EntreContos

Detox Literário.

Água Sanitária (Jurapê Jordão)

Eram todos meninos e meninas que mal chegavam aos vinte anos; adultos que se apertavam na fila do supermercado, num encontro de línguas quase esquecidas de mim. Desconfortada naquele desencontro de gerações, corri à fila dos idosos sem me dar conta de que por aqui, onde moro, deveria haver filas preferenciais para jovens e não para idosos, uma vez que somos muitos, há velhos demais, que tomam tudo, entopem tudo, de bancos a farmácias, passando por restaurantes… e supermercados.

Este lugar onde vivo é um grande território de caça, o dos velhos, quero dizer, e foi assim que uma jovem muito educada me capturou com seu doce laço: ‘Doe uma barra de chocolate pras crianças carentes?!’ Aquela menina era de uma organização não governamental que entregava chocolates a moleques ranhentos na Páscoa, que em breve chegaria. ‘Vocês vão doar chocolates pras crianças? Enlouqueceram? Depois vocês consertarão seus dentes?’, argumentei. Tolice dizer assim. Ganharia muito se mantivesse comigo o meu costumeiro e lúcido silêncio, pois aquela linda cachinhos dourados me fez ouvir uma insana e inútil explanação acerca de afetos, carências, humanidades… bobagens que havia um bom número de anos já não me diziam absolutamente nada.

Mas, de forma surpreendente, meu coração negro feito da pedra mais dura, do mais puro aço, atacado por aquela menina, sem meu domínio, amoleceu, tal como o mais ralo mingau, e lá estava eu segurando um pack de leite para dar de comer à minha osteopenia e uma barra de chocolate que doaria sei lá para quê criança, com quê carência, com quê humanidade… que certamente, de doce nunca seria, e cheia de cáries nos molares. 

Olhava o meu pack de leite e pulava para a barra de chocolate em minhas mãos, e voltava a ouvir meu coração dizendo que se procurasse um pouco mais atenta, veria aquela maldita barra de chocolate sendo vendida por algum ambulante em uma rua movimentada do bairro gritando ‘Chocolate! Chocolate! Chocolate!’. E tudo dito a plenos pulmões por algum adulto que certamente também seria carente. Acendi as luzes da minha caverna mais escura e resgatei de lá a alma triste que talvez, penalizada de mim, ainda me habitasse, e aguentei firme: era um quase nada de chocolate, que diabos!, que ficasse mais doce a vida de alguém, criança ranhenta ou adulto carente de algum dinheiro, que fosse.

 

Bem à minha frente, uma senhora acompanhava atenta o meu desconsolo, e me sorria com dentes nervosos que pouco se comportavam em sua boca, pregados às suas gengivas pela frágil cola da nostalgia, sob lábios murchos tomados de um vivo batom. 

Lembrei-me de quando era ainda uma garotinha e um medo insalubre me possuía: tinha pavor de que meus dentes não durassem muito tempo em minha boca. E tão grande era esse pavor, que quando via uma estrela cadente pensava mais fundo pedindo que eles permanecessem fiéis em seus lugares, brancos, firmes, perfeitos, e para sempre. 

Olhava atenta aquela mulher e a via lutando com suas estrelas cadentes, que teriam um coração tão duro quanto o meu: havia uma batalha em sua boca, onde furiosos tártaros, naquele quase deserto, lutavam contra rebeldes que impunham resistências, quando permaneciam firmes em suas gengivas. Ela me sorria; era tão simpática! 

Numa primeira linha de combate, uma baixa cerca de roça, só havia frágeis gravetos numa pegada luta, uma perdida rinha onde lutar era ceder, dia após dia, quando tártaros avançavam ganhando terreno, expulsando os poucos remanescentes, e entre os sobreviventes daquele insano combate, um solitário mourão dourado me deixava saber que um dia ali habitara um insurgente dentinho feito todo ele da branca porcelana.

― É a segunda vez que venho aqui, hoje ― ela me disse.

Olhei-a com displicência e sorri sem lhe mostrar meus dentes, como se os protegesse.

― Moro bem aqui em frente. É só atravessar a rua, passar por dentro do Metrô e chegar em casa. Tudo bem rápido. Lá dentro, no Metrô, quero dizer, tem escadas rolantes, o que me facilita bastante ― ela prosseguiu.

Os meninos e as meninas na fila ao lado se acotovelavam, diziam coisas, riam e eram ágeis nas respostas absolutas que davam. Sabiam tudo o que havia para saber, e o que assimilassem em seus anos futuros, seria apenas conhecimento, encalhe, tolice. A vida, aprendessem ou não, seria diferente de como a imaginavam. Era doce vê-los dominando tudo o que era preciso dominar; tão alegres.

A senhora à minha frente busca novamente a minha atenção:

― Tem um sinal aqui, antes do Metrô, e um outro, logo depois. É fácil chegar em casa.

― Ãhãm ― foi o que consegui articular, um pouco atordoada.

Eu a olhava e lá estavam todas as revelações, que naquela altura da minha vida, me bastavam para me pôr sob a linha baixa e confusa de pensamentos que me arruinavam: ela era uma mulher que passara dos oitenta, e eu já estava adiantada, no alto limiar dos setenta anos, e vê-la ali, tão próxima, tão desmantelada, me deixou desconfortada e pronta para fazer juramentos: jamais pintaria meus cabelos com aquele púrpura tão vivo, nunca usaria berloques que parecessem bolas de pingue-pongue, ou poria no rosto um par de óculos que me fizesse tal como um piloto da Primeira Guerra Mundial, embora me conquistassem suas unhas bem cortadas e polidas, perfeitamente esmaltadas por um branco perolado.

― Quando cheguei em casa com as compras, a minha empregada disse que eu tinha esquecido de comprar a água sanitária. Pense a senhora, pois foi justamente a água sanitária que eu esqueci.

― Ãhãm.

― Ah, mas moro bem aqui, logo em frente. Do outro lado do Metrô. É só atravessar a rua. Tem um sinal aqui e outro logo depois. Lá tem escadas rolantes, no Metrô, quero dizer, o que me facilita muito. É muito rápido chegar em casa.

Os meninos e as meninas não cessavam, eram elétricos, vorazes em tudo o que faziam, e pouco se importavam com a demora, com o tempo que passava. O tempo não havia, era uma abstração peculiarmente dolorosa criada por gente velha como eu, que dava ouvidos a ele. Aqueles jovens viviam cada dia como um grande momento que começava com a luz do sol e terminava com o cansaço do corpo que os derrubava em um sono de recuperação; apenas isto. 

― Olha! Aquele homem bem ali, na nossa frente, o que está parado no caixa conversando com a atendente… parece que nunca vai sair de lá, e a fila não anda. Parece que ele está colado no chão.

― Ãhãm.

Em seus pés os dedos descansavam uns sobre os outros, dificultando a sua marcha sobre sandálias antigas. A roupa, que perdera o viço, displicente sobre o corpo torcido aqui e ali, deixava ver as alças descoradas do sutiã que usava. A tintura purpúrea dos cabelos dava lugar ao prata nas raízes que fartamente se mostravam, e sobre tudo um lindo diadema dourado com pedriscos coloridos, o lindo halo que a definia e louvava a dignidade dos seus muitos anos. Era linda, então, transformada diante dos meus olhos de perpétua desolação.

― Minha empregada não é daquelas de todos os dias, sabe… hoje ela está lá em casa e deu pela falta da água sanitária quando cheguei logo cedo com as compras.

― A água sanitária… enten ―

― Ela vai lá em casa aos sábados. Hoje é sábado, não é isso?

― Sim, hoje é sába ―

― Venho todos os sábados ao supermercado, logo pela manhã.

― Sim, imagino que venha. É uma boa hor ―

― Uma boa hora. Venho comprar o que falta pra ela fazer a limpeza.

― Sim, a sua empreg ―

― Tive de voltar aqui porque não tinha mais a água sanitária em casa, tudo acabado, imagine a senhora… e sem a água sanitária a minha empregada não pode fazer a limpeza como deve, a senhora compreende. Então voltei até aqui pra comprar a água sanitária que ficou faltando. Olhe aqui.

― A água sanitária que ficou faltando. Estou ven ―

― Estava completamente vazio da primeira vez que vim, mas olha como está agora… totalmente cheio.

― Bem cheio. Muito che ―

― Muito cheio… e ainda tem esse sol… e esse calor terrível…

― E quê sol está fazendo hoj ―

― Ainda bem que moro do outro lado da rua, e não me custa nada voltar até aqui pra comprar a água sanitária que ficou faltando. A senhora imagina que fui esquecer justo da água sanitária?

― Ah, mas isso acontece, não se preocupe. Qualquer um pode esquecer alguma coi ―

― Sempre esquecemos alguma coisa. Ainda bem que moro bem perto.

― Passando o Metrô, a senhora está em casa, eu enten ―

― É só atravessar a rua, passar por dentro do Metrô, atravessar a rua novamente e estou em casa. Tem dois sinais de trânsito, um de cada lado. Chego em casa sem qualquer problema. Atravesso a rua no sinal, passo por dentro do Metrô, ando nas escadas rolantes, que muito me facilita, e atravesso a outra rua, bem no sinal de trânsito.

― Compreendo. Do outro lado do Met ―

― Isso, do Metrô. Olha aquele homem, ele não anda e a fila não anda. Deve estar de caso com a moça do caixa, sim, é isso, essa gente… Isso aqui estava vazio, já agora… veja a senhora, completamente lotado.

― O supermercado, sei, está bem cheio agora. E antes não estav ―

― Quando vim aqui da primeira vez, comprei o que precisava, menos a água sanitária, que esqueci. Então voltei. Está tão quente, Jesus!, com esse sol logo tão cedo…

― É verdade, hoje faz muito calor, sem dúvi ―

― Minha empregada é muito boa, a senhora entende.

― Imagino que sim. Deve ser muito boa se está com a senhora há tantos an ―

― Muitos anos, é verdade. Hoje é sábado, não é isso?

― Sim, hoje é sába ―

― É verdade. Santo Deus, se ela está lá em casa é porque é sábado, que bobagem estou dizendo… Ela deu pela falta da água sanitária logo que cheguei, e tive de voltar. Vou levar também um refrigerante, aproveitar a oportunidade e levar comigo um refrigerante pra casa. Este sol… Meu Jesus!, que sol está fazendo…

― Um dia de calor como o de hoje, pede algo geladin ―

― Geladinho, isso. Onde moro faz muito calor… é aqui pertinho.

― Sei. Bem do outro lado do Met ―

― Sim. Minha empregada está comigo há muito tempo.

― Fiel, certamente. E aguarda que a senhora leve pra casa a água sanitá ―

― Ela está fazendo toda a limpeza lá em casa. Precisou da água sanitária e viu que eu tinha esquecido. Deus do céu!, então corri até aqui e aproveitei pra comprar também um refrigerante. Está fazendo tanto calor…

― Um refrigerante bem geladinho é uma boa escolha.

Os meninos, todos eles, foram atendidos, e, como se unidos por um único desejo, desapareceram no limiar da rua, deixando-nos possuídos pelo vazio incômodo do silêncio de suas vozes tão animadas.

― Olha aquele homem. A senhora vê? Ele está ali há tanto tempo… e a fila não anda.

― Olha, senhora, ele acabou de sair. Agora é a sua vez… ― disse a ela.

Meu Jesus!, que azar o meu! Acho que me esqueci de alguma coisa, embora não saiba exatamente o quê, mas sei que esqueci, com certeza eu me esqueci de alguma coisa que agora não me dou conta. Talvez não seja apenas a água sanitária que esteja faltando lá em casa… A senhora pode ir na frente, por favor, que ainda vou dar uma olhadinha por aí e ver se lembro de algo mais que preciso e tenha esquecido.

― Está bem, obrigad ―

― Não devo me preocupar. A água sanitária eu já peguei… também o refrigerante, mas acho que ainda ficou faltando alguma coisa. O que eu poderia ter esquecido?

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.