EntreContos

Detox Literário.

Vingança – Conto (Jorge Santos)

1.

Estava frio. Porra. Tinha  de estar frio?

Helena percorria as ruas mais escuras da cidade. Eram nove da noite. Estava atrasada. Isso não era normal. Ela nunca se atrasava, mas tinha um mau pressentimento. Puxou a mini-saia para baixo. Tinha um rasgão nas meias. A pele branca da coxa mostrava que há muito tempo que não ia à praia.

Merda. A lembrança da praia num momento daqueles. A mãe e o pai. Construir castelos na areia. O riso. Na altura não dava importância ao riso. Agora desesperava por ele, como desesperava quando não conseguia ter nada para comer. Puta de vida a sua.

Mensagem. Algum cliente para satisfazer depois. Não ligou. Não lhe apetecia satisfazer ninguém naquela noite. Pegou no telemóvel. Passa por ele um mendigo. Ela vai à carteira e dá-lhe uma moeda, acompanhada por um sorriso. Ele trata-a pelo nome. Ela é conhecida naquele bairro. Um carro passa por ela, o condutor abre o vidro, grita-lhe uma qualquer obscenidade. Ela finge não ouvir, tal como finge que os homens não lhe tocam. Refugia-se sempre nas suas lembranças, de quando era feliz, mesmo sem saber. Duas raparigas passam por elas. Vão para uma festa qualquer. Já estão bêbadas. Chamam-lhe puta e desaparecem na noite. Elas têm um lar, para onde vão se a ressaca as deixar. Na realidade, não são muito diferentes de Helena, mas trabalham de graça. Dentro de alguns meses todos os rapazes da cidade as vão conhecer. “Putas”, chama-lhes ela. Na sua imaginação. Há quanto tempo Helena não tem lar? Há demasiado. A mãe pisgara-se depois do pai ser preso, deixando-a com uma tia que a confundia demasiadas vezes com uma garrafa de whisky e um tio que a confundia demasiadas vezes com a tia.

Estava frio. Porra. Tinha de estar frio? Confirmou a morada. Estava perto. Pelo menos isso. Esperava que o apartamento tivesse aquecimento. Detestava fazer serviços em apartamentos frios. Sentir as mãos frias deles a tocar-lhe na pele. Sentiu um calafrio ao pensar nisso. Não. Aquele ia ter aquecimento. E o homem ia ser simpático. Detestava quando eram violentos. Já tinha ido parar uma vez ao hospital. Pelo menos parara, durante algum tempo. Não fosse o apartamento que ficara por pagar, até não desgostara completamente.

Número 20. Era aquele. Um prédio de cinco andares, igual a qualquer outro prédio de cinco andares naquela cidade. Tocou à campainha. Esperou que ninguém respondesse. Queria ir embora. O pressentimento não a largava.

“Quem é?”, disse uma voz no intercomunicador.

Ele estava. Merda.

“Sylvie”, disse ela. Era o seu nome de guerra. Nunca lhe passara pela cabeça que um cliente usasse o nome que os seus pais lhe tinham dado. Esse era sagrado, reservado para os amigos. Se os tivesse.

A porta abriu-se. Ela entrou, de uma forma lenta. Entrou no elevador, que esperou que ficasse parado antes de chegar ao 4º andar. Mas não. Até a porra do elevador a contrariava.

Letra E. Virou o corredor. Lá estava. Tocou à campainha e esperou. Queria fugir. O seu coração já começara a fuga, batendo descontroladamente.

 

2.

Victor acordou com a visão de sempre: a luz ténue da pequena janela, as barras de ferro e o sorriso desdentado do Pepe. Alguns dos dentes tinham sido partidos pelo próprio Victor, mas depois entenderam-se. Na prisão, todos se entendem, de uma maneira ou de outra, ou o dia-a-dia torna-se um inferno. Alguns não aguentavam. Victor sabia de muitas histórias, mas preferia ignorá-las. Contava o dia em que ia ser livre. Faltava só uma semana. Sete dias. No Domingo ia ajudar o capelão na missa, com era seu hábito. Deus tinha-lhe feito companhia naqueles cinco anos. Fizera-lhe ver que havia esperança, mesmo quando já não podia haver esperança. A Eva mandara-se para Espanha, um mês depois de ter sido preso. Restava-lhe a filha. Helena estava bem na escola. Era boa aluna. Ele quando saísse ia fazer com que a filha estudasse e fosse uma doutora. Ela merecia isso. Era o sonho de Victor, aquele que o mantinha lúcido, por mais que aquelas grades o tentassem enlouquecer.

“Victor Silva, chamado ao Director.”

Victor levantou-se. A porta foi aberta. Seguiu o guarda até ao gabinete do Director Jaime. O cabrão, como era mais conhecido lá dentro. Victor não tinha nada contra ele.

“Sente-se”, disse Jaime. Victor sentou-se. Algo na fisionomia do Director lhe dizia que trazia más notícias.

“Tra-trago más notícias”, disse Jaime, fazendo a careta habitual. Quando estava mais nervoso começava a gaguejar.

Victor esperava o pior, mas não lhe passava pela cabeça que o pior fosse aquilo. A cada palavra do Cabrão ele ia morrendo por dentro, como se fosse um prego cravado na sua carne. No fundo, tudo se resumia a que a esperança morrera com Helena, morta selvaticamente por um homem. A sua Helena. Obrigada a oferecer o seu corpo a estranhos. Victor levantou-se, agarrou a cadeira onde estivera sentado e despedaçou-a contra a parede do gabinete do Cabrão. O guarda tentou imobilizá-lo, mas um único homem nunca conseguira imobilizar um homem da corpulência de Victor. Entraram mais dois. Só à força de cassetetes o conseguiram vergar. Foi um Victor desfeito que voltou à cela.

O sonho desfeito. No dia seguinte saiu com relutância da cela. Foi sem gosto para a Capela.

“É nestas alturas que devemos falar com Deus, e que ele nos responde”, disse o Capelão, devidamente informado do sucedido pelo Director.

“E vai devolver-me a minha filha?”

O Capelão olhou para Victor e disse-lhe, com um sorriso: “Não é a tua filha que precisa de salvação. És tu. Tu é que tens de arranjar coragem para continuar a viver.”

“Viver para quê?”, perguntou Victor. Era impossível respirar sem se lembrar da filha.

“Deixa que o Senhor te responda a isso. Dá-lhe uma oportunidade, com uma paciência infinita.”

“Paciência? Como a paciência que aquele homem teve para lhe rasgar a carne?”

“Deus dar-te-á uma resposta.”

E o Capelão deu-lhe uma Bíblia. Por causa da sua explosão no gabinete do Director, Victor teria de cumprir mais duas semanas de pena. O Cabrão, além de o ser, não tinha coração. Mas Victor não se importava. Deixara de ter motivos para sair da prisão. Passava os dias acompanhado pela Bíblia, até que uma passagem lhe saltou à vista:

Exôdo 15:9
Dizia o inimigo: perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo, satisfarei meu desejo de vingança, desembainharei a espada, a minha mão os destruirá.

Flores. Victor depôs as flores na campa simples da filha. Deixou-se cair de joelhos. As lágrimas escorriam-lhe sobre as flores. Ele ficou ali durante mais de uma hora. O tempo parou. Helena apareceu-lhe, reconfortou-o, depois desapareceu. Seria um sonho, talvez. Victor levantou-se. Deixara a sua alma junto à campa, junto às flores. Arrastou-se até ao sítio onde tudo acontecera. Seguiu o trajecto, desde o apartamento imundo da filha até ao Nº 20. Tocou à campainha. Atendeu a voz de uma senhora. O apartamento fora alugado novamente. A senhora não tinha conhecimento de que uma rapariga de 18 anos tinha sido violada e barbaramente assassinada. Victor reuniu toda a humanidade que conseguiu para se despedir dela. Não sorriu. Perdera a capacidade de sorrir desde que o Cabrão lhe dera a notícia. Pensava apenas na vingança.

Releu os jornais onde tinha saído a notícia. Para as pessoas, era apenas mais uma prostituta morta. Uma entre muitas. Para o Victor era uma menina de caracóis loiros que brincava no seu colo.

A polícia tinha pistas. Não tinha provas. Victor olhou para o retrato robot. Podia ser ele próprio. Um homem forte, alto. Com a compleição de pugilista. Era ele. Um outro olhar. Ele conhecia-o. Já lutara com ele. Há muitos anos. Antes da Helena existir. Imaginou o ringue de boxe e o olhar de raiva dele enquanto desferia soco sob soco. Victor perdera aquele combate. Devia tê-lo desfeito na altura. Sabia onde o encontrar. Na zona mais imunda da cidade, onde nem a polícia podia entrar. Mas o Victor podia. Sabia como se esconder, fundir-se nas paredes sujas, sem que os miúdos que traficavam droga na esquina desconfiassem do que ele estava, na realidade, à procura.

Ele estava ali. Victor observou como saía de casa, como se não lhe pesasse na consciência o facto de ter morto um anjo. Tornou-se a sua sombra. Seguiu-lhe a rotina até ser notório que se tratava de um anormal. Nunca poderia ter praticado o crime com ele tinha feito. Havia alguém por trás dele. Quem? Só havia uma forma de o conseguir fazer.

 

3.

Exôdo 20:8
Mostra-te amigo para com teu servo, pois que fizeste um pacto comigo em nome do Senhor. Se eu tenho alguma culpa, mata-me tu mesmo; por que fazer-me comparecer diante do teu pai?

Ele fedia. Victor esqueceu esse facto, tal como esqueceu o facto de o querer despedaçar com as próprias mãos. Deixá-lo a sofrer como tinha sofrido a sua própria filha. Imaginava tudo. Era tão fácil, porque ele confiara nele, tão desesperado que estava em ter um amigo com quem pudesse beber uns copos na taberna. O álcool escorregava na goela de Victor como se de ácido se tratasse. Cada riso soava a provocação. Sempre que saía da sua companhia, Victor tinha de se encostar à parede e desfazer a sua raiva com os punhos, até que as mãos se rebentassem todas. No dia seguinte, ele voltava, e o crápula que lhe tinha assassinado a filha perguntava-lhe por essas feridas. Estava preocupado, e essa preocupação provocava-lhe nojo.

Quando Santiago se abriu, aquele que ele pensava que era seu amigo conheceu o buraco onde estava metido. Nunca pensara que no mundo pudesse haver tamanha podridão.

Psico-visão. O mundo mudara muito nos anos em que Victor estivera preso. A televisão era uma coisa do passado. Essa tecnologia era coisa do passado. Agora o último grito era a Psico-visão. Santiago mostrava a Victor como funcionava, espantado pelo facto deste ter completo desconhecimento da sua existência.

“A Psico-visão captura o que os teus sentidos sentem. Todas as impressões. Se estás num jogo de futebol e os sentimentos do jogador estiverem a ser gravados, consegues sentir a sua euforia ao marcar um golo, ou a dor que sente numa lesão.”, explicou Santiago. A Victor estava a escapar-lhe a ligação que aquilo tinha com a sua filha. Santiago entregou-lhe um dispositivo com a forma de capacete e carregou num botão de um controlo remoto. Victor foi imediatamente transportado para outro sítio. Estava a nadar numa piscina. Sentia-se no corpo do nadador. Teve um momento de pânico porque ele próprio não sabia nadar, mas o nadador sabia, e isso era suficiente. Quando Santiago desligou, Victor percebeu.

“Fantástico, não é? Há de tudo, para todos os gostos. Até mesmo pornográficos. Há malucos que gostam de sentir o que os dois sentem enquanto fodem. Há malucos que gostam de sentir a dor. Há malucos dispostos a tudo para sentimentos extremos.”

Victor percebeu. Manteve-se calmo. Por dentro, sentia-se pronto a terminar a existência de Santiago. Sentia que faria um favor ao mundo. Mas sabia que havia mais alguém por trás da história. Depois de mais uma bebedeira, e enquanto Santiago lhe mostrava como funcionava a gravação, ele desprendeu-se. Existia um Sr. X., disposto a pagar fortunas por sentimentos estranhos. Um homem que ele só vira uma única vez, um senhor de meia-idade, preso a uma cama por uma doença que lhe imobilizara os membros e o impossibilitava de respirar sem o auxílio de uma máquina.

Quando Victor foi para casa, teve de parar a meio do caminho para vomitar. A sua filha tinha sido morta porque um homem rico queria sensações fortes. E se ele queria sensações fortes, Victor iria dá-las.

 

4.

Samuel 14:17
Que o rei, ajuntou ela, se digne pronunciar uma palavra de paz, porque o rei, meu senhor, é como um anjo de Deus para discernir o bem do mal. Que o senhor, teu Deus, seja contigo!

Victor preparou tudo. Convenceu Santiago que iam fazer psico-gravações, pelo que ele apareceu com o equipamento no sítio estabelecido, um armazém abandonado. Escondeu na mão a seringa. Quando Santiago entrou, espetou-lha nas costas. Ele caiu no chão, como se fosse uma tábua.

“Sabem-se muitas coisas, na prisão. Estas drogas são muito úteis. Não fazes ideia da quantidade de gente com conhecimentos de química na prisão.”

Victor virou o corpo de Santiago. Ele tinha os olhos muito abertos. Embora o corpo estivesse paralisado, Victor sabia que ele estava consciente. E aterrorizado. Colocou-lhe o capacete usado para gravar as sensações.

“Foi assim que fizeste à minha filha?”

As pupilas dos olhos de Santiago abriram-se muito. Começou a suar. Victor arrastou-lhe o corpo até à parede. Tinha passado uma corda por uma trave no tecto. Subiu o corpo de Santiago, depois amarrou-lhe os braços e as pernas. Tapou a boca de Santiago. Pegou num martelo e em pregos.

 

5.

Esperava não desistir, agora que estava tão próximo da sua vingança. Santiago estava morto. A sua morte gravada na íntegra, na mala que carregava. Faltava apenas um passo para que a sua vingança estivesse completa. Esperava que a coragem não faltasse. O Sr. X estava num quarto da sua casa. Não tinha sido fácil entrar lá, mas Victor era um ladrão experiente. Valera-lhe o tempo que passara na prisão. Aprendera mais lá do que nos seus tempos de estudante. Entrou na casa, não se deixando demover pela riqueza da casa. X estava sozinho, apenas com uma enfermeira que dormia no quarto ao lado. Victor entrou. Olhou para X. Era apenas um velho, como qualquer outro, mas por causa deste velho, Victor tinha perdido uma filha. Aproximou-se da cama dele. Distanciou o comando, de forma que o velho não lhe pudesse chegar. Depois tapou-lhe a boca com fita-cola. Ele acordou. Estava entubado, e a máquina que lhe seguia o ritmo cardíaco disparou. Victor imobilizou-lhe os braços, que não passavam de fios de osso. Sentiu-se mal ao fazer isso. O quarto ficou em silêncio. Victor abriu a mala e tirou o aparelho de psico-visão. Colocou-o na cabeça do velho e carregou no botão de reprodução. Ele começou a contorcer-se, sentindo as mesmas dores que Santiago tinha sentido. O batimento cardíaco acelerou ainda mais.

Victor saiu do quarto, sentindo-se, finalmente, em paz.  

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8 comentários em “Vingança – Conto (Jorge Santos)

  1. iolandinhapinheiro
    28 de novembro de 2017

    Gostei muito do seu conto, Jorge. É envolvente, interessante e muito criativo. Li com calma e me deliciei com a sua ótima história. Havia feito um comentário maior, mas não deu certo mandar. Seja como for, o essencial do que eu queria dizer está na seguinte palavra: Parabéns!

  2. Fil Felix
    26 de novembro de 2017

    Olá, Jorge! Um conto diferente, interessante e cheio de reviravoltas. Em relação ao seu conto no desafio Terror, senti que aqui as coisas fluíram muito melhor. Apesar de falarmos a mesma língua, cada qual possui suas particularidade e lá, no Alvo, o estilo era mais carregado e denso. Aqui, mais suave. A coisa da psico-visão é bem legal e se torna o diferencial, deixando pro leitor imaginar o quanto o velho sofreu ao final, além do que a moça sofreu no início. O nosso lado sádico sente a falta de maiores detalhes, de uma descrição sádica de como ela morreu, queremos sentir também, como se usássemos o capacete. Mas, por outro lado, também é bom que corta essa parte e deixa o texto aberto à interpretações.

    Um outro ponto que merece atenção é a estrutura, mais pausada, por capítulos e citações bíblicas. Gosto muito disso. E fazendo um paralelo, temos um protagonista muito religioso, que se debruça sobre a bíblia para encontrar soluções, mas que acaba se vingando e valendo do velho olho por olho, dente por dente.

    Numa interpretação bem livre, Victor sai da prisão como o povo foge da escravidão no livro do Êxodo, acabando por enfrentar um vilão, um inimigo, como David enfrenta Golias no livro de Samuel. Ambos do Antigo Testamento, lugar onde a vingança, o sangue, o julgamento e as execuções são tudo em excesso, sem piedade ou perdão. Assim como nosso protagonista age.

  3. Juliana Calafange
    25 de novembro de 2017

    Um conto muito diferente, Jorge! Muito intenso, os personagens fortes, marcantes, construídos ao longo da narrativa. Gosto desse seu estilo, com as frases curtas e precisas, afiadas como uma navalha. O clima obscuro do conto também contribui pra esse suspense, que prende o leitor até o fim.
    Também achei algumas passagens um pouco confusas, mas nada que comprometesse o meu entendimento da história.
    Muito bom esse lance da psico-visão. Acho q vi algo parecido em algum filme antigo de ficção científica. Esse detalhe realmente fez brilhar o conto, é o que o torna singular. A única crítica que eu faço, é q senti falta de um terror maior no final, talvez se vc descrevesse a sensação do velho X, ao sentir as dores da tortura. Se no início o leitor acompanhou de pertinho o drama da Silvie, depois esteve ao lado do Victor e sentiu seu sofrimento pela morte da filha, no finalzinho eu gostaria de ter estado dentro da mente do X, pra saber o q ele pensou naquele momento às vésperas da morte.
    Muito bom o conto, Jorge! Gostei mesmo, parabéns!

    • Jorge Santos
      26 de novembro de 2017

      Obrigado pelo comentário, Juliana.

      Tenho a noção de que o final está pouco desenvolvido. Tal como aconteceu com o Alvo, este também é um projecto antigo para um livro. Espero que um dia volte a pegar nele e o transforme em algo mais completo.

  4. Marco Aurélio Saraiva
    23 de novembro de 2017

    Eu gosto da sua visão de terror. Você foge do sobrenatural para aplicar um terror mais palpável e realista; um que, por fazer parte do nosso dia-a-dia, torna-se ainda mais terrível.

    O que realmente brilha na história pela originalidade é a Psico-Visão. Sem ela, o conto seria apenas uma história de vingança, como milhares de outras que encontramos por aí. Mas o detalhe da psico-visão foi uma sacada e tanto, e adiciona um tom bem tenebroso ao conto. Gosto como Victor foi justo ao modo dele: matou o homem que matou a sua filha, mas não matou o homem que comprava o material que Santiago vendia. Este, por ter “apertado o gatilho de forma secundária”, recebeu uma longa e dolorosa lição de moral.

    Achei legal também como você deixou boa parte dos detalhes acontecendo na mente do leitor. Você não descreve o que Victor faz a Santiago, nem o que o “Sr. X” sentiu ao ter o capacete colocado sobre a cabeça. Mas tudo o que o leitor precisa saber está no texto, basta imaginar.

    Uma boa leitura!

    Achei o seu estilo bem diferente do seu conto do desafio, “O Alvo”. O presente texto é repleto de pausas, ou seja, uma série de frases curtas que travam um pouco a leitura. Seu conto “O Alvo” é mais fluido, com frases mais longas. O uso das frases curtas não é necessariamente um problema; acho que é mais gosto meu e uma decisão do próprio autor.

    Destaco a frase abaixo:

    “A mãe pisgara-se depois do pai ser preso, deixando-a com uma tia que a confundia demasiadas vezes com uma garrafa de whisky e um tio que a confundia demasiadas vezes com a tia.”

    Parabéns!

    • Marco Aurélio Saraiva
      23 de novembro de 2017

      Anotei duas coisas que acho que valem a citação:

      1) “Pelo menos parara, durante algum tempo. Não fosse o apartamento que ficara por pagar, até não desgostara completamente.”

      Essa frase ficou bem confusa para mim. Talvez seja peculiaridade do português lusitano, não sei dizer. Eu entendi que você quis dizer que Helena até gostara de ficar longe do trabalho que odiava, e até continuaria a ficar longe do mesmo se não precisasse pagar o aluguel. Mas na frase este sentido se perde um pouco. Acho que é por causa das várias negações seguidas, gerando algumas duplas-negações na minha mente e me confundindo:

      “NÃO fosse o apartamento que ficara por pagar, até NÃO DESgostara completamente.”

      2) “Entrou na casa, não se deixando demover pela riqueza da casa.”

      Aqui a palavra “casa” foi repetida. Só uma anotação boba, rs rs.

    • Jorge Santos
      26 de novembro de 2017

      Obrigado, Marco.

      Tal como já expliquei à Juliana, este conto, tal como o Alvo, foram feitos com base em projectos antigos que tinha para livros. Espero um dia conseguir desenvolvê-los. Termos só uma vida para vivermos é foda.

      Quanto à linguagem, concordo que há uma evolução clara entre este conto e o Alvo. Passaram três anos nos quais não parei de escrever e de tentar dar o meu máximo para evoluir.

      Creio estar no bom caminho, mas ainda não cheguei onde quero estar. E quando lá chegar, muito provavelmente vou querer ir mais longe. Enquanto houver insanidade, sigo o meu caminho. Quando ganhar juízo, acabou tudo.

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Publicado às 22 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .