EntreContos

Detox Literário.

Modos de Fazer Um Livro – Artigo (Angelo Rodrigues)

Como seria árdua a tarefa de enumerar todas os modos de se fazer um livro. Creio que tantos quanto seria o Homem capaz de os imaginar.

Falo de alguns.

As líricas de Camões, publicadas postumamente em 1595 sob o título de Rhythmas — Rimas —, em pouco mais de duzentos anos havia duplicado de tamanho com sucessivas edições e inserções feitas no original. Já na edição inicial, vários textos apócrifos foram incluídos ao conjunto supostamente autoral. Como os textos foram concebidos por Camões de forma dispersa, ao longo dos anos foram sendo descobertos novos textos e ao conjunto inicial eles foram sendo agregados.

O que verdadeiramente Camões teria escrito ficou nebuloso, uma vez que o manuscrito original teria se perdido numa viagem que fez à Índia. Na ausência de um texto bem certificado, na edição de 1861 o número de sonetos chegou a 352 e em 1953 foram aplainados para apenas 166 — apenas. Números expressivos se sabemos que o Rhythmas supostamente original seria composto por apenas 65 sonetos. Soma-se a isso o fato de que as sucessivas edições trouxeram poemas adulterados, quase impedindo averiguar o que era e o que não era de Camões.

Assim se fez um livro.

Entre 1704 e 1717, quando Jean Antoine Galland publicou a primeira versão ocidental de As mil e uma noites, fez surgir um conto que nunca pôde ser encontrado nas versões anteriores do ‘Quitab alif laila ua laila’; era Aladim e a Lâmpada Maravilhosa. Repete assim a operação de acréscimos e assim também se fez um livro.

Em 22 de junho de 1977, numa conferência sobre As Mil e Uma Noites, Jorge Luís Borges deu por encerrado qualquer desvalor que se pudesse imputar a Galland dizendo que ele, Galland, tinha tanto direito quanto os confabulatores nocturni de inventar uma história e adicioná-la ao livro que vertia para o francês uma tradução ruim do árabe, dizem. E quem ousaria discordar de Borges?

Guardadas as proporções, dado ser o Rhythmas uma obra individual e As Mil e Uma Noites uma obra coletiva, percebemos que a força que une o ocorrido com esses dois livros se expressa por uma curiosa e humana necessidade aditiva. Uma opção afetuosa, um modo de agir, um modo de se ver reconhecido, mesmo que isso impute ao escritor obliquo um submisso prazer anônimo. Mas assim também se fez livros.

Com Borges seguimos, por que não nos deixa parar. No conto ‘Pierre Menard, Autor do Quixote’, Borges nos oferece um escritor que impõe a si mesmo a empreitada de escrever Dom Quixote em pleno Século XX, e se comparamos o original de Cervantes com o que nos legou o Menard de Borges, temos, por exemplo:

de Cervantes:

‘… A verdade, cuja mãe é a história, êmulo do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.’

 

de Menard:

‘… A verdade, cuja mãe é a história, êmulo do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.’

 

Vejam a sutileza: Menard, usando das mesmas palavras e pondo-as na mesma sequência que Cervantes, descrevia cada elemento acerca da verdade, da história e do tempo com a visão que tinha do Século XX, e não com o que compreendia  Cervantes no Século XVIII. Naquela altura, verdade, história e tempo tinham outras dimensões, compreensões. Eram textos iguais, embora distintos, porque, naquilo que Menard copiava meticulosamente de Cervantes, estava a sua alma e não a de Cervantes, embora as palavras fossem as mesmas.

O Dom Quixote saído de Menard era um outro livro, um novo. O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambíguo, dirão seus detratores; mas a ambiguidade é uma riqueza). Não há exercício intelectual que não resulte, ao fim, inútil, disse Borges.

Ainda em Borges, vem dele a graça em que dizia que o primeiro livro que leu, ainda na infância, foi o Dom Quixote de Cervantes, em inglês, e quando o leu no original em espanhol, achou-o uma tradução ruim do original inglês. Assim, de forma oblíqua também, aquele tradutor ao verter o Dom Quixote para o inglês, legou ao mundo um novo original — talvez melhor, segundo Borges? —, e assim se fez um novo livro.

Sim, os tradutores. Muitos vivem submersos em um mal comum. Quantos livros de poesia que andam pelas estantes não se tornaram indivíduos puro-sangue quando vertidos de uma língua a outra? Novos livros. Mas, nenhum tradutor ousou tanto quanto o Senhor Gallus, de Dezsö Kosztolányi, no conto ‘O Tradutor Cleptomaníaco’. Gallus era um húngaro letrado, falava diversos idiomas, dentre eles o perfeito inglês. Quando verteu ao húngaro ‘O Misterioso Castelo do Conde Vitsislav’, roubou quase tudo que encontrou no texto original. Ao entregar o livro traduzido ao editor que o contratara, havia subtraído das páginas que traduzira nada mais nada menos do que 1,5 milhão de libras esterlinas, 177 anéis de ouro, 947 colares de pérola, 181 relógios de bolso, 309 brincos, 435 malas, sem falar de propriedades, florestas, pastos, castelos de príncipes e barões, e objetos menores, como lenços, palitos de dente, campainhas, etc etc. Era outro o livro, menos alentado que o original. Era o livro original do Senhor Gallus.

E se lá estava no original em inglês ‘Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira recheada e atirou a quantia perdida, mil e quinhentas libras…’, vertido para o húngaro pelo Senhor Gallus, que corria a roubá-lo, dizendo ‘Com um sorriso irônico, o conde Vitsislav abriu sua carteira e atirou a quantia perdida, cento e cinquenta libras…’.

Definitivamente, era outro o livro, aquele traduzido pelo Senhor Gallus.

A Alice de Carroll, que triste sina. Quantos livros há dessa menina? Cada tradução um novo livro, ainda que com sutis diferenças. O poema Jabberwocky — em Alice na Casa do Espelho — é o ápice da multiplicação dos textos feita pelos tradutores:

Na primeira estrofe do original, temos:

’Twas brillig, and the slithy toves

Did gyre and gimble in the wable;

All mimsy were the borrgoves,

And the mome raths outgrave.’

 

Modernamente traduzido para:

‘Solumbrava, e os lubriciosos touvos

Em vertigiros persondavam as verdentes;

Trisciturnos calavam-se os gaiolouvos

E os porverdidos estriguilavam fientes.’

 

Embora numa versão mais antiga, conste:

‘Era o fervor, e as rútilas rolinhas

Girando, o tabuleiro afuroavam.

Estavam os truões bem divertidos,

E os cerros patetas se firmavam.’

 

Lewis Carroll usava um recurso linguístico chamado portmanteau — palavra-valise —, onde juntava pedaços de palavra para formar um novo termo de significado duplo, às vezes excessivamente amplo, o que não facilitava a tradução, mas, ainda assim, era outro o poema.

Lembro que na infância li pela primeira vez Alice nessa última versão, de 1943, feita pela ‘Edição da Livraria do Globo’, na Coleção ‘Burrinho Azul’, e me pareceu satisfatória — talvez fosse eu o burrinho azul —, embora totalmente estranha ao original. Havia nela um mistério, embora compreensível, ao contrário da tradução recente, mais bem elaborada, que se mostra difusa na compreensão — talvez uma tradução com intenção mais adulta. Era outro aquele livro de Alice na Casa do Espelho.

Retorno agora a Borges. Quando em 1941 publicou ‘O jardim dos caminhos que se bifurcam’, arquitetou a existência de um certo Herbert Quain, um patético escritor irlandês. Deu a ele uma vaga biografia e uma rala bibliografia, da qual se destaca ‘The God of the Labyrinth’.

Esse livro imaginado por Borges, como se fosse uma imagem que reverberasse por infinitos espelhos em busca daquele que a corporificasse, vagou pelo mundo, pelas estrelas, foi à lua, foi ao sol e um dia, quarenta e três anos passados, voltou à Terra. Foi quando o português José Saramago deu a ela o sopro da vida pondo ‘The God of the Labyrinth’ nas mãos de Ricardo Reis, de Fernando Pessoa, no romance ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’, que o subtraiu involuntariamente da biblioteca do Highland Brigade, um barco escuro sobre o fluxo soturno, atracado ao cais de Alcântara, em Portugal. Saramago fez novamente com que a luz sobre o insípido Herbert Quain se acendesse.

Saramago cuidou para que o livro ‘The God of the Labyrinth’ tivesse um começo: ‘O corpo, que foi encontrado pelo primeiro jogador de xadrez, ocupava, de braços abertos, as casas dos peões do rei e da rainha e as duas seguintes, na direção do campo do adversário’. Borges já havia concebido ao livro que inventara um qualquer trecho: ‘Todos acreditavam que o encontro dos jogadores de xadrez fora casual’. Se emendarmos o início de Saramago com a sequência de Borges mais luz cairá sobre o imponderável Herbert Quain.

Lamento o destino que Saramago deu ao ‘The God of the Labyrinh’, pois foi assim que o fez: Ricardo Reis, tomando o livro em suas mãos, disse: ‘Deixo o mundo aliviado de um enigma’, e o levou consigo para o mundo dos mortos, onde nada se lê ou escreve e os enigmas não fazem sentido — até onde se consegue saber.

Se me fosse permitida uma ousadia, diria que Ricardo Reis tomou em suas mãos o manuscrito original do Rhythmas e o entregou por engano ao bibliotecário irlandês do navio Highland Brigade, que o levou de volta até Portugal, mantendo os mistérios das líricas e permitindo que algum dia, lentamente, se tenha ‘The God of the Labyrinth’ pronto e acabado nas livrarias e o Rhythmas emerso em novas edições com mil sonetos escritos e reescritos por mãos ávidas de acolhimento e curioso reconhecimento anônimo. Assim também se fará um livro.

Interessante esse desejo mimético tão pouco estudado, o de inserir novidades na obra de outro. Um legítimo falso era tudo o que vinha do Senhor Konrad Paul Kujau, que tinha paixão por falsificar. Falsificava tudo, inclusive livros que ele mesmo escrevia e legava a outros a autoria. Após escrever — falsificar — um diário de Hitler, vendeu-o por 2,5 milhões de Marcos Alemães a um comprador, que o repassou à Revista Stern por 9,3 milhões. Tudo após a mais profunda verificação de historiadores e especialistas em grafologia atestarem que o tal diário era autêntico.

Kujau, um alemão de Löbau, não parou por aí, falsificou pinturas de Rembrandt, Van Gogh, Cézane, etc etc, com a máxima perfeição. Tanto assim que ao ser preso e descobertas as suas trapaças, tiveram os especialistas dificuldades para provar que tudo que fizera Kujau era falso, embora ele próprio confessasse a falsidade do que fazia.

Estava ali o desejo de se reconhecer em outro, ganhar a importância do outro, algo que o levava a museus não para admirar suas próprias obras, mas para se ver no espanto dos olhos daqueles que observavam sua perícia como pintor — como falsário. Ele era Rembrandt, Van Gogh, Césane, e até Hitler, não se importava, queria ver-se em olhos admirados.

Além do dinheiro que ganhava, claro, importava ver reconhecido o seu talento, não o de falsário, mas o de autor — de livros e pinturas. Via-se como um dos confabulatores nocturni de As Mil e Uma Noites criando histórias que legaria ao mundo, uma espécie de Jean Antoine Galland moderno.

Há alguns anos foram encontradas novas páginas de Boris Vian onde vinte e cinco novos ‘Escritos Pornográficos’ vieram à luz. Um dos poemas, que não traz título, está traduzido abaixo (lamento pelas duas linhas que ficaram longas demais):

‘Como a luz da manhã,

Quatorze ou quinze anos.

E só um convite: Vem?

Ainda inibida se exibe

Nua frente ao espelho,

E de joelhos, o presente,

Tomando-me em lábios quentes.

Sua boca atrevida,

Desejosa de sabores,

Navega-me ventre e peito

Até minha boca,

Que muda de desejos

Navega seios e ventre

E em sombras quentes

Se sacia retribuindo o presente.’

 

Assim se faz um livro. E qualquer um deles que se começa, traz consigo histórias que por certo já foram contadas e contadas serão um dia com novos nomes, novos personagens e novos autores, e não serão mais aquelas que têm o perfume da originalidade — mas porque isso importaria? —; talvez com 65 ou 352 ou 1000 novas histórias, como nas Rhythmas de Camões. Ou, definitivamente, mais um livro esquecido como em maioria são esquecidos os livros.

Voltando a Boris Vian, afirmo que o poema pornográfico transcrito anteriormente nunca teve um original em francês. Não há um original em qualquer outra língua que essa em que foi lido. Tampouco foi escrito por Vian. Mas um dia poderá ser de Vian, porque depois de cair na grande rede mundial de computadores, só se lerá duas coisas: Vian e o próprio poema.

Quantos passarão adiante para ver essa negação que faço agora? Alguém o verterá para o francês por não encontrar o original e a ele se somarão outros originais. Bons ou ruins serão todos de Boris Vian. E eu como um dos confabulatores nocturni, me verei na pele de Vian.

Pode não ser esse um caminho imediato, mas logo levaremos algum poema ao Google Translate e lá haverá uma nova aba onde se poderá ler ‘Traduzir ao Estilo de:’ e ao pressioná-la aparecerão os nomes de Armando Freitas Filho, Ana César, Camões, Leminski, Verlaine, Rimbaud… e Vian. E… zapt! Teremos um Vian novinho. Impossível? A questão nesse caso é o tempo em que isso poderá acontecer. Assim se poderá construir um livro, bom ou ruim, não importa. Quem perderá tempo com isso se haverá máquinas para cuidar de tudo, ou quando, silenciosamente, se poderá transformar um cheiro ralo de literatura em livro de sucesso mundial.

Em uma novela intitulada ‘O amigo de Norman Mailer’, o personagem Xabat Salcedo-Aguirre diz ao protagonista: ‘Olhe um Pollock e veja todas as pinturas feitas ou por fazer, e isso diminui o hiato entre a arte e a vida real. Por isso eu gosto do que Pollock fez. Qual a diferença entre fazer uma pintura que já estava pronta sobre um muro imundo e não a fazer? Nenhuma, pois ela já estará pronta. Talvez a parte importante seja apenas resgatá-la em meio a tantas pinturas — ou tantos livros — que possui o muro. Faça o muro e faça todas as pinturas, e Pollock fez o muro e ao fazê-lo fez todas as pinturas’. O protagonista não diz se acreditou ou não no que lhe disse Salcedo-Aguirre, embora tenha passado seus dias futuros a observar muros e imaginar histórias, ainda que depois de algum tempo tenha sido levado a sanatório nas montanhas para tratar uma estranha vagueza da alma da qual não se separava.

Um livro se constrói como um resgate de textos escritos sobre textos que se escreveram sobre textos que tiveram suporte em textos anteriores. Um muro de textos como aquele muro citado por Leonardo da Vinci, do qual resgatava todas as pinturas ao olhá-lo com atenção, porque imaginava que todas as pinturas já estavam lá, inscritas nas imperfeições, no musgo, nas rugosidades das paredes. Eram todas aquelas as suas imagens. A mim, dizia ele, cabe apenas resgatar aquilo que vejo nos muros para logo em seguida colocar nas telas.

Um novo livro sempre estará pronto para se misturar às imperfeiçoes desse muro feito por antigas escritas, porque são almas que lá estão, muitas plácidas ou confusas, outras atormentadas. Tudo já estará escrito sobre o muro e todas as palavras já foram postas lá por mãos humanas; o muro do Homem: seus pensamentos.

Todas as palavras que serão postas em um livro não serão outras que não aquelas resgatadas da profusão das circunstâncias que a vida faz grudar nesses muros imperfeitos, rugosos, esburacados e cheios de musgos, e para o qual todos temos olhado por anos.

Um livro é o resgate das palavras que boiam solitárias à nossa frente, e resgatá-las é uma obra de paciência e amor pelas palavras, pelas ideias, enfim, os livros que ainda aguardam ser resgatados para que possam contar suas histórias.

Assim os livros se constroem.

…………………………………………………………..

Obras consultadas:

Borges, Jorge L.; História da Eternidade, Editora Globo;

_____________; Ficções, Círculo do Livro;

_____________ e outros; Literatura Fantástica, Ediciones Siruela;

Carroll, Lewis; Alice na Casa do Espelho, Editora da Livraria Globo;

_____________; Alice, Edição Comentada, Jorge Zahar Editor;

Kosztolányi, Dezsö; O Tradutor Cleptomaníaco e outras histórias…, Editora 34;

Piglia, Ricardo; Formas Breves; Cia das Letras;

Pontes, Mário; Em 200 anos a lírica mais que dobrou; Caderno Ideias, Jornal do Brasil;

Saramago, José; O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editora Caminho;

Vian, Boris; Escritos Pornográficos; Editora Brasiliense.

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6 comentários em “Modos de Fazer Um Livro – Artigo (Angelo Rodrigues)

  1. Gustavo Araujo
    6 de abril de 2019

    Olá, Angelo, li seu artigo no dia da publicação, mas só agora encontrei tempo para vir aqui comentar. É uma maneira interessante de enxergar o nascimento de um livro, ou de qualquer livro. Gostei em especial do que você escreveu a respeito das traduções e das falsificações.

    Outro dia mesmo recebi em casa o conto “A Memória do Mar”, do Khaled Hosseini, traduzido pelo Pedro Bial. Eu mesmo tinha traduzido esse texto aqui para o EC (está lá na seção de clássicos), com o nome de “A Oração do Mar”, e pude comparar a versão da obra comercializada com a minha, amadorística. O que notei de mais interessante é que a certa altura o pai/narrador usa a expressão “Inshallah” na versão em inglês. De minha parte, mantive intacta, mas o Pedro Bial não teve dúvidas em vertê-la para “Oxalá”. Fiquei me perguntado quem estaria certo. Acho que depende de quem lê, mas certo mesmo é que, por causa de diferenças como essa, podemos dizer que há, aí, pelo menos três livros diferentes: o original e as duas traduções. Um pensamento que pelo menos me serve de consolo haha

    • Angelo Rodrigues
      10 de abril de 2019

      Valeu, Gustavo, pela leitura.
      Há graça nos acontecimentos desse artigo, particularmente quando percebido pela perspectiva do que há de puramente humano, da vontade de se perceber com alguma satisfação nos olhos do outro, ver-se no outro, sob a sua (do outro) ótica, e obter nisso a suprema satisfação, e um caso bastante emblemático é o conto do Aladim, posto no Mil e Uma… por Galland.
      Esse “artigo”, que prefiro ver como “Arranjo poético sobre livros”, atravessou muitos anos (ainda que não escrito), pois desde muito cedo me espantaram as versões do poema Jabberwocky de Lewis Carroll, e a transformação que ele teve segundo os diversos tradutores.
      É certo que, tirada a fragilidade léxica de quem verte ou traduz, há um quê de se perceber na obra do outro, pondo nela sua própria alma, e isso se expressa fortemente no escritor do Quixote, que ao rescrevê-lo, palavra por palavra, idêntico, viu ali o seu âmago, e não a alma de Cervantes.
      Valeu pelos comentários.

  2. Sidney Muniz
    5 de abril de 2019

    “Assim os livros se constroem.” Gostei!

    Sabe, precisei ler três vezes, nesses últimos dias, Ângelo, para me aprofundar mais no texto e concluir a leitura e lhe agradeço pelo exercício proposto ao meu eu leitor.

    Senti, confesso que mesmo sendo um artigo a parte inicial está meio truncada, travando a leitura, faltando mais liga para comigo que o li, talvez, eu seja leigo mesmo no assunto. Fato é que insisti na leitura, pois conhecendo e reconhecendo seu talento literário e sua maleabilidade com as palavras, sabia que logo tudo se encaixaria e ao final me deparei com você, te encontrei no artigo.

    “Pode não ser esse um caminho imediato, mas logo levaremos algum poema ao Google Translate e lá haverá uma nova aba onde se poderá ler ‘Traduzir ao Estilo de:’ e ao pressioná-la aparecerão os nomes de Armando Freitas Filho, Ana César, Camões, Leminski, Verlaine, Rimbaud… e Vian. E… zapt! Teremos um Vian novinho. Impossível? A questão nesse caso é o tempo em que isso poderá acontecer. Assim se poderá construir um livro, bom ou ruim, não importa. Quem perderá tempo com isso se haverá máquinas para cuidar de tudo, ou quando, silenciosamente, se poderá transformar um cheiro ralo de literatura em livro de sucesso mundial.”

    Achei essa passagem acima muito interessante, retrata bem a modernidade, retrata muito bem.

    Ao final da leitura, admito que preciso ler mais, conhecer mais de obras tão impressionantes, ler mais autores como você, o Gustavo, o Rubem, o Eduardo Selga, a Claudinha, entre outros, conhecidos, famosos e das esquinas da internet, do entrecontos e de outros desafios.

    Autores estes, que pegam ideias tão cotidianas e transformam em narrativas impactantes, impressionantes sem fugir do apelo, conduzindo as palavras aplicadamente de uma forma escultural.

    Me impressiona o poder de fazer o livro, de fazer da escrita um enlace e transformar palavras em frases perfeitas, frases em parágrafos, parágrafos em páginas, e por fim; páginas em um livro.

    Aqui você citou gênios, disse de coisas sintéticas, de detalhes da construção e organização, de planejamento e ás vezes de planejamento algum, pois o tempo fez com que o livro se formasse.

    Com isso, entendo que desistir é impossível, afinal, podemos até não estar aqui, mas nossas palavras estão espalhadas pela internet, num amontoado de bytes, circulando, por um, por dois, por mais alguns pares de olhos, e assim ganhando vida a cada leitura.

    Que os livros continuem nascendo, que a modernidade nos dê mais oportunidades!

    Um forte abraço!

    • Angelo Rodrigues
      5 de abril de 2019

      Oi, Sidney,

      obrigado pela leitura.
      Publicar é uma desgraça. Borges dizia que só publicava seus livros para não continuar a rescrevê-los. Porque sempre se acha uma bobagem aqui e outra ali, às vezes uma aqui e outra aqui e aqui e aqui, enfim, por todo lado.
      Uma dessas bobagens ficou bem no início, e nessa doida necessidade de acertar, cortar os excessos, às vezes se corta o “excencial” (um portmanteau, com excesso e essencial). Logo no primeiro parágrafo, comi uma mosca (um besouro dos grandes):

      “Como seria árdua a tarefa de enumerar todas os modos de se fazer um livro. Creio que tantos quanto seria o Homem capaz de os imaginar.”

      Estou a falar de “como seria” (um modo) árdua a tarefa, e mudo irresponsavelmente para “tantos” (quantidade), passando logo de cara um ar de desamparo ao leitor.
      A frase original, antes dessa “última correção”, seria:

      “Quanto seria árdua a tarefa de enumerar todos modos de se fazer um livro? Creio que seriam tantos quanto seria o Homem capaz de os imaginar.”

      Manteria o equilíbrio “Quanto-Tanto” e a frase não iria parecer boba, como aconteceu. Mas…
      E lá se foi a bobagem passada ao leitor, mesmo depois de centenas de revisões.
      Fazer o quê? Tarde demais.

      Valeu demais, Sidney, grande abraço.

  3. Angelo Rodrigues
    3 de abril de 2019

    Obrigado, Ana, pela leitura. É um texto que fiz por me intrigar essa magia que os livros e personagens exercem sobre alguns escritores.

  4. Ana Maria Monteiro
    3 de abril de 2019

    Gostei muito, Ângelo. Supunha que viria encontrar uma abordagem diferente, mais do género “como se concebe um livre”, mas encontrei outra a proxinação e gostei muito. Parabéns!

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Publicado às 3 de abril de 2019 por em Artigos e marcado .