EntreContos

Literatura que desafia.

Merica – Crônica (Eduardo Selga)

Mesmo quando menino, nunca fui um verdadeiro entusiasta do futebol, daqueles dramáticos e meio patéticos quem batem boca e rompem amizades por conta de uma zombaria contrária ao meu time. No fundo, para mim não havia nenhuma importância se na rodada do campeonato no último fim de semana ele perdera ou ganhara, mas sentia grande e secreto prazer em testemunhar as reações apaixonadas dos outros. Xingamentos, provocações, as palavras como arena de luta.

Por algum motivo tão intrigante que ate hoje não sei ao certo qual é, escolhi “torcer” pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Talvez tenha sido pela solidão da estrela (atraía-me a simplicidade da insígnia do time), ou, quem sabe, pelo “nome completo” do time, em que parecia estar faltando alguma coisa, como a palavra “clube” (e eu sempre gostei de ausências). Mas o fato é que nunca passou de uma torcida assim-assim. Não porque ela, minha torcida, ficasse constrangida diante da exuberância dos históricos dos outros grandes clubes brasileiros. Era a torcida tímida de quem, na verdade, assistia aos jogos televisionados muito mais por causa da inconsciente necessidade de aceitação no grupo social do que qualquer outra coisa. Afinal, se quando o assunto era o esporte nacional todos tomavam algum partido, eu não poderia abster-me. Resumindo: meninice.    

De modo que hoje, quase meio século de existência, alguns arrependimentos e poucas alegrias que somados não dariam um livro, tenho lembranças. Por exemplo, recordo-me de um jogador do Flamengo conhecido pelo “nome artístico” de Merica. Não que seu futebol tenha me chamado particular atenção à época, afinal eu não iria enaltecer o “arqui-inimigo” das quatro linhas, mas o nome dele me instigava. Parecia-me corruptela de “América” ou, mergulhando de cabeça no mundo das hipóteses sem pé nem cabeça, a conjugação em terceira pessoa do singular do presente do indicativo de um hipotético verbo “mericar”, fosse lá o que significasse isso (eu merico, tu mericas, ele merica).

Tal jogador desaparecera por completo de minhas lembranças fortuitas, daqueles momentos nos quais nos permitimos visitar o grande casarão em ruínas que é o passado. No entanto, assim que me mudei para Itararé, ouvi falar de um morador, muito hábil com a bola nos pés, conhecido por… Merica. Foi o bastante para acender a antena da curiosidade: seria o meio-campista do Flamengo vivendo a obscuridade de uma aposentadoria pobre em Itararé, uma periferia de Vitória? Daria uma boa crônica, sem dúvida…

Por várias vezes seu nome surgia perto de mim, sem que eu tivesse abordando assunto que pudesse desembocar nele ou em futebol. Aliás, quase sempre eu estava calado, observando a vida. Nos bares, na feira, na vizinhança, na Mercearia do Noé, na Quitanda do Pipoca, na Padaria do Alemão, ouvia frases do tipo “no sábado nosso time vai jogar, e se o Merica não estiver bêbado ele arrebenta”; “é uma pena, um jogador tão bom se deixar levar pela frustração e cair na cachaça”. Ou seja, o ex-jogador do rubro-negro carioca, além de morar em Itararé, era um inveterado alcoólatra. Logo, precisava escrever sobre isso, quem sabe com as palavras reparar a injustiça do esquecimento?

E tanto falavam dele que fui perguntar ao mestre Google, essa espécie de Almanaque do Biotônico Fontoura melhorado em versão eletrônica, colher informações básicas acerca do craque flamenguista, e descobri, além de fotografias com boa definição que certamente me ajudariam a identificá-lo quando estivesse diante dele (sim, eu estava disposto a marcar um encontro para uma entrevista, se fosse o caso). Descobri que seu nome é Valdemiro Lima da Silva, jogador do “time da gávea” entre 1975 e 1978; do Bahia; do América carioca; do Sport Recife; por último, do Confiança, de Sergipe. Fiquei pensando com meus botões e minhas cores locais: uma vez que ele passou a morar aqui em Vitória, bem poderia ter dado uma canja para a Desportiva ou Rio Branco.

Mexi daqui, dali, e pronto. Eu já tinha munição para engatar um bate-papo com ele e manter assunto num rumo de modo que eu conseguisse todas as informações adicionais necessárias à construção da crônica. O passo seguinte era procurá-lo no campo de futebol e, como um atacante oportunista na área à espera da bola para fazer gol, encontrar a hora adequada para o bote certeiro. Eu iria aproximar-me, entupi-lo de perguntas inteligentíssimas, e aproveitar para exercer minha caridade cristã de ocasião com um derrame de muitos clichês do tipo “não se entregue ao alcoolismo” ou “você teve uma boa carreira, agradeça a Deus”. De repente passei a sentir uma grande misericórdia de quem eu nunca tinha visto frente a frente.

Sabe o que acontece, Merica, o futebol se alimenta sobretudo de estrelas de brilho médio como você foi, de jogadores que, tendo sido particularmente eficazes em seu ofício, foram apagados pelo azar de serem contemporâneos de jogadores-exceção, os assim rotulados excepcionais. Entenda isso, meu desconhecido amigo Merica. Você foi companheiro de Zico, Júnior e Adílio, lembra-se? Assim era difícil.  

Achei graça do meu entusiasmo, como se fora garoto na arquibancada torcendo por mim mesmo, construindo mentalmente meu discurso, e até falando sozinho para treinar a abordagem, enquanto imaginava sua reação. Eu tinha quase certeza de que por meio de minha boa ação cidadã ele se sentiria resgatado das trevas do esquecimento a que Vitória relega seus moradores. E me agradeceria, ora pois.

Não satisfeito, eu quis dar uma de psicólogo de mim mesmo: tamanho interesse em conversar com Merica, uma eminência parda rubro-negra, não seria a expressão de um desejo reprimido desde a infância de ser flamenguista, e assim ter motivos para comemorar sucessivas vitórias? Não será minha vontade de há muito comer torresmo com cerveja no botequim e espezinhar o adversário entre risos de pilhérias?

No tal sábado de que eu ouvira falar tão insistentemente durante a semana, acordei cedo, uma tarefa sempre penosa em dias frios. Cogitei vestir uma antiga camisa do Botafogo, desisti. Fui ao campo ou, melhor dizendo, fui a campo. Algumas anotações no bolso e na memória, uma boa fotografia dele arquivada no smartphone de modo a reconhecê-lo com facilidade entre tantos outros jogadores tão logo pusesse os olhos nele, um pequeno bloco de notas e caneta para eventuais registros.

Gastei alguns minutos observando atentamente cada jogador que corria atrás da bola e os que aguardavam do lado de fora uma chance, mas nada de vislumbrar o ex-craque do Flamengo entres eles. Decepcionado com o sumiço de meu personagem, estava disposto a voltar para casa e para as cobertas, quando pus os olhos nele, meio sentado, meio deitado, na cerca de arames no entorno do campo. Indiscutivelmente bêbado. Vestido com a camisa do Flamengo, o que me causou algum sabor de vingança. Ora, veja só… Então existe em mim um rancoroso botafoguense, eu que sempre me achei tão blasé quanto a isso.

Mesmo estando naufragante a caravela do inimigo, emborcando, todo o cuidado se fazia pouco na abordagem. Seria imprudência minha chegar chegando, zagueiro sem habilidade na canela no atacante, simplesmente pular no convés e achar que o capitão fosse bater palmas. Assim, aos poucos consegui fazer a abordagem. Conversa daqui e dali, não demorou ele fazer com que eu me sentisse ridículo quando cheguei ao cerne da questão. Riu alto, pôs uma das mãos em meu ombro e disse com a sinceridade cheia de álcool, a cabeça balançando como se fosse cair a qualquer instante, os olhos mortos, a voz pastosa, que seu lhe pagasse uma “margosa” ele me daria um autógrafo. E o pior: eu concordei. Eu, não: provavelmente o flamenguista guardado dentro de mim.

Aí, sim, ele riu mais forte ainda.

— Você não é o primeiro, moço. Uma vez a tevê daqui veio atrás de mim para fazer umas perguntas parecidas com essas aí. Então escuta bem: meu nome não é Valdemiro, é Sebastião; sou Merica, sim, mas não sou o Merica. É que o pessoal me acha parecido com ele, no rosto e no jeito de jogar, mas não é bem verdade: sempre joguei bem melhor que ele. Sem comparação! Imagina você: em três anos de Flamengo ele não fez nem dez gols, enquanto eu faço essa quantidade numa partida só, se não estiver calibrado, se é que você me entende. Mais que melhor que ele, eu jogo igual a mim mesmo, seu moço. Agora, se você tiver aí papel e caneta, eu lhe dou o autógrafo do Merica mais famoso de Itararé. Em troca daquela cachacinha, é claro.

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2 comentários em “Merica – Crônica (Eduardo Selga)

  1. Juliana Calafange
    8 de setembro de 2017

    Comecei a ler o 1º parágrafo e pensei – eu sou igualzinha, gosto mesmo é da rixa, do escárnio entre as torcidas, essa patetice me diverte, mas acho q isso é pq eu torço pelo Botafogo e a diversão da vitória é muito rara… Daí cheguei no 2º parágrafo e cai na risada! Está provado q isso é coisa de botafoguense mesmo…
    A crônica é ótima, Selga. Por um lado, toca nessa nossa mania de querer a todo custo conhecer alguém famoso. Lembro que minha mãe, q sempre foi um pouco parecida com a atriz Irene Ravache, teve problemas nos anos 80, quando a atriz estava protagonizando uma novela da Globo e as pessoas na rua paravam a minha mãe pra pedir autógrafo. Não adiantava ela dizer que não era a Irene Ravache, as pessoas simplesmente não acreditavam. Teve um dia q ela teve q dar o tal autógrafo pra que deixassem ela em paz.
    Por outro lado, tem gente que até tira proveito, mesmo que involuntário, da semelhança com alguém famoso. Tem um jogador de vôlei que é muito parecido com o Rivaldo, jogador de futebol. A mãe do jogador de vôlei o batizou como Rodrigo, um lindo nome aliás, mas não tem jeito. Todo mundo chama o cara de Rivaldo, ao ponto que hj em dia ele tem Rivaldo escrito na camisa do time de vôlei onde joga e ele mesmo já disse em entrevista que prefere ser chamado de Riva.
    Coisas da modernidade?
    O melhor de tudo no seu texto é o final, quando o Merica diz: “Mais que melhor que ele, eu jogo igual a mim mesmo, seu moço. Agora, se você tiver aí papel e caneta, eu lhe dou o autógrafo do Merica mais famoso de Itararé.” Viva a nossa identidade!!!

    • Eduardo Selga
      9 de setembro de 2017

      Oi, Juliana,

      Obrigado pelas palavras. Lembro-me muito pouco do Merica “original”, o do Flamengo, mas o “sósia” de fato joga muito bem, a depender da “calibragem”. Só o conheci de uns três ou quatro anos para cá. Nunca se incomodou com o apelido, mesmo porque fisicamente é bem parecido, mas acha uma injustiça um jogador tão bom quanto ele ser comparado com um jogador meio obscuro do Flamengo e que nem era isso tudo.

      A história de sua mãe me sugeriu um conto, ou crônica. Já tenho o título (“Meu Nome Não É Irene Ravache”), coisa rara de acontecer comigo antes de o texto ficar pronto. Vejamos se dou continuidade à ideia.

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Publicado às 6 de setembro de 2017 por em Crônicas e marcado .