EntreContos

Detox Literário.

A Jaula – Conto (Rinaldo Ramos)

A JAULA

Paixão & Fúria em uma história alucinante.

Era um clube que estava situado na zona rural da cidade e chamava-se Jaula.

Funcionava em um antigo galpão, onde outrora existiu uma fábrica de tijolos.

Com a fábrica falida, foi reformado e abriu como bordel, que no decorrer do tempo transformou-se na Jaula. Do bordel, a Jaula herdou o ambiente de penumbra.

Nessa época, houve um incêndio no clube central, o único que havia na cidade. Sem outra opção de lazer, as turmas, que ficavam limitadas às esquinas e barzinhos dentro das fronteiras de seus bairros, começaram a se encontrar no até então desconhecido puteiro, mais atraídos pelas bebidas e espaço do que propriamente pelas músicas e finalidades a que se destinava o lugar.

Com os frequentes e variados pedidos de músicas alternativas feitos por consumidores tão ávidos de álcool, o dono do negócio lucrando como nunca, e as brigas tornando-se constantes, uma noite resultou na morte de uma garota que lá ganhava a vida, no que decretou o fim do bordel e o surgimento da Jaula. A essa altura, o lugar já era frequentado por todas as tribos ditas urbanas que viviam nas redondezas, principalmente por aqueles que curtiam um som pesado. Havia roqueiros, cabeludos, hardcores, headbangers, punks, carecas e quem mais se arriscasse naquele local distante, isolado e violento.

As brigas eram frequentes e quando acontecia o confronto, a algazarra era geral. Entre gritos de incentivo e protestos, assobios estridentes e sonoros palavrões, a imensa maioria de seus frequentadores adorava e vibrava com aquilo.

Notando que o consumo de bebidas simplesmente triplicou com as porradas, o inescrupuloso dono do negócio deixou a coisa rolar, tendo apenas o cuidado de contratar verdadeiros gorilas como segurança, de modo que nunca perdesse o controle da situação no local. Assim, diferentemente do que acontecia no clube central, quando turmas brigavam contra turmas causando tumultos descontrolados, uma vez iniciada a briga, rigorosamente tinha que ser de apenas dois oponentes, um contra um, mão a mão, ninguém podendo interferir, muito menos prestar auxílio. Em suma, não se devia interromper o duelo, que só terminava com o nocaute de um dos contendores.

Durante a briga, aos amigos de ambos os lados, só restava torcer para que seu camarada levasse a melhor, aos demais frequentadores que nada tinham a ver com os dois adversários que se digladiavam, mais do que torcer por um final vitorioso, imploravam por pancadas, sangue e por fim nocaute, uma selvageria só. Os seguranças brutamontes deixavam bem claro que tendo começado a briga, aquela questão devia ser resolvida exclusivamente pelos dois opositores e só terminaria com a derrota de um dos dois, se alguém se intrometesse, fosse para separar, fosse para ajudar, sofreria severa e dolorosa represália por parte daqueles titãs. Assim, terminada a briga, só restava aos amigos do perdedor levá- lo o mais rápido possível ao hospital municipal, que para azar do infeliz ficava bem distante dali, no centro da cidade.

Todos que frequentavam a Jaula adoravam o lugar e cumpriam religiosamente suas regras. Todos estavam completamente adaptados aquilo, inclusive as poucas garotas que vinham acompanhando as turmas e que também vibravam com aquele ambiente selvagem.

A única vez que lá estive, e de terrível lembrança, foi por causa da minha gata. Ela morava em uma casinha simples, porém muito aconchegante, e lá estávamos em um dia de terrível tempestade. Bebíamos vinho, entre lençóis cheirando a suor e sexo. Lá fora, os relâmpagos e trovoadas explodiam em um verdadeiro dilúvio. Os estrondos amorteciam os sussurros de prazer, êxtase e a paz reinava absoluta em meio a velas e incensos espalhados por todo lugar. Em dado momento, me levantei da cama e fui até a janela ver como estava o tempo lá fora.

Ira se virou pra mim falando que havia trocado um cordão de prata por dois ingressos de um show com uma banda punk alemã que rolaria aquela noite.

—“E onde seria?” perguntei-lhe.

— “Numa tal de Jaula, conhece?”

— “Jaula”?…Sim, já ouvi falar, e muito, desse lugar”.

— É mesmo amor!? Então vambora conhecer essa tal de Jaula e nem me conta nada porque quero muito ver a banda e ouvir um punk. Essa semana vendi bem e vamos até de táxi; diz Ira sorrindo.

Apesar da chuva ter se acalmado, os coriscos ainda riscavam o céu. Podia-se dizer que o tempo continuava inclemente. Sentia-me cansado, havíamos trepado o dia inteiro, derrubado três garrafas de vinho.

Olhei para Ira e falei que com aquele tempo faríamos muito melhor se ficássemos em sua casa. Poderíamos assistir uns filmes, faríamos pipoca, ou mesmo pediríamos uma bela pizza, qualquer coisa, menos abandonar aquele aconchego para enfrentar o mau tempo lá fora.

Ira continuava deitada nua na cama fumando um cigarro. Agora ela olhava para janela e parecia não ouvir nada do que eu dizia.

Ledo engano. De repente ela olhou pra mim, foi lentamente abaixando os olhos e fitou o meu pau flácido com uma cara sacana que fez o bicho despertar em segundos. Então, saltando da cama como felina, veio até onde eu estava se enroscando em meu corpo como um doce gata manhosa. Olhando-me lascivamente nos olhos enquanto por baixo acariciava meu já pulsante cacete, disse sussurrando em meu ouvido que queria muito ir a esse show, e que quando voltássemos, ela me daria um belo trato com direito a cabelo, barba, bigode, costeleta e cavanhaque.

Mesmo contrariado, como é que eu poderia recusar convite feito com tanto empenho. Peguei-a no colo e assim fomos para o banheiro tomar um banho. Em seguida, nos arrumamos e enquanto comíamos alguma coisa peguei o telefone e chamei um serviço de táxi.

Também liguei para meu amigo Pinguim, e foi com grande contentamento que soube que ele e os outros dois parceiros da nossa banda também iriam ao show na Jaula. Assim como eu, eles nunca haviam estado naquele lugar, mas assim como Ira, eles também queriam muito ver a banda punk alemã. Então combinamos de nos encontrar por lá.

A noite prometia.

Ira usava um vestidinho básico preto de algodão bem decotado, deixando suas formas bem visíveis, e que formas, revelando suas grossas e torneadas coxas. Nos pés, um coturno que ia até abaixo de seus joelhos. Estava deslumbrante. Eu por minha vez, usava meu único par de tênis surrado, minha velha calça jeans desgastada e minha eterna jaqueta de couro já sem cor de tão desbotada.

Em seguida o táxi chegou, a chuva tinha parado e lá fomos nós para a Jaula. Saímos da cidade e logo entramos na rodovia estadual. Poucos quilômetros depois visualizamos a entrada da estrada de terra que nos levaria até a Jaula. Vendo os muitos buracos e lama causados pelo temporal, o taxista se recusou a entrar ameaçando voltar dali.

Ira deu de ombros e desceu dizendo que iríamos a pé. Com meio corpo pra fora do táxi disse a ela que seriam mais cinco quilômetros andando numa estrada mal iluminada, cercada de mato alto por todo lado, deserta e perigosa. Contrariada, mas convencida por meus argumentos, ela voltou e entrou no carro novamente.

Após uma rápida discussão, muita insistência e mais alguns trocados de recompensa, o taxista aceitou seguir em frente, e assim aos trancos e barrancos finalmente chegamos na Jaula.

Não havia mais ninguém do lado de fora e o que se via por todo lugar eram carros, caminhonetes, caminhões, motos, carroças e até cavalos estacionados e jogados por todo lugar.

Os ônibus rodavam apenas pela rodovia estadual. Arriscar-se descer e vir andando por aquela estrada deserta era correr o risco certo de ser chicoteado de cinto e sem piedade por integrantes das turmas que passavam a mil por hora em seus transportes. Essa era outra lei que se criara e o preço a se pagar por quem viesse a pé e desgarrado de sua gangue.

Apresentamos os ingressos na portaria e entramos sem problemas e a tempo de curtir a última música da banda que fazia a abertura do show principal. O lugar estava completamente lotado. As diversas tribos ocupavam seus territórios particulares cujos limites eram estabelecidos de acordo com o número de componentes de cada grupo. Os seguranças perambulavam pelo salão munidos de porretes e atentos a toda movimentação que ali acontecia. Zelavam pelas normas da casa. Podia-se sentir certa tensão no ar. Para onde se olhasse viam-se atitudes e gestos de provocação partindo de indivíduos que ansiavam por uma boa briga. Outros aguardavam a tão esperada porrada, que para eles era melhor que o próprio evento musical.

Ira ia majestosa na frente me puxando pela mão enquanto abria caminho por entre a multidão. Ela queria ficar próximo ao palco e para minha alegria vi de longe Pinguim, Carneiro e Cabeção acenando para nós. Continuamos andando em direção a eles e passamos em frente a turma dos carecas.

Era o grupo mais temido da Jaula e o que mais se destacava pela truculência de seus componentes. Seu líder era Morte-Lenta, uma criatura gigante e medonha. Usava nos punhos pulseiras de couro cobertas de tachas pontiagudas. Tinha os dedos das mãos repletos de anéis com sinistras saliências prontas para dilacerar e desfigurar rostos. Enroladas em volta do corpo usava espessas correntes. Estava sempre sem camisa a exibir tatuagens tenebrosas distribuídas pelos músculos. No pescoço um grosso cordão de prata com um soco inglês pendurado, uma bermuda colada ao corpo e um par de coturnos. Seu rosto grotesco marcado por cicatrizes causava horror e aversão. Sempre ao seu lado liderando o bando estava Rufus, outra figura gigantesca extremamente hostil totalmente devotado a seu líder.

Passando por eles, percebi de soslaio Morte-lenta olhando para bunda de Ira ao mesmo tempo em que falava alguma coisa no ouvido de Rufus.

Segui em frente sem dar muita importância ao fato, afinal de contas, Ira era mesmo muito gostosa e chamava atenção de todos por onde quer que andasse. No caminho passamos em frente ao bar e aproveitamos para comprar umas bebidas, tudo sempre bancado por Ira.

Eu não trabalhava e com dezenove anos estava um tanto atrasado nos estudos ainda terminando o último ano do ensino médio. Planejava com pouca clareza e sem muito empenho o que faria quando terminasse essa etapa, se iria encarar uma faculdade ou se tentaria arrumar um emprego. Afora esse detalhe de preocupação com o futuro, vivia com os meus pais e cantava numa banda podre de garagem com vagas pretensões de um dia me tornar um popstar.

Finalmente chegamos junto aos meus amigos no exato momento em que a banda alemã havia começado a tocar. Gritarias, assobios, aclamações, vaias e palavrões, tudo misturado. A algazarra era geral. O ambiente estava vibrante. Ira entrou em transe e dançava como louca, uma gata lindamente enraivecida, estava elétrica e não parava por um segundo. Para mim e para dezenas de marmanjos fazia um show à parte chamando a atenção de todos que estivessem à sua volta. Infelizmente também daqueles que não estavam tão próximos, como os carecas. Principalmente do líder deles, aquela aberração que lá do seu canto espreitava a minha felina que não parava de pular. Novamente não liguei muito para isso, havia vários homens que olhavam avidamente e com flagrante cobiça para Ira, que agitava pra valer, divertindo-se muito sem prestar atenção em mais nada, a não ser em mim e na banda. O som dos alemães, de fato, era muito bom mesmo, uma verdadeira porrada na orelha. Todos na Jaula estavam como que alucinados. Com o tempo, começou a me causar um ligeiro desconforto o fato de quase todos os homens a nossa volta não tirar os olhos da minha gata.

Em um estalo, lembrei-me que Ira estava sem calcinha. Ela nunca as usava, dizia dar alergia. Passei a prestar atenção e percebi que, de fato, naquele vestidinho, quando Ira pulava dava generosas mostras de seus dotes mais recônditos. Entendi no ato por que todos estavam vidrados nela.

Então, com discrição, pedi para se conter, administrar seus movimentos. Olhando-me sensualmente, ela aproximou sua boca de meu ouvido e, enroscando em meu corpo escorregadia como uma serpente, perguntou-me o que é que tinha os homens olharem, admirá-la, desejá-la? Não era eu quem a tinha na palma das mãos, afirmou-me ela, e saiu dançando como se nada tivesse acontecido. Sem argumentos, fiquei calado. Fazer o quê? Naquela ocasião, eu é que estava em suas mãos.

Por fim o show terminou o que achei ótimo, estava realmente muito cansado e louco para estar novamente na casa de Ira, a sós com ela, cobrando suas promessas de carinhos calientes. Mas o dono da Jaula vendo o lugar completamente lotado e vendendo bebidas como nunca mandou colocar o som nas alturas. Do alto de seu camarote e acompanhado por belas mulheres ele a tudo observava muito satisfeito com o seu negócio.

A noite se estendeu e ninguém fez menção de ir embora, nem meus amigos, muito menos Ira. Incansável, ela continuava a dançar e pular na maior euforia. Aliás a maior parte das pessoas que ali se encontrava também pulava histericamente. Resignei-me, resolvi entrar no clima e a noite se estendeu. Lá pelas tantas senti um esbarrão de alguém, que vindo por trás passou por mim com um sorriso diabólico em direção a Ira que, em êxtase, não se apercebeu de nada.

Era Morte Lenta, que dela se acercava. Nesse momento Ira estava alguns passos distante e em meio a todas aquelas pessoas pulando não dava para ver direito o que estava acontecendo.

Mas deu perfeitamente para ouvir quando ela gritou e de imediato correu de forma estranha para junto de mim com uma expressão de dor e pânico estampada em seu rosto. Ela me abraçou chorando copiosamente, e eu ainda sem entender o ocorrido, perguntava-lhe o que tinha acontecido. Em choque, ela apenas me puxava e gritava para irmos embora dali.

Morte Lenta aproximou-se e parou na minha frente. Agora ele me encarava com um sorriso de escárnio no rosto. Ao redor uma roda de curiosos se formava aguardando o desfecho na maior expectativa. Ia abrir a boca pra dizer alguma coisa quando insolentemente ele passou o dedo médio pelo meu nariz.

Naquela fração de segundos entendi tudo o que havia acontecido. O filho da puta tinha enfiado o dedo no rabo de Ira e o odor de merda e sangue ficou impregnado no seu dedo.

O ocorrido exigia de mim uma reação imediata e enérgica, porém, jamais havia estado em uma situação semelhante. Na verdade, nunca havia estado em uma situação de confronto corporal com alguém, e agora, estava de frente para uma aberração da natureza querendo meu sangue.

Naquele momento me senti como Davi contra Golias, só que dentro de uma Jaula e sem estilingue nem porra nenhuma nas mãos para me defender. Acordei desse ligeiro devaneio com uma violenta cabeçada no meio da cara. Cai no chão com o sangue esguichando das narinas esfaceladas.

A massa urrou.

Percebi que Ira contida por meus amigos gritava em total desespero. Antes que eu pudesse esboçar a mínima reação, recebi um forte chute no rosto que quase me fez perder os sentidos.

A galera vibrou.

Agora meu sangue escapava também pela boca. Cuspi um dente e senti outro pendurado. Antes tivesse desmaiado naquele momento, o que teria sido muito melhor, já que a briga, ou massacre, teria terminado por ali.

Mas apesar de um tanto atordoado ainda estava lúcido e o que veio em seguida foi uma sucessão de chutes e pontapés que levou o delírio dos circunstantes às raias da loucura. Isso estimulou ainda mais a besta fera continuar com sua sessão de espancamento. Estava sendo implacavelmente arrebentado. A música não parou um só minuto e eu, sentindo muita dor, sofria com as pancadas que recebia. De alguma forma e para minha sorte, o fato de estar caído no chão fez com que o animal não usasse suas mãos com aqueles terríveis anéis.

Não conseguia ver nada, e às vezes, no meio do clamor geral, conseguia distinguir os angustiados gritos de Ira. Como se fosse ela própria a ser massacrada, implorava desesperadamente para que alguém terminasse com aquela selvageria, pondo um fim naquela carnificina. Mas fazê-lo na Jaula era impossível.

A lei era do mais forte e todos que ali estavam, tarimbados frequentadores, sabiam das sérias consequências que tal ato poderia acarretar. Por isso, meus amigos seguravam Ira ao mesmo tempo que me incentivavam a reagir de alguma forma. Tentei acertar um soco, errei e isso estimulou ainda mais o maldito a continuar com o seu show de sadismo e barbárie.

De repente ele parou de me chutar, pegou-me pelos cabelos e começou a me arrastar pelo salão gritando a plenos pulmões que quem mandava ali eram eles, os carecas. Os turbulentos carecas liderados por Rufus estavam em verdadeiro frenesi e, exaltados, gritavam com toda força, pulavam e davam socos no ar.

Morte Lenta me exibia para todos, como se fosse uma caça abatida por ele. Minhas forças haviam se desvanecido, e entre um safanão e outro, deixava-me arrastar. Sentia-me o mais insignificante dos insetos.

Estava a ponto de desmaiar de dor quando, de repente, o miserável ainda segurando minha cabeleira parou de me arrastar, passou por cima de mim e colocou-se de pé, de modo que fiquei caído por baixo dele e com a cabeça entre seus coturnos banhados de sangue.

Então, o canalha me puxou violentamente para cima pelos cabelos até que minha cabeça encaixasse no ângulo formado por suas pernas e aí ficasse presa, encostada aos seus órgãos genitais. Fiquei ali imobilizado em uma desconfortável posição. Mesmo enfraquecido, podia sentir seu sexo aumentando de volume ao encontro de minha cabeça respondendo a satisfação sentida por seu proprietário. Naquele doloroso e humilhante momento tudo o que eu queria era que ele se desse por satisfeito e me soltasse. Certamente que eu de bom grado me daria por vencido e também satisfeito – e muito – por ainda estar vivo.

Mas ele queria mais.

O sórdido então começou a bater ritmadamente com as mãos em minha cabeça, como se a mesma fosse um tambor de guerra. Maldição! A cada pancada, seus anéis dilaceravam meu couro cabeludo, e logo meu rosto estava lavado em sangue, que de um lado a outro vertia copiosamente.

O sádico, de fato, sentia um enorme prazer no que estava fazendo, ou seja, me destruindo. Com muita dificuldade virei minha cabeça de lado e olhei para Ira, vi seu desespero e por um breve momento voltei no tempo, no dia em que a vi pela primeira vez.

Fazia pouco mais de um ano e foi em uma feira de artesanato que acontecia uma vez por mês no centro da cidade.

O evento estava muito devagar quando resolvi ir até a cantina beber alguma coisa e lá chegando me deparei com aquela tigresa lambendo um conhaque. Fiquei ali parado olhando para ela. De repente ela olhou em minha direção e abriu um sorriso tão espetacular que iluminou toda sua face e incendiou meu coração. Hipnotizado e magneticamente atraído, me vi indo impulsionado ao seu encontro. Me apresentei, puxei assunto e ficamos ali bebendo e conversando.

Iracema era seu nome, mas todos a chamavam de Ira. Tinha vinte e um anos, morava sozinha e ganhava a vida fabricando e vendendo artesanatos feitos por ela mesmo. Eram bijuterias, quadros e outras quinquilharias que ela trazia pendurados em um enorme mostruário. Foi amor à primeira vista e desde então nunca mais nos desgrudamos.

Uma nova pancada me trouxe de volta realidade. Do meio das trevas surgiu uma ideia.

Em um esforço derradeiro e ignorando completamente as dores atrozes que eu sentia por todo corpo ao fazer o menor movimento, levantei minha mão direita e, sem que o canalha percebesse agarrei seu saco escrotal. Rapidamente em um ato reflexo, ele agarrou com força meu punho com ambas as mãos, mas era tarde demais. Sem piedade, apertei como um alicate com todas as forças que ainda me restavam. Um de seus testículos escapuliu por entre meus dedos e o outro estourou, fazendo um barulho tão alto e assustador que paralisou e silenciou a todos que estavam ao redor. Soltando um grito aterrorizante Morte Lenta foi estrondosamente ao chão, livrando minha cabeça de suas pernas sem conseguir, no entanto, livrar-se do meu aperto de aço.

Rapidamente e sem dar tempo de reação busquei o outro ovo fujão e o segurei com firmeza. Vendo essa cena e o olhar desesperador de Morte Lenta, Rufus não se conteve e juntamente com alguns de seus seguidores partiu em socorro a seu Líder.

Pinguim, que inconformado e impaciente a tudo assistia, percebeu essa movimentação e foi pra cima de Rufus, e o que também se viu ali ao lado foi um combate furioso. Enquanto os seguranças se encarregavam dos outros carecas, Rufus e Pinguim lutavam ferozmente.

Logo de início o gigante atingiu meu amigo com violentos socos e pontapés que o fizeram dobrar as pernas, mas no momento em que Rufus lhe virou as costas se voltando novamente em socorro a seu líder, Pinguim aproveitando-se de sua distração se levantou e pulou como uma pantera em suas costas agarrando-se e cruzando braços e pernas pelo pescoço e corpo do gigante.

Rufus tentou se soltar de todas as formas até que os dois foram ruidosamente ao chão. O gigante socava, esperneava, escoiceava e estrebuchava enquanto Pinguim continuava firmemente agarrado às suas costas pressionando seu pescoço, até perceber depois de alguns momentos que o monstro já não se mexia e jazia inconsciente.

Meu amigo praticava numa cidade vizinha uma arte marcial chamada jiu jitsu e naquela noite provou a todos que o negócio funcionava de verdade. Ele sempre dizia que essa modalidade de luta, chamada de arte suave, dava poderes ao mais fraco de vencer o mais forte através da submissão, era pura técnica usada contra a força. Os outros poucos carecas que seguiram Rufus na tentativa de resgate a Morte Lenta também foram brutalmente rechaçados pelos seguranças e logo se aquietaram em seus lugares. Ainda contida por Carneiro e Cabeção, Ira olhava impaciente o desenrolar das ações. Olhei para ela, fiz um leve sinal com a mão que estava tudo bem e novamente voltei minhas atenções para Morte Lenta. Agora estávamos ambos no chão, com a diferença que eu estava por cima e ainda segurando com firmeza o único testículo que restara do animal. Senti crescer no meu íntimo um forte sentimento de vingança que de alguma forma restaurou-me as forças.

Vislumbrei o soco inglês em cima de seu peito. Rapidamente encaixei meus dedos naquela coisa, levantei o braço e mandei uma bomba de esquerda direta em seu nariz sentindo com o impacto os ossos se esfacelando em mil pedaços.

Literalmente todo arrebentado, sentindo dores por todo corpo, com o rosto sangrando em profusão e a cabeça rachada, olhei bem firme e fundo nos olhos do facínora.

Havia sumido todo vestígio de sua arrogância e deboche que até alguns minutos atrás lhe era tão característico. Agora seu olhar era de dor, pavor, angústia e súplica. Então comecei a pressionar, apertar e quando ameacei esmagar seu último testículo acabando de uma vez por todas com qualquer possibilidade de algum dia ele poder gerar filhos, o mastodonte não suportou a pressão e desmaiou em agonia.

Não completei o serviço. Soltei de lado o infeliz. Já bastava.

Que o desgraçado tivesse aprendido a lição.

Em seguida, deixei-me cair para trás, extenuado. Finalmente aquele insano confronto que não deixou um vencedor – pelo menos para mim – acabava. Minha aparente vitória sobre o líder dos carecas foi, na verdade, minha salvação. Passei pelo calvário, mas saí com vida daquela Jaula. Ira altamente emocionada veio até mim e abraçou-me tão fortemente que não pude deixar de soltar um gemido de dor. Em seguida ela e meus amigos me conduziram com todo cuidado para saída.

Pinguim, também bastante machucado, sorria vitorioso enquanto apertava minha mão.

Partimos todos no carro de Carneiro em direção a uma clínica particular que pertencia a família de Ira que ficava situada em uma cidade vizinha. Enquanto isso, Morte Lenta e Rufus eram levados dali por seus coiotes envergonhados e feridos em seu orgulho.

Passava minha língua pela boca e sentia que, em dois lugares onde antes havia dentes, agora só tinha buracos. Ira me acalmava dizendo que os dentes estavam guardados em sua bolsa. Cabeção havia achado jogados no chão depois que a briga havia terminado.

Os amigos, nessas horas, o que faríamos sem eles.

Agora, passado o tempo que o sangue esfriara, as dores tornavam-se insuportáveis. Na clínica, foram constatados diversas fraturas e outros traumatismos. Pinguim e Ira também precisaram de cuidados. Ele tinha o nariz e costela quebrados além de vários cortes espalhados pelo rosto. Já ela precisou tomar vários pontos na região do ânus. Morte Lenta a machucou bastante com aquele dedo asqueroso e seu anel pontiagudo.

Curiosamente essa desesperada ida à clínica de sua família fez ela reatar os laços familiares rompidos alguns antes. Tudo porque havia fugido de casa ao se recusar fazer medicina que era o sonho de seu pai. Realmente há males que vem para o bem. Após passar por algumas cirurgias reparadoras e estéticas, fiquei um mês internado recuperando-me e finalmente recebi alta podendo voltar para casa, ainda um pouco manco, mas com os dentes reimplantados e tudo de melhor a que tive direito.

O pai de Ira, cirurgião e dono da clínica, ficou surpreso com a rapidez de minha recuperação devido ao estado em que lá cheguei. Ira foi minha fiel acompanhante durante todo o período.

Mais apaixonados do que nunca decidimos ir embora começar e a vida em outro lugar. Meus pais um tanto resignados concordaram. Apreciavam muito tudo que Ira fizera por mim.

Pouco tempo depois, no dia da mudança, deixei ela terminando de encaixotar suas coisas e fui até a casa de Pinguim me despedir dos amigos que àquela hora estavam na garagem de sua casa ensaiando.

Não os via desde aquele infeliz episódio. A banda continuava a pleno vapor e já haviam até colocado outro vocalista no meu lugar. Chegando lá Cabeção foi logo me sacaneando pedindo para eu mostrar os dentes. Dei um belo sorriso mostrando para todos que tudo estava novamente no devido lugar.

Perguntei pela Jaula.

Carneiro falou que desde aquela noite eles não voltaram a colocar os pés naquele lugar, mas que o proprietário havia enviado um convite para banda tocar por lá quando quisessem. Pinguim contou que os dois viraram verdadeiras lendas.

Perguntei por Morte Lenta.

Ele falou que após o infeliz se recuperar no hospital municipal sumiu da cidade e nunca mais foi visto. Com isso, Rufus se tornou o líder dos carecas e mais revoltado do que nunca prosseguia frequentando o lugar à sua espera para uma revanche.

Também disse que a banda aceitaria o convite para tocar na Jaula, mas somente quando ele estivesse preparado para encarar aquele monstro novamente. Tinha certeza que Rufus o estaria esperando ao final do show.

Nesse ínterim, a banda seguia ensaiando todos os dias enquanto ele treinava duro na academia preparando-se para o confronto. Agora treinava também não só o jiu-jitsu, mas outras modalidades de luta. Tinha consciência que se naquela fatídica noite o gigante não lhe tivesse virado as costas provavelmente ele não teria tido chance alguma.

Ira chegou com o caminhão de mudança. Finalizei a conversa prometendo fazer contato assim que estivéssemos estabelecidos no novo endereço que iríamos procurar para viver.

Ainda não sabíamos que lugar seria esse. Pagamos pelo frete do caminhão para nos levar até outro estado, então ao longo percurso decidiríamos onde descer. Nos despedimos de todos, subimos na boleia e o motorista deu a partida. Saindo da cidade entramos na rodovia estadual e logo passamos em frente a estrada de terra que levava até a Jaula. Caminhões pesados entravam por ali levantando poeira com seus carregamentos cheios de bebidas. Nesse momento nossos olhares se cruzaram e lágrimas escorreram por nossa face.

Nos abraçamos e nos beijamos tendo a certeza que iríamos procurar um lugar bem distante e tranquilo para viver. Um lugar que definitivamente nos fizesse esquecer o inferno que vivemos dentro daquela Jaula maldita.

10 comentários em “A Jaula – Conto (Rinaldo Ramos)

  1. Anderson Prado
    21 de abril de 2021

    Você escreve (quanto a isso, não há dúvida: nota-se pela extensão do texto, pela sua disposição para contar e publicar esta história, pela sua criatividade e pelo mínimo de domínio técnico que possui). O texto me interessou, despertou minha curiosidade, mas confesso que, em alguns momentos, a ausência de certas vírgulas, a falta de algumas palavras e a presença de uns lugares comuns literários me dispersaram. O texto é bom, mas você pode mais. Seja mais cuidadoso na revisão e acabamento do seu trabalho. Você irá longe ainda. Parabéns!

    • Rinaldo Ramos
      27 de abril de 2021

      vc tem razão Anderson, sou mesmo relaxado com o acabamento, obrigado pelas palavras.

  2. antoniosbatista
    21 de abril de 2021

    A escrita é muito boa, as descrições perfeitas. Você se dedica a mostrar a cena com todos os detalhes, mas em alguns casos, descrições demais tornam a leitura enfadonha, cansa porque não diz nada novo. Eu também pulei algumas partes e continuei a leitura achando que haveria alguma coisa interessante no enredo, mas é só luta, socos e pontapés. Mas o conto é assim mesmo, é o seu estilo de escrever. O argumento não me agradou, gosto mais de drama psicológico, originalidade no enredo, reviravolta na história. Os personagens foram bem criados, porém alguns detalhes como o dedo sujo, não trouxe valor nenhum ao argumento, muito menos à Arte Literária. Como eu disse, você tem talento mas na minha opinião precisa reciclar a escrita, ser conciso nos detalhes, nas descrições, não se deter muito nas mesmas cenas para não aborrecer o leitor. Nota 8.

  3. Elisabeth Lorena
    20 de abril de 2021

    Olá, Rinaldo Ramos.
    Seu texto é duro, desconfortável. Entramos na jaula como desavisado narrador. A realidade retratada, a perversidade e o terror psicológico que o conto transfere ao leitor, ou a minha pessoa ao menos, cansa, exauri e não há como pausar a leitura. Li praticamente de um fôlego só. A violência gratuita contra a mulher, a exigência monstruosa para que o namorado tome posição. O clima antes da confusão, a expectativa do crueldade que sabemos ocorrerá desde o início, o tanto de perversidade exposta nos atos desumanos de Morte Lenta, a insanidade de Rufus, o amor ao dinheiro alimentando a barbárie, tudo isso é assustador.
    Não posso citar nenhum autor que escreva assim porque não costumo procurar esse tipo de leitura, entretanto, analisando seu texto com olhos apenas nele, ainda assim encontro muitíssima qualidade.
    O narrador cria um espécie de névoa entre o que vai acontecer e o que ele sente de forma que tudo o que acontecerá está posto desde o início, porém é demarcado como se o narrador nem sempre fosse a personagem principal. Ao construir a narrativa dessa forma, criando o afastamento da personagem principal de sua posição de narrador, cria uma narrativa crível, angustiante e ao mesmo tempo elétrica. Esse afastamento é pouco comum na maioria dos autores em sites de Oficinas literárias.
    Embora não seja um tipo de conto que eu goste, vejo a qualidade do fio narrativo bem estruturado. O campo semântico é bem delineado e o contato com outros escritos, como a passagem bíblica de Davi e Golias, por exemplo, é bem construído.
    A fuga de algumas obviedades e de cenas típicas de filmes como garrafas quebradas surgindo no pescoço do malvado ou cadeiras sendo arremessadas sobre o violento tornaram o texto mais pesado e mais real, embora, com certeza eu fizesse uso delas em um texto assim.
    Uma parte destaco, a que se refere a construção da mudança entre atacante e atacado: “Havia sumido todo vestígio de sua arrogância e deboche que até alguns minutos atrás lhe era tão característico. Agora seu olhar era de dor, pavor, angústia e súplica. ” Ao descrever a destruição da arrogância de Morte Lenta, o narrador foi magnífico.
    Quanto a dor da mulher pela violência sofrida e o desespero de ver o homem amado ser massacrado foi terrivelmente real. Sai da página para respirar, antes de vir comentar.
    Parabéns.
    Elisabeth

    • Rinaldo Ramos
      21 de abril de 2021

      Obrigado querida, adorei suas palavras.

  4. Andrea Nogueira
    20 de abril de 2021

    E “assim aos trancos e barrancos finalmente” o autor acabou sua história e eu sua leitura (pois respeito a todos que aqui escrevem, mesmo reconhecendo que pulei trechos e li outros em diagonal). UFA!
    .
    Impressionante, Rinaldo: você escreve como fala, quase sem respirar e sem muito respeito às regras gramaticais e de pontuação. Você vai gostar muito de ler “Um copo de cólera”, de Raduan Nassar (embora esse respeite e saiba muito de gramática e da nossa língua escrita).

    Mas posso fazer um pouco mais, Rinaldo: te aconselhar a ler muito e mais e mais livros de bons autores, a pesquisar manuais de redação e gramática e, se possível, seguir um bom curso de escrita criativa.

    É claro que há exceções, mas são raros os bons escritores que não possuem um certo domínio da língua e das técnicas de escrita (ou da pintura ou da música ou do cinema). Só mesmo artistas genias, como Glauber Rocha, podem dizer “Basta uma ideia na cabeça e uma câmara nas mãos”, ou no seu caso, um lápis nas mãos.

    Te indico vivamente os livros recém editados “O sol na Cabeça”, de Geovani Martins, um jovem autor carioca, “Torto Arado”, de Itamar Vieira Jr. Abraço.

    • Rinaldo Ramos
      21 de abril de 2021

      Obrigado Andreia, vou me atentar a suas sugestões.

  5. Wilson Barros
    20 de abril de 2021

    A ideia é muito boa. Apesar do tamanho, o enredo é interessante e prende o leitor.

    Havia um clube assim aqui na cidade, chamado “O Marujo”, campeão de ocorrências policiais. Por sorte, diferente da “Jaula”, o Hospital Geral ficava bem perto.

    O conto é beat e tem partes extremamente engraçadas, como nos contos de Bukowski, que preside a tudo.

    Um conselho: nessas brigas assim não se entra de mãos limpas. Sempre tem alguma coisa ao redor. Garrafa pet e porta-guardanapos servem. Boa sorte.

    • Rinaldo Ramos
      21 de abril de 2021

      Obrigado pelas palavras Wilson, sim Bukowski é sempre uma inspiração/transpiração. Quanto ao conselho, deixei bem explícito que ali na jaula é um contra um, mão a mão.

      • Wilson Barros
        21 de abril de 2021

        Talvez eu não tenha wido claro, nso estou me referindo à jaula kkkkkkkkk

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Publicado às 20 de abril de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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