EntreContos

Detox Literário.

A Cartomante – Conto (Ana Lopes)

A movimentação na rua já não estava tão intensa. Eram três da tarde da última semana de outono. O sol tímido tornava ao dia prazeroso e calmo. Aurora saiu de casa apressada para não perder o horário marcado havia alguns dias. Quando alcançou o portão rabeou os olhos para os lados e viu que o caminho estava livre. Ninguém estava a observá-la naquele dia. Os vizinhos estavam dentro de suas casas e até os cachorros pareciam emudecidos de preguiça. Ouviam-se poucos ruídos na rua.  Os poucos carros que àquela hora transitavam, nem de longe lembravam os dias agitados da cidade. Deslizavam com leveza pelo asfalto, pareciam flutuar sobre uma passarela de algodão. Os dois coletivos que por ali trafegavam iam parando ora aqui, ora ali, pegando solitários passageiros nos pontos de embarque. O resto era só silêncio. Aurora atravessou a rua e seguiu sempre à direita até alcançar o terceiro quarteirão. Dobrou mais uma vez à direita e seguiu em frente até encontrar a loja de consertos de materiais elétricos onde muitas vezes estivera para um reparo ou outro em seus equipamentos de cozinha. Passou direto pela loja e, antes de dobrar à esquerda, conferiu o endereço anotado em um pedaço de papel meio amassado, que trazia no bolso do casaco. Respirou fundo e conferiu novamente para ver se ninguém a seguia antes de continuar seu caminho. Avistou a placa no alto de um poste tosco que indicava: Beco das Matracas. É aqui! Pensou. Olhou adiante e verificou que o número que procurava deveria estar bem no final do beco. Apressou o passo, deu um grande suspiro e seguiu em frente. O beco era estreito e pavimentado com pedras irregulares. Havia muitos buracos pelo caminho e Aurora andava equilibrando-se entre uma pedra e outra para não tropeçar ou cair. Quando chegou próximo ao final do beco avistou o número 13 e a placa bem chamativa que dizia: “Madame Margot – sua sorte nas Cartas, nos Búzios e no Tarô”. Aurora olhou e se deteve um instante antes de prosseguir. Entrou pela porta estreita do velho prédio de paredes descascadas e subiu as escadas de madeira bem devagar. Não queria chegar ao local cansada. Afinal eram 13 degraus para subir. Quando chegou à porta Madame Margot já a esperava com um grande e largo sorriso. Madame Margot era uma senhora de carnes fartas, grandes olhos escuros e lábios vermelhos e carnudos. Suas mãos eram redondas e pequenas e as unhas bem aparadas e cuidadas. Os cabelos negros e cacheados à altura dos ombros estavam adornados por um turbante colorido cujo tecido era o mesmo do vestido de saia rodada que usava.   

Entre, filha! Não tenha receio. Aqui você está bem protegida. Não se acanhe. Aurora abriu bem os olhos para captar tudo o que pudesse ver antes mesmo de começar a falar alguma coisa. Sente-se nesta cadeira, indicou Madame Margot. Deseja um copo d’água antes de começarmos? Aurora assentiu com a cabeça e Madame Margot entrou pela porta separada por uma cortina vermelha. Aurora então pode observar o local. Havia poucos objetos ali. No centro da minúscula sala uma pequena mesa quadrada coberta com uma toalha azul de cetim cujas franjas vermelhas pendiam pelos quatro lados. Duas cadeiras estavam postadas frente a frente de um lado e de outro da mesa. À direita da porta por onde Madame Margot entrou havia um pequeno móvel com três gavetas e sobre ele um abajur em estilo retrô. As paredes da pequena sala estavam pintadas de bege, uma pintura bem tosca. Os olhos de Aurora iam registrando tudo quando Madame Margot adentrou a sala trazendo uma bandeja com um copo de vidro cheio de água e o entregou à Aurora. Ela agradeceu e bebericou um pouco do líquido. Madame Margot pediu a Aurora que se sentasse na cadeira e tomou assento na cadeira de frente para ela. E então filha, o que a traz aqui? O que a aflige? Aurora esboçou um sorriso tímido e, antes mesmo que dissesse alguma coisa, Madame Margot foi logo dizendo: Não se preocupe tanto com seu companheiro. Ele ainda está apaixonado por você. Aurora então tomou coragem e disse: Sabe… é que eu tenho sentido que, de uns tempos pra cá, ele está mais arredio, parece que está andando nas nuvens. Eu queria saber o que está acontecendo… Bem vamos ver aqui o que dizem as cartas. Madame Margot retirou o baralho da primeira gaveta do móvel e o colocou nas mãos. Embaralhou, separou-o em três partes e pediu a Aurora que retirasse uma carta de cada monte e as virasse uma a uma de frente para ela. As mãos de Aurora estavam trêmulas. O que será que ela vai ver aí? Pensou. Será que vai descobrir alguma coisa terrível? Não tenha medo, filha. As cartas só dizem a verdade. Há quanto tempo estão casados? Há cinco anos. E porque ainda não quiseram filhos? É que meu marido acha que devemos esperar até que a gente tenha uma situação financeira mais estável, sabe como é filho dá despesa… É eu sei bem como é isso… Percebendo certa tristeza na voz de Madame Margot Aurora nada disse, apenas virou as três cartas e as mostrou à vidente. O Andarilho, disse Madame Margot. Esta é uma carta importante nesse estágio de sua vida, filha. Em princípio pode querer dizer que vocês devem alçar voos mais altos, saindo de um estado de acomodação para um estado de crescimento e amadurecimento da relação. Essa figura pode significar uma mudança total nos rumos da sua vida. Aurora ouvia com atenção as palavras da vidente. Vamos ver a outra. O Mago! Ele me diz algo sobre você. Parece que está sempre em busca da perfeição nos relacionamentos. Isso às vezes é muito bom e contribui para momentos de alegria e prazer a dois. E essa última? O que será que nos diz? Indagou Aurora.  Ah! O sol, disse Madame Margot. O Sol simboliza a alegria plena vivenciada diariamente pelo casal, que demonstra sempre muito respeito e admiração um pelo outro e principalmente satisfação por estarem juntos. Representa compreensão, apoio incondicional e harmonia plena. Aurora sentia-se cada vez mais animada com o que ouvia. Foi então que Madame Margot solicitou que ela escolhesse uma última carta entre os três montes. Aurora pensou, pensou e escolheu a carta que estava por baixo do monte do meio. Sacerdotisa!!! Esta é uma carta interessante e nos diz algo muito importante principalmente em relação a você. Aurora arregalou os olhos e engoliu seco. O que será que esta carta diz sobre mim? Aqui vejo uma polaridade na sua forma de lidar com o amor. Ao mesmo tempo em que ama você também se sente confusa quanto a esse sentimento. O significado desta carta mostra que alguns conflitos podem estar ligados à intuição e introspecção, aspectos mais fortes no sexo feminino. Se você veio atrás das cartas pensando que sua relação não vai bem, concentre-se no significado desta carta para voltar a ser feliz.

Depois de ouvir tudo o que a vidente lhe dissera, Aurora deixou o local e tomou o rumo de volta para casa. Pelo caminho ainda pensava no que as cartas haviam revelado quando notou que alguém a seguia. Rapidamente entrou na cafeteria para certificar-se se estava realmente sendo seguida. Procurou uma mesa bem no canto do salão e pediu um café com biscoito. Não demorou muito e ela logo escutou o tilintar do sino na porta do café indicando que alguém também entrara. Aurora encolheu-se no canto, atrás da pilastra, de modo que só ela poderia ver quem entrara. O homem de casaco preto sentou-se no balcão e relanceou os olhos pelo salão. Parecia estar procurando alguém. Aurora prendeu a respiração e esticou o olho para ver se reconhecia aquela figura que, certamente a estava seguindo. O homem olhou pelo espelho do balcão e viu a silhueta de Aurora refletida num filete de imagem. Terminou calmamente de sorver o café. Limpou a boca com o guardanapo, pagou a conta e retirou-se do local. Aurora sentindo-se aliviada terminou seu lanche devagar. Antes de sair deu uma espiada pela janela da cafeteria e verificou que não havia ninguém por perto. Saiu e atravessou a rua. Ao colocar os pés na outra calçada sentiu que alguém lhe segurava pelo braço. Seu corpo estremeceu e ela, acometida de uma enorme vertigem, viu seu corpo perder as forças desmanchando-se como sorvete ao sol. Quando recobrou novamente os sentidos estava de camisola, deitada em sua cama com seu marido dormindo ao seu lado. Olhou para o relógio de cabeceira e viu que ele marcava três horas!

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6 comentários em “A Cartomante – Conto (Ana Lopes)

  1. Fil Felix
    1 de julho de 2017

    Um conto que poderia ser enxuto, mas que dá umas voltas em si mesmo. Gosto muito de tarô e de simbologia, já cheguei a estudar e jogar quando gostava de Wicca, então esses pontos me chamaram a atenção. Fugir dos clichês das cartas da Morte ou do Diabo foram uma boa. E a questão da simbologia também é bem evidente, como o dia nascendo e a personagem (Aurora) saindo de casa; a carta do Sol escolhida; o número 13 duas vezes e por aí vai. Por insinuar a questão do sonho, essa simbologia acaba ajudando a entrar na magia. As descrições foram boas, mas exageradas, há quem gosta e quem não gosta. Ainda da simbologia, é interessante optar entre o “real” ou o insólito. Como dar pistas do absurdo da situação onírica, além da tranquilidade atípica do bairro. Pro final não cair de paraquedas.

    O calcanhar de Aquiles do seu conto está na estética e organização, algo que sempre reparo e tento melhorar nos meus. São três grandes blocos de textos, com ausência de vírgulas, o que deixa a leitura cansada e pesada. Pausar mais as sentenças, torná-las mais curtas, pular uma linha entre os parágrafos e separar os diálogos do texto por travessão ou aspas, tenho certeza que tornaria a leitura muito mais leve e fluida. E como a Bia Machado comentou, maneirar nos adjetivos. Utilizar de comparações, ao invés de descrever que “era grande, alto, pequeno, baixo” etc, enriquecem mais a trama. Ou se gosta de deixar super detalhado, recomendo dar uma lida em autores que abusam disso. Mrs. Dalloway da Virginia Wolf, por exemplo, usa umas dez páginas pra descrever uma floricultura (ok, to exagerando, mas é esse o espírito da coisa). Mas ela faz com que não fique (muito) pesado.

  2. josewaenyescritor
    29 de junho de 2017

    Ana,
    Eu gostei do texto, mas achei cansativo de ler, neste padrão de diagramação.
    Obrigado por compartilhar e nos presentear com seu talento!

  3. Bia Machado
    28 de junho de 2017

    O título me trouxe a lembrança o texto de Machado, um conto do qual gosto muito e que tem um final bem impactante, ao menos pra mim. Mas não vou começar pelo final, mas sim pelo começo. O desenvolvimento do seu texto me incomodou um pouco e explico: há muitos adjetivos; intensa, prazeroso, calmo, emudecidos, agitados, de algodão, solitários… Depois continuam, quando chega à casa da cartomante: estreita, velho, descascadas, grande, largo, fartas, escuros, vermelhos, carnudos, redondas, pequenas, aparadas, cuidadas, negros, cacheados, colorido, rodada… E depois, continuam e continuam. Qual o problema em se adjetivar? Nenhum, se não forem usados com tanta profusão. Tire os adjetivos do seu conto e veja o que sobra. O que temos de enredo, afinal, além da descrição? Pouca coisa. A cartomante lê as cartas, a autora mostra o conhecimento que tem sobre o assunto, que é até verossímil, porém da forma como o texto foi construído, falas e narração juntas, emboladas, alternadas sem marcações tradicionais (travessão ou aspas), não convence muito. Não funciona.

    Há algumas repetições também, como Madame Margot (que rima com tarô), Aurora… Algumas coisas meio que redundantes como “assentiu com a cabeça”, por exemplo, me incomodaram. Os adjetivos em excesso também tiram um pouco da minha liberdade de leitora de imaginar o que estou lendo. Não funciona, até atrapalha, pois quando leio “Havia poucos objetos ali. No centro da minúscula sala uma pequena mesa quadrada coberta com uma toalha azul de cetim cujas franjas vermelhas pendiam pelos quatro lados. Duas cadeiras estavam postadas frente a frente de um lado e de outro da mesa. À direita da porta por onde Madame Margot entrou havia um pequeno móvel com três gavetas e sobre ele um abajur em estilo retrô. As paredes da pequena sala estavam pintadas de bege, uma pintura bem tosca” eu não consigo ler imaginando tudo isso. Ou eu leio, ou eu imagino o ambiente em detalhes. Escolhi ler e imaginei uma salinha cheia de quinquilharias mesmo, com uma mesinha (redonda!) e as cadeiras. Nada colorido e tão detalhado.

    E aí, o final: inverossímil e que não funciona. A pior coisa é esse recurso, o de acordar em um momento de perigo. Fuja disso, por favor! Se não sabe como terminar o conto, não o termine ainda. Deixe de lado, depois releia, revise, corte, revise… E é inverossímil porque, se tudo o que narrou foi um sonho, como quer que eu acredite que houve a percepção de tantos detalhes, justamente em um sonho? Obrigada pela postagem e espero que o que disse aqui tenha alguma serventia. Boa noite!

    • josewaenyescritor
      29 de junho de 2017

      Eu achei sua crítica construtiva e perfeita!
      Vou reler os meus textos, pois acredito que tenha cometido alguns destes delitos…
      Obrigado.

      • Caligo Editora
        29 de junho de 2017

        Eu que agradeço, depois poste aqui. 😉

  4. mararomaro poesia
    28 de junho de 2017

    Gostei! Gratidão!

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Publicado às 28 de junho de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .