresta. Para sua surpresa, depois de certo ponto, por mais que tentasse andar, não conseguia mais sair do lugar, porque era como se uma barreira invisível a impedisse de seguir em frente.

Com as mãos espalmadas, tentava analisar a barreira que estava à sua frente. Ainda estava concentrada nesta ação quando ouviu vozes que pareciam vir de algum lugar além daquela barreira:

-A minha amiga Amora se mexeu! Tenho certeza!

Outra voz disse alguma coisa em resposta, mas ela não conseguiu entender bem o que era, pois o som parecia um pouco mais distante.

-Amora.- repetiu para si mesma o nome. Se perguntou o que estaria ocorrendo e se esse seria o nome dela mesmo. Quanto mais repetia, mas tinha a sensação de que esse nome a pertencia. Ficou alguns minutos em silêncio, apenas absorvendo a nova informação. Na quietude do momento, notava que as vozes pareciam cada vez mais distantes.

 Depois de alguns momentos perdida em seus pensamentos, resolveu que o melhor A fazer seria ir na direção oposta à barreira. Enquanto andava, notava, com mais calma, os detalhes das árvores e da grama. Em alguns pontos, a grama não passava de traços verdes no chão e, em outros, as folhas tinham cores mais fortes e vivas, com contornos mais definidos. Encontrou pelo caminho, até mesmo, uma grama de cor rosada, e, perto dela, árvores com folhas laranjas ou amarelas. Em cada olhar, tentava entender o sentido daquele mundo.

Andou mais um pouco, e, após passar por um lago com as águas verdes, chegou até uma vila de casas, que, assim como as árvores, tinham cores e formatos diferentes. A mesma névoa lilás da floresta parecia envolver levemente aquela nova paisagem. Foi nesse local que ela viu as primeiras pessoas.

As pessoas pareciam paradas nos locais em que estavam. Durante o tempo em que andava pelo lugar, não notava nenhum tipo de movimento e curiosa perguntou  o que estava ocorrendo com elas, mas não obteve respostas. Além de não se mexerem, as pessoas também não falavam. Amora sentiu como se estivesse em uma floresta em que, em vez de árvores, eram pessoas que estavam enraizadas no chão.

Cansada de ter andado muito e sem saber o que fazer no momento, resolveu dormir um pouco, esperando que quando acordasse as coisas estivessem mais fáceis de entender. O silêncio do local a ajudou a pegar logo no sono.

Quando acordou, novamente notou que algo estranho ocorreu enquanto ela estava dormindo. Algumas casas da vila e pessoas haviam sumido. No local onde estavam, havia surgido uma névoa lilás mais densa. Ficou em choque devido ao ocorrido e abriu e fechou os olhos na esperança de que as coisas voltassem ao lugar, mas não importava quantas vezes fizesse isso o cenário continuava o mesmo.

Começou a recuar de volta para a floresta, em uma fuga silenciosa, daquela névoa lilás.

-Temos que sair daqui! – ainda tentou dizer para as pessoas que seguiam paradas mesmo diante do ocorrido. As expressões delas seguiam sendo as mesmas do momento em que Amora chegou na vila.

Depois de um tempo acabou desistindo e seguindo em direção à floresta. Quando já estava a uma certa distância, olhou para trás e levou um susto com o que viu. Outras casas estavam surgindo no lugar das que haviam sumido, porém era possível notar que se tratavam de moradias diferentes. Os contornos das construções pareciam meio tremidos e as cores não eram as mesmas das anteriores.  Tudo ficou ainda mais confuso.

Aquilo a fez querer se afastar ainda mais daquele lugar. Queria ir para bem longe de todas as suas perguntas e também

queria que tivesse algum som naquele lugar além dos próprios pensamentos e da sua voz. Foi quando Amora se lembrou das vozes misteriosas do dia anterior e decidiu que voltaria para o local onde ficava aquela barreira. Precisava de um pouco de som naquele mundo silencioso dela e talvez os donos daquelas vozes pudessem ajudar a encontrar uma saída. 

Ao adentrar mais a fundo na floresta, notou que ela também estava diferente em comparação com o dia anterior. Constatar isso a fez começar a correr em direção ao limite da floresta. Não pensaria sobre as mudanças nas árvores, pois seria muita informação para ela absorver em apenas um dia.

Chegando no local ficou em silêncio tentando ouvir o movimento do outro lado. Tudo parecia silencioso a não ser por barulhos mais ao longe. Cansada fechou os olhos e apoiou as mãos na barreira.

Enquanto estava com os olhos fechados começou a lembrar que já tinha ouvido aquela voz misteriosa antes, provavelmente no passado do qual não tinha muitas lembranças. Foi essa voz que falou que o nome do lugar com árvores era floresta e muitas outras coisas que a ajudaram a reconhecer o que ela estava vendo.  Tinha uma vaga lembrança dela lhe falar de um mundo diferente daquele dela.

Ainda pensava nisso quando de repente sentiu seus braços atravessando a barreira como se atravessassem água. Seu reflexo inicial foi os puxaram de volta, mas não fez isso, pois viu ali a chance de sair daquele lugar. Mas por mais que tentasse não conseguia passar o resto do corpo. Pensou que talvez precisasse se concentrar mais.

Ainda pensava nisso quando ouviu o que pareciam gritos de surpresa do outro lado e uma voz dizer:

-A Amora está tentando sair da parede! Eu disse que tinha visto meu desenho se mexer.

-Temos que ajudar ela. – ouviu outra pessoa responder.

Ela ainda estava absorvendo essas palavras quando sentiu mãos segurarem no seu pulso e tentarem a puxar para fora. A barreira tentava a forçar a ficar, mas no fim com a ajuda ela conseguiu sair.

Uma vez fora sentiu o impacto das novas cores e formas daquele mundo, porém nenhum choque foi maior do que o de

 ver de fora o mundo em que tinha estado há poucos segundos. Viu a floresta e a vila e elas não lhe pareceram tão grandes. Eram o que sempre foram somente rabiscos em uma parede pintada de lilás. 

As meninas que a ajudaram a sair pegaram nela como se para confirmar que ela era mesmo real. Uma delas disse:

-Meu desenho ganhou mesmo vida. Estou tão feliz. De todas as bonecas que desenhei você era a minha favorita. Quando não fiz amigas na nova escola fingia que você era real e era minha amiga. Você pode ser amiga da minha irmã também?

Ela parecia pronta para dizer mais alguma coisa, mas o som de passos a interrompeu.

-A mamãe tá vindo. A Amora tem que se esconder por enquanto.

As meninas praticamente a empurraram para dentro de um lugar que elas chamaram de guarda-roupa . Por uma pequena fresta ela viu a mulher que tinha acabado de entrar no quarto.

-Vocês já desenharam de novo em toda parede.Eu disse que podiam desenhar naquele canto -a mãe das meninas falou apontando para o local da parede onde ficava a floresta – Mas vocês insistem em desenhar na parede toda do quarto de vocês. Então não me resta escolha a não ser apagar todos os desenhos.

A mulher começou a limpar a parede mesmo com os protestos das meninas.

Escondida no guarda-roupa, Amora observava a mãe das crianças limpando a parede e esfregando os desenhos. Logo as árvores começaram a desaparecer e Amora se sentiu triste quando a floresta onde tudo começou deixou de existir. A vila de casinhas foi se apagando casa por casa e as pessoas rabiscadas foram sumindo junto. A tinta se diluía e escorria como lágrimas coloridas que mancharam a parede. A mãe somente parou quando não havia mais nenhum vestígio dos desenhos. Aquele foi o fim do pequeno mundo que as crianças tinham desenhado  com lápis de cor e canetinhas na parede lilás.

“Numa linda passarela

De uma aquarela que, um dia, enfim

Descolorirá”

Aquarela-Toquinho

9 comentários em “[EM] O fim daquele pequeno mundo lilás (Blueberry)

  1. Marcia Dias
    10 de maio de 2021

    AMBIENTAÇÃO: Ambiente de sonhos, meio sem formas, ou com formas temporárias ou sobrepostas, com luzes indefinidas e inconstantes.

    ENREDO: Tomar consciência de si e do mundo sendo uma boneca foi uma ideia muito legal, não original, mas muito legal. A veinha aqui lembrou do clipe do Take on me, do A-ha.

    ESCRITA: Precisa de algumas revisões.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS: Surpreendente o conto no final. Cheguei a imaginar que era uma mulher descrevendo seu estado em coma, mas me surpreendi ao ler que era uma boneca ganhando vida. Faltou desenvolver um pouco mais, talvez enxugar um pouco as descrições oníricas, mas gostei.

  2. opedropaulo
    7 de maio de 2021

    AMBIENTAÇÃO: Bem trabalhada através de certa dose de psicodelia e da reafirmação recorrente da inconstância que cercava a personagem, até certo ponto instigando o leitor a tentar compreender o que se passava.

    ENREDO: A história de uma personagem ficcional cujo fim da narrativa é também o fim de seu mundo. Por um lado, fui pego de surpresa pelo final, entretanto alguns elementos faltaram para produzir o impacto que poderia ter tido. Em primeiro lugar, foi entregue muito espaço a linhas e linhas da personagem olhando ao redor e andando, sem que uma personalidade mais tangível e carismática se pronunciasse, o que faz da confusão dela pouco apropriável para o leitor. Com isso, embora a reviravolta impressione, não se lamenta verdadeiramente pelo mundo da personagem acabando e, outra face do mesmo problema é que não sobrou espaço para que as demais personagens pudessem se apresentar ao leitor.

    ESCRITA: Achei bem ágil, embora repetitiva mais por tratar das mesmas ações do que pela forma que foi empregada.

    CONSIDERAÇÕES GERAIS: Achei uma boa ideia à qual faltaram personagens mais consistentes para envolver o leitor.

  3. Tolbert Dzowo
    6 de maio de 2021

    Ambientação : estava boa no principio, depois me perdi nela.
    Erendo : um pouco confuso com muitos furos, acho que não se trata de nenhum fim do mundo.
    Escrita : Aqui notei que você, estava tentando evitar que as frases fossem longas demais, porém você acabou tendo uns erros com isso.
    Considerações gerais : Como eu já dizia não se tratava de um final do mundo, acredito que seria um final do mundo, se a aurora tivesse continuando num mundo e tivesse criado raízes lá e a mãe das meninas apagasse o mundo ela estando lá mesmo, seria como se ela fosse apagada de um mundo onde ela ama, não o que você criou que a deixou bastante confusa e sem entender tanto que a fez sair dele.

  4. antoniosbatista
    5 de maio de 2021

    Ambientação= Colorida, surreal.

    Enredo= Um bom enredo, apesar de não ser tão original. Já li histórias de personagens que saem dos livros, e de desenhos que ganham vida. Inclusive há filmes onde personagens de desenho animado interagem com pessoas reais.

    Escrita= Não é ruim, mas precisa melhorar,

    Considerações Gerais= Precisa ter cuidado ao pensar numa ação, na construção de frases. Até quase a metade o assunto é o mesmo, a garota tentando descobrir onde está, coisas que aparecem e desaparecem. Você escreve mas não revisa as suas ideias para ver se estão corretas, antes de concluir o parágrafo. Escreva, pare, leia desde o início. Você escreveu a palavra –parecia- 12 vezes! Até a metade do texto, cada parágrafo tem um “parecia”. Alguém pode pensar que isso é algo sem importância, mas não é. Veja que, para a personagem tudo parece uma coisa que não é. Talvez você também estivesse em dúvida e assim o início ficou meio confuso. Tenha sempre em mente que uma coisa pode ser dita de várias maneiras e formas. Esse é o segredo de uma boa escrita. É possível modificar as frases, retirando as repetições, ou as evitando, Boa sorte.

  5. thiagocastrosouza
    3 de maio de 2021

    Ambientação: propositalmente confuso, funcionou bem até a saída da protagonista da parede.

    Enredo: Instiga o leitor em seu início, mas o desfecho deixa a desejar, principalmente na forma como soluciona o mistério, através de diálogos explicativos e pouco críveis. Como disse em outro texto do desafio, os personagens falam exatamente aquilo que o autor quer explicar para o leitor.

    Escrita: Há pontos positivos, como o mistério construído no início e toda ambientação que você arquitetou. Como pontos negativos, destaco a maneira que conduziu a ação, muito descritiva e burocrática. Uma conselho que ouvi em algumas oficinas de escrita: sempre há outra forma de colocar para o leitor os pensamentos do personagem, as ideias que passam pela sua cabeça, e no seu conto, o tempo todo você diz que a personagem estava pensando nisso, naquilo, enquanto fazia outra coisa ela pensava, perdida em pensamentos, etc. Isso deixa a leitura pouco dinâmica, pois não há movimento. Outro ponto negativo são os diálogos. Uma pessoa acaba de sair da parede do quarto e a primeira coisa que a criança faz é contar uma micro história sobre os desenhos que fazia quando se sentia sozinha na escola. Ao mesmo tempo que os diálogos trabalham para a trama, precisam soar naturais e verídicos.

    Considerações finais: Acho que você precisa trabalhar mais o texto e pensar com carinho na forma como os personagens irão interagir nos mundos que deseja criar.

    Siga escrevendo e grande abraço!

  6. Ana Lúcia
    3 de maio de 2021

    Ambientação: achei confusa no começo, porém ao passar do conto a história começa a fazer cada vez mais sentido e achei bem desenvolvido.
    Enredo: criativo e bem feito. Como outra pessoa disse, achei muito parecido com um sonho.
    Escrita: bonitinha, poderia ter sido melhor revisado, já que os parágrafos ficaram meio mal divididos.
    Considerações finais:não tenho muito mais a dizer. Além de que gostei bastante e que o autor tem muitíssimo potencial.

  7. Ana Caroline de Arimathea
    2 de maio de 2021

    Ambientação: Um pouco confusa no começo mas não de forma prejudicial

    Enredo: Bonitinho, eu ia lendo e parecia um sonho, achei criativo

    Escrita: Não está ruim, mas tem algumas repetições e expressões que poderiam ser substituídas. Isso se aprimora fácil com pratica e leitura

    Considerações gerais: É uma boa história lúdica e criativa, recomendo daqui a uns 6 meses você reler e tentar reescrever, você vai ver como ela vai ficar ainda melhor

  8. Lucas Julião
    2 de maio de 2021

    Ambientação: Muito boa, fofa.
    Enredo: Tá, é interessante.
    Escrita: Talvez seja culpa do site, mas os parágrafos estão mal divididos:
    Considerações gerais: Não é uma história sobre o fim do mundo. É bonito, é sensível…mas não é definitivamente uma história de fim do mundo. Apesar de bonito e tudo mais não existem muitos elementos que configurem um carinho especial da personagem aquele mundo e sério, é só um desenho apagado. Nós estamos no meio de uma pandemia, caos climático e global. Para o leitor, apagar um desenho não é nada. Mas ainda sim é melhor que alguns dos contos que li.

  9. Anderson Prado
    1 de maio de 2021

    Ambientação: Durante a leitura do conto, achei a ambientação confusa, mas a revelação, no desfecho, de que se tratava de um desenho na parece fez tudo ter sentido.

    Enredo: O enredo não me impressionou muito, pois não acontece nele muita coisa: a protagonista se limita a tentar fugir de seu mundo. Porém, mais uma vez o desfecho se mostra esclarecedor.

    Escrita: A escrita está bem encaminhada, mas possui espaço para amadurecer. Ademais, infelizmente o autor foi um pouco descuidado na revisão, cometendo uns erros bem bobinhos.

    Considerações gerais: O conto é fofinho demais. A fofura dele derreteu meu coração. Acabei amando. Pena foi o descuido na revisão. Enfim, nota 9,6.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.