EntreContos

Detox Literário.

Vim, Vi e Perdi (Rodion Românovitch)

“Happy-New-Year” gritei como um idiota para o pelotão de olhos incrédulos e furiosos. Para completar, sorri como uma estampa idiota redonda, velha e amarelada gerando todo o combustível necessário para aquela gente que se alimentava de sadismo.

Confesso que sempre admirei pessoas espirituosas, especialmente as que não perdem a piada diante da própria adversidade. Não é o tipo de coisa que se adquire com treinamento. É um traço visceral, comum a gênios e psicopatas, e, por óbvio, ainda maior em gênios psicopatas. Assim foi com o assassino estadunidense James French, que condenado à cadeira elétrica virou-se para os jornalistas presentes e disse “Que tal uma frase para a manchete? French Fries”. Ou, Mata Hari que se saiu com “Tudo é uma ilusão”, antes do suspiro final.

Em minha defesa, todos os dois tiveram maior tempo de ensaio. Além disso, coloque-se em minha calcinha suja e imagine o tipo de olhar de um pai ao contemplar um homem seminu, abraçando seu filho por trás, enquanto lágrimas escorrem do rosto arroxeado do seu pobre rebento. Outrossim, pense que o tal papai foi considerado o sujeito mais perverso do mundo do crime por nove entre dez juízes de Direito – que se negaram a confirmar a sentença do primeiro. Desenhe em sua mente o semblante dos quatro cães raivosos, vestidos com ternos quadrados, com seus queixos quadrados e suas mentes quadradas,  que babam só ao sentir o cheiro do sangue, que infelizmente insiste em escorrer pela minha perna e carcomida, menos “carco”, mais comida. Adiante, tente escutar o grito de horror da Sra. Escorpião ao perceber que pisou com seu impecável sapato de sola carmesim e salto agulha em um nariz diminuto jogado no chão. Desnecessário seria até mencionar o pequeno mascote que jaz enforcado com o meu cinto sobre uma poça de ejaculação honorável.

Por fim, se mesmo diante de tudo isso, ainda considerar que minha interjeição cretina é um completo fiasco, você não passa de um grandíssimo canalha, desalmado, que não reconhece que: “saio da vida pra entrar na história”, nessa estória.

 

XXX

 

O discurso famigerado de que a vida inteira passa diante dos olhos na iminência da morte não é de todo mentiroso. A verdade é que em questão de segundos conseguimos visualizar claramente os últimos momentos da nossa vida, ou mais precisamente, o que nos impulsionou diretamente para tal conjuntura. Diante de todas as elipses oportunas, é possível reviver com exatidão cada decisão estúpida, cada diálogo idiota:

– Tenho um “Job” pra você

– E eu tenho uns dez sinônimos em português pra isso – respondi sem paciência, limpando a maquiagem do último show.

“Job” fácil, “easy”.

– Trabalho, labor, serviço, emprego…

– Entrar e sair! “In and out”.

– Não vou assaltar bancos, nem ficar aturando traduções escrotas.

– Sem banco, “dude”.

– Puxar mais dois anos de cadeia contigo e esse seu alter ego de professor-americano-vinte-e-quatro-horas-por-dia.  

Babysitter! Três horinhas e a gente fica no brilho a semana toda.

– Quando vem o “porém”?

– Não tem “but”.

– Puta-que-pariu!

– É pra tomar conta de duas crianças…

– E?

– Hoje, na hora do new-year

– E?

– Os pequenos gêmeos do Sr. Antônio Magalhães.

– Tonho Escorpião?!

– Não gosta muito de ser chamado assim.

– Nem “fudendo”! Como fala isso em inglês?

– Dois mil em “cash”!

– Por que você não vai?

– Você sabe como eu fico nervoso perto de crianças. “You Know, bro”.

– Fica nervoso perto de todo mundo.

“Born” no país errado

– Na Era errada. Um Austelopteco com síndrome de google tradutor.

– A antiga “nanny” sofreu um pequeno acidente.

– Acidente de trabalho, provavelmente.

– Você tem experiência, expertise.

– Por acaso você lembra porque parei de dar aula?

– Não vem ao caso! E “please”, não lava esse rosto.

– Sei que não devia perguntar, mas…

– A vaga é para garotas. Perfeita para Júlia.

– Deixa ver se entendi – cerrei os olhos, suspirei alto, enquanto apoiava a testa nos dedos. – Você quer que eu tome conta dos filhos do Escorpião, na véspera de ano novo, travestido de Júlia Cesarina, a imperadora dos desajustados, ligeiramente dopada, pra gente poder ter uma semanas de alivio?

– Precisely, Darling!

 

Entrei na mansão emergente – onde um quarto andar subia – escoltado por três rochas andantes, que me levaram até a Sra. Escorpião. A “Lady” londrina com pinta de rainha de bateria me encarou do céu ao inferno, evidentemente avaliando minhas virtudes. Aparentemente concluiu que Cesarina, numa mistura caricata de Cindy Lauper e Radical Chic não seria concorrência em qualquer hipótese. Com o pedantismo típico de quem não entende nada de nada, soletrou todas as instruções e me apresentou o cárcere e os prisioneiros.

O quarto era decorado por algum profissional escolado em filmes dos anos oitenta, com um orçamento nababesco, contratado por um adulto que evidentemente não tivera infância. Escorregas amarelos, camas em forma de carro, estrelas fosforescentes no teto, estantes repletas de dinossauros, papel de parede com estampas de bonecos de chumbo e bailarinas. Uma piada anacrônica de mal gosto, com amarelinhas desenhadas em alto relevo em um chão azul emborrachado que previne quedas de uma geração que precisa procurar fotos de bola de gude na internet.

Por ordem de importância, mostrou-me um daqueles cachorros frutos de algum desastre experimental nazista. Trinta centímetros de pele fina sobre um esqueleto de Gremlin, orelhas projetadas por alguém que levou o Dumbo muito à sério e possui uma noção infantil de aerodinâmica.  Depois apontou para o resto dos filhos. Os herdeiros do Sr. Escorpião eram um soco no estômago de qualquer conspiracionista detrator da genética. O jovem notável, Antônio Júnior, trazia a marca da besta em algum lugar que tive preguiça de procurar, mas os olhos verdes agateados e a testa curta chapada eram confirmação suficiente da minha crença. A princesa, Jaqueline, era a cópia de segurança com uma modificação ou outra, tal qual os brincos dourados e os cabelos mais curtos. Mesmo correndo o risco de trazer obviedades desnecessárias, destaco que sendo filhos dos tradicionais Escorpiões, Jaque usava rosa e Toninho azul.

Como num desenho animado, quando me dei conta não havia nem mais a remota fumaça da mãe dos anjinhos, que observavam de modo desconfiado cada quadrante do meu corpo. Desci do salto e sentei no chão, convidando os filhotes ariscos para a roda.

– Meu nome é Kovac… – detive-me, falseando a voz e recomeçando – Júlia Cesarina e serei sua babá essa noite.

– Não precisamos de babá – gritaram em uníssono.

– Vocês tem razão. Serei então uma “miga”. Posso chamar vocês de Jaque e Toni?

– Não! – mais uma vez responderam juntos, como num filme macabro do Carpenter.

– Então, que tal brincarmos de Escravos de Jó?

– Eu gosto de escravos – Antônio Júnior emendou, olhando pra irmã.

– Nós podemos te algemar? – perguntou Jaqueline, fazendo menção de se levantar.

– Melhor não – respondi agarrando o ombrinho frágil e cravando sua bunda no chão.

– Vamos brincar de miliciano e bandido? – o rapaz gritou, enquanto agarrava a echarpe presa ao meu pescoço.

– Calma, calma. Que tal vocês me dizerem quais são os seus personagens favoritos? – perguntei dando um safanão no jovem psicopata.

Cruela!

Hannibal Lecter!

Respirei fundo, contei até dez e ajeitei o enchimento no sutiã. Pensei no papelote e na cartela, que trazia no bolso escondido da calça saruel, e trinquei os dentes. A porra do cachorro latiu, lembrando-me da minha predileção por gatos, e mordeu meu calcanhar. Com certa classe acertei uma bica na orelha do animal para delírio dos monstrinhos. Jaqueline sorriu de canto de boca, enquanto o irmão lambeu os lábios. Coloquei meus pés para trás, antes que os pestinhas notassem seu tamanho, juntei as mãos no peito e tentei uma nova abordagem.

– Vamos criar uma história juntos. Era uma vez um índio guerreiro…

– Odeio índio! – o filho do Sr. Escorpião vaticinou de pronto.

– Era uma vez um não índio guerreiro…

– Branco ou preto, se for preto não quero nem saber – a filha da Sra. Escorpião declarou sem qualquer constrangimento.

– Era uma vez um não índio guerreiro, branco e de olhos azuis que queria libertar seu povo.

– Chatooooooo!

Antônio Júnior pulou novamente na minha nuca, enquanto sua irmãzinha subia pelo meu quadril. Com uma agilidade estonteante, ele apertou o tecido que cobria meu pomo de adão em uma gravata profissional, roubando o ar que meu cérebro clamava. Esganado, tentei reagir, mas a mocinha agarrou os meus braços e mordeu minha virilha.  Tudo foi ficando escuro e antes de perder os sentidos escutei; “ela tem Piu-Piu”

Dormi o sono nervoso dos viciados.

Acordei em um inferno neurastênico, absolutamente desorientado. As calças arriadas e as mãos presas com meu cinto.  Minha perna comida e comida, objeto de gula e luxuria. Esfreguei os punhos e consegui me libertar, aproveitei e enlacei o cachorro que fazia festa na minha panturrilha. Cada vez que apertava a tira de couro ao redor do pescocinho do endiabrado cão, mais ele parecia se excitar. Enquanto isso, o garoto canibal se esbaldava com um naco de carne, minha carne, arrancado da coxa.  De chofre cuspiu na parede os restos, meus restos, e correu na direção de sua irmã. Jaqueline plantava bananeira e rodava na base do escorrega com a desenvoltura de uma stripper anã. Foi então que tive certeza de estar em outra dimensão. Procurei a cartela de ácido escondida na calça, mesmo tendo certeza da destinação. Nesse interim, Tony Jr. agarrou a cabeça de sua irmã e começou a lamber seu rosto. A maquiagem grosseira, surgida na minha ausência, ganhava cores mais vividas em razão do brilho da saliva. Minha mente não conseguia encontrar gritos de ordens que exprimissem o quanto aquilo estava errado.

Muito errado.

– Larga, seu pedofilozinho de merda! – Gritei sem levar em conta a semiótica do conceito e desprezando a perspectiva do incesto, demonstrando tacitamente que em minha cabeça havia uma tabela de escalonamento de condutas reprováveis.

– Chupa – respondeu sem desviar o olhar da presa. Abriu a bocarra e arrematou o nariz da companheira de gestação.

– Puta-que-pariu! – Berrei, puxando de reflexo a ponta do cinto que estava em minha mão e esganando o cativo que dava seu derradeiro latido.

Senti uma gosma quente na canela antes de sair em disparada para acudir a pobre garota. Empurrei o pequeno demônio na parede, que ricocheteou e caiu gargalhando com a bolsa de esgar inflada. Jaqueline também sorria com seu nariz de esqueleto, ou melhor, com o seu não nariz de esqueleto. O rostinho angelical transformado em katrina.

Colori a parede duas vezes seguidas com o que me restara do café da manhã, “sucos gástricos preguiçosos” conclui entre soluços. Quando a primeira lágrima se formou no canto do olho felino e contemplei a vibração dos primeiros acordes na úvula inchada, meu coração tentou cavar um túnel no peito. A cada grito a imagem de Tonho Escorpião se materializava menos esmaecida na minha frente.

Certamente seria muito pior se Jaqueline não tivesse tomado dois quadradinhos-de-pura-loucura-ácida. Afinal, os urros de dor são muito mais eloquentes dos que os de espanto. De chofre, resgatei uma tampinha de cocaína despercebida e assoprei o conteúdo nos orifícios de onde certa vez existiu um nariz. Calculei que a substância entraria rapidamente na corrente sanguínea anestesiando um pouco os sentidos. Ledo engano, a jovem pareceu ganhar vigor nas notas mais estridentes. Atônito, não me restou outra solução a não ser tentar nocauteá-la. O primeiro soco saiu desajeitado, escorregando pela bochecha. O segundo acertou a testa jogando sua cabeça violentamente para trás. O terceiro, o quarto e o quinto teriam tido enorme efeito caso ali houvesse um nariz. O irmão, empolgado com a sessão de espancamento – que lembrava uma opera-buffa de baixíssimo orçamento, onde cada golpe espalhava uma nuvem de blush e cocaína  e despertava uma escandalosa ária, – resolveu entrar no jogo. A cada dois murros meus, o moleque já havia dado quatro. Outra vez Hollywood havia me enganado; a tarefa não era rápida e nem silenciosa. Já estávamos suando em bicas quando a não tão frágil Jaqueline resolveu desmaiar. Com todo o zelo que merecia, joguei seu corpo num canto do quarto, mas não sem antes cobrir o rosto, ou o que sobrara dele, com uma máscara do Chewbacca.

Estranho como a vida pode ser muito mais criativa do que um roteirista de mangá. Depois de matar um cachorro sadomasoquista e esmurrar uma criança até “pegar no sono”, achei que meus episódios de psicopatia haviam terminado. Porém, o cantar excessivamente melodioso do alcoviteiro Júnior que repetia “Você matou minha irmã, matou meu cachorro e tem Piu-Piu, vou contar pro papai”, conseguiu sequestrar minha razão.

– Sua irmã não morreu, seu filho-do-putinho! – vociferei para dentro, deixando sair apenas um chiado por entre os dentes.

– Como ela vai sobreviver sem isso? – o escorpiãozinho perguntou, mostrando a língua, donde na ponta o narizinho brilhava como uma joia sobre uma almofadinha vermelha

– Com um “snorkel” atochado na bunda.

– Não vai ser fácil respirar, comer ou cagar.

– Merdinha insolente!

De calças nos tornozelos, sofri para tentar apanhar o guri. Em um pique-pega bizarro de algum vídeo da deep web, girávamos em coreografia ditada por uma força maligna com o senso de humor duvidoso.  Dizem que cansada de só observar o drama, vez ou outra, a natureza lança uma solução na nossa cabeça, como a árvore que jogou uma maçã em Isaac Newton. Comigo, obviamente, ela tinha planos mais esdrúxulos. Não por outra razão, chutei minha peruca de fios naturais e mergulhei de cara no chão. Para minha sorte – ou azar, dependendo exclusivamente da perspectiva – o ventre do cachorrinho salvou-me de uma concussão e imprimiu a marca de um “batom” ao lado do meu queixo. Aparentemente, a morte era arquirrival originária da impotência, especialmente canina. Eivado de raiva e vergonha transcendental, peguei a “coleira” e girei o corpo do “pet como um bárbaro de desenho animado empunhando uma maçã medieval. Girei várias vezes e joguei sobre o corpo do tresloucado rapazinho. O gemido veio rápido.

– Me dá o nariz da sua irmã! – ordenei colocando-o de pé.

– Na-na-ni-na-não – o desgraçado zombou com a boca cheia, o prólogo da deglutição.

Quando vi uma massa se avolumando na garganta, não pensei.  Agarrei-o pelas costas. Encaixei meu quadril no dele, abraçando-o por baixo das costelas e pressionando-o com força. A repetição era o diabo, eu era o diabo. Meu corpo trabalhava em um esforço coletivo jamais experimentado. Movimentos peristálticos ritmados. Por fim, escutei um som oco, de pia desentupida, de cegonha regurgitando, de hérnia de hiato e caixa de achocolatado estourando, tudo junto e misturado. Vi o “saltornamental” do septo, a única vez na vida em que observei algo em câmera lenta.  “Manobra de Heimlich, seu babaca” sussurrei ao pé do ouvido da criatura travestida de criança.

Agora, com um pouco mais tempo, encarando todos os meus algozes, de todas as formas e todos os tipos, diria com a coragem que jamais tive;

Vim, vi e perdi!

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.