EntreContos

Literatura que desafia.

Fim de Jogo (Maria Santino)

fim

O mal triunfa sempre… Que os bons não fazem nada.

(Edmund Burke)

 

Sobre o gramado, qual bala perdida, o Artilheiro seguia ao som das vaias da torcida; com a esperança atrapalhando as ações. Os olhos embaçados mal viram a chegada da hora de cumprir a ordem vergonhosa.

Aos quarenta e seis do segundo tempo, o escanteio em solo amigo foi cobrado. O corpo ergueu-se semelhante a uma naja. Matou a bola no peito e depois quedou-se de lado, num desmaio triste, ao mesmo tempo em que chutou bem no centro da rede do próprio time.

A grama amorteceu só o peso do corpo, não a certeza silente da perda (instintos de pai). O gol contra demorou para ser anunciado, pois tudo era perplexidade, como se o mundo prendesse a respiração para um mergulho.

No cativeiro, há horas, o dedo havia pesado no gatilho, e decretado fim de jogo.

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61 comentários em “Fim de Jogo (Maria Santino)

  1. Evelyn Postali
    21 de janeiro de 2017

    Comovente isso. Sério. Porque é uma pressão avassaladora. Ser artilheiro é quase que carregar o time nas costas, mas também ser tomado por Cristo. A leitura foi um misto de pena e raiva e decepção, não sei, porque o que acontece hoje com essa comercialização do esporte, especificamente do futebol, é algo para se tomar como perigoso. Toda a corrupção, toda a busca constante pela vitória, como se isso fosse tudo o que existe, como se o lado humano não participasse do jogo. Enfim… Excelente escrita. Conto para refletir sobre essa realidade grotesca, desumana.
    A propósito… O Kleber, nos comentários, lembrou da morte do artilheiro. Eu me lembro desse fato. Andrés Escobar. Colombiano. Morto porque desclassificou a Colômbia da copa fazendo um gol contra. Me lembro bem dessa notícia no jornal, das imagens. Década de 90 por aí.

  2. Kleber
    28 de janeiro de 2016

    Olá!

    Inevitável ler o seu conto e não pensar naquele jogador colombiano que fez um gol contra numa copa passada e foi assassinado depois. Mas, seus escritos me fizeram ter sentimentos de asco. Asco da realidade que ele retrata. Da corrupção que infesta cada setor da sociedade humana. E revolta pela impotencia que temos diante de tudo o que ocorre. Gostei, amigo. Muito bom. Textos que mexem comigo assim são meus favoritos.

    Sucesso no desafio.

  3. mkalves
    28 de janeiro de 2016

    Tem aquelas situações em a vida é bem mais inverossímil que a arte. E neste caso, o pressentimento que teria provocado o desmaio não convence muito, não no texto. Porém a ideia da narrativa é muito boa e me agradaria vê-la retrabalhada.

  4. Nijair
    28 de janeiro de 2016

    .:.
    Fim de jogo (Walter White)
    1. Temática: As cartas marcadas do futebol brasileiro – refletidas na vida, também.
    2. Desenvolvimento: Ele fez gol contra e morreu, foi assassinado? Não entendi as ligações entre as ideias nesse sentido. Precisaria de mais explicações do autor.
    3. Texto: Bem escrito, sem preciosismos.
    4. Desfecho: O final deixou dúvidas, carecendo de mais pistas para os leitores… Na hora do gol ninguém olha para quem morre… Nesse mundo em que vivemos, tenho minhas dúvidas.
    Muito bom!

  5. Nijair
    27 de janeiro de 2016

    Ele fez gol contra e morreu, foi assassinado? Na hora do gol ninguém olha para quem morre… Nesse mundo em que vivemos, tenho minhas dúvidas. Muito bom!

  6. Tamara Padilha
    27 de janeiro de 2016

    Oie… Reli quatro vezes o conto mas não consegui entender muito bem a comparação com futebol que quis fazer.
    É um bom conto, bem escrito, só não me atraiu pois não capitei a mensagem do autor.

  7. Daniel Reis
    26 de janeiro de 2016

    Mr. White (ou deveria chamá-lo de Heisenberg…), eis a questão:

    TEMÁTICA: alguém é forçado a fazer algo que não queria, contra a sua natureza, e tem de arcar com as consequências.

    TÉCNICA: narrativa envolvente, e fácil de se identificar com a vítima de chantagem que tem que entregar o jogo – mas isso não tem mais importância, o refém já havia sido executado.

    TRANSCENDÊNCIA: o sacrifício inútil causa pena, em qualquer pessoa. Consegui me colocar no lugar dele, mas lamentei que as coisas tenham seguido por esse caminho. Nem parece ficção…

  8. Swylmar Ferreira
    26 de janeiro de 2016

    Muito bem sr.Walter White.
    Bom conto.
    Enredo rápido mostrando o sentimento do personagem e apresentando uma conclusão clara.
    Parabéns.

  9. Lee Rodrigues
    25 de janeiro de 2016

    Tive uma viajem bem louca aqui, ou melhor duas rs

    Caríssimo autor, gostei muito da forma penitencial que esculpiu o conto. A melancolia estampada não apenas no momento de impacto, mas também na aflição que antecede o estopim, diria até que poética.

    Algumas frases desenharam imagens na minha mente; “O corpo ergueu-se semelhante a uma naja. Matou a bola no peito e depois quedou-se de lado.” “A grama amorteceu só o peso do corpo…”

    Do céu ao inferno em fração de segundos. O que me permitiu outros vislumbres além do campo, onde o homem é cativo das suas próprias perspectivas.

  10. Piscies
    24 de janeiro de 2016

    Um conto fortíssimo e muito bem executado. O escritor é frio mas escreve de maneira límpida. A história é profunda e nos faz pensar muito sobre o assunto.

    Senti um pouco de dificuldade para captar a essência do conto. Tentando entendê-la, viajei tanto que tive que recorrer aos comentários para certificar que estava viajando para o destino certo. Admito que tinha pego a passagem errada, rs.

    De qualquer forma, parabéns pelo conto MUITO bem executado e pela trama profunda e envolvente.

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Informação

Publicado às 14 de janeiro de 2016 por em Micro Contos e marcado .