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Literatura que desafia.

Canis Lupus – Conto (Eduardo Selga)

lobo

Abraça os joelhos com força, sentada na cama, sem nenhuma outra viva alma (os irmãozinhos dormem noutro quarto, lá embaixo), o cobertor por cima do medo. Se pudesse, escorreria. Ou, então, vapor. Virar nuvem. Os dentes estão levados da breca, recusam o silêncio para dormir: entrechocam-se, meninos brincando essas brincadeiras físicas de meninos bobos. Impossível os lábios se lembrarem do pai-nosso, pré-requisito para um sono abençoado, mamãe sempre repete essa ladainha. Brincam de pique em sua cabeça imagens que só a fazem lembrar-se do estranho encontro que tivera com ele, à tarde, entre as árvores do pomar, longe de papai e mamãe. E dissera, depois de tudo feito, aquela voz cavernosa como uma porta rangendo e veludo: espere-me hoje à noite…

A porta da sala range, passos de predador no escuro, respiração carregada, o silêncio das coisas estridentes porque inertes. Ai meu Deus, ele está vindo… Primeiro degrau, segundo degrau, subindo lentamente e próximo ao corrimão, sétimo degrau, a ponta da cauda arrastando, pausa. Ele está chegando! Pai nosso que estás no céu… Os olhos, enormes para melhor enxergar, viajam no espaço já percorrido, lá embaixo a sala, santificado seja o Vosso nome. Sorri seus dentes tão grandes. Aproxima-se ainda mais, encosta o focinho na porta vermelha querendo o mesmo perfume do pomar. Toc, toc, toc. É ele! Venha a nós o Vosso reino… Empurra, surge de repente cheio de olhos amarelo-âmbar no quarto negro, a boca escancarada e salivando. Como quem ri. Sabe que será feita a sua vontade.

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13 comentários em “Canis Lupus – Conto (Eduardo Selga)

  1. Waldo Gomes
    7 de janeiro de 2017

    Tanto clichê junto geralmente redunda em algo enfadonho. É normal, não chega a ser uma falha. Mas desejo tudo de bom e sucesso.

  2. Evelyn Postali
    6 de janeiro de 2017

    O medo nos transporta para lugares escuros e entulhados de coisas, ainda mais se houver a consciência de um prazer pecaminoso. Foi a sensação que tive – apesar de não ter tido apenas essa. É uma escuridão só, o que esses parágrafos constroem. Nossas vivências são construídas, muitas vezes, pelo medo e pela culpa, principalmente se somos mulheres e se as mulheres que nos criaram impuserem a visão conservadora, machista e religiosa na qual elas cresceram. Seremos eternas infelizes se não nos libertarmos daquele olhar acusador, que nos joga na boca do lobo e não nos deixa mostrar os dentes. E aqui, me parece, o medo tem nome, porque entra pela porta da sala. É conhecido. Se não mora na mesma casa, mora ao lado. E exerce seu poder milenar de dominante sobre uma alma que, talvez não entenda coisa alguma de fortaleza, ainda, e se deixe levar pela mão de um representante escroto da sociedade igualmente conspurcada.
    Talvez eu não tenha conseguido passar com clareza meu entendimento sobre a intensidade, a força, e o subtexto intrincado nessas linhas. Talvez porque em alguns momentos me dispersei tentando entender todos os sentidos.

  3. Fabio Baptista
    4 de janeiro de 2017

    Esse é o tipo de leitura que eu “aprendi” a apreciar durante essa jornada aqui no EC, em boa parte graças aos seus textos e comentários, Eduardo. Também me lembrei de Chapéuzinho vermelho e talvez esteja completamente errado, mas o primeiro sentimento que tive foi de um padre na forma de lobo mau, prestes a abusar da menina em um convento ou algo assim.

    Muito bom.

    Abração!

    • Brian Oliveira Lancaster
      4 de janeiro de 2017

      Engraçado, tive a mesma sensação. Vai ver é a “vibe” das tradições de fim de ano.

    • Eduardo Selga
      5 de janeiro de 2017

      O conto acaba tendo uma dimensão sinestésica, ou seja, aciona diversas percepções, porque seu eixo é uma narrativa arquetípica, o significa fazer parte do imaginário humano ou, pelo menos, do ocidental. Por isso, embora não explícita, a ideia do padre está no texto, porque ele é um dos símbolos contemporâneos do macho abusador da inocência infantil.

  4. Eduardo Selga
    2 de janeiro de 2017

    A religiosidade carola carrega em si uma grande repressão sexual. Como eu quis realçar na personagem feminina essa última característica, usei a conhecida oração como elemento que ligasse o desejo libidinoso ao paraíso que chega tão próximo a ela por meio de um personagem que é ao mesmo tempo o macho selvagem e suave.

    Amém?

  5. Davenir Viganon
    2 de janeiro de 2017

    Gostei da brincadeira com as palavras, o lobo (predador da virgindade feminina) e a oração do Pai Nosso.
    Gostei bastante.

  6. Priscila Pereira
    2 de janeiro de 2017

    Oi Eduardo, você contou muito em pouquíssimas palavras… seria a Chapeuzinho Vermelho a sua protagonista? Fiquei salivando com suas palavras!!

    • Eduardo Selga
      2 de janeiro de 2017

      Priscila,

      A rigor, ela não é Chapeuzinho Vermelho, bem como ele não é o Lobo Mau, dado que esses personagens pertencem a uma narrativa dos Irmãos Grimm, que por sua vez aproveitaram uma narrativa popular. Mesmo se eu parafraseasse a estória de modo mais fiel e os nomeasse da mesma forma, não seriam os mesmos personagens. Não diria nem que este conto seja uma releitura, exatamente. É mais a utilização do elemento central de “Chapeuzinho Vermelho” (a interação entre o feminino ingênuo e o masculino em sua versão brutalizada), ignorando vários outros elementos, e anexando o erotismo que é apenas muito levemente sugerido no texto original, além da religiosidade, que não aparece no texto dos Irmãos Grimm.

      No entanto, você é soberana em sua interpretação.

  7. Miquéias Dell'Orti
    2 de janeiro de 2017

    Em apenas dois parágrafos, a quebra do invólucro que nos protege diante do desconhecido e o mergulho no mar da tensão pelo inevitável. Muito bom, cara.
    Gostei também da relação que você fez com pai nosso, deu um toque especial na história.

    • Eduardo Selga
      2 de janeiro de 2017

      A religiosidade carola carrega em si uma grande repressão sexual. Como eu quis realçar na personagem feminina essa última característica, usei a conhecida oração como elemento que ligasse o desejo libidinoso ao paraíso que chega tão próximo a ela por meio de um personagem que é ao mesmo tempo o macho selvagem e suave.

      Amém?

      • Miquéias Dell'Orti
        3 de janeiro de 2017

        Amene!

        No fim das contas, tem muito mais no contexto do que minha leitura rasa absorveu. Muito bom. Parabéns de novo.

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Publicado às 2 de janeiro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .