EntreContos

Literatura que desafia.

Parte de Mim (Cristina Grimaldi)

Nunca uma pessoa se sentiu tão orgulhosa de si mesma como Reinaldo. Seu orgulho é desmedido e o enche de satisfação. Sabe de onde vem toda esta sensação de importância. Sua vida mudara após ter tomado aquela decisão tão difícil.

Por um tempo, não podia nem pensar em concordar com tal ato tão altruísta por alguém. Evitava a pessoa em questão, aquela que havia tido a impertinência de lhe pedir algo assim tão grandioso. Fugia de telefonemas ou de encontros com a pessoa, na esperança de que ele encontrasse outro coitado para o sacrifício. Como alguém podia pedir semelhante absurdo a outro?

― Este cara só pode estar louco. Nem o considero assim tão amigo para ter a cara de pau de pedir esta asneira.

Ele reclamou aos outros do pedido inusitado e o posicionamento dos outros trouxe mudanças ao seu pensamento.

― Olhe, eu não sei o que faria, mas é um grande ato.

― Não, você não pode deixar de fazer isto por seu amigo.

― Acho que você vai ter lugar garantido no céu.

― É o ato mais bonito que uma pessoa pode fazer por outra.

― Que ato de coragem seria!

― Não é para um ser humano comum. Tem que ser especial.

Nunca pensou que semelhante ato pudesse ter peso tão positivo, que pudesse mudar a sua vida e o modo como as pessoas o viam. Sempre foi tachado de encrenqueiro e estourado, mas a partir do grande ato, começou a se achar um ser humano muito importante e especial.

Antes andava cabisbaixo e de cenho franzido pelas ruas, estava sempre em alerta, de mau-humor. Evitava o olhar das pessoas, porque achava que elas estavam sempre o julgando mal. E ele realmente não primava pelo bom comportamento. Fazia questão de dar o pior de si.

Agora se dirigia as pessoas com segurança e simpatia, crente de sua posição privilegiada entre os outros meros seres humanos, que não haviam passado por aquela experiência.

Achava que os outros o olhavam com inveja, respeito, admiração; diferente do olhar de horror e desprezo que tinha certeza que lhe dirigiam antes.

Cumprimentava a todos cheio de sorrisos, sabendo o quanto as pessoas deveriam achar que ele era o homem da vez, o grande cidadão entre eles. Ele não podia mais se considerar uma pessoa comum.

Mas aí de alguém se não o reconhecesse ou parecesse não saber do seu grande feito. Ficava irritado com tal ignorância, fazia questão de contar quem era.

― Você percebeu que eu sumi há alguns meses atrás?

― Não, sim, claro que sim. A vida anda tão corrida.

― Estava no hospital.

― Não diga!

― Foi uma cirurgia.

A pessoa mesmo desinteressada, seja por educação ou falsidade, sentia-se impelida de perguntar exatamente o que ele queria que fosse perguntado. E ele esperava com impaciência pela pergunta.

― Que coisa horrível! Esteve doente?

Então a porta era aberta e ele se engrandecia de prazer.

― Que doente, que nada! Doei um rim a um amigo.

― Nossa!

― Não é legal? Ele precisou, ia morrer, não tive dúvidas.

― Legal mesmo.

― Você vê, não é para qualquer um.

― Não, não é.

O problema para todos não era só saber do tal ato grandioso, mas a insistência em não sair da berlinda. Querer ser sempre o assunto da vez, fez com ele passasse a ser persona non grata entre os conhecidos e desconhecidos.

Quando o avistavam, os comentários se iniciavam e não eram os melhores.

― Lá vem o maluco do rim.

― Ah! Não!

― Será que ele vai contar de novo sobre a cirurgia?

― Com certeza, você tem dúvidas?

― Será?

― E ele fala de outra coisa?

― Cara chato!

― Nem fale!

― Disfarça e vamos embora.

― Claro.

Entre todos, ficou conhecido como o chato do rim, o maluco do rim, o cara do rim. Mas ele não sabia de nada disso, descansava na devida paz da insipiência e daí tirava toda sua força.

Reinaldo, ao perceber que sua façanha ia caindo no esquecimento, como todos queriam, lutava com persistência para que os desmemoriados não levassem para o esquecimento sua força de vida. Voltar à situação anterior, de ser mais um na multidão, jamais! Seu empenho para se manter na berlinda não tinha fim, nem limites.

― Todos deveriam doar um rim, fazer isto por um amigo ou desconhecido, você não acha?

― Não sei, acho que sim.

― É lógico que não é para qualquer um, precisa ter coragem.

― É verdade.

A pessoa logo aprendia que era melhor concordar com Reinaldo, se não ele fazia um escarcéu e a conversa durava muito mais tempo. A agonia era maior.

― Ter dois rins não é necessário.

― …

― Passei bastante mal após a cirurgia, viu?

― Imagino.

― Mas me comportei bem, porque o que importava era o amigo a ser salvo.

A equipe médica do hospital é que não podia concordar com ele, ou esquecer o quanto trabalho ele deu. Quis fugir, gritou, agrediu, quebrou, chorou, reclamou e toda noite sua voz era ouvida pelos corredores:

― Por que eu fui me meter nisso? Eu nem gostava dele. Quero o meu rim de volta! Socorro! Quero ir embora!

Foi contido com medicações, com chamadas dos médicos e enfermeiras, mas a paz só se restabeleceu quando ele teve alta. O alívio foi geral.

Nem na descontração do bate-papo com os amigos, Reinaldo conseguia deixar de se referir ao fato que mudou a sua vida, tinha modos criativos e inusitados de tocar no assunto.

― Alguém viu o Tadeu?

― Quem é Tadeu?

― Que isso!

― Aquele meu amigo que tem meu rim.

― Ah! Tá!

― Ninguém viu, não.

― Queria saber como ele está, agora que teve uma segunda chance de vida.

― Deve estar bem.

Bem melhor que nós que temos que escutar esta merda de novo.

― Por que eu estou bem e feliz por ter feito isto por ele. Não é algo fácil.

Não é fácil nós termos que escutar isto mil vezes.

― É mesmo.

― Se todos pudessem fazer algo assim por alguém. Mas é preciso ter coragem…

― Seria bom mesmo.

― Saber que algo seu pode salvar alguém.

― Alguém peça mais bebida, por favor!

Um dos moços do grupo, um pouco mais alterado pela bebida, onde o álcool já rompeu os liames da censura e dos bons costumes responde a ele:

― Cara, ninguém mais aguenta você com esta história! O tal Tadeu deve fugir de você. Aposto que você joga isto na cara dele o tempo todo.

Reinaldo o olha indignado. O sangue explode por todo seu corpo. Ele se sente fora de si e enraivecido. Acha que não pode estar ouvindo aquilo.

― Olhe o que você está falando! Isto é inveja!

― Quantos anos você vai nos lembrar de que salvou o cara? O Tadeu já deve ter se arrependido de ter aceitado o maldito rim.

― Seu bando de putos invejosos! Vocês não podem ser comparados a alguém como eu!

Todos riem na mesa e ele se sente ridicularizado perante o grupo. Levanta revoltado.

― Se ele quiser devolver ele pode, Reinaldo?

Novos risos. Toda sua segurança se esvai e ele se sente pequeno e vulnerável. Uma onda de fúria toma todo seu ser, o bom moço dá lugar ao antigo encrenqueiro e estourado. Ele avança para o amigo.

A muito custo, o grupo consegue separar os dois. Desmazelado, sujo e de olhos saltados e vermelhos, ele se afasta do local. Dirige-se apressadamente à casa de Tadeu.

― Ele vai ter de ir comigo até aqueles filhos da puta e dizer o que fiz por ele. Vai sim!

Duas moças, que conversavam em frente a uma casa, veem quando ele entra na rua.

― Corre, Camila, entre para dentro, vem vindo aquele chato do Reinaldo.

― O cara do rim?

― Este mesmo.

― Vamos correr, então!

Ele passa por elas sem vê-las. O irmão de Tadeu o recebe.

― Tadeu está aí?

― Não, está lá no bar do Romão.

― O que ele faz no bar?

― Sei lá!

Que cara que ele está! Parece que escapei de ouvir sobre a cirurgia hoje.

Reinaldo caminha a passos pesados, suando de raiva, até o bar. Precisava urgentemente do amigo. O grupo ia acreditar em Tadeu se ele expressasse seu eterno agradecimento e eles voltariam a admirá-lo.

Quando entra no bar se depara com Tadeu bêbado e numa briga com outro cara, enquanto todos a sua volta nada faziam. Alguns assustados saíam correndo.

Mete-se decidido na briga e com vontade separa os dois. Protege Tadeu, mas reserva ao outro moço um soco bem dado no rosto.

Seguro em seus braços, Tadeu esbraveja:

― Fale de novo o que você falou, seu filho da puta!

Reinaldo arrasta com dificuldade o outro para fora do bar.

― Pare com isto, já chega!

― Aquele desgraçado me disse umas coisas…

― Não importa, agora acabou!

― Me larga, vou acabar com o cara!

― De jeito nenhum!

― Me larga, estou dizendo…

― Não vou deixar você beber e entrar em briga. Eu não permito isso.

Tadeu se solta dos braços de Reinaldo, empurra o outro com força e grita:

― Quem é você para me dizer o que fazer?

― Você não pode e não vai…

― Cala esta boca!

― Não deixarei…

― Eu posso fazer o que quiser da minha vida!

Reinaldo o acerta com um soco bem de leve, mas o suficiente para desequilibrar o outro e causar sua queda no chão. Ele grita com toda força:

― Você não pode fazer o que quiser, não com meu rim, NÃO COM MEU RIM, SEU DESGRAÇADO!

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1.