EntreContos

Literatura que desafia.

Ilusões Perdidas – Conto (Flavio Dias Semim)

Fryda orgulhosamente exibia ao diretor da FUNAI o seu diploma da escola normal que lhe licenciava como professora primária. Sua disposição em alfabetizar índios viera há algum tempo quando, encantada pelo romance O Guarani, de José de Alencar, ficara perdidamente apaixonada pelo selvagem Peri e decidira partir ao encontro de um índio com as mesmas características, porém real.

A educação recebida, procedente do povo germânico, vida vivida até agora em uma pacata cidade do Estado de Santa Catarina, não lhe credenciava a tal aventura. A muito implorar recebeu autorização dos pais para a sonhada jornada e zarpou em busca de suas quimeras.

Aborrecida por não ser nomeada para a região serrana do Rio de Janeiro, especialmente ao Rio Paquequer, palco do famoso drama convivido por Ceci e Peri, seguiu para as margens do Rio Araguaia ao encontro de uma aldeia dos índios Carajás, próxima à Ilha do Bananal, seu destino designado pelo chefe para cumprimento de sua missão.

Navegando dias e noites seguidas num barco repleto de índios seminus ou maltrapilhos tinha também como companhia muitos garimpeiros mal-encarados. Tal não a impedia sonhar com o local, com o encontro, com o romance em potencial, com a vida fantasiosa e com as belezas deixadas à sua disposição pela natureza. Antevia a cena em que aquele nativo forte, vigoroso a defenderia ao ser atacada por uma faminta onça feroz. Previa o ato em que seu protetor impediria ser atingida por uma bala perdida saída da arma de um incauto caçador. Seu herói mostrava os cabelos negros presos por uma cinta de couro unindo duas penas escarlates, destacando sua boca forte, seus dentes alvos e seus olhos negros. Estatura alta, pernas ágeis e mãos vigorosas segurando os inseparáveis arco e flecha. Uma lança pontiaguda destinada a abater um grande peixe nadando na correnteza do Araguaia.

Época das águas baixas, praias imensas se formavam ao longo do rio, araras voavam em bandos sob um céu azul e animais curiosos nas matas observavam os navegantes. Dias esplendorosos dominavam a natureza.

Recepcionada quando da chegada ao Posto Indígena, apresentou suas credenciais ao chefe que lamentou – “estamos precisando mais de enfermeiras a professoras” – indicando a choupana construída com barro, coberta de palha, uma mesa e uma rede de dormir, destinada como sua morada e apontou para a outra margem do rio a localização da aldeia indígena e seu local de trabalho. As muriçocas do entardecer aferroavam, sem piedade, a nova moradora.

Na manhã seguinte estava a sua espera, para a travessia do rio, uma canoa e seu condutor um índio aparentando muito mais idade à verdadeira. Baixo, franzino, pescoço arqueado, raquítico, vestindo apenas um calção surrado mostrava os ossos sob a pele escurecida pelas intempéries. Seu nome: Piatã. A fala rústica mostrava a sua ignorância. Fryda refletiu: “como ensinar ler e escrever a quem nem sabe falar?”  A escola, se é que se pode chamar de escola um terreno rastelado sob uma grande árvore, tinha alguns alunos desnutridos, nenhum caderno, nem mesmo um lápis. Indisposição hereditária atingia a todos, a anemia não dispensava ninguém, jovens ou velhos, que compartilhavam a miséria esperando sempre a ajuda dos brancos.

Submisso, todos os dias à primeira hora, Piatã se encontrava a margem do rio para transportar a professora. A cada jornada o bugre sentia maior atração pela meiga mestra de olhos azuis. Considerava ser seu protetor, seu servo.

Ela, porém, percebia seus devaneios serem abatidos pela solidão. Só conhecia alguma esperança quando ouvia o ronco do avião do Correio Aéreo Nacional trazendo uma carta de seus familiares. A partida levava também mensagem aos pais anotando, falsamente, a sua felicidade.

Desalento explícito, face amarelada e encovada vagarosamente sepultavam suas alegrias como as chuvas caídas seguidamente durante meses. A devoção de Piatã era o único fator que lembrava o audaz guerreiro sonhado e talvez por isso a ele se apegasse cada vez mais. O seu Peri trocou de nome, o seu herói se materializou naquele ser inútil. A sua morada transferiu-se para a aldeia e a acompanharam a febre, a malária, a fome, a tristeza.

Oito curumins paridos acabaram com seu corpo e com seu idealismo.

Piatã, acometido de um surto de varíola, foi cremado na praia a céu aberto.

Apenas o ruído dos motores no pouso do avião do Correio, trazendo a expectativa de uma missiva destinada a ela podia produzir alguma alegria na professora. A decolagem acabava com aquele resto de esperança.

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Informação

Publicado às 14 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .