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Detox Literário.

Orelhas Peludas – Conto (Helio Sena)

Posso dizer que sou um cara normal, normal até demais, mas um negócio eu tenho de admitir, não suporto orelha peluda, sei lá, fico nervoso, numa agitação danada, desvio os olhos pra qualquer coisa ao meu redor, árvore, poste, cachorro, mas acabo voltando pro cabelo na orelha, é uma sensação horrível, inexplicável, o mesmo que olhar pra dentro de um poço, sentir tontura, pavor, mas não conseguir desgrudar os olhos, achar que vai pular, sem querer, é um troço esquisito, põe esquisito nisso, talvez eu não seja tão normal assim como acho que sou.

Graças a Deus, orelha peluda eu não tenho, mas um amigo meu tem, não vou falar o nome dele, ele pode não gostar, me admira é a mulher dele, sempre banhada, bem vestida e perfumada, podia dar um toque no cara, apelar se necessário, fulano, olha, por que você não raspa essa orelha, vem cá que eu te depilo, não vai doer, num instante esse tufo de cabelo vai sumir, sua orelha vai ficar lisinha, bem melhor de lamber quando a gente transar, porque agora, meu bem, quando passo a linguinha, sai só cabelo, fico cuspindo, não é muito legal…

Meu amigo tem a minha idade, quarenta, sou apenas um mês mais velho que ele, quer dizer, não somos tão velhos assim pra relaxar (nem todo velho é seboso, sei disso!), eu mesmo tenho alguns fiapos na orelha, são poucos, sempre passo o prestobarba, no começo cheguei a me cortar, mas aprendi a manha, já comprei uma pinça, deu mais trabalho que resultado, joguei a diaba fora, agora só prestobarba mesmo, o ruim é que o pelo cresce rápido, tenho que ficar esperto, não quero ficar igual ao meu amigo, já pensou se eu falo o nome dele?

Falei da nossa idade porque sei que, com o tempo, alguns cabelos vão desaparecendo, os da cabeça por exemplo, enquanto outros vão surgindo, crescendo onde não devem, sobrancelhas, dedos, costas, orelhas, não sei porque isso acontece, tenho uma amiga que fala que são os cabelos da cabeça que caem e vão grudando no corpo, é claro que não acredito nessa bobagem, minha amiga com certeza também não, só falou isso de zoeira, embora tenha jurado que é vero, sua avó que disse, não, não acredito que seja verdade, não pode ser.

Uma noite dessas, voltando pra casa de ônibus, um coroa sentou do meu lado, devia ter uns setenta anos, sorriu pra mim, os dentes brancos, perfeitos, me deu vontade de perguntar como ele conseguia manter seu sorriso assim, foi quando descobri o tufo na orelha, olhei uma, muitas vezes, o velho percebeu, se afastou um pouco, então peguei um livro na mochila, tentei me concentrar nuns versos, mas não consegui, o tufo de cabelo estava ali, bem pertinho de mim, por sorte o velhote desceu algumas quadras à frente e eu pude respirar aliviado.

No entanto já sabia, na cama eu ia ter pesadelos com aquele coroa, não com ele exatamente, com a orelha dele, grande e peluda, ai, isso sempre acontece, basta que eu aviste uma orelha peluda ao meu lado no ônibus, não sei por quê, fosse na rua, tudo bem, eu olhava, depois esquecia, sonhava com qualquer outra coisa, menos orelha peluda, com a do meu amigo mesmo eu nunca sonhei, também nunca andamos juntos de ônibus, quer dizer, não na mesma poltrona, parece uma coisa, sempre há alguém pra atrapalhar, eu não entendo, não consigo.

Teve uma vez, uma única vez que quase deu certo, a gente chegou a ficar juntos por alguns instantes, eu não estava acreditando, daí subiu uma grávida, eu fingi não ver, esperei que alguém cedesse o lugar pra ela, mas quem se levantou foi o meu amigo, eu fui rápido pro lado da janela, aí a mulher se esparramou inteira, a viagem toda foi aquele sufoco, eu ali esprimido, a mulher ganhando cada vez mais espaço, eu tomarando que ela não ganhasse era nenen, já pensou, e assim fiquei sem saber se sonharia ou não com a orelha do meu amigo.

Às vezes tenho vontade de contar essas coisas pra ele, assim como estou contando pra você, mas na hora agá desisto, fico com vergonha, ele pode me chamar de louco…, falar nisso já pensei em procurar um psicólogo, um psiquiatra, alguém que pudesse me esclarecer esse lance que ocorre comigo, não sei se acontece com outras pessoas, outros caras, nunca li nada a respeito, nem nos livros nem na internet, onde é raro não encontrar o que se procura, pois é, gostaria de levar um papo com alguém entendido, mas sabe como é, a grana é pouca.

Mas tudo bem, certas coisas devem permanecer exato como estão, assim não criam barulho, confusão, e a vida pode seguir o seu curso normal, é melhor assim, só temo que algum dia, num churrasco, ou num bar, depois de umas e outras, eu não aguente e fale bobagem pro meu amigo, pois não adianta mentir, aqueles seus pelos me incomodam, me incomodam demais, nem a orelha mais peluda do mundo me deixaria tão inconformado, eu sei que não, mas a culpa bem pode não ser dele, pode ser fetiche, a esposa que não deixa raspar, isso existe!

Tudo bem, sendo a culpa de quem for, zelo muito pela amizade do meu amigo, o cabelo na orelha é o de menos, e olhar não faz mal, é diferente de olhar pra dentro de um poço, experimente imaginar olhar pra dentro de um poço, um poço fundo, escuro, cheio de cobras ou qualquer outro bicho peçonhento, aquela vontade louca de pular, sem querer, e se esborrachar todo, sangue e água, água e sangue, adeus, era uma vez, não, não, olhar pra orelha peluda do meu amigo é melhor, mil vezes melhor, e, claro, não custa nada, nadinha imaginá-la lisa, bem lisinha…

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3 comentários em “Orelhas Peludas – Conto (Helio Sena)

  1. Fil Felix
    25 de novembro de 2017

    Olá, Hélio! Um conto curioso, mostrando a fobia e o tique do protagonista por orelhas peludas. Partindo pra um lado mais psicológico, temos a máxima que “quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Nesse caso, o problema não é a orelha peluda alheia, mas sim como o protagonista lida com isso em si, seu fetiche (no sentido amplo da coisa) e fixação. Senti, até, uma aproximação entre ele e o tal amigo. Indo pra outra máxima, que diz que quanto mais afastamos algo, mais a queremos por perto, justificando certos preconceitos. E foi o que percebi, tanto pelo início quando cita a lambida na orelha, quanto à atenção dada ao amigo que nunca senta ao seu lado. Um texto bastante freudiano, diria, com fundo de desejo.

    Mas apesar dessas viagens, que acho importantíssimo, me parece que o conto ficou muito na coisa da orelha e não chegou em algum lugar. Ou talvez eu esteja acostumado e esperando, sempre, um início, meio, clímax e fim.

  2. Marco Aurélio Saraiva
    24 de novembro de 2017

    Seu conto tem umas comparações muito legais e é bem divertido. Você é definitivamente um autor bem humorado e que gosta de passar este bom humor para os outros.

    Infelizmente, achei a leitura muito ruim por causa da ausência de pausas. Notei que você manteve todos os parágrafos praticamente do mesmo tamanho, o que achei legal – sabe, um conto bem simétrico – mas a sua decisão de escrever blocos ininterruptos de texto foi bem ruim no meu ponto de vista. Parece que o narrador é um falar compulsivo, com olhos esbugalhados e tiques nervosos. O conto se perde, falando uma vez de orelhas peludas, para então entrar na amizade do narrador com o seu amigo de orelhas peludas, migrando para causos nos ônibus, para logo em seguida falar sobre como o narrador nunca consegue sentar ao lado do amigo no ônibus, para então voltar ao asco das orelhas peludas. Confuso.

    Mas, de qualquer forma, se faz entender e é divertido =)

  3. Olisomar Pires
    23 de novembro de 2017

    Texto bastante divertido sobre uma obsessão doentia. Está bem narrado, a estória flui por si mesma, eu diria.

    Notei alguns probleminhas na pontuação, mas talvez seja estilo ou escolha consciente do autor, como se fossem pêlos em orelhas para passar bem a imagem.

    Até mais.

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Publicado às 22 de novembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .