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Detox Literário.

Pequenas Mortes Cotidianas – Paula Giannini – Resenha (Gustavo Araujo)

Dia desses, como forma de estimular a imaginação e afastar um pouco nossas filhas dos famigerados tablets, TV e celulares, compramos para elas um jogo de cartas chamado “A Caixa Mágica de Perguntas para Crianças”. São diversas questões que surgem a esmo para os jogadores responderem, que abrangem do cinema à filosofia, com o objetivo de levar ao riso e ao pensamento. Claro que nós, os pais, também entramos na brincadeira e, de repente, eu me vi obrigado a responder a seguinte indagação: que adulto você gostaria de ser?

Obviamente, várias personalidades passaram pela minha cabeça numa fração de segundo: Fritjof Nansen, Neil Armstrong, Marechal Rondon, Ayrton Senna, Érico Veríssimo… Mas, não tão surpreendentemente, o nome que venceu essa disputa instantânea foi o de Paula Giannini. Não pude evitar o riso quando as meninas olharam para mim e perguntaram: Quem?

A culpa desse arroubo de sinceridade, expliquei, foi o livro que eu acabava de ler – Pequenas Mortes Cotidianas, que a Paula lançara pela Oito E Meio em 2017, uma coletânea de dezesseis contos de sua autoria.

Há tempos venho acompanhando as criações da Paula no Entre Contos – sua primeira participação foi do desafio de Duplas, ainda em 2016 – estando acostumado ao seu estilo franco, suave e também profundo, desses que levam o leitor a ter uma experiência sensorial que mistura a admiração pelo trato do idioma com a emoção de seus enredos, não raro pontuados por revelações finais que funcionam como um soco no estômago.

Tudo isso está presente em “Pequenas Mortes…”, claro, mas há, no livro, algo mais, um liame invisível entre os textos que lhes confere uma sensação de unidade, que cria um buraco na alma do leitor por tratarem de nossas memórias, da vida, do tempo e de perdas.

No conto que abre a coletânea, por exemplo, “Mariposa”, temos uma mulher que passa os anos em coma, revisitando seu passado à medida que desperta, todavia inerte e incomunicável, testemunhando o envelhecimento de seu marido e filho. Um enredo doído, belo e triste.

Relações humanas adultas tampouco escapam desse foco, como se vê em “A Loba”, sobre uma mulher que briga com o companheiro e se desfaz das coisas dele, ou em “Casal Perfeito”, sobre as dificuldades que um rapaz enfrenta em vista de uma separação improvável.

Mesmo nesse contexto, há espaço para o humor, como se vê em “Porco no Rolete” e em “Deja Vu” que ainda assim levam o leitor àqueles pensamentos incômodos, embora não inéditos, que nos fazem imaginar como a vida teria sido se tivéssemos tomado outras decisões.

A infância é tratada com enorme sensibilidade nesse universo, em contos como “Mar de Vidro”, em que uma garotinha, após assistir a um programa na TV decide libertar seu peixinho; ou mesmo no doloroso “Bob”, em que um cachorro, abandonado pelos donos, busca a redenção; ou ainda no encantador “Com a ponta dos dedos”, em que uma aparente brincadeira com letras e formas conduz a uma descoberta emocionante.

Não se deve pensar, contudo, que por falarem de valores universais, como amor, amizade e velhice, a coletânea passa ao largo de questões sociais, políticas ou ideológicas. Há, sim, espaço para questionamentos perturbadores nesse sentido – necessários, diga-se de passagem – em contos como “Ossos Largos”, que trata de depressão e obesidade, em “Quase” cujo enredo se passa numa parada gay, em que uma mulher é confrontada pela própria velhice, e, principalmente, no sensacional “Lagartixa”, em que um político poderoso tem um filho que muda de sexo e que, ainda assim, deseja a maternidade. Em todos esses textos, Paula trata de intolerância, de igualdade e de amor, posicionando-se de modo sólido, como deve ser.

Contudo, é nos contos que trazem a morte à espreita que se notam as maiores qualidades da autora – ainda mais naqueles em que o elemento fantástico faz-se também presente.

Já falamos de alguns deles aqui, mas não do excelente “Passarinhos”, com uma protagonista que tem o dom de ressuscitar animais, todavia a um preço muito alto. Há ainda o sensacional “O Espeleólogo” – ambientado na Ásia – em que a devoção de um neto pelo avô dá o tom que permeia uma jornada de imaginação em meio a perdas constantes. Há também o “Inventário”, em que memórias dolorosas surgem de objetos reencontrados para assombrar a personagem principal.

Por fim, não posso deixar de falar do maravilhoso “…”, em que todas as qualidades da autora se veem reunidas. Um texto curto e pungente que trata de memórias que se esfarelam e se reúnem a esmo, com o ocaso inevitável assomando-se ameaçador ante a uma atmosfera de aparente inocência. Para mim, o melhor conto do livro.

De certa forma, vejo a mim mesmo nos textos da Paula. Vejo meu próprio estilo, meus próprios questionamentos. Seria egoísmo, porém, acreditar que isso se dá unicamente em relação a mim. Na verdade, as indagações que ela propõe com tanta sensibilidade são aquelas que constroem as verdades de qualquer pessoa, que as fazem avançar, duvidar. Que as fazem ter esperança mesmo diante dos monstros que vez ou outra se erguem no horizonte.

São os questionamentos que nos fazem admirar e também temer a perda do tempo, das memórias e da vida. Por isso nos tocam.

Alguns dos contos do livro foram publicados em nosso site – uma busca pelo nome da Paula torna fácil encontrá-los. De qualquer forma, a leitura da obra completa é indispensável para quem tem como filosofia de vida o inconformismo com sua celeridade.

Vale cada segundo.

Um comentário em “Pequenas Mortes Cotidianas – Paula Giannini – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Amauri
    5 de janeiro de 2020

    Análise perfeita de uma obra realmente avassaladora

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Publicado às 5 de janeiro de 2020 por em Resenhas e marcado , , .