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Detox Literário.

Todos os fogos o Fogo, de Julio Cortázar – Resenha (Fil Felix)

Os contos do Julio Cortázar possuem um clima surreal muito interessante, no sentido de que algo não parece certo, com as situações bastante insólitas, como se estivéssemos num teatro vendo uma peça. Todos os Fogos o Fogo é uma coletânea com 8 contos do autor, publicada originalmente em 1966 e lançada no Brasil em 1969, ganhando várias reedições de lá pra cá, com textos que revelam a diversidade presente em seu estilo narrativo.

A Auto-Estrada do Sul abre o livro num clima excelente de suspense, transportando o leitor pra um enorme engarrafamento, que já dura dias. As personagens não tem nomes, sendo relacionadas às marcas de seus carros. Temos a Srta. Dauphine, o casal do Peugeot 203 e assim por diante. E nesse engarrafamento se criam amizades, relacionamentos amorosos, um ajuda o outro, precisam racionar água e comida, lidar com os doentes e possíveis brigas e mortes. Além do tom apocalíptico, já que não se sabe ao certo o que ocasionou o engarrafamento, é como se estivessem numa espécie de inferno pessoal. Seria um acidente, uma neblina, um monstro? As interpretações podem ser das mais diversas. E aqui vemos um ponto que é bastante comum em quase todos os contos da coletânea: a perda da noção de tempo.

Em A Saúde dos Doentes, por exemplo – e o meu preferido desse livro -, ele segue uma proposta estilo “casa de bonecas”, com o leitor observando de fora toda a rotina de uma família dentro de sua casa. A Mãe enferma que não sabe da morte de um do filhos, sendo enganada pelos outros filhos e tios, que inventam uma mentira de que o falecido viajou e, a cada dia que passa, precisam se reinventar em novas desculpas para encobertar a verdade. A situação fica fora de controle quando uma outra filha, a Tia Clélia, adoece e, para não assustarem a Mãe enferma, a família passa a inventar uma outra mentira. E nesse teatro, todos passam a fingir. E não sabemos até que ponto a Mãe compra essas histórias e até onde os demais filhos são capazes de ir, como no diálogo “- É muito esquisito – disse mamãe, tirando os óculos e olhando para as molduras do teto. – Já recebi cinco ou seis cartas de Alejandro e em nenhuma ele me chama de… Ah, mas é um segredo entre nós dois. É esquisito, sabe. Por que não me chamou assim nem uma vez, só?“. Ela sabe ou não sabe? Um conto genial, que termina de maneira magistra.

Na Auto-Estrada, não sabemos ao certo quanto tempo passou desde que pararam no engarrafamento. Dias ou semanas? E assim como em A Saúde dos Doentes, o leitor é inserido no meio de algo que já vem acontecendo. Em muitos não há nenhum contexto ou explicação, é preciso entrar na magia. Como em Reunião, que retoma essa coisa do tempo, perdendo a noção de quantos dias estão em guerra, com os soldados seguindo seu rumo, que não sabemos bem qual é, nem para onde estão indo e porque o estão fazendo. Já em A Srta. Cora, Cortázar faz uma jogada técnica que nunca li: narrar o texto a partir do ponto de vista de diversas personagens. Há um adolescente internado numa enfermaria, se preparando pra uma cirurgia, enquanto morre de vergonha da jovem enfermeira, a Srta. Cora, que, por sua vez, acha graça no garoto e não gosta da mãe dele, que é desaforada. O texto segue quase todo dentro do quarto da enfermaria, mais um ponto que reforça a ideia de “peça de teatro”, e num mesmo parágrafo temos o menino falando em primeira pessoa e, logo na frase seguinte, a Srta. Cora: “Tenho que ver se o cobertor agasalha bem o menino, vou pedir, por via das dúvidas, que deixem um outro à mão. Mas sim, claro que estou agasalhado, ainda bem que eles foram embora de uma vez, mamãe acha que sou um garoto e me obriga a fazer cada papelão.” Há parágrafos com três narradores diferentes. No começo você acha estranho, mas aos poucos se habitua e passa a entender naturalmente, quase virando uma esquizofrenia quando o narrador muda a cada virgula.

E falando em peça, Instruções a John Howell trata, exatamente, de um cara que está assistindo uma peça de teatro e que, de repente, se vê entrando na coxia e ganhando um dos papéis. É a história dentro da história, um longo conto praticamente sem pausas, numa só tacada, sem parágrafos. O próprio autor brinca com essa questão do tempo, nesse conto, na frase “Sem uma pausa, sem o mínimo intervalo necessário para poder mudar o rumo que essas palavras davam definitivamente ao que viria mais adiante”. Todos os Fogos o Fogo se revela uma coletânea que mostra a versatilidade do autor, mas sem fugir de temas e características básicas que cercam seus textos, como o absurdo no cotidiano. O conto título segue duas narrativas em simultâneo: a primeira, com uma briga de gladiadores numa Roma que pode ter existido ou não; e a segunda, com um casal de amantes que se falam por telefone. Ambas vão se intercalando, com os eventos narrados de maneira curiosa, como se a briga dos gladiadores estivesse passando na TV dos namorados. Uma loucura! Aos amantes do surreal e nonsense, é uma ótima pedida. Além de funcionar muito bem como estudo de narrativa, poder observar como Cortázar caminha com suas histórias, explorando e experimentando o fazer literário, seja com diversos narradores ao mesmo tempo, sem usar parágrafos ou pausas, sem dar muitas explicações, entre tantas outras, provando que não há receita em se tratando de contar uma história.

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Publicado às 15 de janeiro de 2018 por em Resenhas e marcado , , .