EntreContos

Literatura que desafia.

Dejá Vù – Conto (Paula Giannini)

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Quer que eu assuma o volante, querida?

Não!

Gostava de dirigir. Sobretudo quando pegavam a estrada. No som, uma seleção tocava músicas do pen drive, repetidas à exaustão. Costumava gostar delas.

Mas hoje não.

Estava cansada… Nos últimos tempos algo parecia ter-se quebrado… O mundo mudara. Ou seria algo dentro de si mesma?

Por sorte a estrada estava vazia e logo chegariam em casa. Quando se sentia assim, só um banho era capaz de transporta-la à morna sensação do vácuo de não pensar em nada.

Aumentou o som.

A desgastada música era ao menos capaz de abafar o ronco do careca barrigudo que dormia no banco de passageiros. Seu marido. Outrora um cabeludo sedutor… E ela largara  tudo para se casar com ele. Era a cara do Elvis Presley. Quem sabe o gêmeo do ídolo não houvesse morrido na infância… Talvez, temendo se transformar naquilo que seu irmão viria um dia a ser, a pobre criança tenha escapado para o Brasil em busca de exílio e de uma paz inatingível de espírito. Até o dia em que conheceu aquela  que mudaria a sua vida para sempre.

Elucubrações da jovem que um dia fui… – Pensava quando vislumbrou a seu lado a antiga Kombi azul petróleo, mais surrada que o velho vestido que guardava em uma caixa igualmente azul.

Assim como o vestido, o antigo veículo parecia ter fugido do Woodstock e se materializado ali a seu lado.

Sim, ela fora ao festival de 68. Uma turista brasileira em uma excursão psicodélica de luxo, paga com o dinheiro dos pais de Elvis. O brasileiro.

O Woodstock…

Naquele tempo ela era outra… Quantas podemos ser em uma única vida? – Pensava ao perceber o espelho de moldura alaranjada amarrado ao retrovisor da emblemática Kombi.

No som uma versão eletrônica de Hair tratava de dar agora uma mão ao passado que lhe visitava.

Acelerou.

A curiosidade em observar os passageiros  da lata velha com espelho de 1,99 era maior que sua prudente direção quase à prova de  multas.

Quem sabe naquela Kombi pudesse se reencontrar consigo mesma… Talvez em uma versão mais leve, cheia de flores nos cabelos soltos, em outra vida, escolhida dentre tantas possibilidades.

Física quântica…

Quando jovem era leitora voraz da Revista Planeta e o desdobramento de múltiplas realidades lhe fascinara sobremaneira naquela época.

Talvez…

A forte guinada no acelerador fez o careca perguntar se tudo estava bem. Estava.

Não estava?

Agora ela era uma caçadora obstinada perseguindo seu passado dentro de uma Kombi caindo aos pedaços. Quem sabe dentro dela pudesse visitar também uma versão daquele antigo namorado, trocado por um Elvis Presley de 1,99.

Não… Não podia ser injusta. Seu cover de astro de rock lhe proporcionara uma vida infinitamente mais valiosa.

Mas nesse instante, por algum misterioso capricho do universo, a máquina do tempo azul à sua frente despertava nela uma inesperada e arrebatadora paixão pelo descartado namorado do passado. Na época pensara que a chama havia se apagado e terminou o romance com a desculpa de que seu farto bigode lhe causava terríveis alergias.

O pobre chorara rios e aparecera na porta de sua casa com um ramalhete de flores do campo e os bigodes raspados. Mas era tarde. Elvis já havia possuído seu coração e ela já era outra. Com curtíssimos cabelos a la garçom.

Saudade.

A nostalgia de uma vida que jamais viveu saltava agora de seus lábios em frenéticos soluços.

Sonhava com uma vida que poderia ter tido, em um mundo onde tudo seriam flores, ao lado de alguém cujo coração ela partira há tantos anos. Deixaria os longos cachos mesmo quando se tornassem brancos e viveriam felizes para sempre,  cruzando o país em sua Kombi azul, sem compromissos com nada que não fosse o amor. E se amariam no acostamento, sem culpas ou medos, esperando o dia amanhecer antes de chegar ao próximo…

Destino.

Um dia acreditara nele com a mesma convicção com a qual defendia as quânticas teorias de molas no tempo ou de universos em bolhas dentro de um prato da sopa cósmica. Em que curva de sua vida se deixara esquecer de suas paixões?

No horizonte, o sol em uma imensa bola de cor púrpura incendiava sua alma. Precisava alcançar a Kombi de seu passado. E olhando no fundo de seus próprios olhos diria a si mesma que do lado de fora daquele veículo azul havia sim, um bizarro mundo, como em um desenho animado do Super-homem e a liga de justiça. E veria seu antigo amor sorrir para o seu antigo eu, julgando tratar-se o desabafo daquela estranha apenas uma viagem de ambos devido ao chá de cogumelos.

Precisava alcançar aquela Kombi e pedir perdão ao jovem franzino que tentara o suicídio ao saber que Elvis a levaria ao altar. Quem sabe ainda houvesse tempo para se remendar a fissura do tempo… Quem sabe ao se ver refletida no espelhinho cor de laranja, o universo se abrisse em um buraco de minhoca e ela pudesse rever suas escolhas. Faria tudo diferente. A começar por…

Estrondo!

O escapamento da máquina do tempo cuspiu uma fumaça negra e o veículo pareceu cambalear ao parar no acostamento.

Silêncio.

O sangue em suas veias parou junto com a porta da Kombi que agora se abria. Também ela desceu, em busca de si mesma.

Onde estava com a cabeça?

Por sorte o careca apenas resmungou algo e voltou a dormir. Exausto, quem sabe, com a atribulada semana de trabalho… Ou… Quem poderia saber? Talvez também ele estivesse metido em alguma janela do tempo a espiar outras possíveis realidades dentro de seu sonho.

Custou a reconhecer o antigo amor nos olhos daquele velho de bigodes amarelados pelo cigarro. Ele cuspiu de lado um catarro marrom, grosso como chiclete,  enquanto a  mulher descia do veículo com um galão vazio de gasolina.

– Eu avisei para ele abastecer há 10 quilômetros… No momento exato em que seu carro quase bateu em nós… Mas homem… Você sabe como é… São como mulas. – Empacavam na própria teimosia e agora era ela quem precisava pedir um pouco de combustível.

Gasolina!

Era tudo que aquela estranha versão de um de seus possíveis futuros lhe pedia.

Dentro do romantizado veículo, não um mundo de amores que poderia ter sido, mas um circo de horrores que agora agradecia por jamais ter se tornado real.

O hálito de cachaça do motorista da Kombi a fizeram voltar à realidade. Encheu cordialmente o galão de 5 litros e ainda ajudou a mulher a segurar o vasilhame enquanto a mesma tentava dar partida e o bigodudo empurrava o veículo com muito custo.

Seu marido poderia ajudar. – O homem estranhou.

– Ele está exausto… Estamos voltando de um show… – Foi a desculpa que lhe ocorreu.

– Ah… Um artista. – Foi tudo que  o homem disse antes de  subir ao volante. – Sabe de  onde essa Kombi veio?

Temeu ouvir “Woodstock” quando a mulher segredou-lhe ao pé do ouvido:

– Eu devia ter escolhido o Elvis…

Seu carro já ia longe quando aumentou o som para ouvir “Love me Tender”, providencialmente inserido na seleção de seu pen drive. As versões eletrônicas estavam dominando o mundo.

Sorriu aliviada quando Elvis colocou a mão em sua coxa.

Quer que eu assuma o volante, querida?

Não seria necessário, ela acabara de chegar em casa.

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8 comentários em “Dejá Vù – Conto (Paula Giannini)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    21 de novembro de 2016

    Olha só que texto interessante e cheio de camadas. Curti muito as metalinguagens e eufemismos, como as comparações com viagem no tempo e outras linhas temporais “escritas nas estrelas”. Uma temática cotidiana bem diferente. É bom passear por aqui de vez em quando, entre desafios…

  2. Nilo Mendes.
    5 de setembro de 2016

    Muito bom o seu conto,Paula!Uma bela viagem ao passado e isso,em poucos minutos…
    Eu sempre falo que o ser humano não é feito apenas do presente/futuro…
    O nosso passado é tão importante quanto o hoje e amanhã!
    Podemos voltar no tempo e ver o que escolhemos para o nosso futuro e acabamos por nos conhecer um pouco mais…
    Eu também escrevo crônicas…
    Se interessar,visite o meu blog:
    http://www.cronicasdoviajante.blogspot.com

  3. Eduardo Selga
    1 de setembro de 2016

    Caminha pelas veredas do insólito este conto, na medida em que sugere ao leitor que a protagonista está enxergando a versão do que teria sido ela mesma se mantivesse a relação com antigo namorado. A Kombi, nesse sentido, é a materialização do passado hippie; a mulher no veículo, ela mesma, em outra versão; o motorista, o antigo e bigodudo namorado. Considerando que a Kombi surge enquanto a protagonista está imersa em certo arrependimento pela escolha amorosa feita (optou por “um Elvis Presley de 1,99”), a cena pode ser entendida como uma projeção de sua mente.

    O seguinte trecho, dentre outros, reforça essa impressão: “Agora ela era uma caçadora obstinada perseguindo seu passado dentro de uma Kombi caindo aos pedaços. Quem sabe dentro dela pudesse visitar também uma versão daquele antigo namorado, […]”. Não apenas a Kombi é o passado, como também, de certa maneira, é a própria protagonista quem cai aos pedaços.

    No entanto, e se eu entendi bem, há falhas de coerência. O trecho “mas nesse instante, por algum misterioso capricho do universo, a máquina do tempo azul à sua frente despertava nela uma inesperada e arrebatadora paixão pelo descartado namorado do passado” sugere que ela estava atrás da Kombi (“A máquina do tempo azul á sua frente”), quando ela já havia ultrapassado esse veículo, após ter com ele emparelhado.

    Entendo que a introspecção da personagem pede períodos longos, preferencialmente com orações subordinadas. Algumas vezes isso aconteceu, mas também ocorreram frases curtas. Fiquei pensando no motivo para a intercalação. A protagonista alternaria períodos de alta e baixa velocidade ao dirigir seu carro e, portanto, isso estaria refletido na narração? Parece-me que não há trechos que demonstrem alta velocidade, mas temos o seguinte citação sobre o modo tranquilo como dirigia: “a curiosidade em observar os passageiros da lata velha com espelho de 1,99 era maior que sua prudente direção quase à prova de multas”.

    Pensei na possibilidade de os trechos curtos serem em função de que a estrada exige muita atenção do motorista, portanto pouca “fala”, a despeito do estado emocional da personagem. Entretanto, mesmo quando fora do carro, a economia verbal permanece.

    Acredito ter encontrado o motivo em um comentário da autora. Seria uma questão de ritmo a alternância entre longo e curto. De fato, quando relemos o texto com especial atenção aos parágrafos compostos de uma a três palavras, é possível observar que eles funcionam como os surdos de marcação de uma bateria de escola de samba. E aí faz todo o sentido, na medida em que ressalta o estado introspectivo da protagonista.

    No fim do conto, quando chega em casa, a personagem parece satisfeita com o caminho que sua vida tomou. O arrependimento no início demonstrado pelo Elvis de mentirinha desaparece e se transforma em lenitivo (“Sorriu aliviada quando Elvis colocou a mão em sua coxa”), resultado direto de ter visualizado o que teria sido se fosse.

    • Paula Giannini - palcodapalavrablog
      2 de setembro de 2016

      Nossa Eduardo!
      Sinto-me horadíssima com sua leitura e análise do texto com tanto cuidado e atenção. Você acertou na mosca e me fez pensar um pouco sobre algumas questões importantíssimas de meus contos.
      Obrigada!
      Beijos
      Paula Giannini

  4. Olisomar Pires
    29 de agosto de 2016

    Gostei bastante dessa “viagem”. O estilo curto ficou bom, deu uma boa sensação de emergência. Parabéns pelo conto com suas expectativas possíveis.

  5. Anorkinda Neide
    27 de agosto de 2016

    Olá, Paula!
    Achei interessante o tema e o final ‘revelador’ foi até engraçado, um engraçado nostálgico.. poxa.. nao adianta sonhar com o q nao rolou pq a realidade lhe dá um tapa na cara, como assim?!! hahaha
    .
    Achei o texto corrido, acelerado, talvez pq a moça estava correndo na estrada? Não curto parágrafos curtinhos assim, ainda nao formulei na minha mente o porquê .. E achei muitas repetições . como ‘o careca no banco de trás’ ‘precisava alcançar a kombi’ a propria palavra kombi repetiu demais.
    .
    Mas, ainda foi muito bom de ler e fazer uma viagenzinha rápida nesse ácido todo q é a mente feminina… 😛
    Abração

    • Isso mesmo, Neide.
      O conto busca a velocidade do carro na estrada. Na fuga da própria vida.
      Sobre as frases curtas. Eu gosto muito do “menos é mais”.
      O mesmo se dá com as repetições. Como sou atriz, tento “ouvir” o texto e sua cadência.
      Mas, acima de tudo, gosto de saber as impressões do leitor. Essa é a melhor parte do Entre Contos. E estou MUITO feliz porque você leu.
      Beijos

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Informação

Publicado às 26 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .