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Literatura que desafia.

Síndrome de Diógenes – Conto (Amanda Lima)

Mandaria queimar todas as flores que enfeitavam o seu túmulo. Durante os 47 anos em que moraram na mesma casa ele controlara as suas lembranças. A sua personalidade desintegrada a cada ação do marido.

Começou com os boletos antigos tão bem preservados, no canto do corredor, em uma caixinha de plástico que ele tropeçara numa noite de uma quinta-feira, sempre tão descuidado.

Ali tinha a notinha da primeira fralda descartável que havia comprado para o filho mais velho, as várias idas à padaria, à mercearia, à farmácia, registradas em números e símbolos prazerosos ao olhar. Até o comprovante do terno alugado para o casamento deles fora insensivelmente mandado para o lixo.

Era porque a acumulação nunca lhe pareceu uma ideia agradável, dissera Diógenes, no dia em que embrulhou as xícaras quebradas que ela colecionava. A última delas tinha sido rachada pela netinha de três anos que tentava pegar o bolo mais ao meio da mesa.

Os seus sermões nunca foram retrucados, ouvia com o coração doído o baque dos objetos nas sacolas plásticas, nos latões e depois contemplava as estantes empoeiradas, o espaço sobrando em baixo da cama, o vazio em cima do guarda-roupa, os potes ocos.

Apenas aguardava o dia em que ele seria descartado e que poderia reter para si o mundo que ele lhe retirava . Ininterruptamente pensava que, em obediência final ao seu amado esposo, o excesso de lágrimas em seu velório também seria desnecessário.


Nota da escritora: Síndrome de Diógenes ou Acumulação compulsiva (disposofobia) é a aquisição ou coleta de bens ou objetos descartados como lixo, e a incapacidade de usá-los ou descartá-los, mesmo quando os itens são inúteis, perigosos ou insalubres. (pt.wikipedia.org)

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2 comentários em “Síndrome de Diógenes – Conto (Amanda Lima)

  1. Priscila Pereira
    5 de abril de 2017

    Oi Amanda, você retratou essa doença pelos olhos da doente, seu sentimento de desintegração de si mesma ao se desfazer de suas lembranças… Os textos sobre doenças mentais me agradam muito, acho um universo desconhecido e interessante e gostei profundamente da humanidade que você conferiu a sua protagonista, todos os sentimentos que ela nutria por suas lembranças. Parabéns!

  2. Cilas Medi
    5 de abril de 2017

    Senti na pele ao visitar um amigo. Destruiu a casa ao não se desfazer dos móveis antigos sem nenhum uso, jornais e revistas espalhados por toda a casa, armários e até na própria cama. Você sintetizou com um misto de desprendimento e amargura essa situação. Parabéns!

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Publicado às 5 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .