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“Lente de Aumento Para Coisas Grandes” – Sabrina Dalbelo – Resenha (Fil Felix)

Posso dizer que nunca fui um grande fã de poemas. Sempre tive um certo preconceito, associando à poesia aquela imagem romântica, quase blasê. Engano meu, né? Foi somente em 2017 que comecei a prestar mais atenção aos poemas, tanto a ler quanto arriscar a escrever também. Acabei me dando conta do quanto se pode explorar nesse gênero, assim como suas inúmeras possibilidades. A poesia, diferente do conto ou do romance, atinge o leitor de maneira diferente. Quase sempre num ame ou odeie, mostrando que o poema fala muito mais sobre quem lê do que sobre o texto em si.

Recenteme li Lente de Aumento Para Coisas Grandes da Sabrina Dalbelo, um livro de poesias dividido em quatro capítulos, reunindo ao todo dezenas de pequenos poemas, pequenas doses que vão nos despindo. As vezes simples, as vezes complexas, mas sempre mostrando nosso eu mais profundo, desnudo. Essa é a principal característica (e também qualidade) no texto da Sabrina: ela consegue ser simples, mas ao mesmo tempo profunda; honesta, sem rodeios ou floreios; direta ao ponto. Admiro muito quem consegue sintetizar o que quer dizer, sem grandes explicações ou legendas, algo que tenho extrema dificuldade. Quando crio meus contos ou arrisco nos poemas, até mesmo nas ilustrações, tenho a tendência de viajar em metáforas que muitas vezes se tornam confusas demais quando chegam no leitor. Já em seus poemas, a Sabrina consegue viajar em metáforas sem tirar o pé no chão, sendo certeira em muitas delas.

A começar pelo título do livro, Lente de Aumento Para Coisas Grandes. Algo grande certamente não precisa de uma lente de aumento para ver, mas aí que entra a sutileza da poesia. Muitas coisas estão na nossa frente e não conseguimos ver, passamos por inúmeras coisas diariamente e não prestamos atenção. Muitas vezes, não enxergamos o óbvio. E é sobre isso que o livro trata. Seu primeiro capítulo, Foco na observação das coisas grandes, temos esse momento para parar e olhar, observar. Perceber o mundo como ele é, suas nuances e pluralidade.

sinto cheiro de coisa boa
quando abro as janelas
do meu coração
(p. 29)

Um primeiro capítulo que conversa muito sobre a questão de se abrir, ser sincero, leve! Para assim poder enxergar as coisas grandes, o que está aí, o óbvio. E é exatamente assim: quando se está aberto, tudo acontece, tudo flui. Mas também há espaço para aquela fina ironia, brincando com as palavras e convicções, como em “rima pobre”:

ofensa
rima com crença
não por nada
(p. 41)

O segundo capítulo se chama Foco no barulho que as coisas grandes fazem, aberto com um trecho do poema “Barulho” do Ferreira Gullar, o artista que costumava dizer que a arte existe porque a vida não basta. Aliás, Gullar também dizia que sua inspiração funcionava como um espanto, principalmente ao constatar que o mundo não está explicado. Além de grandes, essas coisas que passamos a enxergar também fazem barulhos, gritam, se pronunciam, dizem à que veio, fazem constatações. É um barulho que diz sobre quem ouve mais do que quem o fez. Assim como a poesia é muito sobre quem lê, pois ela desperta na gente coisas que muitas vezes preferimos deixar adormecido, aquela ficha que cai em nossa mente, que até olhamos para os lados pra ver se alguém percebeu. Esse tipo de barulho, que traz nosso olhar para nós mesmos, como nesse poema sem título:

não sou o que sonhei
não fui onde queria
não fiz o que poderia
tentei tanto e fracassei

cheio de vícios
fraquezas
muitas incertezas
reconheço meus erros
todos
culpo só a mim

sigo temeroso
diante de meu próprio
veredito
(p. 71)

E dessa forma a Sabrina Dalbelo vai escrevendo, desenvolvendo e explorando questões novas e velhas, sem medo de experimentar e sem se apegar a um formato específico. Tirando que cada poema ocorre numa página, a estrutura deles são das mais variadas, indo dos mais simples aos mais elaborados, com ou sem rima, com ou sem título, com ou sem estrofes. Demonstrando uma versatilidade imensa. O terceiro capítulo, Foco na descoberta das coisas grandes despercebidas, sintetiza e resume o percurso do livro, a ideia de se atentar e se abrir, como no poema “ponto de vista”:

contemplar o pouco
enxergar muito
observar o corriqueiro
e encontrar ouro

ou simplesmente
nada
(p. 79)

Um outro ponto muito interessante é a abordagem que possui sobre o próprio percurso. É um livro que te incentiva, que valoriza os caminhos e processos, a lidar com o envelhecimento, mesmo quando “esquecemos de ser adultos”. A última parte, Foco na identificação das coisas grandes, somos levados à um jogo de perguntas e respostas, como uma brincadeira pelo dicionário, a partir de uma citação do livro “Do Desejo” de Hilda Hilst: “Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada”. Assim, mergulhamos em mais de 40 pequenos diálogos-verbetes, como nesse abaixo:

VII
– Quem é você? – perguntou o leitor ao escritor.
– Eu sou você, que lê o que precisa de mim.
(p. 101)

O que me fez lembrar de uma outra pergunta literária bastante famosa, quando a Lagarta pergunta à Alice: “quem és tu?”, ao que ela respondeu “neste momento, nem sei bem, minha senhora”.

Lente de Aumento Para Coisas Grandes é um livro que reúne dezenas de poesias, das mais diversas, alinhadas a questões que abrangem nosso dia a dia, nossos medos e anseios. Sobre não alimentar rancor, vingança, ilusões ou mentiras. Um livro que te faz bem, traz uma sensação de alívio, de poder viver mais um dia, tentar uma outra vez, persistir e não desistir! Sabrina Dalbelo nos escreve uma palavra de esperança. Encerro com um dos meus poemas preferidos presentes nele:

o sapato sujo
conta sobre a estrada
não sobre os passos dados
(p. 83)

5 comentários em ““Lente de Aumento Para Coisas Grandes” – Sabrina Dalbelo – Resenha (Fil Felix)

  1. Bia Machado
    14 de julho de 2020

    Dizem que os contos devem vencer o leitor por nocaute. Acredito que no caso da poesia da Sabrina, o efeito é o mesmo. Um nocaute atrás do outro, capaz de nós arrancar, cada um à sua maneira, um determinado tipo de sensação/emoção. Muito bom!

    • Bia Machado
      14 de julho de 2020

      Nos arrancar, corretor infame!

  2. Josédtarsoafonso
    12 de julho de 2020

    É tão bom ter alguém que esta a beber no mesmo rio que eu Poesia e amo muito a poesia

  3. Fernanda Caleffi Barbetta
    10 de julho de 2020

    Que delícia de resenha!!! Tenho o livro da Sabrina na casa dos meus pais e agora fiquei ainda mais ansiosa para tê-lo em mãos. Parabéns pelo belo texto. Parabéns aos dois.

  4. Sabrina Dalbelo
    10 de julho de 2020

    Puxa, Fil, que texto maravilhoso!
    Tu captou a essência dos poemas, deixou-se invadir pelas coisas grandes e me retornou com esse imenso ato de generosidade.
    Nunca vou esquecer.
    Obrigada de todo coração,
    Sabrina Dalbelo

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Publicado às 10 de julho de 2020 por em Resenhas e marcado , .