EntreContos

Detox Literário.

A Passagem Secreta (Beck Siqueira)

Uma manhã como outra qualquer. Sol entrando pela  fresta das janelas laterais, brigando com as enormes cortinas escuras. O barulho matinal, diminuindo os restos de silêncio mortal da noite cansativa.

A mulher despertou com o marido e o filho na cama. Cheiro de pinho e café misturando-se no ar ao cheiro de talco da pequenina criança. Seria um dia corrido, ela sabia. Milhares de coisas para fazer antes de pegarem estrada. Tocou de leve o pescoço, sentindo a minúscula ampulheta que ali repousava. E então retornou a lembrança do sonho e a voz em tenor, avisando-a sobre os perigos do sótão. Passou a mão pelos cabelos e esfregou os olhos, crença adquirida na infância para libertar-se dos pesadelos. Eles esconderam-se, ela olhou para o espelho, enquanto soprava o pãozinho de queijo.

Era noite. Um sono denso, profundo, de sonhos sombrios, diferentes de sua realidade doce e prazenteira. Entre eles uma voz lhe dizia que não abrisse a porta secreta do sótão. Na infância fora seu lugar predileto.

Despertou pela manhã feliz. O marido não estava na cama e ela abraçou o travesseiro dele ainda quente, com seu perfume de pinho. Não entendia seu gosto por odores amadeirados, gosto dele e dela. Ela lhe disse, na lua de mel, que quando morresse, ele deveria mandar fazer um ataúde de pinho ou pau-rosa, seria uma morta a “la Chanel”. Ele achou macabro o assunto para um momento e mudaram de tema. Ela não mudaria de ideia.

O cheiro de café fresco e forte adentrou o quarto, mudando sua linha de pensamentos. Era o aniversário de casamento deles,  três anos de felicidade.

Decidida, disse a si mesma, a voz recém-desperta, ainda cavernosa:

– Depois de ver Rodolfo no berço, vou ao sótão.

A lembrança do sonho trouxe de novo a voz e o alerta sobre a porta secreta e que se lhe acessasse seria o fim. Mas, fim de quê? E porque acabava sempre lembrando de sua ampulheta, quando o sonho voltava à sua lembrança. Espantou tudo, mexendo no cabelo, costume da infância. E sorriu para o novo dia.

O marido entrou com a bandeja de café em uma mão e o filho na outra.  O menino saltou sobre a mãe e felizes, os três tomaram o café da manhã, juntos, entre sorrisos, abraços e beijos. O sótão ficou para outro dia. Era hora de preparar as malas para as férias de Carnaval.

Ainda tinha um tempo antes de preparar tudo para a viagem

– Amor, deixe as malas comigo. Tire um tempo para você. Vamos sair dez horas.

– Vamos comer no caminho, então, Lelê?

– Sim, Nadia. E pare com esse apelido. Rodolfo já anda a me chamar de “palelê”.

A mulher sorriu, frente ao espelho reverso, o sonho voltou à sua memória. Uma hora dessas teria que acessar o espelho, tinha certeza que assim mudaria seus sonhos.

Era noite, ela dormia. Um sono denso, profundo, de sonhos sombrios. Aquela voz a alertar sobre a porta secreta. Na infância, seu lugar predileto. Amava olhar os pais recém-acordados a esperar que ela saísse pelo reverso do espelho e juntos tomarem café na cama, em alegres festejos. Ia ensinar a passagem para o filho.

Despertou pela manhã feliz e saltitante, a mão esquecida sobre o colar que nunca tirava, sentia a frieza do vidro que revestia o pequeno relógio do tempo. Os barulhos da casa despertando, começaram a trazê-la de volta ao seu novo dia. O marido já fora da cama, o travesseiro cheirando  pinho. As doces lembranças da vida diária, apagaram os restos escuros dos sonhos.

Ouviu passos na escada, percebeu que Leandro parava no quarto do filho. Comprometeu-se a ir ao seu lugar feliz e acabar com seus pesadelos… Não, eram só sonhos irreais com espelhos, luzes, túneis iluminados e lustres cobertos com voal…

– Sonhos fantasmas. – Sussurrou, sorrindo, momentos antes de Leandro entrar com o café e o filho nos braços.

– Bom dia, Nadia.

– Dia dia, mami.

– Bom dia, meus amores.

Tomaram café entre risos, abraços e beijos. A mulher ergueu-se da cama, disposta a tomar um banho, mas, o espelho reverso a chamava, enquanto a voz mandava manter distância. Os olhos pararam sobre o computador e o fluxo dos pensamentos mudaram por um instante.

– Leandro, tenho que enviar o livro para o editor. Está pronto. O editor, como sempre, deixou ao meu gosto.

– Faremos isso na sexta-feira, querida.

E ele, depois de lhe sorrir, feliz,  deitou-se, com o filho nos braços. Esquecido dela, começou a contar uma história. Absorta, foi para seu quarto de infância. Abriu a porta de fuga, com cuidado e entrou no sótão.

Tudo estava como antes. A cama de madeira antiga do irmão, que o filho herdaria deveria estar ao canto, não a viu. O berço já não era forte o suficiente. O velho computador, presente do pai, descansava, já coberto sobre sua cômoda de solteira, era ali que ela vinha, às vezes, de madrugada, escrever suas histórias. A cadeira de balanço da avó. Os brinquedos antigos das crianças que ela e o irmão foram. A cadeira de amamentação… Essa ela não lembrou de ter tirado do quarto do filho, entretanto, não a incomodou vê-la ali. Assim como não a incomodou ver o cadeirão de madeira onde Rodolfo fazia suas travessuras também guardado… Apenas  estranhou vê-lo ali, tinha certeza que estava na cozinha…

– Nadia, Nadia, Nadia! Se demorar recontando lembranças, Leandro termina a história e você não  surpreenderá seu filho.

Desceu a escada, sem prestar atenção em mais nada e subiu no mezanino, indo direto para a porta secreta. Não percebeu seus vestidos guardados no cabide enorme do outro lado do canto, perto de sua cadeira de descanso, não viu a cadeirinha de bebê deixada entre suas caixas de sapatos. Nada mais prendeu sua atenção, estava focada em surpreender o filho, com pouco mais de um ano, Rodolfo adorava fazer novas descobertas. Certa de que ele ficaria satisfeito com sua entrada triunfal no quarto, procurou o painel de acesso, para reverter o espelho e expor o segredo que ele guardava para o filho.  

Acionou o mecanismo, o painel  se iluminou e ela olhou para dentro do quarto.

As cortinas estavam abertas, ela viu logo, não lembrava de  tê-las deixado assim. Então algo mudou sua atenção. Leandro e Rodolfo não estavam mais no quarto. Ou melhor… A cena à sua frente estava toda trocada, desconhecida. No seu quarto, na verdade, havia um homem mais velho, com cabelos brancos nas laterais do rosto, de costas para o painel. O homem voltou-se para o espelho, um sorriso triste apagou seu rosto no momento exato que o menino entrou.

– Trouxe o café, papai Lelê.

O homem dirigiu-se, com sua cadeira de rodas, até o espelho, depositou o livro na estante e sorriu.

– Filho. Que tal irmos ao sótão hoje?

O menino concordou alegre, depositando a bandeja em um aparador próximo a cama de casal, que ela tinha certeza nunca ter visto.

– Vamos. E levamos o bolo de aniversário da mamãe. Vovó já fez. – O menino completou, alegre. O homem dirigiu-se ao aparador, guiando com segurança sua cadeira. Enquanto o menino virou-se para onde ela estava, parada, sem forças para entrar no quarto.

Devagar, ele aproximou-se, passou a mão gordinha de criança em fim de infância, sobre o livro, chamando a atenção da mulher assustada para o objeto.

“Pau-Rosa”, contos e recontos, de Nadia Fonsi, edição póstuma.

Era o livro que eles iriam levar para a editora na sexta-feira seguinte! Enquanto o garoto olhava o livro,  uma Nadia confusa olhava para dentro, reconhecendo ali seu marido e filho…

A ampulheta se rompeu. O chão fugiu de seus pés e a realidade voltou com a mesma violência do acidente. Chovia horrorosamente e a chuva viera sem aviso. Outro carro surgiu do nada na contramão, com a luz alta. Freadas bruscas.  Choque. Barulho de ferros e latarias se partindo. Som de ossos se quebrando. O silêncio. O frio. O choro do filho. O chamado desesperado do marido, que ela não conseguia responder. Os olhos pararam de ver a chuva e então, deixou de se preocupar, já que apesar de se ver totalmente ferida,  nada sentia.

Foi sua pior descoberta:

Estava morta.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série C1.