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Literatura que desafia.

O Gambuzino dos Meus Sonhos – Conto (Benjamim Nkadi)

Quando a luz do luar tornava a escuridão da noite acesa, e quando todos nós nos sentávamos ao ar livre, sobre o nosso luando velho, avó Maria gostava de contar-nos histórias antes de dormir, e nós guardávamos essas histórias no coração para ter sonhos bonitos. No meio desses sonhos, o que eu queria era mesmo um sonho diferente, porque já tantas vezes tinha sonhado com fadas e borboletas, com jardins de rosas repletos de pirilampos e, não raras vezes, pode até parecer um pouquinho estranho, sonhava comigo mesmo, flutuando com azas de cegonha sobre o céu amanhecido, e depois no dia seguinte tornava a sonhar com as fadas e as borboletas, depois com os jardins de rosas repletos de pirilampos, sempre se repetindo os sonhos, como uma onda que vai e volta.       

Num desses momentos que costumávamos a ter, sob a luz do luar, mais uma história estava a ser contada pela avó Maria. Hoje não saberia explicar para onde ela olhava enquanto falava, talvez porque já não me lembro ou mesmo porque avó Maria não olhava para lugar algum. Era como se as próprias palavras nos olhassem e depois entrassem no fundo do peito. E no final da história disse-nos:

− Os sonhos são como as sementes. Se deitarmos sementes podres a terra, nada cresce, a não ser um capim bruto no lugar onde as enterrarmos, mas se deitarmos sementes saudáveis poderá crescer tudo quanto quisermos, de acordo com o tipo de semente que deitarmos.   

− Será que quando não sonhamos nada, é porque deitamos sementes podres? – perguntou Ricardo.

− Sim filho, sementes podres não nos permitem sonhar. Às vezes uma pessoa pode ficar com o coração cheio deles, e sentimos como que não sonhamos nada. Mas outras vezes esse sentimento vem apenas por nos esquecermos rapidamente deles.

−  E como fazemos para não nos esquecermos nunca deles? – Perguntou Maria.

− Assim como são os sonhos como as sementes, são também eles como os besouros Cicindela hudsoni.

− O que é isso avó? – Perguntou de novo Ricardo antes que avó prosseguisse. A cabeça da avó estava cheia de nomes de coisas estranhas.

− É um dos insetos mais rápidos do mundo – respondeu ela. – O mesmo acontece com os sonhos, se não os fecharmos numa caixinha sem espaço para escaparem, que significa por exemplo escrevermos rapidamente num caderno tudo aquilo que sonhamos, ou também contarmos sem perder tempo a outros, eles fogem, nunca mais voltam para nós.  

− Será que tudo o que sonhamos é real, avó? – Perguntou Maria, curiosa.

− Nem tudo, filha. Um exemplo disso são os gambuzinos, animais que imaginamos que existem, mas na verdade não existem. Os peixes com asas são também gambuzinos, pois nunca existiram, e nunca existirão, a menos que Deus queira.

Avó Maria ainda continuou a falar, mas eu já estava desligado das palavras que me entravam no fundo do peito. Maria e Ricardo continuaram também a perguntar, eles gostavam, mas eu não, eu gostava era de estar calado e aproveitar a resposta da pergunta de outros, como aquelas duas respostas que avó Maria deu-nos, sobre a Cicindela hudsonis e os gambuzinos, nomes realmente bonitos. Não gostei tanto da primeira, insetos são coisas que vemos todos os santos dias, e ainda por cima fazem barulho nos ouvidos, e esse tal de Cicindela hudsonis, se é que é mesmo um dos mais rápidos do mundo, devia mas é provocar tanto ruído no ar. Agora, no caso dos gambuzinos, é que fiquei muito curioso, e nesse mesmo instante desejei sonhar com pelo menos um deles.

Parece que adormeci, ou melhor, que adormecemos todos no mesmo luando, de barriga para o ar, e eu especialmente enquanto olhava para o brilho de uma estrela. Não demorou muito para chegar aquela sensação de se estar dentro de um sonho em que podemos identificar ou dar conta de nós mesmos, como se fosse sonhar acordado, mas não é, porque essa coisa de se sonhar acordado anula a possibilidade de existência dos sonhos. Voava eu no mais alto dos céus, sobre as costas daquilo que já adivinham ser, pois é, o gambuzino que avó Maria disse-nos que não existem de verdade, e tinha azas.      

O gambuzino dos meus sonhos parecia uma mistura de dois animais diferentes, as azas eram de cegonha e o corpo todo, repleto de escamas lisas e macias, tinha o feitio de um peixe gigantesco, por isso não me assustava nada estar eu abraçado às suas costas de escamas, e ele mostrava-me todas as estrelas possíveis, desde uma ponta do universo até a outra ponta, e também de que eram elas feitas para brilharem assim como brilham.

Depois do passeio pelas estrelas, o gambuzino dos meus sonhos, que agora apetece-me chamar-lhe gambuzino peixe-cegonha, voou comigo de volta à terra, onde entramos direto para um oceano bastante azul, e com as suas azas de cegonha que usava para voar no ar, usou-as também para superar a força da água e nadar, enquanto mostrava-me as muitas espécies de animais e algas que moram nas profundezas do mar.     

Sem perceber, já era de manhã, mas o que me tinha acordado de verdade não era a luz, mas sim a alegria de Ricardo e Maria vista nos seus gritos que chegavam distante.

− Sonhei com um besouro Cicindela hudsoni revelou Maria.

− Também eu! E nos meus sonhos ele voava comigo – disse Ricardo.

E, dirigindo-se para mim, perguntou:

− E tu, qual foi o teu sonho?

Não respondi. A pergunta que me foi feita tinha entrado de um lado do ouvido e saiu do outro, como se nada escutei. Avó Maria já não lá estava, no luando, a estas horas devia estar na lavra a fazer agricultura. Ela nunca nos tinha mostrado a sua lavra, não sabíamos onde era, por isso acompanhei no chão o destino das pegadas que deixou quando se levantou do luando. E quando cheguei, ela sorriu para mim e perguntou: Qual foi o teu sonho rapaz? E eu só quis chorar, muito e muito, afinal já tinha esquecido tudo.

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6 comentários em “O Gambuzino dos Meus Sonhos – Conto (Benjamim Nkadi)

  1. Fil Felix
    4 de julho de 2017

    Gostei muito desse conto, desde o título ao seu jeitão de história infantil. Não sabia o que era “gambuzino”, mas já de antemão adorei a palavra. O estilo narrativo me faz lembrar Alice, como quando se pergunta o que a Avó via, isso é se via alguma coisa. Ele é curto e fechadinho, excelente. Um outro ponto que me fez gostar é por tratar os sonhos, que é um assunto que pesquiso (sua relação com a Arte) e que também escrevo sempre sobre (na Central dos Sonhos).

    O que me chamou a atenção é apresentar, de maneira muito lúdica, diversos pontos essenciais ao entendimento do que é sonhar, além da simbologia “vó/criança”. Freud dizia que os sonhos são desejos, que surgem enquanto dormimos por conta do consciente ter baixado sua censura. A ideia de escrever o sonho logo ao acordar, como a Avó conta, reforça essa ideia de censura: quando acordamos, o consciente trata de organizar a possível bagunça que o sonho trouxe, podendo culminar nesse “esquecimento”. Todas as crianças também sonham com o que ela falou, algo que o Freud chamava de “resíduos do dia”, que são os materiais que vemos ou sentimos na vigília e ganham representações no sonho. Ele também coloca o sonho da criança como representação pura de algum desejo que teve durante o dia, geralmente um sonho simples, mas com aquilo que lhe importa

    Assim, o conto pode ser usado pra exemplificar todo esse princípio freudiano dos mecanismos do sonho. E não só os resíduos do dia ou a censura, mas também pelo conteúdo manifesto (o sonho narrado) e pelo conteúdo latente (o que está por detrás do sonho, nesse caso a simbologia de transformação, evolução, caminhada humana, memória e registro). Sempre bom ler esses textos que despertam diversas interpretações!

  2. Evelyn Postali
    2 de julho de 2017

    Texto muito sensível e intenso. Como é maravilhoso falar do que nos dá identidade e força. Como é poderoso o discurso dos que não esquecem suas raízes. Um indivíduo que não reconhece seu passado, que não carrega suas referências, é vazio e inútil na construção da sociedade a qual está inserido.
    Gostei demais desse conto.
    Grande abraço.

  3. Juliana Calafange
    1 de julho de 2017

    Que lindo conto! Eu voei junto nas asas do seu peixe-cegonha. E me emocionei com o final, quis chorar junto com o menino. Sua história me leva para um lugar que para mim parecia já estar perdido no tempo do mundo. Mas lendo seu conto vejo que não, vejo que ali, do outro lado do Atlântico, pode ter gente que sonha o mesmo sonho que eu, repetidamente. E nós aqui, bestas, “consumindo” blockbusters americanos, europeus, enquanto bem mais perto de nós, falando a nossa própria língua, direta, sem traduções, existem coisas tão belas de se ler, que comovem a gente do jeito que a gente quer ser comovido por uma boa história. Muito obrigada e muitos parabéns, Bejamim!

  4. Eduardo Selga
    30 de junho de 2017

    A literatura considerada cosmopolita é aquela cuja temática supostamente abarca todo esse mundo cada vez menor e mais tacanho por causa da globalização que tenta fazer uma terraplanagem e um achatamento cultural e literário, de modo que tudo fica muito igual. Fala-se das mesmas coisas, dos mesmos modos. E, principalmente, são abolidas as abordagens que sustentam a importância das raízes do homem ao seu território específico, já que supostamente o mundo agora é uma “aldeia global”.

    A ancestralidade, portanto, cai em desprestígio, entra para o lado negativado do discurso, fazendo com que autores da periferia do mundo (o Brasil incluso) evitem abordá-la.

    A literatura africana, contudo, de um modo geral, realiza um movimento de contradiscurso, em que a ancestralidade ocupa lugar primordial. Ela nos lembra que não somos o presente, e sim resultado de um passado rumo a algum ponto do futuro. Qual será esse ponto dependerá do presente. No conto, essa interligação passado-presente é demonstrada no fato de a personagem que representa a ancestralidade chamar-se “avó Maria” e a menina (a nova geração) também receber o nome “Maria”. Outro bom exemplo está no narrador, ao final, acompanhar no chão as pegadas que sua avó deixou quando terminara de contar a histórias.

    A avó Maria (o passado) alimenta os sonhos das crianças (o presente e o futuro), e isso não se aplica somente ao plano onírico. Ela parece ter plena consciência disso, quando pergunta ao narrador-personagem, um dia após narrar sua história, “e tu, qual foi o teu sonho?”. Essa clarevidência dada pela experiência de vida lembra, inclusive a figura arquetípica da bruxa, muito alimentada pela estética eurocêntrica, sempre muito ocupada com a lógica maniqueísta e negativização do que é considerado fora do círculo traçado por ela mesma.

    A literatura brasileira contemporânea deveria resgatar, sem a nuvem passageira do modismo e sim como uma proposta estética, nossas ancestralidades. Afinal, um dos motivos da imensa crise política e social pela qual passamos é o desconhecimento de nós mesmos enquanto povo. Nesse sentido, o desafio acerca do folclore foi altamente positivo.

    Aliás, já que estamos na época, o tema do próximo ficaria bem se fosse a festa de São João.

  5. Brian Oliveira Lancaster
    30 de junho de 2017

    Texto bastante singelo, com teor melancólico aflorando em quase todas as frases. Tem um jeito de fábula, misturado a conto infantil, que deu um ar diferente à escrita. Falando nela, tive que pesquisar para entender que “gambuzino” significa um animal imaginário – não é um termo comum por essas bandas. Gostei das sensações “de casa de avó” que o enredo transmite. Como crítica construtiva, “azas” se escrevem “asas” por aqui, e notei algumas repetições (palavras muito próximas uma das outras). Para contornar isso, você pode utilizar sinônimos, ou mesmo criar um frase completamente nova. Está sendo uma experiência interessante acompanhar a escrita de gente de fora, mas não tão fora assim.

  6. Givago Domingues Thimoti
    30 de junho de 2017

    Gostei do conto. Achei muito bonito e bem escrito. Lembrou-me muito os contos infantis africanos.
    Acho que a única coisa que eu gostaria de apontar foi alguns longos períodos que incomodaram um pouco a minha leitura. Não acho que seja um erro grave, mas, ainda assim, vale a pena destacar. Mesmo com esse ponto, o conto é muito bom!

    Abraços

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Publicado às 30 de junho de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .