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Detox Literário.

Notícias de um jornal – Conto (Regina Maciel)

Manhã de terça feira, seu primeiro dia de férias, sentou-se em um banco da praça para ler o jornal. A santa hora do jornal! Dentro de casa estava frio e ele pensou que um solzinho do lado de fora pudesse ser aconchegante. Ninguém ocupava o banco, tanto melhor, poderia assim abrir bem os braços deixando à mostra a folha inteira, pois nada mais irritante do que ler um jornal todo dobradinho, que não permite a visão completa da página, da diagramação, algo que pra ele fazia parte da leitura, tanto quanto a notícia em si. Cada dia uma divisão diferente da página. Planejava fazer um levantamento destas divisões quando se aposentasse, fazer algumas colagens, daria um jogo artístico interessante. Nada como deixar os olhos vagarem pela página, deixar os olhos curtirem as fotos, os diversos tamanhos das letras, as manchetes, até escolherem a ordem da leitura. Quer coisa mais irritante que ler jornal dentro de ônibus!! E no entanto esta era a sua rotina diária, ler dentro de ônibus, às vezes em pé, às vezes sentado, com solavancos que o faziam perder a linha, olhos invasores perscrutando a sua página, comentários idiotas intrometendo-se na sua santa paz de leitura, fumaça de cigarro impregnando o papel. Mas agora, ninguém ali ao seu lado, como era bom! Na praça apenas um pintor que espalhava as latas de tinta pelo chão. Melhor seria se as nuvens não tivessem encoberto o solzinho, frio irritante este! Também podia curtir o prazer de descartar as páginas lidas sobre o banco, ali ao seu lado, sem ter que se preocupar em dobrar tudo, uma atrás da outra, dando aquela amassadinha básica pra readequar ao tamanho original, tamanho todo dobradinho dentro do ônibus. Uma página voou com a primeira rajada de vento. Que lindo, que leveza! Há quanto tempo não curtia esta cena simples? Voou pra perto do coreto. Estavam pintando o coreto da praça que precisava mesmo de uma tinta, estava mal conservado. O pintor dava graças a Deus por um dia nublado, pois o calor andava infernal pra quem trabalha assim, sol a sol. Essa folha de jornal vinha a calhar, esquecera os jornais velhos em casa, e se havia uma coisa de que não gostava era sujeira no chão, isto não, não dissessem que ele era um desleixado. As madamas então nem se fala! Sempre reclamando… reclamaram tanto que ele se acostumou com a limpeza. Carrão bonito este no jornal, hem? Nem pintando todas as horas da sua vida sem dormir um minuto sequer, daria conta de comprar um carrão destes. Mas o coroa ali do banco também não, tanto que logo descartou os classificados. Tá se vendo que ele está com frio, já vi tudo, deve ser destes que gostam de um terno e gravata aconchegados no corpo, porque é lógico que tem um ar condicionado dentro de casa, do trabalho, ambiente fresco, não precisa tolerar este solão dos diabos. Acho que o coroa pirou o cabeção porque está mandando as folhas do jornal pro ar, igual menino pequeno soltando pipa ou avião de papel. E o vento tá colaborando com ele. Bom pra mim, que venham todas pro meu lado, tô precisando mesmo e aproveito pra ir sonhando aí com os classificados: carro novo, casa nova, um terreno de folga para segurar um futuro, celular bacana… Ainda bem que não casei, já pensou dois na mesma cama com aquele telhado de amianto esquentando pra burro, tudo suor? Basculante minúsculo que não serve pra nada, dá em um corredor escuro sem ventilação. Mas na casa nova não, tudo nos trinques e nem serei eu o pintor, contrato um, faço questão. Também pinto igual as madamas: uma cor numa parede, outra na outra. Menos amarelo, pra não lembrar o sol. Esse vento aqui vai até me ajudar, secar a tinta mais rápido, segunda mão logo, rango esperando ali na esquina… Ih! pivetada pintou no pedaço. O coroa foi embora, não sei se por medo deles ou pelo frio. Mas o tempo tá virando mesmo… Inferno, os pivetes pegaram o resto do jornal e eu aqui precisando dele. Pivete não lê jornal mas fingi, fingi bem que é pra não dá de otário, de bobeira, como se só fosse zé ninguém; zé ninguém com um jornal na mão impõe mais respeito. Impõe mais respeito e esquenta, que jornal bem que serve pra uma fugueirinha, esquentar este friu que tá piorano. Todo mundo na pior, sem camisa, sem camisa porque não tem mesmo uma ou porque fede tanto de sujeira, que uma hora tem mais que jogá fora. “Ôh sômano crai, ôh sômano crai”. Olha lá o pintor irritado porque o vento grudou o jornal na parede com a tinta fresca, estragou o serviço da figura. Por isto que não vale a pena trabalhar, um jornaleca deste põe tudo a perder! Aquele jornal lá com ele é que tá bom pra fugueira porque com a tinta vai pegá fogo mais fácil. “Ôh sômano crai, ôh sômano crai”. Jornal é que dá esta chama assim bonita, azul, com a tinta vem umas variação interessante, a chama pipoca, dá uns estralos, muda de cor, alegra mais a situação, distrai, porque passá friu é da pesada. Morre muita gente assim, assim de bobeira na rua. Quer coisa mais útil que um jornal? Forra o chão como um colchão. Se já tem colchão, forra o colchão pra num deixar o friu passar por baixo, a umidade. Forra o tênis furado, furadíssimo, e ainda um foguinho maneira aqui pra gente. O uso mais bobo é pra lê, porque basta uma circulada nos becos pela manhã, pra saber quem matou quem, onde assaltaram os trouxas, carro que trombou no outro e provocou engarrafamento bom pra gente aproveitá e fazer um arrastão, onde tá rolano as drogas, e tudo mais. Precisa lê não, assim falado tem até mais emoção. Ai! carece de procurá abrigo hoje, o friu tá piorano. Da fugueirinha sobe esta fumaça de cheiro gostoso, bonita de olhá, de seguir com os olhos, só assim seguindo ela, dá pra ir lá em cima nos prédios. Moça bonita na janela, protegida atrás do vidro, olhar atento ao que acontece lá fora. O coreto bonito, revigorado, as copas das árvores assanhadas pelo vento, uma folha de jornal que dança de um lado pra outro, às vezes fazendo um solo, às vezes acompanhada por um grupo de folhas em rodopios. Ainda um último pivete na praça correndo atrás do jornal. Pega-o, rasga-o em alguns pedaços, agacha atrás do banco vazio, ali deposita os resíduos do dia e se limpa com o jornal. Está bem longe, e o vento não pode trazer o cheiro aqui em cima. Ainda bem.

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Um comentário em “Notícias de um jornal – Conto (Regina Maciel)

  1. Neusa Maria Fontolan
    20 de novembro de 2017

    Esse texto me lembrou um desenho animado, onde um papel sai voando com o vento e passa por várias situações.
    Não vou apontar qualquer melhoria, pois não sou capacitada para isso.
    Um forte abraço.

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Publicado às 9 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .