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Detox Literário.

Tempestade – Conto (Carlos Daniel)

Ontem meu respirar foi lento, profundo e demorado. Cada gota vinda ds imensidão negra acima de mim torturava minha pele enquanto meus olhos descansavam por um breve momento. Tanto caos e desespero trouxeram o cansaço, e agora eu sucumbia e deixava que o mundo não dominasse por um breve instante.

Mas não via problemas nisto, sabia que logo poderia e conseguiria tomar as rédeas do meu destino. Mesmo perdido neste inesgotável horizonte de águas negras, o desespero evanescia a medida que meus olhos tiravam o merecido descanso. Os incessantes trovões e a ventania ensurdecedora pareciam se exilar do meu mundo, tomado por uma estranha paz em meio à tormenta.

Meus olhos tentam se abrir e são fortemente atacados pelas gotas grossas desta tempestade. De olhos fechados, me levanto para que possa abrir meus olhos e contemplar o caos deste infinito oceano de águas negras. A escuridão do céu se reflete nas águas que me cercam e em meio a um cenário apocalíptico, a paz se faz presente. Senti prazer em poder observar tamanho poder da natureza, de poder ver as enormes ondas se chocando contra o cais, de poder admirar nos horizontes os clarões dos trovões que atacavam impiedosamente as longínquas terras de além do meu horizonte.

Nem mesmo o medo, por estar totalmente isolado e em meio a uma tempestade, da morte era capaz de aterrorizar a minha alma. Mesmo que morresse, não conheceria ninguém vivo que pudesse ter desfrutado de estar de pé, presente, neste cenário caótico e incrível. A morte parecia ser um preço justo para ter este privilégio, e não me incomodava em ser cobrado quando menos esperasse.

E com uma paz de espírito transcendental, notei a inconstância das placas de madeira onde pisava. Vi, então, a água inundando imediações e uma agitação maior num ponto distante da maré negra. Uma onda absurdamente gigante se configurou sobre meu olhar, e se projetou sobre tudo o que me cercava. O barulho da água entrando em meus ouvidos enquanto eu soltava o ar era agonizante, mas eu já tinha entendido o meu destino. Pude uma única e última vez não só ser espectador de uma fúria grotescamente linda da natureza, mas também vítima. E enquanto o mundo ao meu redor escurecia e sentia a água afogar meus pulmões, agradecia em silêncio ao mundo por ter feito ao menos do fim da minha vida um terminar digno.

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3 comentários em “Tempestade – Conto (Carlos Daniel)

  1. Miquéias Dell'Orti
    2 de janeiro de 2017

    Olá,

    Muito boa a ambientação do conto. Achei muito louco o fato do protagonista-narrador se prostrar diante da tempestade e do mar negro e revolto para que, pelo menos em sua morte, pudesse desfrutar de sentimentos que beiram a honra, a dignidade e outros que talvez pessoas envolvidas na vida cotidiana nunca tenham experimentado.

    Para mim, os únicos pontos de atenção foram:

    – A mudança no tempo verbal (mesmo que tenha sido proposital, não caiu bem na hora da minha leitura);

    – A repetição de algumas palavras, como “olhos” por exemplo: ”Meus olhos tentam se abrir e são fortemente atacados pelas gotas grossas desta tempestade. De olhos fechados, me levanto para que possa abrir meus olhos e…”;

    – E um aposto que achei meio fora do eixo: “Nem mesmo o medo, por estar totalmente isolado e em meio a uma tempestade, da morte era capaz de aterrorizar a minha alma.”

    Abrax.

  2. Brian Oliveira Lancaster
    27 de dezembro de 2016

    É um texto intimista bastante melancólico. A repetição da palavra “águas” incomoda um pouquinho, mas o conjunto flui muito bem. Um conto curto situado apenas na reflexão do protagonista – a eterna busca por redenção ante ao caos (apesar de que, alguém nessa situação, dificilmente teria tempo para raciocinar).

  3. Eduardo Selga
    24 de dezembro de 2016

    É um tipo de conto pouco valorizado hoje em dia, por estar centrado na construção de um ambiente em detrimento do enredo, que exerce papel secundário. É uma escolha narrativa que exige domínio de ferramentas da linguagem estética, de modo a conseguir arquitetar esse ambiente, caso contrário a narrativa não se realiza por completo. Por isso, não raro, os contistas que seguem essa vereda também têm pendores poéticos, como me parece ser o caso.

    Embora eu não tenha visto motivos para a mudança de tempo verbal no terceiro parágrafo (do passado para o presente), é possível perceber a habilidade do(a) autor(a) na montagem da ambientação, inclusive não esticando o conto para além do necessário. E lembro que narrativas assim costumam demandar uma linguagem densa, por consequência diminui a extensão do texto.

    A densidade da linguagem também costuma provocar a multiplicidade de significados da narrativa, e quando o autor tem consciência disso ele pode manipular a palavra, de modo que o texto fica povoado por uma miríade de significados.

    Algo assim aconteceu no conto. As impressões do narrador-personagem acerca do ambiente no qual ele está podem fazer menção à ideia de caos primordial ou a “sopa cósmica”, em frases como “os incessantes trovões e a ventania ensurdecedora […]”.

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Publicado às 24 de dezembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .