EntreContos

Detox Literário.

O Homem que Tudo Verá Encontra o Homem que Tudo Promete (Glauber Rosa)

Não confiava em si mesmo com aquilo e por isso tremia com o revólver na mão. Encostada na ponta letal do cano, a mula encarava o chão, displicente, talvez resignada com a arma apontada para a sua cabeça. Manuel tinha medo de errar, de causar mais sofrimento ao animal. No primeiro instante em que sentiu firmeza, puxou o gatilho. O estouro pareceu estranho ao marasmo daquelas brenhas e teve a impressão de que o som poderia ter sido escutado em qualquer uma das quatros direções da infinidade das caatingas. Tirou a mesma conclusão sobre o baque curto e seco do contato do cadáver de sua antiga montaria com o solo quebradiço.

Nada se alterou ao redor, o sol continuou imperdoável e o silêncio, enlouquecedor. Virando-se para cá ou para lá, o horizonte que se desenhava era mais ou menos o mesmo, a mata brotava do chão rochoso, meio morta. Guardado o revólver e sacada a faca, não houve nenhuma hesitação, pois com aquela, o experiente vaqueiro já era bem familiar. Sem delongas, esviscerou o animal, num corte retilíneo que ia da virilha à base do pescoço. Manga arregaçada até o cotovelo, enfiou a mão pela nova abertura e dali foi puxando suas tripas, desenhando um círculo de órgãos malcheiroso e sangrento ao redor do cadáver. Fez isso até que houvesse espaço o suficiente e dessa vez ele precisou respirar fundo para prosseguir. Manuel se inseriu na carcaça. Forçou de modo que seu corpo inteiro se assentasse no interior da mula. Assim, aguardou.

Não deixou de se impressionar que as moscas vieram primeiro. Pensava que teria escutado o zumbido delas se estivessem por perto, tamanho o silêncio naquele inferno bege e azul. Por algumas horas, tudo o que escutou foi esse zumbido. O cheiro ferroso do interior da mula embalava o estômago, mas não havia o que vomitar, não comia havia dias. Poderia mesmo ter comido a própria montaria, mas preferiu usá-la para outro propósito. Eu vim até aqui em procura dela, e ela não virá se descobrir que sou eu. Preciso enganá-la.

Na manhã seguinte, ela de fato veio e chegou na sua forma tradicional, asquerosa. Eram três, pousados em pontos diferentes da carnificina que desenhara. Sabia que se fosse precipitado, os abutres sairiam voando e então toda a sua andança não teria servido a nada. Manuel já caçara antes e sabia que o bote exigia não só precisão e velocidade, mas também paciência, talvez paciência acima de tudo. Por isso, foi só no momento em que um dos urubus pousou no corpo da mula que ele esticou o seu braço para fora do esconderijo. O corpo escorregou para fora, o braço direito esticado para cima, ele sentiu o pescoço magricela do abutre apertado em sua mão e num rolar pelo chão, puxou-o para si. As asas batiam com força e as garras se quebraram em seu antebraço, num golpe desesperado que visava rasgar a carne. As outras duas aves se afobaram num voo assustado. Manuel não se importou. Só precisava de uma.

Pôs-se de pé, mais preocupado com a tontura que o acometeu do que com o desespero da ave. Espantado o escuro das vistas, olhou nos fundos dos olhos vermelhos do urubu, esse gesto bastando para que a ave desistisse de sua improvável fuga. Manuel lambeu os lábios rachados, precisou limpar a garganta para que as palavras saíssem. Eu não falo uma palavra tem dias, talvez semanas, e não lembro quantas horas tem que não bebo água. A voz saiu rouca.

─ Me diga onde ele está.

O urubu grasnou. Manuel usou a outra mão esquerda para quebrar a sua asa e o jogou no chão. Agachou-se perante a ave agonizante, a ponta de um dos pés sobre a asa saudável, num doloroso aviso. Repetiu a ordem, suave:

─ Me diga onde ele está.

A criatura não se debatia mais. Os olhinhos vermelhos pareciam analisá-lo. Enfim, abriu o bico e falou, numa voz envelhecida, que parecia trazer uma profunda dor em cada sílaba pronunciada:

Sei quem és… não sou quem procuras…

Aumentou a pressão do pé sobre a asa, viu um esgar de dor nas expressões daquele urubu. Se não tivesse tratado com animais por uma boa parte da vida, não imaginaria que urubus teriam expressões. Ela tornou a falar.

Eu sou a FOME… não sou quem procuras.

─ Eu sei quem vosmicê é e sei que é um mal, mas não o maior dos males. Me diga onde ele está.

Você é o homem que tudo verá… ─ embora errática, a criatura soou menos atormentada, parecendo reflexiva, até profética.

Manuel sorriu, mas não de alegria. Jamais se acostumaria ao título. Segurou a nuca da criatura e empurrou o dedão em seu olho esquerdo até que escorresse sangue. A criatura grasnou em protesto. O homem que tudo verá repetiu:

─ Me diga onde ele está.

E dessa vez o urubu piou alto. Respondeu com aquele seu jeito rebentado de falar.

Procure o homem que tudo promete! É nele que encontrará o mal!

─ Outro “homem que”? Mais enigmas. ─ seu dedão afundou com um barulho molhado. A asa “boa” passou a bater no chão, levantando poeira.

Não sei como o chamam entre vocês… é aquele que tem o ouvido de todos, o que promete e o que dá. Às vezes dá! Às vezes dá!

Às vezes dá. Manuel compreendeu de quem a criatura falava, então com as duas mãos quebrou o pescoço do urubu. A Fome não morreria com aquilo, subsistia da carestia das pessoas, que naquela seca continuaria a existir. Pelo menos enquanto o homem que tudo verá não encontrasse o homem que tudo promete.

***

O ponto alto da cidade de Javali era também onde estava a igreja. O governador Horácio Teixeira cumprimentou o pároco com um aperto de mão e uma sutil reverência, ao que o padre acenou com a cabeça, sorrindo. Teixeira se benzeu. A população, que o tinha acompanhado até ali tal qual uma marcha carnavalesca, mantivera-se atrás dos degraus em que levavam à plataforma na qual estava o templo. As pessoas agora faziam silêncio, à sombra desenhada em cruz.

Teixeira se virou para a multidão, o padre à sua direita, mãos ocultas nas mangas da bata preta, cruz de madeira ocupando o centro do peito. À sua esquerda, um pouco atrás dos outros dois, estava de pé um terceiro homem, colete de couro, calça de brim com as barras enfiadas nos canos do coturno. O chapéu de couro sombreava o seu rosto o suficiente para torná-lo um segredo. No entanto, todos ali não precisavam ver o rosto, pois enxergavam o revólver na cintura, que dizia o suficiente sobre quem era. Não o tinham visto nem durante a chegada e nem durante o trajeto até ali, mas tinham consciência de que ele estava presente. Todos compreendiam que a nobreza de Teixeira vinha acompanhada do perigo.

O silêncio daquelas pessoas não traduzia só amor, mas também resignação. Muitos dos homens ali sentados tiveram seus destinos decididos por Teixeira, para o bem ou para o mal e, em certas questões, para vida ou para morte. Fazia com que o governador não fosse só um homem, mas um grande credor. Aqueles homens eram devedores e sabiam que era assim que as coisas eram. Por isso, quando ele repuxou as abas do paletó branco, todos esperaram. Teixeira falou o que havia sido feito, mas o que realmente animou as pessoas era o que ele ainda ia fazer.

─ Eles perderam o governo uma vez e vão perder de novo. E vão ter que aceitar. Vão ter é que engolir!

Ele não havia planejado falar mais do que isso e o clamor dos humildes moradores de Javali também não permitiria. Decidiu que bastava, jogou-se de onde estava e foi ao encontro dos populares, recomeçando um lento avanço pela cidade. Em algum momento segurou a criança de alguém no colo e em outro a devolveu para um outro alguém, sem olhar quem nos dois casos. Um magricela deteve o governador por um breve minuto para questioná-lo – sem levantar a cabeça e gaguejando – sobre o que seria feito a respeito do Rei Caolho que “mata e estrupa”. Teixeira deu um tapinha amigo em seu ombro, lembrou-lhe que colocara o tal rei para correr em mais de uma ocasião e que acabaria com a raça dele de uma vez. O magricela até pareceu ter algo mais para dizer, mas o retorno das vivas o impediram. Escutava-se apenas o nome: TEIXEIRA! TEIXEIRA! TEIXEIRA!

A multidão foi se dividindo e não era por causa do governador, até então o único homem que causava esse efeito. Aqueles que estavam mais na frente e abriam o caminho pararam, formando um novo cerco para o que aconteceria. Horácio Teixeira não conhecia Manuel, mas reconheceu o que a sua passagem produzia e parou ao vê-lo. O povo de Javali já havia visto o governador sorrir, comover-se, ficar sério e atencioso, mas ainda não tinham o visto desentendido. Todos se silenciaram, apreensivos. Desentendimento é prenúncio de medo e eles não imaginavam que homens como Teixeira sentissem medo.

O governador ia ajeitar o seu paletó, mas Manuel antecipou:

─ Vosmicê sabe a verdade.

Antes de falar, Teixeira deu procedência ao seu gesto, puxou as abas do paletó, mas não se pronunciou de imediato. Os olhos vasculharam os arredores, as pessoas o aguardavam. Não chegou a dizer nada antes do punho de Manuel quebrar os seus dentes. O golpe o lançou ao chão com a boca cheia de sangue. Houve um suspiro coletivo, ninguém se moveu exceto o homem do revólver, a mão já armada e o tiro já disparado. A bala encontrou o seu alvo bem na têmpora de Manuel, que tombou. As mulheres acudiram o governador, uma criança se agachou e alcançou alguma coisa no chão. Era a bala. Estava amassada. Manuel se levantava.

Mais cinco balas acertaram o seu corpo, estremecendo-o, o que não o impediu de se erguer. Ao seu redor, as cápsulas estavam no chão, retorcidas. Sua camisa estava esburacada e rasgou ainda mais quando o jagunço tentou penetrá-lo com a faca. O atrito produziu faíscas, mas nenhum sangue. O sujeito não teve nem tempo de se surpreender, Manuel usou uma só mão para espremer o seu pescoço até arrebentar tudo que havia na garganta. Sangue espichou pela boca do jagunço, reluzindo no pulso de Manuel. Muitas pessoas já tinham corrido e todos fugiram quando Manuel puxou o revólver e deu dois tiros para cima. Voltou-se para o homem caído, se sentindo um pouco atordoado pela tontura que traduzia dias de fome e uma bala na cabeça.

─ Vosmicê sab… ─ não completou a repetição, chocado pelos olhos negros que o observavam.

Horácio Teixeira sorria vermelho, mas não como em seus outros sorrisos. Tampouco o preto em seus olhos poderia ser seu ou, em verdade, humano. Ao falar, a voz também era outra.

Que honra, ó, que honra! ─ levantou, bateu a mão nas calças brancas, não a limpando da poeira e a sujando de sangue ─ fico feliz em finalmente conhecer o homem que tudo verá, contemplador por excelência!

─ E vosmicê… O que tudo promete. Acho que não é homem não.

A coisa negou com a cabeça, estapeou o ar, como quem achava graça.

Homem? Eu não sou, mas eu conheço os homens e eles me conhecem… ora, eles que me fazem… e como são criativos! Os que andavam nus me chamavam de um jeito… e eu dizia pra eles o que tinham que fazer: ora, paz é só um sinônimo de derrota. A paz de verdade é quando se vence. Mate. E se você deixar os guerreiros, voltarão para te matar, então coma os guerreiros deles, e se torne os guerreiros deles. Mas então chegaram os da cruz e me deram esse nome que na verdade virou mil nomes:  o diabo, o coisa ruim, o Satanás… minha nossa, como foi engraçado ver aquele choque… os de cá comiam os de lá, que queimavam vivos os de cá. Mas se morrer todo mundo, de que adianta? O engraçado é ver como eles se veem. São todos formigas, que qualquer um esmagaria, mas uns acham que são melhores que os outros… lamentei que tenham abolido a escravidão… mas veja bem, eles inventaram outras, sempre inventam! ─ Cuspiu uns pedaços de dente. Caminhava transcrevendo um semicírculo. ─ Essa é a nova: a República, igualdade para todos. ─ a gargalhada dela fez Manuel recuar um passo ─ Não ri, ó, eterno contemplador? Não acha engraçado que a primeira palavra da opressão seja a igualdade? Alguns votam. Esses alguns obedecem aos homenzarrões de chapéu, que tem uns homenzinhos com armas. Então os eleitos dão um doce para os homenzarrões de chapéu, que garantem que os homens de terninho preencham umas cadeiras e façam as leis e a vida de todo mundo… tudo em nome da igualdade. E aí esses todos apertam as mãos para ver quem vai ser o Grande Homem de Terno, que vocês chamam de presidente. ─ usava uma das mãos para demonstrar os níveis do domínio. ─ Eu acho que mereço o mérito pela criação. Eles fariam sozinhos, mas eu dei aquele empurrãozinho que seeempre precisam.

Coronéis, prefeitos, governadores, senadores e deputados, Presidente… todas palavras que ele não saberia definir. Diria, meio resmungando: é tudo política. Mas agora fazia sentido.

Vejo que começa a entender… procura pela origem do sofrimento? Pensou que era em mim que acharia?

Manuel compreendia.

─ Não tem origem…

Porque não é um ponto, é o próprio sistema. ─ sufocou o princípio de uma risada ─ A República! ─ gargalhou. Manuel baixou a cabeça. ─ E você? O homem que tudo verá… aquele que é indestrutível, não te tocam bala ou doença, mas não é imune às palavras. Então seis balas não te derrubaram, mas agora que entende a verdade… amedronta-se? É triste saber que sua imortalidade te garante apenas um camarote para o sofrimento de milhares? Tudo verá.

─ Eu não ficarei só assistindo. ─ e falava de cabeça erguida, olhos ferozes nos olhos negros da criatura.

E o que vai fazer?

Apontou o revólver, engatilhou. Ela sorriu.

Soube que matou um dos filhinhos da Fome. Acabou com a Fome?

─ É um começo. Matarei todos que servirem à miséria.

Todos os governadores?

─ O presidente. Acabo com a República se precisar.

Assumo a próxima coisa que vier.

─ Então eu acabo com vosmicê.

Mas o governador Horácio Teixeira recuou dois passos, tropeçou e caiu sentado. Desatara a chorar, com seus desesperados olhinhos humanos.

─ Não foi eu, não foi eu. Por favor, não!!

Manuel não precisava matá-lo. Virou-se, recomeçou a caminhada. Encontrara o homem que tudo promete, mas apenas em uma de suas versões. O inimigo era imenso e sua jornada, longa, eterna. O homem que tudo verá pegava a estrada.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.