EntreContos

Detox Literário.

Moriama (ou Anatomia de um Novo Deserto) (Nandi Rhodes)

 

Semana passada boa parte do mundo parou porque uma criança de dez anos tentou suicídio em um famoso campo de refugiados na Europa. Em Moriama lembro-me de pelo menos cinco meninos que tiveram sucesso. Não houve choque, nem comoção. No fim das contas a geográfica dos homens é perversa.

A desnutrição é o maior problema dos grandes deslocamentos. Nós não abandonamos o nomadismo para termos um quintal grande com piscina e uma casa na árvore. Na África sedentarismo não é conforto, é autopreservação. A cada cem pessoas no mundo, uma é considerada refugiada. Em Moriama essa estatística se invertia e eu era esse “um”. 

A vastidão desoladora é testemunha chave quando digo que você nunca encontraria nosso Campo num mapa oficial. Ele não era reconhecido pelas Nações Unidas ou qualquer outra organização humanitária. Os ditadores sanguinários ao nosso redor ignoravam providencialmente nossa existência, afinal nosso sangue era seco e ralo. Moriama não tinha rede elétrica, esgoto ou água encanada. Mas ainda sim tinha vida. Era um lugar que não deveria existir por inúmeros – e praticamente todos – os motivos. Mas existia. Um deserto de almas cercado de desesperanças por todos os lados. Para alguém que não conseguia encontrar seu lugar no planeta, Moriama era provavelmente a derradeira tentativa. O suspiro afogado antes do fim. Resumidamente, sua “não existência” me servia bem e eu assim servia à ela.

Sempre tive a sensação de que os pacientes me enxergavam como quem enxerga um banco de prestigio; seguro, resoluto e filho-da-puta. Jamais busquei consolidar esse tipo de imagem, contudo, também não possuía nenhum interesse em quebrá-la. Durante anos vivi de modo clandestino entre a felicidade extrema e a tristeza absoluta. Na última década fui apenas um cativo da indiferença. E tudo deveria permanecer exatamente assim. Por isso, quando os soldados do acampamento me acordaram no meio da noite, deveria ter virado de costas e voltado para o confinamento dos sonhos. Mas ao invés disso, enxuguei a testa no lençol e amaldiçoei aquele pedaço do globo.

“Maldita África”, balbuciei, arrancando risinhos contidos dos rapazes fardados. “Maldita África” era um termo usado no fim de praticamente todas as frases usuais. Servia para pontuar coisas boas e ruins que ocorriam por lá e só lá. Sim, o continente mais belo e triste da Terra. O berço e, provavelmente, o caixão da humanidade.

Em Moriama você sobrevivia ao dia e tentava viver a noite. Creio que em nenhum outro lugar do mundo tenha-se maior respeito pelo Sol. No meio da balburdia inebriante, acompanhei os garotos até a enfermaria. Desnecessário pontuar que o local era inteiramente improvisado, afinal a vida ali era um improviso diário. Caminhei com passos aborrecidos até a cama mais discreta do local. Lá uma jovem estava deitada com cobertas puxadas até a altura do pescoço. Seu corpo tremia no calor escaldante. Não era uma cena rara para mim. O exame apenas confirmaria o que já era minha certeza. 

– Quantos foram? – perguntei acendendo um cigarro. 

– Só um, Doutora! – o soldadinho risonho respondeu pela menina.

– Quando?

– Mais ou menos duas horas.

– E por que demoraram tanto para me chamar? 

– É que estávamos cuidando do outro assunto, você sabe que ela é…

– Eu sei quem ela é. Onde está o idiota?

– No buraco, Doutora. 

– Preciso falar com ele antes de aplicar o coquetel.

– Acho que ele não vai conseguir falar muito…

Os rapazes compartilharam uma gargalhada sombria, que rebati com um olhar igualmente feroz. Encararam o chão, com falso embaraço, e me escoltaram até o prisioneiro. 

 

XXX

 

Arranquei o lampião de uma das mãos torturadoras e desci pela escada até o buraco. Jogado no canto como uma pintura rupestre encarnada, um homem fraturado respirava com dificuldade. Com a luminosidade precária fiz o possível para examiná-lo. Alguns ossos estavam partidos, por sorte nenhum na região torácica. Não havia nenhuma hemorragia aparente, porém ambas as orelhas tinham sido arrancadas. Ergui o lampião, iluminando o rosto do sujeito e tomei um susto. Um pouco abaixo do pescoço ele trazia uma marca inconfundível, mas foram seus amedrontados olhos de impala que me convenceram de imediato.

– Levem agora esse homem para enfermaria!

– Mas Doutora, o General deu ordens para que…

– Eu me entendo com Malong!

– Nós não podemos…

– Quantos médicos existem em Moriama?

– Só a senhora, Doutora?

– E espancadores de prisioneiros? – questionei, recebendo somente o silêncio da derrota como resposta – Só aqui eu vejo três!  

 

XXX

 

Minha relação com a ordem local do Campo era bastante conveniente. Eles faziam o possível para ignorar minha presença e eu insistia em retribuir-lhes o favor. Eram todos defensores do famigerado “olho por olho, dente por dente”, mas a verdade é que você jamais veria um líder cego que não tivesse o sorriso completo da impunidade em seu rosto. As exceções de Hamurabi.  

Uma das coisas que aprendi em minhas longas viagens é que sangue e terra são as coisas mais importantes do mundo. O solo avermelhado de Moriama reforçava essa convicção. O General era pai de vinte e três mulheres, poucas recebiam afeto que não fosse protocolar. Entretanto todas eram sangue do seu sangue, uma extensão natural do seu poder e da sua força vital. 

O General Malong era basicamente como o livro que repousava em seu colo. Um colosso rudemente encadernado, com frases inteiras apagadas pelo tempo. Um punhado de lendas amontoadas sobre premissas tortas e fábulas de múltiplas interpretações. Anacrônico, por vezes incompreensível, absolutamente perigoso.

Sem pedir permissão sentei na poltrona em frente sua mesa. Ele sorriu, com pepitas de ouro escalando o que sobrara da dentição original, e suspendeu os óculos escuros revelando o olhar acobreado. A brutalidade desconfiada de quem lutou a vida inteira para ser predador. Vestia uma farda verde-oliva do século passado. Mas quem roubava minha atenção era o par de meias vermelhas próprias de um psicopata.

– Como está minha filha, Doutora?

– Como uma vítima de estupro deveria estar! 

– E o homem que fez isso com ela?

– Rindo de felicidade com a estupidez de todos vocês.

– Às vezes, acho que a Doutora se esquece de onde está…

– O homem que vocês quase mataram não é o responsável pelo estupro da sua filha.

– Foi ele – o homem disse de forma seca, desviando o olhar pela primeira vez.

– Você também viu a marca, Malong!

– Isso não quer dizer absolutamente nada, eles são animais.

– Está falando sério?

– Tão sério como um câncer de esôfago! – ele provocou sem sucesso.  

– Muito conveniente vocês acusarem um sujeito que chegou tem duas semanas no acampamento e que não…

– Doutora, preciso confessar que tenho muito apreço por coisas convenientes. Coisas convenientes fazem bem para o meu povo e para mim. Mas dessa vez essa conveniência é a verdade. 

– A verdade não é o que você nos enfia goela abaixo

– Não. A verdade é o que o tribunal irá dizer amanhã. 

– Tribunal?

– A Doutora me tem por louco ou selvagem, mas a realidade é que sou…

– Um teatro, espetáculo que zomba da…

– Um democrata!

– Hipócrita e covarde.

O General destravou com ímpeto o coldre e repousou a pistola livre sobre a mesa. Se tivesse sobrado qualquer apreço pela minha vida, teria me curvado e implorado por perdão. Se tivesse sobrado qualquer apreço pela vida dos outros, teria agarrado a arma e puxado o gatilho. Como não havia me sobrado mais nada, apaguei o cigarro na ponta do cano do artefato e soltei a fumaça presa nos meus pulmões. 

– Doutora! – exclamou quando lhe dei as costas – Você nasceu na África, mas não é uma africana.

Continuei andando sem olhar para trás, em parte porque ele tinha razão, em parte porque não queria que ele visse a raiva consumindo cada músculo do meu rosto. 

 

XXX

 

Na enfermaria oito guardas rodeavam o prisioneiro. Um cordão de isolamento feito por corvos esfomeados. A filha do General, aparentemente esquecida no extremo oposto, fingia dormir o sono dos justos que não foram violentados.

– Vamos tentar encurtar nossa conversa – falei, empurrando de lado os garotos para chegar até o prisioneiro – Vou pedir para vocês saírem. Vocês vão se negar dizendo que receberam ordens. Ai eu retrucarei dizendo que suas ordens não valem merda nenhuma se nenhum de vocês sabe aplicar injeção ou dar um ponto. 

Demonstrando visível confusão, eles se entreolharam ao passo que apontei a porta de saída com desdenho. Acompanhei o movimento de soslaio e esperei que o último individuo cruzasse a linha. Acendi o quarto cigarro da noite e chacoalhei o paciente;

– Qual o seu nome? – questionei em bom tom para os ouvidos desprotegidos. 

– Ezana, ezana, ezana. – respondeu três vezes, crendo que entraria em uma nova sessão de espancamento. 

– Sr. Ezana, você veio sozinho para cá?

– Não, minha mãe e meu irmão vieram comigo. 

– Onde eles estão?

– Escondidos. Achei que se usasse turbante e andasse pelos cantos… – ele divagou com a voz febril.

– Ninguém fosse ver essa imensa marca no seu pescoço.

– É que…

– Não interessa.  A boa notícia é que você não vai morrer hoje. 

– E a má? – ele riu entre pigarros e tosse úmida. 

– Que você será julgado amanhã – disse, oferecendo metade do meu cigarro, que ele aceitou de pronto – E que dentro do possível vou explicar o que essa marca significa e quem sabe você saia vivo.

– Não faça isso, Doutora. Por onde passamos fomos perseguidos. Por minha causa fugimos de Gana, Nigéria, Chade, aqui eles têm uma chance de recomeçar. A última chance.

– Sem você! Porque a única chance de você recomeçar depois de amanhã é se aprender a ressuscitar. 

– Eu sei, mas…

– E uma vez que você é um pecador na maioria das religiões sua tarefa será bem mais difícil! – vociferei arrancando o meu cigarro dos lábios estraçalhados do sujeito. 

– Doutora, aqui em África a mãe de um estuprador carrega na garganta um nó de vergonha menor do que o da mãe de um…

– O nó no seu pescoço não é figurado! – interrompi a autocomiseração com a estridência de um grito que pensei não mais existir em mim. 

– Há tempos aprendi a tolerar a dor física causada pela intolerância. – Ezana falou pausadamente enquanto massageava a marca cicatrizada na nuca – Porém, é cada dia mais difícil ver as pessoas que amo sofrerem com os efeitos colaterais.  

Queria gritar mais uma vez, dizendo que ele poderia florear e romantizar seu destino como quisesse, mas que a morte cessaria apenas sua própria dor. Que o mundo continuaria igual, impondo as regras dos mais fortes e disseminando ódio por tudo aquilo que é diferente. Onde ele seria apenas mais um corpo, uma lição para posterioridade e não um mártir com um verbete na enciclopédia. Resumidamente, sua não existência não traria qualquer ruptura no status quo da humanidade. Não tive coragem. 

 

XXX

 

É preciso reconhecer o esforço do General Malong para simular um tribunal “convincente”. Sua tenda transformada em uma imitação precária de um julgamento ocidental de programa de televisão. A encenação com todos os personagens clássicos; o juiz impaciente, o promotor raivoso e o advogado comprado. Até Ezana, limpo e arrumado, aparentava certa dignidade se comparássemos com massa de carne da noite anterior. 

Decidida a não fazer parte da farsa montada, me enturmei na multidão tentando desnutrir meu espírito. Não demorou muito e encontrei a mãe e o irmão do prisioneiro. Não foi trabalhoso reconhecê-los no meio da turba, afinal eram os únicos que não estavam contagiados pela alegria do lugar. Sustentavam os mesmos olhos de impala de Ezana, o conformismo da presa frente ao inevitável. É complexo mensurar o quanto daquele olhar teve influência na minha atitude. Todavia, a realidade é que o fatalismo daquela pobre família me fazia mal. Por isso, antes que a filha do General começasse seu depoimento, invadi o ritual arquitetado e tomei de assalto a palavra. 

– Povo de Moriama, essa garota foi covardemente estuprada – eu disse, enquanto encarava o General. 

– Finalmente, Doutora. Mesmo não trazendo nenhuma novidade. – Malong exclamou, antes de rir teatralmente, com crueldade escorrendo em cada intervalo esperado, enlouquecendo as hienas salivantes da plateia.

– Fiz o exame momentos após o ato e posso afirmar categoricamente, que houve penetração forçada. Sêmen e hematomas são provas inequívocas do que digo. 

– Embora a questão já tivesse sido ultrapassada, Doutora, agradecemos sua colaboração…

– Ocorre que aquele sujeito, o Sr. Ezana, não foi o autor deste crime! – encarei a filha do General, esquecendo-me por um instante que ela também era vítima, e perguntei com a força de uma ordem – Você poderia me apontar seu agressor?

– Doutora, estou em dúvida se a senhora é advogada, juíza ou promotora. – O pai da garota observou tentando não perder as rédeas do espetáculo.

– Será que seu braço foi afetado por alguma paralisia momentânea ou é apenas vergonha? Aponte para o prisioneiro!

– A Doutora está cruzando todos os limites!

– Você não consegue nem encará-lo! – vaticinei enquanto andava até onde Ezana estava sentado – Esse homem que vocês estão vendo é um fugitivo e essa marca em seu pescoço indica que ele é um homossexual. Sim, marcado a ferro e fogo por outros  imbecis radicais.

– Isso não quer dizer absolutamente nada! – explodiu o General no silêncio pós-revelação – Esses maricas são animais! Sodomitas. 

A claque prontamente concordou com seu líder. A verdade é que o fato do prisioneiro ser gay não o transformava em um ser moralmente superior, impossibilitado de cometer crimes de natureza sexual. Malong sabia disso e contava igualmente com o preconceito de seu povo. O improvável não é impossível. Mas no meu âmago tinha certeza da inocência do sujeito. Contudo, de nada adiantava minha convicção. A realidade é que tinha sido vencida, os urros de ódio validavam minha conclusão.

Olhei ao redor para as pessoas de Moriama e selei meu destino. Acendi o último cigarro e lancei toda a fumaça na cara do General. “Covarde” cuspi as sílabas pacientemente na sua direção. As palavras serviram como as gotas que transbordam o copo do corpo. Transtornado, o homem libertou novamente sua arma. Dessa vez, apontando para minha cabeça extraordinariamente leve. Sorri esperando o estampido que nunca chegou. 

Encurralado pela minha situação, Ezana levantou-se e vagarosamente começou a se despir. A cada peça de roupa arrancada, pedia desculpas em silêncio para mãe e irmão. Quando baixou a calça, revelando seu corpo inteiramente nu, Moriama parou pela primeira e última vez em sua história. Virilha e púbis eram um imenso deserto cortado por uma cicatriz em forma de lago. A infertilidade desoladora onde certa vez existiu um sexo.  

Após 30 anos de estiagem, chorei. 

A perseguição tinha sido muito pior do que imaginara. As feridas da alma mais penosas. A existência apesar daquela ausência um exercício de coragem constante. Sua recente humilhação, minha tábua de salvação. 

Ódio e pena misturavam-se diante da surdez momentânea dos espectadores.

Ezana não morreu naquele dia.

Mas Moriama respirou pela última vez.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.