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Literatura que desafia.

O carteiro do deserto – Conto (Edson Carvalho)

Deserto por todos os lados. De dia a areia dançava numa contorção lenta pelo calor que incendiava o ar. De noite o frio fazia o tempo quase parar. Nada anormal para Claudio, que nascera naquele lugar e ali vivera até a velhice, em sua velha casinha construída no Oásis abandonado. Admirava o céu estrelado quase todas as noites. As estrelas eram parte dos poucos amigos que tinha ali.

Seu pai, a única pessoa que conhecera em vida, havia morrido cedo quando ele completara apenas dezessete anos. Um dia, ao raiar do sol, simplesmente não se levantou da cama. Foi o primeiro e único contato que Cláudio teve com a morte. Antes de partir, havia lhe ensinado muita coisa. Ciência, matemática, línguas, arte, filosofia e o que de mais importante podia ser ensinado naquele lugar: a cuidar da horta e das galinhas aproveitando a pouca água que dava pra retirar do antigo Oásis. Claudio acreditava que ele mesmo iria morrer um dia, assim como suas galinhas morriam. Mas só aprendeu o que era velhice conforme os anos foram se passando e o tempo foi lhe ensinando. Dores nas articulações, nas costas, dificuldades para enxergar, para segurar coisas pesadas, eram alguns dos indícios dessas mudanças.

Com seu binóculo gostava de ver o vento brincando com a areia ao longe. Um dia, depois de velho, numa de suas observações, presenciou algo inédito: Um homem vindo em sua direção. Caminhava descalço, sob o sol intenso, vestindo um terno marrom surrado com uma gravata verde de nó mal feito dançando ao sabor do vento. Carregava consigo uma mala de couro de aparência muito antiga. Claudio saiu para ver o que queria esse homem de expressão séria vindo diretamente em sua direção.

– Olá! – gritou, acenando com os braços, conforme a distância entre eles diminuía.

O homem não parou. Parecia, inclusive, ignorá-lo. Cláudio continuava a se aproximar, gritando e acenando até um alcançar o outro.

– Bom dia, senhor. – disse Cláudio – Perdido por aqui?

– Não senhor. – respondeu o homem – E o senhor?

– Eu? Não, eu moro aqui. Bem ali – Disse, apontando para o Oásis.

– Entendo.

– Vai para onde, descalço desse jeito?

– Sou carteiro. Vim apenas entregar uma carta.

– No deserto? Mas não vive ninguém aqui!

– Ora, mas o senhor não disse que morava aqui?

– Sim, mas…

– Já que o senhor mora aqui – interrompeu-o – a carta é para o senhor.

O homem colocou a mala no chão de uma maneira que não era possível Cláudio ver seu conteúdo. Ele a abriu e retirou do interior um envelope pequeno.

– Aqui – disse o homem.

– O que tem dentro?

– Não sei. A carta não é pra mim.

Cláudio a abriu e disse em voz alta a única palavra que estava escrita:

– Morte.

– Assustado?

– E porque ficaria?

– As pessoas normalmente ficam com mensagens desse tipo.

– Não entendo.

– Eu também não. Acredito que elas devam ter medo da morte.

Claudio, sentindo que entregar cartas não era a única razão da presença daquele homem ali, começou a observá-lo, intrigado.

– Apesar de você ser a segunda pessoa que conheci na vida, sinto que está escondendo alguma coisa – disse.

– Sim, verdade. Eu trago mensagens, mas levo algo em troca, pois é assim que a natureza gira a roda das transformações. Prazer – disse, estendendo-lhe a mão -, as pessoas me chamam de morte. Perdão por não ter me apresentado antes. Normalmente não sou bem aceito por onde vou.

– Tudo bem – respondeu Claudio, aceitando o cumprimento. – Eu entendo.

Cláudio agachou-se e retirou as sandálias que calçava, jogando-as longe.

– Porque fez isso? – perguntou o carteiro.

– Para onde vou não precisarei delas.

– Como sabe?

– Bom, se você vai descalço, vejo que posso também. Podemos ir?

Surpreso, o carteiro acenou positivamente com a cabeça e, num sereno silêncio, ambos se colocaram a caminhar. Depois de certo tempo a curiosidade falou mais alto e Claudio se pôs a puxar conversa.

– Sabe que você é bem diferente do que as pessoas falam nos livros?

– E o que falam de mim nos livros?

– Dizem que a morte é cruel. Que chega ceifando vidas sem dó. Inclusive, te pintam com uma enorme foice, manto negro e mãos, pés e rosto esqueléticos.

– Sim, já ouvi falar disso. Mas você não teve medo de mim. Isso é raro.

– Porque raro? Houve outros?

– Alguns. Todos eles pessoas que, quando vivas, eram conhecidas como mestres. Não necessariamente famosos. Um deles, inclusive, era mendigo!  Por outro lado, alguns chamados de mestres ficaram completamente apavorados com a minha chegada. E você, é mestre de alguma coisa?

– Que eu saiba, não.

– Ah, deve ser! Os mestres que não têm medo de nada sempre negam quando pergunto se eles são mestres.

Cláudio calou-se, refletindo sobre isso, enquanto caminhavam mais alguns minutos em silêncio. Até que resolveu falar.

– Se sou mestre, sou mestre de que? Nunca vi ninguém na vida além de meu pai e você. Não tenho uma profissão importante como a sua. De que vale um mestre sozinho do deserto? Você é que tem jeito de ser mestre.

– No fundo, de alguma maneira, todos somos mestres. Alguns só estão no lugar errado. É como colocar um professor de matemática para ensinar culinária. Entende? Ele é bom em matemática, mas pode não ser bom para cozinhar.

– Eu nunca descobri em que sou bom.

– Bem, só sei que no universo nada está à toa. Com certeza existiu algum propósito para você ter vivido aqui. E, como eu vim buscá-lo, esse propósito já deve ter sido cumprido.

– Criar galinhas no Oásis?

– Talvez. Ou não. O que mais fazia nesse deserto?

– Aff, tanta coisa! Cuidava da horta, das galinhas, da cabra, puxava água, contava a quantidade de pedras ao redor, conversava com as estrelas…

– É mesmo? E o que você conversava com as estrelas?

– Ah, elas me ensinaram muitas coisas. Ensinaram a falar com o vento.

– Interessante. E como era essa conversa com o vento?

– Eu contava as coisas do Oásis e ele me contava as coisas do mundo. Dizia-me que havia outros que conversavam com ele também, espalhados por aí. Foi com o vento que aprendi a sonhar. Era ele que me levava e trazia do mundo dos sonhos. Lá aprendi muitas outras coisas.

– Percebe? Você viveu para aprender. Primeiro, com seu pai. Depois, com os melhores professores que existem: As forças da natureza. Só os mestres conseguem aprender diretamente com elas. E a carta que lhe entreguei é como um diploma de formatura. Você está pronto.

– Pronto pra que? Pra onde está me levando?

– Te levando? Preste atenção. Não estou te levando a lugar algum. Eu é que estou te acompanhando. Lembra-se? Foi sua a ideia de jogar as sandálias fora, e foi você quem me convidou pra caminhar. Tudo decisão sua. Aliás, sempre foi. Minha missão aqui é de transformação. Venho para impedir que as pessoas se aprisionem no lugar que estão, com seus desejos e ilusões.  O problema delas são os extremos: Ora estão presas ao chão, ora estão soltas sem direção no espaço. Difícil ver alguém como você que, ao mesmo tempo em que sonha, também é centrado. Definitivamente, não precisa de mim. Já é livre. Só falta decidir voar.

Cláudio silenciou. Olhou para seus pés descalços no chão. Olhou para as estrelas descalças no firmamento. E ouviu o sussurro do vento como uma bela canção de amor e coragem. Uma canção inexplicável, do tipo que somente poderia ser sentida. Recordou-se de seu pai. Recordou-se de tudo o que vivera no deserto até ali, e finalmente entendeu que ser simples não é ter pouco, mas, sim, ter tudo. Pois somente a simplicidade preenche todos os espaços os quais a complexidade não consegue entrar. Então tomou sua decisão e deu o próximo passo rumo às estrelas, para aprender ainda mais na escola infinita do viver.

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4 comentários em “O carteiro do deserto – Conto (Edson Carvalho)

  1. Priscila Pereira
    16 de fevereiro de 2017

    Oi Edson, eu gostei muito do seu conto. Achei bastante filosófico, sem ser chato. Está muito bem escrito, parece até um poema… Parabéns!!

    • Edson Carvalho dos Santos Filho
      16 de fevereiro de 2017

      Muito grato, Priscila. 🙂

  2. Marco Aurélio Saraiva
    15 de fevereiro de 2017

    Que escrita deliciosa! Seu texto soa como uma canção. O ritmo do conto é um ritmo cantado, com uma estrutura muito bela e uma grafia gostosa.

    Eu fui pensando nas coisas que os personagem falavam enquanto lia, sem que a leitura fosse atrapalhada por isso. Este é um daqueles contos que dá vontade de voltar e ler tudo de novo com outros olhos, e foi o que fiz.

    Você escreve bem pra caramba. Foi uma excelente leitura, e uma excelente reflexão.

    • Edson Carvalho dos Santos Filho
      16 de fevereiro de 2017

      Puxa, Marco! Fico muito feliz que tenha gostado! Grato mesmo!

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Publicado às 15 de fevereiro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .