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Detox Literário.

Mil Folhas – Conto (Rubem Cabral)

tartaruga

A casa precisa ser arrumada e a geladeira está um horror: cheia e vazia. Cheia de legumes murchos, vazia de qualquer coisa boa de se comer. Não há uma fruta sequer na bonita fruteira verde, há um monte de roupa para lavar e um jantar que preciso fazer. Tudo, para recebê-la de volta, outra vez, depois de trinta dias de dolorosa separação; vendo-a somente no “mundo atrás da tela”, revelado pela webcam. Ela não sabe, mas foi um mês espinhoso, que praticamente se arrastou, torturando-me sem dó. Já na primeira semana, eu não dormia direito, tinha medo de dormir sozinho no escuro e, se acendia alguma luz, não dormia porque estava claro demais.

Como disse, tenho que me apressar com os preparativos, porém a inspiração veio forte nesta manhã quente e abafada, como poucas vezes veio. Aponto o lápis, abro um pacote de folhas A4, trago borracha e me sento à copa, na cadeira desconfortável, feia imitação da clássica palhinha descombinada com as pernas de alumínio polido. Arrumo a pequena mesa quadrada e negra e ajeito-me com uma xícara de café sem açúcar em mãos.

Traço as primeiras linhas, caprichando na caligrafia. O cinza do grafite, metálico e oleoso, logo fazendo desenhos, como pequenos insetos nas mil folhas que tentarei escrever.

Jorge Meta, um homem calvo e de barba grisalha, bebeu uísque num copo pesado, de fundo espesso. Girou os cubos pequenos de gelo com o dedo, enquanto tentava controlar sua raiva e frustração. Seu apartamento era amplo e moderno, decorado com gosto, abusando de tons neutros. Tal decoração elegante era legado de Magali: a moça loura, muito mais nova e risonha, que arrumou as malas e fora embora pela manhã.

Antes houvesse gritos, acusações amargas e lágrimas, pensou Jorge. Tudo, tudo seria preferível àquele olhar decepcionado, ferido, acusatório. Àquele silêncio dolorido, de olhos baixos que se recusam a se encontrar.

Não foi a primeira vez que ele a traiu e tampouco seria a última. Homens são assim, riu ele com amargura. Magali não foi a primeira, a fila andaria, ainda tinha charme, sua fala macia e o verniz de cultura seriam interessantes para centenas de outras não tão exigentes.

Mas o orgulho machucou-o fundo e agora só havia raiva. Raiva de si e ódio dela, que saiu sem nada, além das próprias roupas, sem ameaças de processos e pedidos de pensão. Orgulhosa como era, certamente não ligaria outra vez, apagaria Jorge da alma, feito um cirurgião que extirpa um tumor.

Havia algum papel sobre a mesa de madeira de lei, oval e comprida, capaz de acomodar facilmente até dez comensais. Irritado, não tendo como extravasar tanta revolta, Jorge arrumou as folhas, na verdade extratos bancários com o verso em branco; retirou a caneta do bolso e despejou com força uma torrente de garranchos feios, marcando fundo o papel.

Magali é uma mulher de aparência idosa. Desde que deixou o marido, apenas se decepcionou com outros tipos piores que conheceu depois. Sua tristeza é de uma ironia paradoxal, pois vive de escrever e ilustrar pequenos livros infantis, sempre cheios de figuras coloridas e de histórias doces.

 Sentada à varanda, junto da pequena mesa de metal, ela chora e revê o trabalho começado. Há uma carta aberta jogada num canto da mesa e um copo alto, cheio de água gelada com gás.

 Seus desenhos são elegantes, de traços finos e formas arredondadas. Ela olha o roteiro do livro iniciado, atrasado em uma semana e tenta, cheia de carinho, começar o que ela julga ser seu melhor trabalho.

 A caneta de ponta fina risca o papel com letras elegantes e femininas.

 

Meu nome é Tuga, que rima com tartaruga, o que bem em verdade eu sou. Não tenho casa, pois todas nós, as tartarugas, levamos a nossa sempre juntinho, para todo lugar onde vamos. Isso mesmo! A casa é este casco bonito, cinza, verde e amarelo. Tão belo! Quando chove, me encolho toda e tomo um chazinho lá dentro, leio um livro e como coisas gostosas. É bom ser tartaruga: fazer as coisas sem pressa, pois a pressa é inimiga da perfeição.

Sou muito velha, Deus quis que nós, tartarugas, vivêssemos muito, víssemos tudo e contássemos um dia para Ele, com nossas vozes baixas e roucas, tudo o que aprendemos aqui.

Eu moro numa ilha perto do Equador, chama-se Espanhola e é cheia de cactos, flores, lagos e vulcões. Lana, a iguana, é minha melhor amiga e sempre vamos à praia junto com seus filhotes.

Sempre quis ter um filhinho, bem que tentei a vida inteira: coloquei tantos ovos, mas nunca consegui ter um sequer.

 

Fazemos uma pausa e bebemos: café, uísque, água, chá.

Muito tempo sentado: estico-me e preparo mais café na velha Bialetti. As horas passaram voando, a casa continua um ninho de ratos. Sorte que o vôo dela só chega à noite!

Saudade já é uma palavra gasta no meu vocabulário: puída, lixada, como seixos do leito de um rio. Deveria ser “audad”, se palavras se gastassem de verdade. Quisera poder amar menos, que o tempo houvesse corroído um pouco disto que parece não caber no meu peito.

Jorge trincou os dentes, mau hábito que já lhe rendera um dente quebrado e dores de cabeça constantes. Lágrimas de raiva ameaçaram surgir, mas ele as reprimiu. Respirou fundo, tentou outra vez ligar para Magali e só logrou falar com a máquina. Apertou firme a caneta e a forçou, contra a improvisação de papel-carta. De alguma forma, ela pagaria afinal.

Magali revê a carta sobre a mesa. Já a havia lido tantas vezes e não acreditara. É verdade que sua renda mensal é pouca e que seu apartamento de um quarto não comporta muita gente. É, no entanto, doloroso demais encarar sua incompetência: biológica e financeira.

Será que não entendem que seria a melhor mãe do mundo? Que dedicaria todos os seus dias a educar, nutrir e fazer crescer alguém bom, que tinha ternura e amor suficientes para mil crianças?

A tristeza faz seu rosto precocemente envelhecido se contorcer num esgar feio e amargurado.

As lágrimas correm até o queixo e ela as ampara, antes que manchem o papel.

 

Um dia, quando volto da praia, uma chuva muito forte começa a cair. Mas eu sou grande, meus pés são fortes e, devagar, vou subindo a estrada, que é quase um rio.

Nisso, vejo uma mancha branca se mexendo na água barrenta. Estico o pescoço e seguro com a boca, retirando-a da água.

É um ratinho branco! Todo molhado e com os olhinhos fechados. Aperto o passo e volto para debaixo da árvore onde eu costumo me proteger do Sol.

O ratinho acorda dentro do meu casco e me olha com os olhos vermelhos, curioso.

– Onde estou? Quem é você? – Ele me pergunta.

– Eu me chamo Tuga. Você está na minha casa, que é pequena, mas onde cabem muitos. Qual é o seu nome?

– Eu não tenho nome, me perdi quando era muito novinho. Não tenho mãe, não tenho nada.

 

Ainda nos primeiros dias em que fiquei só, uma dor forte no meu ombro esquerdo quase não me permitia levantar o braço. Logo descobri que a razão era a posição de deitar: que, inconscientemente, eu tentava abraçá-la e passava a noite com o corpo pesado sobre o braço. Meu corpo estranha a ausência dela.

Com o passar das semanas, a casa que era alegre, cheia de música e perfume, logo se encheu de poeira nos cantos, como se melancolia e ausência transmutassem e se acumulassem por lá.

Mas logo mais tudo isto será passado. Sete e quarenta e cinco da noite, quando ela sair pelo portão de desembarque, quando voltarmos a ser um só outra vez.

Uma dor muito forte na cabeça, seguida de um formigamento no braço, quase fizeram Jorge parar de escrever. “Será que me lembrei de tomar o remédio da pressão?”, ele se perguntou.

Mas não levantaria dali sem terminar o que começara, era assim que ele fazia; por isto o seu sucesso profissional. Mesmo para rascunhar aquelas linhas mal-escritas, não sossegaria até o ponto final.

Magali levanta-se e vai à cozinha. Abre a gaveta dos remédios e hesita por um segundo. Inspira, pega três caixas de um medicamento com tarja preta e volta à varanda.

Destaca todos os comprimidos das cartelas, enche a mão uma vez, bebe água, repete o procedimento duas outras vezes.

Negaram seu direito de ser mãe: Deus, o destino, as pessoas. Que sua morte sirva de exemplo. Que leiam nas entrelinhas de seus textos o seu desejo sincero e legítimo e arrependam-se de seus atos.

Agora as lágrimas pingam no texto, sobre a figura da tartaruga e do ratinho. Ela seca a folha com um pano e se esforça para completar as últimas páginas, antes que durma.

 

– Você aceitaria ser meu filho? – Perguntei, sem pensar duas vezes.

Os olhos, pequenas continhas vermelhas, brilharam.

– Eu sei… – Engasguei. – Eu sei que somos tão diferentes. Eu tão grande e você pequenino, minha pele é cinza e seu pelo branquinho. Você é tão rápido! Mas, se você não ligar…

– É claro que não ligo! – respondeu e me deu um abraço. – Qual será o meu nome, mãe?

“Mãe”: existiria palavra mais bonita em qualquer língua?

– Que tal Felipe? – Respondo, sentindo o toque quente do pelo macio contra meu couro grosso.

 

A página final mostra Tuga e Felipe abraçados. Ela olha para o leitor, sorrindo, com seus olhos engraçados, aumentados pelas lentes de seus óculos. Parece que cumprimenta a escritora, pela chance de ser feliz, ainda que só seja um desenho no papel.

Magali sente a boca seca e, com dificuldade, leva o copo à boca. A mão treme, ela deixa o vasilhame cair e sua cabeça pende sobre o encosto da cadeira. “Felipe” seria um dos nomes possíveis para a criança que adotaria.

Ela mergulha no vácuo escuro, num turbilhão de mágoas e de recriminações.

Não!

Não, não, não. Em outro dia, talvez. Mas não hoje, não quando tudo voltou a ter cor.

Lamento, Jorge. Vai soar piegas e moralista até os ossos. Tá, eu sei que é um tremendo deus ex machina, mas entenda: hoje ela vai chegar!

Magali revê a carta sobre a mesa. Já a havia lido tantas vezes e não acreditara. É verdade que sua renda mensal é pouca e que seu apartamento de um quarto não comporta muita gente. É, no entanto, doloroso demais encarar sua incompetência: biológica e financeira.

Será que não entendem que seria a melhor mãe do mundo? Que dedicaria todos os seus dias a educar, nutrir e fazer crescer alguém bom, que tinha ternura e amor suficientes para mil crianças?

A tristeza faz seu rosto precocemente envelhecido se contorcer num esgar feio e amargurado.

As lágrimas correm até o queixo e ela as ampara, antes que manchem o papel.

Magali levanta-se e vai à cozinha. Abre a gaveta dos remédios e hesita por um segundo. Inspira, pega três caixas de um medicamento com tarja preta e volta à varanda.

Destaca todos os comprimidos das cartelas, enche a mão uma vez, bebe água, repete o procedimento duas outras vezes.

Negaram seu direito de ser mãe: Deus, o destino, as pessoas. Que sua morte sirva de exemplo. Que leiam nas entrelinhas de seus textos o seu desejo sincero e legítimo e arrependam-se de seus atos.

Agora as lágrimas pingam no texto, sobre a figura da tartaruga e do ratinho. Ela seca a folha com um pano e se esforça para completar as últimas páginas, antes que durma.

A página final mostra Tuga e Felipe abraçados. Ela olha para o leitor, sorrindo, com seus olhos engraçados, aumentados pelas lentes de seus óculos. Parece que cumprimenta a escritora, pela chance de ser feliz, ainda que só seja um desenho no papel.

Magali sente a boca seca e, com dificuldade, leva o copo à boca. A mão treme, ela deixa o vasilhame cair e sua cabeça pende sobre o encosto da cadeira. “Felipe” seria um dos nomes possíveis para a criança que adotaria.

Ela mergulha no vácuo escuro, num turbilhão de mágoas e de recriminações.

Magali revê a carta sobre a mesa. Já a havia lido tantas vezes e não acreditara. É verdade que sua renda mensal é pouca e que seu apartamento de um quarto não comporta muita gente. É, por isto tudo, incrível que tenham aceitado finalmente sua solicitação formal.

Tinha certeza que seria a melhor mãe do mundo. Dedicaria todos os seus dias a educar, nutrir e fazer crescer alguém bom. Tinha, afinal, ternura e amor suficientes para mil crianças!

A felicidade rejuvenesce seu rosto outrora abatido, cedendo-lhe uma luz que antes não estava lá.

As lágrimas correm até o queixo e ela as ampara, antes que manchem o papel.

A página final mostra Tuga e Felipe abraçados. A tartaruga olha para o leitor, sorrindo, com seus olhos engraçados, aumentados pelas lentes de seus óculos. Parece que cumprimenta a escritora, pela chance de ser feliz, ainda que só seja um desenho no papel.

A mulher levanta-se e gira ao redor de si mesma, como se dançasse agradecida, quase incapaz de segurar o desejo de gritar.

Jorge Meta sentiu uma dor aguda no peito, levantou-se, desconcertado, reparando nas alterações de seu texto. Tentou alcançar o telefone, mas tudo girava e ele tropeçou e caiu esparramado sobre o tapete Persa.

A dor diminuiu aos poucos, as lágrimas que segurara, finalmente verteram: abundantes. Ódio, frustração, injustiça, terminaram de oprimir seu coração, até que este finalmente se calou.

– A meta da linguagem é a metalinguagem. – Pensou, em um último lampejo, já desconectado de qualquer sentido ou razão.

Lágrimas: de felicidade, de ódio, de saudade. No fim, são apenas lágrimas.

Eu me levanto, vou até a geladeira e pego o último mil-folhas que sobrou. Ela não gosta de doces e não quero que saiba que abusei enquanto estive sozinho.

Vou comer na varanda e percebo quando uma sombra passa sobre minha cabeça. É algum avião, fazendo a aproximação de pouso. Por um instante pensei que fosse outro lápis ou caneta, de alguém numa camada superior, que também brincaria de escrever minha história.

Mas deixemos de elucubrações, pois já estou atrasado para ir ao aeroporto. Ela voltou! É só o que sei. É só o que importa.

A ponta do lápis está gasta, procuro, mas só encontro uma caneta de ponta grossa na gaveta e escrevo: FIM.

…………………………………………….

Este conto integra a coletânea de contos “A Linha Tênue“, de Rubem Cabral, disponível no site da Caligo Editora.

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11 comentários em “Mil Folhas – Conto (Rubem Cabral)

  1. Óscar Fernandes
    26 de outubro de 2016

    Um texto extraordinariamente criativo e cativante. A exemplo de outros do mesmo autor que tenho tido o privilégio de ler por aqui. Obrigado pela partilha.

    • rubemcabral
      26 de outubro de 2016

      Obrigado a você, Óscar!

  2. Neusa Maria Fontolan
    26 de outubro de 2016

    Muito bom! Gostei.

    • rubemcabral
      26 de outubro de 2016

      Obrigado pela leitura, Dona Deusa! Bjs.

  3. angst447
    24 de outubro de 2016

    Maravilhoso esse conto, cheio de camadinhas deliciosas. Uma ideia bem original e que o autor soube utilizar sem tornar a narrativa (ou narrativas?) cansativa. Habilidade com as palavras invejável, claro, mas isso não é novidade, afinal é um texto do Rubem Cabral. Fiquei pensando na moça que voltava – seria a musa inspiradora ou a própria inspiração?
    Parabéns!

    • rubemcabral
      26 de outubro de 2016

      Obrigado pela leitura, Claudia. Sim, no dia eu ia ao aeroporto e estava sozinho há uns quinze dias, houve musa inspiradora sim!

      😀

  4. Brian Oliveira Lancaster
    20 de outubro de 2016

    Está aí um texto com camadas de verdade. Exige bastante atenção e “malabarismo neural”, mas conquista por sua aparente simplicidade. Não é tão fácil de digerir, mas impressiona (e agora entendi por meu braço direito dói ao acordar, faz todo o sentido).

    • rubemcabral
      26 de outubro de 2016

      Obrigado pela leitura, Brian!

  5. rubemcabral
    20 de outubro de 2016

    Meu muito obrigado ao pessoal que leu e comentou. No blog o conto fica um pouco limitado devido às restrições de fontes e cores disponíveis. No livro os trechos que descrevem as ações do Jorge estão escritos em cinza (grafite) e o livro infantil escrito por Magali usa fonte Script, que imita escrita cursiva.

    Obrigado outra vez.

  6. Priscila Pereira
    20 de outubro de 2016

    Que texto FANTÁSTICO, Rubem. Parabéns!!

  7. Felipe Velista
    20 de outubro de 2016

    Sensacional! Criativo demais. Fiquei realmente surpreso. A cada parágrafo se sugeria na minha cabeça um “num acredito”…e essa sensação é impagável. O texto é muitíssimo fluido, e até rápido. Mas é denso, poético, criativo, experimental(?) e com ótimas reflexões. Mto legal como os personagens são bastante distintos mas tudo conversa intimamente, cada “nível” diz sobre si e sobre o antecessor gerando uma noção de unidade fantástica….Caramba, só tenho um “muito obrigado” por esse texto. Vlw mesmo pela leitura.

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Publicado às 19 de outubro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .