EntreContos

Detox Literário.

Moriama (ou Anatomia de um Novo Deserto) (Rafael Sollberg)

 

Semana passada boa parte do mundo parou porque uma criança de dez anos tentou suicídio em um famoso campo de refugiados na Europa. Em Moriama lembro-me de pelo menos cinco meninos que tiveram sucesso. Não houve choque, nem comoção. No fim das contas a geográfica dos homens é perversa.

A desnutrição é o maior problema dos grandes deslocamentos. Nós não abandonamos o nomadismo para termos um quintal grande com piscina e uma casa na árvore. Na África sedentarismo não é conforto, é autopreservação. A cada cem pessoas no mundo, uma é considerada refugiada. Em Moriama essa estatística se invertia e eu era esse “um”. 

A vastidão desoladora é testemunha chave quando digo que você nunca encontraria nosso Campo num mapa oficial. Ele não era reconhecido pelas Nações Unidas ou qualquer outra organização humanitária. Os ditadores sanguinários ao nosso redor ignoravam providencialmente nossa existência, afinal nosso sangue era seco e ralo. Moriama não tinha rede elétrica, esgoto ou água encanada. Mas ainda sim tinha vida. Era um lugar que não deveria existir por inúmeros – e praticamente todos – os motivos. Mas existia. Um deserto de almas cercado de desesperanças por todos os lados. Para alguém que não conseguia encontrar seu lugar no planeta, Moriama era provavelmente a derradeira tentativa. O suspiro afogado antes do fim. Resumidamente, sua “não existência” me servia bem e eu assim servia à ela.

Sempre tive a sensação de que os pacientes me enxergavam como quem enxerga um banco de prestigio; seguro, resoluto e filho-da-puta. Jamais busquei consolidar esse tipo de imagem, contudo, também não possuía nenhum interesse em quebrá-la. Durante anos vivi de modo clandestino entre a felicidade extrema e a tristeza absoluta. Na última década fui apenas um cativo da indiferença. E tudo deveria permanecer exatamente assim. Por isso, quando os soldados do acampamento me acordaram no meio da noite, deveria ter virado de costas e voltado para o confinamento dos sonhos. Mas ao invés disso, enxuguei a testa no lençol e amaldiçoei aquele pedaço do globo.

“Maldita África”, balbuciei, arrancando risinhos contidos dos rapazes fardados. “Maldita África” era um termo usado no fim de praticamente todas as frases usuais. Servia para pontuar coisas boas e ruins que ocorriam por lá e só lá. Sim, o continente mais belo e triste da Terra. O berço e, provavelmente, o caixão da humanidade.

Em Moriama você sobrevivia ao dia e tentava viver a noite. Creio que em nenhum outro lugar do mundo tenha-se maior respeito pelo Sol. No meio da balburdia inebriante, acompanhei os garotos até a enfermaria. Desnecessário pontuar que o local era inteiramente improvisado, afinal a vida ali era um improviso diário. Caminhei com passos aborrecidos até a cama mais discreta do local. Lá uma jovem estava deitada com cobertas puxadas até a altura do pescoço. Seu corpo tremia no calor escaldante. Não era uma cena rara para mim. O exame apenas confirmaria o que já era minha certeza. 

– Quantos foram? – perguntei acendendo um cigarro. 

– Só um, Doutora! – o soldadinho risonho respondeu pela menina.

– Quando?

– Mais ou menos duas horas.

– E por que demoraram tanto para me chamar? 

– É que estávamos cuidando do outro assunto, você sabe que ela é…

– Eu sei quem ela é. Onde está o idiota?

– No buraco, Doutora. 

– Preciso falar com ele antes de aplicar o coquetel.

– Acho que ele não vai conseguir falar muito…

Os rapazes compartilharam uma gargalhada sombria, que rebati com um olhar igualmente feroz. Encararam o chão, com falso embaraço, e me escoltaram até o prisioneiro. 

 

XXX

 

Arranquei o lampião de uma das mãos torturadoras e desci pela escada até o buraco. Jogado no canto como uma pintura rupestre encarnada, um homem fraturado respirava com dificuldade. Com a luminosidade precária fiz o possível para examiná-lo. Alguns ossos estavam partidos, por sorte nenhum na região torácica. Não havia nenhuma hemorragia aparente, porém ambas as orelhas tinham sido arrancadas. Ergui o lampião, iluminando o rosto do sujeito e tomei um susto. Um pouco abaixo do pescoço ele trazia uma marca inconfundível, mas foram seus amedrontados olhos de impala que me convenceram de imediato.

– Levem agora esse homem para enfermaria!

– Mas Doutora, o General deu ordens para que…

– Eu me entendo com Malong!

– Nós não podemos…

– Quantos médicos existem em Moriama?

– Só a senhora, Doutora?

– E espancadores de prisioneiros? – questionei, recebendo somente o silêncio da derrota como resposta – Só aqui eu vejo três!  

 

XXX

 

Minha relação com a ordem local do Campo era bastante conveniente. Eles faziam o possível para ignorar minha presença e eu insistia em retribuir-lhes o favor. Eram todos defensores do famigerado “olho por olho, dente por dente”, mas a verdade é que você jamais veria um líder cego que não tivesse o sorriso completo da impunidade em seu rosto. As exceções de Hamurabi.  

Uma das coisas que aprendi em minhas longas viagens é que sangue e terra são as coisas mais importantes do mundo. O solo avermelhado de Moriama reforçava essa convicção. O General era pai de vinte e três mulheres, poucas recebiam afeto que não fosse protocolar. Entretanto todas eram sangue do seu sangue, uma extensão natural do seu poder e da sua força vital. 

O General Malong era basicamente como o livro que repousava em seu colo. Um colosso rudemente encadernado, com frases inteiras apagadas pelo tempo. Um punhado de lendas amontoadas sobre premissas tortas e fábulas de múltiplas interpretações. Anacrônico, por vezes incompreensível, absolutamente perigoso.

Sem pedir permissão sentei na poltrona em frente sua mesa. Ele sorriu, com pepitas de ouro escalando o que sobrara da dentição original, e suspendeu os óculos escuros revelando o olhar acobreado. A brutalidade desconfiada de quem lutou a vida inteira para ser predador. Vestia uma farda verde-oliva do século passado. Mas quem roubava minha atenção era o par de meias vermelhas próprias de um psicopata.

– Como está minha filha, Doutora?

– Como uma vítima de estupro deveria estar! 

– E o homem que fez isso com ela?

– Rindo de felicidade com a estupidez de todos vocês.

– Às vezes, acho que a Doutora se esquece de onde está…

– O homem que vocês quase mataram não é o responsável pelo estupro da sua filha.

– Foi ele – o homem disse de forma seca, desviando o olhar pela primeira vez.

– Você também viu a marca, Malong!

– Isso não quer dizer absolutamente nada, eles são animais.

– Está falando sério?

– Tão sério como um câncer de esôfago! – ele provocou sem sucesso.  

– Muito conveniente vocês acusarem um sujeito que chegou tem duas semanas no acampamento e que não…

– Doutora, preciso confessar que tenho muito apreço por coisas convenientes. Coisas convenientes fazem bem para o meu povo e para mim. Mas dessa vez essa conveniência é a verdade. 

– A verdade não é o que você nos enfia goela abaixo

– Não. A verdade é o que o tribunal irá dizer amanhã. 

– Tribunal?

– A Doutora me tem por louco ou selvagem, mas a realidade é que sou…

– Um teatro, espetáculo que zomba da…

– Um democrata!

– Hipócrita e covarde.

O General destravou com ímpeto o coldre e repousou a pistola livre sobre a mesa. Se tivesse sobrado qualquer apreço pela minha vida, teria me curvado e implorado por perdão. Se tivesse sobrado qualquer apreço pela vida dos outros, teria agarrado a arma e puxado o gatilho. Como não havia me sobrado mais nada, apaguei o cigarro na ponta do cano do artefato e soltei a fumaça presa nos meus pulmões. 

– Doutora! – exclamou quando lhe dei as costas – Você nasceu na África, mas não é uma africana.

Continuei andando sem olhar para trás, em parte porque ele tinha razão, em parte porque não queria que ele visse a raiva consumindo cada músculo do meu rosto. 

 

XXX

 

Na enfermaria oito guardas rodeavam o prisioneiro. Um cordão de isolamento feito por corvos esfomeados. A filha do General, aparentemente esquecida no extremo oposto, fingia dormir o sono dos justos que não foram violentados.

– Vamos tentar encurtar nossa conversa – falei, empurrando de lado os garotos para chegar até o prisioneiro – Vou pedir para vocês saírem. Vocês vão se negar dizendo que receberam ordens. Ai eu retrucarei dizendo que suas ordens não valem merda nenhuma se nenhum de vocês sabe aplicar injeção ou dar um ponto. 

Demonstrando visível confusão, eles se entreolharam ao passo que apontei a porta de saída com desdenho. Acompanhei o movimento de soslaio e esperei que o último individuo cruzasse a linha. Acendi o quarto cigarro da noite e chacoalhei o paciente;

– Qual o seu nome? – questionei em bom tom para os ouvidos desprotegidos. 

– Ezana, ezana, ezana. – respondeu três vezes, crendo que entraria em uma nova sessão de espancamento. 

– Sr. Ezana, você veio sozinho para cá?

– Não, minha mãe e meu irmão vieram comigo. 

– Onde eles estão?

– Escondidos. Achei que se usasse turbante e andasse pelos cantos… – ele divagou com a voz febril.

– Ninguém fosse ver essa imensa marca no seu pescoço.

– É que…

– Não interessa.  A boa notícia é que você não vai morrer hoje. 

– E a má? – ele riu entre pigarros e tosse úmida. 

– Que você será julgado amanhã – disse, oferecendo metade do meu cigarro, que ele aceitou de pronto – E que dentro do possível vou explicar o que essa marca significa e quem sabe você saia vivo.

– Não faça isso, Doutora. Por onde passamos fomos perseguidos. Por minha causa fugimos de Gana, Nigéria, Chade, aqui eles têm uma chance de recomeçar. A última chance.

– Sem você! Porque a única chance de você recomeçar depois de amanhã é se aprender a ressuscitar. 

– Eu sei, mas…

– E uma vez que você é um pecador na maioria das religiões sua tarefa será bem mais difícil! – vociferei arrancando o meu cigarro dos lábios estraçalhados do sujeito. 

– Doutora, aqui em África a mãe de um estuprador carrega na garganta um nó de vergonha menor do que o da mãe de um…

– O nó no seu pescoço não é figurado! – interrompi a autocomiseração com a estridência de um grito que pensei não mais existir em mim. 

– Há tempos aprendi a tolerar a dor física causada pela intolerância. – Ezana falou pausadamente enquanto massageava a marca cicatrizada na nuca – Porém, é cada dia mais difícil ver as pessoas que amo sofrerem com os efeitos colaterais.  

Queria gritar mais uma vez, dizendo que ele poderia florear e romantizar seu destino como quisesse, mas que a morte cessaria apenas sua própria dor. Que o mundo continuaria igual, impondo as regras dos mais fortes e disseminando ódio por tudo aquilo que é diferente. Onde ele seria apenas mais um corpo, uma lição para posterioridade e não um mártir com um verbete na enciclopédia. Resumidamente, sua não existência não traria qualquer ruptura no status quo da humanidade. Não tive coragem. 

 

XXX

 

É preciso reconhecer o esforço do General Malong para simular um tribunal “convincente”. Sua tenda transformada em uma imitação precária de um julgamento ocidental de programa de televisão. A encenação com todos os personagens clássicos; o juiz impaciente, o promotor raivoso e o advogado comprado. Até Ezana, limpo e arrumado, aparentava certa dignidade se comparássemos com massa de carne da noite anterior. 

Decidida a não fazer parte da farsa montada, me enturmei na multidão tentando desnutrir meu espírito. Não demorou muito e encontrei a mãe e o irmão do prisioneiro. Não foi trabalhoso reconhecê-los no meio da turba, afinal eram os únicos que não estavam contagiados pela alegria do lugar. Sustentavam os mesmos olhos de impala de Ezana, o conformismo da presa frente ao inevitável. É complexo mensurar o quanto daquele olhar teve influência na minha atitude. Todavia, a realidade é que o fatalismo daquela pobre família me fazia mal. Por isso, antes que a filha do General começasse seu depoimento, invadi o ritual arquitetado e tomei de assalto a palavra. 

– Povo de Moriama, essa garota foi covardemente estuprada – eu disse, enquanto encarava o General. 

– Finalmente, Doutora. Mesmo não trazendo nenhuma novidade. – Malong exclamou, antes de rir teatralmente, com crueldade escorrendo em cada intervalo esperado, enlouquecendo as hienas salivantes da plateia.

– Fiz o exame momentos após o ato e posso afirmar categoricamente, que houve penetração forçada. Sêmen e hematomas são provas inequívocas do que digo. 

– Embora a questão já tivesse sido ultrapassada, Doutora, agradecemos sua colaboração…

– Ocorre que aquele sujeito, o Sr. Ezana, não foi o autor deste crime! – encarei a filha do General, esquecendo-me por um instante que ela também era vítima, e perguntei com a força de uma ordem – Você poderia me apontar seu agressor?

– Doutora, estou em dúvida se a senhora é advogada, juíza ou promotora. – O pai da garota observou tentando não perder as rédeas do espetáculo.

– Será que seu braço foi afetado por alguma paralisia momentânea ou é apenas vergonha? Aponte para o prisioneiro!

– A Doutora está cruzando todos os limites!

– Você não consegue nem encará-lo! – vaticinei enquanto andava até onde Ezana estava sentado – Esse homem que vocês estão vendo é um fugitivo e essa marca em seu pescoço indica que ele é um homossexual. Sim, marcado a ferro e fogo por outros  imbecis radicais.

– Isso não quer dizer absolutamente nada! – explodiu o General no silêncio pós-revelação – Esses maricas são animais! Sodomitas. 

A claque prontamente concordou com seu líder. A verdade é que o fato do prisioneiro ser gay não o transformava em um ser moralmente superior, impossibilitado de cometer crimes de natureza sexual. Malong sabia disso e contava igualmente com o preconceito de seu povo. O improvável não é impossível. Mas no meu âmago tinha certeza da inocência do sujeito. Contudo, de nada adiantava minha convicção. A realidade é que tinha sido vencida, os urros de ódio validavam minha conclusão.

Olhei ao redor para as pessoas de Moriama e selei meu destino. Acendi o último cigarro e lancei toda a fumaça na cara do General. “Covarde” cuspi as sílabas pacientemente na sua direção. As palavras serviram como as gotas que transbordam o copo do corpo. Transtornado, o homem libertou novamente sua arma. Dessa vez, apontando para minha cabeça extraordinariamente leve. Sorri esperando o estampido que nunca chegou. 

Encurralado pela minha situação, Ezana levantou-se e vagarosamente começou a se despir. A cada peça de roupa arrancada, pedia desculpas em silêncio para mãe e irmão. Quando baixou a calça, revelando seu corpo inteiramente nu, Moriama parou pela primeira e última vez em sua história. Virilha e púbis eram um imenso deserto cortado por uma cicatriz em forma de lago. A infertilidade desoladora onde certa vez existiu um sexo.  

Após 30 anos de estiagem, chorei. 

A perseguição tinha sido muito pior do que imaginara. As feridas da alma mais penosas. A existência apesar daquela ausência um exercício de coragem constante. Sua recente humilhação, minha tábua de salvação. 

Ódio e pena misturavam-se diante da surdez momentânea dos espectadores.

Ezana não morreu naquele dia.

Mas Moriama respirou pela última vez.

25 comentários em “Moriama (ou Anatomia de um Novo Deserto) (Rafael Sollberg)

  1. Gustavo Araujo
    25 de dezembro de 2019

    A vantagem de ler o conto sem o compromisso de avaliá-lo para efeitos de competição é que dá para soltar o carro na banguela e deixar o verbo rolar. Gostei muito da ambientação do conto. Tempos atrás assisti a um documentário da equipe do “Livin’ on 1 Dollar” passado justamente num campo de refugiados. O que vi aqui no seu texto reflete muito da atmosfera que percebi lá, embora naquele caso não se tratasse exatamente de um campo deixado à própria sorte. De qualquer forma, dá para perceber que há uma regra de sobrevivência, um código de conduta não escrito que faz com que as pessoas vivam (ou sobrevivam) mesmo em meio à desesperança e ao abandono das autoridades. Provavelmente você, amigo autor, leu ou assistiu a algo do gênero para ter concebido esse universo de forma tão fiel à realidade.

    Com essa contextualização sólida, você criou um enredo envolvente para falar de intolerância, não só sob o aspecto religioso mas também sexual, uma bandeira que precisa ser erguida com insistência, especialmente na literatura. O próprio Fabio Baptista já tinha feito isso com sucesso no já distante desafio imagem, no início de 2017, mas de forma mais inocente. Aqui a pegada é mais pungente, crua e real. Mesmo passada num país distante não é difícil para que o leitor perceba as nuances e se revolte.

    Confesso que alguns diálogos não me desceram bem, talvez pelo seu afã, caro Rafa, em denunciar a situação que se passa em ajuntamentos alheios ao poder do Estado, mas o final, ah, o final, funcionou perfeitamente, um momento de catarse de certa forma inesperado, já que, para mim, o lance da marca no pescoço já era a surpresa preparada desde o início. O fato de o acusado ser incapaz de consumar qualquer relação, em face de seu aleijão, foi como um soco no estômago — não do tal general — mas de todos nós que assistimos quietos a qualquer tipo de situação discriminatória.

    Achei ótimo o fato de você ter escapado da armadilha de apontar o verdadeiro autor do estupro, especialmente se fosse o tal general. Isso demonstra a realidade crua, em que qualquer um poderia ter cometido o crime. Talvez à própria garota fosse impossível reconhecer o agressor, afinal de contas. Até mesmo porque poderiam ser vários. Mas aí, a sanha de justiça precisa de um bode expiatório, de modo que, receio, mesmo na condição de aleijado, nosso triste protagonista seria julgado culpado.

    Enfim, um conto muito bom que nos transporta para um mundo cruel que está distante, mas estranhamente logo ali, virando a esquina.

    Por último quero dizer que fiquei contente por ver um conto seu fora do estilo clássico sollberguiano. Sair da zona de conforto é algo que ainda devo a mim mesmo. Sua coragem me inspira.

    Parabéns e ótimo 2020.

  2. M. A. Thompson
    15 de dezembro de 2019

    História de uma média que atende um suposto estuprador, mas após ver uma marca que só os homossexuais têm, resolve confrontar o general/comandante do país africano. Adorei o suspense e o final, além da mensagem sobre intolerância, tão real ainda em alguns países.

  3. Adauri Jose Santos Santos
    15 de dezembro de 2019

    Resumo: Médica conta a estória de paciente que foi acusado de estupro. A mesma descreve o local e estado de miséria e penúria em que vive o povo daquele lugar. A médica descobre que o acusado não cometeu o crime e arisca a própria vida no tribunal para tentar salvar um inocente num lugar consumido pelo medo, o preconceito e a violência.
    Comentários: Gostei da estória no geral, o enredo é bem trabalhado e tem um final impactante. A descrição do ambiente está bem feita de modo a mexer com o leitor, é possível captar a tensão do ambiente hostil onde transitam os personagens. Ótimo conto, ficou bem realista, porém os motivos da revolta da médica a ponto de querer morrer ali não estão muito claros; pelo menos para mim. Com algumas mudanças pontuais pode ficar nota dez. Poucos erros de revisão.

  4. Elisabeth Lorena Alves
    15 de dezembro de 2019

    Moriama (ou Anatomia de um Novo Deserto)
    (Nandi Rhodes)
    Resumo:
    Um Conto sobre a crueldade do poder e da maldade humana. Lugar em quevinocentes pagam por crimes que sequer poderiam cometer.

    Comentário:
    Literatura Africana Moderna pura!
    Merece mais que meu mísero comentário pelo que representa.
    Extração da alma por fórceps. Infelizmente o preço que inocentes pagam nos recônditos africanos não é fácil. O interesse, o poder, a carnificina, o prazer na dor do outro sagram em pus nesse Conto cortante.
    O final, impactante assusta e liberta o grito de quem afundou no lodo sugerido pela narrativa e linguagem massacrante.
    Ponto alto: “A brutalidade desconfiada de quem lutou a vida inteira para ser predador.” Descreve perfeitamente todo algoz africano.

    PS. Difícil resumir sem sofrer…

  5. Ricardo Gnecco Falco
    15 de dezembro de 2019

    Resumo: em um acampamento de refugiados na Africa, médica tenta evitar que um homossexual acusado de estuprar a filha de um comandante local seja julgado culpado por um crime que não cometeu, arriscando sua própria vida para isso.

    Impressões: é um enredo bem denso, com uma trama de teor arquétipo que leva o leitor a questionamentos extra-ficcionais. O texto está bem escrito, a história é de fácil compreensão (ao contrário da aceitação), e o final esperançoso traz um alívio à leitura. Parabéns pela criação!

  6. Jowilton Amaral da Costa
    15 de dezembro de 2019

    O conto narra a história de uma médica em um acampamento africano de nome Moriama. Uma das filhas do general que comandava o lugar foi estuprada e um homem chamado Ezana foi acusado pelo crime.

    Putz, achei um contaço! Os primeiros parágrafos me soaram um pouco como uma redação dissertativa, destas que escrevemos para o vestibular, acho até que poderia sair do texto sem nenhum comprometimento da qualidade do conto. No entanto, quando a história realmente começou e conhecemos a doutora e onde ela está, a coisa muda de figura e vemos uma narrativa contundente, com diálogos muito bons. A ambientação foi muito boa e me senti na África. A doutora é uma personagem muito forte e muito bem criada. O final foi impactante e emocionante, com uma frase matadora, a cereja do bolo. Parabéns! Boa sorte no desafio.

  7. Thiago Barba
    13 de dezembro de 2019

    Médica defende homem que foi acusado de ser estuprador de uma garota por ele ter uma marca que lhe fizeram por ser homossexual. Ninguém aceita a inocência dele até ele tirar a roupa e mostrar que não tem órgão sexual.

    Técnica: 4,0
    Criatividade: 4,0
    Impacto: 4,0

    Um bom texto. Equilibrado em todos os sentidos, é contado num ótimo ritmo, com surpresas acontecendo a todo instante.
    Para mim o início é um pouco cansativo, demora até o texto engrenar. Começar falando do lugar, por tanto tempo, é o que fez isso acontecer. O texto só começa a me trazer interesse quando sei quem é a narradora. Pois é quando começamos a ter noção do que será contado. Não significa que o espaço não seja importante, mas poderia estar inserido no decorrer do texto.

  8. Cicero G. Lopes
    12 de dezembro de 2019

    Resumo:
    Em um campo de refugiados na África, uma médica é obrigada a lidar com um estupro, uma simulação de júri, um homem marcado para morrer e enfrentar um militar violento e tirano. Esses acontecimentos fazem renascer sentimentos e motivações que a “doutora” considerava mortas. No final uma revelação nos surpreende e marca uma virada no enredo; a verdade, mesmo sendo cruel, vem à tona.

    Considerações:
    O conto me remeteu a uma produção cinematográfica, um episódio de final de temporada de alguma série de streaming . O autor vem compondo sua história em camadas, primeiro o cenário, depois a descrição das misérias humanas, terceiro o enredo e o desfecho para o último quarto de hora.

  9. Rafael Penha
    12 de dezembro de 2019

    RESUMO: Numa espécie de inferno na terra, situado na Africa, uma médica tenta manter sua humanidade, enquanto luta contra o ditador local para aclarar um crime e tentar salvar a vida do acusado.
    COMENTÁRIO: O Conto é tão vívido e verossímil que me pareceu muito mais uma reportagem do que uma história fictícia. A narrativa, excelente e oportuna, ilustra com clareza não o que o lugar é de fato, mas como a protagonista o enxerga, trazendo a visão do leitor à sua.
    O conto é escrito sem qualquer problema ortográfico que me chame atenção, e o emprego de palavras certas demonstram a habilidade e experiência do autor, entretanto, algo me tirou um pouco da narrativa. Em se tratando de uma região pobre, a forma rebuscada de falar dos personagens me tirou do enredo e da história. Exceto a Doutora e talvez, o general, senti a falta de maneirismos nas falas dos outros personagens.
    O enredo é interessante, cativa e expõe com clareza o local e as agruras locais. O início me pareceu um pouco confuso, mas a história foi se ajeitando. O final é um choque, mas não para o leitor, que graças à convicção da protagonista, já sabia que o homem era inocente. Talvez seria interessante trabalhar alguma dúvida na mente da protagonista e por conseguinte, na do leitor, mas não maculou a obra.
    Excelente conto!

  10. Claudinei Ribeiro Novais
    12 de dezembro de 2019

    RESUMO: A história se passa em um campo de refugiados, em algum país da África. Entre os refugiados, encontram-se Ezana, sua mãe e seu irmão. Ezana está sendo acusado pelo estupro da filha do general Molong, mas a doutora do campo de refugiados, sabendo da situação sexual de Ezana, sustenta que ele é inocente. O general Ezana instaura um tribunal a fim de julgar o ocorrido e condenar o estuprador, que ele acredita não ser outro além de Ezana. Aí a doutora intervém e afirma que Ezana não poderia ser o estuprador, pois ele é homossexual, tendo inclusive a marca no pescoço. Tal fato não é aceito para inocentá-lo e aí Ezana não vê outra possibilidade de ser inocentado a não se despir na frente de todos e mostrar o verdadeiro motivo pelo qual não poderia ter estuprado a filha do general. Quando ele se despiu, mostrou para todos que no lugar do pênis, ele tinha um racho.

    CONSIDERAÇÕES: Conto bem escrito e história interessante. Por se tratar de uma situação da qual foge muito de minha realidade (campo de refugiados), não sei se realmente há médicos e tribunais em tais locais. Entretanto, com um final bastante inusitado, o(a) autor(a) nos transporta a outro nível, dando aquele gosto de “Putz! Queria continuação.”…

  11. Paulo Luís
    6 de dezembro de 2019

    Olá, Nandi Rhodes, boa sorte no desafio. Eis minhas impressões sobre seu conto.

    Resumo: Uma doutora em um campo de refugiados vive as agruras de um ambiente inóspito à vida humana, se ver na obrigação de defender um homem vítima de uma farsa, onde o acusam de estupro à uma das filhas de um general. Mas o acusado é identificado como um homem trans, provando o contrário da farsa arquitetada.

    Gramática: Um texto muito bem redigido sem grandes problemas gramaticais aparente. A narrativa flui com leveza, apesar do contexto pesado. Exceção feita à falta do acento em “balburdia”.

    Comentário crítico: O conto, a princípio, parece tratar-se de uma crônica, mas no desenrolar da narrativa, o enredo surpreende, visto passar a tratar de uma questão não tão recorrente para este tipo de narrativa nas questões dos acampamentos de refugiados. Numa mesma tacada denuncia os estupros cometidos nesses acampamentos e a descriminação aos homossexuais. O que não muda em nada quanto ao mundo do lado de cá. Um conto denúncia?, crônica?, jornalismo? Não importa. Um bom conto.

  12. Rosário dos Santoz
    4 de dezembro de 2019

    Resumo: Médica em campo de refugiados faz de tudo para salvar um homem acusado injustamente de estupro.

    O que achei: Incrível! Uma narrativa tão bem feita e imersiva. Dava pra sentir o calor, o cheiro da fumaça, da poeira levantada do chão ocre, o gosto do sangue e das lágrimas.
    A descrição da personagem General Malong foi de derrubar o queixo. Um déspota completo.
    O final do conto também merece ser destacado. É muito tocante. Não bastasse tudo que tiraram de Ezana, foi preciso que ele tirasse as próprias roupas na frente de todos ali reunidos pra provar que era vítima de tantas outras humilhações.
    Parabéns! É o melhor conto de que li nessa rodada.

  13. Priscila Pereira
    4 de dezembro de 2019

    Olá, autor!
    Ótimo conto, parabéns!!
    Pra mim, a melhor coisa do conto foi essa personagem! Cara, que personagem boa! Me surpreendi de ser uma mulher, no começo achei que era homem. A melhor personagem do desafio, com certeza! Audaciosa, amarga, corajosa, ácida, e mesmo assim, em seu coração ainda havia um instinto de proteger os menos favorecidos. Muito boa, realmente. O mistério também é muito bom, a leitura foi fluida e rápida, segurou o suspense até o final. Um excelente conto, pena que não posso dar uma nota, seria 5 com certeza! Parabéns e boa sorte!

  14. Elisa Ribeiro
    3 de dezembro de 2019

    Uma médica de origem africana relata uma experiência dramática e brutal vivenciada durante sua atuação em um campo de refugiados, Moriama, na África.

    O tema sempre atual aqui é a intolerância com as diferenças, no caso, com o homossexualismo. A ambientação, o cenário, a escolha do continente africano e de um campo de refugiados, permitiram a exploração do tema com uma mescla de horror e também a construção de uma narradora personagem interessante que cativa a seu modo o leitor.

    Sobre a narradora, gostei dela, achei-a bem coerente e convincente, embora um pouco, digamos, exagerada. Explicando, finge ser realista, mas sua intencionalidade literária sobra um pouco, na modesta opinião dessa leitora aqui, sobretudo nas digressões e metáforas utilizadas em seu relato. Esse “artificialismo”, para mim, acaba esfriando um pouco a atmosfera realista e diminuindo o impacto emocional do texto.

    Gostei muito da personagem Ezana, com seus olhos de impala, e sua reviravolta de vítima acuada em herói corajoso ao final da história. Está suficientemente descrito, deixando em suas lacunas um espaço largo para o leitor dele se afeiçoar. A cena final onde ele se despe ficou impecável, impossível imaginar qualquer reparo.

    A narrativa é muito segura. Notei algumas coisinhas que passaram na revisão somente porque reli seu texto com muito vagar.

    Um ótimo conto. História bem narrada que faz pensar.

    Parabéns e sucesso!
    Um abraço.

  15. Pedro Teixeira
    2 de dezembro de 2019

    Um conto bem escrito e com uma premissa muito interessante.A trama é envolvente e os personagens, bem desenvolvidos.A protagonista parece uma versão feminina de Sam Spade, com seu jeito de durona, observações mordazes e senso de justiça. Os diálogos são bons, mas em alguns momentos não soaram muito naturais, apesar de não comprometerem o todo. Um bom trabalho.

  16. Fabio Monteiro
    1 de dezembro de 2019

    MORIAMA

    Resumo: Uma medica é chamada para atender uma jovem vitima de estrupo. Em Moriama (continente africano), vítimas desta situação são comuns. Um homem é torturado pelas autoridades do local sendo o principal suspeito pelo ocorrido com a jovem. O verdadeiro torturador e estuprador acaba recebendo sua punição ao final.

    Ponto Forte: Boa relação existente entre o narrador (na sua voz passiva) com o enredo escolhido.

    Ponto Fraco: Tem vários erros ao longo do texto. Virgulas faltando. Inicio de frase com letra minúscula. Faltou revisão final.

    Comentário Geral: O inicio do texto me deu a ideia de que seria narrada a difícil vida de quem nasce no continente africano. Não esperava um cenário de guerrilha ao longo do texto. Porém, os tópicos foram bem descritos. Remete o leitor a realidade do local.

    • Rsollberg
      16 de dezembro de 2019

      Obrigado pelo retorno, Fábio!
      Seguinte, normalmente eu faço um revisão pós-campeonato para deixar o texto ainda mais redondo. Nesse sentido, você poderia me apontar pelo menos alguns dos vários erros?
      Desde já, agradeço!

  17. Cirineu Pereira
    30 de novembro de 2019

    Resumo:
    Em Moriama, uma republiqueta fictícia da África governada por um ditador sanguinário, uma médica não nominada socorre uma vítima de estupro, bem como seu suposto agressor. Ao atender o acusado, Ezana, torturado pelos guardas, a Doutora não tarda a descobrir que este é um estrangeiro naquelas terras e traz no pescoço um sinal que, em sua pátria de origem, seria usualmente imposto a outro tipo de “criminoso” e que a convence da inocência de Ezana em relação ao estupro da filha do General Malong, ditador de Moriama.

    Comentários:
    Um enredo relativamente interessante, narrado com boa técnica (apesar de alguns erros gramaticais). Chama a atenção a forma como o autor(a) abre a narrativa com ponderações político-sociais que, verdadeiramente, não tem relação direta com a história que se seguirá. E ainda que, ao meu ver, tais ponderações se estendam em demasia e o discurso usado para tal também me pareça excessivamente carregado de sensacionalismo e demagogia – elementos geralmente nocivos num conto narrado em primeira pessoa -, o efeito final é positivo. Um bom exemplo de como introduzir um cenário sem se exceder em descrições por demais diretas e enfadonhas.
    Ainda sobre a técnica – as construções frasais melhoram com o desenvolvimento da história -, note-se que o autor(a) não se apressa nem mesmo em nos revelar o gênero da narradora/protagonista, a qual, até pelo discurso, fui induzido a pensar tratar-se de um homem. Sim, às vezes o leitor sente prazer em descobrir-se iludido e este prazer vem da certificação de estarmos dedicando nosso tempo à leitura de um texto tecnicamente bom, bem confeccionado.
    Mais, note-se que os personagens são delineados primordialmente em função do que fazem, dizem, e até do que pensam, muito mais do que sobre aquilo que o narrador ou outros personagens nos contam sobre eles (só nos soam verdadeiras as verdades às quais chegamos por si mesmos).
    Enfim, narrar em primeira pessoa é uma decisão arriscada e talvez o discurso da Doutora, bem como suas frases de efeito, sejam um pouco exagerados. Possivelmente alguns leitores enxergarão, por trás de tanta audácia, uma montanha de vaidade e convencimento. Mas talvez o mesmo leitor considere que tudo isso é propositado e que o autor tenha deliberadamente usado isso para criar uma personagem estereotipada (sem pejorativo neste caso), durona, como anti-heróis de alguns filmes e quadrinhos.
    Naturalmente, nem tudo são flores. Quer me parecer que essa técnica é menos eficaz no desfecho, não que ali o mesmo virtuosismo desapareça, mas ao meu ver é justamente onde o autor(a) deveria revelar-nos seu melhor, o ápice de sua verve e técnica, mas infelizmente, o que ali se enleva e transborda é a dramaticidade (já prenunciada no desnecessário título secundário)

    Em números:

    Título e Introdução: 8
    Personagens: 8
    Tempo e Espaço: 8
    Enredo, Conflito e Clímax: 7
    Técnica e Aplicação do Idioma: 8
    Valor Agregado: 7
    Adequação Temática: 10
    Nota Final: 3,9

    Observação:
    As parciais, baseadas nos critérios, variam de 0 a 10, mas possuem pesos distintos na composição da nota final, que varia de 0 a 5.

  18. Jorge Santos
    30 de novembro de 2019

    Este conto tem um cenário actual. É passado num campo de refugiados em África. Aqui, a filha de um general é violada e um homem é acusado, após ser violentamente torturado. A médica do campo faz então o papel de advogada de defesa. Durante o julgamento, descobre-se que o acusado, além de homossexual, é eunuco.

    Este conto é interessante pela actualidade e por contar algumas das dificuldades dos refugiados. Depois, é perdido num enredo incoerente. O campo de refugiados seria, muito provavelmente, muçulmano. Não vi grandes referencias e pareceu-me bastante irrealista para ser passado aqui.

  19. Luciana Merley
    29 de novembro de 2019

    Resumo
    Uma médica contando sobre a sua rotina num campo de refugiados no deserto. Em especial, o conto relata a história chocante de mais um estupro, mas que dessa vez teve a filha do general como vítima e um algoz impossível.

    Técnica
    Muito bem escrito. A linguagem é primorosa, com exceção de alguns poucos deslizes como “a geográfica dos homens” e “Na África (, ) sedentarismo não é conforto” mas que não interferem na qualidade.
    O começo não parece um conto e talvez essa seja a minha única ressalva. Se parece mais com uma crônica ou matéria jornalística. Já antes do meio, a narrativa ganha vezes “de ficção”, mas que ainda poderia ser uma autobiografia. Os diálogos são muito bem montados e ajudam na pegada ficcional e o final é bem surpreendente. Termina no ápice e isso é fundamental num conto. Tem conflito único e isso também é fundamental.

    Criatividade
    Muito criativo o desenrolar da história.

    Impacto
    Fiquei impactada pela resolução do conto e pela mensagem fortíssima contra o preconceito.

    Parabéns.

  20. Luis Guilherme Banzi Florido
    28 de novembro de 2019

    Bom dia/tarde/noite, amigo (a). Tudo bem por ai?
    Pra começar, devo dizer que estou lendo todos os contos, em ordem, sem saber a qual série pertence. Assim, todos meus comentários vão seguir um padrão.
    Também, como padrão, parabenizo pelo esforço e desafio!

    Vamos lá:

    Tema identificado: drama, crítica social

    Resumo: a história de Ezana, jovem homossexual que é acusado de estuprar a filha do General de Moriama. O conto termina com a revelação de que Ezana é eunuco, foi mutilado pela sua opção sexual.

    Comentário: caralho, espetacular! Parabéns!

    Que contaço, cara. Fiquei pendurado na leitura, em cada palavra, em cada crítica social, enquanto você escancarava na nossa cara o terror que é a civilização “moderna”. Acredito que Moriama representa, em miniatura, o mundo atual, com suas hipocrisias e seus julgamentos irrefreáveis. De certa forma, Moriama meio que representa também o mundo online, com suas hienas sedentas por sangue e carniça, querendo sempre linchar alguém.

    Cara, sério, seu conto é muito forte, e me despertou muitas emoções e sensações enquanto lia. Mesmo a figura da médica é emblemática. Ela, em si, é uma personagem cheia de dualidades, ao mesmo tempo que é cética e quase desistindo de tudo, tem a coragem necessária de peitar o sistema vigente, representado pelo General. Tudo bem que a decisão dela de arriscar ser morta pelo homem também está ligada ao fato de ter cansado da vida e do mundo. Ainda assim, está dispossta a ir até o fim pelo que acredita.

    O General também é uma figura muito bem construída. Podre, e baseado num sistema moral próprio totalmente distorcido, o homem é um ótimi personagem.

    Assim, dá pra dizer que os personagens são muito carismáticos e vivos, o que talvez seja um dos pontos mais fortes do conto. O enredo é excelente, também, e o desfecho é magistral.

    Gostei muito do título, “anatomia de um novo deserto”. Na hora que percebi a que se referia, foi incrível.

    A única ressalva que faço é que o conto apresenta vários erros gramaticais, especialmente de revisão. Acredito que uma revisão mais apurada impediria erros como a troca de palavras.

    Enfim, um conto muito, mas muito bom mesmo. Parabéns!

  21. Cirineu Pereira
    24 de novembro de 2019

    Moriama

    Resumo:
    Em Moriama, uma republiqueta fictícia da África governada por um ditador sanguinário, uma médica não nominada socorre uma vítima de estupro, bem como seu suposto agressor. Ao atender o acusado, Ezana, torturado pelos guardas, a Doutora não tarda a descobrir que este é um estrangeiro naquelas terras e traz no pescoço um sinal que, em sua pátria de origem, seria usualmente imposto a outro tipo de “criminoso” e que a convence da inocência de Ezana em relação ao estupro da filha do General Malong, ditador de Moriama.

    Comentários:
    Um enredo relativamente interessante, narrado com boa técnica (apesar de alguns erros gramaticais). Chama a atenção a forma como o autor(a) abre a narrativa com ponderações político-sociais que, verdadeiramente, não tem relação direta com a história que se seguirá. E ainda que, ao meu ver, tais ponderações se estendam em demasia e o discurso usado para tal também me pareça excessivamente carregado de sensacionalismo e demagogia – elementos geralmente nocivos num conto narrado em primeira pessoa -, o efeito final é positivo. Um bom exemplo de como introduzir um cenário sem se exceder em descrições por demais diretas e enfadonhas.
    Ainda sobre a técnica – as construções frasais melhoram com o desenvolvimento da história -, note-se que o autor(a) não se apressa nem mesmo em nos revelar o gênero da narradora/protagonista, a qual, até pelo discurso, fui induzido a pensar tratar-se de um homem. Sim, às vezes o leitor sente prazer em descobrir-se iludido e este prazer vem da certificação de estarmos dedicando nosso tempo à leitura de um texto tecnicamente bom, bem confeccionado.
    Mais, note-se que os personagens são delineados primordialmente em função do que fazem, dizem, e até do que pensam, muito mais do que sobre aquilo que o narrador ou outros personagens nos contam sobre eles (só nos soam verdadeiras as verdades às quais chegamos por si mesmos).
    Enfim, narrar em primeira pessoa é uma decisão arriscada e talvez o discurso da Doutora, bem como suas frases de efeito, sejam um pouco exagerados. Possivelmente alguns leitores enxergarão, por trás de tanta audácia, uma montanha de vaidade e convencimento. Mas talvez o mesmo leitor considere que tudo isso é propositado e que o autor tenha deliberadamente usado isso para criar uma personagem estereotipada (sem pejorativo neste caso), durona, como anti-heróis de alguns filmes e quadrinhos.
    Naturalmente, nem tudo são flores. Quer me parecer que essa técnica é menos eficaz no desfecho, não que ali o mesmo virtuosismo desapareça, mas ao meu ver é justamente onde o autor(a) deveria revelar-nos seu melhor, o ápice de sua verve e técnica, mas infelizmente, o que ali se enleva e transborda é a dramaticidade (já prenunciada no desnecessário título secundário)

    Em números:

    Título e Introdução: 8
    Personagens: 8
    Tempo e Espaço: 8
    Enredo, Conflito e Clímax: 7
    Técnica e Aplicação do Idioma: 8
    Valor Agregado: 7
    Adequação Temática: 10
    Nota Final: 3,9

    Observação:
    As parciais, baseadas nos critérios, variam de 0 a 10, mas possuem pesos distintos na composição da nota final, que varia de 0 a 5.

  22. Fernanda Caleffi Barbetta
    19 de novembro de 2019

    Uau que texto maravilhoso. Muito bom em todos os sentidos, do começo ao fim. Adorei. Parabéns.

    Obs: esta não é uma leitura obrigatória para mim neste desafio, por isso não há resumo. É apenas a minha breve impressão sobre o texto.

  23. Antonio Stegues Batista
    15 de novembro de 2019

    MORIAMA- Resumo – Em um campo de refugiados na África, a filha de um general é estuprada. Um suspeito é preso e a médica do local diz ao general que o rapaz é inocente porque é homossexual. Mesmo assim, o general leva o rapaz ao tribunal para ser julgado. E ali, na frente de todos, o acusado fica nu e mostra que tinha feito cirurgia para mudança de sexo, portanto, não podia ter violentado a moça.

    COMENTÁRIO – O autor tem um bom vocabulário, sabe como construir belas frases, com estilo, escreveu um texto perfeito, porém, a história não me impressionou. Ficou faltando algo mais, me pareceu um thriller, ou, episódio de uma serie. Faltou uma maior imersão nos personagens, descrição mais ampla de suas vidas. Descrições da vida da médica, como ela chegou ao acampamento, a vida do homossexual, os detalhes de como o general chegou ao seu posto e como a vida deles se cruzam na história. É claro que o limite de 2500 palavras prejudicou o enredo.
    Localizar a história na África não fez diferença alguma. Poderia ser no Brasil em alguma comunidade pobre, uma médica defende um homossexual no tribunal do crime. O conto não é ruim é regular, talvez se transformasse ele num romance, ficaria melhor.

  24. Fheluany Nogueira
    12 de novembro de 2019

    Apresentação de um campo de refugiados na África, em que a narradora-personagem é médica. A filha de um general é estuprada e uma rapaz é preso e espancado como o culpado. Mas no pseudo-julgamento é revelado que ele era gay e tinha os órgãos sexuais mutilados.

    A introdução e alguns trechos do conto estão muito próximos da crônica pelo caráter reflexivo e interpretativo, sobre acontecimentos do cotidiano do campo de refugiados, em tom subjetivo. Pareceu-me uma denúncia à falta de atenção do mundo em relação a uma rotina de miséria.

    O foco narrativo de primeira pessoa confere maior intimidade e credibilidade ao leitor. O cenário é realista, traz identificação ao leitor, que fica interessado no enredo, tempo e espaço. Fluente e bem ritmado, apenas demorou a deslanchar e se ateve ao contar e pouco mostrar. O desfecho, sim, é impactante e emotivo e endossa o título do texto.

    Parabéns pelo trabalho. Sorte na Liga. Abraços.

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Informação

Publicado às 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A e marcado .